Oportunista, aproveito o fato de o blog estar voltando com tudo para fazer troça com o tempo em que este espaço, fundamental na blogosfera brasileira para aqueles que se interessam por algum causo curioso sobre o piloto búlgaro e manco que venceu uma corrida na neve na Fórmula 3 islandesa em 1993, ficou parado.

Nem me lembro qual foi o último Top Cinq que eu escrevi. Certamente, antes do início das minhas aulas na faculdade, em março. Nesse ínterim, tive umas três ou quatro inspirações divinas sobre pautas boas para essa seção. Enquanto dirigia, tomava banho ou coçava o saco, sempre vinham à mente cinco histórias sobre qualquer assunto que poderiam aparecer por aqui. Infelizmente, faltava o tempo. A sexta-feira deixou de ser dia de cerveja e de Top Cinq para se tornar apenas mais um insuportável agrupamento de 24 horas destinadas a resolver meus próprios problemas.

Mas toda tempestade tem seu fim. Resolvidos os pepinos, pude voltar a fazer algo que gosto, escrever sobre inutilidades na esperança de que a CNN me contrate para ser um de seus âncoras. Volta o Top Cinq, portanto. E hoje falo sobre aqueles que, assim como eu, também fizeram retornos triunfais após um longo período.

Pilotos que competem numa categoria durante um tempo, saem e voltam após alguns anos não são exatamente uma raridade no esporte a motor. Só na Fórmula 1, podemos apontar os exemplos recentes de Michael Schumacher, Pedro de la Rosa e Narain Karthikeyan. Mais interessantes são os que ficam de fora durante muitos anos e, de repente, reaparecem como se nada tivesse acontecido. Uns retornam por pura vontade de brincar um pouco, outros simplesmente são enxotados e acabam demorando muito para conseguir voltar e há ainda os que dão as caras simplesmente para tentar bons resultados e, assim, finalizar a carreira com dignidade.

Abaixo, você lerá histórias de cinco pilotos que saíram e voltaram após muito tempo em cinco categorias diferentes:

5- MARCO APICELLA

marcoapicella

Foda é quando o bom piloto se vê obrigado a voltar a uma categoria de base após muitos anos por pura falta de melhores opções na carreira. O caso de Marco Apicella é certamente um dos mais desagradáveis, eu diria. Bota dos mais competentes, o italiano Apicella estreou na Fórmula 3000 Internacional em 1987 aos 21 anos de idade. Vice-campeão da Fórmula 3 italiana no ano anterior, o jovem piloto acreditava que tinha uma longa e profícua carreira pela frente no automobilismo e a Fórmula 3000 seria apenas o último e necessário passo rumo ao estrelato.

De fato, sua carreira foi bastante longa. Profícua? Discutível. Apicella estreou na “três mil” a bordo de um horrível Dallara 3087 preparado pela equipe Euroventurini. Ainda aprendendo as pistas e se adaptando ao carro de 450cv, Marco conseguiu apenas um quinto lugar em Spa-Francorchamps. Sem pressa, ele sabia que a categoria era difícil e que as coisas melhorariam bastante no ano seguinte.

O problema é que este pensamento se repetiu nos quatro anos seguintes. Em 1988, Apicella foi contratado pela First Racing e iniciou o ano como um dos favoritos ao título. Marcou apenas nove pontos e terminou em 11º. Em 1989, também pela First, ele conseguiu resultados bem melhores e finalizou o ano em quarto. Em 1990, ainda na First, vinte pontos e o quinto lugar no campeonato de pilotos. Em 1991, já de saco cheio da Fórmula 3000, Marco bandeou para a equipe Paul Stewart Racing para tentar o título pela última vez. Deu azar, pois o chassi Lola estava uma desgraça naquele ano e o italiano apenas repetiu o quinto lugar do ano anterior, com 18 pontos.

Na Fórmula 3000, Marco Apicella disputou 52 corridas, fez duas poles-positions e obteve nada menos que sete segundos lugares. Em cinco anos, não ganhou uma corridinha sequer. Esteve bem perto disso em algumas ocasiões, como no GP de Pau de 1990, quando estourou a suspensão de seu carro em um meio-fio enquanto liderava confortavelmente. Graças a esse estigma de piloto não-vencedor, Apicella não conseguiu na Fórmula 1 nada além de testes com carros da Minardi e da Lamborghini e uma única corrida com a Jordan em Monza no ano de 1993. Curiosamente, a longuíssima carreira na Fórmula 3000 contrastou com sua estupidamente curta carreira na Fórmula 1: em sua solitária participação, ele foi envolvido em um acidente ainda antes da primeira curva e abandonou no ato.

Depois de boas passagens pelo automobilismo japonês, Marco Apicella decidiu voltar à Europa em 1999. Aos 33 anos, o já veterano piloto italiano assinou com a Monaco Motorsport, equipe que Lamberto Leoni fundou algum tempo após ter vendido a First, para disputar a Fórmula 3000 italiana, uma priminha mais pobre do certame internacional. Foi um passo para trás, mas pelo menos deu para vencer a etapa de Misano.

A Monaco Motorsport disputava tanto a Fórmula 3000 italiana como a internacional. Na etapa de Spa-Francorchamps desta última, a equipe ficou sem o francês Cyrille Sauvage e precisava de um substituto. Sem muitas opções, restou a ela recorrer ao velho Apicella, que faria, assim, sua reestreia na categoria após quase oito anos. O problema é que o italiano teve de lidar com um carro o qual nunca tinha pilotado na vida, pista molhada e nada menos que 39 rivais na disputa por 26 vagas no grid de largada. De forma previsível, Marco não passou nem perto de se qualificar, ficando a 3s do pole Jason Watt. Foi assim, melancolicamente, que sua longa carreira na Fórmula 3000 internacional acabou.

4- JAN LAMMERS

janlammers

Quando Johannes “Jan” Lammers estreou na Fórmula 1, Ayrton Senna ainda era kartista, Nelson Piquet ganhava uma merreca na Brabham, Gilles Villeneuve era o cara, a Ligier era uma equipe de ponta, Jacky Ickx fazia suas últimas corridas na categoria e a Williams estava apenas curtindo seus primeiros bons momentos. Quando o mesmo Jan Lammers reestreou na Fórmula 1, Ayrton Senna já era tricampeão mundial, Nelson Piquet era um milionário que calçava 41 em um pé e 39 no outro, Gilles Villeneuve não estava mais entre nós, a Ligier lutava pela sobrevivência, Jacky Ickx já estava aposentado fazia um bom tempo e a Williams era o bicho-papão da categoria. Como as coisas mudam, né?

Campeão da Fórmula 3 europeia em 1978, Lammers ignorou a Fórmula 2 e aceitou o convite para correr na Shadow na Fórmula 1 no ano seguinte. Mas a equipe não era mais a mesma do passado e o cara ainda tinha o papel de escudeiro de Elio de Angelis, que também fazia sua estreia na categoria. O Shadow DN9 era um carro bonito e razoavelmente confiável, mas não andava porcaria alguma e Lammers não conseguiu marcar nenhum ponto. O próprio De Angelis, que se tornaria um vencedor de corridas, só obteve um quarto lugar na última corrida do ano. Sinal de que o fator humano não era o problema da escuderia de Don Nichols.

Enquanto De Angelis encontrava uma boa vaga na Lotus, Lammers teve de se virar na ATS em 1980. O holandês usou o péssimo D3 nas três primeiras corridas do ano e não conseguiu nada. Na etapa de Long Beach, a ATS estreou o D4 e Jan surpreendeu a todos obtendo o quarto lugar no grid. Infelizmente, o carro quebrou ainda na primeira volta e ele perdeu talvez a melhor oportunidade de sua carreira na Fórmula 1. Depois de mais duas etapas frustrantes, a equipe de Günter Schmidt decidiu mandar o holandês para o olho da rua. Lammers ainda deu sorte de encontrar uma vaga na Ensign como substituto de Clay Regazzoni. Mas o carro de Mo Nunn era ainda pior que os da Shadow e da ATS e Jan só acumulou mais aborrecimentos.

Lammers retornou à ATS em 1981, mas só deu as caras nas quatro primeiras rodadas. Com o D4 do ano anterior, ele não se classificou para duas corridas, abandonou uma e terminou apenas o GP da Argentina. Após ficar de fora do restante da temporada, ele conseguiu voltar à Fórmula 1 apenas na metade de 1982 substituindo Derek Daly na tétrica Theodore. Em seis etapas, cinco fracassos em treinos oficiais. Cansado de sofrer, Jan Lammers decidiu desistir desse troço de Fórmula 1 e foi atrás da felicidade em outros jardins.

E feliz ele foi. Ganhou várias corridas no Mundial de Protótipos e também se saiu bem em outras categorias, como a Copa Renault Turbo e a Fórmula 3000 japonesa. Quando parecia que a Fórmula 1 já havia virado história, eis que a falida March convida o holandês, naquela altura com 36 anos de idade, para disputar as duas últimas corridas da temporada de 1992. Fazia quase dez anos que Jan Lammers havia pilotado um carro de Fórmula 1 pela última vez. Mesmo assim, ele aceitou o desafio.

O retorno não foi de todo ruim. Em Suzuka, apesar de ter batido em Jean Alesi em um dos treinos, Lammers fez muito mais do que o esperado: foi sexto (!) colocado no segundo treino livre e conseguiu um razoável 23º lugar no grid, três posições à frente do companheiro Emanuele Naspetti. A corrida acabou na volta 27 devido a um problema na embreagem. As coisas melhoraram em Adelaide. Embora Lammers tenha ficado na última fila do grid de largada, o March CG911 não o deixou na mão e o veterano conseguiu finalizar a prova em 12º. Dá para dizer tranquilamente que o melhor de Jan Lammers na Fórmula 1 apareceu nessas duas provas derradeiras, quando a categoria já não tinha quase nada a ver com aquela que ele conheceu em 1979.

3- JOHN ANDRETTI

johnandretti

Na famosíssima família Andretti, os dois grandes astros são o mítico Mario e o visceral Michael. Há também nomes menos interessantes, como o do pirralho Marco e do obscuro Jeff. Todos esses citados pertencem à mesma linha familiar, com Mario sendo o pai de Michael e Jeff e o avô de Marco. Mas há outro Andretti que embora não seja convidado para todos os almoços de fim de semana na casa do nonno, nunca deixa de ser chamado para as ceias de Natal. Este é John Andretti, sobrinho de Mario Andretti e primo de Michael e Jeff Andretti.

Filho de Aldo Andretti, John começou a carreira silenciosamente nos midgets e nos monopostos de Fórmula Vee. Em 1984, ele fez sua estreia no IMSA Camel GT, campeonato conhecido atualmente como American Le Mans Series. Foi razoavelmente bem e até conseguiu uma vitória em 1986, mas nunca alcançou o mesmo nível do primo-celebridade Michael Andretti, que já era naquela altura um dos pilotos de ponta da Indy.

Em 1987, John Andretti fez sua estreia na mesma Indy disputando as cinco últimas etapas da temporada com um March da equipe Curb Racing. De forma surpreendente, conseguiu marcar pontos em todas e ainda terminou o ano em 17º, à frente de nomes como Johnny Rutherford e A. J. Foyt, que por acaso era seu padrinho. O bom desempenho, infelizmente, não foi repetido nos dois anos seguintes. Em 1988, apenas um pontinho foi marcado. Em 1989, cinco. Nesse ano, por sinal, ele deu um pulo no paddock do GP do Canadá de Fórmula 1 e conversou com várias equipes tentando conseguir ao menos um teste lá na Europa. Ninguém lhe deu bola, apesar do sobrenome bonito.

As coisas melhoraram a partir de 1990, quando John se transferiu para a equipe oficial da Porsche. Marcando bons pontos em cinco corridas, Andretti conseguiu terminar o ano em décimo. No ano seguinte, surpreendendo a todos, ele obteve sua primeira e única vitória na Indy. Em Surfers Paradise, John largou apenas na nona posição e fez uma corrida pra lá de conservadora, poupando combustível e freios ao máximo. Nas últimas voltas, Rick Mears foi abalroado por um retardatário, Bobby Rahal teve problemas com freios e a vitória caiu no colo de Andretti, que ficou mais envergonhado do que feliz por ter ganhado de forma tão oportunista. Mas vitória é vitória.

John Andretti fez mais uma temporada completa em 1992 e depois se bandeou para a NASCAR, só voltando em 1993 e 1994 para disputar as 500 Milhas de Indianápolis com a equipe do padrinho Foyt. Sem ter tido uma carreira brilhante nos monopostos e ganhando uma grana boa nos stock cars, nada indicava que ele poderia voltar a disputar alguma coisa na Indy, ainda mais após a cisão de 1996.

Mas veja só como são as coisas. Em 2007, nada menos que treze anos após sua última corrida de monopostos, John Andretti anunciou que disputaria as 500 Milhas de Indianápolis pela Panther. Após ter abandonado a Braun Racing na NASCAR, o veterano de 44 anos havia ficado sem carro e decidiu disputar a Indy 500 enquanto não encontrava nada melhor para fazer. Ainda se readaptando aos monopostos, Andretti obteve apenas o 24º lugar no grid e bateu sozinho na volta 95.

Nos quatro anos seguintes, John Andretti retornou à Indy para disputar a Indy 500 e, de vez em quando, corridinhas aqui e acolá. Com o fraquíssimo carro da Roth, competiu em cinco etapas em 2008 e não obteve nenhum resultado que prestasse. Entre 2009 e 2011, ele correu apenas em Indianápolis com um carro patrocinado por ninguém menos que o mito da NASCAR Richard Petty. Depois, sossegou. Estava mais do que na hora. Longevidade é uma tradição dos Andretti, mas só Mario e Michael justificam tantos anos de carreira.

2- MIGUEL DUHAMEL

miguelduhamel

Se houver uma meia dúzia de pessoas que conheça esse cara aqui no Brasil, é muito. Eu mesmo só tomei contato com seu nome há pouco tempo, enquanto xeretava registros de corridas antigas do Mundial de Motovelocidade. Ao observar a lista de motociclistas da temporada 2007 da MotoGP, dei de cara com o misterioso Miguel Duhamel, um dos participantes do GP dos EUA daquele ano.

Até aí, tudo bem. Moto é um negócio complicado, você sempre deve estar pronto para o pior. Quedas – e fraturas, hematomas, concussões, arranhões, rompimentos e torções – fazem parte de sua vida e não há nada que você possa fazer a não ser tomar o máximo de cuidado possível. Mas é claro que isso nem sempre dá certo. Vira e mexe, algum motociclista se quebra todo e acaba tendo de ficar de fora de várias corridas. Mas há uma vantagem nisso. O alto número de feridos acaba abrindo vaga para bastante gente de fora.

No GP da Holanda de 2007, o espanhol Toni Elías sofreu uma queda das grandes e quebrou o fêmur esquerdo. Sua equipe, a Gresini Honda, teve de caçar um substituto para as duas etapas seguintes, em Sachsenring e em Laguna Seca. Na Alemanha, quem assumiu a Honda RC212V foi o italiano Michel Fabrizio. Nos Estados Unidos, o chefe Fausto Gresini quis inovar. Visando colocar em sua moto um piloto experiente que conhecesse bem o circuito de Laguna Seca, ele convidou ninguém menos que o canadense Duhamel, 39 anos.

A contratação de Duhamel surpreendeu o paddock da MotoGP, mas foi aplaudida por muita gente do cenário motociclístico norte-americano. Filho do também motociclista Yvon Duhamel, Miguel iniciou sua carreira nos anos 80 e notabilizou-se por ser o único canadense a se sagrar campeão do AMA Superbike, o principal campeonato de superbikes nos Estados Unidos, além de ter vencido quatro edições da Daytona 200, uma das provas mais importantes do motociclismo americano.

Diante disso, sua passagem pelo Mundial de Motovelocidade acabou nem sendo tão importante assim. Em 1992, Duhamel disputou uma temporada completa nas 500cc pela Team Yamaha France. Em treze corridas, terminou nove delas entre os dez primeiros – longe de ser espetacular, um saldo final positivo para alguém que não conhecia a maioria das pistas. Mas seu negócio era arrepiar nas pistas da América do Norte.

Quase quinze anos separaram sua última corrida de 1992 e o GP dos EUA de 2007. À beira dos quarenta anos de idade, Duhamel não tinha chance alguma contra a molecada atrevida da MotoGP. Mesmo assim, ele estava muito animado. E não fez tão feio, conseguindo um tempo apenas 1,6s superior ao do pole Casey Stoner no treino oficial. Seu único incidente foi uma pequena queda no warm-up. Apesar de ter escapado ileso do acidente, Duhamel percebeu que realmente não tinha condições físicas e mentais para competir num nível tão alto. Na corrida, largou e permaneceu na pista por apenas dez voltas, encostando voluntariamente a moto nos boxes para evitar, como ele mesmo disse, “causar problemas para minha moto, para os outros competidores e para a corrida”. A MotoGP pode até ser a mais sofisticada, mas seu coração estava com as rústicas motos das competições norte-americanas.

1- NELSON PIQUET

nelsonpiquet

Tem menores de idade lendo, né?

Que ninguém se assuste com Nelson Piquet nessa lista. Houve uma categoria em que o tricampeão mundial de Fórmula 1 voltou a disputar uma corrida dezenove anos após sua última participação. OK, em termos literais, não é exatamente a mesma categoria, mas o nome é quase o mesmo, o tipo de carro é quase o mesmo e os desafios idem. Estou falando da boa e velha Fórmula 3.

Antes de ser o que foi na Fórmula 1, Piquet ralou muito na Fórmula 3. Após ganhar a Fórmula Super-Vee no Brasil em 1976, o carioca migrou para a Europa para disputar o campeonato continental de Fórmula 3 em 1977. Patrocinado pela Arno e pela Brastemp, Piquet iniciou o ano com um precário March, mas só conseguiu seus primeiros bons resultados quando passou a usa um Ralt. Teve dificuldades típicas de um estreante, chegou a sofrer uma perigosa capotagem em Zandvoort, mas conseguiu vencer as etapas de Kassel-Calden e Jarama. Terminou o ano em terceiro, atrás do campeão Piercarlo Ghinzani (!) e do sueco Anders Olofsson. Já naquele ano, ganhou fama de exímio acertador, efetuando importantes alterações na suspensão e nas rodas de seu March ainda antes da temporada. Por causa disso, a própria manufatureira o convidou para ser um dos pilotos de testes do March 773 quando as coisas não iam bem.

Em 1978, Piquet e sua equipe pularam para a Fórmula 3 britânica. Mais experiente e mais esperto, o carioca disputou dois dos campeonatos da categoria, o BARC BP e o BRDC Vanderwell. No primeiro, venceu as corridas de Donington, Mallory Park, Thruxton, Brands Hatch, Cadwell Park, Paul Ricard, Silverstone e Snetterton e ganhou o título com quase trinta pontos de vantagem sobre Derek Warwick. No BRDC Vanderwell, Piquet ganhou quatro corridas em Silverstone e uma em Outlon Park, mas ainda perdeu o título para Warwick. De qualquer jeito, um estrondo. Pena que a mídia paulista preferiu dar suas atenções ao inferior (e mais abastado) Chico Serra…

A Fórmula 3 foi uma baita vitrine para o futuro tricampeão. Nas baratinhas, Piquet conseguiu mostrar arrojo, inteligência, oportunismo, frieza e uma enorme capacidade de improviso. Não por acaso, ainda antes de se sagrar campeão do certame britânico, várias equipes de Fórmula 1 já disputavam a tapa seu passe. Em 1978, Nelson disputou corridas por duas escuderias diferentes, a BS Fabrications e a Ensign. Daí em diante, é a história que todo mundo conhece.

Pulemos duas décadas. Em 1997, já quarentão, milionário, sossegado e com o pé fodido, Nelson Piquet só disputava corridas apenas para relaxar. Depois do acidente sofrido em Indianápolis cinco anos antes, o carioca afirmou que “não entraria em carro de corrida nem para fotografia”. Mas piloto não tem dessas coisas. Tão logo suas fraturas foram curadas, Nelsão voltou com tudo para o atuomobilismo. Disputou corridas de protótipos, ganhou algumas e parecia bastante satisfeito. Mas ele quis um outro desafio. Que tal fazer uma prova de Fórmula 3?

E lá foi ele. Dezenove anos depois, Nelson Piquet entrou em um carro da categoria novamente para disputar a etapa de Brasília do campeonato sul-americano. Aos 44 anos, ele disputaria freadas com gente quase trinta anos mais jovem, como Leonardo Nienkötter e Juliano Moro. Toda a mídia esportiva se voltou à Fórmula 3 sul-americana para ver como é que o tricampeão se portaria diante da molecada.

E ele não fez feio. Em um grid razoavelmente numeroso, Piquet obteve a quinta posição no grid de largada. Pouco antes do início da prova, Nelsão foi presenteado com uma sessão de striptease dessa moça aí em cima. Antes que você vá com sede ao pote, até onde consegui apurar, é bem possível que a Eva aí em cima seja um Adão. Mas se você não se importa, vá em frente.

Na corrida, provavelmente ainda distraído pela externalidade erótica, Piquet largou mal e caiu para nono. Combativo, fez uma boa prova de recuperação e terminou em quarto. O vencedor Marcello Ventre nem de longe recebeu as mesmas atenções do tricampeão do mundo. Que mostrou que Fórmula 3, independente da época, é especialidade sua.

Como tudo começou? Há alguns dias, não muitos, o tricampeão brasileiro Nelson Piquet Souto Maior virou sua sexta década. Pois é, o tempo passa como um raio sob nossos narizes. Não que eu o tenha visto correr durante tanto tempo – talvez só existam alguns flashes de sua última temporada na Fórmula 1 em minha consciência e olhe lá. Mas o tempo não deixa de passar para as outras pessoas. Para muitos, parece que foi ontem que aquele carioca de nascimento e candango de coração, um tanto reservado e bastante arredio, fez seu début na Fórmula 1.

Alguns campeões do mundo tiveram estreias portentosas e festejadas, como Jacques Villeneuve, Lewis Hamilton e até mesmo Emerson Fittipaldi. Outros podem não ter chamado a atenção logo de cara, mas puderam fazer suas corridas iniciais em condições razoáveis: Alain Prost, Ayrton Senna e Michael Schumacher seriam os melhores exemplos. Piquet, não. Esse daí, garageiro desde adolescente, só poderia ter estreado lá na porta dos fundos, onde a graxa empapa os macacões dos humildes e esfomeados mecânicos das equipes pequenas.

No começo de agosto de 1978, a cabeça de Nelson Piquet estava apenas na Fórmula 3 britânica, onde competia com um Ralt todo amarelado. Lutava contra adversários já adaptados ao estilo de vida europeu, circuitos desconhecidos e a mídia paulista, que insistia em dar todas as atenções do mundo ao conterrâneo Chico Serra. Talentoso e criativo, Nelson não teve grandes dificuldades para enfrentar todos estes empecilhos, ganhar treze corridas e se sagrar campeão dos dois campeonatos ingleses de Fórmula 3, o BP e o Vanderwell.

Naqueles dias, um piloto não necessariamente precisava fazer a Fórmula 2 se quisesse chegar à Fórmula 1. Bastava tocar o terror na Fórmula 3 para que as grandes equipes do certame maior iniciassem o assédio. No caso de Piquet, ainda antes dele ser campeão, foi-lhe enviado um convite para pilotar um McLaren a partir do GP da Áustria.

Oba! Mas não pense você que a McLaren em questão é a oficial, comandada por Teddy Meyer naqueles dias e por Martin Whitmarsh atualmente. Naqueles tempos já empoeirados, uma pequena equipe tinha o direito de arrendar um chassi antigo de uma grande escuderia a um precinho camarada. No caso do convite de Piquet, ele pilotaria um M23 de 1974 preparado pela equipe BS Fabrications, pertencente a Bob Sparshott, ex-mecânico da Lotus.

O primeiro contato entre Piquet e a BS Fabrications ocorreu no começo de julho, logo após a corrida de Fórmula 3 de Brands Hatch. O brasileiro foi chamado para um inofensivo teste com o M23 branco e vermelho no circuito de Silverstone no dia 20 de julho. Nelsão entrou no carro, deu 35 voltas e conseguiu 1m19s95 na melhor delas, o que lhe daria o 19º lugar no grid do GP da Inglaterra do ano anterior.

“Andar pela primeira vez num carro com essa potência é uma emoção enorme. Acho que me dei bem, principalmente porque consegui transmitir informações que melhoraram o desempenho do carro à medida em que me adaptava a ele”, afirmou um empolgado Piquet a jornalistas brasileiros. Mas quem realmente ficou impressionado foi o diretor técnico da BS Fabrications, Dave Simms. “Piquet é mesmo muito veloz e tem grande sensibilidade com o bólido”.

Sparshott também adorou o que viu e não tardou em fazer a oferta a Piquet para que ele disputasse as últimas provas da temporada de 1978 a partir do GP da Áustria.  O brasileiro teria de pagar cerca de 10 mil dólares por corrida – quantia que, nos dias atuais, não chega a custear uma prova de Fórmula Renault.

Piquet demorou um pouco para responder o convite, pois estava mais preocupado com a disputa de título da Fórmula 3. Somente no dia seguinte ao da conquista, obtida em Donington Park no dia 23 de julho, que Nelson deu a resposta final: aceito. Estava tudo às mil maravilhas para o filho do ministro Estácio: ele havia acabado de vencer o campeonato mais difícil de Fórmula 3 da Europa, estava recebendo bons convites das categorias maiores e faria sua estreia na Fórmula 1 logo, logo.

Mas não demorou mais do que alguns poucos dias para que Nelson Piquet recebesse um convite-relâmpago para disputar o GP da Alemanha, etapa imediatamente anterior à austríaca. Dessa vez, quem o queria na pista era o engenheiro Morris Nunn, dono da modesta Ensign. Como Piquet não estava sob contrato para a corrida de Hockenheim, não custava nada para o brasileiro aparecer lá na Schwarzwald para disputar uma corrida meio que na base da cortesia. Nelson aceitou.

Tão logo foi confirmada a estreia de Piquet já em Hockenheim pela Ensign, o compatriota Emerson Fittipaldi foi tomado pelo sentimento de apreensão. Emerson deu um jeito de correr atrás de Piquet para tentar impedi-lo de disputar o GP da Alemanha por uma equipe tão ruim. “Para uma primeira experiência, eu ficaria muito mais com o McLaren do Brett Lunger, que o Nelson já testou, do que com o Ensign, que é um carro muito irregular”, palpitou o bicampeão. Diz a lenda que Fittipaldi tinha grandes interesses em Piquet, inclusive pensando em colocá-lo para correr na Copersucar. Mas o jovem piloto ignorou os conselhos e foi para a pista.

Hockenheim, 28 de julho de 1978. Pela primeira vez na carreira, Nelson Piquet faria parte de um grande prêmio de Fórmula 1. Seria o primeiro dos 207 fins de semana que ele passaria no paddock, acelerando seus brinquedinhos e se aborrecendo com jornalistas estúpidos. Ao contrário do que costumava acontecer nas corridas em Hockenheim, fazia um calor desgraçado.

Havia trinta inscritos e apenas 24 vagas no grid. Não existiam muitos carros piores do que o Ensign N177 naquele grid. Portanto, Piquet teria de trabalhar como um escravo para conseguir garantir a participação na corrida. Na sexta-feira, logo de cara, ele enfrentou todos os problemas possíveis de um piloto de uma equipe nanica.

O N177 preto tinha inúmeras deficiências de velocidade e confiabilidade. A pior delas residia no câmbio, que escapava o tempo todo. Apenas a segunda e a terceira marcha se comportavam direito. Para tentar manter o carro numa velocidade aceitável, Piquet tinha de passar boa parte do tempo segurando a alavanca com a mão direita. Graças a isso, ele terminou o primeiro treino classificatório com a mão toda estraçalhada. E o esforço nem serviu para muita coisa: com 1m58s14, Nelson Piquet ficou apenas em 26º. Como largariam apenas 24, ele estava momentaneamente fora de seu primeiro GP.

Havia ainda a segunda sessão classificatória, realizada no sábado. A Ensign poderia trocar o câmbio e Piquet finalmente teria um carro que, ao menos, ficava com as marchas no lugar. Mas o próprio piloto não estava tão otimista. “A única coisa interessante é que terei uma hora e meia sem cronometragem para andar à vontade e me habituar ao carro”, afirmou ainda na sexta-feira. Ele só havia dado doze voltas no acumulado das duas sessões daquele dia. A qualificação soava improvável naquela altura.

Sábado, 29 de julho. Havia duas sessões de treinos, apenas uma delas oficial. Na primeira, que não valia para o grid de largada, Piquet passou um bom tempo vendo seus mecânicos trocando o câmbio de seu carro. Mas o esforço valeu a pena. Na segunda sessão, Nelson baixou seu melhor tempo em excelentes dois segundos e acabou conseguindo a 21ª posição no grid, garantindo sua participação na corrida do dia seguinte.

Efusivo, Piquet não deixou de lado seu estilo afiado: “O meu carro não é nada bom e é claro que não espero um bom resultado, mas estou contente de poder fazer a estreia. Quero andar bem e aproveitar muito dessa primeira corrida para iniciar uma carreira na Fórmula 1. Só estando dentro da coisa para saber o que é. Eu pensei que fosse bem mais fácil, mas já vi que levará muito tempo para chegar a um nível considerável”. O chefe Morris Nunn foi bem menos cauteloso. “Ele é uma grande promessa”, afirmou Nunn.

Piquet sabia que seu carro não servia nem para tirar fotografia. Para ele, o negócio era andar o máximo possível na corrida e compreender a diferença de 320cv que separava seu Ralt-Toyota de Fórmula 3 para o Ensign-Ford de Fórmula 1.

A largada foi uma bagunça, como sempre costumava ser naqueles dias. O estúpido diretor de prova acionou as luzes verdes quando os últimos carros do grid, incluindo aí o do próprio Piquet, ainda nem haviam se posicionado na grelha. Podemos dizer, sem medo de errar, que a primeira largada do brasileiro foi lançada. Mas ele se livrou bem das confusões e do carro estacionário de Patrick Depailler e fechou a primeira volta em 19º.

Quase que Piquet saiu da prova logo na segunda passagem. Imediatamente atrás dele, os alemães Hans Joachim Stuck e Jochen Mass decidiram fazer um dueto em pleno Hockenheim e acabaram se envolvendo num acidente besta. Ao mesmo tempo, Nelson conseguiu ultrapassar o Theodore de Keke Rosberg, outro que estava no início da carreira, e também foi ultrapassado sem dificuldades pelo Wolf de Jody Scheckter, que havia caído da quarta para a última posição na primeira volta e iniciou uma belíssima prova de recuperação. Com isso, a 19ª posição foi mantida na segunda volta.

O negócio de Piquet era tentar chegar ao fim e se aproveitar dos abandonos dos outros, no melhor estilo Emerson Fittipaldi. Naqueles dias, esta era a melhor tática. Pilotos como Niki Lauda e Carlos Reutemann ficaram pelo caminho e Nelson lucrou algumas posições com seus infortúnios. Na volta 31, ele já era o 12º colocado. Sonhar com um Top 10 não era proibido.

Só que o carro, o maldito carro preto, não colaborou. Justamente na volta 32, o motor Cosworth explodiu e Piquet teve de abandonar a corrida. Quem só enxerga as atuações pelos resultados crus tenderá a dizer que o primeiro GP de Nelson Piquet foi um verdadeiro fracasso, mas é óbvio que as coisas não foram bem assim. Chefes de equipe o elogiaram abertamente e alguns deles foram atrás daquele brasileiro de semblante eternamente desconfiado para conversar sobre o futuro.

Depois desta corrida de Hockenheim, nula em termos de resultados e importantíssima em termos de atenções, Piquet fez as três corridas combinada com a BS Fabrications e também não teve resultados muito mais esplendorosos. Por trás das cortinas, no entanto, sua vida ia a mil. A própria BS Fabrications, a Surtees e a ATS acenaram com contratos de primeiro piloto para 1979. A intenção de Nelson era criar sua própria escuderia de Fórmula 2 e tentar conciliar esta categoria com um emprego numa equipe pequena de Fórmula 1 em 1979.

Mas todos os planos minguaram quando Bernie Ecclestone o procurou. Quer correr para mim na Brabham? Você vai ganhar 50 mil dólares e mais 30% das premiações, uma merreca. Mas vai correr de Brabham e não dessas geringonças de fim de pelotão. Não havia como recusar. Começa aí a história do Nelson Piquet tricampeão brasileiro. Mas aí são outros quinhentos cliques.

Com o atraso de um carro da Ensign, feliz aniversário, Piquet!

Na falta de assuntos, aleatoriedade. O primeiro post do ano não terá Sebastian Vettel, Dario Franchitti, Ayrton Senna ou Dedé Santana como protagonista. Com exceção do discreto trapalhão, os demais podem contar com holofotes o suficiente na blogosfera automobilística. Falo, hoje, de um piloto que tinha absolutamente tudo para dar certo na Fórmula 1.  Um cara que parecia ser o melhor piloto australiano desde Alan Jones.  Um cara que poderia ter superado Mark Webber e Will Power no coração dos aussies. Um cara que acabou perdendo esta chance por causa de um acidente. Um cara que, mesmo assim, é bastante feliz e bem-sucedido.

James Courtney, já ouviu falar? Quem acompanha aquelas movimentadas e coloridas corridas da V8 Supercar australiana sabe que se trata de um dos astros esportivos do país. Em 2010, Courtney sagrou-se campeão da categoria após ter vencido cinco corridas e obtido 65 pontos a mais que o vice Jamie Whincup. Ademais, ganhou também a etapa extracampeonato de Melbourne, aquela que antecede a largada da bonitona Fórmula 1.

Fórmula 1? Courtney não tem boas lembranças de sua curta passagem pela categoria das baratinhas. Na verdade, ele simplesmente não tem lembrança alguma de um daqueles dias em especial.

Foi lá em Monza, pista mais importante da Itália após Enna-Pergusa. 11 de agosto de 2002.

Uma das equipes mais patéticas da Fórmula 1 naquele início de década era a Jaguar Racing. Da marca Jaguar, nada a reclamar. Um dos meus sonhos de infância era o S-Type, que muitos inglórios criticavam por utilizar a base do Lincoln LS. O problema era a equipe de Fórmula 1, mesmo. Ela conseguiu a proeza de reunir uma insígnia consagradíssima, um patrocinador tão poderoso quanto legal (HSBC), um piloto que compensava suas limitações com um currículo muito bom e alto poder de marketing (Eddie Irvine), a base de uma equipe emergente (Stewart Grand Prix), um chefe de equipe com moral na categoria (Niki Lauda) e um staff técnico razoável em um pacote que acabou se saindo miserável. Naquele ano, 2002, a Jaguar Racing criou o R3, um dos piores carros já criados por uma equipe rica, e foi punida com apenas oito pontos no mundial.

Mas a equipe Jaguar tinha lá seu lado bacana. Ela tinha um interessante programa de desenvolvimento de pilotos que fornecia treinamento, grana e papinha na boca de jovens talentos oriundos da Fórmula 3 britânica. Em alguns anos, a Jaguar manteve até mesmo sua própria equipe na Fórmula 3, a Jaguar Junior, constituída com base na antiga Paul Stewart Racing, a estrutura mais poderosa da categoria durante muito tempo. Da Jaguar Junior saíram nomes como Luciano Burti, Tomas Scheckter, André Lotterer e o tal do James Courtney.

Nascido em 1980, Courtney largou a Austrália aos 15 anos como uma das grandes revelações do kartismo de seu país para competir contra os leões europeus na modalidade. Ganhou o mundial de 1997 e subiu para a Fórmula Ford britânica dois anos depois. Em 2000, venceu não só a série britânica como também a europeia. Naquele momento, os espertos arquiduques da Fórmula 1 já estavam de olho no garoto.

Em 2001, James Courtney foi integrado ao programa de desenvolvimento de pilotos da Jaguar e ganhou o direito de correr pela sua equipe na Fórmula 3 britânica. Chegou chutando portas e venceu logo sua primeira corrida na categoria, em Silverstone. Não ganhou mais naquele ano, mas terminou em quarto e bateu seu companheiro de equipe, André Lotterer, com folga. Em julho, foi chamado para testar o Jaguar R2 em Monza. Deu cinquenta voltas e fez um tempo três segundos mais lento do que a melhor marca dos titulares Eddie Irvine e Pedro de la Rosa. Para alguém que nunca tinha sequer sentido o cheiro do assento de um Fórmula 1, marca razoável.

Courtney permaneceu na Fórmula 3 britânica em 2002. A Jaguar fechou as portas de sua equipe júnior, mas manteve o programa de desenvolvimento de pilotos e emplacou o australiano na Carlin, equipe que havia sido campeã e vice da categoria em 2001 com os distintos Takuma Sato e Anthony Davidson. James era o favorito disparado: quarto colocado na temporada anterior e pilotando o primeiro carro da melhor equipe da temporada. Só daria errado se, sei lá, ele batesse a quase 300km/h em Monza e se ferrasse todo.

Como é?

A poeira baixou. O R3 estava completamente destruído. Completamente destruído? Ele estava simplesmente despedaçado em milhares de pedaços que haviam voado a centenas de metros. Monza, 11 de agosto de 2002.

James Courtney foi chamado para testar o carro da Jaguar ao lado do ex-rival André Lotterer e dos titulares De La Rosa e Irvine entre os dias 9 e 12 de julho de 2002. A equipe estava querendo consertar toda a cagada que os engenheiros do início da temporada – que foram merecidamente demitidos – haviam feito. O trabalho estava sendo bem feito e o carro realmente melhorou nas pistas mais velozes. Irvine, De La Rosa e Lotterer andaram nos dois primeiros dias.

No terceiro, Courtney ganhou sua primeira chance naquela semana. O australiano deu doze voltas em uma versão antiga do R3 (a equipe estava comparando carros de versões diferentes naquela semana) e marcou 1m29s037 como o melhor tempo. Não foi uma boa marca: no dia anterior, Lotterer havia sido dois segundos mais rápido tendo feito onze voltas a mais. Mas ainda havia tempo e James tinha totais condições de fazer marca melhor. Ele tinha condições, mas o mesmo não valia para sua máquina esverdeada.

Perto de completar a 13ª volta, James se aproximou da Parabolica, aquela curva de alta que sacaneia muita gente e até degola alguns austríacos. De repente, a suspensão traseira do seu carro se arrebentou. Imediatamente antes do ponto de freada. O carro ficou com as rodas dianteiras no ar. Descontrolado. A nada menos que 330km/h. Lindo.

Courtney seguiu reto e bateu a apenas 306km/h. A título de comparação, Ayrton Senna morreu a 220km/h. No mesmo fim de semana, Roland Ratzenberger estourou pescoço, cabeça e tudo o mais a 314km/h. Havia apenas um pequeno detalhe: ao contrário dos dois falecidos, o australiano se chocou contra uma ampla barreira de pneus de várias camadas. Mesmo assim, o impacto de 64g foi colossal a ponto do bólido se arrastar a 70km/h por oitenta metros!

Surreal. O terrível estado do cockpit e as peças espalhadas pelo trecho pareciam sugerir um acidente aéreo, e não automobilístico. Bandeira vermelha, é lógico. O primeiro carro que se aproximou do debacle foi justamente a Ferrari do então pentacampeão Michael Schumacher. Alguns de vocês acham que apenas Ayrton Senna é capaz de salvar pilotos estropiados a esmo, não é? Pois Schumacher parou seu carro e correu para ver o que havia acontecido com o desafortunado piloto australiano, que estava inerte e com a cabeça tombada em um amontoado disforme de fibra de carbono pintada de verde.

Os primeiros fiscais chegaram rapidamente. Gritando naquele italiano mais efusivo, como se o penne tivesse passado do ponto. Eles tiraram o capacete e vislumbraram talvez a imagem mais desagradável de um piloto de Fórmula 1 ferido desde o próprio Ayrton Senna. James Courtney estava desmaiado e com sangue escapando pelo nariz, pela boca, pela orelha e pelos olhos. Pelos olhos? Sim, porque o acidente e a força gravitacional envolvida haviam sido tão brutais que os globos oculares do australiano quase escaparam da cabeça. Imagine você se aproximar de um piloto e ver que seus olhos estão desgrudados do resto. Por muito pouco, não foi isso o que aconteceu.

James acordou após alguns segundos. Os fiscais carcamanos continuavam berrando seus come sta? e mantieni la calma! estando ainda mais nervosos do que o habitual, sem se dar conta da ligeira incapacidade de Courtney falar italiano, especialmente após um acidente a 300km/h. Schumacher, que estava completamente desesperado, manteve a racionalidade alemã e iniciou um diálogo em inglês com James, advertindo aos fiscais que não adiantava insistir nas bravatas italianas. Pelo menos, ele estava vivo.

Mas o desespero abateu Courtney de verdade quando ele tentou se movimentar e percebeu que todo o seu lado direito estava paralisado. Os amalucados fiscais italianos e Schumacher tiveram de tranquilizar o cara, que só tinha 22 anos e estava liderando com folga o campeonato britânico de Fórmula 3. Para alívio geral, a paralisia acabou espontaneamente pouco depois. James foi retirado do carro e colocado em um helicóptero que o transportou a um hospital nas cercanias.

O treino ficou paralisado por quarenta minutos e, instantes após o impacto, a pista chegou a ter suas atividades prematuramente encerradas naquele dia, decisão revista tão logo o real estado de saúde de Courtney foi revelado. Ele milagrosamente não sofreu nenhum ferimento sério. No hospital, foi diagnosticada uma forte concussão cerebral.  Ele teria de descansar durante alguns dias, mas poderia voltar a correr ainda naquele ano.

Mas o acidente lhe trouxe consequências esportivas bem mais severas do que os hematomas e sangramentos. O idiota do Niki Lauda, diretor da Jaguar na época, concluiu que a culpa do acidente era única e exclusivamente de James Courtney e o mandou embora do programa de desenvolvimento da equipe sem aviso prévio nem décimo terceiro.  Na Fórmula 3 britânica, ele chegou a perder a rodada dupla de Rockingham e só voltou a correr no fim de agosto. Ainda baqueado, obteve apenas uma vitória em Outlon Park nas nove corridas restantes e perdeu o título para o inglês Robbie Kerr. Um fim de ano de merda, a verdade.

Fora da panelinha da Fórmula 1, Courtney teve de refazer sua carreira por linhas tortas. Ganhou a chance de correr na Fórmula 3 japonesa sem a necessidade de patrocinador e, logo de cara, foi campeão em 2003. No ano seguinte, tentou correr na Fórmula Nippon, mas dançou e só conseguiu um emprego na Super GT, onde não obteve grandes resultados, embora tenha feito uma boa grana. Este curto período de ostracismo oriental foi o suficiente para ele deixar de ser um nome lembrado pela impiedosa e esquecidinha Fórmula 1.

Em 2005, James decidiu correr na V8 Australiana. Humildemente, ele foi se adaptando aos carros de turismo, aprendeu as pistas que não conhecia e seguiu aprimorando gradativamente seus resultados. Virou um cara respeitável na sua própria terra e chegou a participar do Dancing with the Starts australiano em 2007. Três anos depois, ganhou o título mais importante no automobilismo do país. E é um dançarino que paga seus impostos.

O que James Courtney pensa de sua vida sem a Fórmula 1? “Eu estou muito mais satisfeito com a minha vida agora. Vai lá saber o que teria sido da minha vida se eu tivesse seguido em frente com a Fórmula 1. O fato é que, hoje, eu moro no melhor país do mundo e tenho todo o amor ao meu redor. Não poderia querer mais”, afirmou James, referindo-se à sua mulher Carys e às filhas Zara e Cadel.

E é isso mesmo, Courtney. Às vezes, uma suspensão traseira quebrada a 330km/h pode fazer sua vida mudar para melhor. Moral da história: neste ano de 2012, que a suspensão traseira de seu carro quebre em uma curva de alta velocidade. Você poderá ficar rico, encontrar o amor de sua vida ou resolver todos os seus problemas de coluna. Só não recomendo a quebra a 330km/h, pois os olhos são muito importantes para todos nós.

Felipe Nasr, o mais novo campeão da Fórmula 3 britânica. O que será de sua vida no ano que vem?

Um dos grandes pecados deste sítio foi não ter dedicado uma única linha a Felipe Nasr, o mais novo campeão da badalada Fórmula 3 britânica, neste ano. No ano passado, contei um pouco de sua carreira aqui. De lá para cá, Felipe assinou com a campeoníssima Carlin para disputar uma segunda temporada na Fórmula 3, ganhou sete corridas e garantiu o título com duas rodadas triplas de antecipação. Sambou em cima do promissor Kevin Magnussen e de gente com alguma experiência, como William Buller, Carlos Huertas, Jazeman Jaafar e Rupert Svendsen-Cook. Um título incontestável, é claro.

Mas o que isso significa?

Neste exato momento, apenas que ele deve comemorar muito seu segundo título importante no automobilismo internacional (o primeiro foi o da Fórmula BMW Européia em 2009) com seus amigos, algumas mulheres e bastante bebida. Ainda restam mais seis etapas, três em Donington Park e três em Silverstone. Ganhar mais umas duas ou três para fechar o ano com chave de ouro seria muito legal para ele.

A pergunta caberá melhor após o dia 9 de outubro, data das duas últimas corridas da rodada de Silverstone. Assim que a temporada 2011 da Fórmula 3 britânica estiver encerrada, Felipe deverá ligar para todos os departamentos de marketing e publicidade das grandes empresas brasileiras, trocar afagos e carícias com os chefões das categorias maiores, arranjar uma namorada de família muito rica (que nem fizeram Dani Clos e Giedo van der Garde), aparecer no maior número possível de programas da Globo e exercitar ao máximo seus contatos e sua imagem. Em suma, será hora de pensar no futuro.

Nasr é o que temos de mais interessante no automobilismo de base europeu hoje em dia. Não me refiro apenas a resultados, mas também à sua boa fama. Luiz Razia, único representante brasileiro na GP2, não faz uma boa temporada e está sendo altamente bombardeado por isso. Os demais jovens ianomâmis da Fórmula 3 são bons, mas não têm dinheiro. Ou cacife. Nos demais campeonatos, inexistimos. Na GP3, por exemplo, o cara que substituiu Pedro Nunes na ART Grand Prix ganhou logo em seu primeiro fim de semana, em Spa-Francorchamps. O filho do cabeleireiro não tinha feito ponto algum até ali. Portanto, se o país quer ter para quem torcer nas corridas nos próximos anos, as fichas deverão ser majoritariamente colocadas no filho de Samir Nasr.

O carro de 2012 da World Series by Renault, a categoria-escola preferida de todo mundo neste momento. Será que é um bom negócio para o Nasr?

Só que há vários caminhos a serem tomados e é impossível saber qual deles dará em algo. Ao vencer a Fórmula 3 britânica, Felipe Nasr abre portas em várias categorias razoavelmente fortes. O Felipe Giacomelli, primo do Bruno e único paulista que mora em Brasília por vontade própria, escreveu em seu excelente World of Motorsport um artigo sobre as possibilidades do xará em 2012. Graças a ele, não preciso me aprofundar sobre todas as opções. Tenho apenas pequenos comentários sobre algumas dessas possibilidades.

A primeira opção é a World Series by Renault, categoria que está um pouco abaixo da GP2 na escala européia. No ano que vem, ela estreará um carro novo, mais potente e com o mesmo dispositivo da asa móvel que está sendo utilizado na Fórmula 1. Muita gente acha que a World Series, cujo nome oficial é Fórmula Renault 3.5, terá tudo para superar de vez a GP2, que estaria em decadência. Conclusão precipitada, esta. A GP2 não atraiu tantos novatos bons como a prima mais pobre exatamente pelo fato de ter estreado um carro novo nesta temporada, o que levou a um exorbitante aumento nos custos e afugentou muita gente boa. No ano que vem, quem passará por isso será a própria World Series.

Além disso, penso que a World Series pode ser uma encrenca bem grande para um novato bem gabaritado. Veja o caso de César Ramos, o gaúcho que ganhou a Fórmula 3 italiana no ano passado. Com ótima reputação, ele fez alguns ótimos testes na pré-temporada, assinou com a Fortec e iniciou o campeonato sendo considerado um dos favoritos. Para ser bem honesto, eu não estava tão otimista assim. Um bom motivo para isso é o fato de seu companheiro de equipe ser Alexander Rossi, um dos pilotos mais promissores do automobilismo de base mundial.

Enquanto a turma do “ôba!”, como dizia Ivan Lessa, regurgitava as enormes chances de título de César Ramos, o fidagal representante da turma do “êpa!” aqui acreditava que seria um ano bem ingrato para ele. Eu tinha certeza de que Rossi seria o piloto mais bem-sucedido da Fortec e que Ramos teria problemas com isso. Não deu outra: enquanto o americano contabiliza uma vitória e está na sexta posição do campeonato, César tem 75 pontos a menos e está apenas em décimo. Para piorar as coisas, Ramos quase ficou de fora das últimas etapas por problemas financeiros. Sabe-se lá como, conseguiu dinheiro para competir em Silverstone. Mas seu futuro é incerto.

A World Series by Renault só vale a pena em um único caso específico: quando o piloto é apoiado por uma grande empresa. Para gente como Daniel Ricciardo e Jean-Eric Vergne (Red Bull), Kevin Korjus (GENII) e Alexander Rossi (Lotus), a categoria é excelente. Quem não está em nenhum esquema poderoso, como é o caso de César Ramos, não desfruta de segurança alguma e só conta com fatores tão volúveis como seu desempenho e seus patrocinadores. E é óbvio que um piloto nessa situação acaba não tendo condições de disputar nada com um Ricciardo ou um Vergne.

GP2, aquela que todo mundo diz que "está em decadência". Na minha modesta opinião, o melhor caminho para Nasr

É melhor ir para a GP2. Por incrível que pareça, mesmo sendo bem mais cara, a GP2 é mais democrática do que a World Series. Mesmo lá nas equipes de ponta, são poucos os pilotos que estão ligados a alguma equipe ou empresa esportiva. Entre os dez primeiros da tabela, apenas Romain Grosjean (GENII), Jules Bianchi (Ferrari) e Christian Vietoris (Mercedes) possuem algum importante apoio oficial. O resto se vira com patrocinadores pessoais e com resultados. Até mesmo os pilotos da Team Air Asia, equipe júnior da Lotus, não fazem parte do programa de desenvolvimento de pilotos da equipe. Davide Valsecchi e Luiz Razia trabalham como pilotos de testes da Lotus e podem até sonhar em disputar uma ou outra corrida, mas não têm a moral que Alexander Rossi possui.

Outra vantagem da GP2 é relacionada ao tempo de desenvolvimento do piloto. É bem mais razoável para um piloto jovem ficar três ou quatro anos na GP2 do que na World Series. O venezuelano Pastor Maldonado precisou de quatro temporadas para se sagrar campeão da categoria-escola de Bernie Ecclestone. Com o título, arranjou uma vaga na Williams. Outros pilotos que passaram um tempão por lá antes de subir para a Fórmula 1 foram Vitaly Petrov e Lucas di Grassi. O próprio Romain Grosjean participa da GP2 desde 2008. Enquanto isso, os melhores exemplos de pilotos que praticamente moraram na World Series são Daniil Move, Mikhail Aleshin e Pasquale di Sabatino. Algum deles conseguiu alguma coisa na vida até aqui? Por isso, se eu fosse o Felipe Nasr, planejaria ficar umas três temporadas na GP2 antes de ir para a Fórmula 1. Faltaria, para isso, o dinheiro. Eike Baptista, cadê você?

Mas felizmente há outras alternativas no planeta além da GP2 e da World Series by Renault. Nasr já está conversando com representantes da Ferrari e da McLaren sobre uma possível integração a um programa de desenvolvimento de pilotos. Vale notar que o empresário de Felipe é Steve Robertson, que também gerenciava a carreira de Kimi Räikkönen, ex-McLaren e ex-Ferrari, e de Jenson Button, atual segundo piloto da McLaren. Portanto, o inglês tem bom trânsito nas duas equipes. Qual é a melhor?

Sem pestanejar, a McLaren. Por algumas razões bem simples. O programa de desenvolvimento de pilotos da Ferrari já está saturado. Além disso, está concentrado em dois nomes: Sergio Pérez e Jules Bianchi. Seria um milagre se Nasr conseguisse ter o status destes dois lá em Maranello. Além disso, a Ferrari não é uma equipe conhecida por dar oportunidades a jovens famélicos. Todos os últimos onze titulares contratados pela equipe (Alonso, Fisichella, Badoer, Räikkönen, Massa, Barrichello, Salo, Irvine, Schumacher, Berger e Capelli) eram pilotos com experiência mínima de três temporadas completas. Na verdade, somente Massa tinha algum vínculo prévio com os ferraristas. Um Bianchi da vida só teria chance em uma Sauber ou Toro Rosso da vida. E só conseguiria subir para a Ferrari se absolutamente tudo desse certo.

Mas nada como estar associado a uma boa equipe de Fórmula 1, não?

Na McLaren, Nasr não teria de dividir as atenções com muita gente. Quem testa por lá são um trintão, Gary Paffett, e um quarentão, Pedro de la Rosa. No desatualizado site do programa de jovens pilotos da equipe, há três perfis, sendo que nenhum deles está em uma posição tão boa como Nasr. O mais conhecido é Oliver Turvey, que chegou à GP2 no ano passado. Neste ano, Oliver não está fazendo nada. Você pode argumentar que um bom programa de pilotos jamais deixaria alguém talentoso como Turvey parado. Há de se verificar, por outro lado, se o contrato do inglês não era lá aquelas coisas. Se Nasr conseguir um bom acordo com a equipe, pode repetir a trajetória de sucesso de um outro britânico – Lewis Hamilton, que saiu da GP2 para o estrelato na equipe de Woking.

Mesmo assim, não é fácil. Este é um problema deste automobilismo contemporâneo, cheio de alternativas. Há uns vinte anos, o cabra saía do kart e fazia o trajeto Fórmula Ford ou Fórmula Opel – Fórmula 3 – Fórmula 3000 – Fórmula 1 sem grandes segredos. Hoje em dia, Nasr tem tantos caminhos a trilhar que a possibilidade de fracasso se torna muito maior que a de sucesso. E há ainda a questão da falta de patrocínio. Se ele fosse um Pedro (Nunes ou Paulo Diniz), poderia passar quanto tempo quisesse tentando conseguir um trofeuzinho que fosse. Como é Felipe, não terá muita chance de perdão se fracassar.

Por fim, comento sobre o retrospecto dos campeões da Fórmula 3 britânica. Embora um título por lá seja sempre bem-vindo e um piloto ruim nunca consiga ser campeão, não dá pra pra achar que Jim Clark, Jackie Stewart, Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet, Ayrton Senna e Mika Häkkinen sejam a regra. Alguns campeões irrepreensíveis, como Jan Magnussen e Takuma Sato, não deram em nada na Fórmula 1. Outros, como Mike Conway e Jonny Kane, sequer chegaram lá. Houve até quem tivesse problemas para prosseguir na carreira logo após o título, como Marc Hynes e Robbie Kerr. Portanto, ser campeão na Fórmula 3 não necessariamente significa ter um futuro brilhante.

Como você pode ver, os desafios e as possibilidades estão todas aí. Resta a Felipe Nasr correr atrás de patrocínio e queimar neurônios avaliando todas as oportunidades. Ele terá uns bons meses para fazer isso. Se eu fosse ele, tentaria um acordo com a McLaren e ainda assinaria com alguma equipe média na GP2. Mas não apito em nada, apenas torço.

Enquanto isso, hora de comemorar em algum pub.

No pódio, Lucas Foresti ri. Um salve a aqueles que não acreditavam nisso, como eu.

Esse negócio de escrever sobre esporte é algo engraçado. Jornalistas, blogueiros e gaiatos são aquelas pessoas razoavelmente cruéis e ávidas por notoriedade que buscam incansavelmente a opinião definitiva e os dividendos que ela traz, como a fama, o reconhecimento ou a capacidade de formar opinião. Sem grandes compromissos com a responsabilidade, com a ética ou até mesmo com a realidade, nós escrevemos besteiras a rodo e emitimos ideias como se nossos dedos fossem a verdadeira reserva moral e intelectual da humanidade contra os ignóbeis.

Em poucas palavras, falamos muita merda. No caso de quem comenta sobre automobilismo, a merda costuma ser ainda mais abundante e malcheirosa. Reputações são detonadas em uma única reportagem, picaretas são levados aos céus imediatamente após única grande atuação e competentes são miseravelmente enterrados a sete palmos após duas corridas ruins consecutivas. Todo mundo faz isso, especialmente eu. Pois bem, quero fazer meu mea culpa hoje. Retrato-me sobre o piloto brasileiro mais surpreendente no automobilismo estrangeiro.

Lucas Foresti, brasiliense de 19 anos, é o atual vice-líder da Fórmula 3 britânica. Com 121 pontos, ele já está a distantes 75 pontos do líder, o compatriota Felipe Nasr, mas tem dez pontos a mais que o malaio Jazeman Jaafar. Chama a atenção o fato de Foresti estar metido em uma panelinha da Carlin, a equipe dominante da Fórmula 3 britânica: ele é o único piloto entre os seis melhores que não corre pela escuderia de Trevor Carlin. Sua equipe é a Fortec, competente mas sem cacife para pelear pelo título.

Como dito acima, Foresti é o piloto brasileiro que mais me chamou a atenção pelo lado positivo neste ano até aqui. Ao contrário de Felipe Nasr, sempre reverenciado como um piloto promissor, Lucas iniciou a temporada 2011 naquela incômoda situação de piloto brasileiro sem expressão, sem muito dinheiro e sem moral. Em 2010, ele se arrastou na GP3 e na mesma Fórmula 3 britânica. Terminou o primeiro campeonato em 19º e o segundo em 13º.

E aí entra o que eu falei nos dois primeiros parágrafos. Na GP3, considerava Foresti o mais fraco entre os quatro brasileiros que competiram por lá em 2010. Acreditava que Leonardo Cordeiro, Pedro Nunes e principalmente Felipe Guimarães eram melhores. Na Fórmula 3, as transmissões só o mostravam errando ou saindo da pista. Na segunda corrida de Thruxton, ele conseguiu a segunda posição no grid e pulou para a ponta na largada, mas se envolveu em um acidente tão perigoso quanto besta com Felipe Nasr. Os dois tiveram culpa, mas na época eu nem me preocupei em estudar um pouco mais o assunto e fiz meu julgamento apenas com o que via nos replays de outros incidentes: a culpa era do Foresti e ponto final.

Foresti e seu carro atual, o Dallara da Fortec

Na verdade, nunca escrevi nada sobre ele aqui, já que nunca considerei que havia motivos para tal. Como vocês devem saber, tenho uma seção especial aqui (O Futuro já Começou) que comenta sobre os pilotos brasileiros com maior potencial no automobilismo de base. Além de Nasr, já falei do Razia, do Rafael Suzuki e do César Ramos. Tinha para mim que só valeria a pena escrever sobre quem aparentava ter algum potencial.  E para mim, o Foresti era só um piloto meia-boca sem futuro. Hoje, seria puro oportunismo de merda enterrar no rabo o que pensava sobre ele e escrever um perfil puxando seu saco vigorosamente. Preferi escrever um texto sobre ele e sobre injustiças cometidas por quem escreve.

Quinze corridas foram o suficiente para Lucas calar minha boca. Venceu três corridas de maneira absolutamente convincente até aqui. Em Outlon Park, fez uma pole-position fácil e enfiou 18 segundos no segundo colocado na bandeirada. Em Snetterton, aproveitou-se da regra de grid invertido para sair da ponta e vencer de maneira igualmente tranquila. Em Brands Hatch, sob chuva, ele saiu da quinta para a primeira posição após várias ultrapassagens e ainda decidiu permanecer na pista já seca com pneus de pista molhada. Vitória impressionante. Acabei tendo de rever alguns conceitos. Para alguém como eu, um sacrifício comparável a um tiro no saco.

Foresti está longe de brigar pelo título da Fórmula 3 neste ano, mas o que foi obtido até aqui já o credencia como um dos pilotos a serem observados pelo Brasil nos próximos anos. Se esta sua curva de melhora prosseguir desta maneira, não seria absurdo imaginá-lo na Fórmula 1 ou na Indy. Mas o que aconteceu em 2010 para sua fama ficar ruim? Analisando sua carreira por cima, dá pra ver que seus dois grandes problemas diziam respeito à falta de experiência e à repentina mudança de rumos na sua vida.

Foresti sempre gostou de velocidade – mais precisamente, de motos. Quando era criança, ganhou uma moto de 50cc para disputar campeonatos mirins de motocross. Embora ele tenha vencido vários campeonatos, um acidente em uma prova realizada em Acreúna (?!) resultou em um monte de ossos quebrados. A partir daí, a família começou a reprovar a brincadeira, mas Foresti decidiu seguir em frente.

Até 2006, tudo indicava que Foresti seguiria o pai, campeão de motocross de seu estado, e continuaria angariando troféus com duas rodas. Num belo dia, no entanto, Lucas descobre que seu tio tem um kart encostado em um galpão por aí. Pronto. O garoto decide trocar as motos pelo kart e, de cara, ganha uma saraivada de títulos no Centro-Oeste em apenas dois anos de carreira.

Em 2010, dificuldades na Fórmula 3 britânica...

Em 2008, o velho Amir Nasr decidiu dar uma mão ao jovem piloto e lhe emprestou um Dallara-Mugen para fazer alguns testes com um monoposto. Foresti completou mais de mil voltas conhecendo o carro e Amir considerou que ele estava pronto para subir para o automobilismo. No fim do ano, Nasr decidiu criar uma equipe para disputar a última rodada dupla da Fórmula BMW das Américas, realizada em Interlagos. A dupla, como não poderia deixar de ser, seria Felipe Nasr e Lucas Foresti. Brasília estava bem representada lá na corrida paulistana.

Foresti largou em nono e terminou em décimo nas duas provas. Não era lá um desempenho enormemente brilhante, mas estava bom para quem nunca havia disputado uma corrida de monoposto na vida. Depois disso, ele decidiu competir na Fórmula 3 sul-americana em 2009, mas como a Amir Nasr Racing não seguiria na categoria naquela temporada, Lucas teve de encontrar um espaço na Cesário Formula, a melhor equipe da história da Fórmula 3 no Brasil.

Tadinha da Fórmula 3 sul-americana, outrora grande e reluzente categoria. Com grids rondando inaceitáveis dez carros por corrida e divulgação zero, não dava para aprender muito por lá. Lucas Foresti terminou o ano em terceiro, tendo vencido uma corrida em Campo Grande. Sem muita paciência, ele decidiu dar um salto para a Europa.

Foi um processo turbulento e imperfeito. Lucas inicialmente havia assinado com a Hitech para correr na Fórmula 3 britânica, mas fez um teste na GP3 com a Carlin e acabou impressionando Trevor Carlin, que decidiu contratá-lo para correr nos dois campeonatos, a GP3 e a Fórmula 3 britânica. Imagine: quatro anos antes, correr de kart era algo tão inimaginável para Foresti quanto ir para Saturno. O que canso de falar sobre Bruno Senna vale para ele também: uma carreira tão atropelada costuma render mais problemas do que qualquer coisa.

A prioridade maior de Foresti era a Fórmula 3 – e isso explicaria o fato dele ter perdido as rodadas de Istambul e Hungaroring da GP3. Fazer dois campeonatos extremamente competitivos ao mesmo tempo acabou não sendo lá uma boa ideia. Na GP3, ele fez uma ótima segunda corrida em Barcelona, segurou os ataques dos badalados Jean-Eric Vergne e Esteban Gutierrez e terminou em uma boa segunda posição. Dali em diante, penou muito e não conseguiu marcar mais pontos. Terminou a temporada em 19º, com sete pontos. Até ficou na frente dos compatriotas Cordeiro e Nunes, mas não conseguiu deixar uma boa imagem por lá.

... e na GP3

Na Fórmula 3, que utilizava um carro menos potente e que tinha um ambiente menos competitivo e carregado, as coisas não foram muito melhores. Em trinta corridas, Lucas conseguiu um terceiro lugar em Silverstone como melhor resultado. Nas demais corridas, errou demais e não conseguiu andar rápido. Terminou o ano em 13º, com 45 pontos. Foi facilmente o pior dos seis pilotos da Carlin, algo que não pegou muito bem.

Automobilismo é uma coisa meio desagradável. Uma única temporada ruim pode fazer de um Ayrton Senna um sujeito lerdo, burro, bobo, feio e chato. Jornalistas e torcedores não se furtam em tecer comentários maldosos sobre pilotos que fracassam em determinado momento, praguejar contra a continuidade de suas carreiras e soltar pérolas como “nunca mais teremos um campeão do mundo”. Os pilotos acabam padecendo no paraíso: correm sob enorme pressão, sofrem todos os tipos de problemas, cobram-se muito, não podem dar-se o luxo de chorar no colo da namorada ou da mãe após uma má corrida e ainda borram as calças de medo de ficar sem dinheiro para seguir em frente. Do outro lado do oceano, instalados confortavelmente em nossas cadeiras giratórias, ignoramos todas as dificuldades pelas quais um cara desses passa e simplesmente dizemos idiotices ao alto de nossas vassouras.

E aí me retrato. Sempre falei mal de gente como Pedro Paulo Diniz e Bruno Senna, alegando que são caras que chegaram longe demais unicamente pelo dinheiro ou pelo nome e que eles não são tão talentosos quanto o povo gostaria. Eu posso até não estar errado, mas o que me garante que estou certo? O fato deles não terem sido brilhantes nas categorias de base não poderia significar que eles enfrentaram mais dificuldades do que outros pilotos que fizeram bonito nessa mesma fase, como um Antonio Pizzonia ou um Chico Serra?

A verdade é que, na esmagadora maioria das vezes, somos injustos com quem está pilotando a mais de 200km/h, tanto pelo bem como pelo mal. Nunca saberemos quem realmente merece nossos elogios mais rasgados e nossas críticas mais contundentes. No geral, todos que chegaram mais longe merecem nossos parabéns. E todos nós deveríamos dar uma segunda chance a um piloto. Ou uma terceira. Ou uma quarta. Nigel Mansell precisou de várias antes de se tornar campeão do mundo.

Por isso, confesso que achava o Lucas Foresti um mero almofadinha picareta que não chegaria a lugar algum e admito que estava totalmente errado. Mesmo que ele não consiga ir muito além do patamar atual, é um piloto que merece respeito e crédito. Para infelicidade de jornalistas oportunistas, torcedores corneteiros e experts de cadeira giratória como eu, até mesmo um backmarker da GP3 pode surpreender e trazer glórias para o Brasil.

Não sei se é o alinhamento dos astros, mas o caso é que tá todo mundo nervoso nesses últimos dias. Na NASCAR Sprint Cup, dois dos garotos-problema da categoria voltaram a arranjar confusão. Na etapa de Darlington, realizada neste último fim de semana, Kyle Busch e Kevin Harvick disputavam a oitava posição quando Busch acabou tocando em Harvick, que perdeu o controle e foi direto ao muro. Faltavam poucos quilômetros para o fim e os dois retornaram. A zebra Regan Smith ganhou a prova, mas todos estavam de olho para ver o que ia acontecer com os dois problemáticos.

Muito puto, Harvick começou a perseguir Busch como um gato ávido por degustar um rato. Em uma das cenas mais cômicas do automobilismo contemporâneo, o carro 29 ficou seguindo o 18 por alguns minutos. Quando Busch parou atrás do carro de Harvick dentro dos pits, Kevin desceu doido para bater em seu adversário e correu em direção ao Toyota de Kyle. Ao perceber o inimigo chegando, Busch simplesmente acelerou e empurrou o Impala de Harvick no muro. Depois disso, os mecânicos dos dois pilotos começaram a protagonizar aquele típico vale-tudo nascariano. Um espetáculo, como de costume na categoria.

Na mais civilizada e cosmopolita Fórmula 1, houve incidente semelhante no fim de semana do GP da China. O alemão Adrian Sutil, piloto da Force India, se engalfinhou em uma festa com Eric Lux, diretor executivo do Grupo Genii, que controla a equipe Renault. Não foi divulgado o motivo do imbróglio, mas testemunhas garantem que Lux saiu do recinto com o pescoço sangrando. E há quem diga que Lewis Hamilton, amigo colorido de Sutil, também estava envolvido. Em comunicado oficial, Sutil se desculpou pelo ocorrido. Muito fácil, depois de quase arrebentar a jugular do sujeito.

Brigas são absolutamente comuns em qualquer âmbito de nossas vidas, ainda mais no meio esportivo. Eu sou péssimo em briga, não consigo dar porrada em um velho com Alzheimer. A maior parte dos pilotos também não se destaca muito nisso. Mas há muitas histórias, algumas delas devidamente captadas por câmeras de TV. Conto cinco delas, cada uma de uma categoria diferente. É um Top Cinq difícil, já que há muitas brigas que foram até melhores.

5- OLIVIER PANIS VS VINCENZO SOSPIRI

(2:39)

Citar Olivier Panis nesse ranking é curioso, já que o francês sempre foi conhecido na Fórmula 1 pela sua boa-pracice e pela tranquilidade. Dizem, por exemplo, que foi o único companheiro de equipe de Jacques Villeneuve que se deu bem com o canadense. Já Vincenzo Sospiri, embora não tão conhecido no mainstream, não parece ter a mesma boa fama. Em 1991, como retardatário de uma corrida de Fórmula 3000 Internacional, ele deliberadamente se chocou com o companheiro Damon Hill em duas oportunidades, invejoso pelo fato do inglês estar subindo ao pódio.

Em 1993, ambos estavam nessa mesma Fórmula 3000. Panis chegou à última etapa, em Nogaro, como o líder do campeonato, com apenas um ponto a mais do que o português Pedro Lamy. O francês fez o segundo tempo na classificação, atrás do companheiro Franck Lagorce, e largou apenas para obter uma pontuação mínima que lhe garantisse o título. Mas ele não contava com o italiano Sospiri, que largara em quinto e causou um acidente com Olivier na primeira volta, tirando os dois da prova. Como Lamy já estava entre os seis primeiros, o título já estava em suas mãos lusas.

Panis desceu do carro enlouquecido. Ao chegar aos pits, a primeira coisa que ele quis fazer foi dar um pulo aos boxes da Mythos, equipe de Sospiri, visando meter umas porradas na fuça do italiano folgado. Os mecânicos da DAMS, equipe do francês, tiveram de segurá-lo, porque ia sair pancadaria feia. No outro lado do ringue, Sospiri estava lá, pronto para revidar. Cada piloto estava sendo contido pelos seus mecânicos. Uma balbúrdia.

A situação só não ficou preta de verdade porque, faltando três voltas para o fim, Pedro Lamy entrou nos pits com a suspensão quebrada. Fim de prova para o português, que não conseguia marcar os pontos que lhe dariam o título. E Panis acabou se consagrando como o campeão da Fórmula 3000 em 1993. Que alívio, hein, monsieur Olivier?

4- NICOLAS MINASSIAN VS MICHAEL BENTWOOD

(2:03)

O francês de origem armena Nicolas Minassian é um dos maiores babacas que eu já vi no automobilismo mundial. Do tipo nervosinho, Nicolas já arranjou briga com muita gente em sua carreira. Na Fórmula 3000, já trocou desaforos com Soheil Ayari em 1998 e meteu um murro na cara de um mecânico de sua equipe na etapa de San Marino de 2003. Na CART, ele também brigou com Christian Fittipaldi em um acidente no início de 2001. Mas o pior foi o ocorrido na Fórmula 3 britânica em 1997.

Minassian pilotava um Dallara-Renault da equipe Promatecme e era um dos favoritos ao título. Em Thruxton, terceira etapa do campeonato, ele largou na pole-position e vinha liderando até a última volta. O problema é que Jonny Kane, inglês que viria a ser o campeão daquele ano, estava colado na sua traseira e a ultrapassagem parecia ser iminente. Na derradeira volta, apareceu o retardatário Michael Bentwood, que abriu espaço por um lado da pista. Só que Minassian tentou ir pelo lado do retardatário por alguma razão obscura, os dois se tocaram e o francês perdeu a vitória para Kane em uma das últimas curvas.

Ensandecido, Minassian perseguiu Bentwood na volta de desaceleração, parou seu Dallara em frente ao carro do inglês, desceu, pegou algumas pedras na caixa de brita e começou a atirar na cabeça do pobre retardatário! Como ele estava de capacete, nada aconteceu. Depois, Minassian foi até o cockpit do gaiato e lhe deu umas bolachas, mas o capacete tornou essa atitude igualmente inútil.

Os dois foram chamados pela organização e tiveram uma conversa de botequim de quase duas horas. Pelo espetáculo, Minassian foi desclassificado e impedido de participar das duas etapas seguintes, em Brands Hatch e em Croft. Essa punição foi preponderante para a derrota de Nicolas Minassian em 1997.

3- NELSON PIQUET VS ELISEO SALAZAR

Essa briga aqui é conhecidíssima por todos. Por isso, vou comentar alguns detalhes que não são muito conhecidos por todos.

Diz Eliseo Salazar que Nelson Piquet foi seu grande ídolo antes de entrar na Fórmula 1. Em 1979, Salazar viajou para a Inglaterra para tentar arranjar emprego. Ele havia vencido o campeonato argentino de Fórmula Ford 1600 no ano anterior e queria correr na Fórmula 3. Então, ele foi assistir à etapa de Thruxton. Após a corrida, meio perdidão, Eliseo começou a pedir carona na frente do autódromo. Não demora muito e para um Alfa Romeo vermelho. É Nelson Piquet, então piloto da Brabham. Segundo o chileno, “foi como ver Deus, Alá e Buda ao mesmo tempo”.

Nelsão deu carona até Londres, levou Salazar para comer um lanche no McDonald’s local e ainda arranjou um hotel baratinho para ele passar a noite. No dia seguinte, o brasileiro lhe apresentou Ron Tauranac, dono da Ralt e um dos chefes de equipe mais conceituados naquele momento. No ano seguinte, ele correu no extinto campeonato inglês de Fórmula 1 e venceu uma corrida em Silverstone. Este bom resultado lhe garantiu um lugar na fraca March em 1981. Tudo graças a Piquet, de certa forma.

Salazar nunca conseguiu fazer nada em sua curta passagem a não ser irritar seu ídolo. Pouquíssimos se lembram disso, mas o episódio de Hockenheim não foi a primeira vez que Piquet foi atrapalhado pelo chileno. Em Zandvoort, o brasileiro perdeu cinco segundos porque não conseguia ultrapassar Salazar, também retardatário. Em outra corrida, Piquet havia sido bloqueado da mesma maneira.

Em Hockenheim, deu aquela merda que você já deve saber. Salazar deu o lado de fora para Piquet passar, mas não conseguiu frear seu ATS e bateu no Brabham do brasileiro na chicane. O chileno jura que a culpa não foi só dele, mas não sei de onde ele tirou isso. De qualquer jeito, os dois esqueceram o ocorrido e, hoje em dia, são bons amigos.

2- PAUL TRACY VS RAPA

Paul Tracy é outra besta de capacete. O gorducho canadense, campeão da ChampCar em 2003, era capaz de intercalar atuações espetaculares e acidentes bisonhos descaradamente. E muita gente já se revoltou, sem qualquer injustiça, com ele em algum momento da vida. Em 2006, seu espírito animalesco chegou ao fundo do poço e o cara conseguiu arranjar briga com dois pilotos em duas corridas consecutivas. Um gênio às avessas.

Em San Jose, Tracy escapou da pista em uma curva qualquer, deu um 180° meia-boca e simplesmente voltou para o traçado com tudo, sem olhar para o retrovisor e tomar cuidado com quem vinha atrás. Para seu azar, o compatriota Alex Tagliani passava pela curva naquele momento e, sem qualquer possibilidade de desvio, atingiu com tudo a traseira do Forsythe de Paul Tracy. Fim de prova para os dois.

Tagliani ficou compreensivelmente doido da vida. Nos boxes, ele encontrou Tracy e falou um monte no ouvido do canadiano adiposo. A princípio, Paul deixou pra lá e simplesmente empurrou “Tags”, que estava com as mãos em seu colarinho. Mas Tracy também se irritou pelo tanto que ouviu, partiu para cima de Tagliani e o resultado foi um quebra-pau daqueles. Ninguém perdeu dentes e sangue, os dois foram multados e Tracy ainda perdeu sete pontos, além de ficar três corridas sob observação dos comissários.

Mas não precisou nem de uma para voltar a fazer merda. Em Denver, duas semanas depois, Tracy tentou uma ultrapassagem absolutamente imbecil sobre Sebastien Bourdais na última volta, os dois bateram e saíram da corrida, deixando o caminho livre para a vitória de A. J. Allmendinger. O francês desceu do carro, esperneou um monte para Tracy e o empurrou. Tracy o chamou de volta para trocar uns socos, mas Bourdais o deixou falando sozinho. E o canadense perdeu mais três pontos e pagou uma multa de 25 mil dólares. Bourdais, Tagliani e Andrew Ranger pediram para que a torcida de Montreal, local onde seria realizado a etapa seguinte, vaiasse Tracy. E ele mereceu.

1- CALE YARBOROUGH VS IRMÃOS ALLISSON

Imagine você, piloto top da NASCAR Winston Cup, brigando a sei lá quantos quilômetros por hora pela vitória nas 500 Milhas de Daytona, uma das corridas maias importantes do planeta. É a última volta e seu adversário está logo ao lado, esperando um vacilo seu. De repente, vocês se tocam, ambos ficam irritadíssimos e um começa a empurrar o outro. Aí vocês terminam batendo e um terceiro, que não tinha nada a ver com a história, ganha de presente a corrida. Cale Yarborough e Donnie Allison sabem bem o que é isso.

Para entender a briga, é necessário voltar ao início da corrida. O irmão de Donnie, Bobby Allison, havia se envolvido em um toque com Yarborough no início da corrida e Cale acabou perdendo duas voltas. Mas ele, que foi tricampeão da NASCAR por três anos seguidos, fez uma de suas corridas memoráveis e conseguiu ascender para a segunda posição. Quem liderava era Donnie Alisson. Na última volta, os dois estavam separados por um fio de cabelo.

Cale tentou a ultrapassagem na reta oposta, mas Donnie fechou a porta. Irritado com a petulância da família Allison, Yarborough acabou pisando um pouco na grama, perdeu o controle e não se importou em jogar o carro para cima do adversário, que também se descontrolou. E durante toda a reta, cada um passou a utilizar o carro do outro para tentar recuperar o controle, sem ceder um milímetro. E é evidente que isso não deu certo: os dois carros acabaram indo direto para o muro na curva três. Richard Petty acabou herdando a vitória.

Enquanto Petty comemorava, Donnie Allison e Cale Yarborough desciam dos seus carros para discutir e trocar acusações. Vendo que o negócio estava se transformando em uma briga, Bobby Allison parou seu carro e correu para defender seu irmão, distribuindo umas bordoadas em Cale. Este, por sua vez, arremessou seu capacete no nariz de Bobby e a Terceira Guerra Mundial começou ali. Enquanto os telespectadores se divertiam à beça, o pessoal da NASCAR se juntava para evitar o conflito entre Yarborough e os irmão Allison. No fim, não aconteceu nada a ninguém e há quem diga que este foi um dos eventos que deu à categoria a fama que ela possui hoje, de categoria popular e repleta de espetáculo.

Sem grandes manchetes ou enorme vontade de explorar algum assunto esquecido, exercito meu lado ficcional. Depois de imaginar como seriam as abastadas porém medíocres vidas de Bernie Ecclestone e Danica Patrick, o próximo alvo das maledicências será um piloto não tão antigo de Fórmula 1. Presente na categoria entre 1994 e 2002, o finlandês Mika Salo destacava-se por ser um James Hunt nórdico, completamente chapado e politicamente incorreto.

Hoje, apresento um dia de sua vida nos tempos de Fórmula 3 britânica, mais precisamente no fim de 1990.

Everyone has been burned before, everybody knows the pain.

O aparelho de som tocava The Charlatans na maior altura. As músicas do então emergente movimento madchester soavam bela trilha sonora para o cenário de decadência juvenil que assolava aquele frio e úmido casebre localizado em um bairro de baixo nível do borough londrino de Croydon. Lá fora, o céu acinzentado e infeliz de sempre. Garoava um pouco. O calor humano, definitivamente, era maior lá dentro.

Uma república de estudantes de universidade pública parecia um convento franciscano perto daquela típica habitação inglesa. Tênis para lá, meias para cá, revistas pornô sobre a geladeira, seringas espalhadas pelo chão, garrafas de cerveja Guinness dividindo espaço com uma lata de feijão e um pote de aspirinas, papel higiênico grudado no teto e televisão ligada em um daqueles documentários altamente entediantes da BBC. Os protagonistas do caos adolescente eram quatro sujeitos que, definitivamente, não são exemplos de moral e boa conduta.

Momb’ndoki era um senegalês de 27 anos que havia chegado à Inglaterra três ou quatro anos antes dentro de um contêiner sul-africano. Seu inglês era miserável, assim como sua vida londrina: uma rotina de pequenos biscates, futebol na TV, mulheres e vontade nula de pensar em coisas sérias. Na casa, ele era chamado de “the big one” e prefiro não comentar o motivo.

Linda era uma irlandesa de 19 anos que havia acabado de fugir de casa. Sua família, dona de uma rede de lavanderias em Dublin, era endinheirada e sofisticada, mas a princesinha detestava o luxo e a hipocrisia pseudoaristocrática que a rondava. Foi para a Inglaterra, fez 14 tatuagens, pintou o cabelo de azul e decidiu que queria ser roqueira. Trabalhava servindo bebida e fazendo cover de Cindy Lauper, sua inspiração, no Grant’s, um pub que fica logo ali. Tinha uma namorada, mas estava quase no fim do relacionamento.

Álvaro era um colombiano de 31 anos que vivia como traficante de quinta categoria nos subúrbio londrino. Esperto, sempre conseguia escapar da polícia e detinha nada menos que 21 identidades de 14 países. Naqueles dias, ele circulava por Londres como um brasileiro chamado Ayrton. Álvaro recebia drogas fresquinhas da América do Sul e revendia para a multidão de viciados que assolava a capital inglesa, além de fornecer algum para seus convivas de casa. Que, aliás, eram os únicos que sabiam que ele se chamava Álvaro. Isso se este realmente fosse seu nome.

O quarto habitante era exatamente Mika Juhani Salo, um finlandês de 23 anos que sonhava em seguir os passos de Keke Rosberg e se tornar um piloto de Fórmula 1. Ao contrário de seus colegas de casa, Mika era o único que parecia ter algum futuro na vida. Por outro lado, honrando seu sangue finês, era o que mais bebia, o que mais cheirava e o que mais injetava de longe. Seus companheiros até estranhavam, já que ele era boa-pinta e não ganhava nada vivendo na merda com um monte de escória. Um Diário de um Adolescente finlandês, por assim dizer.

Os quatro estavam basicamente desmaiados. Mika estava praticamente morto no chão, com um perdigoto de vômito no canto da boca, uma prostituta inerte ao seu lado, três garrafas vazias de vodka barata e um pouco de pó espalhado pelo chão. De repente, toca o despertador, barulhento como o cão. Eram onze da manhã. Salo dá um pulo, olha para os lados assustado e percebe que, não, a polícia não havia arrombado a porta. Levanta-se, boceja, limpa o vômito da boca, coça o saco, desliga o aparelho de som e começa seu dia.

Mika Salo estranha toda aquela bagunça. Ele não se lembra de muita coisa. Por que toda aquela gente caída, todas aquelas garrafas e seringas estavam espalhadas no chão? Ele abre a geladeira, só há alguns ovos em estado de petição e uma torta de rim de três semanas atrás. Senta na privada, que fica ao lado do fogão, engole tudo rapidamente e dá uma cheiradinha rápida para começar bem a manhã. Aos poucos, todo mundo vai acordando.

Momb’ndoki se aproxima.

– Hey, big one, why this mess on the floor? Did we party last night?

– Hai, Mika, duntyu rimembah? Wiwa celebreytin da invitaytion yu riceevat from Tyrel.

É isso mesmo. Todo mundo estava festejando o convite que Mika Salo havia recebido de Ken Tyrrell para testar um carro de Fórmula 1 após o fim da temporada da Fórmula 3 britânica, categoria na qual ele participava com enorme sucesso e aparecia como um dos destaques. A memória aparecia aos poucos. Mika e amigos se entupiram de sexo, drogas e rock’n roll durante toda a madrugada. Em algum momento, ele deve ter apagado.

O problema é que sua precária condição não poderia estar tão aparente. Mika teria de participar de um teste coletivo da Fórmula 3 britânica lá em Brands Hatch com sua equipe, a Alan Docking Racing. Um representante da Tyrrell estaria presente neste teste para analisar o estilo de pilotagem do jovem finlandês. Pegaria muito mal para Salo, portanto, esfregar na cara do sujeito da Fórmula 1 que ele não passava de um adolescente bêbado e viciado.

Após seu frugal breakfast, Salo foi ao banheiro, se limpou, penteou o cabelo e até escovou os dentes. Depois, pegou uma roupa nova que seus pais haviam mandado por correio algumas semanas antes e foi à luta. No seu guarda-roupa, três pôsteres: um de James Hunt, outro de Jim Morrison e o terceiro de Charles Manson. Enquanto os pilotos contemporâneos se orgulham de ter ídolos “exemplares”, Mika admirava os mais pirados, aqueles marginalizados por vovós e carolas em geral.

Antes de entrar em seu Ford Escort, Mika cheira mais um pouco e vira meia garrafa de vodka: diz ele que não consegue pilotar sem estar sob efeito de álcool. Quando ele começa a sair da garagem, Momb’ndoki vem atrás e grita:

– Mika, yuah fugettin yohellmadut!

– WHAT?!

Momb’ndoki, o melhor amigo do finlandês, era foda. Seu inglês era realmente triste. Mais devagar, ele repete, traduzindo para o português, “você está se esquecendo do seu capacete, cara”. Mais atrás, Linda e Álvaro se aproximam e desejam boa sorte. O colombiano ainda enfia uns pacotinhos com cocaína no bolso do macacão do piloto para o caso de alguma necessidade. E Salo segue em direção a Brands, que não era tão longe dali. Em altíssima velocidade, é claro.

No meio do caminho, um guarda o para. Salo dá risada.

– E aí, Paul, como vai a vida?

– Na paz, Mika. E você, tá indo com pressa pra onde? Tá parindo um filho?

– Hahaha! Tenho teste lá em Brands Hatch agora. Vai me prender? Hahahaha.

– Deveria, viu. Se meu chefe visse isso, nós dois estávamos completamente fodidos, hahahaha.

– Hahahahaha.

– Mas preciso te falar uma coisa, Mika. É coisa séria.

– Porra, o que foi, Paul?

– Tô saindo mais cedo hoje e vão colocar um outro cara no meu lugar daqui a pouco. Pelo que eu sei, o sujeito é meio barra-pesada, não é do tipo que vai deixar você dirigir bêbado e drogado por aí. Evita passar por aqui mais tarde, então.

– Beleza. Valeu pelo aviso, Paul.

E Mika segue a viagem a mil em direção a Brands.

Ao chegar lá, ele avista seu xará Mika Hakkinen saindo do carro. Salo desce do carro, corre em direção a Hakkinen, enfia um tapa em sua cabeça e sai correndo aos risos. Os ingleses, ávidos por fofocas e rivalidades bestas, adoram. Hakkinen é visto como o sujeito correto e dedicado, cujos únicos defeitos são beber muito, algo obrigatório para um finlandês da gema, e ser meio enfadonho. Salo é seu antagonista mal-educado, cachaceiro, babaca, politicamente incorreto e bem mais divertido. Um Ayrton Senna vs Nelson Piquet em Helsinki.

Salo chega aos boxes da sua equipe e encontra o tal representante da Tyrrell. Conversa com ele por alguns minutos e até consegue passar a impressão de ser um piloto batalhador e consciente. Após a conversa, Mika entra em um banheiro e, nervoso, cheira um pouco do pó redentor do Álvaro.  Sentindo-se eufórico, ele volta aos boxes e entra no seu Ralt-Honda patrocinado pelos cigarros Colt. Ironicamente, ele odiava fumar Colt e preferia a Marlboro, que patrocinava seu rival Hakkinen.

Naquele ano, apesar do alto nível dos concorrentes, só a disputa entre os dois Mika importava. E Salo deu show, fazendo o melhor tempo do dia e deixando Hakkinen quase sete décimos atrás. Quando ambos estavam voltando para os pits, Salo ainda mostrou o dedo do meio para seu colega, em ato de enorme educação e respeito. Desceu do carro, foi felicitado pelos seus mecânicos, recebeu um thumbs up do funcionário da Tyrrell e passou pelo banheiro para cheirar mais um pouco. Ao retornar do banheiro, Salo conversou com o cara da Tyrrell e este disse que gostou do que viu, reportaria o resultado a Ken Tyrrell e o teste com o carro de Fórmula 1 seria confirmado em breve. Haveria até mesmo a possibilidade de correr como titular em 1991, o que deixou Salo bem animado.

Depois disso, Mika e seus mecânicos foram ao pub mais próximo e encheram a cara para comemorar. Salo, como sempre, foi o que mais bebeu e ainda pagou a conta de todo mundo com o dinheiro que recebia dos pais e dos cigarros que ele tanto odiava. Depois, pegou seu Escort e saiu com tudo em direção à sua casa.

Só que, bêbado e pouco inteligente, ele passou pelo caminho de sempre. E lá estava o tal policial turrão. Sem perceber, ele parou o carro para bater um papo.

– E aí, Paul, como vai a vida?

– Paul? Meu nome é Charles Morrison. E, a propósito, o senhor não me parece muito bem.

– Charles… Morrison… que legal, é tipo o Charles Manson e o Jim Morrison em um cara só! Hahaha!

– O senhor está completamente embriagado. Saia do carro.

Sem oferecer qualquer resistência e rindo tranquilamente, Mika saiu, fico com as mãos ao alto e até vomitou um pouco no capô do Escort. O sério Charles Morrison levou o finlandês à delegacia. Segundo a lei inglesa, o motorista completamente chapado é condenado a seis meses de prisão, multa de cinco mil libras e perda da carteira de motorista. Por intermédio do amigo Paul, Salo deu um jeito e se safou da cadeia. Mas a multa e a perda da carteira foram incontornáveis.

O cenário automobilístico inglês ficou chocado com a notícia do que aconteceu com Mika Salo. A Alan Docking Racing quase o demitiu, mas preferiu apenas repreendê-lo. E a chance de testar com a Tyrrell, obviamente, foi para o saco. No fim do ano, a Colt retirou seu patrocínio. E Mika “Renton” Salo quase teve de voltar para Helsinki com o rabo entre as pernas.

A partir daí, Salo teve de mudar o rumo da sua vida. Foi para o Japão, se divertiu com as prostitutas locais, ganhou algum dinheiro e não obteve nenhum grande resultado. No fim de 1994, a Lotus o salvou do ostracismo. E começava aí a carreira de um dos sujeitos mais subestimados dos anos 90.

E o Momb’ndoki ainda não aprendeu inglês direito.

P.S.: Os personagens podem ser verdadeiros, mas a história é totalmente ficcional e nada tem a ver com a realidade. Portanto, se por acaso você, Mika, estiver lendo isso aqui no Google Translator, não se sinta ofendido e nem me processe. Não tenho grana e nem tenho algo contra você!