Enquanto Charles Pic celebra sua vaga na Fórmula 1 com seus amigos chiques da França, Kimi Räikkönen toma umas muitas com seus colegas alcoólatras, Narain Karthikeyan agradece a uma vaca malhada seu retorno à HRT e Sebastian Vettel leva seu dedo indicador direito para ser devidamente cuidado pela manicure da esquina, alguns outros deitam na cama, enfiam a cabeça no travesseiro e choram como crianças mimadas. É a classe dos pilotos que ficaram de fora da categoria máxima do continente asiático.

Uma classe que esbanja competência, diga-se. Não faz muito sentido ver gente como Sébastien Buemi, Jaime Alguersuari, Nick Heidfeld, Rubens Barrichello, Vitaly Petrov e Vitantonio Liuzzi espalhando currículos aqui e acolá nas agências de emprego. Alguns já encontraram solução, é verdade. Heidfeld será mais um dos rebeldes da Rebellion Racing no novo Mundial de Endurance da FIA. Buemi fará o papel de caddie da Red Bull Racing. Rubens deverá se juntar ao amigo Tony Kanaan na Indy. O resto, por enquanto, solo piange molto.

Mas nenhum deles vive o inferno astral de Adrian Sutil, o alemão com cara de uruguaio e modos de australiano caçador de crocodilos. Em outros tempos, este rapaz era considerado um dos pilotos do futuro, aqueles que serão famosos, ricos e comedores num momento indeterminado. Pois bem, Sutil não ficou tão rico, nem famoso e também nunca o vi andando de mãos dadas com mulher, só com Lewis Hamilton. E suas últimas semanas têm sido desastrosas.

O Top Cinq de hoje, meio preguiçoso, fala sobre tudo o que ruiu na vida deste pianista, que também é competente na arte de pilotar carros indianos.

5- A LIBERDADE

Quando todos nós ficamos sabendo que Eric Lux, diretor da GENII que foi atingido por uma taça arremessada por Sutil durante uma festa após o GP da China, processaria criminalmente o piloto alemão pelo ato de agressão perpetrado lá em Shanghai, a primeira dúvida que nos veio à cabeça era relacionada à sua liberdade de passarinho cantante. Será que Adrian Sutil passaria algum tempo comendo pão mofado em uma pequena cela abarrotada de vagabundos, desequilibrados e meliantes?

No Brasil, o capítulo II do Código Penal prevê detenção de três meses a um ano àquele que “ofender a integridade corporal ou a saúde de outrem“. Se a lesão for do tipo grave, isto é, se ela colocar a vida do sujeito em risco, a pena seria um pouco pior: reclusão de um a cinco anos. Você decide qual caso é o de Adrian Sutil. Ele acabou causando em Lux um ferimento razoavelmente grande e próximo a uma veia jugular. Por alguns centímetros, o dirigente poderia ter morrido ali mesmo. Na minha tacanha e exagerada visão de quem nunca pensou em estudar Direito, eu classificaria o negócio como lesão corporal grave. Mas sei lá.

Sutil foi julgado em um tribunal em Munique. O Código Penal alemão tem o simpático nome de Strafgesetzbuch, que deve significar algo como “o diabo comeu as estranhas da sua mãe”. Como sou xereta, fui dar uma olhada para ver o que há no tal código. A seção 7 garante que o Strafgesetzbuch também vale no caso de um alemão incorrer em um crime fora do país. A sessão 224 fala sobre o crime de lesão corporal causado por meios perigosos, que pode resultar em prisão de três meses a cinco anos para casos menos graves e em prisão de seis meses a dez anos para casos muito graves. Não sei se o código utilizado foi o alemão ou algum internacional – como disse, não entendo porra alguma de Direito -, mas estão apresentados aí os instrumentos legais. A verdade é que Adrian tinha boas chances de ter se ferrado bastante.

O piloto alemão deveria ter uns advogados bem competentes, pois a pena final foi 18 meses de liberdade condicional. Ou seja, Sutil está livre desde que cumpra um monte de exigências. Podemos dizer que ele saiu no lucro, mas liberdade condicional não é liberdade total. Imagino eu que ele terá dificuldades até mesmo para entrar em outros países. O fato é que serão 18 meses bem aborrecidos para ele.

4- DINHEIRO

Ao divulgar que processaria Adrian Sutil, Eric Lux não deixou de pensar em termos econômicos. O diretor pediu uma indenização de dez milhões de euros, algo em torno de 22,6 milhões de reais. Com tamanha quantia, você poderia comprar o passe do atacante Vagner Love. Ou um Bugatti Royale, e ainda sobrava uns dois paus e meio de troco para pagar o IPVA. Lux deve ter visto um Royale e achou legal a idéia de pedir um valor cabalístico para realizar o fetiche de pilotá-lo.

Você pode achar estranho isso, mas Adrian Sutil simplesmente não conseguiria arcar com esta indenização se dependesse apenas dos seus salários na Fórmula 1. Em 2011, ele embolsou cerca de um milhão de euros, o que dá pouco mais de 80 mil euros por mês. No ano anterior, a grana ainda era mais curta: 200 mil euros para disputar toda a temporada de 2010, cerca de 16 mil e uns quebrados por mês. A título de comparação, este era o mesmo salário do estreante Lucas di Grassi na Virgin.

E óbvio que estes valores são puramente especulativos e é impossível saber até quando são reais, pois os contratos de Fórmula 1 são tão nebulosos quanto uma manhã fria na Inglaterra. É óbvio também que um piloto normalmente embolsa muito mais dinheiro com seus patrocinadores. Mas é difícil achar que Sutil poderia ganhar mais tendo de levar quatro milhões de dólares à Force Índia por intermédio da Medion, empresa alemã de computadores. Portanto, falar que ele é rico nos padrões de um piloto típico de Fórmula 1 é um pouco exagerado.

Sutil sabe disso. Por isso, ele insistiu em uma pena alternativa, algo como fazer uma doação a uma obra de caridade na África ou até mesmo correr pela Lotus em 2012 ganhando uma merreca ainda menor do que na Force Índia. Lux e seu advogado não aceitaram. Outros acordos ainda foram tentados, mas nada deu certo. No fim, Sutil acabou tendo de pagar 200 mil euros a Eric Lux. Não dá para comprar um Bugatti Royale, mas já deu para esgotar todo o salário de 2010 do réu alemão.

3- UM AMIGO

Essa daqui doeu mais. A amizade de Adrian Sutil e Lewis Hamilton começou em 2005, quando os dois foram companheiros de equipe na ASM, a principal equipe da Fórmula 3 Euroseries na época. Hamilton ganhou apenas quinze das vinte corridas e se sagrou campeão com maestria. Sutil venceu apenas duas, mas ainda obteve o vice-campeonato com folga. A ASM trabalhava pensando apenas no futuro piloto da McLaren e Sutil acabou sendo visivelmente deixado de lado, o que o abalou um pouco. Mas ele ainda gostava muito de Lewis.

Os dois estrearam na Fórmula 1 em 2007. Sempre foram unha e carne. A foto acima mostra o quanto eles se gostavam. Saíam juntos, davam risada, se divertiam e compartilhavam o costume de bater em outros pilotos. Era até legal de se ver. Em uma Fórmula 1 onde você é obrigado a conviver com víboras, demônios, mafiosos e briatores, é bacana ver que ainda podem brotar sentimentos bons como amizade e lealdade. Lewis e Adrian estavam aí para provar que nem tudo estava perdido.

Mais ou menos. Jorge Sutil, pai de Adrian, contou que Hamilton sempre ligava quando tinha algum problema, e ele teve muitos em 2011. Solícito, Sutil conversava numa boa e acalmava o badalado colega. Mas e quando foi a vez dele precisar da preciosa ajuda de Lewis Hamilton?

O campeão de 2008 estava ao lado de Sutil quando aconteceu a confusão lá na China. Por isso, ele deveria depor como testemunha nas sessões de julgamento. Se Hamilton fosse um bom amigo, teria feito questão de ir, defenderia Adrian com unhas e dentes e ainda o convidaria para um chope após a audiência. Ao invés disso, Lewis disse que teria “compromissos profissionais” nos dias das sessões e não poderia comparecer. Depois disso, não deu maiores satisfações e sequer desejou boa sorte a Adrian. Pior ainda: fez questão de mudar o número do celular apenas para fugir do cara.

Sutil ficou possesso, é claro. “Lewis é um covarde”, “ele não é homem” e “não quero ser amigo de alguém assim” foram as frases proferidas por ele. Não há como discordar. A verdade é que Adrian descobriu da pior maneira possível que, sim, tudo está perdido.

2- UMA VAGA NA FÓRMULA 1

Este último ano foi difícil para todo mundo. Pouca gente pode dizer algo como “puta que o pariu, 2011 foi muito legal para mim”. Para a Fórmula 1, que tem raízes basicamente européias, foram doze meses trágicos. Como o dinheiro escasseou de vez, quase todas as equipes do meio e do fim do pelotão não conseguiram fechar o orçamento para 2012. Os patrocinadores desapareceram e vários pilotos contratados com salário tiveram de dar lugar a gente que tinha bala no cartucho.

Mas não dá para colocar todos os desempregados no mesmo balaio. Ao contrário de gente como Vitantonio Liuzzi e Nick Heidfeld, Adrian Sutil tinha bastante talento e bastante dinheiro. Como disse lá em cima, ele carregava cerca de quatro milhões de dólares no bolso, cortesia da Medion. O que o segurou na Force India durante tanto tempo foi exatamente isso. Ou vocês acham que foram apenas os dotes de pianista do cabra que seduziram Vijay Mallya?

Mas as coisas mudaram em 2011. Ninguém sabe se houve algo a ver com o episódio na boate, mas o fato é que Adrian Sutil passou quase todo o segundo semestre com um pé e meio para fora da Force India. A equipe tinha ele, Paul di Resta e Nico Hülkenberg e precisava se desfazer de um deles. O escocês, apoiado pela Mercedes, não cairia fora, até mesmo porque fez uma temporada de estréia bastante aceitável. Já Hülkenberg pegou a outra vaga em outubro, quando assinou o contrato de piloto titular. O anúncio oficial só foi feito em dezembro, dois meses depois. E Sutil terminou chupando o dedo.

Nesse período, Adrian ainda tentou uma vaga na Lotus como forma de resolver o problema com Eric Lux, mas é evidente que ninguém na equipe o queria lá. Ele também conversou durante um bom tempo com a Williams e todos nós pensamos que o companheiro de Pastor Maldonado já estava definido. Só que as negociações foram encerradas ainda em dezembro e Bruno Senna acabou pegando a vaga. Não é absurdo dizer que Adrian Sutil comemorou o réveillon sabendo que não correria na Fórmula 1 em 2012. E não seria absurdo dizer que um dos motivos pelas portas terem se fechado foi o incidente com Lux.

1- CREDIBILIDADE

Mas nada pior do que arruinar sua credibilidade. Ir preso não é um grande problema, pois você pode fazer grandes amigos mafiosos e psicopatas. Perder dinheiro também não, pois os seqüestradores e o Leão também encherão menos o seu saco. Perder um amigo também não, porque você sempre pode arranjar um cachorro ou um psicólogo. Perder uma vaga na Fórmula 1 também não, pois você sempre pode trabalhar aparando grama ou fazendo malabarismo no semáforo. O que complica é quando sua credibilidade vai para a vala.

Antes da briga com Eric Lux, Sutil era considerado uma pessoa serena e tranqüila. Em 2007, a revista F1 Racing publicou um perfil do então estreante alemão. Nesta reportagem, Adrian era descrito como um sujeito avesso ao comportamento histriônico e narcisista de seus pares. Falava baixo, articulava suas idéias de uma maneira menos tacanha do que os outros, gostava de andar de bicicleta e entendia de música clássica. Puxa, que legal. Eu sempre achei que os pilotos da Fórmula 1 contemporânea eram das figuras mais limitadas e desinteressantes do planeta. Um cara desses é de se admirar.

Uma ova. A imagem de calmaria que Adrian Sutil possuía simplesmente virou pó tão logo ele perdeu as estribeiras e arremessou uma taça de champanhe num pica grossa qualquer. Ah, mas ele estava bêbado. Ah, mas todo mundo faz uma merda alguma vez na vida. Ah, mas a mídia também aumentou demais a história. Ah, mas não foi intenção dele ter machucado feio o outro. Espera aí, pessoal. O cara é adulto, é uma pessoa pública e sabe de suas responsabilidades. Agredir um diretor de uma equipe de Fórmula 1 é uma atitude idiota sob qualquer prisma. É um grande passo rumo ao fim precoce de sua carreira na categoria.

Qual equipe gostaria de ter um sujeito que já foi condenado por agressão? Que tem histórico de dar escândalo em boate? Eu confesso que não estaria nem aí, mas os chefões da Fórmula 1 não necessariamente concordam comigo. Em 1990, o finlandês Mika Salo praticamente teve de refazer sua carreira no Japão após ser pego dirigindo bêbado na Inglaterra. Ninguém na Europa queria ter Salo pilotando seu carro. Porque não tem a ver apenas com as qualidades técnicas. Associar a imagem dos seus patrocinadores a um sujeito com histórico problemático é algo que ninguém quer.

É assim que funciona o mundo da Fórmula 1. Não discutam comigo. E nem pensem em arremessar taças de champanhe.

Você, que deu o azar de nascer na década de 90, não deve reconhecer o título. Antigamente, quando o Casseta & Planeta, Urgente! tinha algum resquício de graça, Claudio Manoel e Bussunda interpretavam dois pitboys que só se preocupavam em exercitar os músculos e encher precários bonecos de pano de porrada. Maçaranduba, o personagem de Claudio Manoel, era o mais famoso. O bordão era simples e forte: eu vou dar é porrada!

Eu não via o programa, mas conhecia este quadro. Alguns anos depois, um piloto de Fórmula 1 até então conhecido pela calmaria e pela elegância protagonizou um episódio que faria Montanha e Maçaranduba aplaudirem de pé. O alemão Adrian Sutil, que se orgulha de tocar piano, andar de bicicleta e falar baixo, foi o personagem central do barraco de 2011. Horas após o fim do GP da China, o pessoal da equipe Renault decidiu promover uma festinha na sala VIP de uma discoteca em Shanghai. Todo mundo estava lá. Tudo corria bem, com direito a todo o álcool e putaria que pilotos, mecânicos e diretores consomem a granel, quando…

Acompanhados por um guarda-costas, os amigos Adrian Sutil e Lewis Hamilton, que já estavam na boate, decidem entrar na festinha privê. Mas eles não estão na lista de convidados. Mesmo assim, continuam tentando entrar e acabam arranjando confusão com o pessoal que controlava as entradas. Eric Lux, diretor executivo do grupo GENII e um dos idealizadores da festa, apareceu e confirmou que não havia espaço para eles. Revoltado e já chapado, Sutil pegou um copo e jogou em Lux. O vidro do copo acabou cortando o pescoço do diretor, que ficou empapado em sangue. Enquanto Sutil e Hamilton caíam fora, Eric Lux seguiu ao hospital, onde lhe foi feito uma costura de vinte pontos no corte.

Deu merda, é claro. Eric Lux decidiu processar Adrian Sutil para exigir uma indenização de nada menos que dez milhões de euros, dinheiro que nenhum de nós nunca terá. Tudo isso aconteceu em maio do ano passado. Ontem, foi iniciado o julgamento do caso em Munique. Se condenado, Adrian Sutil poderá pegar até um ano de cadeia. Se isso acontecer, não vai haver Williams, HRT ou sequer um emprego na Filarmônica de Anapolina.

Na semana passada, escrevi um Top Cinq sobre casos que envolveram violência à mulher e automobilismo. Hoje, o Aqui Agora segue com sua série de reportagens envolvendo sangue, fúria e impulsividade. Comento sobre cinco brigas envolvendo um piloto e um não-piloto, isto é, um chefe de equipe, um mecânico ou um contínuo. Como tratam-se de brigas que envolvem gente do mundo do automobilismo, casos como o de Bertrand Gachot não serão apresentados. Só um detalhe: às vezes, é o piloto que apanha.

5- MARTY ROTH E MECÂNICO DA LUCZO DRAGON

O empresário Marty Roth era um dos grandes motivos de piada na Indy há alguns anos. O canadense, que fez sua estreia na categoria nas 500 Milhas de Indianápolis de2004 com um carro todo colorido preparado por sua própria equipe, raramente escapava das últimas posições, batia com alguma frequência e atraía a antipatia de todos no paddock. Ainda assim, a presença dele e de sua Roth Racing era conveniente para os dois lados. Marty adorava correr. Além disso, a Indy não estava conseguindo ter mais de 18 carros no grid e mesmo um Roth poderia servir para inflar um pouco o número de participantes.

No fim de 2008, Marty Roth brigou com a organização da Indy e disse que não pretendia mais voltar à categoria. Nesta briga, eu dou total razão a ele. Depois que Tony George conseguiu absorver uma parte dos participantes da ChampCar, a presença de Marty Roth já não se fazia mais necessária. Ou melhor, sua presença como piloto, já que sua equipe era bacana e até vinha crescendo aos poucos.

Então, na maior cara de pau, um dos diretores da Indy, Jim Freudenberg, propôs que Roth participasse apenas de “algumas corridas em ovais” e da etapa de Toronto, sua cidade-natal, na temporada seguinte, pois os organizadores consideravam sua presença inútil e perigosa nas outras etapas. Ofendido, e com razão, Marty não deixou barato. “Como pode essa gente vir me falar que eu só posso correr em ‘uns ovais’ e em Toronto? Pois eu digo quais etapas eu vou disputar em 2009: nenhuma”. Puxou o carro e vendeu a equipe.

Por outro lado, Tony George e companhia tinham motivos para tal atitude. Na etapa de Kansas da temporada de 2008, nosso Marty Roth vinha entrando nos pits para um reabastecimento quando cometeu mais um de seus erros. Enquanto esterçava o carro em direção ao seu espaço, ele cravou o pé no freio e o carro escorregou, atingindo a perna de Simon Morley, chefe de mecânicos da equipe Luczo Dragon. Morley, que trocava o pneu dianteiro direito do carro de Tomas Scheckter, teve apenas um joelho machucado. Curiosidade mórbida: Morley era o mecânico responsável pelo reabastecimento do carro do perigoso Jos Verstappen em Hockenheim em 1994! Ele foi o único mecânico envolvido no incêndio que teve de passar uma noite no hospital. Catorze anos depois, Marty Roth veio para cima dele. Ô zica…

Os mecânicos da Luczo Dragon decidiram dar uma força e empurraram o carro de Roth para trás. O problema é que o piloto canadense não foi tão cuidadoso e acelerou antes da hora, passando por cima do pé de outro pobre mecânico. Revoltado com tantas barbaridades, o mecânico se aproximou e enfiou uma bolacha no capacete de Roth, que não sentiu nada e seguiu em frente. Tony George certamente expulsou Marty Roth de seu feudo pensando no enfurecido mecânico preto e amarelo.

4- NICOLAS MINASSIAN E MECÂNICO DA BRAND

Nicolas Minassian não é o exemplo de cara paciente, do tipo que faz ioga, bebe chá de Santo Daime e acha tudo maravilhoso e psicodélico. Fã de Che Guevara, Minassian também adota o estilo guerrilheiro quando é obrigado a lidar com situações adversas. Ele ganhou fama em 1997, quando jogou pedras na cabeça do pobre do Michael Bentwood após um acidente na última volta de uma corrida da Fórmula 3 britânica. Quatro anos depois, ele se envolveu em uma pequena discussão com Christian Fittipaldi após um acidente na CART. Belo retrospecto.

Mas o que pegou mal mesmo a Minassian foi uma confusão que ele arranjou quando fez sua única corrida pela Brand Motorsport na Fórmula 3000 Internacional em 2003. Fundada pelo empresário das comunicações Martin Kendrick, o objetivo da Brand era começar na Fórmula 3000, disputar algumas corridas na ChampCar e terminar na Indy Racing League. Ambicioso, ele contratou o experiente Nicolas Minassian e o promissor Gary Paffett para pilotarem o Lola-Zytek vermelho e branco na categoria de base. Os dois não precisavam levar patrocinador. Na verdade, os dois ganhariam salário, um verdadeiro luxo na Fórmula 3000.

O problema é que Martin Kendrick queria chegar à Lua quando não conseguia sequer andar até a padaria da esquina. Ainda na pré-temporada, a Brand perdeu alguns de seus poucos funcionários originais e Kendrick teve de contratar outros meio que às pressas. O próprio Minassian, vice-campeão da categoria em 2000, não queria fazer uma nova temporada em 2003, mas decidiu correr na semana anterior à primeira rodada pensando nas corridas de ChampCar que faria com a equipe na Europa. O caso é que o crédito não era muito grande, mas a esperança ainda estava lá.

Imola, primeira rodada da temporada 2003 da Fórmula 3000. Segundo relatos, a Brand era tão mais precária que as demais equipes que o próprio Minassian teve de buscar água mineral na Super Nova, sua antiga equipe! Além disso, o francês passou a maior parte do tempo conversando com seus antigos mecânicos, deixando seus novos colegas da Brand de lado. E quando teve de lidar com eles, o resultado não foi bom. Por alguma razão, Nicolas e um mecânico começaram a discutir e o piloto chegou a ameaçá-lo cobrir de porrada. A turma do deixa-disso impediu que um barraco à la programa vespertino do SBT fosse protagonizado.

O clima na Brand estava pesadíssimo e o resultado na corrida não foi grandes coisas. Dias depois, Martin Kendrick demitiu Nicolas Minassian por “comportamento inadequado”. O francês não deu muita bola e arranjou um carro para correr em Le Mans. Mais alguns dias e Kendrick anunciou que sua equipe estaria fechando as portas. Os grandes sonhos da Brand Motorsport duraram apenas um fim de semana. Seu maior feito foi ter servido de palco para uma briga entre Nicolas Minassian e um mecânico.

3- ARIE LUYENDYK E AJ FOYT

Mexer com o mercurial AJ Foyt, que já chegou a destruir um laptop de sua equipe por causa do erro de um mecânico seu durante um pit-stop, não é algo recomendável. O vovô, que é considerado um dos grandes nomes da história do automobilismo, não costuma deixar barato qualquer provocação. Ainda mais quando alguém contesta um trunfo seu.

Em 1997, os pilotos da então americaníssima Indy Racing League debutaram no desafiador e sanguinário oval do Texas. O atual campeão da NASCAR Sprint Cup Tony Stewart liderou a maior parte da prova, mas teve um problema de motor, rodou e bateu faltando apenas duas voltas para o fim. Com isso, quem assumiu a liderança foi Billy Boat, que corria pela AJ Foyt Racing. Sob bandeira amarela, Boat apenas conduziu seu carro à bandeirada de chegada. Festa na equipe do vovô AJ!

Mas espera aí, nem todos estão felizes. Na Victory Lane, aquele espaço onde o piloto executa o ritual de comemorar a vitória com seu carro, sua equipe e alguns jornalistas enxeridos da ABC, surge um holandês amalucado que diz que Billy Boat não ganhou porcaria nenhuma. O vencedor era ele mesmo, o holandês de nome Arie Luyendyk. Pois AJ Foyt não gostou da intromissão. Ele se aproximou e deu um sopapo na parte de trás da cabeça de Luyendyk. Não satisfeito, ainda agarrou a cabeça do holandês e arremessou o coitado no chão. Atordoado, Luyendyk foi reclamar com a organização, que acabou multando Foyt em 20 mil dólares. Mas Arie também acabou tendo de desembolsar 14 mil de multa. Talvez por ter arregado, o que é um motivo pra lá de justo.

Luyendyk pode ser um doido arregão, mas não estava errado. Um dos sistemas de cronometragem da pista estava com problema e não contabilizou várias voltas de alguns pilotos, incluindo aí as de Arie. Refazendo contas aqui e acolá, os organizadores concluíram que Luyendyk havia sido o vencedor da corrida e tiraram a vitória das mãos de Billy Boat. Foyt não quis saber de devolver o troféu. Ele está lá na coleção do cara até hoje.

2- SCOTT SPEED E FRANZ TOST

Eu sempre falei mal da Toro Rosso, uma equipe que só serviu para revelar o atual bicampeão do mundo, Sebastian Vettel. O que pode parecer um grande favor à humanidade também tem sua faceta bastante negativa, que faz com que o nível de exigências seja elevado a um ponto irreal. Quem não ganhar em Monza e não apontar o dedo para as nuvens não merece nada além da lata de lixo. Sem falar que o convívio com Franz Tost deve ser um tremendo pesadelo. Não é, Scott?

Scott Speed foi mais um daqueles muitos pilotos que entraram de corpo e alma no programa de desenvolvimento de pilotos da Red Bull. Embora seu título na Fórmula Renault europeia e sua excelente participação na GP2 sejam bons predicados, o forte de Speed era o marketing. Seu sobrenome é curioso, sua nacionalidade deixava Bernie Ecclestone com tesão, sua aparência é a de um californiano com cabelo de parafina e sua história de superação de uma grave doença no intestino fazem do americano um personagem excelente para a Red Bull a longo prazo.

O problema é que os resultados não vieram. Speed até mostrou bom desempenho em algumas corridas em 2006, mas chamou muito mais a atenção pela arrogância e pela antipatia no paddock. Além disso, ele conseguiu criar um clima ruim na própria família da Red Bull: em Melbourne, irritado por ter sido desclassificado, Speed xingou um bocado seu “companheiro” David Coulthard, que corria na Red Bull Racing. Segundo ele, Coulthard reduziu a velocidade durante uma bandeira amarela e Scott acidentalmente o ultrapassou. Aham.

Em 2007, as coisas não melhoraram e a equipe já estava de saco cheio do americano. Em Nürburgring, chovia cachoeiras nas primeiras voltas e Speed foi um dos milhões de pilotos que escaparam na curva 1, ficando travado lá na caixa de brita. Ao voltar para os pits da Toro Rosso, ele deu de cara com um Franz Tost irritadíssimo. O chefe começou a reclamar pela saída de pista. Igualmente incomodado, Speed lhe deu as costas. A coisa desandou a partir daí.

Tost seguiu Scott e lhe deu um murro nas costas. Os mecânicos se entreolharam e perceberam que um barraco dos bons estava prestes a começar. Speed seguiu em frente, mas Tost ainda não estava satisfeito e ainda empurrou o piloto contra a parede. Naquele momento, o americano ficou furioso, mas não reagiu. Detalhe: este relato foi feito pelo próprio Scott. Tost desmentiu dizendo que o negócio não foi bem assim. Enfim, nunca saberemos a verdade. O que sabemos é que Scott Speed nunca mais foi visto em um paddock da Fórmula 1.

1- PAUL TRACY E BARRY GREEN

Paul Tracy é um caso de circo, de polícia ou de sanatório. Ele tem mais de vinte anos de carreira só na Indy, ganhou um título na ChampCar em 2003 e já fez muita, mas muita besteira mesmo. Em termos de brigas, Paul já chegou a aparecer na segunda posição de um outro Top Cinq aqui, que falava sobre os quebra-paus entre dois pilotos. Pois não são apenas Sébastien Bourdais e Alex Tagliani que sentiram a fúria gordurosa de Tracy. Sobrou até mesmo para seu chefe de equipe no fim dos anos 90.

Barry Green foi o cara que salvou a carreira de Tracy em 1998. Até então, Paul vinha vivendo um casamento repleto de altos e baixos, com larga predominância destes últimos. Ao mesmo tempo, Green e sua equipe planejavam voltar à disputa das primeiras posições: em 1997, ela viveu seu pior momento tendo o multifuncional Parker Johnstone como seu único piloto. Agora, Tracy e o promissor Dario Franchitti formariam a dupla verde. 1998 tinha tudo para ser um ano de sonho para o Team Kool Green.

Mas não foi. Paul Tracy estava ainda mais alucinado e aloprado do que o normal. Em Detroit, bateu em Christian Fittipaldi e foi colocado sob observação por Wally Dallenbach, diretor de corridas da CART. Em Portland, tomou multa de 20 mil dólares e ficou de fora de um dos treinos oficiais por ter batido em Michel Jourdain Jr. Em Cleveland, tirou Al Unser Jr. da pista nos pits. Em Vancouver, bateu em Tony Kanaan e foi desclassificado. Em Surfers Paradise, fechou Michael Andretti em plena reta, causou um acidente entre os dois e foi suspenso por uma corrida, punição paga apenas na primeira corrida do ano seguinte.

Mas o episódio mais lamentável foi sua briga com o patrão Barry Green na etapa de Houston. Naquela corrida, a Green vinha obtendo uma notável dobradinha, com Dario Franchitti em primeiro e Paul Tracy em segundo. Bastava apenas trazer o carro para a casa que o champanhe já seria espocado. Mas Tracy não pensava desta forma e tentou uma ultrapassagem estúpida em um lugar impossível. Os dois bateram, é claro. Franchitti, sempre sortudo, conseguiu seguir em frente, o mesmo não acontecendo com o canadense.

Ao voltar para os pits, Paul viu Barry Green fazendo um sinal indicando que o piloto havia sido uma besta. Revoltado, Tracy empurrou seu patrão e o clima quase esquentou. A briga não foi levada adiante, mas o canadense levou uma multa de cinco mil dólares por “mau comportamento e falta de esportividade”. Pelo menos, Tracy não foi demitido: ele permaneceu na Green até 2002. Em 2010, Paul e Barry trabalharam juntos nas 500 Milhas de Indianápolis. Porque um bom casamento sobrevive até mesmo a Paul Tracy.

Não sei se é o alinhamento dos astros, mas o caso é que tá todo mundo nervoso nesses últimos dias. Na NASCAR Sprint Cup, dois dos garotos-problema da categoria voltaram a arranjar confusão. Na etapa de Darlington, realizada neste último fim de semana, Kyle Busch e Kevin Harvick disputavam a oitava posição quando Busch acabou tocando em Harvick, que perdeu o controle e foi direto ao muro. Faltavam poucos quilômetros para o fim e os dois retornaram. A zebra Regan Smith ganhou a prova, mas todos estavam de olho para ver o que ia acontecer com os dois problemáticos.

Muito puto, Harvick começou a perseguir Busch como um gato ávido por degustar um rato. Em uma das cenas mais cômicas do automobilismo contemporâneo, o carro 29 ficou seguindo o 18 por alguns minutos. Quando Busch parou atrás do carro de Harvick dentro dos pits, Kevin desceu doido para bater em seu adversário e correu em direção ao Toyota de Kyle. Ao perceber o inimigo chegando, Busch simplesmente acelerou e empurrou o Impala de Harvick no muro. Depois disso, os mecânicos dos dois pilotos começaram a protagonizar aquele típico vale-tudo nascariano. Um espetáculo, como de costume na categoria.

Na mais civilizada e cosmopolita Fórmula 1, houve incidente semelhante no fim de semana do GP da China. O alemão Adrian Sutil, piloto da Force India, se engalfinhou em uma festa com Eric Lux, diretor executivo do Grupo Genii, que controla a equipe Renault. Não foi divulgado o motivo do imbróglio, mas testemunhas garantem que Lux saiu do recinto com o pescoço sangrando. E há quem diga que Lewis Hamilton, amigo colorido de Sutil, também estava envolvido. Em comunicado oficial, Sutil se desculpou pelo ocorrido. Muito fácil, depois de quase arrebentar a jugular do sujeito.

Brigas são absolutamente comuns em qualquer âmbito de nossas vidas, ainda mais no meio esportivo. Eu sou péssimo em briga, não consigo dar porrada em um velho com Alzheimer. A maior parte dos pilotos também não se destaca muito nisso. Mas há muitas histórias, algumas delas devidamente captadas por câmeras de TV. Conto cinco delas, cada uma de uma categoria diferente. É um Top Cinq difícil, já que há muitas brigas que foram até melhores.

5- OLIVIER PANIS VS VINCENZO SOSPIRI

(2:39)

Citar Olivier Panis nesse ranking é curioso, já que o francês sempre foi conhecido na Fórmula 1 pela sua boa-pracice e pela tranquilidade. Dizem, por exemplo, que foi o único companheiro de equipe de Jacques Villeneuve que se deu bem com o canadense. Já Vincenzo Sospiri, embora não tão conhecido no mainstream, não parece ter a mesma boa fama. Em 1991, como retardatário de uma corrida de Fórmula 3000 Internacional, ele deliberadamente se chocou com o companheiro Damon Hill em duas oportunidades, invejoso pelo fato do inglês estar subindo ao pódio.

Em 1993, ambos estavam nessa mesma Fórmula 3000. Panis chegou à última etapa, em Nogaro, como o líder do campeonato, com apenas um ponto a mais do que o português Pedro Lamy. O francês fez o segundo tempo na classificação, atrás do companheiro Franck Lagorce, e largou apenas para obter uma pontuação mínima que lhe garantisse o título. Mas ele não contava com o italiano Sospiri, que largara em quinto e causou um acidente com Olivier na primeira volta, tirando os dois da prova. Como Lamy já estava entre os seis primeiros, o título já estava em suas mãos lusas.

Panis desceu do carro enlouquecido. Ao chegar aos pits, a primeira coisa que ele quis fazer foi dar um pulo aos boxes da Mythos, equipe de Sospiri, visando meter umas porradas na fuça do italiano folgado. Os mecânicos da DAMS, equipe do francês, tiveram de segurá-lo, porque ia sair pancadaria feia. No outro lado do ringue, Sospiri estava lá, pronto para revidar. Cada piloto estava sendo contido pelos seus mecânicos. Uma balbúrdia.

A situação só não ficou preta de verdade porque, faltando três voltas para o fim, Pedro Lamy entrou nos pits com a suspensão quebrada. Fim de prova para o português, que não conseguia marcar os pontos que lhe dariam o título. E Panis acabou se consagrando como o campeão da Fórmula 3000 em 1993. Que alívio, hein, monsieur Olivier?

4- NICOLAS MINASSIAN VS MICHAEL BENTWOOD

(2:03)

O francês de origem armena Nicolas Minassian é um dos maiores babacas que eu já vi no automobilismo mundial. Do tipo nervosinho, Nicolas já arranjou briga com muita gente em sua carreira. Na Fórmula 3000, já trocou desaforos com Soheil Ayari em 1998 e meteu um murro na cara de um mecânico de sua equipe na etapa de San Marino de 2003. Na CART, ele também brigou com Christian Fittipaldi em um acidente no início de 2001. Mas o pior foi o ocorrido na Fórmula 3 britânica em 1997.

Minassian pilotava um Dallara-Renault da equipe Promatecme e era um dos favoritos ao título. Em Thruxton, terceira etapa do campeonato, ele largou na pole-position e vinha liderando até a última volta. O problema é que Jonny Kane, inglês que viria a ser o campeão daquele ano, estava colado na sua traseira e a ultrapassagem parecia ser iminente. Na derradeira volta, apareceu o retardatário Michael Bentwood, que abriu espaço por um lado da pista. Só que Minassian tentou ir pelo lado do retardatário por alguma razão obscura, os dois se tocaram e o francês perdeu a vitória para Kane em uma das últimas curvas.

Ensandecido, Minassian perseguiu Bentwood na volta de desaceleração, parou seu Dallara em frente ao carro do inglês, desceu, pegou algumas pedras na caixa de brita e começou a atirar na cabeça do pobre retardatário! Como ele estava de capacete, nada aconteceu. Depois, Minassian foi até o cockpit do gaiato e lhe deu umas bolachas, mas o capacete tornou essa atitude igualmente inútil.

Os dois foram chamados pela organização e tiveram uma conversa de botequim de quase duas horas. Pelo espetáculo, Minassian foi desclassificado e impedido de participar das duas etapas seguintes, em Brands Hatch e em Croft. Essa punição foi preponderante para a derrota de Nicolas Minassian em 1997.

3- NELSON PIQUET VS ELISEO SALAZAR

Essa briga aqui é conhecidíssima por todos. Por isso, vou comentar alguns detalhes que não são muito conhecidos por todos.

Diz Eliseo Salazar que Nelson Piquet foi seu grande ídolo antes de entrar na Fórmula 1. Em 1979, Salazar viajou para a Inglaterra para tentar arranjar emprego. Ele havia vencido o campeonato argentino de Fórmula Ford 1600 no ano anterior e queria correr na Fórmula 3. Então, ele foi assistir à etapa de Thruxton. Após a corrida, meio perdidão, Eliseo começou a pedir carona na frente do autódromo. Não demora muito e para um Alfa Romeo vermelho. É Nelson Piquet, então piloto da Brabham. Segundo o chileno, “foi como ver Deus, Alá e Buda ao mesmo tempo”.

Nelsão deu carona até Londres, levou Salazar para comer um lanche no McDonald’s local e ainda arranjou um hotel baratinho para ele passar a noite. No dia seguinte, o brasileiro lhe apresentou Ron Tauranac, dono da Ralt e um dos chefes de equipe mais conceituados naquele momento. No ano seguinte, ele correu no extinto campeonato inglês de Fórmula 1 e venceu uma corrida em Silverstone. Este bom resultado lhe garantiu um lugar na fraca March em 1981. Tudo graças a Piquet, de certa forma.

Salazar nunca conseguiu fazer nada em sua curta passagem a não ser irritar seu ídolo. Pouquíssimos se lembram disso, mas o episódio de Hockenheim não foi a primeira vez que Piquet foi atrapalhado pelo chileno. Em Zandvoort, o brasileiro perdeu cinco segundos porque não conseguia ultrapassar Salazar, também retardatário. Em outra corrida, Piquet havia sido bloqueado da mesma maneira.

Em Hockenheim, deu aquela merda que você já deve saber. Salazar deu o lado de fora para Piquet passar, mas não conseguiu frear seu ATS e bateu no Brabham do brasileiro na chicane. O chileno jura que a culpa não foi só dele, mas não sei de onde ele tirou isso. De qualquer jeito, os dois esqueceram o ocorrido e, hoje em dia, são bons amigos.

2- PAUL TRACY VS RAPA

Paul Tracy é outra besta de capacete. O gorducho canadense, campeão da ChampCar em 2003, era capaz de intercalar atuações espetaculares e acidentes bisonhos descaradamente. E muita gente já se revoltou, sem qualquer injustiça, com ele em algum momento da vida. Em 2006, seu espírito animalesco chegou ao fundo do poço e o cara conseguiu arranjar briga com dois pilotos em duas corridas consecutivas. Um gênio às avessas.

Em San Jose, Tracy escapou da pista em uma curva qualquer, deu um 180° meia-boca e simplesmente voltou para o traçado com tudo, sem olhar para o retrovisor e tomar cuidado com quem vinha atrás. Para seu azar, o compatriota Alex Tagliani passava pela curva naquele momento e, sem qualquer possibilidade de desvio, atingiu com tudo a traseira do Forsythe de Paul Tracy. Fim de prova para os dois.

Tagliani ficou compreensivelmente doido da vida. Nos boxes, ele encontrou Tracy e falou um monte no ouvido do canadiano adiposo. A princípio, Paul deixou pra lá e simplesmente empurrou “Tags”, que estava com as mãos em seu colarinho. Mas Tracy também se irritou pelo tanto que ouviu, partiu para cima de Tagliani e o resultado foi um quebra-pau daqueles. Ninguém perdeu dentes e sangue, os dois foram multados e Tracy ainda perdeu sete pontos, além de ficar três corridas sob observação dos comissários.

Mas não precisou nem de uma para voltar a fazer merda. Em Denver, duas semanas depois, Tracy tentou uma ultrapassagem absolutamente imbecil sobre Sebastien Bourdais na última volta, os dois bateram e saíram da corrida, deixando o caminho livre para a vitória de A. J. Allmendinger. O francês desceu do carro, esperneou um monte para Tracy e o empurrou. Tracy o chamou de volta para trocar uns socos, mas Bourdais o deixou falando sozinho. E o canadense perdeu mais três pontos e pagou uma multa de 25 mil dólares. Bourdais, Tagliani e Andrew Ranger pediram para que a torcida de Montreal, local onde seria realizado a etapa seguinte, vaiasse Tracy. E ele mereceu.

1- CALE YARBOROUGH VS IRMÃOS ALLISSON

Imagine você, piloto top da NASCAR Winston Cup, brigando a sei lá quantos quilômetros por hora pela vitória nas 500 Milhas de Daytona, uma das corridas maias importantes do planeta. É a última volta e seu adversário está logo ao lado, esperando um vacilo seu. De repente, vocês se tocam, ambos ficam irritadíssimos e um começa a empurrar o outro. Aí vocês terminam batendo e um terceiro, que não tinha nada a ver com a história, ganha de presente a corrida. Cale Yarborough e Donnie Allison sabem bem o que é isso.

Para entender a briga, é necessário voltar ao início da corrida. O irmão de Donnie, Bobby Allison, havia se envolvido em um toque com Yarborough no início da corrida e Cale acabou perdendo duas voltas. Mas ele, que foi tricampeão da NASCAR por três anos seguidos, fez uma de suas corridas memoráveis e conseguiu ascender para a segunda posição. Quem liderava era Donnie Alisson. Na última volta, os dois estavam separados por um fio de cabelo.

Cale tentou a ultrapassagem na reta oposta, mas Donnie fechou a porta. Irritado com a petulância da família Allison, Yarborough acabou pisando um pouco na grama, perdeu o controle e não se importou em jogar o carro para cima do adversário, que também se descontrolou. E durante toda a reta, cada um passou a utilizar o carro do outro para tentar recuperar o controle, sem ceder um milímetro. E é evidente que isso não deu certo: os dois carros acabaram indo direto para o muro na curva três. Richard Petty acabou herdando a vitória.

Enquanto Petty comemorava, Donnie Allison e Cale Yarborough desciam dos seus carros para discutir e trocar acusações. Vendo que o negócio estava se transformando em uma briga, Bobby Allison parou seu carro e correu para defender seu irmão, distribuindo umas bordoadas em Cale. Este, por sua vez, arremessou seu capacete no nariz de Bobby e a Terceira Guerra Mundial começou ali. Enquanto os telespectadores se divertiam à beça, o pessoal da NASCAR se juntava para evitar o conflito entre Yarborough e os irmão Allison. No fim, não aconteceu nada a ninguém e há quem diga que este foi um dos eventos que deu à categoria a fama que ela possui hoje, de categoria popular e repleta de espetáculo.