GP3: a caçulinha de Bernie Ecclestone

Com o excesso de categorias de base no cenário europeu, qualquer atrativo é atrativo. E uma categoria que surgiu em 2010 conseguiu se destacar exatamente por oferecer atrativos que as outras não conseguem. Essa foi a GP3, a caçulinha das categorias comandadas por Bernie Ecclestone.

A GP3 surgiu com a pouco nobre proposta de simplesmente derrotar a Fórmula 3 europeia. O objetivo de Bernie Ecclestone é monopolizar todo o caminho feito até a Fórmula 1. Tendo a moral, o dinheiro e os contatos que possui, bastava a ele criar um novo campeonato de baixo custo que acompanhasse os pomposos paddocks da Fórmula 1 e da GP2. Limpinha e organizadinha, a GP3 definiu que utilizaria um calendário quase igual ao da categoria imediatamente acima. E que teria apenas dez equipes, as melhores da Europa, com três pilotos para cada uma.

Aqueles tempos de categorias de base surgindo do nada e sem a menor base técnica, comercial e financeira, definitivamente, acabaram. Dentro de seus limites, a GP3 foi um sucesso em 2010. Teve grids cheios e corridas disputadíssimas. Faltou, apenas, um concorrente para o mexicano Esteban Gutierrez, que levou o título com um pé nas costas. Esteban venceu cinco corridas e marcou 17 pontos a mais que o canadense Robert Wickens, um dos destaques do ano. E também não dá pra contestar a qualidade dos demais adversários, sempre muito alta. Infelizmente, os brasileiros acabaram sofrendo com isso. O melhorzinho, como era esperado, foi Felipe Guimarães, que conseguiu um pódio e terminou o ano em 16°. Leonardo Cordeiro, Lucas Foresti e Pedro Nunes foram os demais tupiniquins.

Uma categoria certinha e profissional como a GP3 mexe seus pauzinhos com muita rapidez nessa pré-temporada. Hoje, a organização anunciou a primeira versão do calendário para 2011. Sem grandes surpresas, houve apenas uma mudança: a adição de uma rodada em Mônaco, ausente no ano passado. Ainda assim, há a necessidade de uma confirmação oficial. As equipes também estão correndo atrás de seus novos pupilos. A ART, campeã com Wickens, já montou seu “dream team”: terá os promissores James Calado e Valtteri Bottas. E Pedro Nunes, já que alguém precisa pagar as contas.

Nas outras equipes, com exceção das renovações de contrato do favoritíssimo Nico Müller com a Jenzer e de Nigel Melker com a Mücke, teremos muitas novidades. Simon Trummer largou a Jenzer e se bandeou para a MW Arden, equipe de Mark Webber e Christian Horner. E há muitos estreantes, como Will Stendl (Mücke), Nick Yelloly (ATECH), Marlon Stöckinger (ATECH) e Aaro Vainio (Tech 1). Os prognósticos para a GP3, nesse ano, são os mesmos do ano passado: ótimos. Tentarei acompanhar ao máximo a categoria em 2011.

F-3 britânica: cada vez mais internacional

Da Fórmula 3 britânica, eu tenho cacife para comentar. Vi a reprise de boa parte de suas etapas em 2010 nos meus recentes dias de férias e gostei bastante: carros velozes, pilotos competentes e ávidos pelo sucesso, pistas das mais divertidas da Europa. O domínio do francês Jean-Eric Vergne, com 13 vitórias em 30 corridas, foi tão assustador que eu até contestei a legalidade daquele Dallara-Volkswagen preparado pela Carlin e patrocinado pela Red Bull. Em saída de curva e nas retas, a superioridade do bólido de Jean-Eric era perceptível. Mas tudo bem. Vergne é dos bons.

2010 foi bom porque os estreantes deram show. Entre os cinco primeiros colocados, quatro deles eram calouros: além de Vergne, o vice James Calado, o terceiro colocado Oliver Webb e o quinto colocado Felipe Nasr. O melhor veterano foi outro brasileiro, Adriano Buzaid, o quarto colocado. Os brasileiros tiveram um bom ano de modo geral, mas demonstraram certa falta de calma e irregularidade em alguns momentos. Deve ser a juventude. Com exceção de Lucas Foresti, os garotos daqui demonstraram ter bastante potencial e, com boa orientação e sorte, poderão chegar longe.

Em 2011, as coisas deverão continuar positivas para o Brasil. Três nomes já foram anunciados até aqui. O brasiliense Felipe Nasr trocou a Double R pela favoritíssima Carlin e entra no campeonato como o favorito ao título. Além dele, dois estreantes: Pipo Derani corre pela mesma Double R e Yann Cunha, campeão da Fórmula 3 sul-americana, pela T-Sport. Entre os outros pilotos já confirmados, destacam-se o inglês com nacionalidade barenita Menasheh Idafar, campeão da National Class em 2010, os ingleses 100% from UK William Buller, Rupert Svendsen-Cook e Jack Harvey e o dinamarquês Kevin Magnussen, filho de Jan Magnussen.

Outras mudanças importantes já foram anunciadas. Os dois campeonatos da Fórmula 3 britânica serão renomeados, deixando de ser Championship Class e National Class para se tornarem International Class e Rookie Class, sendo que o campeão desta última receberá como prêmio uma temporada inteiramente paga na série International. Na terceira etapa de cada rodada, passará a ser obrigatória a parada de boxes para troca de, no mínimo, dois pneus. E o calendário continuará tendo dez rodadas triplas, com Monza, Nürburgring, Donington e Magny-Cours substituindo Thruxton, Hockenheim, Paul-Ricard e a rodada de Silverstone que utiliza o setor Bridge. A tendência da categoria é transferir cada vez mais etapas para pistas de outros países europeus. Não por acaso, o nome oficial da categoria é British F3 International Series.

AutoGP: aquela que quer se profissionalizar

Outra categoria que deve ter um 2011 razoável é a AutoGP. Esta daqui, que já teve muitas denominações, quer se consolidar como um porto seguro para pilotos que não conseguem encontrar vagas na Fórmula 1 e também como uma incubadora de talentos. Em 2010, a AutoGP conseguiu realizar um bom primeiro campeonato, apesar da descrença e do esquecimento por parte da mídia e da torcida. Os pilotos, que não eram muitos, utilizaram o antigo Lola-Zytek da A1GP, carro que tem poderosos 550cv de potência. Equipes como DAMS, Charouz, Supernova e Trident marcaram presença, além de pilotos do calibre de Luca Filippi, Giorgio Pantano, Esteban Guerrieri e Carlos Iaconelli. Ganhou Romain Grosjean, que participou de apenas quatro rodadas duplas, ganhou quatro corridas e fez 16 pontos a mais que o vice, Edoardo Piscopo.

Faltaram, como eu disse acima, uma maior atenção por parte da mídia e também um pouco mais de carros no grid. Em 2011, as coisas deverão melhorar um pouco. Três equipes novas, a Campos (sim, aquela…), a TP e a Edil Cris, já anunciaram participação com dois carros. Serão sete rodadas duplas, uma a mais que no ano passado, e a categoria substituirá a Fórmula 2 como parceira oficial do WTCC. Com isso, estreiam as etapas de Marrakech, Donington, Oschersleben, Bucareste e Valência e saem as de Imola, Spa-Francorchamps, Magny-Cours e Navarra.

Como a AutoGP tem como objetivo ser uma categoria profissional e, de certo modo, autossuficiente, ela tem alguns atrativos bem interessantes. O mais óbvio é a premiação em dinheiro, algo único no automobilismo de base. E que premiação! Nada menos do que 1,2 milhão de dólares será entregue ao campeão da categoria, um chamariz que atrai muita gente experiente, como Luca Filippi, que já confirmou que seguirá na categoria em 2011. Para dar mais identidade aos participantes, a organização já confirmou também que a escolha de números será livre por parte das equipes. Com exceção do número 1, reservado à equipe campeã, os demais poderão ser escolhidos livremente pelas demais participantes da maneira que convier. Se, por exemplo, a Charouz quiser usar o 2 e o 76, poderá fazê-lo perfeitamente. Achei legal. Confesso que torci o nariz para a AutoGP no ano passado, mas espero que a categoria dê certo nesse ano.

João Paulo de Oliveira na F-Nippon: brasileiro reina em categoria esquecida pelos ocidentais

Um dos leitores, o Zim, pediu pra que eu fizesse um comentário sobre a Fórmula Nippon. Reconheço que meu interesse, nesse sentido, sempre foi muito maior com relação à antiga Fórmula 3000 japonesa, aquela que abrigou Heinz-Harald Frentzen, Eddie Irvine, Johnny Herbert, Mika Salo, Jeff Krosnoff e demais dissidências ocidentais. Da atual F-Nippon, não sei muita coisa. Mas não há como não falar de João Paulo de Oliveira, o campeão da categoria no ano passado.

João Paulo é um daqueles talentos que um país civilizado teria muito orgulho de ter. No Brasil, foi o único piloto da história da Fórmula 3 sul-americana a fazer uma pole-position com um carro da categoria B, em 1999. Depois, com muitas dificuldades financeiras, conseguiu ganhar os títulos da Fórmula 3 alemã em 2003 e da Fórmula 3 japonesa em 2005. Mesmo assim, Oliveira nunca conseguiu chegar nem perto da GP2. A Williams lhe deu um teste no início de 2006 e só. Restou a JP fazer suas corridinhas no turismo japonês e na Fórmula Nippon para, ao menos, embolsar uns bons cobres. No SuperGT, foi o vice-campeão. E na Nippon, após vencer duas corridas, o brasileiro sagrou-se campeão com quatro pontos a mais que o experiente alemão Andre Lotterer.

No Japão, a Fórmula Nippon rende tanta audiência e dinheiro quanto a Fórmula 1, e seus pilotos são verdadeiros ídolos locais. Fora da ilha, a categoria só é vista por fanáticos patológicos do automobilismo alternativo. É uma pena, pois as pistas são muito boas, as corridas são divertidíssimas e os acidentes são uma atração à parte. O carro, um Swift-Toyota, é muito bonito e veloz. E há nomes conhecidos por lá, como o ex-GP2 Kohei Hirate e o folclórico Yuji Ide. Como um campeonato desses pode ser tão ignorado?

Em 2011, não haverá muitas mudanças. O calendário seguirá com as mesmas corridas, com a única diferença de que a etapa de Autopolis será a terceira e não mais a antepenúltima do campeonato. O número de carros não deverá mudar muito, mas comenta-se que o plantel de pilotos receberá uma estrela vinda da Europa: Kazuki Nakajima, ex-piloto da Williams, que já participou de testes coletivos com o Swift da equipe TOM’S. Em compensação, os poucos europeus que competem por lá não deverão seguir. O francês Loic Duval já anunciou que só correrá no SuperGT, o alemão Lotterer também não sabe se segue e o também francês Benoit Treluyer segue quieto, sem anunciar nada. Pelo visto, a Fórmula Nippon será bem nipônica em 2011.

E me recuso a falar da tal A10 World Series. Motivo? Olhem o site. Quem não sabe nem contratar um webdesigner decente não pode saber tocar uma categoria.

Espero falar sobre todas as categorias apresentadas aqui durante o ano, até porque a Fórmula 1, a Indy e a GP2 estão bem sonolentas na hora de render assunto…

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