Não sei se é o alinhamento dos astros, mas o caso é que tá todo mundo nervoso nesses últimos dias. Na NASCAR Sprint Cup, dois dos garotos-problema da categoria voltaram a arranjar confusão. Na etapa de Darlington, realizada neste último fim de semana, Kyle Busch e Kevin Harvick disputavam a oitava posição quando Busch acabou tocando em Harvick, que perdeu o controle e foi direto ao muro. Faltavam poucos quilômetros para o fim e os dois retornaram. A zebra Regan Smith ganhou a prova, mas todos estavam de olho para ver o que ia acontecer com os dois problemáticos.

Muito puto, Harvick começou a perseguir Busch como um gato ávido por degustar um rato. Em uma das cenas mais cômicas do automobilismo contemporâneo, o carro 29 ficou seguindo o 18 por alguns minutos. Quando Busch parou atrás do carro de Harvick dentro dos pits, Kevin desceu doido para bater em seu adversário e correu em direção ao Toyota de Kyle. Ao perceber o inimigo chegando, Busch simplesmente acelerou e empurrou o Impala de Harvick no muro. Depois disso, os mecânicos dos dois pilotos começaram a protagonizar aquele típico vale-tudo nascariano. Um espetáculo, como de costume na categoria.

Na mais civilizada e cosmopolita Fórmula 1, houve incidente semelhante no fim de semana do GP da China. O alemão Adrian Sutil, piloto da Force India, se engalfinhou em uma festa com Eric Lux, diretor executivo do Grupo Genii, que controla a equipe Renault. Não foi divulgado o motivo do imbróglio, mas testemunhas garantem que Lux saiu do recinto com o pescoço sangrando. E há quem diga que Lewis Hamilton, amigo colorido de Sutil, também estava envolvido. Em comunicado oficial, Sutil se desculpou pelo ocorrido. Muito fácil, depois de quase arrebentar a jugular do sujeito.

Brigas são absolutamente comuns em qualquer âmbito de nossas vidas, ainda mais no meio esportivo. Eu sou péssimo em briga, não consigo dar porrada em um velho com Alzheimer. A maior parte dos pilotos também não se destaca muito nisso. Mas há muitas histórias, algumas delas devidamente captadas por câmeras de TV. Conto cinco delas, cada uma de uma categoria diferente. É um Top Cinq difícil, já que há muitas brigas que foram até melhores.

5- OLIVIER PANIS VS VINCENZO SOSPIRI

(2:39)

Citar Olivier Panis nesse ranking é curioso, já que o francês sempre foi conhecido na Fórmula 1 pela sua boa-pracice e pela tranquilidade. Dizem, por exemplo, que foi o único companheiro de equipe de Jacques Villeneuve que se deu bem com o canadense. Já Vincenzo Sospiri, embora não tão conhecido no mainstream, não parece ter a mesma boa fama. Em 1991, como retardatário de uma corrida de Fórmula 3000 Internacional, ele deliberadamente se chocou com o companheiro Damon Hill em duas oportunidades, invejoso pelo fato do inglês estar subindo ao pódio.

Em 1993, ambos estavam nessa mesma Fórmula 3000. Panis chegou à última etapa, em Nogaro, como o líder do campeonato, com apenas um ponto a mais do que o português Pedro Lamy. O francês fez o segundo tempo na classificação, atrás do companheiro Franck Lagorce, e largou apenas para obter uma pontuação mínima que lhe garantisse o título. Mas ele não contava com o italiano Sospiri, que largara em quinto e causou um acidente com Olivier na primeira volta, tirando os dois da prova. Como Lamy já estava entre os seis primeiros, o título já estava em suas mãos lusas.

Panis desceu do carro enlouquecido. Ao chegar aos pits, a primeira coisa que ele quis fazer foi dar um pulo aos boxes da Mythos, equipe de Sospiri, visando meter umas porradas na fuça do italiano folgado. Os mecânicos da DAMS, equipe do francês, tiveram de segurá-lo, porque ia sair pancadaria feia. No outro lado do ringue, Sospiri estava lá, pronto para revidar. Cada piloto estava sendo contido pelos seus mecânicos. Uma balbúrdia.

A situação só não ficou preta de verdade porque, faltando três voltas para o fim, Pedro Lamy entrou nos pits com a suspensão quebrada. Fim de prova para o português, que não conseguia marcar os pontos que lhe dariam o título. E Panis acabou se consagrando como o campeão da Fórmula 3000 em 1993. Que alívio, hein, monsieur Olivier?

4- NICOLAS MINASSIAN VS MICHAEL BENTWOOD

(2:03)

O francês de origem armena Nicolas Minassian é um dos maiores babacas que eu já vi no automobilismo mundial. Do tipo nervosinho, Nicolas já arranjou briga com muita gente em sua carreira. Na Fórmula 3000, já trocou desaforos com Soheil Ayari em 1998 e meteu um murro na cara de um mecânico de sua equipe na etapa de San Marino de 2003. Na CART, ele também brigou com Christian Fittipaldi em um acidente no início de 2001. Mas o pior foi o ocorrido na Fórmula 3 britânica em 1997.

Minassian pilotava um Dallara-Renault da equipe Promatecme e era um dos favoritos ao título. Em Thruxton, terceira etapa do campeonato, ele largou na pole-position e vinha liderando até a última volta. O problema é que Jonny Kane, inglês que viria a ser o campeão daquele ano, estava colado na sua traseira e a ultrapassagem parecia ser iminente. Na derradeira volta, apareceu o retardatário Michael Bentwood, que abriu espaço por um lado da pista. Só que Minassian tentou ir pelo lado do retardatário por alguma razão obscura, os dois se tocaram e o francês perdeu a vitória para Kane em uma das últimas curvas.

Ensandecido, Minassian perseguiu Bentwood na volta de desaceleração, parou seu Dallara em frente ao carro do inglês, desceu, pegou algumas pedras na caixa de brita e começou a atirar na cabeça do pobre retardatário! Como ele estava de capacete, nada aconteceu. Depois, Minassian foi até o cockpit do gaiato e lhe deu umas bolachas, mas o capacete tornou essa atitude igualmente inútil.

Os dois foram chamados pela organização e tiveram uma conversa de botequim de quase duas horas. Pelo espetáculo, Minassian foi desclassificado e impedido de participar das duas etapas seguintes, em Brands Hatch e em Croft. Essa punição foi preponderante para a derrota de Nicolas Minassian em 1997.

3- NELSON PIQUET VS ELISEO SALAZAR

Essa briga aqui é conhecidíssima por todos. Por isso, vou comentar alguns detalhes que não são muito conhecidos por todos.

Diz Eliseo Salazar que Nelson Piquet foi seu grande ídolo antes de entrar na Fórmula 1. Em 1979, Salazar viajou para a Inglaterra para tentar arranjar emprego. Ele havia vencido o campeonato argentino de Fórmula Ford 1600 no ano anterior e queria correr na Fórmula 3. Então, ele foi assistir à etapa de Thruxton. Após a corrida, meio perdidão, Eliseo começou a pedir carona na frente do autódromo. Não demora muito e para um Alfa Romeo vermelho. É Nelson Piquet, então piloto da Brabham. Segundo o chileno, “foi como ver Deus, Alá e Buda ao mesmo tempo”.

Nelsão deu carona até Londres, levou Salazar para comer um lanche no McDonald’s local e ainda arranjou um hotel baratinho para ele passar a noite. No dia seguinte, o brasileiro lhe apresentou Ron Tauranac, dono da Ralt e um dos chefes de equipe mais conceituados naquele momento. No ano seguinte, ele correu no extinto campeonato inglês de Fórmula 1 e venceu uma corrida em Silverstone. Este bom resultado lhe garantiu um lugar na fraca March em 1981. Tudo graças a Piquet, de certa forma.

Salazar nunca conseguiu fazer nada em sua curta passagem a não ser irritar seu ídolo. Pouquíssimos se lembram disso, mas o episódio de Hockenheim não foi a primeira vez que Piquet foi atrapalhado pelo chileno. Em Zandvoort, o brasileiro perdeu cinco segundos porque não conseguia ultrapassar Salazar, também retardatário. Em outra corrida, Piquet havia sido bloqueado da mesma maneira.

Em Hockenheim, deu aquela merda que você já deve saber. Salazar deu o lado de fora para Piquet passar, mas não conseguiu frear seu ATS e bateu no Brabham do brasileiro na chicane. O chileno jura que a culpa não foi só dele, mas não sei de onde ele tirou isso. De qualquer jeito, os dois esqueceram o ocorrido e, hoje em dia, são bons amigos.

2- PAUL TRACY VS RAPA

Paul Tracy é outra besta de capacete. O gorducho canadense, campeão da ChampCar em 2003, era capaz de intercalar atuações espetaculares e acidentes bisonhos descaradamente. E muita gente já se revoltou, sem qualquer injustiça, com ele em algum momento da vida. Em 2006, seu espírito animalesco chegou ao fundo do poço e o cara conseguiu arranjar briga com dois pilotos em duas corridas consecutivas. Um gênio às avessas.

Em San Jose, Tracy escapou da pista em uma curva qualquer, deu um 180° meia-boca e simplesmente voltou para o traçado com tudo, sem olhar para o retrovisor e tomar cuidado com quem vinha atrás. Para seu azar, o compatriota Alex Tagliani passava pela curva naquele momento e, sem qualquer possibilidade de desvio, atingiu com tudo a traseira do Forsythe de Paul Tracy. Fim de prova para os dois.

Tagliani ficou compreensivelmente doido da vida. Nos boxes, ele encontrou Tracy e falou um monte no ouvido do canadiano adiposo. A princípio, Paul deixou pra lá e simplesmente empurrou “Tags”, que estava com as mãos em seu colarinho. Mas Tracy também se irritou pelo tanto que ouviu, partiu para cima de Tagliani e o resultado foi um quebra-pau daqueles. Ninguém perdeu dentes e sangue, os dois foram multados e Tracy ainda perdeu sete pontos, além de ficar três corridas sob observação dos comissários.

Mas não precisou nem de uma para voltar a fazer merda. Em Denver, duas semanas depois, Tracy tentou uma ultrapassagem absolutamente imbecil sobre Sebastien Bourdais na última volta, os dois bateram e saíram da corrida, deixando o caminho livre para a vitória de A. J. Allmendinger. O francês desceu do carro, esperneou um monte para Tracy e o empurrou. Tracy o chamou de volta para trocar uns socos, mas Bourdais o deixou falando sozinho. E o canadense perdeu mais três pontos e pagou uma multa de 25 mil dólares. Bourdais, Tagliani e Andrew Ranger pediram para que a torcida de Montreal, local onde seria realizado a etapa seguinte, vaiasse Tracy. E ele mereceu.

1- CALE YARBOROUGH VS IRMÃOS ALLISSON

Imagine você, piloto top da NASCAR Winston Cup, brigando a sei lá quantos quilômetros por hora pela vitória nas 500 Milhas de Daytona, uma das corridas maias importantes do planeta. É a última volta e seu adversário está logo ao lado, esperando um vacilo seu. De repente, vocês se tocam, ambos ficam irritadíssimos e um começa a empurrar o outro. Aí vocês terminam batendo e um terceiro, que não tinha nada a ver com a história, ganha de presente a corrida. Cale Yarborough e Donnie Allison sabem bem o que é isso.

Para entender a briga, é necessário voltar ao início da corrida. O irmão de Donnie, Bobby Allison, havia se envolvido em um toque com Yarborough no início da corrida e Cale acabou perdendo duas voltas. Mas ele, que foi tricampeão da NASCAR por três anos seguidos, fez uma de suas corridas memoráveis e conseguiu ascender para a segunda posição. Quem liderava era Donnie Alisson. Na última volta, os dois estavam separados por um fio de cabelo.

Cale tentou a ultrapassagem na reta oposta, mas Donnie fechou a porta. Irritado com a petulância da família Allison, Yarborough acabou pisando um pouco na grama, perdeu o controle e não se importou em jogar o carro para cima do adversário, que também se descontrolou. E durante toda a reta, cada um passou a utilizar o carro do outro para tentar recuperar o controle, sem ceder um milímetro. E é evidente que isso não deu certo: os dois carros acabaram indo direto para o muro na curva três. Richard Petty acabou herdando a vitória.

Enquanto Petty comemorava, Donnie Allison e Cale Yarborough desciam dos seus carros para discutir e trocar acusações. Vendo que o negócio estava se transformando em uma briga, Bobby Allison parou seu carro e correu para defender seu irmão, distribuindo umas bordoadas em Cale. Este, por sua vez, arremessou seu capacete no nariz de Bobby e a Terceira Guerra Mundial começou ali. Enquanto os telespectadores se divertiam à beça, o pessoal da NASCAR se juntava para evitar o conflito entre Yarborough e os irmão Allison. No fim, não aconteceu nada a ninguém e há quem diga que este foi um dos eventos que deu à categoria a fama que ela possui hoje, de categoria popular e repleta de espetáculo.

O Top Cinq de hoje homenageia cinco indivíduos cujos quinze minutos de fama não duraram muito mais do que isso em termos literais. Homens que adentraram uma sexta-feira ansiosos por aquilo que seria seu primeiro e ao mesmo tempo último fim de semana na Fórmula 1. Em apenas três, dois dias ou até mesmo um único dia, eles inscreveram seu nome na história como um entre os pouco mais de 800 pilotos que tiveram o privilégio de participar da categoria máxima de monopostos mundial. Alguns são desconhecidos, outros até ficaram famosos devido à sua participação. Comecemos, pois:

5- BERNARDUS PON (Holanda/1962)

Cadê o Pon?

É um desconhecido com histórias bem interessantes por trás.

Bernardus Pon era um moleque rico cujo pai ganhou dinheiro inaugurando as importações do Volkswagen Fusca para a Holanda. Seu início no automobilismo se deu nas corridas de carros esporte, e até que ele não se deu tão mal, conseguindo vencer várias corridas no seu país.

Sua amizade com Carel Godin de Beaufort o ajudou a chegar à Fórmula 1. Beaufort era dono de uma equipe privada que utilizava antigos Porsche com motores de quatro cilindros e sua intenção era inscrever um carro a mais para seu amigo a partir do Grande Prêmio da Holanda de 1962, realizado no circuito de Zandvoort. Em uma época em que as equipes de ponta já utilizavam os V8, ninguém esperava nada de Beaufort ou Pon.

A equipe não esteve bem nos treinos, mas Pon conseguiu ficar bem atrás de De Beaufort. Na corrida, ele vinha conduzindo seu Porsche de maneira bem agressiva até que deu de cara com uma enorme mancha de óleo. Seu carro rodopiou para fora da pista e saiu capotando para lá e para cá, com Bernardus sendo arremessado para fora do carro. De Beaufort parou seu carro no local para socorrer o amigo, mas se surpreendeu ao encontrá-lo vivo, inteiro e com apenas uns arranhões.

No entanto, Pon foi categórico: Fórmula 1, nunca mais. Ele continuou a correr por um tempo nos carros esporte, mas decidiu mudar de modalidade esportiva. E surgia aí um dos atletas do tiro ao alvo (!) da delegação holandesa enviada para as Olimpíadas de Munique em 1972!

4- VINCENZO SOSPIRI (Austrália/1997)

Este é o primeiro dos dois italianos cujas carreiras na Fórmula 3000 foram muito mais relevantes (e longas) do que na Fórmula 1. Vincenzo sempre se destacou pela inteligência dentro da pista e pela falta do dinheiro que poderia levá-lo à Fórmula 1. Fez quatro temporadas completas na F3000 e o título veio apenas na última, em 1995, primeiro ano em que Sospiri dispunha de um carro realmente bom para isso.

Seu prêmio para 1996 foi uma vaga de piloto de testes na Benetton. No entanto, ele, aos 30 anos, queria mesmo era ser piloto de corridas. Para 1997, ele encontrou uma vaga de segundo piloto da Mastercard Lola. A equipe, patrocinada por uma gigante dos cartões de crédito e dotada de uma ótima infraestrutura, até que prometia, mas atrasos na construção do carro resultaram em uma das piores criações automotivas da história da categoria.

No fim das contas, Melbourne foi a única corrida da equipe e de Vincenzo Sospiri. O italiano deu um total de 41 voltas nas três sessões em que participou e até que não foi tão mal em comparação a seu companheiro Ricardo Rosset: na briga interna no treino oficial, vantagem de 1s1 para Sospiri. No entanto, isso significava que ele estava a monstruosos 11s6 do tempo da pole-position de Jacques Villeneuve.

Insatisfeitíssima com a performance da Lola na etapa australiana, a Mastercard anunciou a retirada do patrocínio dias antes do Grande Prêmio do Brasil. Sem pestanejar, a Lola fechou sua divisão de Fórmula 1 e Sospiri nunca mais conseguiu participar de outro fim de semana na Fórmula 1.

3- MARCO APICELLA (Itália/1993)

O caso de Sospiri é bastante chato, mas considero este ainda pior.

Marco Apicella era um piloto com um ótimo potencial, tanto que pulou direto do kart para a Fórmula 3 italiana. Nunca foi campeão nos monopostos, mas sempre andou na frente, tanto na Fórmula 3 como na Fórmula 3000 japonesa como nas 53 corridas feitas na Fórmula 3000 Internacional até então, recordista de participações por dez anos. A falta de dinheiro, porém, era um enorme empecilho.

Impressionado com as performances de Apicella na F3000 japonesa, Eddie Jordan o resgatou do ostracismo nipônico para colocá-lo no carro nº 15 que correria o GP da Itália de 1993. Depois de um bocado de tempo, finalmente Marco, 28, estrearia na Fórmula 1.

Mas ele sabia que teria muito trabalho pela frente. E o azar esteve sempre ao seu lado. Nos treinos de sexta-feira, ele pegou óleo na Lesmo e rodopiou em direção ao guard-rail momentos depois. Fez um discreto 23º tempo no segundo treino oficial no sábado e não tinha lá grandes pretensões para a corrida. Corrida?

Praticamente não houve corrida para Marco Apicella. O italiano foi envolvido na confusão da largada quando foi tocado por JJ Lehto e rodopiou. Tomando todo o cuidado do mundo, não deixou o motor morrer. Infelizmente, a suspensão dianteira estava quebrada e não havia nada mais para fazer.

Saldo de Apicella: 53 corridas na Fórmula 3000, uma reta na Fórmula 1.

PS: em 1999, Apicella apareceu em Spa-Francorchamps para tentar largar para a corrida da Fórmula 3000 Internacional. Com 41 concorrentes tentando 26 lugares no grid, ele ficou de fora. Tinha 34 anos na época. Pelo visto, esse realmente nasceu para a F3000. 

2- MASAMI KUWASHIMA (Japão/1976)

E o que falar de um piloto de um único dia? Sim, ele existiu!

Masami Kuwashima era um piloto japonês de currículo irregular e discreto. Na verdade, seu currículo em questão se resumia a um punhado de corridas de Fórmula 2000 em seu país natal. Como naqueles tempos não havia uma série de exigências técnicas para um piloto estrear na Fórmula 1, até mesmo um zé-mané como ele poderia arranjar um lugarzinho em alguma equipe de fundo de quintal caso houvesse dinheiro. E Kuwashima o tinha.

Ele queria correr o primeiro Grande Prêmio do Japão da história a todo custo. A corrida seria realizada no autódromo de Fuji em 1976 e Kuwashima desenvolveu bons contatos naquele ano com a RAM, equipe privada que utilizava antigos Brabham. Sua estréia com a equipe, porém, não poderia acontecer: o carro foi apreendido por motivos legais! Masami teve de ir atrás de outra vizinhança e acabou dando de cara com o franzino e desesperado Frank Williams, que tocava sua precária equipe ao lado do canadense Walter Wolf. Um rápido acordo foi feito e Kuwashima estava confirmado para a corrida japonesa. Ele utilizaria o Wolf-Williams FW05 ao lado de Arturo Merzario.

Masami fez exatamente dois treinos e até que ele não foi tenebrosamente mal. Na primeira classificação, ele ficou a pouco mais de cinco segundos do pole-position Mario Andretti com o tempo de 1m17s90. Atrás dele, o estreante Noritake Takahara e Tony Trimmer pagando penitência com o Maki. Mas sua participação terminou aí, já que seus patrocinadores desistiram de apoiá-lo para a corrida. Frank Williams não tardou em dar-lhe um pé na bunda e colocar Hans Binder em seu lugar para fazer o treino oficial do dia seguinte.

E terminou aí a carreira de Kuwashima na Fórmula 1. Em um único dia.

1- MARKUS WINKELHOCK (Europa/2007)

Quem disse que os tempos atuais não reservam mais surpresas e histórias curiosas?

Em um dia de julho de 2007, a equipe Spyker precisou demitir Christijan Albers por motivos técnicos e financeiros. Como a demissão foi feita dias antes da corrida de Nürburgring, nada mais interessante do que colocar um piloto alemão em seu lugar e chamar a atenção da mídia e da torcida, não é? A equipe acabou colocando para correr Markus Winkelhock, piloto de testes da equipe. Winkelhock nunca havia mostrado grandes coisas na carreira e na DTM, campeonato que ele disputava na época e também atualmente, não passava de um coadjuvante. Com tantos alemães na pista, ninguém daria muita bola para o filho do Manfred Winkelhock.

Winkelhock, de fato, não chamou a atenção nos treinos. A corrida, porém, reservaria fortes emoções.

Havia uma previsão de chuva para a hora da largada. Ao invés de esperar, a direção de prova decidiu realizar a largada de qualquer jeito. 21 dos 22 pilotos foram para o grid, já que Winkelhock foi para os pits colocar pneus de chuva forte. Já pensou se caísse um temporal ainda na primeira volta, pensou Markus? Todo mundo teria de ir para os pits e seria uma boa chance de ganhar posições.

Aconteceu exatamente isso, mas o resultado saiu melhor que a encomenda. Todos os pilotos foram para os pits, com exceção de Kimi Raikkonen, e Winkelhock assumiu a segunda posição a bordo de um Spyker! Todos ficaram acompanhando atentamente a ascensão sensacional do novato. Como a chuva piorava, Raikkonen mal conseguia se manter na pista com os pneus pra pista seca e acabou sendo ultrapassado pela diligência laranja com pneus de chuva. E Winkelhock era o líder na segunda volta de sua primeira corrida a bordo do pior carro do grid! Inacreditável!

Markus seguiu na liderança até a volta de número sete. Durante esse período, o temporal tirou um monte de pilotos da corrida e a organização da corrida decidiu, acertadamente, interrompê-la. Como a largada seria realizada com os pilotos nas mesmas posições de momentos antes da interrupção, Markus partiria da liderança.

A corrida foi reiniciada um tempo depois em pista seca. Com as limitações naturais do carro e a falta de experiência, Winkelhock acabou sendo ultrapassado por todo mundo no grid. Porém, ainda conseguiu dar uma volta no problemático Lewis Hamilton e sua McLaren. Abandonou na volta 13. Mas não precisava de mais nada. Estas 13 voltas entraram para a história como um dos momentos mais bizarros que a Fórmula 1 já presenciou.