Sem grandes manchetes ou enorme vontade de explorar algum assunto esquecido, exercito meu lado ficcional. Depois de imaginar como seriam as abastadas porém medíocres vidas de Bernie Ecclestone e Danica Patrick, o próximo alvo das maledicências será um piloto não tão antigo de Fórmula 1. Presente na categoria entre 1994 e 2002, o finlandês Mika Salo destacava-se por ser um James Hunt nórdico, completamente chapado e politicamente incorreto.

Hoje, apresento um dia de sua vida nos tempos de Fórmula 3 britânica, mais precisamente no fim de 1990.

Everyone has been burned before, everybody knows the pain.

O aparelho de som tocava The Charlatans na maior altura. As músicas do então emergente movimento madchester soavam bela trilha sonora para o cenário de decadência juvenil que assolava aquele frio e úmido casebre localizado em um bairro de baixo nível do borough londrino de Croydon. Lá fora, o céu acinzentado e infeliz de sempre. Garoava um pouco. O calor humano, definitivamente, era maior lá dentro.

Uma república de estudantes de universidade pública parecia um convento franciscano perto daquela típica habitação inglesa. Tênis para lá, meias para cá, revistas pornô sobre a geladeira, seringas espalhadas pelo chão, garrafas de cerveja Guinness dividindo espaço com uma lata de feijão e um pote de aspirinas, papel higiênico grudado no teto e televisão ligada em um daqueles documentários altamente entediantes da BBC. Os protagonistas do caos adolescente eram quatro sujeitos que, definitivamente, não são exemplos de moral e boa conduta.

Momb’ndoki era um senegalês de 27 anos que havia chegado à Inglaterra três ou quatro anos antes dentro de um contêiner sul-africano. Seu inglês era miserável, assim como sua vida londrina: uma rotina de pequenos biscates, futebol na TV, mulheres e vontade nula de pensar em coisas sérias. Na casa, ele era chamado de “the big one” e prefiro não comentar o motivo.

Linda era uma irlandesa de 19 anos que havia acabado de fugir de casa. Sua família, dona de uma rede de lavanderias em Dublin, era endinheirada e sofisticada, mas a princesinha detestava o luxo e a hipocrisia pseudoaristocrática que a rondava. Foi para a Inglaterra, fez 14 tatuagens, pintou o cabelo de azul e decidiu que queria ser roqueira. Trabalhava servindo bebida e fazendo cover de Cindy Lauper, sua inspiração, no Grant’s, um pub que fica logo ali. Tinha uma namorada, mas estava quase no fim do relacionamento.

Álvaro era um colombiano de 31 anos que vivia como traficante de quinta categoria nos subúrbio londrino. Esperto, sempre conseguia escapar da polícia e detinha nada menos que 21 identidades de 14 países. Naqueles dias, ele circulava por Londres como um brasileiro chamado Ayrton. Álvaro recebia drogas fresquinhas da América do Sul e revendia para a multidão de viciados que assolava a capital inglesa, além de fornecer algum para seus convivas de casa. Que, aliás, eram os únicos que sabiam que ele se chamava Álvaro. Isso se este realmente fosse seu nome.

O quarto habitante era exatamente Mika Juhani Salo, um finlandês de 23 anos que sonhava em seguir os passos de Keke Rosberg e se tornar um piloto de Fórmula 1. Ao contrário de seus colegas de casa, Mika era o único que parecia ter algum futuro na vida. Por outro lado, honrando seu sangue finês, era o que mais bebia, o que mais cheirava e o que mais injetava de longe. Seus companheiros até estranhavam, já que ele era boa-pinta e não ganhava nada vivendo na merda com um monte de escória. Um Diário de um Adolescente finlandês, por assim dizer.

Os quatro estavam basicamente desmaiados. Mika estava praticamente morto no chão, com um perdigoto de vômito no canto da boca, uma prostituta inerte ao seu lado, três garrafas vazias de vodka barata e um pouco de pó espalhado pelo chão. De repente, toca o despertador, barulhento como o cão. Eram onze da manhã. Salo dá um pulo, olha para os lados assustado e percebe que, não, a polícia não havia arrombado a porta. Levanta-se, boceja, limpa o vômito da boca, coça o saco, desliga o aparelho de som e começa seu dia.

Mika Salo estranha toda aquela bagunça. Ele não se lembra de muita coisa. Por que toda aquela gente caída, todas aquelas garrafas e seringas estavam espalhadas no chão? Ele abre a geladeira, só há alguns ovos em estado de petição e uma torta de rim de três semanas atrás. Senta na privada, que fica ao lado do fogão, engole tudo rapidamente e dá uma cheiradinha rápida para começar bem a manhã. Aos poucos, todo mundo vai acordando.

Momb’ndoki se aproxima.

– Hey, big one, why this mess on the floor? Did we party last night?

– Hai, Mika, duntyu rimembah? Wiwa celebreytin da invitaytion yu riceevat from Tyrel.

É isso mesmo. Todo mundo estava festejando o convite que Mika Salo havia recebido de Ken Tyrrell para testar um carro de Fórmula 1 após o fim da temporada da Fórmula 3 britânica, categoria na qual ele participava com enorme sucesso e aparecia como um dos destaques. A memória aparecia aos poucos. Mika e amigos se entupiram de sexo, drogas e rock’n roll durante toda a madrugada. Em algum momento, ele deve ter apagado.

O problema é que sua precária condição não poderia estar tão aparente. Mika teria de participar de um teste coletivo da Fórmula 3 britânica lá em Brands Hatch com sua equipe, a Alan Docking Racing. Um representante da Tyrrell estaria presente neste teste para analisar o estilo de pilotagem do jovem finlandês. Pegaria muito mal para Salo, portanto, esfregar na cara do sujeito da Fórmula 1 que ele não passava de um adolescente bêbado e viciado.

Após seu frugal breakfast, Salo foi ao banheiro, se limpou, penteou o cabelo e até escovou os dentes. Depois, pegou uma roupa nova que seus pais haviam mandado por correio algumas semanas antes e foi à luta. No seu guarda-roupa, três pôsteres: um de James Hunt, outro de Jim Morrison e o terceiro de Charles Manson. Enquanto os pilotos contemporâneos se orgulham de ter ídolos “exemplares”, Mika admirava os mais pirados, aqueles marginalizados por vovós e carolas em geral.

Antes de entrar em seu Ford Escort, Mika cheira mais um pouco e vira meia garrafa de vodka: diz ele que não consegue pilotar sem estar sob efeito de álcool. Quando ele começa a sair da garagem, Momb’ndoki vem atrás e grita:

– Mika, yuah fugettin yohellmadut!

– WHAT?!

Momb’ndoki, o melhor amigo do finlandês, era foda. Seu inglês era realmente triste. Mais devagar, ele repete, traduzindo para o português, “você está se esquecendo do seu capacete, cara”. Mais atrás, Linda e Álvaro se aproximam e desejam boa sorte. O colombiano ainda enfia uns pacotinhos com cocaína no bolso do macacão do piloto para o caso de alguma necessidade. E Salo segue em direção a Brands, que não era tão longe dali. Em altíssima velocidade, é claro.

No meio do caminho, um guarda o para. Salo dá risada.

– E aí, Paul, como vai a vida?

– Na paz, Mika. E você, tá indo com pressa pra onde? Tá parindo um filho?

– Hahaha! Tenho teste lá em Brands Hatch agora. Vai me prender? Hahahaha.

– Deveria, viu. Se meu chefe visse isso, nós dois estávamos completamente fodidos, hahahaha.

– Hahahahaha.

– Mas preciso te falar uma coisa, Mika. É coisa séria.

– Porra, o que foi, Paul?

– Tô saindo mais cedo hoje e vão colocar um outro cara no meu lugar daqui a pouco. Pelo que eu sei, o sujeito é meio barra-pesada, não é do tipo que vai deixar você dirigir bêbado e drogado por aí. Evita passar por aqui mais tarde, então.

– Beleza. Valeu pelo aviso, Paul.

E Mika segue a viagem a mil em direção a Brands.

Ao chegar lá, ele avista seu xará Mika Hakkinen saindo do carro. Salo desce do carro, corre em direção a Hakkinen, enfia um tapa em sua cabeça e sai correndo aos risos. Os ingleses, ávidos por fofocas e rivalidades bestas, adoram. Hakkinen é visto como o sujeito correto e dedicado, cujos únicos defeitos são beber muito, algo obrigatório para um finlandês da gema, e ser meio enfadonho. Salo é seu antagonista mal-educado, cachaceiro, babaca, politicamente incorreto e bem mais divertido. Um Ayrton Senna vs Nelson Piquet em Helsinki.

Salo chega aos boxes da sua equipe e encontra o tal representante da Tyrrell. Conversa com ele por alguns minutos e até consegue passar a impressão de ser um piloto batalhador e consciente. Após a conversa, Mika entra em um banheiro e, nervoso, cheira um pouco do pó redentor do Álvaro.  Sentindo-se eufórico, ele volta aos boxes e entra no seu Ralt-Honda patrocinado pelos cigarros Colt. Ironicamente, ele odiava fumar Colt e preferia a Marlboro, que patrocinava seu rival Hakkinen.

Naquele ano, apesar do alto nível dos concorrentes, só a disputa entre os dois Mika importava. E Salo deu show, fazendo o melhor tempo do dia e deixando Hakkinen quase sete décimos atrás. Quando ambos estavam voltando para os pits, Salo ainda mostrou o dedo do meio para seu colega, em ato de enorme educação e respeito. Desceu do carro, foi felicitado pelos seus mecânicos, recebeu um thumbs up do funcionário da Tyrrell e passou pelo banheiro para cheirar mais um pouco. Ao retornar do banheiro, Salo conversou com o cara da Tyrrell e este disse que gostou do que viu, reportaria o resultado a Ken Tyrrell e o teste com o carro de Fórmula 1 seria confirmado em breve. Haveria até mesmo a possibilidade de correr como titular em 1991, o que deixou Salo bem animado.

Depois disso, Mika e seus mecânicos foram ao pub mais próximo e encheram a cara para comemorar. Salo, como sempre, foi o que mais bebeu e ainda pagou a conta de todo mundo com o dinheiro que recebia dos pais e dos cigarros que ele tanto odiava. Depois, pegou seu Escort e saiu com tudo em direção à sua casa.

Só que, bêbado e pouco inteligente, ele passou pelo caminho de sempre. E lá estava o tal policial turrão. Sem perceber, ele parou o carro para bater um papo.

– E aí, Paul, como vai a vida?

– Paul? Meu nome é Charles Morrison. E, a propósito, o senhor não me parece muito bem.

– Charles… Morrison… que legal, é tipo o Charles Manson e o Jim Morrison em um cara só! Hahaha!

– O senhor está completamente embriagado. Saia do carro.

Sem oferecer qualquer resistência e rindo tranquilamente, Mika saiu, fico com as mãos ao alto e até vomitou um pouco no capô do Escort. O sério Charles Morrison levou o finlandês à delegacia. Segundo a lei inglesa, o motorista completamente chapado é condenado a seis meses de prisão, multa de cinco mil libras e perda da carteira de motorista. Por intermédio do amigo Paul, Salo deu um jeito e se safou da cadeia. Mas a multa e a perda da carteira foram incontornáveis.

O cenário automobilístico inglês ficou chocado com a notícia do que aconteceu com Mika Salo. A Alan Docking Racing quase o demitiu, mas preferiu apenas repreendê-lo. E a chance de testar com a Tyrrell, obviamente, foi para o saco. No fim do ano, a Colt retirou seu patrocínio. E Mika “Renton” Salo quase teve de voltar para Helsinki com o rabo entre as pernas.

A partir daí, Salo teve de mudar o rumo da sua vida. Foi para o Japão, se divertiu com as prostitutas locais, ganhou algum dinheiro e não obteve nenhum grande resultado. No fim de 1994, a Lotus o salvou do ostracismo. E começava aí a carreira de um dos sujeitos mais subestimados dos anos 90.

E o Momb’ndoki ainda não aprendeu inglês direito.

P.S.: Os personagens podem ser verdadeiros, mas a história é totalmente ficcional e nada tem a ver com a realidade. Portanto, se por acaso você, Mika, estiver lendo isso aqui no Google Translator, não se sinta ofendido e nem me processe. Não tenho grana e nem tenho algo contra você!

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