Oportunista, aproveito o fato de o blog estar voltando com tudo para fazer troça com o tempo em que este espaço, fundamental na blogosfera brasileira para aqueles que se interessam por algum causo curioso sobre o piloto búlgaro e manco que venceu uma corrida na neve na Fórmula 3 islandesa em 1993, ficou parado.

Nem me lembro qual foi o último Top Cinq que eu escrevi. Certamente, antes do início das minhas aulas na faculdade, em março. Nesse ínterim, tive umas três ou quatro inspirações divinas sobre pautas boas para essa seção. Enquanto dirigia, tomava banho ou coçava o saco, sempre vinham à mente cinco histórias sobre qualquer assunto que poderiam aparecer por aqui. Infelizmente, faltava o tempo. A sexta-feira deixou de ser dia de cerveja e de Top Cinq para se tornar apenas mais um insuportável agrupamento de 24 horas destinadas a resolver meus próprios problemas.

Mas toda tempestade tem seu fim. Resolvidos os pepinos, pude voltar a fazer algo que gosto, escrever sobre inutilidades na esperança de que a CNN me contrate para ser um de seus âncoras. Volta o Top Cinq, portanto. E hoje falo sobre aqueles que, assim como eu, também fizeram retornos triunfais após um longo período.

Pilotos que competem numa categoria durante um tempo, saem e voltam após alguns anos não são exatamente uma raridade no esporte a motor. Só na Fórmula 1, podemos apontar os exemplos recentes de Michael Schumacher, Pedro de la Rosa e Narain Karthikeyan. Mais interessantes são os que ficam de fora durante muitos anos e, de repente, reaparecem como se nada tivesse acontecido. Uns retornam por pura vontade de brincar um pouco, outros simplesmente são enxotados e acabam demorando muito para conseguir voltar e há ainda os que dão as caras simplesmente para tentar bons resultados e, assim, finalizar a carreira com dignidade.

Abaixo, você lerá histórias de cinco pilotos que saíram e voltaram após muito tempo em cinco categorias diferentes:

5- MARCO APICELLA

marcoapicella

Foda é quando o bom piloto se vê obrigado a voltar a uma categoria de base após muitos anos por pura falta de melhores opções na carreira. O caso de Marco Apicella é certamente um dos mais desagradáveis, eu diria. Bota dos mais competentes, o italiano Apicella estreou na Fórmula 3000 Internacional em 1987 aos 21 anos de idade. Vice-campeão da Fórmula 3 italiana no ano anterior, o jovem piloto acreditava que tinha uma longa e profícua carreira pela frente no automobilismo e a Fórmula 3000 seria apenas o último e necessário passo rumo ao estrelato.

De fato, sua carreira foi bastante longa. Profícua? Discutível. Apicella estreou na “três mil” a bordo de um horrível Dallara 3087 preparado pela equipe Euroventurini. Ainda aprendendo as pistas e se adaptando ao carro de 450cv, Marco conseguiu apenas um quinto lugar em Spa-Francorchamps. Sem pressa, ele sabia que a categoria era difícil e que as coisas melhorariam bastante no ano seguinte.

O problema é que este pensamento se repetiu nos quatro anos seguintes. Em 1988, Apicella foi contratado pela First Racing e iniciou o ano como um dos favoritos ao título. Marcou apenas nove pontos e terminou em 11º. Em 1989, também pela First, ele conseguiu resultados bem melhores e finalizou o ano em quarto. Em 1990, ainda na First, vinte pontos e o quinto lugar no campeonato de pilotos. Em 1991, já de saco cheio da Fórmula 3000, Marco bandeou para a equipe Paul Stewart Racing para tentar o título pela última vez. Deu azar, pois o chassi Lola estava uma desgraça naquele ano e o italiano apenas repetiu o quinto lugar do ano anterior, com 18 pontos.

Na Fórmula 3000, Marco Apicella disputou 52 corridas, fez duas poles-positions e obteve nada menos que sete segundos lugares. Em cinco anos, não ganhou uma corridinha sequer. Esteve bem perto disso em algumas ocasiões, como no GP de Pau de 1990, quando estourou a suspensão de seu carro em um meio-fio enquanto liderava confortavelmente. Graças a esse estigma de piloto não-vencedor, Apicella não conseguiu na Fórmula 1 nada além de testes com carros da Minardi e da Lamborghini e uma única corrida com a Jordan em Monza no ano de 1993. Curiosamente, a longuíssima carreira na Fórmula 3000 contrastou com sua estupidamente curta carreira na Fórmula 1: em sua solitária participação, ele foi envolvido em um acidente ainda antes da primeira curva e abandonou no ato.

Depois de boas passagens pelo automobilismo japonês, Marco Apicella decidiu voltar à Europa em 1999. Aos 33 anos, o já veterano piloto italiano assinou com a Monaco Motorsport, equipe que Lamberto Leoni fundou algum tempo após ter vendido a First, para disputar a Fórmula 3000 italiana, uma priminha mais pobre do certame internacional. Foi um passo para trás, mas pelo menos deu para vencer a etapa de Misano.

A Monaco Motorsport disputava tanto a Fórmula 3000 italiana como a internacional. Na etapa de Spa-Francorchamps desta última, a equipe ficou sem o francês Cyrille Sauvage e precisava de um substituto. Sem muitas opções, restou a ela recorrer ao velho Apicella, que faria, assim, sua reestreia na categoria após quase oito anos. O problema é que o italiano teve de lidar com um carro o qual nunca tinha pilotado na vida, pista molhada e nada menos que 39 rivais na disputa por 26 vagas no grid de largada. De forma previsível, Marco não passou nem perto de se qualificar, ficando a 3s do pole Jason Watt. Foi assim, melancolicamente, que sua longa carreira na Fórmula 3000 internacional acabou.

4- JAN LAMMERS

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Quando Johannes “Jan” Lammers estreou na Fórmula 1, Ayrton Senna ainda era kartista, Nelson Piquet ganhava uma merreca na Brabham, Gilles Villeneuve era o cara, a Ligier era uma equipe de ponta, Jacky Ickx fazia suas últimas corridas na categoria e a Williams estava apenas curtindo seus primeiros bons momentos. Quando o mesmo Jan Lammers reestreou na Fórmula 1, Ayrton Senna já era tricampeão mundial, Nelson Piquet era um milionário que calçava 41 em um pé e 39 no outro, Gilles Villeneuve não estava mais entre nós, a Ligier lutava pela sobrevivência, Jacky Ickx já estava aposentado fazia um bom tempo e a Williams era o bicho-papão da categoria. Como as coisas mudam, né?

Campeão da Fórmula 3 europeia em 1978, Lammers ignorou a Fórmula 2 e aceitou o convite para correr na Shadow na Fórmula 1 no ano seguinte. Mas a equipe não era mais a mesma do passado e o cara ainda tinha o papel de escudeiro de Elio de Angelis, que também fazia sua estreia na categoria. O Shadow DN9 era um carro bonito e razoavelmente confiável, mas não andava porcaria alguma e Lammers não conseguiu marcar nenhum ponto. O próprio De Angelis, que se tornaria um vencedor de corridas, só obteve um quarto lugar na última corrida do ano. Sinal de que o fator humano não era o problema da escuderia de Don Nichols.

Enquanto De Angelis encontrava uma boa vaga na Lotus, Lammers teve de se virar na ATS em 1980. O holandês usou o péssimo D3 nas três primeiras corridas do ano e não conseguiu nada. Na etapa de Long Beach, a ATS estreou o D4 e Jan surpreendeu a todos obtendo o quarto lugar no grid. Infelizmente, o carro quebrou ainda na primeira volta e ele perdeu talvez a melhor oportunidade de sua carreira na Fórmula 1. Depois de mais duas etapas frustrantes, a equipe de Günter Schmidt decidiu mandar o holandês para o olho da rua. Lammers ainda deu sorte de encontrar uma vaga na Ensign como substituto de Clay Regazzoni. Mas o carro de Mo Nunn era ainda pior que os da Shadow e da ATS e Jan só acumulou mais aborrecimentos.

Lammers retornou à ATS em 1981, mas só deu as caras nas quatro primeiras rodadas. Com o D4 do ano anterior, ele não se classificou para duas corridas, abandonou uma e terminou apenas o GP da Argentina. Após ficar de fora do restante da temporada, ele conseguiu voltar à Fórmula 1 apenas na metade de 1982 substituindo Derek Daly na tétrica Theodore. Em seis etapas, cinco fracassos em treinos oficiais. Cansado de sofrer, Jan Lammers decidiu desistir desse troço de Fórmula 1 e foi atrás da felicidade em outros jardins.

E feliz ele foi. Ganhou várias corridas no Mundial de Protótipos e também se saiu bem em outras categorias, como a Copa Renault Turbo e a Fórmula 3000 japonesa. Quando parecia que a Fórmula 1 já havia virado história, eis que a falida March convida o holandês, naquela altura com 36 anos de idade, para disputar as duas últimas corridas da temporada de 1992. Fazia quase dez anos que Jan Lammers havia pilotado um carro de Fórmula 1 pela última vez. Mesmo assim, ele aceitou o desafio.

O retorno não foi de todo ruim. Em Suzuka, apesar de ter batido em Jean Alesi em um dos treinos, Lammers fez muito mais do que o esperado: foi sexto (!) colocado no segundo treino livre e conseguiu um razoável 23º lugar no grid, três posições à frente do companheiro Emanuele Naspetti. A corrida acabou na volta 27 devido a um problema na embreagem. As coisas melhoraram em Adelaide. Embora Lammers tenha ficado na última fila do grid de largada, o March CG911 não o deixou na mão e o veterano conseguiu finalizar a prova em 12º. Dá para dizer tranquilamente que o melhor de Jan Lammers na Fórmula 1 apareceu nessas duas provas derradeiras, quando a categoria já não tinha quase nada a ver com aquela que ele conheceu em 1979.

3- JOHN ANDRETTI

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Na famosíssima família Andretti, os dois grandes astros são o mítico Mario e o visceral Michael. Há também nomes menos interessantes, como o do pirralho Marco e do obscuro Jeff. Todos esses citados pertencem à mesma linha familiar, com Mario sendo o pai de Michael e Jeff e o avô de Marco. Mas há outro Andretti que embora não seja convidado para todos os almoços de fim de semana na casa do nonno, nunca deixa de ser chamado para as ceias de Natal. Este é John Andretti, sobrinho de Mario Andretti e primo de Michael e Jeff Andretti.

Filho de Aldo Andretti, John começou a carreira silenciosamente nos midgets e nos monopostos de Fórmula Vee. Em 1984, ele fez sua estreia no IMSA Camel GT, campeonato conhecido atualmente como American Le Mans Series. Foi razoavelmente bem e até conseguiu uma vitória em 1986, mas nunca alcançou o mesmo nível do primo-celebridade Michael Andretti, que já era naquela altura um dos pilotos de ponta da Indy.

Em 1987, John Andretti fez sua estreia na mesma Indy disputando as cinco últimas etapas da temporada com um March da equipe Curb Racing. De forma surpreendente, conseguiu marcar pontos em todas e ainda terminou o ano em 17º, à frente de nomes como Johnny Rutherford e A. J. Foyt, que por acaso era seu padrinho. O bom desempenho, infelizmente, não foi repetido nos dois anos seguintes. Em 1988, apenas um pontinho foi marcado. Em 1989, cinco. Nesse ano, por sinal, ele deu um pulo no paddock do GP do Canadá de Fórmula 1 e conversou com várias equipes tentando conseguir ao menos um teste lá na Europa. Ninguém lhe deu bola, apesar do sobrenome bonito.

As coisas melhoraram a partir de 1990, quando John se transferiu para a equipe oficial da Porsche. Marcando bons pontos em cinco corridas, Andretti conseguiu terminar o ano em décimo. No ano seguinte, surpreendendo a todos, ele obteve sua primeira e única vitória na Indy. Em Surfers Paradise, John largou apenas na nona posição e fez uma corrida pra lá de conservadora, poupando combustível e freios ao máximo. Nas últimas voltas, Rick Mears foi abalroado por um retardatário, Bobby Rahal teve problemas com freios e a vitória caiu no colo de Andretti, que ficou mais envergonhado do que feliz por ter ganhado de forma tão oportunista. Mas vitória é vitória.

John Andretti fez mais uma temporada completa em 1992 e depois se bandeou para a NASCAR, só voltando em 1993 e 1994 para disputar as 500 Milhas de Indianápolis com a equipe do padrinho Foyt. Sem ter tido uma carreira brilhante nos monopostos e ganhando uma grana boa nos stock cars, nada indicava que ele poderia voltar a disputar alguma coisa na Indy, ainda mais após a cisão de 1996.

Mas veja só como são as coisas. Em 2007, nada menos que treze anos após sua última corrida de monopostos, John Andretti anunciou que disputaria as 500 Milhas de Indianápolis pela Panther. Após ter abandonado a Braun Racing na NASCAR, o veterano de 44 anos havia ficado sem carro e decidiu disputar a Indy 500 enquanto não encontrava nada melhor para fazer. Ainda se readaptando aos monopostos, Andretti obteve apenas o 24º lugar no grid e bateu sozinho na volta 95.

Nos quatro anos seguintes, John Andretti retornou à Indy para disputar a Indy 500 e, de vez em quando, corridinhas aqui e acolá. Com o fraquíssimo carro da Roth, competiu em cinco etapas em 2008 e não obteve nenhum resultado que prestasse. Entre 2009 e 2011, ele correu apenas em Indianápolis com um carro patrocinado por ninguém menos que o mito da NASCAR Richard Petty. Depois, sossegou. Estava mais do que na hora. Longevidade é uma tradição dos Andretti, mas só Mario e Michael justificam tantos anos de carreira.

2- MIGUEL DUHAMEL

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Se houver uma meia dúzia de pessoas que conheça esse cara aqui no Brasil, é muito. Eu mesmo só tomei contato com seu nome há pouco tempo, enquanto xeretava registros de corridas antigas do Mundial de Motovelocidade. Ao observar a lista de motociclistas da temporada 2007 da MotoGP, dei de cara com o misterioso Miguel Duhamel, um dos participantes do GP dos EUA daquele ano.

Até aí, tudo bem. Moto é um negócio complicado, você sempre deve estar pronto para o pior. Quedas – e fraturas, hematomas, concussões, arranhões, rompimentos e torções – fazem parte de sua vida e não há nada que você possa fazer a não ser tomar o máximo de cuidado possível. Mas é claro que isso nem sempre dá certo. Vira e mexe, algum motociclista se quebra todo e acaba tendo de ficar de fora de várias corridas. Mas há uma vantagem nisso. O alto número de feridos acaba abrindo vaga para bastante gente de fora.

No GP da Holanda de 2007, o espanhol Toni Elías sofreu uma queda das grandes e quebrou o fêmur esquerdo. Sua equipe, a Gresini Honda, teve de caçar um substituto para as duas etapas seguintes, em Sachsenring e em Laguna Seca. Na Alemanha, quem assumiu a Honda RC212V foi o italiano Michel Fabrizio. Nos Estados Unidos, o chefe Fausto Gresini quis inovar. Visando colocar em sua moto um piloto experiente que conhecesse bem o circuito de Laguna Seca, ele convidou ninguém menos que o canadense Duhamel, 39 anos.

A contratação de Duhamel surpreendeu o paddock da MotoGP, mas foi aplaudida por muita gente do cenário motociclístico norte-americano. Filho do também motociclista Yvon Duhamel, Miguel iniciou sua carreira nos anos 80 e notabilizou-se por ser o único canadense a se sagrar campeão do AMA Superbike, o principal campeonato de superbikes nos Estados Unidos, além de ter vencido quatro edições da Daytona 200, uma das provas mais importantes do motociclismo americano.

Diante disso, sua passagem pelo Mundial de Motovelocidade acabou nem sendo tão importante assim. Em 1992, Duhamel disputou uma temporada completa nas 500cc pela Team Yamaha France. Em treze corridas, terminou nove delas entre os dez primeiros – longe de ser espetacular, um saldo final positivo para alguém que não conhecia a maioria das pistas. Mas seu negócio era arrepiar nas pistas da América do Norte.

Quase quinze anos separaram sua última corrida de 1992 e o GP dos EUA de 2007. À beira dos quarenta anos de idade, Duhamel não tinha chance alguma contra a molecada atrevida da MotoGP. Mesmo assim, ele estava muito animado. E não fez tão feio, conseguindo um tempo apenas 1,6s superior ao do pole Casey Stoner no treino oficial. Seu único incidente foi uma pequena queda no warm-up. Apesar de ter escapado ileso do acidente, Duhamel percebeu que realmente não tinha condições físicas e mentais para competir num nível tão alto. Na corrida, largou e permaneceu na pista por apenas dez voltas, encostando voluntariamente a moto nos boxes para evitar, como ele mesmo disse, “causar problemas para minha moto, para os outros competidores e para a corrida”. A MotoGP pode até ser a mais sofisticada, mas seu coração estava com as rústicas motos das competições norte-americanas.

1- NELSON PIQUET

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Tem menores de idade lendo, né?

Que ninguém se assuste com Nelson Piquet nessa lista. Houve uma categoria em que o tricampeão mundial de Fórmula 1 voltou a disputar uma corrida dezenove anos após sua última participação. OK, em termos literais, não é exatamente a mesma categoria, mas o nome é quase o mesmo, o tipo de carro é quase o mesmo e os desafios idem. Estou falando da boa e velha Fórmula 3.

Antes de ser o que foi na Fórmula 1, Piquet ralou muito na Fórmula 3. Após ganhar a Fórmula Super-Vee no Brasil em 1976, o carioca migrou para a Europa para disputar o campeonato continental de Fórmula 3 em 1977. Patrocinado pela Arno e pela Brastemp, Piquet iniciou o ano com um precário March, mas só conseguiu seus primeiros bons resultados quando passou a usa um Ralt. Teve dificuldades típicas de um estreante, chegou a sofrer uma perigosa capotagem em Zandvoort, mas conseguiu vencer as etapas de Kassel-Calden e Jarama. Terminou o ano em terceiro, atrás do campeão Piercarlo Ghinzani (!) e do sueco Anders Olofsson. Já naquele ano, ganhou fama de exímio acertador, efetuando importantes alterações na suspensão e nas rodas de seu March ainda antes da temporada. Por causa disso, a própria manufatureira o convidou para ser um dos pilotos de testes do March 773 quando as coisas não iam bem.

Em 1978, Piquet e sua equipe pularam para a Fórmula 3 britânica. Mais experiente e mais esperto, o carioca disputou dois dos campeonatos da categoria, o BARC BP e o BRDC Vanderwell. No primeiro, venceu as corridas de Donington, Mallory Park, Thruxton, Brands Hatch, Cadwell Park, Paul Ricard, Silverstone e Snetterton e ganhou o título com quase trinta pontos de vantagem sobre Derek Warwick. No BRDC Vanderwell, Piquet ganhou quatro corridas em Silverstone e uma em Outlon Park, mas ainda perdeu o título para Warwick. De qualquer jeito, um estrondo. Pena que a mídia paulista preferiu dar suas atenções ao inferior (e mais abastado) Chico Serra…

A Fórmula 3 foi uma baita vitrine para o futuro tricampeão. Nas baratinhas, Piquet conseguiu mostrar arrojo, inteligência, oportunismo, frieza e uma enorme capacidade de improviso. Não por acaso, ainda antes de se sagrar campeão do certame britânico, várias equipes de Fórmula 1 já disputavam a tapa seu passe. Em 1978, Nelson disputou corridas por duas escuderias diferentes, a BS Fabrications e a Ensign. Daí em diante, é a história que todo mundo conhece.

Pulemos duas décadas. Em 1997, já quarentão, milionário, sossegado e com o pé fodido, Nelson Piquet só disputava corridas apenas para relaxar. Depois do acidente sofrido em Indianápolis cinco anos antes, o carioca afirmou que “não entraria em carro de corrida nem para fotografia”. Mas piloto não tem dessas coisas. Tão logo suas fraturas foram curadas, Nelsão voltou com tudo para o atuomobilismo. Disputou corridas de protótipos, ganhou algumas e parecia bastante satisfeito. Mas ele quis um outro desafio. Que tal fazer uma prova de Fórmula 3?

E lá foi ele. Dezenove anos depois, Nelson Piquet entrou em um carro da categoria novamente para disputar a etapa de Brasília do campeonato sul-americano. Aos 44 anos, ele disputaria freadas com gente quase trinta anos mais jovem, como Leonardo Nienkötter e Juliano Moro. Toda a mídia esportiva se voltou à Fórmula 3 sul-americana para ver como é que o tricampeão se portaria diante da molecada.

E ele não fez feio. Em um grid razoavelmente numeroso, Piquet obteve a quinta posição no grid de largada. Pouco antes do início da prova, Nelsão foi presenteado com uma sessão de striptease dessa moça aí em cima. Antes que você vá com sede ao pote, até onde consegui apurar, é bem possível que a Eva aí em cima seja um Adão. Mas se você não se importa, vá em frente.

Na corrida, provavelmente ainda distraído pela externalidade erótica, Piquet largou mal e caiu para nono. Combativo, fez uma boa prova de recuperação e terminou em quarto. O vencedor Marcello Ventre nem de longe recebeu as mesmas atenções do tricampeão do mundo. Que mostrou que Fórmula 3, independente da época, é especialidade sua.

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Quem diria, hein? O mundo motociclístico ficou pasmo, chocado e estarrecido com o anúncio da aposentadoria precoce do australiano Casey Stoner, o consagrado bicampeão da MotoGP, na semana passada. Durante uma coletiva de imprensa em Le Mans, Stoner afirmou que abandonaria o motociclismo no final desta temporada e que fará coisas diferentes a partir de 2013. Não ficou claro se Stoner passaria a pintar quadros ou escrever livros de autoajuda, mas tudo indica que as motos terão virado relíquias em sua memória.

As justificativas de Casey Stoner não foram muito claras, mas os indícios estão aí para todo mundo ver. Em fevereiro, nasceu sua filhota Alessandra.  Stoner diz que a retirada não tem nada a ver com ela, mas é óbvio que isso não é verdade. Todo pai de primeira viagem é babão e não quer perder a chance de ver sua menina crescer, arranjar um namorado mal-encarado, usar cocaína e perder a virgindade aos 11. Num esporte como o motociclismo, não existe amanhã. Casey pode entrar na pista todo malandrão num segundo apenas para se estourar todo no segundo seguinte. Tendo de criar filhos, não dá para ficar levando este tipo de possibilidade adiante.

Stoner quis passar a impressão de que largará a MotoGP no fim do ano porque já está de saco cheio com a categoria. Casey nunca foi um dos sujeitos mais dóceis do grid, tendo sido um dos maiores críticos deste negócio da categoria criar um regulamento específico para atrair chassis artesanais e equipes pequenas visando inflar o grid. As motos CRT, como ficaram conhecidas as que seguem este regulamento à risca, são lerdas e não servem para muito mais do que simplesmente aumentar o número de participantes – o que, por si só, é um objetivo nobilíssimo. Mas Stoner não gostou. E ele já reclamou de muito mais coisa.

Num esporte onde o cara geralmente não quer se aposentar antes dos quarenta anos de idade, a decisão de Casey Stoner realmente assusta. Mas ela não foi a primeira, é claro. O Top Cinq de hoje, que deveria ter saído na semana passada, conta a história de cinco pilotos que decidiram largar mão das corridas muito cedo. Confiram aí:

5- ESTEBAN TUERO

Quem acompanha a Fórmula 1 há algum tempo sabe que a Minardi sempre surpreendia ao anunciar seus pilotos. Nomes como Gastón Mazzacane e Alex Yoong nunca seriam imaginados por qualquer outra equipe. A pequena escuderia italiana, no entanto, não dava lá muita bola para currículos e vitórias em categorias de base. Tudo o que ela queria era o dinheiro que garantia a condução e o leite das crianças, mesmo que ele viesse da fonte mais duvidosa possível.

No início de 1998, a equipe italiana estava numa dureza danada. Mesmo com um monte de patrocinadores, nenhum deles era rico o suficiente para custear uma revolução no desempenho. A solução foi correr atrás de algum piloto pagante caricato. E a Minardi abusou. Para assombro do mundo da Fórmula 1, ela anunciou em janeiro a contratação de um tal de Esteban Tuero. Quem?!

Tuero era um piloto argentino que sequer havia completado vinte anos de idade. Marrento, costumava se comparar a Ayrton Senna entre íntimos. Seu boletim advogava contra a megalomania: 16º na Fórmula Nippon em 1997, 24º na Fórmula 3000 internacional em 1996 e alguns bons resultados na Fórmula 3. Poderia até não ser um piloto ruim, mas sua pressa para subir à Fórmula 1 não lhe ajudava. Só garantiu a superlicença porque andou exaustivamente com o carro da Minardi na pré-temporada. E porque o burocrata que emite as carteirinhas foi camarada.

Por incrível que pareça, Esteban Tuero não deu vexame na sua temporada de estreia. No primeiro treino oficial do ano, em Melbourne, conseguiu largar à frente de cinco carros. Nas outras corridas, apareceu com alguma dignidade e se safou do último lugar do grid em quase todas as ocasiões. Se envolveu em vários contratempos, também. Na sua Argentina, Esteban se enrolou todo em um dos pit-stops e ainda terminou o dia batendo forte. No Japão, voou por cima do carro de Tora Takagi e lesionou o pescoço. Terminou o ano dolorido e sem pontos. Ainda assim, tinha um contrato garantido para 1999.

Só que o contrato foi jogado na lata do lixo pelo próprio Tuero. Em janeiro de 1999, ele anunciou que estava se aposentando da Fórmula 1 e do automobilismo. Ninguém entendeu nada, já que o argentino não deu maiores detalhes sobre os motivos de sua decisão. Então, jornalistas e bisbilhoteiros começaram as especulações. Falava-se em problemas com o empresário, cansaço por tantas viagens ao redor do mundo, problemas crônicos resultantes do acidente em Suzuka e até mesmo uma mágoa com a mídia argentina, que não teria poupado a língua na hora de criticar e sacanear o cara. Neste último caso, dou uma colher de chá a Tuero. Ele ainda era um adolescente e pilotava um carro muito ruim. Cobri-lo de maldadezinhas é de uma insensibilidade tamanha.

No fim das contas, a real motivação do abandono nunca foi revelada e, afinal, o próprio Esteban Tuero acabou revendo a decisão. No mesmo ano de 1999, ele fez sua estreia no competitivo campeonato argentino de TC2000. Está lá até hoje. É um cara feliz. E amadurecido.

4- FRANÇOIS HESNAULT

Deve ser muito chato quando seu maior feito na vida é ser a cobaia de um experimento. O francês François Hesnault conhece bem esta realidade. De carreira curta e sem grandes atrativos, Hesnault só será relembrado pelos historiadores do automobilismo por ter sido o primeiro piloto a carregar em seu carro de Fórmula 1 uma câmera onboard que levaria imagens ao vivo a milhões de TVs ao redor do mundo. Esta primazia aconteceu no GP da Alemanha de 1985. Mas eu falo disso depois.

Filho de família rica, François é um sujeito cuja vida sempre foi atrapalhada por alguns pequenos eventos desagradáveis. Aos dezesseis anos, ele teve de passar por oito cirurgias para reconstruir uma das mãos, atingida por um tiro acidental. Alguns anos depois, perdeu a chance de conquistar o Volante Elf por causa de uma hepatite. Mesmo assim, Hesnault conseguiu superar tudo isso e chamou a atenção no início dos anos 80 com performances espetaculares na Fórmula 3 francesa. Foi terceiro na temporada de 1982 e vice-campeão no ano seguinte.

O desempenho meteórico e os bons contatos com a Antar e a Loto o levaram a uma vaga de titular na Fórmula 1 já em 1984. Ele foi contratado para a inglória tarefa de ser o escudeiro de Andrea de Cesaris na Ligier. Foi uma temporada difícil. Como segundo piloto, Hesnault não tinha direito às atualizações no carro, testava pouco e ainda era desprestigiado dentro da equipe de Guy Ligier. Ele chegou a ter de desistir de uma corrida para que Andrea de Cesaris pudesse largar! Num ambiente frutífero desses, ninguém se assusta com o fato de François não ter feito nenhum ponto.

Para 1985, Hesnault chegou a conversar com a Toleman, mas acabou assinando com a Brabham de Bernie Ecclestone. As coisas não mudaram muito em relação à Ligier: Hesnault não passava de um peso de papel numa equipe dominada pelo então bicampeão Nelson Piquet. O francês não marcou pontos e ainda sofreu um gravíssimo acidente em testes em Paul Ricard. Seu Brabham BT54 escorregou na veloz curva Verrière e bateu com tudo na cerca de proteção. François não conseguiu sair do carro e teve de esperar pelo socorro enquanto seu carro ameaçava explodir.

Amedrontado, François Hesnault decidiu desistir da Fórmula 1 após apenas uma temporada e meia. O acidente realmente mexeu com seu brios. O cara percebeu ali que aquela vida simplesmente não servia para ele. Algumas semanas depois, a Renault ainda o convocou para pilotar um terceiro carro no GP da Alemanha. Este terceiro carro não marcaria pontos e sequer funcionava direito. Só serviria para carregar a câmera onboard, um trambolho que pesava mais de dois quilos e que nenhuma outra equipe queria utilizar exatamente pela questão do peso. Hesnault aceitou. E sua vida na categoria terminou desta forma, como um chofer de um aparelho indesejável.

3- MARCO BARBA

Este daqui só é conhecido por pessoas de sanidade duvidosa, como eu mesmo e o estranho Bruno Giacomelli. Marco Barba é mais um daquela avassaladora safra de pilotos espanhóis de qualidade duvidosa que surgiu na segunda metade da década passada. Assim como seu irmão Álvaro, Marco acreditava que poderia alcançar o mesmo nível de sucesso do bicampeão Fernando Alonso. Antes que você filosofe, não, ele não é barbudo. E também não é parente distante de Rodrigo Barba, o baterista do Los Hermanos.

Marco Barba disputou corridas durante sete anos. Na maior parte do tempo, permaneceu na Espanha, que vinha apresentando um razoável crescimento no seu automobilismo interno. Em 2004, foi vice-campeão da Fórmula Junior 1600 local, perdendo apenas para o mito romeno Michael Herck. No ano seguinte, estreou na Copa da España da Fórmula 3 espanhola, uma espécie de versão light da categoria. Era um arremedo de campeonato que era disputado por meia dúzia de pilotos ridículos. Mesmo com a concorrência pífia, Barba terminou apenas em terceiro.

Nos anos seguintes, Barba subiu para o campeonato principal da Fórmula 3 espanhola e até conseguiu vencer algumas corridas entre 2006 e 2007. Neste último ano, ele se sagrou vice-campeão e foi descoberto por olheiros do automobilismo internacional. Graças ao bom resultado, Marco fez sua estreia na World Series by Renault em 2008 pela equipe Draco. Como todos sabem, a World Series é a principal porta de entrada para os sujeitos que não têm cancha o suficiente para pleitear um lugar na GP2.

Barba fez dois anos na categoria. Em 2009, obteve dois pódios em Hungaroring e terminou o ano em nono. Um mau resultado, considerando que ele ficou atrás de nomes como Fairuz Fauzy, James Walker e Marcos Martinez naquela que, ao meu ver, foi a temporada mais fraca da história da World Series. Até aqui, Marco Barba não havia provado muita coisa. Mas as coisas mudariam radicalmente no ano seguinte.

Mentira. Só falei isso para vocês não se desanimarem na leitura. Barba retornou à Fórmula 3 espanhola de seu país em 2010 e só ganhou o campeonato porque era muito mais experiente do que qualquer outro no grid. Com um título no bolso e um pouco mais de auto-estima, ele retornou ao automobilismo internacional ao assinar com a Campos para disputar a AutoGP em 2011.

A aventura de Barba na AutoGP não durou mais do que três rodadas. Pouco antes da etapa de Donington, ele anunciou a todos que sua carreira no automobilismo estava acabada. Não elencou justificativas para isso. Sucinto, falou que não teve problema algum com a equipe Campos e que suas motivações eram puramente pessoais. Dinheiro? Muito improvável. Se fosse só isso, ele simplesmente teria dito “galera, acabou a grana e a diversão. Hora de parar de gastar o dinheiro alheio e arranjar um emprego de verdade”. Não foi o caso.

Marco Barba se retirou aos 26 anos de idade. Espero que tenha se divertido enquanto pôde. Pena que a fama e as glórias nunca tenham vindo.

2- MIKE THACKWELL

Uma das coisas mais deprimentes no automobilismo é o piloto de extremo talento que perde grande parte da capacidade e quase toda a motivação após um acidente grave. Foi exatamente isso o que aconteceu com Karl Wendlinger há quase vinte anos e é provavelmente o que deve ter arruinado a ascensão de Felipe Massa a partir de 2010. Se as histórias de ambos são famosas, uma menos conhecida que me incomoda particularmente é a de Mike Thackwell.

Neozelandês que passou a maior parte da vida na Austrália, Thackwell foi um destes pilotos que a Fórmula 1 deveria lamentar profundamente por não ter consigo aproveitar seu talento. Com um ar de James Hunt, Mike era um sujeito destemido e despreocupado. Dentro da pista, era a imagem do arrojo. E ainda tinha uma qualidade adicional: a precocidade. Em 1979, tendo apenas 18 anos de idade, o neozelandês fez sua estreia na Fórmula 3 britânica e emplacou cinco vitórias logo de cara. No ano seguinte, subiu para a Fórmula 2 e deu show em várias corridas, mas marcou apenas onze pontos. Mas só as brilhantes atuações já foram o suficiente para as equipes de Fórmula 1 iniciarem seus flertes ainda no decorrer de 1980.

A Ensign ofereceu uma vaga de titular e a Arrows até lhe deu um carro para tentar a qualificação em Zandvoort, mas Thackwell não obteve sucesso e só veio a fazer sua primeira largada na categoria pela Tyrrell no GP do Canadá, penúltima etapa de 1980. O problema é que Mike se envolveu em um acidente logo na primeira volta e não teve direito ao carro reserva na relargada, ficando de fora da corrida prematuramente. Como ele também não conseguiu se qualificar no GP dos EUA, não dá para dizer que Mike Thackwell tenha tido um fim de semana de verdade na Fórmula 1 em 1980.

(ERRATA: O Pandini, manda-chuva da extinta revista Grid que eu caço feito maluco em sebos, lembrou que Thackwell não se envolveu em acidente nenhum. Na verdade, seus dois companheiros de Tyrrell foram os azarados que sobraram na largada e o jovem Mike teve de ceder seu carro a Jean-Pierre Jarier)

Então, ele decidiu voltar para a Fórmula 2 em 1981 para tentar ser campeão e arranjar um bom pretexto para as equipes de Fórmula 1 disputarem seu passe a tapa. Começou muito bem o ano, vencendo em Silverstone e terminando em terceiro em Hockenheim, mas um acidente violentíssimo em um treino livre da etapa de Thruxton esmigalhou um de seus pés e o deixou em coma durante três dias. Thackwell perdeu duas etapas e só retornou em Mugello, a sexta corrida do campeonato. Ainda convalescente, Mike não apresentou o mesmo desempenho avassalador de antes do acidente.

Thackwell só viria a recuperar parte da forma em 1983, quando foi vice-campeão da Fórmula 2 pela Ralt de Ron Tauranac. No ano seguinte, Tauranac lhe prometeu dar todas as condições possíveis para ser campeão, inclusive um contrato que impedisse o segundo piloto (o brasileiro Roberto Moreno) de ameaçá-lo. O neozelandês correspondeu a chance e venceu sete das onze corridas da temporada, sagrando-se campeão com extrema folga. Como a Fórmula 1 lhe respondeu? Com um estúpido convite para disputar o GP da Canadá com um modesto RAM e outro para correr na Alemanha com uma Tyrrell ilegal. Mike Thackwell começou a perceber que não chegaria a lugar algum, não importando o que ganhasse ou perdesse nas categorias menores.

Ele até se dispôs a competir na Fórmula 3000 em 1985 para ver se ainda conseguiria seduzir as equipes de Fórmula 1. Foi vice-campeão e até voltou a demonstrar os lampejos de arrojo de antes do acidente, mas somente a RAM lhe oferecu um contrato para ser titular em 1986. O pior é que a equipe faliu durante a pré-temporada e Mike Thackwell acabou ficando a pé. Sem dinheiro, sem ânimo, sem a genialidade do início da carreira e sem a boa-vontade dos chefes de equipe, a depressão começou a tomar conta do neozelandês.

Thackwell ainda perambulou pela Indy, pelos protótipos e até mesmo pela própria Fórmula 3000 em 1986 e 1987, sempre obtendo alguns bons resultados e muitas frustrações por saber que não merecia estar vivendo de bicos. Em 1988, completamente desanimado, fez apenas uma corrida de Fórmula 3000 em Pau. Logo depois da prova, Mike decidiu se aposentar. Tinha apenas 27 anos. Hoje em dia, trabalha como professor de pessoas deficientes e surfa nas horas vagas. Odeia automobilismo. Aquele automobilismo que sempre desprezou seu talento e quase o matou.

1- JOHNNY SERVOZ-GAVIN

Medo. Um sentimento polêmico. Alguns acreditam que a pessoa que assume o medo, como Niki Lauda fez na decisão do título de 1976, é de uma coragem ímpar, um interessante paradoxo comportamental. Outros mais radicais – e não tão sábios assim – afirmam que o medo é a pura e simples expressão de fraqueza de uma pessoa perante uma situação. Eu, que tenho medo até mesmo de cogumelos (e tenho mesmo, não estou brincando), me encaixo no primeiro grupo. Respeito profundamente quem assume seus temores.

Foi o que o francês Johnny Servoz-Gavin fez. Nascido em Grenoble no ano de 1942, Servoz-Gavin era um daqueles típicos bon-vivants que não ligavam muito para as coisas sérias da vida. Fumava pra caramba e adorava dar festas – estilo de vida bastante comum para os pilotos de algumas décadas atrás. Como ganha-pão, trabalhava como instrutor de esqui nos Alpes. De vez em quando, disputava corridas de rali. Viciou em velocidade e decidiu iniciar uma carreira nos monopostos. Comprou um Brabham BT18 usado e se inscreveu para a temporada de 1965 da Fórmula 3 francesa.

Servoz-Gavin apareceu tão bem neste ano de estreia que a Matra ficou interessadíssima no cara e o contratou para disputar uma segunda temporada na Fórmula 3 em 1966. Johnny retribuiu a oportunidade ganhando o título. No ano seguinte, subiu para a Fórmula 2 com a mesma Matra. Não satisfeita, a equipe ainda lhe deu a grande oportunidade de estrear na Fórmula 1 no GP de Mônaco. Tudo muito rápido, não? Pena que a corrida de Servoz-Gavin durou apenas alguns quilômetros – um problema na bomba de combustível estragou tudo.

Em 1968, Servoz-Gavin permaneceu na Fórmula 2, mas a Matra decidiu lhe dar uma nova chance em Mônaco como substituto de um Jackie Stewart que se recuperava de uma fratura no pulso. Fez muito bem. Johnny surpreendeu a todos marcando o segundo tempo no treino oficial. Na largada, ignora o pole-position Graham Hill, um quarentão que já havia vencido três corridas em Montecarlo, e assume a liderança na St. Devote. Lidera as três primeiras voltas. Numa chicane de alta velocidade, bate a roda traseira e é obrigado a abandonar. Volta para os boxes puto, mas os poucos quilômetros completados na frente haviam deixado muita gente babando. Johnny Servoz-Gavin havia acabado de provar que merecia um lugar definitivo na Fórmula 1.

Servoz-Gavin voltaria a disputar três corridas de Fórmula 1 naquela temporada de 1968. Em Monza, ele fez uma ótima corrida de recuperação após largar em 13º e conseguiu ultrapassar Jacky Ickx na última volta, finalizando na segunda posição. Foi seu único pódio na categoria.

Em 1969, Servoz-Gavin faz mais uma temporada de Fórmula 2, vence três corridas e ganha o tão esperado título. Na Fórmula 1, ele fez cinco corridas e marcou um pontinho no Canadá. Após um currículo bom nas categorias menores e algumas boas corridas no certamente principal, era hora dele fazer sua primeira temporada completa por lá. A estrutura da Matra acabou vendida a Ken Tyrrell, que quis montar um dream team com o campeão da Fórmula 1, Jackie Stewart, e o campeão da Fórmula 2, Johnny-Servoz Gavin.

(ERRATA DE NOVO: Onde estava com a cabeça? O Zé Maria fez a correção muitíssimo bem-vinda. A Matra seguiuna Fórmula 1 até o início dos nos 70. Na verdade, a Tyrrell é uma equipe que surgiu a partir de uma dissidência da Matra)

Mas a temporada do francês durou apenas três corridas. Na pré-temporada, enquanto disputava uma corrida de rali com um jipe aberto, Johnny foi atingido no rosto pelo galho de uma árvore e acabou machucando seriamente o olhos esquerdo. Ele decidiu não contar sobre o ferimento a ninguém na Fórmula 1 e tentou fazer as corridas normalmente, mas a situação do olho só se deteriorou.

Na classificação do GP de Mônaco, Servoz-Gavin cometeu o mesmo erro de dois anos antes. Escapou na chicane e ralou o carro no guard-rail. Ao descer do carro, Johnny tomou uma decisão tão rápida quanto definitiva: aos 28 anos e após apenas cinco temporadas nos monopostos, ele estava abandonando a Fórmula 1.

O motivo? Medo. Johnny Servoz-Gavin havia percebido que corria riscos sérios se tentasse correr com o olho esquerdo em péssimo estado. Como os acidentes naquela época eram sentenças de morte, Servoz-Gavin preferiu largar sua maior paixão para preservar sua vida. Decidiu curtir a vida apenas com festas e mulheres. Mas o perigo não se afastou de sua vida. Em 1982, um botijão de gás de seu barco explodiu e Servoz-Gavin acabou sofrendo graves queimaduras pelo corpo e três paradas cardíacas. Deu sorte tremenda de sobreviver. Morreu em 2006, já sessentão. Provavelmente sem medo.

Danilo Petrucci e sua moto CRT

Não costumo ver corridas de motos. Não gosto. Tenho discurso de avó: acho moto um negócio perigoso pacas, um verdadeiro moedor de ossos urbano. E as corridas são diferentes do meu planeta, embora reconheço serem divertidíssimas. Mas neste fim de semana, larguei a TV ligada na primeira etapa da temporada 2012 da MotoGP, realizada no Catar. No geral, gosto mais de ver as movimentadas provas da Moto2 e da nova Moto3, cheias de novatos doidivanas. Mas a minha curiosidade no domingo era outra.

Eu queria ver o desempenho das motos CRT. Para quem não sabe, CRT significa Claiming Rule Team, um conjunto de regras estabelecidas neste ano que visa permitir que uma equipe pequena possa participar da tão esvaziada MotoGP. Por meio disso, a equipe pode arranjar um chassi artesanal e um motor parecido com aqueles utilizados nas motos de rua por um precinho camarada. Quem optar por este pacote terá direito a alguns pequenos benefícios: possibilidade de usar mais motores por ano e mais combustível no tanque. Para uma Garagem do Zé da vida, um baita negócio.

A MotoGP, sancionada pela Federação Internacional de Motociclismo, vinha perdendo inscritos a cada ano que passava. Os custos altos se tornaram tão mais altos que chegou-se a um ponto em que apenas Honda, Yamaha e Ducati tinham dinheiro e disposição para gastá-lo. Produzia-se um protótipo que nunca seria utilizado nas vias comuns deste planeta por pessoas normais. Em tempos de vacas magras, não fazia sentido jogar milhões de dólares no lixo para isso. Era melhor participar dos campeonatos de Superbike, que têm os pés no chão e usam motos de rua.

Os organizadores da MotoGP se tocaram. Enfiando o orgulho em orifícios pouco arejados, eles decidiram inventar este troço de CRT e o resultado foi a chegada de seis novas equipes e um razoável número de 21 motos largando na etapa do Catar. É óbvio que algumas estrelinhas reclamaram: Casey Stoner, conhecido marrento, e Dani Pedrosa, sempre simpático como uma fruta podre, disseram que as CRT eram muito lentas, seriam pilotadas por gente inexperiente, atrapalhariam o trânsito e mais um monte de bobagens que não vou elencar. Por isso que Valentino Rossi é um cara legal: mesmo podendo esbanjar quanta arrogância e elitismo desejar, o multicampeão afirmou que considerava a chegada de novas motos algo benéfico para o esporte e que não se importaria em pilotar uma CRT.

Rossi está certíssimo, embora talvez pense espertamente que motos mais lentas poderiam impedi-lo de mofar nas últimas posições. Sem as CRT, o grid do Catar teria apenas doze motos. Doze. Duvido que alguém seja retardado o suficiente para achar que uma disputa restrita a quatro Hondas, quatro Yamahas e quatro Ducatis não seria uma coisa constrangedora. E talvez até inviável: os contratos com as emissoras de TV sempre exigem um número mínimo de participantes. Imagine o quão ridículo seria se a MotoGP não fosse realizada por não ter participantes o suficiente.

A presença das CRTs serve para cobrir o buraco deixado por marcas como a Suzuki, representada no ano passado por Álvaro Bautista

Embora não seja o maior dos fãs da categoria, devo admitir que a organização do Mundial de Motovelocidade acertou em cheio ao entender que o rebaixamento de alguns padrões é necessário para a sobrevivência do esporte. Enquanto isso…

Pois é, você percebeu que vou colocar a maldita da Fórmula 1 no meio do assunto. É verdade que muito fã xiita da MotoGP reclamou pela presença de motos muito mais lentas do que as preparadas diretamente pelas grandes fábricas, mas a comoção não foi tão grande. No fundo, todos sabiam que somente isso poderia garantir a viabilidade da MotoGP. É um raciocínio que todo mundo que gerencia as categorias de ponta deveria ter. Mas é óbvio que a Fórmula 1 sempre vai no sentido oposto.

Hoje, a categoria tem doze equipes e 24 carros no grid. É muito? Óbvio que não, mas não é este o ponto agora. Indo mais a fundo, quem são estas equipes? Duas montadoras (Mercedes e Ferrari), três fabriquetas artesanais de carros esportivos (McLaren e Marussia), duas engarrafadoras de touros (Red Bull e Toro Rosso), dois trambolhos financeiros (Lotus e HRT), duas brincadeiras de gente rica (Force India e Caterham) e duas equipes de corrida (Williams e Sauber). Qual é a real sustentabilidade disso tudo aí?

Nestes últimos dias, três notícias chamaram bastante a atenção. Após a divulgação de um novo Pacto de Concórdia que pagaria valores especiais às equipes Red Bull, McLaren e Ferrari, a Daimler, dona da Mercedes-Benz, estaria considerando uma atitude de represália que poderia incluir uma ação legal e até mesmo a retirada de sua equipe no ano que vem. Afinal de contas, a Mercedes GP também é gente grande e merece uma fatia maior do bolo, confabulam os germânicos.

A segunda notícia é o fim do acordo entre Lotus e Lotus. Calma, calma, explico. A Lotus Cars, aquele ateliê de pequenas preciosidades em forma de meio de transporte, acabou tendo seu contrato de patrocínio rescindido com a Lotus GP, a equipe de Fórmula 1 comandada pelo fundo de investimentos GENII que tomava emprestado o famoso nome. Aparentemente, foi um divórcio amigável e sem paneladas. A Lotus GP segue Lotus GP até 2017. Depois disso, mistério total.

A outra notícia é a revelação, por parte da própria Sauber, que a equipe está falida e alguns de seus funcionários estão fazendo malabarismo no farol. OK, um pouco de exagero. A tal da Monisha Kaltenborn, executiva-chefe da equipe suíça, afirmou que não estava satisfeita com os patrocinadores e que somente a falta do apoio de uma grande empresa impede que Kamui Kobayashi e Sergio Pérez desafiem as equipes de ponta. A Sauber detém um orçamento de cerca de 80 milhões de euros. A maior parte dessa grana vem de Carlos Slim, o multimilionário mexicano que apoia a carreira do jovem Pérez. Mesmo que pareça um disparate reclamar do apoio do homem mais rico do planeta, os argumentos fazem sentido. Falta dinheiro, sim, senhor.

A Lotus, que deixou de ser patrocinada pela Lotus. O que será da Lotus?

Até quando dá para confiar nestas equipes? A Sauber não pretende cair fora e já até nomeou Monisha como a grande substituta de Peter Sauber na gestão daqui a algum tempo, mas fica claro que o dinheiro mexicano é o que move tudo ali. Sem ele, a equipe voltaria ao deplorável patamar de 2010. Ou simplesmente fecharia as portas, acompanhando a aposentadoria de seu criador. É algo que deve ser pensado com cuidado, até porque Pérez é um dos nomes preciosos da wishing list ferrarista para 2013 e não seria absurdo imaginar Slim e seus cifrões seguindo com o jovem pupilo para Maranello. A Lotus comandada por um fundo de investimentos é um verdadeiro castelo de cartas. E a Mercedes, se os ventos da política não lhe favorecerem, também cairia fora, embora eu prefira acreditar que todas aquelas ameaças não passem de blefe teutônico.

Os fatos podem não ter acontecido ainda, mas as probabilidades sempre pairam. Com exceção de Ferrari e McLaren, ninguém parece ter um futuro garantido. Nem mesmo as equipes da Red Bull: e se aquela gastança bilionária com patrocínio esportivo minguar por algum motivo, seja por uma falcatrua fiscal ou a descoberta de que a bebida nada mais é do que urina de capivara? A Mercedes aparenta estar totalmente atrelada no seu desempenho a curto prazo e também está prestando atenção no novo Pacto de Concórdia. Em mais de uma ocasião, uma possível saída da marca de três pontas foi cogitada – talvez seria melhor voltar à velha função de fornecer motores vencedores aos outros.

Lotus e HRT podem evaporar a qualquer momento, pois os fundos de capital que as controlam podem simplesmente desaparecer num dia de mau humor do mercado financeiro. A Marussia é russa e, sei lá, é sempre difícil confiar. Caterham e Force India dependem da saúde financeira e da vontade de seus excêntricos donos de continuar brincando de Colin Chapman. Por fim, Williams e Sauber sofrem com problemas financeiros há algum tempo e dependem de grana latino-americana. Que também pode acabar a qualquer momento.

A Fórmula 1 está assentada sobre um pedaço de papelão em um rio. Qualquer crise econômica mais grave poderia, na pior das hipóteses, limar mais da metade do grid. Considerando que zilhões de contratos televisivos, de patrocínios e de realização de corridas estão atrelados a um número mínimo de carros no grid, fico imaginando o desastre que seria se uma tormenta econômica um pouco mais forte no Primeiro Mundo engolisse umas três ou quatro equipes.

Todo mundo irá argumentar que a Fórmula 1 sempre esteve e sempre estará correndo este risco, pois é um esporte caro e será o primeiro gasto a ser cortado numa crise. É verdade, mas também é verdade que a categoria nunca esteve numa posição tão frágil. Grandiosa, mas frágil. Deixar o grid nas mãos de montadoras, fundos de investimento e milionários babacas porque eles são os únicos que conseguem sustentar os inacreditáveis níveis de gastos da categoria é um tremendo perigo. Não consigo acreditar que um sujeito astuto como Bernie Ecclestone não pense nisso em momento algum.

A Fórmula 1 também já teve sua "fase CRT": Jonathan Palmer, o campeão da Copa Jim Clark de 1987

Mesmo aqueles que acham que a Fórmula 1 é só para a elite e que a Daslu foi uma grande criação do ser humano deveriam ponderar um pouco sobre isso. Nem mesmo as grandes empresas e as marcas históricas conseguirão salvar o esporte por si só. A Williams virou isso aí que vemos hoje e tenderá a seguir os mesmos passos de Lotus, Tyrrell, Brabham e BRM se não acontecer uma revolução. Montadoras como a GM, a Volkswagen, a Ford e até mesmo a Honda e a Toyota andam ignorando a Fórmula 1 e estão muito bem assim, obrigado. Como nenhuma empresa de fora do mercado automobilístico tem a volúpia que a Red Bull possui para investir em corridas, fica difícil pensar em quem poderia manter o bote flutuando no caso de uma drástica baixa.

Só há um caminho a ser tomado, portanto. Mais cedo ou mais tarde, a Fórmula 1 terá de aceitar suas CRTs. Suas HRTs, aliás. Vocês entendem o que quero dizer. O modelo de gastos estratosféricos e refinamento maximizado se esgotou. Fora Ferrari, McLaren e Red Bull, ninguém mais tem condições financeiras para torrar o que quiser visando unicamente chegar à frente dos demais. É hora de aceitar a realidade e aparar um pouco estas arestas de grandeza. Diminuir motorhomes, promover menos festinhas, reduzir os salários mais altos e acabar com esta anarquia que se transformou a pesquisa aerodinâmica.

A HRT é lenta demais? A Marussia é enganadora? A Caterham promete evolução e não cumpre? As três parecem amadoras demais para o belíssimo e rotundo esporte? Paciência. O ideal seria as equipes grandes se aproximarem das menores e não o contrário. O teto orçamentário é uma boa ideia, ainda mais se vier acompanhado de total liberdade de gastos dentro do limite. Um regulamento que limite o desenvolvimento aerodinâmico e estimule as demais áreas seria interessante. Reduzir o número de viagens para os grandes prêmios ajudaria bastante – qual o nexo de meter uma corrida no Canadá no meio da temporada europeia? Por fim, bem que os fãs poderiam deixar de ser bestas. A Fórmula 1 não é mais o auge da tecnologia e do glamour. Acabou. Aceitem!

Ah, vinha me esquecendo: assim como a MotoGP, bem que a Fórmula 1 poderia deixar mais equipes entrar através de um regulamento diferenciado e um orçamento mais baixo. Um campeonato à parte, quem sabe? Para quem não se lembra, a categoria já chegou a ter dois campeonatos a mais em 1987. Para estimular o uso dos motores aspirados, que seriam os únicos permitidos a partir de 1989, a FISA decidiu promover um campeonato de pilotos próprio para a turma dos sem-turbo, a Copa Jim Clark, e outro de equipes, o Troféu Colin Chapman. A disputa dentro da disputa animou o pelotão de trás e os campeões foram a Tyrrell e seu piloto Jonathan Palmer. Naquela época, ninguém achou ruim. Por que falharia hoje?

Na verdade, eu sei porque falharia. Porque a Fórmula 1 e seus fãs se imbecilizaram e passaram a achar a presença de equipes menores um acinte à ordem e aos bons costumes. Enquanto isso, a comunidade da MotoGP se diverte quando um motociclista como James Ellison, da simplória Paul Bird Racing, comenta no Twitter uma foto do suntuoso restaurante da equipe oficial da Yamaha: “aqui, é sanduíche de presunto ou de queijo”!

Um abraço aos que preferem entrar no restaurante da Yamaha e acabam comendo só pão. Sem queijo ou presunto.

Não costumo falar muito de corrida de motos. Não, não é que eu as ache ruins. Vi a última etapa da Moto2 em Valência no ano passado e achei coisa de louco, entretenimento dos melhores. O negócio é puramente pessoal. Não gosto de motos. Acho um troço perigoso pra caramba. E absurdamente mal utilizado. As piores pessoas do planeta devem ter se unido em uma conspiração mundial que visa promover a balbúrdia e a destruição de retrovisores nos trânsitos de São Paulo, Paris, Seul e Brazzaville. Só isso explica.

O post de hoje é quase oportunista, portanto. Sou que nem aqueles especialistas sobre o nada que deliberam sobre um assunto do qual não entendem uma vírgula ou simplesmente do não gostam. Não, não vou condenar o uso das motos. Isso é ridículo. Faço aqui apenas uma pequena homenagem ao Super Sic, conhecido formalmente como Marco Simoncelli, falecido neste domingo em um infelicíssimo acidente na etapa de Sepang da MotoGP. Não pretendo entrar em detalhes, devidamente explorados por vários meios de mídia. Também não estou muito disposto a falar sobre mortes. Este é o quarto epílogo que escrevo no ano. A morte cansou. Por isso, uso um tom menos grave hoje. Menos grave e um pouco mais ácido.

Simoncelli, 24, foi um dos personagens de maior destaque da temporada 2011 da MotoGP. Eu mesmo ouvi mais o seu nome do que o de qualquer outro, inclusive o do supremo líder Casey Stoner. Não pelo lado bom, todavia. Em sua estatura alta e repleta de cabelo de Bombril, Marco encarnou a alma motociclística de Lewis Hamilton e causou um bocado de acidentes no início da temporada, sendo que um deles acabou deixando o espanhol Dani Pedrosa de fora de algumas corridas. Tantos problemas cultivaram a antipatia de muitos fãs (os de Pedrosa chegaram a ameaçá-lo de morte) e de vários pilotos (o próprio Pedrosa chegou a afirmar que “em sua cabeça, não existe nada além de cabelo”).

É difícil fazer um julgamento mais preciso sobre a real capacidade de Marco Simoncelli. Que ele era agressivo, não havia dúvida alguma. Sua velocidade real chegou a ser posta em cheque por alguns que acreditavam que a falta de noção poderia encobrir uma clara deficiência técnica. Não sou deste grupo. Considerava o italiano um dos riders mais interessantes de sua geração ainda antes de sua morte. Faltava, sim, equipar sua cabeça com um cérebro.

Marco passou um tempão nas categorias de base do Mundial de Motovelocidade. Ao contrário do automobilismo, esse tipo de coisa é bastante normal nas motos, uma vez que a desproporção entre vagas na MotoGP e nas duas categorias menores é gigantesca. Além disso, é absolutamente comum o sujeito descer uma categoria para ganhar tudo e voltar com a moral lá nas alturas para a categoria mais importante. Veja o caso de Toni Elías, que saiu da MotoGP como coadjuvante para ser astro na Moto2 no ano passado, ganhou o título e retornou com a bola toda, embora em uma equipe fraca. O caso é que Simoncelli insistiu em ficar lá embaixo até que algo de bom acontecesse.

Valeu a pena. Em 2008, Simoncelli até abocanhou o título das 250cc, mas preferiu permanecer na categoria a subir para a MotoGP de qualquer jeito. Decisão corretíssima: embora ele não tenha bisado o caneco em 2009 (por ter sofrido um acidente estúpido enquanto se divertia em uma corrida de motocross com Valentino Rossi), a equipe Gresini se interessou em seu cabelo fartíssimo e o contratou para pilotar sua Honda RCV 212 de fábrica. E nosso herói começou mal: logo na pré-temporada, tomou dois tombaços de ralar o queixo. Em um deles, amassou o capacete e ficou enxergando dobrado por algum tempo. Começo promissor.

Só um detalhe: os dois tombos aconteceram em Sepang. Ironia amarguíssima.

A temporada de batismo foi dura para Marco Simoncelli. Em um pelotão com poucas motos, o “urso do cabelo duro” começou tendo sérias dificuldades para estar entre os dez primeiros. Felizmente, a Gresini trabalhou duro para desenvolver a moto em conjunto com a Honda e o próprio piloto decidiu colocar a cabeça no lugar. No meio do ano, largar entre os dez primeiros já não era mais um problema para ele. Na última etapa, em Valência, ele já estava largando em terceiro. Simoncelli terminou o ano em oitavo, com 125 pontos. Não foi um resultado terrível para um estreante, mas muita gente esperava um pouco mais de alguém que usava a única moto de fábrica da Gresini.

Mesmo assim, ele seguiu na escuderia de Fausto Gresini em 2011. Mais experiente, o italiano iniciava o campeonato como um potencial vencedor de corridas. É evidente que ganhar alguma coisa no reino de Valentino Rossi, Casey Stoner ou Jorge Lorenzo é uma tarefa razoavelmente penosa, mas o Super Sic era um dos bons. Muita gente o via como um futuro herdeiro de Valentino Rossi, italiano como ele.

Faltou só avisar ao cabeludo que, para ganhar corridas, é preciso terminá-las. De preferência, montado em uma moto. De preferência, sem empurrar os outros para o chão.

Simoncelli começou bem o ano, obtendo um auspicioso quinto lugar em Losail. Na corrida seguinte, em Jerez, ele saiu da quinta posição para a ponta e vinha liderando sem maiores problemas até cair sozinho. Tudo bem, chovia, mas um pouco de prudência não faz mal.

Não faz mesmo. Em Estoril, ele iniciou a sexta-feira do seu jeito: caindo. A força gravitacional teve um dia de descanso no sábado, mas voltou à carga logo na primeira volta da corrida do domingo. Terceiro colocado, Simoncelli pisou fundo no acelerador na saída da terceira curva lusa, sua moto desgarrou e ele terminou caindo de maneira esplendorosa. Terminou o dia com a bunda dolorida. “Espero não cometer mais nenhum erro estúpido”, afirmou Marco.

Esta declaração soa irônica perto do que aconteceu na corrida seguinte, em Le Mans. Largando na primeira fila, Simoncelli se viu envolvido em uma disputa renhida com Dani Pedrosa pela segunda posição. Em um determinado momento, o espanhol tentou fazer a ultrapassagem por dentro, mas Marco fechou a porta, as duas motos tocaram rodas e somente Simoncelli seguiu em frente. Pedrosa caiu, fraturou a clavícula direita e foi obrigado a ficar de molho por algumas etapas. Para piorar, perdeu a grande chance de assumir a liderança do campeonato.

Dani Pedrosa não ficou bravo, imagine. Nem mesmo seus fãs, que ameaçaram Simoncelli de morte quando a MotoGP desembarcou em Barcelona. A organização, sim, não deu muita bola, já que só deu ao italiano uma advertência que nem aquelas que você recebia na escola por puxar a cueca do gordinho. Os pilotos se solidarizaram com Pedrosa e desceram o cacete em Simoncelli, o cabeludo irresponsável. Até Rossi, seu tutor informal, disse que Marco foi deveras agressivo na disputa com Pedrosa. Enfim, o cara conseguiu acender a chama da discórdia na MotoGP.

Em Barcelona, o extremamente irregular Marco Simoncelli fez sua primeira pole-position na carreira, mas largou absurdamente mal e passou longe do pódio. Em Silverstone, nada de novo: Simoncelli foi uma das atrações do treino e conseguiu a segunda posição no grid. Na chuvosa corrida, cometeu um erro, perdeu uma posição para Lorenzo e caiu sozinho enquanto tentava atacar Andrea Dovizioso. Para alguém que havia largado nas duas primeiras posições em quatro corridas, ter dois quintos lugares como melhor resultado soava como desastre.

Mas nada que é ruim não pode ser piorado. Em Assen, Simoncelli voltou a marcar a pole-position. Na primeira volta, ele voltou a largar mal e, não muitos segundos depois, caiu novamente. Dessa vez, Super Sic levou de bandeja Jorge Lorenzo, que também acabou no chão. Os dois puderam voltar à pista e até marcaram pontos, mas Lorenzo pediu a suspensão e a cabeça de Simoncelli. O italiano virou o inimigo público número um da categoria.

Virou inimigo público, mas sossegou. A partir da etapa de Mugello, Marco parou de aumentar sua coleção de besteiras. Foram nove etapas realizadas e o cabeludo conseguiu terminar oito delas nos pontos. Embora o desempenho nos treinos de classificação tenha minguado um pouco em relação à sua fase mais destrutiva, houve avanços: ele só caiu uma única vez, em Laguna Seca. Simoncelli chegou a Sepang na sexta posição do campeonato. Aliviado, ele estava. A Gresini havia renovado seu contrato para a temporada 2012. Vale lembrar que Marco corria risco de perder seu emprego na MotoGP, pois a Honda estava planejando cortar custos.

Quero apenas destacar sua última corrida de verdade na vida, que foi também sua melhor. Foi um fim de semana tipicamente simoncelliano em uma pista das mais velozes e desafiadoras da temporada, Phillip Island, que era também a preferida do italiano. Na sexta-feira, Simoncelli levou dois tombos na traiçoeira curva 10. No dia seguinte, as coisas melhoraram e ele conseguiu uma ótima segunda posição no grid. Sob intensa ventania fria, apenas o imbatível Casey Stoner foi 0,6s melhor.

No dia seguinte, Simoncelli largou bem e só perdeu a segunda posição porque o ex-campeão Nicky Hayden passou feito um foguete por todo mundo e papou nove posições na largada. Infelizmente para o americano, sua Ducati era uma merda e Simoncelli conseguiu recuperar a segunda posição facilmente. Com a chegada da chuva, quem tentou estragar sua festa foi Andrea Dovizioso, que tinha um ritmo muito melhor nestas condições. Ele chegou a ultrapassar Simoncelli, mas Super Sic deu o troco logo depois e manteve-se em segundo até o fim.

Simoncelli ficou felizão. Foi seu melhor resultado na vida, obtido após uma corrida dura. Nessa altura, ele já havia recuperado parte da sua imagem. Ainda era aquele maluco de cabelo bizarro que gostava muito de rock e hip-hop, mas já não vinha causando mais tantos acidentes. Sua agressividade vinha sendo convertida em resultados cada vez melhores. Ele era meio doido, mas tinha salvação. Em 2012, com a Gresini, tinha grandes chances de vencer pela primeira vez.

Encerro dizendo que a morte não torna, ou não deveria tornar, Marco Simoncelli uma pessoa melhor ou pior. Após sua morte, muitos lamentaram a perda de um grande talento, do futuro substituto de Valentino Rossi, de um cara divertido e carismático. Há alguns meses, os mesmos muitos eram aqueles que o consideravam um imbecil digno de banimento. Ele não precisa de adjetivação boa ou ruim. Ele só precisa, sim, de paz.

Portanto, tendo sido ele um acéfalo desastrado ou um iconoclasta brilhante, que Marco Simoncelli tenha a paz que sua temporada terrena no motociclismo não teve. Fique com Deus, Marco.

 

 

 

 

Para mim, a maior atração do Grande Prêmio do Japão da MotoGP não será o atual líder Casey Stoner ou o incansável campeão Valentino Rossi, mas sim a presença silenciosa de um tiozão japa de 44 anos em uma Honda preparada pela HRT que não é aquela que conhecemos. O experiente Shinichi Itoh, um dos pilotos de testes da montadora japonesa, foi convidado por ela para disputar a corrida de Motegi da principal categoria da motovelocidade.

Quando falo em experiência, não me refiro somente à idade. Itoh faz parte do paddock do Mundial de Motovelocidade desde, pasmem, o início de 1988. Naquela época, o jovem de 21 anos tentou se classificar para a corrida de 500cc disputada em Suzuka, mas não conseguiu. Para se ter uma ideia do tempo que ficou para trás, o pódio daquela corrida foi formado por Kevin Schwantz, Wayne Gardner e Eddie Lawson. Nem Alexandre Barros, que barrichellou nas motos, rondou a categoria por tanto tempo. Posteriormente, Itoh participou de algumas temporadas completas nas 500cc e até obteve alguns pódios, mas nunca foi reputado como um gênio. Sua última temporada completa foi em 1996. A participação de Shinichi na corrida de Motegi é tão insólita quanto se, por exemplo, o Martin Brundle decidisse disputar a próxima corrida de Fórmula 1, em Suzuka.

Shinichi Itoh, o Pedro de la Rosa nipônico, disputou algumas corridas isoladas entre 1999 e 2007. Neste ano, foi contratado pela Honda para testar as motos de 990cc da MotoGP. A proposta de disputar esta corrida de Motegi surpreendeu o próprio Itoh, que nem imaginava poder voltar a uma corrida depois de tanto tempo. Vale notar que, ao contrário da melindrosa Fórmula 1, dá para uma equipe se inscrever do nada e participar de uma ou outra corrida. Além de Itoh, seu conterrâneo Kousuke Akiyoshi também disputa esta corrida como um convidado.

É bacana ver alguém como Itoh disputando corridas, mesmo que esporadicamente. Vários outros pilotos antigos ainda mantêm acesa a paixão pela velocidade. O Top Cinq de hoje conta a história de cinco sujeitos muito experientes que ainda competem de vez em quando, embora não estejam disputando nenhum campeonato completo. Alguns aí já passaram a casa dos cinquenta anos, outros estão bem próximos de chegar lá. Em comum, todos disputaram ao menos uma corrida em 2011. O importante aí é não ficar em casa cuidando do jardim.

5- DAVEY HAMILTON

Quando falamos em Hamilton, você pensa imediatamente no namorado da Nicole Scherzinger, certo? Alguns mais fanáticos, contudo, hão de se lembrar da existência de um segundo Hamilton, loiro e infinitamente menos badalado. Este que vos apresento é Davey Hamilton, americano de 49 anos que ainda disputa algumas corridas da Indy. Na considerável lista de inscritos das 500 Milhas de Indianápolis deste ano, Davey era o piloto mais velho. Até mesmo John Andretti, aquele que venceu a primeira corrida de carros em Surfers Paradise há vinte anos, ficou para trás nesse quesito. E a história de Davey Hamilton tem contornos tristes.

Apoiado pelo seu pai, Hamilton iniciou sua carreira nas pistas de terra e ganhou um monte de títulos. Sabe-se lá como, arranjou um Lola-Buick para tentar se classificar para as 500 Milhas de Indianápolis em 1993 e falhou. Dois anos depois, a Hemelgarn Racing lhe emprestou um Reynard-Ford roxo para uma nova tentativa, mas Davey fracassou novamente. Sua carreira nos monopostos só começou a engrenar em 1996, na nova Indy Racing League. Ele obteve alguns pódios e se estabeleceu rapidamente como um dos melhores pilotos do grid, mas a etapa de Texas em 2001 mudou sua carreira para sempre.

Davey Hamilton brigava por uma posição estúpida com Jeret Schroeder no velocíssimo oval texano quando os dois se tocaram e foram parar no muro. O Dallara amarelo e vermelho de Hamilton bateu de traseira de modo que a dianteira ricocheteou e se arrebentou no muro. A pancada arrebentou o bico e abriu um buraco que chegou aos pés do piloto, que estava consciente porém urrando de dor. As duas pernas estavam quebradas e os dois pés estavam esfacelados. A dor corporal era tão grande quanto a dor do fim do casamento: poucas horas antes da corrida, ele e a sua esposa haviam decidido se separar. Que dia, hein?

Hamilton foi levado de helicóptero ao hospital e a situação de seus pés era tão grave que os médicos, a princípio, haviam decidido pela amputação. Logo depois, mudaram de ideia e tentaram reconstruí-los. A decisão se mostrou certeira: após 21 complicadas cirurgias e um ano padecendo em cadeira de rodas, Davey Hamilton conseguiu se recuperar por completo. Ele decidiu não voltar para as pistas e passou a trabalhar como empresário de novos pilotos.

Em 2007, para felicidade de todos, Hamilton decidiu voltar a competir. Disputou as 500 Milhas de Indianápolis daquele ano pela Vision Racing e terminou em um excelente nono lugar. De lá para cá, Davey vem participando de todas as edições da tradicional corrida de Indiana. Neste ano, ele decidiu disputar também a rodada dupla da corrida de Texas, tentando apagar da memória o desastre que aconteceu dez anos antes. O piloto terminou as duas corridas lá atrás, mas só o fato de ter pilotado um carro de corridas após o acidente já pode ser considerado uma vitória. E ele não deve parar tão cedo.

4- ARIE LUYENDYK

Esse daqui era o piloto preferido de muita gente que acompanhava a Indy no fim dos anos 80 e início dos anos 90. Conhecido como “Holandês Voador”, Arie Luyendyk (pronuncia-se Luiendique) foi talvez o primeiro europeu a decidir desistir de uma carreira mais ortodoxa no próprio continente para tentar desbravar as inúmeras oportunidades dos Estados Unidos. O início foi complicado – Arie levou seus mecânicos dos tempos de Fórmula 3 para trabalhar com ele na Fórmula Supervee em 1984. Mas mesmo com as dificuldades iniciais, ele ganhou o campeonato e também uma vaga na Bettenhausen para correr na Indy em 1985. Não demorou muito e aquele magrelo de nome esquisito e cara mais esquisita ainda se transformou em uma das atrações da categoria.

Imaginem vocês que a primeira vitória de Luyendyk na Indy foi justamente a nas 500 Milhas de Indianápolis de 1990. Ninguém apostava muito nele, que pilotava um carro vermelho equipado com motores Chevrolet emprestados por Roger Penske e patrocinado pela Domino’s Pizza, que faz umas pizzas bem nota seis. Ele voltou a vencer a famosa corrida sete anos depois, dessa vez como piloto da Indy Racing League. Mas o que ficou na história foi sua volta a 237,498 milhas por hora no Pole Day da edição de 1996. Ninguém nunca conseguiu percorrer as 2,5 milhas do oval de Indiana tão rapidamente quanto ele.

Luyendyk, cujo sobrenome era pronunciado erroneamente como “Luiendáique” por Luciano do Valle, decidiu se aposentar após sofrer um violento acidente enquanto tentava se qualificar para as 500 Milhas de Indianápolis de 2003. Antes da retirada, ele já vinha disputando apenas algumas corridas por ano. De lá para cá, Arie vem ganhando dinheiro com o ramo imobiliário e com obras de arte. Ele também tentou impulsionar também a carreira do filho Arie Jr., que não era lá essas coisas e que foi preso em 2008 por estar dirigindo com a carteira vencida. Para quem acha que só o Nelsinho deu desgosto ao pai…

Nesse ano, Arie Luyendyk decidiu realizar um de seus grandes sonhos, o de disputar uma corrida em Spa-Francorchamps. O holandês assinou com a equipe americana United Autosports para disputar as míticas 24 Horas de Spa-Francorchamps. Ele pilotou um Audi R8 branco ao lado de três pilotos amadores. O desempenho não foi aquelas coisas na classificação e o carro nº 12 largou em 53º. A corrida foi melhor e “os amigos de Luyendyk” terminaram em 19º. Pelo menos, o bicampeão de Indianápolis conseguiu matar a vontade de andar em Spa.

3- MICHAEL WALTRIP

Nos Estados Unidos, se você fizer alguma menção sobre a família Waltrip, todo mundo vai se lembrar de Darrell Waltrip, tricampeão da NASCAR Cup Series, maior rival de Dale Earnhardt nos anos 80 e comentarista das corridas da categoria no Speed Channel americano. Nos dias mais recentes, no entanto, o nome que mais vem à memória é o de seu irmão mais novo, Michael Waltrip. Mesmo sem nunca ter vencido um título na Cup, Michael é um dos pilotos mais conhecidos dos últimos tempos.

Waltrip estreou na NASCAR Cup Series em 1985, ano no qual seu irmão ganhou o último título na categoria. Nos seus primeiros anos, não dava para dizer que ele repetiria os sucessos de Darrell. Na verdade, ele era visto como um Marco Andretti da NASCAR, como alguém que não tinha muito mais do que um sobrenome bonito. Ele ficou mais famoso por ter sofrido um dos acidentes mais violentos da história da categoria em Bristol no ano de 1990 e por ter dado dois socos de forma até covarde em Lake Speed após um entrevero entre os dois durante uma corrida em 1995.

As coisas começaram a melhorar na década de 2000, mais precisamente na primeira corrida da década. Após 462 corridas heidfeldescas, Michael Waltrip finalmente obteve sua primeira vitória na NASCAR. O lado positivo da notícia é que esta vitória ocorreu na Daytona 500 de 2001, a corrida mais importante da categoria naquela temporada. O lado negativo é que, pouco antes de cruzar a linha de chegada, Dale Earnhardt havia falecido instantaneamente após se envolver em um engavetamento. Além de maior astro da NASCAR, Earnhardt era seu patrão. Dois anos depois, Waltrip repetiu a vitória na famosa corrida. Dessa vez, sem tragédias.

Waltrip venceu mais duas provas e percebeu que nunca conseguiria chegar a lugar algum. Com o passar do tempo, começou a disputar menos corridas e a dar mais atenção à sua própria equipe, a Michael Waltrip Racing. Mesmo assim, Michael faz questão de participar de algumas provas a cada ano. Neste ano, ele apareceu na Nationwide Series e na Camping World Truck Series. De forma incrível, Waltrip ganhou a etapa de Daytona da Camping World Truck Series exatos dez anos após sua primeira vitória na Cup. Além disso, ele decidiu fazer sua primeira incursão na Europa. Assinou com a italiana AF Corse e pilotou uma Ferrari 458 nas 24 Horas de Le Mans. Michael não chegou a terminar a corrida, mas foi uma das grandes atrações da prova. Mesmo não sendo Darrell Waltrip, ele tinha lá sua relevância.

2- STEFAN JOHANSSON

O locutor Galvão Bueno insistia em chama-lo de Ióhansson, com o acento agudo na primeira sílaba. Não sei com quem o Galvão andou aprendendo sueco, mas o fato é que aprendeu errado. Stefan Iohânsson foi um dos pilotos mais subestimados da Fórmula 1 nos últimos trinta anos, e também o último piloto da Suécia a ter feito parte da categoria. Seu grande crime foi nunca ter vencido uma corrida. Não importa se ele fez grandes corridas na Ferrari, quase venceu o Grande Prêmio de San Marino de 1985 e levou um Onyx ao pódio. Não venceu, é ruim. Estamos conversados.

Johansson é dono de carreira bastante longa. Ele iniciou nos monopostos em 1975, quando finalizou o campeonato sueco de Fórmula Ford 1600 na sexta posição. Em 1980, sagrou-se campeão britânico de Fórmula 3 e tentou se classificar para um par de corridas de Fórmula 1 pela decadente Shadow, sem sucesso. Até entrar na Fórmula 1, Stefan se aventurou na Fórmula 2 europeia, na Fórmula 2 japonesa e em vários campeonatos de protótipos. Na categoria maior, fez sua segunda estreia em 1983 pela minúscula Spirit, passou pela Toleman e pela Tyrrell, obteve a melhor chance de sua vida na Ferrari em 1985, migrou para a McLaren em 1987, foi para a Ligier em 1988, enfiou-se na Onyx em 1989 e fez sua última temporada em 1991 pilotando as dragas da Footwork e da AGS. Não ganhou corridas. Merecia.

Mesmo velho e esquecido, Johansson decidiu seguir em frente nos monopostos. Assinou com a Bettenhausen para disputar a Indy a partir de 1992. Naqueles dias, a Bettenhausen não era um mau negócio, já que ela funcionava como uma espécie de equipe júnior da Penske e tinha o polpudo patrocínio da gigante dos alumínios Alumax. Stefan teve boas temporadas e obteve alguns pódios, incluindo aí aquele de sua corrida de estreia, em Detroit no ano de 1992.

Após sair da Indy, Johansson disputou corridas em vários lugares ao redor do mundo, desde a TC2000 na Argentina até a Speedcar no Oriente Médio. Hoje em dia, o ritmo de suas atividades como piloto diminuiu, já ele também trabalha como empresário. No entanto, ele ainda compete quando pode. Neste ano, Stefan pilotou um Audi R8 nas 24 Horas de Spa, um Ford GT na Merdeka (!) Endurance Race disputada na Malásia, e uma Ferrari 458 em um campeonato de turismo na Suécia. Aos 55 anos, ele tem mais disposição do que muito moleque por aí.

1- JAN LAMMERS

Este daqui é o meu caso favorito. Johannes “Jan” Lammers é um dos nomes mais legais que eu já vi. Nome de campeão, mesmo. Porque piloto campeão não pode ter nome muito complicado, do tipo Schumacher, Hawthorn ou Räikkönen. Uma pena que, ao Lammers, só faltou o título. Bem que ele tentou. Jan é um dos pilotos mais longevos em atividade, se não o mais longevo. Logo, logo, sua carreira completa quarenta anos.

Lammers estreou no automobilismo em 1973, quando seu padrinho decidiu lhe dar um velho Simca (UM SIMCA!) de presente para fazer sua estreia em um campeonato de turismo na Holanda. Mesmo com o Simca, ele ganhou várias corridas e se sagrou campeão da categoria. Em 1976, ele fez sua estreia nos monopostos pilotando um Crosslé em vários campeonatos europeus de Fórmula Ford. Em 1978, Lammers ganhou cinco corridas e obteve o título da Fórmula 3 europeia. Aos 23 anos, sem raciocinar muito, ele aceitou uma proposta meia-boca para correr pela Shadow na Fórmula 1. A Holanda suspirava: finalmente, o país teria um piloto de ponta na categoria. Carel Godin de Beaufort poderia, enfim, dormir em paz.

O problema é que Lammers só pegou carro ruim e pagou muito caro por isso. Em 1979, não conseguiu nada além de um nono lugar com a Shadow. Em 1980, fez corridas pela ATS e pela Ensign e não conseguiu se classificar para a maioria das corridas. Em 1981, voltou para a ATS, só participou de quatro fins de semana e caiu fora. Lammers foi mais uma das vítimas do temperamento irascível de Günter Schmidt, o mais carrasco entre os chefes de equipe. Em 1982, assinou com a Theodore para tentar largar em seis corridas, mas só conseguiu cumprir a tarefa em Zandvoort, na frente da torcida. Naquele ano, ele tentou assumir o lugar do falecido Gilles Villeneuve na Ferrari, mas as negociações não avançaram. Depois de tantos fracassos, a outrora sensação holandesa preferiu abandonar esse mundo cruel e infeliz da Fórmula 1.

Fez bem. Jan foi muito mais feliz nos protótipos e no turismo do que nos monopostos. Ganhou corridas e dinheiro na Renault 5 Turbo, no Mundial de Protótipos e nos campeonatos de turismo da FIA. Nos monopostos, ele só conseguiu terminar em terceiro nos dois Grandes Prêmios de Macau que disputou, nos anos de 1985 e 1986. Ele também esteve na Fórmula 3000 (e ganhou sua última corrida, uma irrelevante etapa extracampeonato realizada em 1995 em Kyalami, aos 39 anos!) e na Indy, mas não teve obteve o mesmo destaque que logrou quando defendeu a Jaguar nas corridas de protótipos no fim dos anos 80.

Em 1992, Lammers teve sua última chance de fazer algo na Fórmula 1 quando, aos 36 anos, foi chamado para disputar as duas últimas etapas da temporada pela March. 3.745 dias separaram o GP da França de 1982 do GP do Japão de 1992, a maior distância entre uma corrida e outra de um mesmo piloto na história da categoria. Jan não decepcionou nas duas provas e arranjou um contrato para permanecer na March em 1993, mas a equipe faliu a poucos dias do início da temporada e restou ao holandês ir para a Fórmula 3000. A verdade é que Jan Lammers sonhou com a Fórmula 1 até meados dos anos 90 – ele não se conformava em não ter sido um piloto de sucesso por lá.

Um dia, teve de se conformar. E continuou pilotando bem por aí. Hoje em dia, Lammers é o único da lista que corre regularmente. Nesse ano, após três anos de ausência, ele disputou as 24 Horas de Le Mans com um ORECA 01, mas não terminou a corrida. Mas não tem problema. Jan também disputou corridas na Scirocco Cup alemã, na BOSS GP (utilizando um Tyrrell 026 de 1998) e na HTC holandesa. Nesta última, pilotando um Porsche 997, ele até conseguiu uma bela vitória debaixo de chuva em Assen. Aos 55 anos.

É. Pensando bem, ele realmente merecia ter sido o grande piloto holandês da Fórmula 1.

Bom dia, bonobos. Depois de meses de angustiante espera, o Calendário do Verde retorna à ativa, para felicidade geral desta grande bola de água, montanhas e samambaias conhecida como planeta. Vocês conhecem o esquema: assim como no ano passado, vinte e duas pistas serão apresentadas durante o ano. Se necessário, faço como a Indy Racing League no seu início e termino lá no começo do ano que vem. Enfim, ele está de volta. E o desafio será grande pra mim: vou falar de pistas detestadas (não engulo Jacarepaguá e acho Anderstorp bem chatinha) e desprezadas por minha pessoa. E o primeiro autódromo estava injustamente posicionada neste segundo grupo: o australiano Phillip Island Grand Prix Circuit, ou simplesmente Phillip Island.

No geral, acho os circuitos australianos muito legais. As pistas urbanas de Melbourne, Surfers Paradise e Adelaide sempre foram muito legais, assim como a lendária Bathurst, que abriu o Calendário do ano passado. Por outro lado, eu nunca me interessei por Phillip Island. Talvez por constar nos calendários do Mundial de Motovelocidade e da V8 Supercar, duas categorias que eu não acompanho com muito afinco, eu nunca sequer vi uma única volta lá. Mas a democracia pede que eu comente sobre ela. Faço-o, pois.

Phillip Island é, sem exageros, um dos mais belos circuitos do planeta. Ele é localizado na costa sul da ilha homônima, entre a Back Beach Road e o oceano. Não por acaso, de um lado, os pilotos podem vislumbrar o belíssimo mar australiano. Do outro, descampados verdejantes de tirar o fôlego. Nobel para quem teve a brilhante ideia de construir um circuito nessa região. Bem que Bernie Ecclestone poderia se inspirar em Phillip Island na hora de construir um circuito visualmente agradável.

A história do circuito de Phillip Island se confunde com a história do automobilismo australiano. Em 1928, alguns malucos, sempre eles, decidiram realizar uma corrida com carros equipados com motores de até dois litros de capacidade cúbica em um circuito de rua. Por alguma razão obscura, os tais malucos ignoraram os 7,6 milhões de quilômetros quadrados que formam a ilha maior da Austrália e decidiram realizar a corrida em uma bela e pacata ilhota localizada a apenas 140 quilômetros de Melbourne – a ilha Phillip, em bom português, que ganhou este nome em homenagem ao primeiro governador da história do estado de New South Wales, Arthur Phillip.

A tal corrida, considerada por alguns especialistas como o primeiro Grande Prêmio da Austrália da história, foi realizada em um circuito de rua de 16 quilômetros com formato retangular, reuniu 17 participantes e teve como vencedor o honorável Arthur Waite, que morreu com quase 100 anos de idade em 1991. O sucesso desta primeira prova permitiu que outras edições fossem realizadas no tal circuito de rua até 1935. Em 1936, não houve o Grande Prêmio e, a partir de 1937, ele passou a ser realizado em outros circuitos australianos. E a história de Phillip Island teria morrido aí… até o início dos anos 50.

Em 1951, um grupo de seis empresários que moravam na ilha decidiu recriar a corrida de Phillip Island. Para isso, o grupo decidiu formar uma comissão, de nome Phillip Island Auto Racing Club (PIARC), cujo objetivo era o de “erguer o primeiro circuito de caráter internacional da Austrália”. Tão logo a comissão foi constituída, no início de 1952, os trabalhos foram iniciados: um terreno localizado a apenas dois quilômetros do antigo traçado foi adquirido e uma multidão de operários trabalhou incansavelmente por cinco anos. Em dezembro de 1956, o autódromo de Phillip Island finalmente foi inaugurado.

Bonito, moderno, veloz e técnico, Phillip Island sediou inúmeras corridas desde seus primeiros dias. Em 1960, foi realizado por lá a primeira corrida de longa duração da história da Austrália, a Armstrong 500. A prova foi vencida pela dupla Frank Coad e John Roxburgh, que dirigiram seu Vauxhall Cresta por oito horas e quinze minutos. Infelizmente, dois anos depois, o autódromo foi sumariamente fechado. Os danos causados à pista pela Armstrong 500 de 1962 haviam sido imensos e a organização não tinha dinheiro para consertá-los.

Quem acaba salvando a história da pista de Phillip Island é o empresário e piloto amador Len Lukey, que compra o circuito a um precinho baixo e o reforma por completo, reabrindo-o em 1966. A partir daí, a pista passa a ser ostensivamente utilizada para corridas de carros-esporte. Mais uma vez, as corridas são memoráveis e os pilotos se divertem pra caramba. E mais uma vez, os danos causados à infraestrutura são tamanhos que os organizadores são obrigados a fechá-la no fim dos anos 70.

Em 1985, o circuito troca de mãos novamente: uma tal de Placetac Pty LTD acabou assumindo o controle com as mesmas promessas de modernizá-lo e torná-lo um circuito de uso internacional. A princípio, a descrença foi grande, até porque a Placetac demorou um tempão para iniciar as tais reformas. Mas eis que, em 1988, todos ficam surpresos quando a FIM anuncia que o circuito de Phillip Island constaria no calendário do Mundial de Motovelocidade no ano seguinte!

Finalmente, a ilhota passaria a fazer parte do cenário esportivo mundial. A princípio, Phillip Island só sediou o Grande Prêmio de Motovelocidade em 1989 e 1990, perdendo o privilégio para Eastern Creek a partir de 1991. No entanto, a FIM demonstrou ter um mínimo de sensatez e devolveu a corrida à pista insular em 1997. Desde então, Phillip Island tem presença garantida no calendário da categoria. Ao mesmo tempo, outros campeonatos relevantes acabaram adotando a pista, como a V8 Supercar e a Superbike.

Em 2004, a pista foi vendida para o grupo Linox, que veio com o projeto de transformar o circuito em um gigantesco polo de entretenimento. O trabalho foi ambicioso e bem-feito, e Phillip Island ganhou um kartódromo, um campo de golfe, um hotel cinco estrelas e espaços para a realização de eventos. Mas ao contrário de boa parte dos luxuosíssimos circuitos contemporâneos de Bernie Ecclestone, há ainda uma alma automobilística em Phillip Island.

TRAÇADO E ETC.


Não conhecia o traçado de Phillip Island, confesso. Escrever esse artigo, portanto, foi quase como fazer um trabalho de faculdade. E eu não sabia o que estava perdendo, uma vez que Phillip Island é uma pista excelente, que possui tudo o que eu gosto: curvas velozes, ausência de curvas lentas, mudanças de relevo e um cenário deslumbrante. No Calendário do ano passado, certamente há coisas muito piores do que Phillip Island.

Em um primeiro momento, enxerguei Thruxton, Mugello, Tarumã e Istambul neste traçado que preza pela velocidade pura. Para se ter uma idéia, a volta recorde da MotoGP foi feita por Casey Stoner em 2008 e teve velocidade média de 180,598 km/h. Em Silverstone, pista conhecida por ser extremamente veloz, o recorde da mesma MotoGP tem velocidade média de 172,309 km/h. Ao contrário de Silverstone, Phillip Island tem pouquíssimos trechos lentos. Chicanes e cotovelos muito apertados não aparecem por aqui.

Observando o traçado, você percebe que predominam as curvas de raio longo e alta velocidade. Há basicamente duas retas, a dos boxes e a posterior à Southern Loop, que tem menor extensão e é seguida por uma virada veloz. São estes os dois melhores locais para se ultrapassar, já que a pista não é tão larga e os outros trechos somente parecem existir para explorar a velocidade pura dos veículos. Eu recomendaria um acerto veloz em retas, mas não completamente desprovido de downforce, já que há curvas de baixa velocidade nas quais é fácil sair de traseira. Freios e suspensão não me parecem ser grandes problemas.

Conheça os trechos:

GARDNER STRAIGHT: É a reta dos boxes, cujo nome homenageia o astro das motos Wayne Gardner. Inicia-se como uma subida, chega ao pico na linha de chegada e termina em uma descida. Como não poderia deixar de ser, é o ponto mais veloz da pista: um carro da V8 Supercar, por exemplo, chega a 270 km/h.

DOOHAN CORNER: Seguindo a série de homenagens, esta veloz curva de raio longo e ângulo próximo aos 90º homenageia o pentacampeão das 500cc Michael Doohan. O carro nem precisa reduzir muito para completá-la, mas não adianta escapar muito de frente ou de traseira: a chance de errar, nesses casos, existe e não é pequena.

SOUTHERN LOOP: É algo próximo ao Bacião de Cascavel: uma curva à esquerda de 180°, raio relativamente longo e ligeiro formato de gota. O piloto desacelera e esterça com vontade à esquerda, controlando o carro para que ele não saia do traçado. Após o “apex”, ele reacelera e deixa o trecho para trás.

3: Esta perna de alta velocidade e raio longo é feita à esquerda sem grandes dificuldades. O piloto vem de uma reta e sequer precisa tirar o pé para completá-la. Do lado direito, o mar e a Bass Strait, um estreito que separa a ilha da Tasmânia ao estado de Victoria.

HONDA CORNER: Essa daqui não homenageia ninguém, puro patrocínio mesmo. É uma das curvas mais lentas do circuito, só perdendo para a curva 10. O piloto, que sai de um trecho veloz, deve frear bruscamente e reduzir para segunda marcha para completar esta curva irregular de 180° e raio curto.

SIBERIA: Curva de 180° e raio médio feita à esquerda em subida. O piloto sobe esterçando levemente para a direita para depois esterçar para a esquerda. A partir do meio da curva, ele reacelera e segue em frente.

7 e 8: Estes dois trechos não podem ser exatamente chamados de curvas, apesar de obrigarem o piloto a esterçar ligeiramente. Seria mais adequado considera-las como um trecho levemente sinuoso de alta velocidade. A curva 8 é feita em subida.

9: Trecho bastante parecido com a curva 8 de Istambul. Trata-se de uma curva de raio longo feita à esquerda em alta velocidade. A vista é cega em sua maior parte, trecho no qual é mais prudente dosar o acelerador. A partir do momento em que a descida é visível, o piloto reacelera com tudo.

10: Um dos trechos mais traiçoeiros do circuito. Trata-se de um cotovelo de raio curto feito à direita. O piloto completa a descida oriunda da curva 9 e imediatamente freia e vira com tudo à direita. Aqui, é o único trecho onde freios e suspensão são bastante exigidos. E se o carro não estiver balanceado, a chance de erro é enorme.

11: Outro curvão de raio longo feito à esquerda. No entanto, é impossível sair acelerando com tudo. Como o traçado muda de convergência, é necessário dosar o acelerador antes de sair enfiando o pé na jaca.

12: E o circuito termina aqui, nesta curva de raio grande feita à esquerda. Há uma leve inclinação, que permite que o piloto não precise tirar o pé do acelerador.