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O Bandeira Verde despertou. Mas calma.

Não será algo frequente. Tenho uma vida limitada em termos de tempo, além de outros projetos pessoais – alguns deles, diga-se, envolvidos com escrita. A Fórmula 1 não marcou grande presença na minha vida em 2018. O estado atual do esporte simplesmente não me interessa mais como em outros verões. Outros campeonatos, como a Indy, estão mais atraentes, mas aquela empolgação infantil que muitos de nós tínhamos com corridas há dez ou vinte anos parece ter, pelo menos no meu caso, desaparecido. Envelheci mal. Ou quem envelheceu mal mesmo foi o esporte.

Isso não me impede, no entanto, de postar algumas coisas aqui de vez em quando, sobretudo quando é coisa que não se acha por aí. Palpites darei sobre assuntos contemporâneos, sobretudo quando a gastrite estiver pegando, pois é quando as palavras saem com mais facilidade e eu me divirto mais. Mas não terei como fazer disso um hábito, como ocorria antigamente.

Uma das coisas que eu gostaria de compartilhar com vocês é aquela que considero a melhor entrevista que Nelson Piquet já deu a um órgão da mídia especializada. Todos nós já assistimos a algumas entrevistas mais despretensiosas, como a que gerou sua famosa metralhadora de citações célebres, mas nenhuma delas é tão desbocada e ao mesmo tempo tão ampla em conteúdo quanto uma que ele concedeu à Revista Grid em setembro de 1993.

Naquela época, Piquet vivia uma fase de transição em sua vida. Ainda se recuperava dos inúmeros ferimentos sofridos num acidente em Indianápolis no ano anterior e, por isso, seu envolvimento com o esporte a motor estava reduzido. Paralelo a isso, Nelson liderava um projeto que se tornaria algo realmente grande, a empresa de monitoramento Autotrac. Estava feliz, rico e relaxado, mas manquitola.

Diante de figuras menos próximas (alô, “Ernesto Varela”), Nelson Piquet não fazia questão nenhuma de colaborar e parecer legal. Falava pouco e latia bastante, e com toda a justiça e razão. Na presença de jornalistas mais sérios e próximos de sua realidade, a situação era outra. Piquet discorre com liberdade, não economiza nos palavrões e se dá o direito de entrar em assuntos que não são de fácil digestão, como o perene mau estado do automobilismo brasileiro. Com Marcus Zamponi, carioca e bocudo como ele, Nelson se sentiu à vontade para falar do jeito que achava melhor e não se furtava a dar seus tabefes quando achava a pergunta cretina. Pegue a pipoca e divirta-se:

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“O Mansell é o maior idiota da história do automobilismo”

GRID: Você ainda odeia os jornalistas?

PIQUET: Ué, não estou te dando uma entrevista? (se espreguiça na cadeira, faz cara de enfado) Bem, o negócio é o seguinte: você não pode imaginar a pressão, a encheção de saco. Conversar com os especializados é até suportável, mas com aqueles que não sabem, não entendem nada, é muito sofrimento. Como eu ficava na Europa o tempo todo, quando voltava tinha 500 caras no aeroporto. Eu dava entrevista a cada um deles. Depois chegava em Brasília e era outro batalhão. Em casa, um monte deles na porta. Então eu já estava querendo descansar e pedia para armarem uma coletiva. Dava a coletiva e no final tinha que responder às mesmas perguntas dezenas de vezes, porque todos queriam exclusiva. De noite, ainda aparecia um gaiato da TV dizendo “Olha, não entendo nada, fala qualquer coisa”. Aí eu mandava mesmo à merda, pois tem muito jornalista babaca por aí.

GRID: Mas você tem de admitir que também existem muitos pilotos babacas…

PIQUET: Ah, isso tem…

GRID: E qual é o maior deles:

PIQUET: O Mansell é disparado o maior idiota da história do automobilismo. Agora está com mania de artista de novela. Tem taquicardia, desmaia. Quando corríamos juntos, tinha mania de imitar tudo o que eu fazia, dentro e  fora das pistas. Mas não sou só eu que acha isso dele. Os italianos divulgaram a história de que ele gostava de sofrer em dobro. Além de casar com uma mulher feia pra cacete, a tal Rosanne, ainda mandou fazer uma estátua dela pra botar no jardim.

GRID: Você sempre pegou no pé dele?

PIQUET: Sempre que podia. Uma vez, no México, ele resolveu dar uma de malandro e comeu todas aquelas comidas apimentadas. Pegou o “Mal de Montezuma”, uma terrivel diarreia. Nos treinos, dava umas voltas e parava no boxe para ir correndo ao banheiro. Só me toquei na terceira parada. Aí fui lá e escondi o papel higiênico. Quando ele parou de novo e deu pela coisa, aí, sim, urrava mesmo como um leão (gargalhadas).

GRID: E aquela polêmica sobre a sexualidade do Ayrton Senna? Só te deu amolação, não é? Cinco anos depois, como é seu relacionamento com ele?

PIQUET: Foi um saco, o Senna me meteu até um processo que depois retirou. Relacionamento? Não tive e não tenho. Ele já entrou na Fórmula 1 com bronca minha, alegando que impedi sua contratação pela Brabham. Quem conhece o Bernie Ecclestone sabe muito bem que ele não está nem aí para os pilotos que contrata. Quem era eu para ir contra a vontade de quem me pagava o salário?

GRID: Hoje você admite que o Senna é mesmo o melhor piloto da história da Fórmula 1?

PIQUET: Admito porra nenhuma! Na Fórmula 1, meu amigo, o que vale é resultado, o resto é conversa fiada. Então o melhor é mesmo o Prost, que tem mais de 50 vitórias, no caminho de um tetracampeonato…

GRID: Você morava em Mônaco, num iate, tinha avião, helicóptero, viva uma realidade sofisticada, cheia de mulheres. Voltar para Brasília e “pilotar” uma mesa de escritório não te angustia?

PIQUET: Olha, juro que não dá nem para lembrar. Estou totalmente envolvido com a Autotrac (um sistema de monitoramento rodoviário, por meio de satélite, que permite acompanhar a viagem quilômetro por quilômetro, com controle absoluto sobre a carga), que, para mim, é como se fosse uma Fórmula 3. Estou no início mas vou fazer dela uma Fórmula 1.

GRID: Há quem diga que você fez mal negócio. Que a Autotrac não vai pegar…

PIQUET: Quer apostar? Noventa e nove por cento do transporte brasileiro é rodoviário e a palavra de ordem é eficiência, a maior proposta da Autotrac. Estamos começando e a nossa expectativa com o negócio é de grandes resultados. Investi quase toda a minha grana nesse projeto e pode acreditar que aqui dentro tem uma verdadeira Fórmula  1. Você vai ver.

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“Felizmente a porrada não afetou o que mais gosto de fazer, que é…”

GRID: Nelson, uma vez você disse que o homem nasceu para procriar. Quantos filhos você tem?

PIQUET: Humm… (coçando a cabeça) Tenho cinco: Geraldinho, Nelsinho, Laszlo, Kelly e Julia. De três mulheres: Maria Clara, Silvia e Catherine.

GRID: Pelo visto, finalmente encerrou a produção…

PIQUET: Tá maluco? Agora é que vai começar (risos).

GRID: É verdade que na Fórmula 1 ninguém é amigo de ninguém?

PIQUET: Mais ou menos. Com alguns pilotos sempre tive bons relacionamentos. O Eddie Cheever foi e é um bom amigo, e o Sandrinho Nannini também.

GRID: Na última Indy 500, alguns jornalistas noticiaram que você estava lá só para pegar o dinheiro, que daria 20 voltas e pararia. E você parou com quase 30…

PIQUET: Porra! Qualquer idiota sabe que ainda estou longe da minha forma física, mas não foi por isso nem pela grana que falei que daria só 20 voltas. Disse porque a equipe Menard fez alterações no chassi e se deu mal. Prejudicaram a refrigeração do motor. Estouramos sete motores nos treinos, por que seria diferente na corrida?

GRID: E a tal briga na Justiça contra a Menard para reaver um dinheiro que lhe deviam ainda de 1992?

PIQUET: Realmente eles ficaram me devendo US$ 500.000. Acionei os caras e fui pago em março. Continuamos amigos. Nos Estados Unidos é assim.

GRID: Como foi a experiência na Indy depois do acidente?

PIQUET: A experiência foi uma merda. A Menard é uma equipe muito fraca, entrei de laranja, mas não entro mais. Depois de nosso acerto sobre os US$ 500.000 me convidaram para correr este ano. Topei e quando estive na Arisco, para vender a Autotrac, me perguntaram se eu não iria correr. Respondi que iria se eles estivessem comigo. Eles toparam e eu voltei.

GRID: Uma curiosidade de todos: como tem sido sua vida depois do acidente?

PIQUET: Felizmente a porrada não afetou o que mais gosto de fazer, que é transar. Mas já chorei muito de dor, trancado no quarto, e não foi de dor. Mancar não é nada, nem calçar 39 num pé e 41 no outro. Duro é saber que nunca mais vou fazer coisas que adorava, como correr a pé, jogar tênis, esquiar no lago. Sabe como eu compro sapato? (recuperando o sarcasmo) Peço um monte deles e, quando o vendedor bobeia, troco os pares nas caixas. Senão, teria de pagar um 39 e outro 41…

GRID: E a eterna comparação entre a Indy e a Fórmula 1?

PIQUET: Já encheu o saco compará-las. Sei que usam minha opinião para fazer polêmica. Mas são diferentes como o céu e o inferno. O Emerson merece todo o meu respeito, mas me aborreço quando ele insinua que o Indy é mais carro. Isso é pura loucura. A Fórmula 1 é tecnologia, vanguarda. A Indy é um brinquedo para velho aposentado, como eu. Veja só este ano: parado e fazendo terapia, sentei no carro para classificar e na sétima volta já estava a menos de quatro milhas da média horária do pole-position. Dá para acreditar? Imagine o contrário, o melhor gringo da Indy no primeiro treino virando quase o tempo do Prost. Nem em sonho, não é?

GRID: Para quem você torce na Indy?

PIQUET: Para o Raul Boesel, é claro. O Emerson já tem e fez de tudo. O Raul não. Está subindo agora, mas já empurrou merda ladeira acima durante muito tempo.

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“Curti tanto aquela manobra que botei o braço pra fora e mandei-lhe a maior rosca”

GRID: Você volta mesmo a correr?

PIQUET: Já estou correndo de kart aqui em Brasília. A Autotrac é prioridade. Quero correr esporadicamente, de preferência ganhando um bom dinheiro. Pretendo participar da próxima Indy 500 e, quem sabe, dar uma experimentada na NASCAR. Existe uma sondagem, mas aqueles carros devem ser mesmo uma cadeira elétrica.

GRID: Como surgiu essa história dos “teus campeonatos de kart” em Brasília?

PIQUET: Primeiro, não são “meus campeonatos”. Quando cheguei, minha ideia era fazer uma categoria para os velhos, para todo mundo brincar. Foi tanta confusão que pulei fora. Um dia, um cara da federação foi lá em casa e me pediu ajuda para um patrocínio. Estranhei porque eles cobravam cerca de US$ 70 pela inscrição e assim mesmo precisavam de dinheiro. Arrumei o dinheiro com a Arisco, mas condicionei que as inscrições não fossem cobradas. Só que eles cobraram os mesmos US$ 70. Aí fiquei uma arara. Não quis mais conversa. Os kartistas pediram para que eu continuasse com eles, sem intermediários. Como senti que o grupo estava unido, estimulei-os a ir na federação e a mandar todos à puta que o pariu. Com base na Lei Zico, eles criaram uma liga, sem nada a ver com federação ou confederação, e passaram a organizar seu próprio campeonato, com o patrocínio da Arisco. Claro que a federação retaliou e suspendeu quase 100 pilotos. Mas, só para você sentir a pilantragem, na primeira prova da liga cada inscrição saiu por CR$ 600,00 e com a grana eles pagaram troféus, prêmios, segurança, organização, enfim, tudo.

GRID: Depois dessa você pensa num cargo político? Talvez a presidência da Confederação Brasileira de Automobilismo?

PIQUET: De jeito nenhum. Não tenho tempo nem cacoete para isso. O que irrita é ter gente aqui há 29 anos no poder. Mandam, desmandam, vivem fazendo do esporte um negócio. Infelizmente este é o mais puro exemplo dos cartolas do automobilismo.

GRID: Vamos voltar para a Fórmula 1. No circo, todas as verbas são milionárias. O que a Williams tem que as outras não conseguem ter?

PIQUET: Provavelmente muito trabalho e humildade. O Patrick Head (diretor técnico da equipe) é sócio do Frank Williams e trabalha no mesmo endereço nos últimos dez anos. Esse é um fator. Outra coisa: o Gordon Murray (ex-Brabham), por exemplo, só admitia trabalhar onde pudesse expressar toda sua criatividade. O Patrick copia um pouco daqui, outro pouco dali e chega às suas conclusões. Parece japonês. Ele é tão humilde que quando testamos pela primeira vez uma suspensão ativa, saltei do carro e disse: “O carro parece um Cadillac”. Aí o gringo abriu o maior sorriso. Então completei: “Parece um Cadillac, a maior bosta, joga de um lado para o outro”. Ele podia ter ficado puto, mas o meu sarro serviu para estimulá-lo.

GRID: E em 1994, a Fórmula 1 vai mesmo ficar mais equilibrada?

PIQUET: Duvido muito. Em Silverstone, nos testes sem controle de tração e suspensão ativa, a Williams foi mais rápida que a atual McLaren. A diferença é que eles não pararam de trabalhar no desenvolvimento do carro convencional.

GRID: Tem equipe que burla conscientemente o regulamento da Fórmula 1:

PIQUET: Desconheço. Há quem use o regulamento até em suas entrelinhas, como o Gordon fez com o freio refrigerado a água, quando eu corria na Brabham em 1983. Só precisava de 1 litro, mas depois da corrida o reservatório tinha 20 para chegar no peso exigido. Fomos campeões.

GRID: Mas o Prost disse que você venceu aquele campeonato usando combustível fora do regulamento…

PIQUET: Pura idiotice. Falou por falar. Por que, então, não protestaram a Brabham?

GRID: Por falar nisso, qual foi sua maior vergonha na pista?

PIQUET: Humm… (pensando) Foi numa corrida de Fórmula 3. Larguei em primeira marcha e quando fui enfiar a segunda entrou marcha-a-ré. Foi o maior espalha-merda, queriam até me dar porrada.

GRID: E um momento bem curtido?

PIQUET: Aconteceu na Hungria, em 1986. O Senna me passou no grito e na volta seguinte devolvi a ultrapassagem na freada. Ele tomou o maior susto. Curti tanto aquela manobra que botei o braço pra fora e mandei-lhe a maior rosca.

GRID: Para terminar: e o “Fusquinha do Itamar”? É verdade que você gostou?

PIQUET: Achei ótimo (debochado). Vai ficar supermoderno quando colocarem o tal motor novo de 16 válvulas.

GRID: 16 válvulas no Fusca? Que diabo de motor é esse?

PIQUET: Não sabe? Serão oito válvulas no motor e mais oito no rádio… (gargalhadas).