Um dia com


Sem grandes vontades de buscar assunto. Sigo minha coluna ficcional. Ou nem tão ficcional assim.

Helsinki, domingo de folga qualquer. O sol batia tímido, como é costume em toda a Escandinávia. Na verdade, fazia um frio de congelar os pés do diabo lá fora. O orvalho congelado havia formado uma fina camada branca e homogênea sobre os carros, as caixas de correio e os toldos. As criancinhas, gorduchas e brancas como um lençol recém-lavado, andavam pelas ruas com gorros avermelhados e jaquetas de lã impermeáveis. O calor, tanto humano quanto físico, é incomum na capital finesa.

Em uma grande casa no subúrbio da cidade, dorme um casal de fama razoável em seu país. Ela é modelo e foi eleita a Miss Escandinávia em 2001. Ele é piloto de corridas, talvez um dos melhores da atualidade. É quase dez da manhã e Jenni Dahlman e Kimi Räikkönen ainda estão completamente adormecidos sob dois ou três cobertores 100% algodão. O despertador toca no celular de Jenni, música besta da Lady Gaga. Acordar no frio é um martírio, mas os finlandeses já estão acostumados. Jenni abre os olhos, se espreguiça e cutuca seu marido. Kimi, acorda!

O ex-piloto da Ferrari ainda dorme, com direito a um ronco grave, constante, sôfrego e desagradável. Sua mulher vai ao banheiro, lava o rosto, desce para a cozinha, prepara cereais com leite, suco de laranja e alguns ovos mexidos. Abre o jornal, dá uma folheada em algumas seções mais inúteis e toma seu café calmamente. Cadê o Räikkönen? Ainda dorme.

Jenni sobe, entra no banheiro e toma um banho demorado. Depois, coloca uma roupa, enfia uma bota de couro nos pés gelados, ajeita o cabelo, passa alguma maquiagem e muito perfume. Praticamente pronta para um desfile. Do horário que acordou até aí, mais de uma hora havia se seguido. Enquanto isso, Räikkönen dorme. Parece dormir até mais profundamente que o normal. Ela se irrita, chega na cama e tira os cobertores. Naquele frio indecente, qualquer um acordaria imediatamente.

Mas não Räikkönen. Então, maldosamente, Jenni pega um copo de água e despeja lentamente sobre o pé do marido. Aí não tem jeito: até mesmo o Chacrinha se levanta da catacumba. Ele desperta bruscamente, como se uma bomba nuclear tivesse estourado no quarto ao lado. Olha para os lados, pega o celular, vê o calendário e faz cara feia. É hoje.

Barbara, a melhor amiga de Jenni, iria viajar para a Sibéria com o marido por alguns anos e decidiu dar um almoço como despedida. Além de Jenni e Kimi, estariam lá mais algumas outras amigas em comum. Não havia outros homens: somente Kimi foi chamado, até porque o marido da Barbara gostava muito dele. Só que o apreço não era recíproco: Räikkönen o odiava. Este cara, Tommi, era um contador que não bebia, não fumava, não falava palavrão, só contava piadas sem-graça que ele escutava na repartição, sorria o tempo todo e ainda tinha uma risada horrível e desagradável. Era um babaca, um mala, um sujeito burocrático de existência dispensável.

Kimi, como não poderia deixar de ser, estava de péssimo humor. Ao entrarem no carro para uma viagem de algumas dezenas de quilômetros, Jenni, que estava dirigindo, deu os avisos indispensáveis ao marido antissocial:

– Kimi, por favor, não me faça passar vergonha lá com as minhas amigas.

– Vai ter bebida?

– Claro que não. A Barbara e o Tommi são cristãos ortodoxos, não bebem.

Paska!

Paska é um palavrão. Mas poderia haver uma salvação. Kimi enfiou a mão no bolso de sua jaqueta e… não achou nada.

– Antes de você acordar, eu tirei seu cantil de vodca de bolso e guardei. Você não vai beber lá em hipótese alguma.

O mau-humor aumentou, é claro.

O casal-celebridade chegou à casa de Barbara. As amigas já estavam lá, e todas estavam interessadíssimas em Räikkönen. Evidente que o motivo não era seus cabelos loiros e seus olhos azuis (atributos que não representam exatamente um grande diferencial na Finlândia), mas sua fama e sua grana. Jenni não se importava, pois sabia que o marido a amava tanto quanto amava uma boa dose de Blue Label. Barbara, loira alta de sorriso marcante, estava lá na porta. Tommi, o marido certinho e enfadonho, também. Só faltavam vocês dois, Jenni!

Kimi entrou, sempre de cara feia. Ninguém estranhou, já que Räikkönen nunca foi conhecido pela extroversão e pela alegria contagiante. Os dois se sentaram em um sofá da sala e vocês podem imaginar o restante. Um monte de mulheres falando sobre assuntos tão interessantes quanto a última coleção da Prada ou o corte de cabelo da presidenta Tarja Halonen enquanto tomam refrigerante diet e comem alguns petiscos de nozes e tomate seco.

Kimi só mexe no celular. Ele manda uma mensagem ao seu único amigo dos tempos de Fórmula 1, Peter, um mecânico que trabalhou com ele na Sauber e que atualmente trabalha nos Estados Unidos. “Peter, morri e vim para o inferno. Reunião de amigas chatas da minha mulher, sem bebida. Anexa uma garrafa de aquavit quando responder!”. Ao perceber, Jenni toma o celular da mão do marido e sussurra em seu ouvido “se continuar assim, vai ficar sem sukupuoli esta noite”. Räikkönen faz muxoxo e fica olhando para baixo. Apelar para o sukupuoli é maldade.

Enquanto isso, o sempre estupidamente sorridente Tommi só olha empolgado para Kimi e tenta puxar papo com seu pretenso amigo famoso.

– Como tá a vida no Mundial de Rali?

– Normal.

– É mais legal correr lá do que de Fórmula 1?

– Sei lá, deve ser.

– Hahahaha, Kimi, você é demais! E os outros pilotos finlandeses?

– Ahn?

– Você é amigo deles?

– Não.

– O que você achava do Schumacher?

– Ahn?

– Do Schumacher.

– Sei lá. Nada.

– Hahahahahaha! Kimi, você pode assinar um autógrafo para o meu sobrinho? Ele torcia muito para v…

– Licença, vou fumar lá fora.

Fumar? Jenni intervém:

– Mas, Kimi, você não f…

– LICENÇA, VOU FUMAR LÁ FORA.

Räikkönen se retira da sala e vai lá para o quintal. Ele não fuma. Isso é, ele não fuma há algum tempo. Antes de estrear na Fórmula 1, dois maços por dia eram religião. Peter Sauber e um médico chato da equipe suíça o encheram tanto o saco que Kimi acabou parando. Após deixar a Fórmula 1, ele até tentou voltar a fumar, mas sua mulher não deixou. Na verdade, o cara só queria ficar lá fora para se livrar daquela mulherada chata e daquele contador maldito e idiota, que vai morrer sendo um carola que nunca fez mais nada na vida além de analisar balanços.

Mas eis que, de repente, surge a salvação.

Enquanto andava pelo quintal, Kimi acaba observando, de soslaio, um moleque jogando videogame. Guitar Hero. O tal garoto é filho de Barbara. Os olhos forçosamente sóbrios de Räikkönen imediatamente brilharam. Guitar Hero é seu jogo favorito. Ele entra pela porta dos fundos, adentra o quarto e:

– Você está jogando Guitar Hero?

Imediatamente, o garoto empalidece:

– K-KIMI RÄIKKÖNEN?!

– Sim. Posso jogar com você?

Maravilhado, o menino empresta um microfone. E o show começa.

I’m on the highway to hell, highway to hell…

Lá na sala, o pessoal estranha a voz mais grossa que canta o clássico do AC/DC lá no quarto. Voz de adulto. Jenni desconfia. Segue para o quarto e dá de cara com seu marido berrando no microfone de brinquedo, enquanto o garoto toca a guitarra. Belo dueto, mas a esposa do piloto não ficou contente. Na verdade, pelo seu semblante, não haveria sukupuoli por uns dois anos.

Jenny conhece o marido e sabe como lidar com ele. Sem despender uma única palavra, olhou de maneira gélida nos olhos do marido, ordenando-o mentalmente a sair daquele maldito quarto e a parar de agir como uma criança mimada e antissocial. Kimi conhece a mulher entendeu a mensagem. Paska!

No carro, sempre conduzido por Jenni, o diálogo:

– Porra, Kimi, não poderia ter se comportado pelo menos hoje?

– Estava tudo chato, eu fui me divertir com o garoto. Qual o problema?

– Qual o problema?! Você não tem sete anos de idade! Você deveria estar lá comigo! As minhas amigas estavam todas estranhando e dando risada da situação!

– Hunf.

– Você sabe, não vai ter sukupuoli por uma semana. E tem mais: eu acho que…

Para sorte de Kimi Räikkönen, o carro passava em frente ao seu boteco preferido. Alguns de seus amigos estavam lá, como sempre acontece nos domingos.

– Para o carro que eu vou descer aqui.

– Mas eu estou fal…

– Para o carro, Jenni.

Jenni conhecia o marido. Não adiantava discutir com ele, pois Kimi estava pouco se lixando. Como o privilégio de ter um marido rico e famoso vale qualquer coisa, ela não esboçou reação e deixou ele ir em paz.

Despreocupado, Kimi desceu do carro e entrou direto no boteco. Agora, sim! Estavam lá todos: Mika, Juhani, Mika, Jari, Junni, Mika, Kai e Mika. A vodca era abundante, assim como as risadas e os palavrões. Räikkönen havia acabado de subir diretamente do inferno para os céus.

A turma bebia garrafa atrás de garrafa. O mais bizarro é que, conforme as garrafas se esvaziavam, Kimi se transformava em um sujeito doidão, extrovertido, risonho e completamente babaca. Após horas de bebedeira, a turminha do barulho saiu para dar umas voltas na cidade. Quebraram algumas vitrines, roubaram placas e Kimi até pichou um “MORRA, LATVALA” em referência ao colega do WRC que ele não gostava por motivos obscuros.

Depois de conduzido a uma delegacia e liberado por ser quem é, Kimi Räikkönen voltou bêbado, sujo de vômito, com a roupa rasgada e a cara vermelha para casa. Jenni já estava na cama, mas não dormia. Queria bater um papo com o marido.

Kimi adentrou o quarto, tirou a roupa e caiu direto na cama. Imediatamente, a mulher tratou de reiniciar a discussão:

– Kimi, nós precisamos conversar. Eu…

– RONC!

P.S.: Os personagens podem ser verdadeiros, mas a história é totalmente ficcional e nada tem a ver com a realidade. Portanto, se por acaso você, Kimi, estiver lendo isso aqui no Google Translator, não se sinta ofendido e nem me processe. Não tenho grana e nem tenho algo contra você!

Sem grandes manchetes ou enorme vontade de explorar algum assunto esquecido, exercito meu lado ficcional. Depois de imaginar como seriam as abastadas porém medíocres vidas de Bernie Ecclestone e Danica Patrick, o próximo alvo das maledicências será um piloto não tão antigo de Fórmula 1. Presente na categoria entre 1994 e 2002, o finlandês Mika Salo destacava-se por ser um James Hunt nórdico, completamente chapado e politicamente incorreto.

Hoje, apresento um dia de sua vida nos tempos de Fórmula 3 britânica, mais precisamente no fim de 1990.

Everyone has been burned before, everybody knows the pain.

O aparelho de som tocava The Charlatans na maior altura. As músicas do então emergente movimento madchester soavam bela trilha sonora para o cenário de decadência juvenil que assolava aquele frio e úmido casebre localizado em um bairro de baixo nível do borough londrino de Croydon. Lá fora, o céu acinzentado e infeliz de sempre. Garoava um pouco. O calor humano, definitivamente, era maior lá dentro.

Uma república de estudantes de universidade pública parecia um convento franciscano perto daquela típica habitação inglesa. Tênis para lá, meias para cá, revistas pornô sobre a geladeira, seringas espalhadas pelo chão, garrafas de cerveja Guinness dividindo espaço com uma lata de feijão e um pote de aspirinas, papel higiênico grudado no teto e televisão ligada em um daqueles documentários altamente entediantes da BBC. Os protagonistas do caos adolescente eram quatro sujeitos que, definitivamente, não são exemplos de moral e boa conduta.

Momb’ndoki era um senegalês de 27 anos que havia chegado à Inglaterra três ou quatro anos antes dentro de um contêiner sul-africano. Seu inglês era miserável, assim como sua vida londrina: uma rotina de pequenos biscates, futebol na TV, mulheres e vontade nula de pensar em coisas sérias. Na casa, ele era chamado de “the big one” e prefiro não comentar o motivo.

Linda era uma irlandesa de 19 anos que havia acabado de fugir de casa. Sua família, dona de uma rede de lavanderias em Dublin, era endinheirada e sofisticada, mas a princesinha detestava o luxo e a hipocrisia pseudoaristocrática que a rondava. Foi para a Inglaterra, fez 14 tatuagens, pintou o cabelo de azul e decidiu que queria ser roqueira. Trabalhava servindo bebida e fazendo cover de Cindy Lauper, sua inspiração, no Grant’s, um pub que fica logo ali. Tinha uma namorada, mas estava quase no fim do relacionamento.

Álvaro era um colombiano de 31 anos que vivia como traficante de quinta categoria nos subúrbio londrino. Esperto, sempre conseguia escapar da polícia e detinha nada menos que 21 identidades de 14 países. Naqueles dias, ele circulava por Londres como um brasileiro chamado Ayrton. Álvaro recebia drogas fresquinhas da América do Sul e revendia para a multidão de viciados que assolava a capital inglesa, além de fornecer algum para seus convivas de casa. Que, aliás, eram os únicos que sabiam que ele se chamava Álvaro. Isso se este realmente fosse seu nome.

O quarto habitante era exatamente Mika Juhani Salo, um finlandês de 23 anos que sonhava em seguir os passos de Keke Rosberg e se tornar um piloto de Fórmula 1. Ao contrário de seus colegas de casa, Mika era o único que parecia ter algum futuro na vida. Por outro lado, honrando seu sangue finês, era o que mais bebia, o que mais cheirava e o que mais injetava de longe. Seus companheiros até estranhavam, já que ele era boa-pinta e não ganhava nada vivendo na merda com um monte de escória. Um Diário de um Adolescente finlandês, por assim dizer.

Os quatro estavam basicamente desmaiados. Mika estava praticamente morto no chão, com um perdigoto de vômito no canto da boca, uma prostituta inerte ao seu lado, três garrafas vazias de vodka barata e um pouco de pó espalhado pelo chão. De repente, toca o despertador, barulhento como o cão. Eram onze da manhã. Salo dá um pulo, olha para os lados assustado e percebe que, não, a polícia não havia arrombado a porta. Levanta-se, boceja, limpa o vômito da boca, coça o saco, desliga o aparelho de som e começa seu dia.

Mika Salo estranha toda aquela bagunça. Ele não se lembra de muita coisa. Por que toda aquela gente caída, todas aquelas garrafas e seringas estavam espalhadas no chão? Ele abre a geladeira, só há alguns ovos em estado de petição e uma torta de rim de três semanas atrás. Senta na privada, que fica ao lado do fogão, engole tudo rapidamente e dá uma cheiradinha rápida para começar bem a manhã. Aos poucos, todo mundo vai acordando.

Momb’ndoki se aproxima.

– Hey, big one, why this mess on the floor? Did we party last night?

– Hai, Mika, duntyu rimembah? Wiwa celebreytin da invitaytion yu riceevat from Tyrel.

É isso mesmo. Todo mundo estava festejando o convite que Mika Salo havia recebido de Ken Tyrrell para testar um carro de Fórmula 1 após o fim da temporada da Fórmula 3 britânica, categoria na qual ele participava com enorme sucesso e aparecia como um dos destaques. A memória aparecia aos poucos. Mika e amigos se entupiram de sexo, drogas e rock’n roll durante toda a madrugada. Em algum momento, ele deve ter apagado.

O problema é que sua precária condição não poderia estar tão aparente. Mika teria de participar de um teste coletivo da Fórmula 3 britânica lá em Brands Hatch com sua equipe, a Alan Docking Racing. Um representante da Tyrrell estaria presente neste teste para analisar o estilo de pilotagem do jovem finlandês. Pegaria muito mal para Salo, portanto, esfregar na cara do sujeito da Fórmula 1 que ele não passava de um adolescente bêbado e viciado.

Após seu frugal breakfast, Salo foi ao banheiro, se limpou, penteou o cabelo e até escovou os dentes. Depois, pegou uma roupa nova que seus pais haviam mandado por correio algumas semanas antes e foi à luta. No seu guarda-roupa, três pôsteres: um de James Hunt, outro de Jim Morrison e o terceiro de Charles Manson. Enquanto os pilotos contemporâneos se orgulham de ter ídolos “exemplares”, Mika admirava os mais pirados, aqueles marginalizados por vovós e carolas em geral.

Antes de entrar em seu Ford Escort, Mika cheira mais um pouco e vira meia garrafa de vodka: diz ele que não consegue pilotar sem estar sob efeito de álcool. Quando ele começa a sair da garagem, Momb’ndoki vem atrás e grita:

– Mika, yuah fugettin yohellmadut!

– WHAT?!

Momb’ndoki, o melhor amigo do finlandês, era foda. Seu inglês era realmente triste. Mais devagar, ele repete, traduzindo para o português, “você está se esquecendo do seu capacete, cara”. Mais atrás, Linda e Álvaro se aproximam e desejam boa sorte. O colombiano ainda enfia uns pacotinhos com cocaína no bolso do macacão do piloto para o caso de alguma necessidade. E Salo segue em direção a Brands, que não era tão longe dali. Em altíssima velocidade, é claro.

No meio do caminho, um guarda o para. Salo dá risada.

– E aí, Paul, como vai a vida?

– Na paz, Mika. E você, tá indo com pressa pra onde? Tá parindo um filho?

– Hahaha! Tenho teste lá em Brands Hatch agora. Vai me prender? Hahahaha.

– Deveria, viu. Se meu chefe visse isso, nós dois estávamos completamente fodidos, hahahaha.

– Hahahahaha.

– Mas preciso te falar uma coisa, Mika. É coisa séria.

– Porra, o que foi, Paul?

– Tô saindo mais cedo hoje e vão colocar um outro cara no meu lugar daqui a pouco. Pelo que eu sei, o sujeito é meio barra-pesada, não é do tipo que vai deixar você dirigir bêbado e drogado por aí. Evita passar por aqui mais tarde, então.

– Beleza. Valeu pelo aviso, Paul.

E Mika segue a viagem a mil em direção a Brands.

Ao chegar lá, ele avista seu xará Mika Hakkinen saindo do carro. Salo desce do carro, corre em direção a Hakkinen, enfia um tapa em sua cabeça e sai correndo aos risos. Os ingleses, ávidos por fofocas e rivalidades bestas, adoram. Hakkinen é visto como o sujeito correto e dedicado, cujos únicos defeitos são beber muito, algo obrigatório para um finlandês da gema, e ser meio enfadonho. Salo é seu antagonista mal-educado, cachaceiro, babaca, politicamente incorreto e bem mais divertido. Um Ayrton Senna vs Nelson Piquet em Helsinki.

Salo chega aos boxes da sua equipe e encontra o tal representante da Tyrrell. Conversa com ele por alguns minutos e até consegue passar a impressão de ser um piloto batalhador e consciente. Após a conversa, Mika entra em um banheiro e, nervoso, cheira um pouco do pó redentor do Álvaro.  Sentindo-se eufórico, ele volta aos boxes e entra no seu Ralt-Honda patrocinado pelos cigarros Colt. Ironicamente, ele odiava fumar Colt e preferia a Marlboro, que patrocinava seu rival Hakkinen.

Naquele ano, apesar do alto nível dos concorrentes, só a disputa entre os dois Mika importava. E Salo deu show, fazendo o melhor tempo do dia e deixando Hakkinen quase sete décimos atrás. Quando ambos estavam voltando para os pits, Salo ainda mostrou o dedo do meio para seu colega, em ato de enorme educação e respeito. Desceu do carro, foi felicitado pelos seus mecânicos, recebeu um thumbs up do funcionário da Tyrrell e passou pelo banheiro para cheirar mais um pouco. Ao retornar do banheiro, Salo conversou com o cara da Tyrrell e este disse que gostou do que viu, reportaria o resultado a Ken Tyrrell e o teste com o carro de Fórmula 1 seria confirmado em breve. Haveria até mesmo a possibilidade de correr como titular em 1991, o que deixou Salo bem animado.

Depois disso, Mika e seus mecânicos foram ao pub mais próximo e encheram a cara para comemorar. Salo, como sempre, foi o que mais bebeu e ainda pagou a conta de todo mundo com o dinheiro que recebia dos pais e dos cigarros que ele tanto odiava. Depois, pegou seu Escort e saiu com tudo em direção à sua casa.

Só que, bêbado e pouco inteligente, ele passou pelo caminho de sempre. E lá estava o tal policial turrão. Sem perceber, ele parou o carro para bater um papo.

– E aí, Paul, como vai a vida?

– Paul? Meu nome é Charles Morrison. E, a propósito, o senhor não me parece muito bem.

– Charles… Morrison… que legal, é tipo o Charles Manson e o Jim Morrison em um cara só! Hahaha!

– O senhor está completamente embriagado. Saia do carro.

Sem oferecer qualquer resistência e rindo tranquilamente, Mika saiu, fico com as mãos ao alto e até vomitou um pouco no capô do Escort. O sério Charles Morrison levou o finlandês à delegacia. Segundo a lei inglesa, o motorista completamente chapado é condenado a seis meses de prisão, multa de cinco mil libras e perda da carteira de motorista. Por intermédio do amigo Paul, Salo deu um jeito e se safou da cadeia. Mas a multa e a perda da carteira foram incontornáveis.

O cenário automobilístico inglês ficou chocado com a notícia do que aconteceu com Mika Salo. A Alan Docking Racing quase o demitiu, mas preferiu apenas repreendê-lo. E a chance de testar com a Tyrrell, obviamente, foi para o saco. No fim do ano, a Colt retirou seu patrocínio. E Mika “Renton” Salo quase teve de voltar para Helsinki com o rabo entre as pernas.

A partir daí, Salo teve de mudar o rumo da sua vida. Foi para o Japão, se divertiu com as prostitutas locais, ganhou algum dinheiro e não obteve nenhum grande resultado. No fim de 1994, a Lotus o salvou do ostracismo. E começava aí a carreira de um dos sujeitos mais subestimados dos anos 90.

E o Momb’ndoki ainda não aprendeu inglês direito.

P.S.: Os personagens podem ser verdadeiros, mas a história é totalmente ficcional e nada tem a ver com a realidade. Portanto, se por acaso você, Mika, estiver lendo isso aqui no Google Translator, não se sinta ofendido e nem me processe. Não tenho grana e nem tenho algo contra você!

Há algum tempo, fiz um texto imaginando como deveria ser a miserável vida de Bernie Ecclestone, o supremo da Fórmula 1. Até que os leitores gostaram. Então, decidi criar uma série nova. Em dias nos quais não tenho assunto ou vontade para escrever algo mais detalhado, darei asas à minha imaginação e aos meus devaneios mais doentios. Como seria a vida dos personagens mais curiosos do automobilismo?

Tenho várias ideias em mente. Os leitores podem sugerir pilotos, engenheiros, dirigentes ou quaisquer personagens que possam ser tripudiados aqui. Hoje, como forma de aquecimento para a corrida da Indy em São Paulo, inicio a série com a americana Danica Patrick, pilota (sim, uso esse neologismo) da Andretti Autosport na Indy, participante da NASCAR Nationwide Series nas horas vagas e uma das mulheres mais chatas já nascidas no planeta.

Os raios de sol atravessavam impiedosamente a fina cortina de seda daquela bela e enorme janela em estilo gótico. O sol vivo e escaldante cobria o oásis de Phoenix, capital do Arizona, com sua magnitude costumeira. A umidade é inexistente. Só sobrevive a este martírio térmico quem tem dinheiro o suficiente para instalar um potente Carrier em seu recinto. Este é o caso de Danica Sue Patrick, habitante daquela generosa mansão de três andares no subúrbio daquela metrópole árida.

Os raios de sol atingem o belo rosto de Danica, que converte a suavidade dos traços típicos da moça que estava mergulhada no estágio REM do sono em um estupor típico de quem acabou de levar um tapa na cara. Resistindo ao terrível esforço de abrir os olhos, ela resmunga e olha para o relógio. São oito e quinze. Como se tivesse visto um fantasma, Danica pula assustada e corre para o banheiro. Ela está atrasadíssima. Seu dia será extremamente corrido: evento com o patrocinador Go Daddy e teste no circuito de Barber de uma só vez.

Danica está de TPM. Normal. Ela sempre está de TPM. Ela é a personificação da TPM. Seu marido, o fisioterapeuta Paul Edward Hospenthal, já está acostumado. Os dois estão casados desde 2005 e Hospenthal sabe que qualquer coisa irrita sua mulher, ainda mais quando os hormônios estão todos belicosos naquele pequeno corpo. No banheiro, ela se olha no espelho. Desgraça das desgraças: há duas espinhas na bochecha. Danica começa a chorar, dizendo que está inchada, cheia de berebas na cara e que a mídia não irá perdoá-la. Tentando consolá-la, Paul solta as duas frases proibidas:

– Você está bem, amor. É apenas impressão sua.

Danica vira a cabeça e fustiga seu marido com um olhar assustadoramente furioso. As chances de Paul conseguir sexo com sua amada naquela noite se reduziram em uns 95% só naquelas poucas palavras.

Depois de passar alguns bons minutos empapando a cara com pó e qualquer coisa que escondesse aquelas duas montanhas de gordura na pele, Danica desce para o café da manhã. No geral, ela é bem disciplinada e só come cereais com leite desnatado e algumas frutas. Em dias de TPM, no entanto, a pilota chuta o balde e só come tudo aquilo que causa calafrios em um nutricionista. Ansiosa, ela saca algumas barras de chocolate da despensa, frita algumas linguiças e abre um enorme pote de sorvete de creme. E come tudo sozinha. Paul, de ótimas intenções e péssima inteligência, solta outro comentário que reduz a zero suas chances de uma boa noite de sexo com a mulher:

– Toma cuidado, porque você vai engordar comendo tudo isso.

Com a boca suja de sorvete, Danica não diz nada. Apenas olha bem para seu marido por três ou quatro longos segundos. Percebendo a enrascada na qual estava se metendo, Paul apenas abaixa a cabeça e continua tomando seu café enquanto folheia um jornal de maneira amedrontada. O silêncio sepulcral segue por uns trinta minutos, até que Danica termina de devorar o sorvete e sobe para se trocar.

Em um dia de TPM, tudo está um desastre para Danica Patrick. As sandálias são todas horríveis e antiquadas, nenhum vestido entra em seu manequim, as olheiras estão imensas e o cabelo está cheio de pontas duplas. Após dez minutos de tortura, ela finalmente encontra um vestido, calça um escarpin que havia sido dado de presente por uma irmã, empapa a cara com mais maquiagem, alisa o cabelo e segue em frente, emburrada. Entra em seu Lamborghini Gallardo e o conduz em altíssima velocidade até a cidade de Scottsdale, localizada a oeste de Phoenix. A sede da Go Daddy fica lá.

A Go Daddy é uma empresa que presta vários serviços relacionados à internet. Naquele dia, ela estava lançando um novo software que permitia registrar rapidamente novos domínios sem ter de acessar o site. Danica, a principal garota-propaganda da empresa, teria de participar da festa de lançamento do software. Nesse caso, ela é obrigada a engolir o mau-humor, as espinhas e tudo o que torna seu dia o pior de todos e sua vida a mais dura entre todos os seres humanos. Tudo em nome do patrocinador.

Danica sorri, tira fotos com os fãs, dá entrevistas simpáticas para as televisões locais, come alguns quitutes e posa como a mulher mais simpática que já existiu. Mas a verdade não tardava a chegar: tão logo as câmeras se afastavam, ela se transforma em uma chata de galocha. Reclama, faz cara feia, recusa-se a falar com jornalistas e ainda olha para o relógio, louca que estava para ir embora.

Após algumas horas de aborrecimento, Danica entra em seu Gallardo e voa em direção ao aeroporto Sky Harbor. Após estacionar, ela corre para fazer o check-in e embarcar rumo ao Alabama, estado onde se localiza o circuito de Barber. Mas o avião, que vinha de Seattle, estava atrasado e a perspectiva mais otimista apontava para uma demora de até quarenta minutos na decolagem. Danica pirou de vez. “Como assim?! Eu pago para voar nessa porcaria de companhia e vocês não conseguem fazer nada direito?! Ah, se eu perder um único minuto do meu teste em Barber, processo a empresa, o piloto do avião, o co-piloto, você mesma e sua mãe!”, esbravejou para a pobre atendente da companhia aérea.

Na verdade, o avião atrasou em mais de uma hora. Nesse interregno, Danica roeu todas as suas unhas, comeu três pacotes de Ruffles, ligou para sua mãe para reclamar do dia e até entrou no banheiro para chorar um pouco o desastre que era sua vida. Ao embarcar, ela reclamou com o comissário de bordo sobre o atraso e se recusou a ceder sua cadeira a uma velhinha, mesmo estando sentada no assento reservada à idosa. “Eu sou Danica Patrick e posso sentar aonde quiser”. Como era hora do almoço, Danica aproveitou para engolir um hambúrguer, uma Coca-Cola e um pote de Pringles. Enquanto mastigava a batata, chorava.

O avião chegou em Birmingham, maior cidade do Alabama, às duas da tarde. O teste em Barber, localizado no extremo leste da cidade, começaria em trinta minutos. Ansiosa, Danica pega o primeiro táxi disponível. O motorista, sujeito pacato e bonachão que escutava Johnny Cash enquanto dirigia seu Crown Victoria, percebe que a caronista era uma das esportistas mais famosas do país e pede um autógrafo. Simpática como um cadáver de urubu, Danica responde “você está sendo pago pra me levar a Barber, não pra me pedir besteira”.  O motorista fecha seu semblante e segue, calado, até o autódromo. Enquanto isso, a pilota só reclama: “Vamos mais rápido, cara. Mais rápido!”.

Danica Patrick chega ao autódromo faltando apenas dez minutos para o início dos treinamentos. Ela entra nos boxes da Andretti Autosport sem cumprimentar ninguém, como é o costume. Os mecânicos e engenheiros a odeiam, assim como seus três companheiros de equipe. Na verdade, nem o patrão Michael Andretti gosta dela, mas a presença da garota na equipe atrai enorme atenção da mídia e da torcida. Em dias de TPM, os integrantes se entreolham e soltam alguns comentários cínicos. “Coitado do marido dela”. “TPM? Se o carro dela quebrar, vai rolar morte por aqui”.

A pilota entra em seu Dallara verde e preto. Liga o carro, dá algumas voltas e retorna aos pits. Segundo ela, está tudo errado. O motor não tem potência, o carro sai de frente em algumas curvas e de traseira em outras, a relação de marchas não permite extrair o máximo de potência em algumas curvas, o pedal de freio está muito baixo e os pneus não se aquecem devidamente. Irritado, seu engenheiro chama Mike Conway para dar umas voltas no mesmo carro. O britânico entra na pista e faz um tempo quase 1,5seg mais rápido que a melhor volta de Patrick. Volta aos pits e diz que o carro está OK. E todos olham para Danica com cara de escracho.

Calada, Danica volta para a pista e dá mais algumas voltas. Mais precisamente, 23. Ela até consegue melhorar seu tempo em nove décimos, mas ainda não consegue repetir a volta de Conway. Entre os quatro pilotos da Andretti, ela é a que tem a volta mais lenta. Ryan Hunter-Reay, o melhor nas tabelas, havia sido quase dois segundos mais rápido. Até mesmo a besta do Marco Andretti havia feito uma volta meio segundo mais rápida.

Nervosa como um tigre esfomeado, Danica pede algumas mudanças, sendo a principal uma diminuição drástica no ângulo da asa traseira, visando aumentar a velocidade final. “O carro vai ficar inguiável nas curvas”, alerta seu engenheiro. Ela ignora as recomendações, diz que é ela quem dirige o carro e ordena os ajustes aos mecânicos. Alguns minutos depois, Danica retorna a pista. Na primeira volta, o carro realmente se mostra um pouco mais veloz. Na segunda, não há mais carro: após perder o controle em uma curva veloz, Danica Patrick roda e enfia seu Dallara em um guard-rail, o que interrompe os treinamentos.

Mesmo tendo trabalho adicional, os mecânicos da Andretti morrem de rir com o acidente da princesinha. Danica volta aos pits, segue direto para o motorhome da Andretti, pega suas coisas e vai embora sem maiores explicações. Chorando, é claro.

Danica Patrick consegue chegar em casa antes da sete da noite. Seu marido ainda não está lá, o que a deixa ainda mais nervosa e ansiosa. Então, ela vai à geladeira e pega outro pote de sorvete de creme. Joga-se no sofá, liga a TV e vê qualquer coisa. Mas nada a agrada. NHL, David Letterman, Two and a Half Man, clipes na MTV, absolutamente nada parece consolá-la de sua vida de merda, de todas as pessoas medíocres e situações indesejáveis que a rondam. Resta a ela ir para a cama.

Quando Danica já estava dormindo profundamente, Paul acende a luz do quarto. Ele havia acabado de chegar. Como forma de se desculpar pelos hediondos comentários feitos de manhã, ele comprou um buquê e uma caixa de chocolates belgas. Valrhona, sua marca preferida. Na certa, a carinha brava se transformaria em um enorme e lindo sorriso. E os dois teriam um fim de noite daqueles. Mas não:

– Você me acordou, SEU FILHO DA PUTA!

Paul teve de dormir no sofá. E o mau-humor de Danica só chegou ao fim… Não, pensando bem, ele não chegou ao fim ainda.

P.S.: Os personagens podem ser verdadeiros, mas a história é totalmente ficcional e nada tem a ver com a realidade. Portanto, se por acaso você, Danica, estiver lendo isso aqui no Google Translator, não se sinta ofendida e nem me processe. Não tenho grana e nem tenho algo contra você!