No pódio, Lucas Foresti ri. Um salve a aqueles que não acreditavam nisso, como eu.

Esse negócio de escrever sobre esporte é algo engraçado. Jornalistas, blogueiros e gaiatos são aquelas pessoas razoavelmente cruéis e ávidas por notoriedade que buscam incansavelmente a opinião definitiva e os dividendos que ela traz, como a fama, o reconhecimento ou a capacidade de formar opinião. Sem grandes compromissos com a responsabilidade, com a ética ou até mesmo com a realidade, nós escrevemos besteiras a rodo e emitimos ideias como se nossos dedos fossem a verdadeira reserva moral e intelectual da humanidade contra os ignóbeis.

Em poucas palavras, falamos muita merda. No caso de quem comenta sobre automobilismo, a merda costuma ser ainda mais abundante e malcheirosa. Reputações são detonadas em uma única reportagem, picaretas são levados aos céus imediatamente após única grande atuação e competentes são miseravelmente enterrados a sete palmos após duas corridas ruins consecutivas. Todo mundo faz isso, especialmente eu. Pois bem, quero fazer meu mea culpa hoje. Retrato-me sobre o piloto brasileiro mais surpreendente no automobilismo estrangeiro.

Lucas Foresti, brasiliense de 19 anos, é o atual vice-líder da Fórmula 3 britânica. Com 121 pontos, ele já está a distantes 75 pontos do líder, o compatriota Felipe Nasr, mas tem dez pontos a mais que o malaio Jazeman Jaafar. Chama a atenção o fato de Foresti estar metido em uma panelinha da Carlin, a equipe dominante da Fórmula 3 britânica: ele é o único piloto entre os seis melhores que não corre pela escuderia de Trevor Carlin. Sua equipe é a Fortec, competente mas sem cacife para pelear pelo título.

Como dito acima, Foresti é o piloto brasileiro que mais me chamou a atenção pelo lado positivo neste ano até aqui. Ao contrário de Felipe Nasr, sempre reverenciado como um piloto promissor, Lucas iniciou a temporada 2011 naquela incômoda situação de piloto brasileiro sem expressão, sem muito dinheiro e sem moral. Em 2010, ele se arrastou na GP3 e na mesma Fórmula 3 britânica. Terminou o primeiro campeonato em 19º e o segundo em 13º.

E aí entra o que eu falei nos dois primeiros parágrafos. Na GP3, considerava Foresti o mais fraco entre os quatro brasileiros que competiram por lá em 2010. Acreditava que Leonardo Cordeiro, Pedro Nunes e principalmente Felipe Guimarães eram melhores. Na Fórmula 3, as transmissões só o mostravam errando ou saindo da pista. Na segunda corrida de Thruxton, ele conseguiu a segunda posição no grid e pulou para a ponta na largada, mas se envolveu em um acidente tão perigoso quanto besta com Felipe Nasr. Os dois tiveram culpa, mas na época eu nem me preocupei em estudar um pouco mais o assunto e fiz meu julgamento apenas com o que via nos replays de outros incidentes: a culpa era do Foresti e ponto final.

Foresti e seu carro atual, o Dallara da Fortec

Na verdade, nunca escrevi nada sobre ele aqui, já que nunca considerei que havia motivos para tal. Como vocês devem saber, tenho uma seção especial aqui (O Futuro já Começou) que comenta sobre os pilotos brasileiros com maior potencial no automobilismo de base. Além de Nasr, já falei do Razia, do Rafael Suzuki e do César Ramos. Tinha para mim que só valeria a pena escrever sobre quem aparentava ter algum potencial.  E para mim, o Foresti era só um piloto meia-boca sem futuro. Hoje, seria puro oportunismo de merda enterrar no rabo o que pensava sobre ele e escrever um perfil puxando seu saco vigorosamente. Preferi escrever um texto sobre ele e sobre injustiças cometidas por quem escreve.

Quinze corridas foram o suficiente para Lucas calar minha boca. Venceu três corridas de maneira absolutamente convincente até aqui. Em Outlon Park, fez uma pole-position fácil e enfiou 18 segundos no segundo colocado na bandeirada. Em Snetterton, aproveitou-se da regra de grid invertido para sair da ponta e vencer de maneira igualmente tranquila. Em Brands Hatch, sob chuva, ele saiu da quinta para a primeira posição após várias ultrapassagens e ainda decidiu permanecer na pista já seca com pneus de pista molhada. Vitória impressionante. Acabei tendo de rever alguns conceitos. Para alguém como eu, um sacrifício comparável a um tiro no saco.

Foresti está longe de brigar pelo título da Fórmula 3 neste ano, mas o que foi obtido até aqui já o credencia como um dos pilotos a serem observados pelo Brasil nos próximos anos. Se esta sua curva de melhora prosseguir desta maneira, não seria absurdo imaginá-lo na Fórmula 1 ou na Indy. Mas o que aconteceu em 2010 para sua fama ficar ruim? Analisando sua carreira por cima, dá pra ver que seus dois grandes problemas diziam respeito à falta de experiência e à repentina mudança de rumos na sua vida.

Foresti sempre gostou de velocidade – mais precisamente, de motos. Quando era criança, ganhou uma moto de 50cc para disputar campeonatos mirins de motocross. Embora ele tenha vencido vários campeonatos, um acidente em uma prova realizada em Acreúna (?!) resultou em um monte de ossos quebrados. A partir daí, a família começou a reprovar a brincadeira, mas Foresti decidiu seguir em frente.

Até 2006, tudo indicava que Foresti seguiria o pai, campeão de motocross de seu estado, e continuaria angariando troféus com duas rodas. Num belo dia, no entanto, Lucas descobre que seu tio tem um kart encostado em um galpão por aí. Pronto. O garoto decide trocar as motos pelo kart e, de cara, ganha uma saraivada de títulos no Centro-Oeste em apenas dois anos de carreira.

Em 2010, dificuldades na Fórmula 3 britânica...

Em 2008, o velho Amir Nasr decidiu dar uma mão ao jovem piloto e lhe emprestou um Dallara-Mugen para fazer alguns testes com um monoposto. Foresti completou mais de mil voltas conhecendo o carro e Amir considerou que ele estava pronto para subir para o automobilismo. No fim do ano, Nasr decidiu criar uma equipe para disputar a última rodada dupla da Fórmula BMW das Américas, realizada em Interlagos. A dupla, como não poderia deixar de ser, seria Felipe Nasr e Lucas Foresti. Brasília estava bem representada lá na corrida paulistana.

Foresti largou em nono e terminou em décimo nas duas provas. Não era lá um desempenho enormemente brilhante, mas estava bom para quem nunca havia disputado uma corrida de monoposto na vida. Depois disso, ele decidiu competir na Fórmula 3 sul-americana em 2009, mas como a Amir Nasr Racing não seguiria na categoria naquela temporada, Lucas teve de encontrar um espaço na Cesário Formula, a melhor equipe da história da Fórmula 3 no Brasil.

Tadinha da Fórmula 3 sul-americana, outrora grande e reluzente categoria. Com grids rondando inaceitáveis dez carros por corrida e divulgação zero, não dava para aprender muito por lá. Lucas Foresti terminou o ano em terceiro, tendo vencido uma corrida em Campo Grande. Sem muita paciência, ele decidiu dar um salto para a Europa.

Foi um processo turbulento e imperfeito. Lucas inicialmente havia assinado com a Hitech para correr na Fórmula 3 britânica, mas fez um teste na GP3 com a Carlin e acabou impressionando Trevor Carlin, que decidiu contratá-lo para correr nos dois campeonatos, a GP3 e a Fórmula 3 britânica. Imagine: quatro anos antes, correr de kart era algo tão inimaginável para Foresti quanto ir para Saturno. O que canso de falar sobre Bruno Senna vale para ele também: uma carreira tão atropelada costuma render mais problemas do que qualquer coisa.

A prioridade maior de Foresti era a Fórmula 3 – e isso explicaria o fato dele ter perdido as rodadas de Istambul e Hungaroring da GP3. Fazer dois campeonatos extremamente competitivos ao mesmo tempo acabou não sendo lá uma boa ideia. Na GP3, ele fez uma ótima segunda corrida em Barcelona, segurou os ataques dos badalados Jean-Eric Vergne e Esteban Gutierrez e terminou em uma boa segunda posição. Dali em diante, penou muito e não conseguiu marcar mais pontos. Terminou a temporada em 19º, com sete pontos. Até ficou na frente dos compatriotas Cordeiro e Nunes, mas não conseguiu deixar uma boa imagem por lá.

... e na GP3

Na Fórmula 3, que utilizava um carro menos potente e que tinha um ambiente menos competitivo e carregado, as coisas não foram muito melhores. Em trinta corridas, Lucas conseguiu um terceiro lugar em Silverstone como melhor resultado. Nas demais corridas, errou demais e não conseguiu andar rápido. Terminou o ano em 13º, com 45 pontos. Foi facilmente o pior dos seis pilotos da Carlin, algo que não pegou muito bem.

Automobilismo é uma coisa meio desagradável. Uma única temporada ruim pode fazer de um Ayrton Senna um sujeito lerdo, burro, bobo, feio e chato. Jornalistas e torcedores não se furtam em tecer comentários maldosos sobre pilotos que fracassam em determinado momento, praguejar contra a continuidade de suas carreiras e soltar pérolas como “nunca mais teremos um campeão do mundo”. Os pilotos acabam padecendo no paraíso: correm sob enorme pressão, sofrem todos os tipos de problemas, cobram-se muito, não podem dar-se o luxo de chorar no colo da namorada ou da mãe após uma má corrida e ainda borram as calças de medo de ficar sem dinheiro para seguir em frente. Do outro lado do oceano, instalados confortavelmente em nossas cadeiras giratórias, ignoramos todas as dificuldades pelas quais um cara desses passa e simplesmente dizemos idiotices ao alto de nossas vassouras.

E aí me retrato. Sempre falei mal de gente como Pedro Paulo Diniz e Bruno Senna, alegando que são caras que chegaram longe demais unicamente pelo dinheiro ou pelo nome e que eles não são tão talentosos quanto o povo gostaria. Eu posso até não estar errado, mas o que me garante que estou certo? O fato deles não terem sido brilhantes nas categorias de base não poderia significar que eles enfrentaram mais dificuldades do que outros pilotos que fizeram bonito nessa mesma fase, como um Antonio Pizzonia ou um Chico Serra?

A verdade é que, na esmagadora maioria das vezes, somos injustos com quem está pilotando a mais de 200km/h, tanto pelo bem como pelo mal. Nunca saberemos quem realmente merece nossos elogios mais rasgados e nossas críticas mais contundentes. No geral, todos que chegaram mais longe merecem nossos parabéns. E todos nós deveríamos dar uma segunda chance a um piloto. Ou uma terceira. Ou uma quarta. Nigel Mansell precisou de várias antes de se tornar campeão do mundo.

Por isso, confesso que achava o Lucas Foresti um mero almofadinha picareta que não chegaria a lugar algum e admito que estava totalmente errado. Mesmo que ele não consiga ir muito além do patamar atual, é um piloto que merece respeito e crédito. Para infelicidade de jornalistas oportunistas, torcedores corneteiros e experts de cadeira giratória como eu, até mesmo um backmarker da GP3 pode surpreender e trazer glórias para o Brasil.

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