junho 2012


Discurso pronto de jovem piloto: meu sonho é ir para a Ferrari. Grife mais importante do automobilismo mundial, a escuderia italiana é o objeto de desejo de todo mundo que se mete a pilotar carros de corrida. O destino é traçado desde cedo. Papai rico compra um kart, eu me divirto durante uns seis anos, vou para a Europa, corro na Fórmula Abarth, tento ser campeão, arranjo uns telefones do pessoal de Maranello, cortejo, faço uma graça na Fórmula 3, mantenho meus contatos, vou para a GP2, chego à Fórmula 1, aprendo italiano, sono molto felice di stare qui e um dia chego lá.

A Ferrari tem seus encantos, isso é inegável. A história de Enzo Ferrari, os lendários carros de rua que são adquiridos por jogadores de futebol e estelionatários russos, o sucesso no automobilismo, o cavalo rampante, os mecânicos rechonchudos que cantarolam o Inno di Mameli sob o púlpito de Monza, a macarronada al sugo das reuniões de Maranello. Tudo é lindo, tudo é perfeito, o piloto vira um ídolo italiano não importando de qual planeta ele vem. Não erra quem diz que a Ferrari encanta mais do que a própria Fórmula 1. Mas se engana quem acha que terá feito uma escolha segura e definitiva ao ir para lá.

Nessa semana, surgiu um boato na fogosa imprensa italiana que o bicampeão Sebastian Vettel teria assinado um contrato com a escuderia italiana válido a partir de 2014. Atual astro da Red Bull Racing, Vettel deixaria para trás toda sua história com as latinhas e partiria para sua vida de novo embaixador da Itália na Fórmula 1. Problema maior seria a convivência com Fernando Alonso, praticamente o presidente da Ferrari nos dias atuais. Alonso não achará legal ter de dividir seu império com um campeão do mundo que fará de tudo para obter seu espaço – e mais um pouco.

Vettel e sua Red Bull logo se preocuparam em desmentir o boato. O casamento anda excelente lá pelos lados de Milton Keynes e um divórcio poderia ruir até mesmo o futuro de ambos os lados. Se Sebastian fosse para a Ferrari, seria apenas mais uma engrenagem do sonho ferrarista. E ter Alonso como companheiro não é como ter Mark Webber. Não valeria a pena, a princípio. Além disso, outros bons pilotos já tiveram problemas quando adentraram a Scuderia. O Top Cinq de hoje relembra cinco história nem tão antigas:

5- JEAN ALESI

A passagem de Jean Alesi pela Ferrari realmente estava destinada ao fracasso. Desde muito antes de sua estreia na equipe, ocorrida no GP dos EUA de 1991, isso ficava claro. Vamos às historinhas. Ao ser contratado como titular na Tyrrell a partir da temporada de 1990, ficou sacramentado que o francês ficaria na equipe do madeireiro até o fim de 1991. Contudo, .suas performances espetaculares no início da temporada atraíram as atenções das equipes maiores. Pressionada pela Renault, a Williams acabou oferecendo uma proposta para Jean romper o contrato com a Tyrrell e vestir azul e amarelo já a partir de 1991. O jovem piloto aceitou.

No GP da Inglaterra, Nigel Mansell anunciou que se aposentadoria da Fórmula 1 no final do ano. Esse anúncio agitou o mercado de pilotos e a Ferrari foi atrás do mesmo Jean Alesi oferecendo-lhe uma vaga em 1991. Jean ficou babando com a possibilidade de correr na equipe mais tradicional do mundo ao lado de seu ídolo Alain Prost. Além disso, naquele ano em especial, a Williams não parecia um negócio tão promissor. Jean conversou com Frank Williams e disse que preferia ir à Ferrari. O cadeirante aceitou, mas exigiu da Ferrari um carro de Fórmula 1 novinho em folha em troca. Os italianos aceitaram e lhe deram um 641 que está em seu museu até hoje. Alesi conseguiu se desvencilhar de Tyrrell e Williams e conseguiu realizar seu sonho logo no início da carreira.

A história provou que a decisão de Alesi trocar a Williams pela Ferrari foi uma das maiores cagadas vistas nos últimos 25 anos. Azarado, o francês dispensou um dos melhores carros que Frank Williams e Patrick Head construíram na vida em prol de uma desgraça pintada de vermelho, o 643. Muito inferior à concorrência, o carro ferrarista foi carinhosamente apelidado de “caminhão” por Alain Prost e não venceu nenhuma corrida em 1991. Alesi obteve apenas três terceiros lugares e ficou numa discreta sétima posição no campeonato.

As coisas pioraram absurdamente nos dois anos seguintes. Em 1992, o carro de Alesi era o F92A, conhecido como “caça”. Sem confiabilidade, potência e dirigibilidade, ele só permitiu que o francês marcasse 18 pontos. Em 1993, apenas 16 pontos foram marcados em um bólido que não era muito melhor. Os dois últimos anos de Jean na Ferrari foram mais róseos, mas ele só conseguiu vencer uma corrida, a de Montreal em 1995. Deixou a equipe no final deste ano, desprestigiado e sem o culto ao seu nome que tanto ocorria nos dias de Tyrrell.

4- RENÉ ARNOUX

Para quem acha que somente hoje em dia que um piloto é massacrado após apenas uma única temporada, saiba que 1984 foi o suficiente para derrubar a carreira do francês René Arnoux, conhecido pela inabilidade em utilizar retrovisores. Após este ano, Arnoux deixou de ser o queridinho da Ferrari para se tornar o inimigo público número 1 da Itália. E pensar que o cara foi para a equipe de Maranello após se encontrar em posição insustentável na Renault.

Arnoux foi anunciado pela Ferrari no fim de semana do GP da Itália de 1982, época em que a equipe italiana precisava urgentemente de um piloto de ponta para tentar manter de pé o ânimo geral, destroçado com a morte de Gilles Villeneuve e o acidente de Didier Pironi. Na Ferrari, René teria a primazia que já não lhe cabia mais numa Renault fagocitada por Alain Prost.

Em 1983, a Ferrari voltou a acertar a mão com um 126C com fundo plano e o motor mais potente de toda a categoria. Arnoux começou mal o ano, obtendo apenas dois pódios nas sete primeiras corridas. As coisas começaram a melhorar em Detroit, quando ele largou na pole e liderou até abandonar. Nas seis corridas seguintes, o francês obteve três vitórias e dois segundos lugares. Arnoux saiu de Monza como vice-líder do campeonato, apenas dois pontos atrás do inimigo Alain Prost.

Foi o mais próximo de um título mundial que René Arnoux chegou na vida. Nas últimas duas etapas, só problemas. Em Brands Hatch, ele saiu da pista enquanto atacava Eddie Cheever, despencou para as últimas posições e terminou apenas em nono. Na África do Sul, o motor Ferrari quebrou e Arnoux não pôde terminar a prova. Mesmo assim, finalizou a temporada na terceira posição e foi coroado como rei da Ferrari. No ano seguinte, teria o companheiro Michele Alboreto, um novato que havia feito alguns brilharecos na Tyrrell. O que poderia dar errado?

Bastante coisa. O 126C, já bastante defasado, não funcionou a contento e a Ferrari passou longe dos bons desempenhos dos dois anos anteriores. Para piorar a situação de Arnoux, Michele Alboreto foi o melhor piloto da equipe na grande maioria dos treinos oficiais e obteve a única vitória ferrarista em 1984, no circuito de Zolder. Arnoux conseguiu apenas alguns pódios e terminou a temporada na sexta posição, duas atrás do companheiro italiano. Pegou mal.

Arnoux terminou o ano de 1984 em pé de guerra com a Ferrari. Durante a pré-temporada, ele fez uma cirurgia para aplacar com as cãibras que afligiam suas pernas e não avisou ninguém lá na Itália, o que irritou profundamente comendador Enzo e seus asseclas. René renovou seu contrato para a temporada de 1985, mas só disputou o GP do Brasil. Ele foi demitido após ter faltado a uma sessão de testes em Fiorano, realizada dias após a corrida brasileira. Mas o maldoso submundo da Fórmula 1 ventilou algumas histórias bizarras que nunca poderão ser provadas. Dos boatos mais absurdos que eu li por aí, envolvimento com drogas e até mesmo um romance com a neta de 15 anos do comendador! Ah, os fofoqueiros.

3- NIGEL MANSELL

Em julho de 1988, de maneira até surpreendente, a Ferrari anunciou ao mundo que estava mandando para o olho da rua o italiano Michele Alboreto, de cinco anos de bons serviços, para colocar em seu lugar ninguém menos que Nigel Mansell, o vice-campeão de 1987. Mansell era talvez a peça principal do processo de reestruturação de uma equipe que precisava melhorar urgentemente após uma série de temporadas tristonhas.

Não foi a primeira vez que Mansell e Ferrari se aproximaram. Em 1986, o inglês chegou a assinar um contrato com os italianos, mas deu para trás nos 45 do segundo tempo e quase tomou um processo dos ferraristas. Sabe-se lá como, talvez num par ou ímpar, a situação foi resolvida numa boa. E os dois lados se reaproximaram em 1989.

Naquele ano, além da contratação de peso, a Ferrari apostava tudo no câmbio semiautomático, aquele comandado por borboletas atrás do volante. O sistema criado por John Barnard prometia mundos e fundos, mas só trouxe dores de cabeça para a equipe durante a temporada e mais aborrecimentos ainda para Nigel Mansell, um sujeito que não se entendia com conceitos de alta complexidade do tipo “mão direita sobe marcha, mão esquerda desce marcha”. Os problemas na transmissão foram inúmeros e Mansell ganhou apenas duas corridas, em Jacarepaguá e em Hungaroring. Além disso, ele obteve somente dois segundos e dois terceiros lugares. O título ficou muito longe.

Para 1990, as coisas ficaram ainda mais complicadas para o Leão. A Ferrari conseguiu arrancar Alain Prost da McLaren e montou talvez a dupla mais perigosa do campeonato com o único objetivo de derrotar Ayrton Senna e Ron Dennis. Mesmo tendo um ano a mais de tarantela do que Prost, Mansell teve um ano dificílimo. Venceu uma corrida em Portugal e teve outros pódios, mas também abandonou várias corridas e não se deu bem com o centralizador Alain Prost. Ficou tão deprimido que, no fim de semana do GP da Inglaterra, anunciou a aposentadoria para o final do ano. Após apenas um ano e meio na Ferrari, Mansell percebeu que tinha perdido gosto pela coisa.

Mas nada como um convite milionário da Williams, sua casa original, para que Our Nige mudasse de ideia. Na equipe de Frank Williams, Nigel Mansell reencontrou a felicidade. Com um carro excepcional e uma cultura muito mais adequada à sua personalidade típica de um working class britânico.

2- ALAIN PROST

Durante alguns meses de 1989, a pergunta que não queria calar no paddock era “pra onde Alain Prost vai no ano que vem?”. No fim de semana do GP da França, Le Professeur anunciou a todos os presentes, passados e futuros que não seguiria mais na McLaren dominada por Ayrton Senna. Estava puto da vida com o brasileiro, que quebrou um acordo entre os dois no GP de San Marino a respeito da proibição de um ultrapassar o outro após a primeira curva. Senna passou uma rasteira em Prost e o francês viu que o ambiente não estava ao seu favor.

Após considerar ir para Williams, fundar sua própria equipe e até mesmo ir para um asilo, Alain Prost assinou com a Ferrari no fim de semana do GP da Itália, perante milhares de italianos alucinados. Depois da assinatura, o narigudo virou ídolo dos tifosi. Quando Ayrton Senna rodou na Parabólica e abandonou a prova, a multidão nas arquibancadas foi à loucura. Prost seria o herdeiro da vitória e se aproximaria do título que faria a Ferrari ter o número 1 em 1990.

Só que o casamento não começou da maneira que se esperava. O Ferrari 641 era um bólido totalmente inspirado no 640 do ano anterior, mas sem os problemas no câmbio e projetado para se adequar ao estilo suave de pilotagem de Prost. Mesmo assim, o carro não se comportou tão bem nas primeiras etapas e Alain ficou tão surpreso com a vitória em Interlagos que desabou em lágrimas após o pódio. O paciente piloto trabalhou duro para acertar o bólido durante o ano, congregou a equipe no melhor estilo Alonso e colheu os frutos ainda em 1990. Ganhou cinco corridas e peitou Ayrton Senna até o fim. Não levou o título, mas provou a todos que Monsieur Alain Prost ainda era um tremendo pica grossa.

Quem diria que a euforia de 1990 acabaria tão depressa. Steve Nichols e Jean-Claude Migeot desenvolveram aquilo que Prost não tão carinhosamente assim chamou de “caminhão” no fim de semana do GP do Japão. Embora ele não tenha sido tão gentil, a irritação tem lá sua motivação. O carro era muito ruim e a equipe se viu toda desorganizada em 1991. Ainda antes do início da temporada, Prost culpou o diretor esportivo Cesare Fiorio pelos problemas do novo carro, o 642. Para satisfazê-lo, a Ferrari demitiu o italiano sem grande dó.

Mas o carro não melhorou, os ânimos dos pilotos também não e os resultados acabaram não vindo. Em julho, o vice-presidente da Fiat Umberto Agnelli afirmou que “Prost e Jean Alesi não davam o melhor de si”. Alain retrucou dizendo que “meu lugar na equipe está à disposição”. Foi o início do fim. Prost passou o restante do ano discutindo com a Ligier sobre a possibilidade de formar uma equipe 100% francesa em 1992. A demissão após o GP do Japão foi tão somente a gota d’água.

1- IVAN CAPELLI

Após Alain Prost cair fora, no fim de 1991, a Ferrari se viu com um problemão para resolver. De onde que a equipe arranjaria um piloto com cancha o suficiente para substituir o francês à altura? Sem poder ter Ayrton Senna a curto prazo e tendo perdido Nigel Mansell num clima ruim, a única grande solução parecia ser o decadente tricampeão Nelson Piquet. Os dois lados negociaram durante cerca de quatro meses e gentes do calibre de Niki Lauda e Luca di Montezemolo realmente forçaram a barra para colocar o brasileiro no lugar de Jean Alesi em 1992. Mas não deu certo.

Dizem que a questão dos salários pegou, já que Nelsão não é piloto pra ganhar merreca. Então, a Ferrari se viu obrigada a correr atrás de uma alternativa. Havia Ivan Capelli, o talentoso italiano que vinha de temporadas tristonhas na Leyton House. Italiano, barato, promissor e disponível, combinação perfeita. Em janeiro, Capelli foi anunciado ao lado de Jean Alesi. Finalmente, uma boa oportunidade para o cara, que havia feito alguns pequenos milagres com a March nos anos 80.

Será mesmo? Ivan, o Terrível, desembarcou numa Ferrari sem comando, ânimo ou carro. A saída de John Barnard em 1989 deixou lacunas e os engenheiros Nichols e Migeot enfrentavam dificuldades para desenvolver seus projetos. Tentando ajeitar a bagunça, o engenheiro Claudio Lombardi foi efetivado como substituto de Cesare Fiorio na direção esportiva. No meio de tudo isso, só poderia ter surgido uma coisa infeliz como o F92A, o tal “caça”. Ele foi o primeiro monoposto do planeta a ter um fundo plano e duplo. No túnel de vento, até que não funcionou mal. O problema foi quando tiveram de colocar o carro para andar de verdade.

O F92A foi um desastre. Confiabilidade, ele não tinha. Potência e torque eram tabu: no México, Jean Alesi conseguiu velocidade em reta maior apenas do que o Jordan de Stefano Modena e a Brabham de Giovanna Amati! Estabilidade, vixe maria, era agulha no palheiro. O carro era totalmente imprevisível e só funcionava bem numa situação específica, pistas lentas com asfalto molhado. O que não costuma acontecer todo dia.

Quem sofreu mais aí no meio foi exatamente nosso Ivan Capelli, que passou por quase tudo aquilo que um piloto tenta evitar. Ele sofreu acidentes fortes no México e no Canadá, teve quebras de motor na maioria das corridas, rodou sozinho em Monza, largou do meio para trás na maior parte do tempo, chegou a tomar tempo do Fondmetal de Gabriele Tarquini em duas ocasiões e marcou apenas ridículos três pontos, terminando o ano numa absurda 13ª posição.

Mas o que pegou mais foi o lado emocional. Capelli era um filhote da March/Leyton House, uma equipe de atmosfera feliz e tranquila. Na Ferrari, ele encontrou um bocado de italianos desesperados e deprimidos. No segundo semestre, a motivação de Ivan já tinha ido para o ralo. No fim das contas, ser demitido após o GP de Portugal não foi uma coisa tão ruim assim. Mas a carreira dele sofreu um baque gigantesco durante a passagem pela Scuderia, ainda um sonho de consumo de nove em cada dez pilotos.

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Antigamente, quando se falava num Senna e num Mika, lembrávamos de Ayrton e Häkkinen dividindo a McLaren no fim de 1993. Hoje em dia…

Em 1993, o tricampeão Ayrton Senna e o imberbe Mika Häkkinen dividiram a mesma equipe nas últimas três corridas da temporada. Insatisfeita com o americano Michel Andretti, a McLaren decidiu mandá-lo mais cedo para a grande fazenda ianque e colocou Häkkinen, então apenas uma promessa do automobilismo mundial, para comboiar Senna nas suas últimas corridas pela equipe. Se Mika fizesse bonito, quem sabe ele não ganharia de presente a titularidade em 1994?

Era um relacionamento pacífico. Häkkinen foi um raro companheiro de equipe que não era visto por Ayrton Senna como um capacho ignóbil ou uma ameaça nuclear. Pudera: o finlandês é um sujeito tipicamente laid-back, agradável e de convivência facílima. Só mesmo Michael Schumacher num dia de sol em Macau poderia ser capaz de irritá-lo. Como Ayrton também estava de saída para a Williams e não estava disposto a arranjar mais confusão, ele nem ligou pelo fato de ter sido superado pelo finlandês logo nos primeiros treinos oficiais que disputaram juntos, os de Estoril.

Ah, as analogias são dos recursos literários favoritos de alguém que escreve bobagens.

“Não há Mika Salo no mundo que me convença que o Bruno teve alguma culpa naquele choque com o Kobayashi. E se é pra ser maldoso, o Mika Salo é um piloto finlandês. Tem um cara que é reserva na equipe do Bruno Senna que é finlandês também. Pronto, já fiz a maldade”. Que proferiu tais palavras foi o narrador Galvão Bueno, claramente puto da vida com o acidente que o sobrinho sofreu com Kamui Kobayashi. Para Galvão, a culpa foi toda do japa, que é uma vaca-brava de olhos puxados. Eu não vi culpa na manobra dele, mas isso não importa agora.

O sexagenário locutor também não estava satisfeito com o fato de Mika Salo ter sido o ex-piloto escolhido para fazer as de comissário desportivo em Valência. Para ele, o acidente de Kobayashi e Senna só resultou em punição para o brasiliano porque o diabólico comissário Salo quis prejudicá-lo na cara dura, visando deixá-lo sem moral na Williams, que se veria forçada a olhar com mais ternura para o reserva Valtteri Bottas.

Além de comissário domingueiro, ex-piloto de Fórmula 1 e sobrinho de Cid Moreira, Mika Juhani Salo é comentarista nas transmissões finlandesas da MTV3, que não tem nada a ver com a emissora favorita das meninas bobinhas que pintam o cabelo de rosa. Salo ficou conhecido recentemente por ser um árduo defensor dos pilotos de seu país, embora eu já tenha ouvido falar que ele costuma pegar pesado com o próprio Bottas nas transmissões. É um pacheco sami, mas bate e assopra ao mesmo tempo. Vai entender.

No Brasil, o então olvidado Salo tornou-se um dos inimigos públicos dos nacionalistas ao fazer comentários negativos a respeito de Felipe Massa e Bruno Senna. Sobre Massa, o nórdico afirmou que “não acredita que ele seguirá na Ferrari na próxima temporada. Na verdade, é surpreendente que a equipe tenha ficado com ele neste ano”. Não mentiu. Os fãs brasileiros também não reagiram mal, aqueles mesmos fãs que perturbavam a ordem quando alguém cometia o pecado de tecer qualquer crítica que fosse ao piloto paulista em 2008. Para felicidade de Salo, os brasileiros não estão entre os 15.000 povos mais fiéis aos seus ídolos.

O que pegou mais foi a crítica a Bruno Senna. Nesse caso, o pacheco uralo-altaico Salo falou um monte de coisas. Num primeiro instante, Mika afirmou que “a dupla da Williams é uma das piores do grid. Tanto Pastor Maldonado como Bruno Senna são suscetíveis a erros. O brasileiro teve algumas boas corridas no ano passado, mas decaiu muito no final da temporada”. Muita gente se sentiu como se tivessem ofendido suas respectivas progenitoras. A reação geral foi à base de extensivo ad hominem. Quem é Mika Salo?

Mika Salo, que andou falando um monte sobre Bruno Senna e arranjou um bocado de inimigos no Brasil

Não satisfeito, o finlandês seguiu batendo pesado. “Senna é um cara legal, mas incapaz de pilotar no nível exigido por Frank Williams”, proclamou há não muito tempo. Em seguida, encaixou sua dose de protecionismo. “Valtteri Bottas é extremamente respeitado por Frank Williams, que o elogia muito e diz que seu lugar é nas corridas”. Para terminar, a insinuação maior: Bruno Senna não terminará a temporada. Levará uma botinada nos fundilhos.

Quem é Mika Salo para dizer umas merdas dessas?, perguntou a nação. Eu respondo quem é Mika Salo.

Em termos de pilotagem, Salo é um que uma pessoa que entende um pouco mais do esporte sabe que não teve seus talentos devidamente aproveitados. Em 1990, ele duelou contra o xará Häkkinen nas pistas inglesas da Fórmula 3. Foi uma rivalidade legal de se ver e a mídia britânica adorava. Os destinos dos dois, depois disso, se distanciaram. Häkkinen foi para a Fórmula 1 já em 1991 e fez uma carreira frutífera. Com Salo, isso não aconteceu.

“O outro Mika” foi pego dirigindo totalmente chapado ainda em 1990 e acabou em cana. Ken Tyrrell tinha lhe oferecido uma vaga para 1991, mas rasgou a proposta após perceber que estava contratando um moleque bêbado e inconsequente. Salo se viu obrigado a ir para o Japão tentar reconstruir a carreira e a imagem. Comeu uma boa mulherada e arranjou uma namorada que trabalhava como dançarina e modelo – sim, eu sei que alguns de vocês interpretaram uma terceira profissão implícita.

Depois de algum tempo, Salo foi meio que resgatado pelo automobilismo internacional para disputar duas corridas pela Lotus no fim de 1994. Depois, passou por Tyrrell, Arrows, Sauber, Ferrari, BAR e Toyota. Demonstrou ótimo desempenho em corridas malucas, fez provas excepcionais em Mônaco e superou seus companheiros de equipe sem grandes problemas. Na Ferrari, fez seis corridas e chegou ao pódio em duas. Por outro lado, Mika não era um gênio na chuva, raramente andava bem em treinos oficiais e não costumava cuidar do físico. Não foi uma carreira brilhante, portanto. Mas dá para jogar na conta da falta de uma oportunidade decente.

Esta é a parte boa de Mika Salo. A ruim se refere à fama de sujeito arrogante, egoísta e pouco agregador. O cara conseguiu brigar com a maior parte das equipes por onde passou. Tem um histórico de declarações infelizes e até meio desrespeitosas. Na Inglaterra, onde as pessoas realmente entendem de automobilismo, são poucos os que gostam dele.

Vamos às histórias. Nos anos 90, Salo atraiu um bocado de antipatia quando falou que “o melhor Mika não era o Häkkinen”. Em 2000, apesar de ter feito uma boa temporada na Sauber, seu Peter não quis ficar com ele, já que o piloto finlandês não era um sujeito que criava um bom ambiente na equipe. Alegação parecida foi feita pela Toyota em 2002, quando ela anunciou de forma até surpreendente que não permaneceria com Salo no ano seguinte.

Em resposta, o finlandês soltou cobras e lagartos sobre suas antigas empregadoras. Quando Kimi Räikkönen sofreu um acidente no GP de San Marino de 2001 após uma quebra na barra de direção, Salo afirmou algo como “é por essas que a Sauber nunca será uma equipe importante na Fórmula 1”. Com relação à Toyota, em uma entrevista concedida à F1 Racing no fim de 2002, ele falou mal de praticamente tudo referente à equipe japonesa. Apenas o projetista Gustav Brunner e a cúpula japonesa foram poupados da língua ferina.

Valtteri Bottas, o cara que Mika Salo quer colocar de todo jeito na Williams

Mas a melhor amostra da personalidade de Mika Salo é uma entrevista que ele concedeu ao jornal finlandês Turun Sanomat no início de 2002. O jornalista pediu para que ele comentasse sobre os demais pilotos do grid. Péssima idéia.

Schumacher: “Tem uma equipe que faz tudo por ele. A única coisa que ele precisa fazer é manter o carro na pista”.

Barrichello: “Ele é praticamente um nada. Tem dias bons e ruins, e os ruins são sempre mais frequentes”.

Coulthard: “Muito bonzinho pra Fórmula 1. É piloto pra ganhar uma corrida ou outra e só. Vivia tomando tempo do Häkkinen”

Ralf: “Fiquei surpreso pelo fato dele ter vencido corridas em 2001. Nunca achei que ele tivesse capacidade para isso”.

Montoya: “Comete muitos erros”.

Heidfeld: “Nunca o achei tão bom como dizem. Só o Peter Sauber acha isso, na verdade”.

Massa: “Dirige de maneira estranha. É um selvagem que já destruiu um monte de carros”.

Fisichella: “Erra pra caralho. E olha que ele é o melhor italiano do grid”.

Sato: “Não o conheço. Mas sei que ele só entrou na Fórmula 1 graças à Honda”.

Villeneuve: “Está sem motivação já faz um bom tempo”.

Trulli: “É um cara veloz, mas sempre perde concentração e geralmente abandona as corridas por causa disso”.

Button: “Nunca demonstrou lá um grande potencial na Fórmula 1. Desanimou de vez após não conseguir ser contratado por uma equipe grande”.

Irvine: “Um cara rápido, mas que não tem atitude de primeiro piloto. Não deveria ter ficado com esse papel na Jaguar”.

De La Rosa: “Bom em corridas, mas fraco nos treinos”.

Bernoldi: “Um ninguém”.

Frentzen: “É um cara rápido e experiente, mas sempre está batendo ou indo para a caixa de brita”.

Yoong: “Um cara que toma seis segundos por volta. O que mais preciso dizer?”.

McNish: “Fala muito. MUITO. E pelo tanto que fala, não consegue ter tempo para correr”.

Salo: “O melhor, claro”.

Façam seus próprios julgamentos. Eu lavo minhas mãos. Fecho os parênteses.

Bruno Senna, o cara que toma as porradas

Eu sempre achei que o pachequismo, assim como a jabuticaba, era uma invenção latina. Apenas brasileiros, espanhóis e demais povos barulhentos e de péssima auto-estima eram capazes de deixar a realidade de lado e exaltar todas as coisas boas de seus países, como o ETA e o PCC, o Generalíssimo Franco e o General Geisel. Felizmente, sempre existe um Mika Salo pronto para provar que eu estou errado, como de costume. A idiotia nacionalista acomete a todos, sem distinguir classe social, credo e religião.

Para Salo, apenas seus fellas de país Räikkönen, Kovalainen e Bottas merecem respeito, carinho e atenção. O resto é lixo. Na Espanha, eles fazem a mesma coisa quando se fala em Fernando Alonso. No Brasil, bem, dispenso comentários.

Aliás, falando em Brasil, eu acho incrível a capacidade da torcida local em rebaixar ainda mais um estúpido debate de verve nacionalista. Andei lendo alguns comentários feitos a respeito das declarações de Mika Salo sobre Bruno Senna. É estarrecedor. O problema maior nem é a incapacidade ortográfica e gramatical dos comentaristas, mas a total ausência de imaginação e capacidade crítica das réplicas. Nem seria tão difícil dizer que Valtteri Bottas ainda não passa de um campeão de GP3, que Mika Salo está falando merda como sempre, que apenas a própria Williams pode apontar quem corre para ela ou não e que o Bruno calará a boca dos críticos num dia, talvez o de São Nunca.

Mas não. A incapacidade de argumentação é um mal que deveria ser combatido imediatamente por qualquer ministro da Educação que se preze. Em tese, eu não deveria me incomodar com um punhado de gente que não sabe replicar corretamente uma declaração sobre um assunto tão besta quanto a Fórmula 1. O problema é que um sujeito que não argumenta corretamente no âmbito do esporte geralmente também não sabe fazer isso em assuntos ligeiramente mais sérios. Ser burro quando se fala, por exemplo, de política ou economia é um pouco mais grave. Seguimos.

“Mika Salo foi um péssimo piloto”. Não, não foi. O fato dele falar bosta e de agir como um babaca não o torna inapto para dirigir. E ele fez pequenos milagres na época em que correu por equipes pequenas. No GP de Mônaco de 1997, conseguiu ser o único piloto da história recente a completar uma corrida (dificílima, diga-se) sem parar uma única vez nos boxes. No ano seguinte, na mesma pista monegasca, levou um lamentável Arrows A19 ao quarto lugar. E suas performances na temporada de 2000 foram excelentes.

Mas o argumento que sempre dói mais é o “quem é Mika Salo?”. Nunca entendi a lógica desses que fazem questão de replicar uma opinião desmerecendo seu emissor mesmo estando em situação muito pior. O finlandês pode não ter sido o piloto de maior sucesso de todos os tempos, mas tem muito mais moral e bagagem para fazer o comentário que for do que qualquer um de nós. A propósito, a maioria das pessoas não tem condição mental para escolher entre duas marcas de extrato de tomate, quanto mais emitir um juízo sobre algo um pouco mais complexo. Salo, por outro lado, viveu ali no meio durante anos. Ele mesmo pode ser um acéfalo com relação a extrato de tomate. De Fórmula 1, no entanto, ele entende.

Este é Mika Salo

Eu vislumbro aí uma deliciosa guerra entre imbecis abraçados a bandeiras. Quem perde, é claro, é a verdade. Falando na dita cuja, o que podemos dizer sobre os pilotos da Williams envolvidos na história?

Bruno Senna, sinto muito aos defensores, não está fazendo aquela temporada dos sonhos. É verdade que ele é bem mais inteligente do que macacos, peixes e pilotos venezuelanos, mas isso não seria uma obrigação de um homo sapiens? Sendo bem franco, eu o considero um cara legal, um sujeito honesto e um piloto com algumas qualidades. Fez boas corridas na Malásia e na China, mas sumiu de umas corridas para cá. E tem bem menos sangue nos olhos do que seu companheiro. Diz o senso comum que é mais fácil domar um piloto veloz e selvagem do que fornecer velocidade a um cara comportado e conservador. É verdade. Mesmo sendo um asno hoje em dia, Maldonado é um cara que tem bem mais chances de evoluir e virar um gênio.

Valtteri Bottas, sinto muito aos pachecos fineses, ainda não é nada além de um piloto reserva com um título na GP3 e outro numa Fórmula Renault qualquer por aí. Eu o acompanhei na temporada 2010 da Fórmula 3 Euroseries e posso dizer que não fiquei tão impressionado. Longe de insinuar que ele seja um mau piloto, gostaria apenas de lembrar que Bottas precisa de um pouco mais de quilometragem para comprovar o talento que parece ter. Fora isso, qualquer tipo de idolatria exacerbada a um sujeito desse tipo é representada na Classificação Internacional de Doenças pelo código F52.4: ejaculação precoce.

O nacionalismo é uma merda desgraçada. Último refugo dos canalhas, como dizia Nelson Rodrigues. Antes, quando falávamos na guerra entre um Senna e um Mika, nos referíamos apenas às belas corridas do final da temporada de 1993. Hoje em dia, o Mika em questão é apenas um tonto que insiste em cavar espaços para um compatriota. O Senna em questão é apenas um piloto razoável que não merece as pancadas que vem levando. E estamos aqui, os comentaristas da internet vomitando suas asneiras de sempre e eu escrevendo uma tonelada de coisas que também não servem para merda alguma.

Todos são idiotas, como sempre. E Galvão, maldoso sou eu.

FERRARI9 – Quando você vê um piloto chegando em primeiro e o outro em 16º, fica quase impossível avaliar se o F2012 e a equipe italiana são bons de verdade. Ninguém nega que o desempenho no treino oficial, com Fernando Alonso e Felipe Massa largando em 11º e 13º, foi uma tristeza só. No domingo, os dois tiveram sortes diferentes: Alonso fez uma das melhores corridas de sua vida e venceu na frente de 38 mil fãs. Felipe Massa se deu mal com os pneus novamente e ainda tomou uma paulada daquelas de Kamui Kobayashi. É bom destacar o excelente trabalho de boxes que a equipe fez, em especial o 2s9 que permitiu que Alonso ganhasse boas posições ainda na primeira parte da prova.

LOTUS8 – É incrível o que uma merda de alternador pode fazer com um ser humano. Eu já fiquei parado no meio de uma estradinha sem acostamento por causa desta porcaria. Romain Grosjean teve prejuízos um pouco mais desagradáveis: abandonou na volta 40 quando estava em segundo e perdeu talvez sua melhor chance de vitória até aqui. Uma pena, já que ele vinha fazendo um fim de semana impecável. Quem herdou a segunda posição foi exatamente Kimi Räikkönen, que segue nessa de não ir tão bem nos treinos oficiais, aparecer pouco nas primeiras voltas e ganhar posições no final. O carro estava muito bom e, não se enganem, a vitória virá logo.

MERCEDES7,5 – O resultado do domingo pouco refletiu o sábado meia-boca que a equipe de três pontas teve. Michael Schumacher obteve seu primeiro pódio desde 2006 após um final de corrida espetacular, no qual ultrapassou vários carros e ainda se aproveitou das maldonadices alheias. Foi um pódio que o próprio piloto disse não acreditar que viria, pois o fim de semana vinha sendo bem discreto até então. Menos surpreendente, Nico Rosberg largou em sexto e terminou na mesma posição após se enrolar um pouco com os pneus. A grande sacada da Mercedes, que sempre se complica com os compostos, foi deixar seus dois pilotos em ótimas condições na última volta. Funcionou legal.

RED BULL5,5 – Para este fim de semana, trouxe uma modificação nos sidepods que teria aumentado drasticamente a pressão aerodinâmica na parte traseira. Graças à novidade, Sebastian Vettel conseguiu uma pole sossegada no treino classificatório de sábado. No dia seguinte, liderou com autoridade até a volta 33, quando a mesma porcaria de alternador que fodeu com Romain Grosjean acabou com sua festa. Quem teve de compensar o dia foi Mark Webber, que largou numa indecorosa 19ª posição e conseguiu o quarto lugar nas últimas voltas. Alternador à parte, a equipe ainda é a melhor da Fórmula 1, ao menos nesta fase intermediária do campeonato.

FORCE INDIA9 – Vem se recuperando de maneira notável e foi premiada com 16 pontos somente na etapa valenciana. Os dois pilotos andaram muitíssimo bem nos treinos livres e se classificaram em oitavo e décimo no grid. No domingo, Nico Hülkenberg e Paul di Resta adotaram estratégias diferentes e até meio estrambólicas, como a tática de uma única parada no caso do escocês. Ambos se deram bem e foram vistos andando lá na frente no final da corrida, com Hülkenberg quase pegando seu primeiro pódio. Infelizmente, os pneus dos dois carros apodreceram nas últimas voltas, mas tanto Paul como Nico terminaram muito bem.

MCLAREN2,5 – Um dos pilotos é uma anta e o outro apagou desde as brumas chinesas. Os mecânicos parecem sofrer de esclerose múltipla e o carro, sem aquele degrau medonho, definitivamente perdeu aquela vantagem confortável das primeiras etapas. Em Valência, a equipe de Woking foi para casa com apenas quatro pontos no bolso e uma baita enxaqueca. Jenson Button foi mal de novo e só marcou pontos no final porque foi um dos poucos que não se envolveram em besteiras. Infelizmente, isso não aconteceu com Lewis Hamilton. Ele fez seu trabalho direito, largou na segunda fila e estava em segundo até poucas voltas para o fim. Pastor Maldonado, sempre ele, acabou com sua corrida e seu dia. Antes disso, no segundo pit-stop, um mecânico também fez alguma burrada e atrasou um pouco mais a vida do piloto inglês. Tudo errado.

SAUBER5 – Seus dois pilotos faziam corridas tão opostas que era improvável apontar um destino em comum para eles no fim da corrida. Kamui Kobayashi mandou bem pacas nos treinos, obteve o sétimo lugar no grid de largada e ainda ganhou algumas boas posições no início da corrida. Enquanto isso, Sergio Pérez se complicou no treino oficial e ficou travado no meio do pelotão da merda nas primeiras voltas. Conforme o tempo passava, a fortuna dos dois pilotos se invertia. O japa bateu nos dois pilotos brasileiros, perdeu o bico na primeira porrada e o rumo na segunda. Já Pérez fez a lição de casa direito e conseguiu salvar a honra suíça com dois pontos. O trabalho de pits foi um dos pontos negativos dos sauberianos.

WILLIAMS4 – Você olha para aquele belo carro azul escuro e pensa que ele está sendo subaproveitado por causa de seus pilotos. O venezuelano é rápido e esquizofrênico. O sobrinho apenas faz seu trabalho honesto, e às vezes nem isso. Pastor Maldonado andou muito bem nos treinos e tinha totais chances de chegar ao pódio, mas atirou tudo pela janela ao surrar a lateral da McLaren de Lewis Hamilton numa manobra digna de um buscapé aceso. Bruno também se envolveu em um acidente com Kamui Kobayashi e foi punido por isso. Na minha irrelevante opinião, merecidamente. Marcou um ponto, mas na mais pura cagada. Nesse horário, Frank Williams até suspira de saudade pelos doentios Juan Pablo Montoya e Ralf Schumacher.

TORO ROSSO0,5 – Nunca antes na história deste touro vermelho ele esteve em uma fase tão apagada. Nesta altura, a equipe azulada parece estar mais próxima das agruras da Caterham do que das concorrentes estabelecidas. Daniel Ricciardo e Jean-Eric Vergne foram superados por Heikki Kovalainen no treino classificatório e deixaram o sempre agradável Helmut Marko com apenas um olho aberto de reprovação. Na corrida, as coisas não melhoram. Ricciardo não fez nada e Vergne ainda causou um acidente babaca com Kovalainen, o que resultou em um pneu furado e uma merecida multa. A Red Bull já anunciou que o francês, que ganha 400 mil euros por ano, arcará sozinho com os 25 mil euros da multa. Coitado.

CATERHAM7 – Será que ela, após dois anos e meio, finalmente chegou lá? Pelo segundo grande prêmio consecutivo, a equipe verde conseguiu deixar ao menos um Toro Rosso para trás. Neste fim de semana valenciano, foi até melhor: Heikki Kovalainen deixou os dois carros da equipe italiana para trás e ainda enrabou Mark Webber, da poderosa Red Bull Racing. Só que o carma de 2010 se repetiu para ele: um carro rubrotaurino voltou a lhe atingir durante a prova. Dessa vez, Heikki conseguiu seguir em frente e chegou ao final. Menos espetacular, Vitaly Petrov também foi bem e até andou em décimo. Finalizou em 13º, seu melhor resultado até aqui. Numa corrida tão amalucada quanto esta, já dá para apontar a Caterham como uma possível pontuadora.

MARUSSIA2 – Assim como a Caterham, a Marussia também está mudando. Só que para pior. Sem Timo Glock, que comeu dobradinha e foi internado com um nó no estômago, a equipe russa teve de depender unicamente dos esforços do novato Charles Pic. Ele ficou atrás dos dois carros da HRT no treino oficial e ainda foi prejudicado pelo trabalho porco dos mecânicos da Marussia, talvez os piores da categoria. Pelo menos, chegou ao fim e à frente de Felipe Massa. Se muitas coisas não mudarem, não seria de todo descabido pensar que o time soviético poderá ser rebaixado para o honroso papel de lanterninha da Fórmula 1.

HRT5 – Esta daqui também não é nem um pouco genial em se tratando de estratégias de corrida e trabalho nos pit-stops, mas ao menos vem melhorando a cavalgadas. Na sexta-feira, Pedro de la Rosa estampou uma barreira de pneus com força e deu o maior trabalho aos mecânicos, que tiveram de se matar para consertá-lo a tempo para o sábado. Na qualificação, De la Rosa e Narain Karthikeyan deixaram Charles Pic para trás e escaparam da última fila. Os dois terminaram a corrida sem grandes dores de cabeça, embora o indiano tenha sido punido por ser ligeiro demais nos boxes – e só lá.

TRANSMISSÃOAS MALDADES – A transmissão brasileira, que anda iniciando com vinte minutos de antecedência e incomodando aqueles que preferiam assistir às novas técnicas de cultivo de jenipapo, acertou em cheio ao mostrar trechos da corrida de GP2 antes da largada. Pronto: Luiz Razia se transformou no mais novo ídolo instantâneo do automobilismo brasileiro, mas tudo bem. Uma corrida como a desse domingo teve vários momentos de destaque, mas minha memória falha me impede de lembrar deles. A revolta do narrador sobre o acidente entre Bruno Senna e Kamui Kobayashi foi particularmente interessante. É incrível como um cara pode se tornar o maior energúmeno do planeta se bater em um sujeito nascido por aqui. O mais engraçado é que o nacionalismo tacanho extrapola fronteiras. Na Finlândia, há um ex-piloto que faz o trabalho de lobbista de seus compatriotas na Fórmula 1. Por desejar ver Bruno Senna empalado, frito, assado ou morto para abrir uma vaga na Williams para seu protegido, ele angariou a antipatia de um Brasil inteiro. O narrador aqui não deixou barato: “Não há Mika Salo no mundo que me faça acreditar que o acidente foi culpa do Bruno. Vou fazer uma maldade: o reserva da Williams é finlandês e o Mika Salo também é finlandês. Pronto, fiz a maldade”. Não, não foi maldade. Foi apenas uma constatação certeira. Nacionalismo besta versus nacionalista besta. Quem perde somos nós, é claro.

CORRIDAQUEM DIRIA, VALÊNCIA – Alguém poderia imaginar que uma das pistas mais odiadas do calendário atual poderia render uma das corridas mais emocionantes da temporada? Estamos falando da Fórmula 1 2012, onde qualquer bizarrice pode acontecer. Após as divertidíssimas corridas da GP2, todo mundo imaginou que haveria uma chance ínfima de diversão para a prova principal. Mas ninguém esperava tanto. Até antes do acidente entre Jean-Eric Vergne e Heikki Kovalainen, que trouxe o safety-car à pista, o GP da Europa vinha morno como chuveiro vagabundo em dia frio. De repente, os dois líderes, Sebastian Vettel e Romain Grosjean, abandonaram com o alternador alternado e tudo ficou mais legal. Diante de uma torcida alucinada, Fernando Alonso assumiu a ponta e de lá não saiu mais. Atrás dele, as brigas foram inúmeras e intensas. Nomes como Pastor Maldonado e Kamui Kobayashi serviram para deixar as coisas ainda mais picantes. E o pódio foi o máximo. Em suma, somente uma pessoa de caráter duvidoso e inteligência limitada não pôde ver graça neste que foi um dos melhores GPs dos últimos anos.

GP2BORA BAHÊA – No ano passado, Luiz Razia era só mais um participante discreto e sem futuro que servia apenas para encher linguiça na GP2. Neste ano, algum espírito maligno se apoderou de seu corpo e fez do piloto baiano um sério candidato ao título. Em Valência, ele começou mal e só fez o 11º lugar no grid de largada. Numa pista de rua sem grandes possibilidades de ultrapassagem, o fim de semana parecia acabado logo de cara, mas ainda bem que as coisas mudaram logo no sábado. O pole-position James Calado vinha para uma vitória fácil, mas foi prejudicado pela infinita sequência de interrupções com safety-car e acabou ficando para trás. Ganhou Esteban Gutiérrez, que precisou atropelar Giedo van der Garde e foder com Fabio Leimer para se dar bem. Enquanto isso, Razia ganhava posições e terminava em terceiro. No domingo, o piloto de Barreiras passou um monte de gente nas três últimas voltas e saiu da sexta para a primeira posição meio que do nada. Com o resultado, Luiz ficou a apenas um ponto do líder Davide Valsecchi. Nunca um piloto brasileiro esteve tão próximo do título da GP2, essa é a verdade.

GP3OS MAIS PROFISSIONAIS – Por incrível que pareça, a criançadinha da GP3 demonstrou mais profissionalismo e sensatez do que os adolescentes da GP2, que fizeram bobagem atrás de bobagem em Valência. Na corrida de sábado, m verdadeiro sonífero, os pilotos foram econômicos em barbeiragens e as emoções praticamente inexistiram. Quem venceu foi o neozelandês Mitch Evans, que largou na pole e liderou de ponta a ponta. É bom ficar de olho no cara, que fez 18 anos no fim de semana. A corrida de domingo foi um pouquinho mais movimentada. A vitória ficou com o suíço Patrick Niederhauser, mas o destaque fica para a bela briga pelo terceiro lugar, que envolveu uns duzentos pilotos. O cipriota (!!) Tio Ellinas levou a melhor, mas ele foi desclassificado por ter batido no carro de Kevin Ceccon. Com isso, perdeu o troféu do pódio e voltou para Chipre chifrado. O grid de 24 carros não animou ninguém. A GP3 não seduz já faz um bom tempo.

FERNANDO ALONSO10 – Qualquer elogio para este cara é pouco. El Fodón das Astúrias. O melhor piloto do grid atualmente. O cara. A corrida inteligente, agressiva e esperta que fez em Valência, um circuito onde seu retrospecto era risível, foi digna de um desses grandes campeões que todos idolatramos. O mais incrível de tudo é que Fernando havia largado lá da 11ª posição, pois não tinha conseguido sequer vaga no Q3 da classificação. Mas sendo o grande piloto que é, conseguiu superar as adversidades e fez uma de suas melhores corridas na vida. Largou bem, fez ultrapassagens a rodo, foi beneficiado por um trabalho de boxes excepcional da Ferrari e ainda contou com a sorte quando Sebastian Vettel e Romain Grosjean abandonaram. Vitória excepcional, comemoração fantástica, choro tocante. Para mim, e graças a ele, foi uma das melhores corridas que já vi na vida.

KIMI RÄIKKÖNEN8,5 – Fez uma excelente corrida, mas não chamou tanto a atenção como seus outros dois colegas de pódio e ainda saiu insatisfeito, pois achava que poderia ter vencido. Não há como discordar, já que seu carro era realmente muito bom. O ébrio finlandês voltou a largar atrás de Romain Grosjean e também se viu preso atrás de carros mais lentos, como o de Pastor Maldonado, no início da corrida. No fim da corrida, tinha pneus em ótimo estado e conseguiu ultrapassar Lewis Hamilton, assumindo a segunda posição. Em termos de mérito, não merecia tanto este resultado como seu companheiro. Mas o esporte é assim mesmo. Estar na hora certa, às vezes, vale mais a pena que o simples esforço.

MICHAEL SCHUMACHER9 – Foram necessários dois anos e meio e 46 corridas de espera até que este dia chegasse. Após um início de ano tenebroso, repleto de azares, o heptacampeão mundial finalmente obteve um resultado à altura de seu talento. É verdade que o desenrolar foi meio fortuito e o próprio piloto não esperava obter um resultado tão genial, mas ele veio. Michael andou bem nos treinos livres, mas empacou no Q2 da classificação e saiu apenas em 12º. No início da corrida, chegou a ser tocado por outro piloto e se viu preso no meio do pelotão. O que o salvou foi a estratégia de largar com pneus médios e utilizar os macios lá na frente. Nas últimas voltas, tinha um carro bom o suficiente para pular de 11º para terceiro em apenas 16 voltas. Dessa vez, a sorte colaborou e Schumacher pode celebrar seu primeiro pódio desde o GP da China de 2006.

MARK WEBBER8 – Não deixou de fazer uma corrida muito boa, embora a posição no grid de largada tenha sido horrível. Devemos, neste caso, responsabilizar a porcaria da asa móvel, que ficou travada durante o Q1 da classificação. Para tentar contornar o desastre do sábado, o australiano decidiu largar com pneus médios e ver no que dava. Durante a corrida, recuperou-se bastante e andou sempre próximo de Michael Schumacher, que utilizava tática semelhante. No final da corrida, também tinha pneus em ótimo estado e conseguiu ganhar uma baciada de posições, finalizando na quarta posição. Assumiu uma inesperada vice-liderança do campeonato e parece estar recuperando, pelas beiradas, parte do ânimo de 2010.

NICO HÜLKENBERG8,5 – Melhor corrida no ano e melhor resultado na vida. O campeão da GP2 em 2009 vinha devendo um resultado destes, especialmente após as sucessivas boas atuações de Paul di Resta. Em Valência, Nico andou surpreendentemente bem nos dois treinos livres em que participou e qualificou-se numa ótima oitava posição. Deu trabalho para Fernando Alonso nas dez primeiras voltas e apostou numa interessante estratégia de dois stints com pneus médios. No final da corrida, após ter herdado várias posições, chegou a sonhar em ocupar a terceira posição por instantes, mas foi ultrapassado por Schumacher e Webber por não ter mais pneus. Mesmo assim, não tem do que reclamar.

NICO ROSBERG7,5 – Ninguém viu, mas diz a lenda que ele participou da corrida, terminou numa boa sexta posição e ainda fez a melhor volta da prova. O alemão obteve uma interessante sexta posição no grid e prometia uma corrida competitiva, mas ameaçou colocar tudo a perder numa péssima largada. Ele imaginava poder fazer apenas uma parada, mas se viu obrigado a parar pela segunda vez para colocar pneus macios. Não foi uma estratégia ruim assim, já que ele pulou de 11º para sexto nas duas últimas voltas da prova. Mesmo assim, foi, sem a menor sombra dúvida, o mais discreto entre os seis primeiros colocados.

PAUL DI RESTA7,5 – Assim como o companheiro de equipe, também esteve competitivo durante os três dias de grande prêmio, embora não tenha sido tão chamativo. No grid, foi o último colocado do Q3 e largou de uma razoável décima posição. Para o domingo, decidiu apostar em uma ensandecida estratégia de apenas uma parada, com um primeiro stint de mais de 20 voltas com pneus macios, uma doideira só. Deu certo em partes, já que ele perdeu algum tempo antes do pit-stop. No fim da corrida, assim como Nico Hülkenberg, tinha pneus em boas condições até as voltas finais, quando foi ultrapassado por alguns pilotos. Ainda assim, terminou em sétimo e somou mais seis pontos.

JENSON BUTTON4,5 – Sua má fase é um mistério. Nos treinos livres, andou bem mais próximo de Lewis Hamilton do que vinha acontecendo nas corridas anteriores e até ponteou a terceira sessão. Tinha bons prognósticos para o treino classificatório, mas só obteve um discreto nono lugar no grid. Para piorar tudo, largou muito mal e caiu para 13º. Foi o primeiro piloto a fazer seu pit-stop e ficou com pneus médios entre a volta 10 e a bandeirada. Graças a isso, conseguiu ganhar algumas boas posições do nada nas últimas voltas e foi o único piloto da McLaren a pontuar.

SERGIO PÉREZ5,5 – Corrida discreta, mas muito mais eficiente do que a do companheiro de equipe. Voltou a andar mal no treino oficial e só conseguiu a 15ª posição no grid. No domingo, optou por uma estratégia esquisita, como é a regra na Sauber: largar com pneus médios e dar o mínimo de voltas possível para depois fazer dois stints com pneus macios. Não foi a melhor das decisões, mas ele ao menos conseguiu chegar ao fim e marcar dois pontos, coisa que Kamui Kobayashi não fez.

BRUNO SENNA3 – É aquele caso que você não entende muito bem como é que o piloto conseguiu marcar algum ponto. O único grande momento de Bruno Senna no fim de semana foi o quinto lugar no segundo treino livre. Na qualificação, tomou quase sete décimos de Pastor Maldonado no Q2 e teve de largar em 14º. Com uma estratégia de apenas um pit-stop, poderia ter se dado muitíssimo bem, mas causou um acidente estúpido e perigoso com Kamui Kobayashi na volta 20, o que resultou em um pneu traseiro furado e uma posterior punição aplicada pelo comissário Mika Salo, seu nêmesis. Depois disso, o brasileiro apenas tentou se aproveitar dos pneus médios para tentar ganhar algumas posições no finalzinho. Terminou em 11º, mas herdou uma posição a mais com a desclassificação de Pastor Maldonado. Um resultado até bom para um fim de semana magérrimo.

DANIEL RICCIARDO3 – Não consegue marcar pontos nem mesmo em uma corrida onde tudo vira de ponta-cabeça em questão de segundos. Mal nos treinos, o australiano da Toro Rosso apostou tudo em um segundo stint bem longo. Em determinado momento, quando o safety-car estava na pista, chegou a ocupar a quarta posição. Prejudicado pela entrada do carro de segurança, acabou perdendo um monte de posições no segundo pit-stop. Com isso, a chance de pontos evaporou. Fase muito ruim.

PASTOR MALDONADO3,5 – É um especialista em jogar pontos no lixo e estragar corridas perfeitas. Nesse caso, nem adianta muito ser o piloto veloz que é. E olha que ele caprichou aqui: líder no primeiro treino livre de sexta-feira e piloto mais rápido do Q1 da classificação. No Q3, chegou perto da pole-position, mas teve de se contentar com a ainda ótima terceira posição. O domingo foi bem típico de um cara desequilibrado como o venezuelano. Logo na largada, quase se pegou com os dois pilotos da Lotus. Nas voltas seguintes, se complicou com os pneus e foi ultrapassado facilmente por alguns adversários. Só se recuperou no final da corrida, quando tinha pneus em bom estado e era mais rápido que Lewis Hamilton. Só que o cara, cabeçudo como ele só, tentou uma ultrapassagem arriscadíssima sobre Lewis numa curva estreita. Resultado: toque, bico arrebentado e uma bela corrida evaporada. Pastor ainda cruzou em décimo, mas tomou vinte segundos de punição e ficou chupando o dedo. Como seu torcedor, digo o seguinte: bem feito!

VITALY PETROV5 – Não foi mal, mas fez tanto pit-stop nesta corrida que nem deveria precisar parar mais nas corridas restantes deste ano. Uma das quatro paradas foi feita para troca de bico e somente a última delas serviu para o russo colocar pneus médios. Se formos considerar o desempenho individual de Petrov, não há muito o que reclamar. Não foi para o Q2 por pouco e fez uma corrida honesta, sem se envolver em problemas maiores. Em determinado momento, chegou a andar em décimo. É justo que se ressalte, no entanto, que ele só terminou à frente de Heikki Kovalainen por causa da encrenca que o finlandês se envolveu.

HEIKKI KOVALAINEN5,5 – Foi bem pra caramba no sábado, quando conseguiu uma milagrosa 16ª posição no grid. Poderá contar aos netos que deixou nada menos que três carros Red Bull (Webber, Ricciardo e Vergne) para trás na classificação. Na corrida, deu o maior trabalho a Jean-Eric Vergne, mas este lhe deu ainda mais trabalho ao bater na asa dianteira de seu Caterham e estragar sua corrida. Heikki voltou lá no fim do pelotão, mas aproveitou-se dos azares alheios e terminou em 14º. Com o bico inteiro, felizmente.

CHARLES PIC4 – Nunca vou entender a Marussia, que comete erros babacas no pit-stop e ainda faz seu bom piloto francês andar apenas 11 voltas com um set de pneus médios. Charles Pic anda sofrendo pra caramba com a lerdeza ainda pior do que o normal de sua Marussia e voltou a largar atrás dos dois carros da HRT. Na corrida, pelo menos chegou ao fim e ainda deixou as duas diligências espanhóis para trás correndo na casa do adversário. E, olha só, finalizou à frente de uma Ferrari!

FELIPE MASSA1,5 – Fernando Alonso anda bem e é sortudo, Felipe Massa anda mal e é azarado. Esta frase aí é mais do que o suficiente para explicar como um vence a corrida e o outro chega em 16º. O paulista não foi bem nos treinos, mas Alonso também não foi e muita gente passou a enxergar isso como uma positiva aproximação entre os dois. Na classificação, ficou em 13º, a apenas duas posições do espanhol. A corrida começou muitíssimo bem, com uma ótima largada e uma sequência de ataques a Paul di Resta. De repente, a Ferrari perdeu bastante desempenho e Massa se distanciou de Alonso. Como se não bastasse, quando já não tinha chances de pelejar pelas primeiras posições, tomou uma pancada dolorosa de Kamui Kobayashi e teve de ir aos pits trocar o pneu furado. Pelo menos, não morreu e nem cruzou com um gato preto ou uma mola perdida no meio do caminho.

PEDRO DE LA ROSA4,5 – Equipe pequena é uma merda, mesmo. O espanhol quarentão tinha boas chances de ter terminado a corrida à frente de Charles Pic (e, quem sabe, até mesmo à frente de Felipe Massa), mas algum energúmeno na HRT decidiu fazê-lo andar com um único set de pneus macios durante 29 intermináveis voltas. Assim não dá, né? O chato é que Pedro fez um trabalho muito bom, tendo largado novamente à frente da Marussia de Charles Pic e se esforçado ao máximo para fazer os pneus funcionarem. Mas não dá para fazer milagres, mesmo em casa. A propósito, que pancada dolorida aquela da sexta-feira, hein?

NARAIN KARTHIKEYAN3,5 – O indiano estava bem rápido neste fim de semana. Tão rápido que deixou Charles Pic para trás no treino oficial, escapando da última fila. Tão rápido que até punição por excesso de velocidade nos pits ele tomou. Seu Narain, rapidez não é tudo, ainda mais quando não se tem um carro veloz. Exatamente por isso, ele só tentou levar o carro até o fim sem problemas. Fez seu serviço.

LEWIS HAMILTON8 – Esse cara, definitivamente, nunca terá tranquilidade em sua carreira na Fórmula 1. Neste fim de semana, ele trabalhou direito, não fez bobagens e seu único crime foi não ter cedido espaço ao perigoso Pastor Maldonado nas últimas voltas. Chega a ser, sei lá, meio revoltante. No treino classificatório, Lewis obteve uma boa primeira fila ao lado de Sebastian Vettel. Partiu bem e manteve a segunda posição, mas tomou uma boa ultrapassagem de Romain Grosjean ainda no começo e teve de parar nos pits para colocar pneus médios. Após o safety-car e o abandono de Vettel, voltou à segunda posição e parecia destinado a terminar por lá. Só que ele não contava com o desgaste de pneus, que possibilitou a ultrapassagem de Kimi Räikkönen e as investidas de Maldonado, uma das quais resultou no acidente. Com isso, Hamilton ficou bem longe da liderança do campeonato. Sem culpa no cartório, diga-se de passagem.

ROMAIN GROSJEAN9 – Se Fernando Alonso não existisse, eu diria que o franco-suíço foi o piloto mais impressionante da corrida. Sua evolução é notável. Fica provado que quando ele sobrevive aos primeiros metros, é capaz de fazer maravilhas com a Lotus. Neste domingo, quase que isso não aconteceu: ele chegou a se bicar com Kimi Räikkönen nos primeiros metros e poderia ter causado um belo e custoso acidente doméstico. Nas primeiras voltas, Romain atacou Lewis Hamilton e chegou a ultrapassá-lo na volta 10. Após o safety-car retornar aos boxes, ele ganhou a posição de Sebastian Vettel e perdeu uma para Fernando Alonso, mantendo-se em segundo. Infelizmente, a merda do alternador quebrou e a corrida acabou para ele na volta 40.

SEBASTIAN VETTEL9,5 – Se os deuses da velocidade não fossem asturianos, a vitória neste GP da Europa seria a 23ª da carreira do bicampeão alemão. Sua pole-position, com três décimos de vantagem sobre o segundo numa pista onde todo mundo estava andando embolado, foi humilhante. A largada foi limpa e tranquila, assim como o decorrer da corrida. Antes do safety-car, ele já tinha aberto quase 20s para Romain Grosjean. Vettel entrou nos boxes, fez sua parada e voltou para a pista pronto para prosseguir com o desfile até a bandeirada. Mas o alternador não deixou. E Vettel, sempre cirúrgico, teve de deixar o caminho livre para a vitória de Alonso.

KAMUI KOBAYASHI4 – Se dependesse somente da velocidade mostrada em pista, mereceria uma nota até acima de oito. Como a Fórmula 1 também envolve variáveis como cérebro, prudência e até mesmo sorte, fui obrigado a rebaixar a avaliação. O japa mandou bem no treino oficial e obteve um ótimo sétimo lugar no grid. Na largada da corrida, foi melhor ainda e subiu para quarto. Mas as coisas começaram a dar errado a partir do primeiro pit-stop, quando um mecânico teve problema com uma das rodas e perdeu um bocado de tempo. Kobayashi voltou à pista no meio do pelotão e teve de remar para tentar recuperar posições. Em uma dessas brigas, bateu em alta velocidade com Bruno Senna e teve de ir aos boxes fazer reparos. Não demorou muito e ele se envolveu em outro acidente, dessa vez com Felipe Massa. Dessa vez, os danos foram extensos e Kamui teve de abandonar. Pô, cara, se não gosta de brasileiro, é só não chegar perto!

JEAN ERIC-VERGNE1 – Treinos horrorosos, corrida pior ainda. O francês definitivamente não se dá bem com esse negócio de andar o mais rápido possível contra o cronômetro. No treino oficial, apanhou de uma Caterham novamente e não perdeu para Vitaly Petrov por pouco. Na corrida, irritado com aqueles carros esverdeados, perpetrou um acidente bobo com Heikki Kovalainen e destruiu um dos pneus traseiros de seu carro, causando o safety-car que mudaria a vida de muita gente. Esta foi a única coisa de bom que o francês fez durante o fim de semana.

TIMO GLOCKS/N – É injusto dar uma nota a alguém que não teve sequer condições físicas de participar do treino oficial e da corrida. Diagnosticado com uma infecção estomacal, o alemão só participou dos três treinos livres e terminou dois deles em último, mostrando que não tinha condições sequer de jogar peteca. Arregou no treino oficial e preferiu nem dar as caras no autódromo no domingo. Diante da assombrosa possibilidade de caganeira no cockpit, fez bem.

Há dias em que o onipotente Bernie Ecclestone acorda com uma ideia pretensamente genial, pega um bloco de papel, rabisca mais ou menos o que veio à sua mente e comunica aos jornalistas de plantão que “seria bom se a Fórmula 1 fosse assim ou assado”. Em 2010, ele quase implantou à força o controverso sistema de medalhas, que premiaria apenas os três primeiros colocados. Um ano antes, Bernie ventilou a possibilidade do retorno da pré-classificação, única ideia que eu achei realmente interessante. Em 1989, o velho asquenaze foi além e sugeriu pit-stops compulsórios para os vencedores. O ganhador de uma corrida tinha de fazer uma parada obrigatória na etapa seguinte. Se repetisse a vitória, teria de parar duas vezes na próxima corrida, e assim por diante.

Ele teve tantas outras ideias que daria para fazer mais de um Top Cinq com elas. Bernie é um cara que sabe que é inteligente e que tem poder para irritar muita gente. O problema é que ele chegou a um nível de egocentrismo e autossuficiência tão alto que qualquer ideia sua parece a melhor de todas, mesmo que ela signifique obrigar Karun Chandhok a andar nu pelo paddock ou trocar champanhe por chá de boldo no pódio. Esse é o problema de uma pessoa teimosa, personalista, elitista e que não se preocupa com o que pensam os demais.

Hoje, ele apareceu com mais uma ideia genial que certamente salvará o automobilismo e as sequoias.  Em entrevista concedida à Gazzetta dello Sport, Ecclestone sugeriu que as equipes menores utilizassem um único carro fabricado por uma equipe grande em temporadas anteriores. O raciocínio não é tão ruim assim. Para a HRT ou a Marussia, seria mais barato e eficiente comprar uma Ferrari ou uma Red Bull de 2010 do que torrar dinheiro em carroças que não terão futuro algum.

Pode até ser que seja apenas uma ideia que tenha surgido do nada e que também desaparecerá logo, mas Bernie não é o único a ter falado sobre esta possibilidade. A terceirização poderia ser uma saída razoável para participantes sem dinheiro e esperança. No passado, ela foi uma boa saída que permitiu ampliar os grids da Fórmula 1. Alguns chefes de equipe até fizeram certa história comandando carros que eram fabricados em outros quintais. Conheça hoje cinco destes chefes:

5- JOHN MACDONALD

Sem qualquer relação com a rede de fast-food, John Macdonald era apenas um típico apaixonado das antigas pelo automobilismo. Dono de uma loja de carros em Londres e piloto nas horas vagas, Macdonald desistiu de uma carreira profissional nas corridas quando percebeu que não seria o próximo Jim Clark. Então, decidiu ser dono de equipe, a saída mais óbvia para um piloto frustrado. Ao lado do colega de concessionárias Mick Ralph, ele arranjou um March e o entregou para um certo Alan Jones pilotar na Fórmula 5000 em 1975: estava formada a equipe RAM Racing. O australiano esbanjou talento fazendo um carro V6 disputar curvas contra carros V8, embora os resultados não tenham sido tão espetaculares.

Só que a Fórmula 5000 acabou em 1976 e John Macdonald se viu sem uma categoria para participar. Então, num lance que nunca seria visto nos dias de hoje, ele decidiu simplesmente arranjar dois jurássicos Brabham BT44B e levar sua RAM para participar da Fórmula 1, aquela mesma onde participavam Ferrari, Lotus, Tyrrell e McLaren. É como se a liga amadora de Ji-Paraná acabasse e o time da Vila Sococó decidisse participar do Campeonato Brasileiro.

A estrutura da RAM era precária de dar dó. Macdonald empregou o suíço Loris Kessel em um carro e leiloou o outro. No fim das contas, quem teve mais poder de caixa foi o espanhol Emilio de Villota, que levava um monte de patrocinadores de seu país. Os dois apareceram pela primeira vez no GP da Espanha de 1976 e, coitados, nem se qualificaram. Macdonald não ficou feliz e substituiu De Villota pelo belga Patrick Nève. A troca fazia sentido em termos geográficos: o GP seguinte seria realizado na Bélgica e ter um piloto da casa poderia atrair um pouco da atenção dos locais. Mas é óbvio que um pensamento pequeno e imediatista desses não leva ninguém a lugar algum.

A RAM participou de sete das 16 etapas da temporada de 1976, usou sete pilotos diferentes e não conseguiu sequer terminar uma corrida entre os dez primeiros. Só chamou a atenção nos dias do GP da Alemanha graças a uma história pra lá de bizarra: a equipe tentou substituir Loris Kessel pelo piloto germânico Rolf Stommelen, mas Kessel não deixou barato e entrou na justiça alemã exigindo continuar pilotando. Ganhou a causa. Com isso, os carros da RAM foram apreendidos pela polícia durante um dos treinos livres da etapa de Nürburgring!

Ciente de que não chegaria a lugar algum usando um carro do arco-da-velha e dando rasteiras em pilotos pagantes, Macdonald decidiu tomar vergonha na cara. Para 1977, optou por usar o March 761 do ano anterior e parou de trocar de piloto como quem troca de cueca – Boy Hayje até conseguiu a proeza de participar de seis treinos classificatórios com a equipe. Mas os resultados continuaram não aparecendo. Diz a lenda que a RAM simplesmente ignorava as sugestões de acertos que a March fornecia. O sócio Mick Ralph achava que entendia mais do negócio do que qualquer intrometido da March. Não acertava uma.

Nos dois anos seguintes, Macdonald decidiu competir na British Aurora Fórmula 1 e se deu melhor, obtendo alguns resultados muito bons com velhos March e Fittipaldi. Com os ânimos renovados, ele decidiu trazer sua RAM de volta à Fórmula 1 verdadeira em 1980 utilizando um Williams FW07. Participou das últimas sete corridas da temporada e não conseguiu nada além de um nono lugar em Watkins Glen com Rupert Keegan.

Chega, pensou John Macdonald. Vou parar com esta idiotice de comprar carros velhos! Você acha que ele desistiu de vez na Fórmula 1? Nada disso. Ele assumidamente se inspirava em Frank Williams e achava que não tinha de desistir. A partir de 1981, a RAM passou a construir seus próprios carros. Nada que tenha feito lá grande diferença para a humanidade.

4- BOB SPARSHOTT

 

Bob Sparshott é uma corruptela de Ron Dennis. Se o ex-chefão de Ayrton Senna começou a carreira como mecânico da Brabham, Bob era um dos mecânicos da Lotus. Se Dennis foi o ditador da McLaren por quase trinta anos, Sparshott também pode contar aos bisnetos que já pôs um carro da McLaren na pista. E os dois já tiveram sob suas ordens um brasileiro tricampeão.

Sparshott queria ter sua própria equipe de Fórmula 1, assim como metade do planeta nos anos 70, mas não tinha como construir um carro. A melhor solução para uma pessoa como ele era adquirir um monoposto inteiro de uma equipe já estabelecida e tentar arranjar dinheiro via assaltos ou poços de petróleo no fundo de casa. Felizmente, o britânico não precisou desses tipos de solução. Associou-se à Norev, uma fábrica francesa de carrinhos em miniatura, e arranjou os recursos necessários para comprar um Surtees TS19 e disputar a temporada de 1976 com Henri Pescarolo.

A Team Norev não se inscreveu para as primeiras etapas do ano e só deu as caras pela primeira vez em Mônaco, onde não se qualificou. Pescarolo só conseguiu terminar sua primeira corrida na Áustria, na qual ficou num bom nono lugar. Nas corridas seguintes, largou em todas e só abandonou em Watkins Glen. Uma temporada razoável, convenhamos.

Em 1977, Sparshott ficou sem os francos da Norev e teve de recorrer aos dólares do americano Brett Lunger, um veterano de guerra que era patrocinado pelos cigarros Chesterfield. Lunger disputou as três primeiras etapas com um March 761, mas Sparshott conseguiu jogá-lo no lixo e descolou um McLaren M23, velho pra danar mas bem mais rápido. Além disso, ele mudou o nome da equipe nesta mesma época. Team Chesterfield era meio feio, né? A partir do GP da Suécia, o time passou a se chamar BS Fabrications. Não parecia exatamente um nome de uma escuderia que se preze, mas não é a nomenclatura que ajudará um carro a andar um segundo mais rápido.

A BS Fabrications ganhou fama ao dar uma chance ao brasileiro Nelson Piquet, então apenas um piloto da Fórmula 3 britânica que vinha assombrando os taciturnos ingleses em 1978. Bob Sparshott ainda tinha contrato com Brett Lunger, mas decidiu arranjar um segundo McLaren M23 para Piquet fazer os GPs da Áustria, da Holanda e da Itália. Nelsão sofreu um bocado com um carro concebido em 1974, mas pelo menos despertou alguns sentimentos amorosos de Bernie Ecclestone, que o convidou para correr num terceiro Brabham no GP do Canadá de 1978. Definitivamente, Piquet foi a maior contribuição de Bob Sparshott ao automobilismo mundial.

3- FRANK WILLIAMS

 

A vida de Frank Williams antes do dia em que se enturmou com alguns árabes dotados das verdinhas é um dos assuntos mais legais que a Fórmula 1 já produziu. O franzino ex-piloto britânico, que participava de maratonas apenas para levantar fundos para fazer a Frank Williams Racing Cars funcionar, passou por muita coisa antes de construir um império que ganhou sete títulos de pilotos e nove de construtores. Uma dessas coisas foi utilizar carros alheios.

Sir Frank não começou sua vida na Fórmula 1 botando a mão na massa. Ele arranjou um Brabham BT26A novinho em folha que Jack Brabham achava que seria utilizado na Tasman Series. Com um carro competente e Piers Courage como único piloto, a Frank Williams Racing Cars teve um bom ano em 1969. Courage obteve dois segundos lugares e terminou a temporada na oitava posição. Poderia ter ido melhor, mas teve muitos problemas durante o ano. De qualquer jeito, um bom ano pra um piloto que nunca tinha feito muita coisa na Fórmula 1 até então.

Em 1970, Williams não produziu seu próprio carro, mas também não comprou um chassi de outra equipe. Ao invés disso, ele fez uma parceria com a fabriqueta ítalo-argentina De Tomaso, que construiu lá nos confins da América do Sul um carro horroroso e perigoso. Courage tragicamente faleceu em um acidente pilotando a coisa no GP da Holanda. Sir Frank ficou devastado. Seu melhor amigo tinha morrido por causa da porra de um carro argentino.

Nos dois anos seguintes, Frank Williams arranjou uns chassis meio fuleiras da March. Eles nem eram tão antigos, mas a marca não era lá aquelas coisas na Fórmula 1. Em 1971, Henri Pescarolo foi o único piloto em quase todos os fins de semana (na França, inventaram de colocar na pista um segundo March para o misterioso Max Jean) e até somou quatro preciosos pontinhos. Em 1972, Pescarolo dividiu a equipe com o brasileiro José Carlos Pace, que foi o único piloto a pontuar naquela temporada. Depois de dois anos lá na rabeira, a Williams decidiu aventurar-se na construção de seus próprios carros.

Após um ou outro alto e uma saraivada de baixos, a Frank Williams Racing Cars foi passada para as mãos do canadense Walter Wolf. Frank Williams decidiu recomeçar tudo do zero. Em sociedade com o engenheiro Patrick Head, o incansável britânico arranjou uma oficina empoeirada em Didcot, convenceu boa parte dos funcionários da antiga FWRC a acompanhá-lo e arranjou um piloto rico o suficiente para injetar dinheiro naquela loucura. O belga Patrick Nève, o mesmo que já tinha enfiado o nariz na RAM, voltou a se meter numa canoa perdida.

A Williams Grand Prix Engineering queria construir seus próprios carros, mas não dava para sonhar muito no primeiro ano. Para a temporada de 1977, ela se viu obrigada a usar um March 761 que não tinha feito muita coisa nem mesmo nas mãos sagradas de Ronnie Peterson. Enquanto a estrutura da equipe era trabalhada a longo prazo, Nève tentava fazer o 761 chegar ao fim das corridas. Em Monza, chegou em sétimo e quase pegou um pontinho. Infelizmente para ele, isso não importava muito. Frank Williams já trabalhava nos bastidores para construir uma superequipe. E Patrick Nève e seu March não estavam nos planos.

2- JOHN LOVE

 

A história deste cara é enorme e eu realmente gostaria de me debruçar sobre ela. John Love foi talvez o maior piloto da história do Zimbábue. Zimbábue? Hoje em dia, este é um dos países mais problemáticos do planeta, de inflação galáctica, economia inexistente e intermináveis problemas sociais. Os mais jovens não imaginam que, nos anos 60, quando seu nome ainda era Rodésia, as coisas eram bem diferentes. O país crescia a altas taxas e muitos imaginavam que seria ele, e não a África do Sul, a economia dominante do continente.

A carreira de Love surgiu em um contexto bem interessante. Ele foi convocado pelo exército da Rodésia para lutar na Itália e no Oriente Médio durante a Segunda Guerra Mundial. Na Itália, enquanto não pilotava tanques de guerra, deslumbrava-se com as velozes motocicletas produzidas na Terra da Bota. De volta à África, Love começou a disputar corridas de moto e ganhou várias delas. Cansado da brincadeira, ele decidiu disputar provas em quatro rodas para ver se encontrava desafio um pouco maior. Pelo menos no seu continente, não encontrou: ele continuou ganhando tudo.

Um amigo seu lhe arranjou o contato de Eric Broadley, o dono da Lola, que lhe arranjou um lugar na Fórmula Junior inglesa no início dos anos 60. A partir daí, John Love tentou fazer uma carreira internacional, mas um acidente em Albi em 1962 destruiu seu braço esquerdo. Ele nunca mais conseguiria voltar a ter o movimento normal neste braço novamente. Continuou pilotando, entretanto. Movia o volante com o braço direito e apoiava o esquerdo no canto do carro.

Ainda em 1962, com o braço estropiado, Love levou para a África do Sul um Cooper-Climax T55, montou sua própria equipe e se inscreveu para o GP sul-africano de Fórmula 1, realizado nos últimos dias de dezembro. Largou em 12º e terminou em oitavo, resultado bastante razoável para alguém que nunca tinha disputado uma corrida de Fórmula 1.

Depois disso, Love e sua equipe se tornaram uma presença constante nos GPs sul-africanos dali em diante. Ele nunca construía seus carros: dava um jeito de importar bólidos velhuscos da Cooper, da Lotus, da Brabham, da March e da Surtees. E foi com um Cooper T79 que John teve a maior felicidade de sua vida.

No GP da África do Sul de 1967, Love começou surpreendendo a todos fazendo o quinto tempo no grid de largada. Empolgado, ele nem se importou em emprestar uma bomba de gasolina a Jo Siffert, que tinha tido problemas na classificação. No seu carro, Love instalou uma bomba reserva que ele carregava consigo. Sujeito precavido é outra coisa.

John largou mal e caiu para a décima posição. Para sua alegria, vários pilotos à sua frente começaram a ter problemas e abandonaram a prova. O herói da Rodésia também estava possuído e deixou outros tantos para trás, nomes fracos como John Surtees e Jim Clark. Na volta 41, ele já era o segundo colocado. Vinte voltas depois, o líder Denny Hulme entrou nos pits. E John, para delírio da torcida africana, assumiu a liderança.

John Love liderou durante maravilhosas treze voltas. Quando faltavam apenas sete para o fim, ele sentiu o carro engasopando e decidiu ir aos boxes para colocar mais gasolina e garantir ao menos o pódio. Ele voltou atrás de Pedro Rodriguez e teve de se conformar com o segundo lugar. Mas o que mais o chateou foi descobrir, após a corrida, que havia combustível o suficiente para não precisar fazer aquele pit-stop. Na verdade, houve um problema na bomba de combustível de seu Cooper. A maldita bomba de combustível reserva. Se John Love não tivesse emprestado a original para Jo Siffert, provavelmente a Rodésia teria celebrado ao menos uma vitória na história da Fórmula 1.

1- ROB WALKER

 

Rob Walker foi um dos chefes de equipe de maior sucesso de automobilismo nos anos 60. Só há um pequeno detalhe: ele nunca construiu um carro sequer. Ele apenas fazia o trabalho mais fácil: ia atrás do melhor carro disponível, não esquentava a cabeça para comprá-lo, contratava um piloto de ponta e partia para o abraço. Uma receita simples demais para um dos herdeiros da Johnnie Walker, que se apaixonou pelo automobilismo após assistir a uma corrida na França aos sete anos.

Walker era mais um desses bon-vivants típicos da Europa da Belle Époque. Sem ter de se preocupar com dinheiro e outras questões comezinhas, seu negócio era pilotar carros, motos e até mesmo aviões. A festança acabou com a Segunda Guerra Mundial, quando Walker foi enviado ao Norte da África para lutar contra sei lá quem. Com o fim da guerra, Rob não demorou muito para abrir sua própria equipe de automobilismo. A Rob Walker Racing começou com dois Aston Martin de Fórmula 2 pilotados pelos ingleses Tony Rolt e Eric Thompson, que obtiveram bons resultados rapidamente.

Em 1958, cansado de ficar brincando de corridas nos rincões britânicos, Rob Walker quis internacionalizar sua equipe e começou a se inscrever para o máximo de corridas de Fórmula 1 possível. Arranjou dois Cooper T43 (os mais atualizados eram os T45) e os entregou a Stirling Moss e Maurice Trintignant. Os dois ganharam as três primeiras corridas da temporada e Moss ainda conseguiu vencer mais duas no final do ano, terminando como vice-campeão. Está bom para você?

Nos anos seguintes, Rob Walker seguiu como o dono de equipe independente de maior sucesso da categoria. A parceria com Stirling Moss, em sua melhor fase no automobilismo, rendeu um bocado de vitórias e dores de cabeça à concorrência e até mesmo aos fornecedores. Em 1961, a Lotus ficou bastante relutante em vender seu modelo 21 a Rob Walker, que teve de se contentar com um híbrido entre o antigo 18 e o 21. Com esta gororoba, Moss ganhou duas corridas e terminou a temporada em terceiro.

Dá para dizer que o acidente de Moss em Goodwood no início de 1962 prejudicou bastante a Rob Walker Racing, que se viu obrigada a manter um único Lotus para o veteraníssimo Trintignant, que já não rendia o mesmo que em outros tempos. As temporadas seguintes não foram tão boas como as primeiras, ainda que Rob Walker sempre tivesse à disposição carros da Lotus, da Brabham e da Cooper e pilotos como Jo Bonnier, Jo Siffert e Graham Hill. Apenas uma vitória foi obtida, a de Siffert no GP da Inglaterra de 1968.

Rob Walker se aposentou da gerência da equipe em 1970 e preferiu se manter apenas como empresário de Mike Hailwood. Sua equipe durou cerca de quinze anos e ganhou nove provas na Fórmula 1. Repito: ele nunca sequer desenvolveu um parafuso de um carro de automobilismo. O melhor usurpador de todos, sem dúvida.

GP DA EUROPA: Deixa eu dizer uma coisa que não consigo entender nas mentes obscuras das pessoas por aí. Todo mundo elogia Long Beach, o circuito praieiro, guerreiro e californiano que realiza corridas de Fórmula Indy desde os anos 80. Aí vem o Hermann Tilke e cria um circuito parecido, com algumas curvas de alta velocidade, um miolo absurdamente travado e muros altos. E o povo, o mesmo povo que se delicia com Long Beach, reclama e diz que a pista valenciana é a maior bosta que o arquiteto alemão criou na vida e na morte. Para mim, é o mesmo raciocínio de quem diz não gostar do sertanejo universitário atual porque acha que Leandro e Leonardo e suas músicas choradas são melhores. Valência, o Michel Teló dos circuitos atuais, é injustiçado porque surgiu na época errada. O engraçado é que em 2008, primeiro ano de existência da pista espanhola, muita gente elogiou o traçado, incluindo aí Felipe Massa. Mas nada como um amontoado de corridas ruins para mudar a cabeça de todos, ainda que Spa-Francorchamps e Suzuka estejam entregando provas tão enfadonhas quanto. A situação financeira da Espanha também não ajuda. Neste ano, os organizadores disponibilizaram apenas 45 mil ingressos para a corrida, 20 mil a menos que no ano passado e 55 mil a menos que em 2008. Mesmo assim, apenas 38 mil foram adquiridos, a maior parte deles por estrangeiros em melhor saúde monetária. Sem contar com a simpatia dos fãs e a grana ilimitada do governo, Valência só voltará a aparecer no calendário revezando o GP da Espanha com o circuito de Barcelona. Isso se as coisas não piorarem ainda mais.

ALONSO: Uma das coisas que mais me impressionam em Fernando Alonso é a capacidade de comentar assuntos espinhosos com a maior naturalidade do planeta, extrapolando qualquer limite imaginável de cara-de-pau. Eu, que torço por ele desde 2001, não ligo para isso. Vejo nele uma mistura de Michael Schumacher com Alain Prost que consegue ser ainda mais descarada. Durante a coletiva de pilotos nesta sexta, o asturiano fez alguns comentários sobre como a Ferrari funciona. “Qualquer que seja o meu companheiro, não haverá problemas e nós trabalharemos com ele da mesma forma que fazemos hoje com Felipe”, afirmou acreditando piamente que um GP da Alemanha de 2010 acontece todo dia com todo piloto. Sobre Massa, ele fez outro comentário que transita entre o amigável e o desdenhoso: “ele não é um mau piloto, embora, olhando por fora, até possa parecer”. Puxa, como ele é legal. Um elogio destes me faria sair de casa com uma sacola na cabeça. Por fim, de maneira sutil, Alonso explicou qual é a sua real influência na hora da Ferrari escolher um segundo piloto: “no passado, isso não acontecia. Aqui na Ferrari, acontece. Eu apareço na Itália toda semana e me encontro com Stefano Domenicali de vez em quando. Nós falamos sobre o futuro da Fórmula 1, o desenvolvimento dos carros e o futuro dos meus companheiros de equipe”. É isso aí. Alonso manda e tem juízo quem obedece.

OITO: Jenson Button, Fernando Alonso, Nico Rosberg, Sebastian Vettel, Pastor Maldonado, Mark Webber e Lewis Hamilton. Falta mais alguém? Difícil dizer. Nunca antes na história desta Fórmula 1 houve uma temporada que teve sete vencedores diferentes nas sete primeiras corridas. Valência, neste próximo domingo, será a oitava corrida. É improvável que o recorde seja ampliado, pois não há mais ninguém que tem condições claras de vitória. Michael Schumacher já ganhou umas noventa vezes, mas anda tão azarado que é melhor apostar que uma horda de alienígenas bárbaros e assassinos invadirá a pista no caso dele estar liderando a última volta. Romain Grosjean poderia ser uma boa aposta, mas ninguém garante que ele esteja apto a sobreviver à quarta volta da corrida. Kimi Räikkönen é diletante e sossegado demais para isso. Sergio Pérez passou perto da vitória na Malásia, mas precisaria de um novo fim de semana genial e a permissão da Sauber para ganhar sua primeira corrida. Kamui Kobayashi vencendo seria o sonho de todos, mas isso infelizmente não acontecerá tão cedo. E Felipe Massa, infelizmente, não tem mais condições para ganhar alguma coisa. Aposto na vitória de Alonso, que se dá bem porque é mais esperto e cuzão que os demais.

TORO ROSSO: Ela não me surpreende mais. Na verdade, fiquei apenas assustado pelo clima ter azedado mais cedo do que eu imaginava. Nesses últimos dias, o caolho Helmut Marko não moderou a língua e destilou a primeira flecha contra o novato Jean-Eric Vergne: “ele é muito selvagem. Não há nada de errado em ser agressivo, mas a agressividade dele precisa ser controlada”. Marko é isso aí, um sujeito de visão pouco apurada que acha que pilotos bons são apenas aqueles que ganham com um Toro Rosso. Como Vergne não passou nem perto disso, a crítica mordaz dá as caras. É verdade que o francês anda precisando apertar um pouco mais o pedal do acelerador nos treinos oficiais, mas é igualmente verdadeira a incômoda lerdeza do STR7. E os dois pontos a mais que Jean-Eric possui a mais que Daniel Ricciardo também não são fictícios. Mas o ambiente definitivamente pesou. O próprio Ricciardo já andou alfinetando o companheiro, dizendo que ele “anda bem em corridas porque tem pneus novos para gastar, já que ele não os usa nos treinos”, ironia referente ao fato de Vergne sempre sobrar no Q1. A guerra entre os dois moleques está a um pavio de ser iniciada, para deleite sádico do pouco visionário Helmut Marko.

COSWORTH: Fico triste a cada ocasião em que um resquício do passado fica definitivamente para trás. Algumas coisas deveriam ser proibidas de decaírem. A Williams era uma delas. A Cosworth, inglória fornecedora de motores da Marussia e da HRT, é outra. Nesta semana, representantes de duas prováveis fornecedoras de motores a partir de 2014 demonstraram ceticismo acerca da permanência da fábrica fundada por Mike Costin e Keith Duckworth na Fórmula 1 a médio prazo. Um diretor da Renault, que poderá fornecer motores para até seis equipes em 2013, afirmou que “a Cosworth está acabada, pois não consegue fazer mais nada hoje em dia”. Como discordar? Outra voz pessimista foi a de Craig Pollock, o sujeito sempre honesto e idôneo que lidera o projeto PURE, provável quarta fornecedora de motores a partir de 2014: “a Cosworth não possui capital tecnológico para permanecer na Fórmula 1. Ela é um dinossauro que poderá ser extinto em breve”. Difícil apontar qualquer tipo de maldade pura nas declarações acima. Infelizmente, a Fórmula 1 não é uma coisa sustentável para ateliês mantidos unicamente pela paixão e pela tradição. Os dias de Jackie Stewart ganhando títulos a rodo com um DFV barato, confiável e veloz viraram lenda. O negócio é tomar um antiácido e tentar sorrir com a chegada da empresa de Blergh Pollock.

17 de agosto de 2002 foi, provavelmente, um dos melhores dias da vida do tcheco Tomas Enge. O que dizer de um cara que havia acabado de vencer a etapa de Hungaroring da Fórmula 3000 Internacional, estava a um passo do título e a dois de uma vaga de titular na Fórmula 1? Ele pilotava pela melhor equipe da temporada, a Arden International, e tinha muito mais experiência do que os seus concorrentes. Mesmo vindo de um país sem tradição nenhuma nas corridas e estando acima do peso, Enge dificilmente perderia o título. Sua vida não poderia estar melhor. Piorou e muito.

Curiosamente, o inferno astral de Enge começou no mesmo 17 de agosto. Naquele dia, algumas horas antes da corrida de Fórmula 3000, ele e outros pilotos da categoria foram convocados para o temido exame antidoping. Ele funciona da seguinte forma: o sujeito recebe uma cartinha simpática pedindo caridosamente um potinho de urina fresquinha para análise química. Então, ele vai ao boteco, amarra o rabo de cerveja e volta para casa doido para mijar. Preenche o potinho com o líquido amarelado e o envia às autoridades competentes, que o remeterão a especialistas. Lá no laboratório, aquela pequena amostra de urina revelará os maus hábitos dos esportistas.

Na grande maioria das vezes, este exame não dá em nada. Os atletas em geral são pessoas saudáveis e idôneas que levam uma vida praticamente monástica. Não comem gordura, evitam o fumo, bebericam apenas de vez em quando e alguns até deixam de fazer sexo antes de algum evento esportivo. É óbvio que tudo isso o que acabei de falar é um cenário totalmente inocente. Assim como qualquer pessoa normal, esportistas fumam, bebem, cheiram, injetam e comem Doritos. Eles só não são pegos com a boca na botija porque usam as coisas certas na hora certa.

Atletas e seus médicos e conselheiros sempre consultam a lista da WADA (Agência Mundial de Antidoping) para ver se aquele suplemento ou aquela pilulazinha colorida que turbina seus músculos possui algum princípio ativo ilegal. Se não tiver nada que conste na relação, o sinal está verde e o cara pode utilizar à vontade. Não importa se o negócio faz mal ou não. Basta não estar na lista da WADA que tudo está certo.

Muito de vez em quando, alguém é pego. Rubens Barrichello, por exemplo, já foi surpreendido com um resultado que deu positivo para cloridrato de oximetazolina, uma das substâncias banidas pela WADA. Mas o que diabos é cloridrato de sei lá o quê? Ele é o princípio ativo do Afrin, uma solução nasal descongestionante. Em meados de 1995, Rubens estava meio resfriado e precisava encontrar um remédio que o ajudasse a respirar melhor. Ao invés de se aconselhar com o médico da equipe Jordan, o brasileiro ligou para a mãe, que sugeriu o tal do Afrin. Descoberta a realidade, a Jordan ficou puta da vida com ele. Como é que um piloto de Fórmula 1 põe a carreira em risco tomando remédios sem consultar um médico?

Barrichello só foi pego porque foi bobo, verdade seja dita. No mesmo exame, o resultado do italiano Massimiliano Papis também deu positivo para uma substância qualquer, nada de grave. Os dois foram perdoados, mas ouviram uma bela bronca e tiveram de jurar por todos os deuses que jamais usariam alguma coisa errada. Fora da Fórmula 1, há outras histórias. Na NASCAR, o ex-piloto Shane Hmiel conseguiu ser pego no antidoping em nada menos que três ocasiões. O que os exames conseguiram detectar? Maconha, cocaína e heroína. É o Pete Doherty do automobilismo.

Mas o que aconteceu com Tomas Enge?

A última etapa da temporada 2002 da Fórmula 3000 seria realizada em Monza no dia 14 de setembro. O campeonato chegou à Itália pegando fogo. Sébastien Bourdais, ele mesmo, liderava a tabela com 55 pontos. O vice-líder Enge tinha apenas um ponto a menos. Na terceira posição, vinha o italiano Giorgio Pantano, com 48 pontos. Os três tinham chances totais de título. Todo mundo estava esperando por uma daquelas corridas inesquecíveis.

No dia 12, quinta-feira anterior à corrida, a FIA anunciou os resultados do exame antidoping realizado lá em Hungaroring. Ninguém estava prestando muita atenção, pois até então nunca houve um caso de algum piloto de uma categoria sancionada pela FIA ter sido pego no exame. Dessa vez, as coisas foram diferentes. A federação afirmou peremptoriamente que a urina de um dos pilotos havia apontado a presença de uma substância ilegal. Portanto, pela primeira vez desde a segunda metade dos anos 80, quando a entidade passou a realizar exames antidoping, houve um resultado positivo.

O piloto em questão era ninguém menos que o vice-líder Tomas Enge. O paddock da Fórmula 3000 ficou estarrecido. O da Fórmula 1 também. Como pode? O cara que tinha talvez as maiores chances de título na categoria-escola corria o sério risco de ser até mesmo banido das competições automobilísticas. Os menos pessimistas logo se preocuparam em abafar o burburinho e deram ao piloto tcheco o benefício da dúvida. Talvez a substância em questão seja um Afrin da vida, sei lá.

Mas o empresário de Enge, o compatriota Antonin Charouz, abriu a boca e explicou que a substância encontrada no exame era tetraidrocanabinol, ou simplesmente THC. Uma pessoa mais avisada sabe que isso aí é a substância psicoativa da Cannabis sativa, conhecida pelos nóias simplesmente como maconha. Em outras palavras, Tomas Enge havia fumado um beque, ficado malucão e a urina acusou o deslize.

Maconha não podia, segundo a lista da WADA. A organização tinha uma nomenclatura estranha para seu caso: doping social. Segundo ela, uma substância como a THC não costuma ser utilizada para aumentar a performance, mas seu efeito entorpecente não seria admitido dentro daquelas convenções sociais que, de maneira ingênua e hipócrita, são exigidas de um esportista, teoricamente um exemplo a ser seguido. Eu penso que não faz sentido enquadrar a maconha dentro de um exame antidoping, visto que o objetivo original da averiguação é flagrar quem utiliza substâncias perigosas ou desleais que turbinam o atleta. Se o sujeito é um maconheiro nas horas vagas ou não, isso daí deveria ser deliberado por outra competência, se é que isso realmente tem de ser deliberado.

Enquanto isso, Enge e seu empresário buscavam uma desculpa idiota qualquer para justificar o injustificável. Encontraram uma, que não convencia sequer a Velhinha de Taubaté. “Tomas pode ter respirado a fumaça da maconha numa discoteca. Ou alguém pode ter colocado alguma coisa em sua bebida ou comida”, tentou argumentar o empresário. Era melhor ter ficado quieto. Na universidade, eu já respirei toneladas de Cannabis sativa. Por causa disso, meu resultado num antidoping daria positivo para maconha? Fala sério.

De um lado, um exame que insiste em querer policiar os hábitos pessoais que não afetam diretamente o desempenho do atleta. Do outro, um piloto e um empresário que pensam que todo mundo é tonto. Nesta guerra onde os dois lados parecem errados, quem saiu perdendo foi a Fórmula 3000. Graças ao resultado do antidoping, a vitória de Hungaroring passou a estar sob júdice e seria avaliada após o fim do campeonato. Ou seja, o piloto campeão na pista não poderia comemorar o triunfo logo após a prova. Ridículo.

Se Bourdais terminasse a corrida à frente, o francês levaria o título e ninguém precisaria ficar preocupado sobre o fato do título não estar definido, ser levado ao tapetão, patati e patatá. Mas o francês teve um problema no motor e acabou abandonando durante um período de safety-car. Enquanto isso, Tomas Enge terminou em segundo e finalizou o domingo com mais pontos do que qualquer um. Ou seja, ele foi o campeão da Fórmula 3000 na pista. Porém, nada estava certo. Só saberíamos o verdadeiro resultado final lá na frente.

Enge foi convocado para dar explicações sobre o que havia acontecido: a quantidade de maconha utilizada, o nome da balada, quantas mulheres ele comeu e informações desse tipo. Após alguns dias de julgamento, o veredito final saiu no primeiro dia de outubro. O piloto tcheco Tomas Enge, então com 26 anos, havia sido desclassificado do GP da Hungria de Fórmula 3000, onde havia sido o vencedor. Sem os dez pontos da vitória, Tomas acabaria perdendo o título para Sébastien Bourdais. Aconteceu o que todos temiam: a temporada acabou decidida no tapetão.

Mas não acabou aí. Enge teria de fazer novos exames de antidoping e caso algum destes voltasse a dar resultado positivo nos próximos doze meses, o piloto seria banido para sempre do automobilismo. O que aconteceu desde então?

Em tese, Tomas parou com seus hábitos jamaicanos. Limpou o pulmão e a alma, fez mais uma temporada na Fórmula 3000 em 2004, disputou corridas da Indy em 2005 e 2006 e passou os últimos anos sossegado no FIA GT1. Tudo parecia correr tranquilamente na sua vida. Até ontem.

Parecia piada. A FIA divulgou uma nota confirmando a suspensão aplicada a Tomas Enge, pego novamente em um exame antidoping. Aos 35 anos, o piloto tcheco teria sido reprovado numa averiguação feita após a etapa da FIA GT1 realizada em Navarra no mês de maio. Dessa vez, Tomas garante que o que foi encontrado em sua urina não é nada de absurdo. “Desde o ocorrido em 2002, tenho sido muito cuidadoso com este negócio de doping. Eu sofro com problemas de saúde há algum tempo e pedi recentemente à FIA uma dispensa que me permite tomar remédios proibidos pela lista”, afirmou Enge.

Não posso fazer julgamento prévio algum. No Brasil, há um caso parecidíssimo. O piloto Alceu Feldmann, da Stock Car, foi suspenso por trinta dias após ter se recusado a fazer um exame antidoping. O próprio afirmou que não o fez por ter uma autorização verbal do médico Dino Altmann para utilizar um remédio de reposição hormonal, proibido na lista da WADA. Há uma explicação oficial, portanto. Logo, o benefício da dúvida está concedido.

No caso de Enge, acharia interessante se ele desse maiores explicações a respeito do tipo de doença que tem e as medicações que toma. Falar simplesmente que “minha saúde está fodida e preciso me entupir de Vicodin” não soa totalmente convincente. Espero, sinceramente, que Tomas faça isso e acerte suas contas. Ele tem apenas 35 anos, talento e uma longa carreira pela frente.

O problema com a maconha claramente atrapalhou um bocado sua carreira, que vinha numa ascendente notável. Em 2001, Enge substituiu o lesionado Luciano Burti nas três últimas etapas da temporada de Fórmula 1. Se tivesse sido campeão da Fórmula 3000, teria chances ótimas de ter arranjado uma vaga de titular na categoria principal em 2003. Poderia estar lá até hoje. Após ter sido pego, os patrocinadores ficaram meio ressabiados de associar sua imagem com a de um maconheiro. Em 2004, Tomas teve de recomeçar sua carreira praticamente do zero ao aceitar uma vaga meia-boca numa equipe novata de Fórmula 3000.

Fiquemos com uma imagem que antecedeu os dias turbulentos. A foto aí em questão é de Spa-Francorchamps, penúltima etapa da temporada de 2002. Enge chegou à Bélgica todo cheio da moral, mas teve um fim de semana difícil. No treino oficial, não muito depois de fazer o segundo melhor tempo, estampou o carro na barreira de pneus e destruiu todo o lado direito. Os mecânicos adoraram, mas não.

Ainda assim, Enge estava de boa e até foi cumprimentar o pole e rival Sébastien Bourdais no grid de largada. O francês não retribuiu bem a gentileza. Após tracionar mal, Bourdais perdeu a liderança para Enge, mas resolveu não frear na ingrata primeira curva e acertou a traseira do carro vermelho do piloto tcheco. A lateral do aerofólio traseiro de Tomas Enge ficou danificada e boa parte da aderência de seu Lola-Zytek foi para o saco no ato. No decorrer da corrida, ele perdeu posições e só conseguiu terminar em quarto. Mesmo assim, manteve-se dentro da briga direta pelo título. Até Monza.

Não faço a menor ideia do que será de Tomas Enge, mas sei que ele poderia ter sido um grande piloto de Fórmula 1 se tivesse tomado cuidado com a questão da maconha. No caso atual, prefiro esperar que ele realmente esteja certo e a substância em questão seja um inofensivo medicamento. Só que vocês conhecem a história do gato escaldado. Enge está marcado para sempre na história do automobilismo. Como um peixe que caiu na rede do antidoping duas vezes.

Um último recado: Rubinho, apertar uma narina e soltar o ar com a outra também serve pra tirar meleca do nariz e descongestionar as vias.

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