Daniil Kvyat, o novo garoto de ouro da Toro Rosso. Mas até quando?

Daniil Kvyat, o novo garoto de ouro da Toro Rosso. Mas até quando?

Apesar de tudo, da estreiteza dos regulamentos, da palavra fria dos contratos, do amontoado de dinheiro envolvido, a Fórmula 1 ainda é uma caixinha de surpresas, uma ciência mais humana do que exata. Quando todos nós imaginávamos que a categoria já não era mais capaz de pregar peças ou assustar ninguém, especialmente após o bizarro anúncio de Sergey Sirotkin como um dos pilotos da Sauber em 2014, eis que a Toro Rosso contraria a lógica e faz outro anúncio bombástico. Outro anúncio regado à vodca.

Qualquer pessoa com um mínimo de sensatez e conhecimento sobre automobilismo sabe que Daniel Ricciardo, um dos pilotos da Toro Rosso nesse ano, foi promovido à Red Bull e finalmente pilotará um carro que presta em 2014. Qualquer pessoa com um mínimo de sensatez e conhecimento sobre automobilismo imaginava sem muita imaginação que havia apenas um candidato óbvio à vaga de Ricciardo, o lusitano António Félix da Costa. Destaque do automobilismo de base em 2012, Félix da Costa vinha tendo uma temporada abaixo da média na World Series by Renault e não passou nem perto do título. Ainda assim, nenhum outro piloto do programa de desenvolvimento da Red Bull tinha o mesmo nível de experiência e o mesmo gabarito que o ibérico. Só uma distorção espaço-tempo mudaria o destino claro.

Distorções espaço-tempo podem não ser comuns como congressistas sul-coreanos brigando ou acidentes de Robert Kubica, mas acontecem.

Na noite de segunda-feira, a Toro Rosso anunciou o nome do companheiro do francês Jean-Éric Vergne em 2014. Atum Gomes da Costa? Não. Para júbilo de alguns soviéticos ultranacionalistas e estupor de muitos, o escolhido para a função foi o russo Daniil Kvyat, de apenas 19 anos de idade. Quivi o quê?

Kvyat. Ou “Kuiát” para os mais chegados. A maioria dos fãs de automobilismo nunca ouviu falar de alguém mais gordo, mesmo os loucos que acompanham as corridas a ponto de trocar uma bebedeira por um GP da Coréia – felizmente, já passei dessa fase. Apenas aqueles que também se dão ao trabalho de acompanhar as categorias mais baixas do automobilismo europeu poderão reconhecer esse nome, “Kuiát”.

Em teoria, Daniil Kvyat era o terceiro nome na sucessão rubrotaurina das categorias de base. Pirralho de tudo, ele está disputando sua primeira temporada na GP3 Series, aquela que antecede até mesmo a GP2. No ano passado, “Kuiát” ainda estava acumulando pentelhos nos carros de apenas 190cv da Fórmula Renault Eurocup 2.0. Por conta de sua pouquíssima quilometragem, o russo era visto como um nome menos proeminente para a Red Bull do que António Félix da Costa, até então bradado como o principal representante da marca nas categorias menores, e Carlos Sainz Jr., que é um pouco mais experiente e ainda tem um sobrenome mais significativo – todo mundo aqui sabe quem foi Carlos Sainz, não é?

Kvyat na GP3, onde é o atual vice-líder

Kvyat na GP3, onde é o atual vice-líder

Mas Kvyat passou a perna nos dois queridinhos e acabou roubando a vaga que pertencia a Félix da Costa. Por que isso aconteceu? Você sempre pode comprar a resposta mais fácil e pasteurizada, aquela que é dada em “caráter oficial”. O consultor Helmut Marko, encarregado de enxergar talentos que poderiam pilotar um carro da Red Bull no futuro, afirmou que Kvyat foi o escolhido por ser um cara “dotado de velocidade estonteante, capacidade de se manter calmo e de controlar os nervos” e “melhor preparado do que os demais concorrentes”. Franz Tost, chefe da Toro Rosso, explicou que “Kvyat nos impressionou com suas performances na Fórmula 3 Euroseries e na GP3, enquanto que Da Costa não mostrou consistência na World Series by Renault”. Ou seja, as declarações públicas de Tost e Marko dão conta de que o critério de escolha foi puramente meritocrático. Daniil foi o contemplado porque é melhor do que os demais e acabou.

Se o leitor é do tipo que acha que assunções feitas em caráter oficial são as únicas que valem, tudo bem. Mas a chance de você estar sendo inocente é, por assim dizer, gritante. Lógico que o critério não foi esportivo. Há grana por trás. Bufunfa. Din-din. Rublos, muitos rublos.

Boatos preliminares afirmam que um amontoado de dinheiro russo garantirá a estreia do garoto loiro, espinhento e de dentição equina em 2014. Essa bolada seria estimada em dezenas de milhões de dólares e já foi associada a grandes empresas russas como o banco SMP e a petrolífera estatal Lukoil. Como dinheiro sempre é bem-vindo em um ambiente capitalista, elitista, reacionário, tucano e malvado como a Fórmula 1, lógico que uma equipe cujo orçamento é 60% menor que o da própria Red Bull Racing não dispensaria um influxo tão valioso. Mal comparando, o que Daniil Kvyat fez foi comprar o direito de passar à frente de centenas de milhares de pessoas na fila por um transplante de fígado no SUS.

OK, estamos falando de mais um piloto pagante nascido em terras czaristas. Mas seria ele braço-duro?

Muita calma nessa hora. Nesse momento, a única coisa que dá para dizer sobre Daniil Kvyat é que seu currículo é realmente muito interessante para um sujeito sem experiência. Ele ganhou uns bons títulos de kart entre 2008 e 2009, venceu corridas na Fórmula BMW do Pacífico logo em seu primeiro ano nos monopostos e obteve o vice-campeonato da Fórmula Renault Norte-Europeia em 2011 e da Fórmula Renault Eurocup no ano passado. Nesse ano, Daniil venceu as Feature Races de Spa-Francorchamps e Monza na GP3, marcando 71 pontos nas últimas quatro corridas e saltando da oitava para a vice-liderança do campeonato. Faltando apenas a rodada dupla de Yas Marina para a decisão do título, o soviético está a sete pontos do líder Facu Regalia. Como minha formação moral e meus princípios me impedem de aceitar que um sujeito com o apelido de “Facu” tenha sucesso na vida, torço desde já por “Kuiát”.

Vale dizer o seguinte: um currículo interessante não necessariamente é um currículo brilhante. “Interessante”, aliás, é um adjetivo que costuma ser utilizado como eufemismo para algo nota 7. O currículo de Kvyat é bom, mas não muito melhor do que o de vários contemporâneos seus. Um bom exemplo é o seu xará alemão Daniel Abt, que anda lamuriando bastante na GP2. Além do nome quase igual, Abt também compartilha com o russo o desempenho na GP3: o germânico fez sua estreia em 2012, não foi tão bem no início do ano e se recuperou de forma sensacional no segundo semestre ao vencer as Feature Races de Spa-Francorchamps e Monza, exatamente como Kvyat. Terminou como vice-campeão e ganhou de presente a promoção para a GP2, onde está sofrendo como um iemenita sem água encanada.

Quer dizer, não há nenhum enorme diferencial no currículo de Kvyat. Algo que não pegou bem a ele foi ter perdido o título da Fórmula Renault Euroseries no ano passado. Daniil iniciou 2012 como o grande favorito ao caneco: já tinha um ano de experiência na categoria, competia pela poderosa Koiranen Bros e tinha todo o apoio da Red Bull. Mesmo tendo vencido sete corridas na temporada, o russo sucumbiu à consistência cirúrgica do belga Stoffel Vandoorne, que levou o campeonato mesmo com apenas quatro vitórias.

Kimi Räikkönen fazendo seus primeiros testes com a Sauber no final de 2000: ele também estreou jovem e sem experiência, mas os tempos eram outros...

Kimi Räikkönen fazendo seus primeiros testes com a Sauber no final de 2000: ele também estreou jovem e sem experiência, mas os tempos eram outros…

Se talento fosse o único critério relevado pela Toro Rosso, então faria muito mais sentido promover alguém como Vandoorne, a grande revelação da World Series by Renault nesse ano. Outros nomes muito mais interessantes são os de Felipe Nasr, James Calado, Robin Frijns ou Kevin Magnussen, para não citar o próprio Félix da Costa. Todos esses nomes ainda ostentam sucessos bem mais interessantes do que o russo. Mas as coisas não funcionam assim.

Kvyat certamente é um piloto com potencial, mas sua promoção súbita à Fórmula 1 não faz o menor sentido do ponto de vista esportivo. Em termos ideais, ao invés de apressar sua estreia, a Red Bull deveria tê-lo mandado correr de World Series, GP2, AutoGP, velocípede, Stock Car Brasil, qualquer coisa que lhe permitisse amadurecer um pouco mais. Aos 19 anos, a chance do adolescente se deslumbrar com a coisa, fazer merda atrás de merda e encerrar a carreira antes mesmo dela deslanchar é grande.

“Ah, e o Kimi?!”, pergunta um. “E o Jenson?!”, indaga outro. Calma, galera. Em primeiro lugar, estamos falando de outros tempos. O pinguço Kimi Räikkönen foi anunciado como piloto oficial da Sauber no fim de outubro de 2000, há exatos 13 anos. Até então, ele tinha feito apenas 23 corridas de Fórmula Renault e Fórmula Ford. Convencido pelo empresário Steve Robertson, o suíço Peter Sauber aceitou conceder àquele finlandês esquisito e antissocial umas voltinhas em seu carro azulado na pista de Mugello no outono de 2000. Kimi mandou tão bem no teste que Sauber irresponsavelmente decidiu contratá-lo como piloto titular para a temporada de 2001. Nunca antes na história da Suíça uma equipe de Fórmula 1 havia contratado alguém que vinha de uma categoria tão baixa.

Só que Räikkönen teve, antes de sua estreia no GP da Austrália de 2001, um verdadeiro curso intensivo de Fórmula 1. Em três meses de pré-temporada, Kimi completou quase mil voltas e 4.200 quilômetros de testes em cinco circuitos na Europa. Ao chegar em Melbourne, ele já sabia tudo de carro de corrida, estava pronto para chutar bundas. Mais de uma década depois, as coisas não continuaram tão fáceis assim para um estreante. O mexicano Esteban Gutiérrez, por exemplo, fez apenas 2.768 quilômetros na pré-temporada. É um buraco que, sim, faz muita diferença.

Outra coisa: Räikkönen foi uma clara aposta de risco, uma coisa de maluco. O ceticismo era tamanho que a própria FIA relutou muito em conceder uma superlicença a um cara que nunca sequer tinha entrado em um carro de Fórmula 3 antes. Depois de muito cafezinho e fondue com os homens da Federação, Peter Sauber conseguiu uma superlicença válida por apenas quatro corridas para Kimi. Se ele não fizesse nenhuma besteira nesse período, poderia renová-la por mais um ano. Caso contrário, seria expulso sumariamente e só voltaria à Fórmula 1 no dia em que tivesse barba e barriga.

Contrariando todas as possibilidades, Kimi mandou muito bem. Tão bem que, no final do ano, seu passe já estava sendo disputado a pontapés por McLaren e Ferrari. Hoje em dia, o cara é um dos astros do automobilismo. Mas é bom que você saiba que tudo isso se trata de um caso excepcional. Os deuses do esporte a motor juntaram um piloto de talento absurdo, um empresário esperto, um chefe de equipe bacana, um dos melhores carros de Fórmula 1 já produzidos pela Sauber e um bocado de sorte. Esse tipo de combinação não acontece todo dia. Talvez nunca mais.

Jaime Alguersuari, que estreou bem cedo e... se fodeu

Jaime Alguersuari, que estreou bem cedo e… se fodeu

O curioso caso de Jenson Button é bem parecido. Anunciado pela Williams em janeiro de 2000 após um ano espetacular na Fórmula 3 britânica, o inglês completou quase 500 voltas em pistas como Barcelona, Silverstone e até mesmo Kyalami antes de disputar seu primeiro GP. Só não andou mais porque foi anunciado muito tardiamente. Em compensação, Jenson conseguiu fazer quase trinta dias de testes durante a temporada. Não por acaso, foi considerado por muitos um dos melhores pilotos daquele ano.

Räikkönen e Button estrearam em uma época mais farta, com testes a sair pelo ladrão, maior abundância financeira, equipes mais pacientes com seus novatos e uma mídia ainda não tão chata como a atual. Sem exagero algum, esses dois futuros campeões, mesmo sem experiência prévia relevante, enfrentaram obstáculos bem menos cruéis do que um campeão contemporâneo de GP2 como Pastor Maldonado e Romain Grosjean, caras que entraram na Fórmula 1 com pouquíssima quilometragem e uma carga hedionda de pressão em seus ombros. É por isso que a grande maioria dos estreantes dos últimos cinco anos não deu certo. É por isso que a tendência é que os novatos tenham cada vez menos perspectivas de longo prazo na Fórmula 1. É por isso que as equipes seguem insistindo em nomes como Mark Webber, Michael Schumacher e Pedro de la Rosa por tanto tempo. É por isso que a possibilidade de surgir um novo Kimi é cada vez mais baixa.

Aposta minha: Daniil Kvyat será um fracasso retumbante e desaparecerá da Fórmula 1 em um ou dois anos. Vai apanhar feio de Jean-Éric Vergne desde o começo, não conseguirá recuperar muito terreno quando já tiver com as mãos um pouco mais calejadas e a trupe corneta de plantão, composta por jornalistas sanguinários e espectadores imbecilizados, não perderá tempo em botá-lo de ponta-cabeça na cruz. “Não deveriam deixar pilotos pagantes como esse Kvyat entrar na Fórmula 1”, “muito ruim!” e “volta pra Sibéria, comunista” serão algumas das belas e inteligentes palavras que você ouvirá a respeito nos próximos verões. Podem cobrar.

E se eu estiver errado, ficarei feliz e ainda pagarei uma rodada de suco de maracujá sem açúcar para a galera. Mas eu não estarei, para felicidade de quem odeia maracujá.

Outra pequena observação a ser feita é sobre a pressa da Red Bull. Não é a primeira vez que a fabricante de taquicardia enlatada lança uma cria prematura aos leões da Fórmula 1. Em 2009, morrendo de vontade de se ver livre do mala Sébastien Bourdais, a Toro Rosso promoveu no GP da Hungria a estreia de um garoto de 19 míseros anos de idade, o tal do Jaime Alguersuari. “DJ Squire”, como gosta de ser chamado nas baladinhas-coxinha de Ibiza, havia corrido na Fórmula Renault Eurocup em 2007 e sido campeão na Fórmula 3 britânica em 2008. No ano em que debutou na categoria máxima, Alguersuari estava fazendo uma temporada meia-boca na World Series by Renault.

Não foi uma passagem memorável. Alguersuari se notabilizou por ser uma verdadeira nulidade em treinos, mas um piloto razoavelmente competente em ritmo de corrida. Teve algumas atuações corretas, sobretudo em meados de 2011, mas não conseguiu encantar ninguém. Na Toro, queimou seu filme quando travou uma discussão daquelas com Helmut Marko durante os treinos do GP da Coréia de 2011. Saiu da equipe criticado por supostamente não ser um piloto “capaz de ganhar corridas e campeonatos”. Hoje, vive entre a música eletrônica e os testes para a Pirelli. Ou seja, permanece num estado de verdadeiro ócio psicológico.

Toro Rosso e Red Bull não admitem um piloto que seja pior do que esse cidadão aqui

Toro Rosso e Red Bull não admitem um piloto que seja pior do que esse cidadão aqui

Qual é a conclusão preliminar? Que o programa de desenvolvimento de pilotos da Red Bull é um troço ambíguo pra cacete. Ela te dá talvez o caminho para você ser o cara mais fodão das categorias de base, mas ao mesmo tempo oferece possivelmente a pior das oportunidades quando você entra na Fórmula 1. Então, ao mesmo tempo em que você é eternamente grato pelos taurinos por ter vencido tudo o que apareceu pela frente nas Fórmulas Renaults da vida sem ter desembolsado um tostão, você também reclama por ter sido cobrado de maneira irreal em relação ao material que te deram na Toro Rosso. E caso a parceria não dê certo, o único culpado é você mesmo. Aquele recorde de vitórias na Fórmula 3 ou na Fórmula Renault perde qualquer relevância diante da incapacidade de levar um STR-sei-lá-o-quê à vitória. Não é à toa que nomes como Felipe Nasr e Robin Frijns recusaram a tentadora proposta de vestir azul e amarelo.

A Red Bull precisou matar um monte de carreiras até chegar em Sebastian Vettel. Pelo visto, continuará matando até encontar um novo Vettel. Qualquer coisa abaixo disso é lixo, estrume, merda, não tem qualquer possibilidade dentro do idílico universo rubrotaurino. Alguersuari e Sébastien Buemi, que não são pilotos ruins, foram extirpados da Fórmula 1 ainda antes dos 25 anos de idade e hoje são poucos os que os defendem. É sempre mais fácil dizer que “ambos são ruins e ponto final”. Ou que “a Red Bull precisa de um cara realmente foda, um piloto bom não é o suficiente”. OK, tudo bem. O caso é que a estranha política motivacional da Toro Rosso e suas críticas públicas aos seus pilotos inviabilizam até mesmo que eles consigam vender seu peixe a outras equipes do meio do pelotão, onde poderiam fazer uma carreira mediana, porém sólida. Vitantonio Liuzzi, até aqui, foi o único que conseguiu emprego em outro lugar após a passagem pela Toro.

E esse negócio de querer apressar etapas obviamente não ajuda. Buemi e principalmente Alguersuari poderiam ter ficado um pouco mais de tempo nas categorias de base antes de subir para a Fórmula 1 – um pouco mais de quilometragem na GP2 ou na World Series by Renault não mata ninguém. Vergne está aí, não está agradando ninguém e precisará de uma cachoeira de sorte para conseguir subir para a Red Bull. Ricciardo, que também parecia não ter um futuro muito bonito, estava no lugar certo e no momento certo quando Mark Webber anunciou sua aposentadoria. Se o velho Mark quisesse continuar batendo ponto em Milton Keynes, Daniel também teria de rezar para não ver a carreira afundar antes de decolar.

Ou seja, todos eles entraram na Fórmula 1 muito cedo, assim como Kvyat. Se tivessem ficado um pouco mais nos certames inferiores, poderiam ter colecionado alguns triunfos a mais, acumulado mais experiência e acompanhado o mercado de pilotos com mais calma, sem essa noia de “estou no meu segundo ano de Toro Rosso, Franz Tost não me quer mais aqui, sou um pivete de 21 anos de idade, não tenho currículo, ninguém me ama e ninguém me quer”.

“Ah, mas deu certo com o Vettel”, argumentam alguns. Pô, estamos falando de um tetracampeão mundial, um dos melhores pilotos de todos os tempos da história desse troço de corrida de carro. Vettel, assim como Räikkönen, foi uma exceção. Uma exceção que ainda deu uma certa sorte de pilotar provavelmente o melhor carro da história da Toro Rosso, o STR3. O chassi não funcionou muito bem no primeiro semestre de 2008, mas melhorou de forma avassaladora no segundo semestre a ponto de ter colocado pelo menos um piloto entre os dez primeiros no grid de largada a partir do GP da Europa. A vitória do alemão em Monza não aconteceu por acaso: tínhamos ali um carro muito bom para aquela pista, um piloto fora-de-série e pista molhada. Até mesmo Sébastien Bourdais, o companheiro de Vettel, andou bem: foi o quarto colocado no grid e fez a segunda volta mais rápida na corrida. Quer dizer, a Toro Rosso não era uma coisa tão precária assim naquela ocasião. E mesmo em outras etapas daquele final de ano Vettel e Bourdais tiveram condições de trabalho que Buemi, Alguersuari, Liuzzi, Scott Speed, Ricciardo ou Vergne jamais poderiam imaginar.

Ninguém tem obrigação de ser Sebastian Vettel. Uma equipe que cobra que seus adolescentes sigam a trajetória de um alienígena que será tetracampeão mundial aos 26 anos definitivamente vive no mundo da Lua. Nada indica que as coisas sejam muito diferentes com o tal do Kvyat. A diferença é que ele provavelmente está pagando para isso. Pagar para ser açoitado. Um verdadeiro clube sadomasô.

O novo carro da GP3, que poderá fazer dela a melhor categoria-escola da Europa

O novo carro da GP3, que poderá fazer dela a melhor categoria-escola da Europa

Enquanto todos estão de olho em Barcelona ou Sebring, eu fico mais atento com o que se passa em Estoril. OK, não estou tão atento assim, pois tenho mais o que fazer. Acontece que é em Estoril que está ocorrendo o evento mais importante do automobilismo atualmente, os primeiros treinos oficiais da GP3 Series nesse ano.

GP3? Toma vergonha na cara, Verde! Fale de algo mais útil, sobre o efeito Coanda ou o ciclo de reprodução dos coalas. Como não entendo nada de física ou biologia, recuso a ordem e sigo falando de uma categoria que, confesso, nunca tinha dado muita bola até o ano passado. Hoje, observando as atividades lá em Portugal, o grupo de pilotos que está tomando parte delas, a estreia do novo carro, reflito por alguns milissegundos e tiro algumas conclusões inúteis para mim e interessantes para o futuro do automobilismo de base na Europa.

No início do ano passado, escrevi dois artigos (este e este) descrevendo o futuro negro que estava reservado à GP2 Series, ainda a principal categoria de base da Europa, e as possibilidades de crescimento da World Series by Renault, sua grande arquirrival. Naquele momento, enquanto a GP2 amargava uma fraquíssima lista de inscritos e dificuldades enormes para algumas equipes fecharem orçamentos, a World Series by Renault conseguia atrair uma leva de ótimos pilotos com uma receita que combinava um carro ainda muito bom e custos bem mais suaves. Como essa era uma tendência já observada em 2011, a previsão para os verões seguintes soava óbvia: a GP2 vai afundar e a World Series by Renault tomará seu lugar ao sol.

Passado um ano, a solidez e a certitude dessa lógica esmoreceram um pouco. Em termos de qualidade de pilotos, a distância entre GP2 e World Series by Renault caiu. Arriscaria dizer até mesmo que, em termos de qualidade de pilotos novatos, a primeira voltou a superar a segunda. Mas nenhuma delas está ganhando a guerra. Uma terceira adversária apareceu com força e, considerando o atual estágio das coisas, tem totais chances de se sair melhor. Essa é a GP3.

Falemos das duas maiores. A GP2 Series está com testes marcados para os próximos dias 26, 27 e 28 de fevereiro. Até aqui, há treze equipes, dezessete pilotos confirmados e nove vagas disponíveis. Ares ligeiramente mais sadios do que no ano anterior. A qualidade dos pilotos lá da frente, a princípio, é muito boa. Há bons pilotos experientes, como Marcus Ericsson, Fabio Leimer e Stefano Coletti. Há aqueles que não são gênios, mas também não fizeram um 2012 ruim, como Johnny Cecotto Jr. e Jolyon Palmer. Há um grupelho de pilotos de ótima qualidade que debutaram no ano passado, como Felipe Nasr, James Calado e Rio Haryanto. Há três estreantes excelentes, Mitch Evans, Daniel Abt e Adrian Quaife-Hobbs. Nada mal, por hora.

É óbvio que também há gente bem ruim, como Julián Leal, Daniel de Jöng, Simon Trummer e Jake Rosenzweig, mas se são eles os caras que têm dinheiro para comprar uma vaga na GP2, o que podemos fazer? O negócio é esperar que fiquem quietinhos lá no fim do pelotão e aguardar a chegada de novos bons nomes. E eles devem continuar vindo. O americano Alexander Rossi, de bom histórico na Fórmula BMW, na GP3 e na World Series by Renault, está na iminência de ser confirmado pela equipe júnior da Caterham. Outro astro do jardim de infância que pode estar chegando é ninguém menos que o holandês Robin Frijns, atual campeão da World Series by Renault. Diz a lenda que a Sauber está procurando um lugar para ele não ficar parado nesse ano.

Nada mal, mas dava para ser melhor. A GP2 já foi um celeiro inconteste dos melhores pilotos de base do automobilismo internacional. Se pensarmos que, num belo dia, Lewis Hamilton, Nelsinho Piquet, Timo Glock, Giorgio Pantano, Gianmaria Bruni, Vitaly Petrov, Lucas di Grassi, Ernesto Viso e Luca Filippi já fizeram parte de um mesmo grid, ter de ver um Jake Rosenzweig ocupando um carro bom como o da Addax é de doer o coração e o saco ao mesmo tempo. Todos nós sabemos o porquê disso acontecer.

A GP2 Series ainda é uma categoria excelente, mas gastar até 2,5 milhões de euros por um ano é inaceitável

A GP2 Series ainda é uma categoria excelente, mas gastar até 2,5 milhões de euros por um ano é inaceitável

Custos, custos e mais custos. As coisas estão diferentes dos tempos de Hamilton e Nelsinho. Em 2005, para correr na GP2, o sujeito precisava de não muito mais do que um milhão e pouquinho de euros para uma temporada com doze rodadas duplas. Esse valor simplesmente dobrou após sete anos: atualmente, dependendo da equipe, o cara pode ter de desembolsar até 2,5 milhão de euros, ou 3,3 milhões de dólares.

Quem são os culpados? A Dallara, certamente, é um deles. De três em três anos, ela desenvolve um novo carro para a categoria. Geralmente, esse novo carro não tem muitas diferenças em relação ao anterior, mas não há escolha: se a equipe quer continuar na GP2, deve adquiri-lo. E ele é caro pra chuchu, ainda que eu não tenha em mãos os valores exatos. A fabricante italiana é a única fornecedora de chassis e peças da categoria. O desenvolvimento paralelo é estritamente proibido. Portanto, os chefes de equipe – e os pilotos, em consequência – acabam se lascando com o monopólio.

Outro grande culpado é o calendário. Com a péssima situação econômica europeia, Bernie Ecclestone está transferindo sua amada Fórmula 1 para onde o arco-íris termina em um grande pote de ouro, isto é, para a Ásia. E como a GP2 segue incansavelmente os passos da categoria maior, ela se vê obrigada a visitar lugares exóticos como Kuala Lumpur e Cingapura. Essas viagens, obviamente, não custam barato.

No calendário dessa temporada, constam etapas na Malásia, no Bahrein, em Cingapura e nos Emirados Árabes Unidos. Cada saída da Europa custa, segundo o que apurei, pelo menos 120 mil euros apenas em traslado, fora os custos com hotéis, álcool e prostitutas. Nem sempre foi assim. Segundo o que encontrei, em 2005, as doze equipes da GP2 viajaram para o Bahrein com a organização custeando as despesas de viagem de dez membros de cada uma delas (os demais seriam responsabilidade da própria equipe) e os gastos com logística. A cortesia só acontecia porque a etapa barenita era a única fora da Europa naquela época. Graças a isso, não havia tanta neura com orçamentos de transporte.

Nesse ano, os custos para uma temporada completa estão um pouco menores, já que a atual geração do chassi Dallara está entrando em seu terceiro ano. Graças a isso, não necessariamente seremos obrigados a aturar bichos do naipe de Ricardo Teixeira e Giancarlo Serenelli. Mas isso também não significa que as coisas ficaram fáceis. A Ocean Racing Technology, de Tiago Monteiro, tomou um calote de seis milhões de euros do governo português e teve de desistir da GP2 nesse ano. Outra equipe que está com o sinal amarelo aceso é a tradicional iSport, campeã em 2007 com Timo Glock. Afogada em dívidas? Nada disso. Ela está com dificuldades de encontrar pilotos que consigam pagar os 2 milhões de euros cobrados por temporada. Sem patrocinadores próprios, a iSport não tem como seguir em frente se não arranjar uma dupla endinheirada.

A World Series by Renault teve um ano glorioso em 2012, muito embora a decisão do título tenha terminado num infeliz acidente entre Robin Frijns e Jules Bianchi em Barcelona. Cheia dos bons garotos e lembrada com carinho por alguns chefes de equipe da Fórmula 1, a categoria nunca esteve em uma fase tão boa. Esperava-se que, em 2013, viesse o golpe de misericórdia dela sobre a GP2. Mas pelo visto, não será dessa vez.

Até aqui, 23 das 26 vagas já estão ocupadas – ainda há uma na ISR e duas na novata Zeta Corse, cuja participação ainda não parece estar assegurada. O fato de ainda haver muito mais vagas disponíveis na GP2 do que na World Series by Renault mesmo esta iniciando sua temporada duas semanas mais tarde é curioso, mas não surpreendente. As equipes da WSbR têm muito mais facilidade para fechar seus orçamentos do que as da GP2. As cifras pedidas são bem menores.

A World Series by Renault teve um ano ótimo em 2012, mas ainda não é mais vantajosa que a GP2

A World Series by Renault teve um ano ótimo em 2012, mas ainda não é mais vantajosa que a GP2

Para correr numa equipe de ponta da World Series by Renault, uma Tech1 ou uma Carlin da vida, é necessário desembolsar não mais do que 1 milhão de euros, quantia até 60% menor do que pedem na GP2. Esse valor aí é equivalente ao que a própria GP2 pedia em seus primeiros anos. Se a situação de 2006 fosse igual à de hoje, pilotos sem tantos recursos como Timo Glock ou Lucas di Grassi certamente teriam optado pela World Series by Renault.

Mas se a grana pedida é bem menor, por que a categoria ainda não conseguiu derrotar a GP2? Observemos o grid. Os maiores astros dessa temporada pertencem justamente à turma dos experientes: António Félix da Costa, Mikhail Aleshin, Kevin Magnussen, Arthur Pic, Marco Sorensen e Nico Müller. Em relação aos estreantes, é óbvio que há gente muito boa, como o belga Stoffel Vandoorne (campeão da Fórmula Renault Euroseries e novo apadrinhado da McLaren), o holandês Nigel Melker (ex-GP2) e o russo Sergey Sirotkin, mas a impressão que fica é que o estrondo de 2012 certamente não se repetirá nesse ano.

Há muita gente comum aí no meio. Gente comum que, assim como na GP2, só está lá por causa do dinheiro. Pietro Fantin, Yann Cunha, André Negrão, Will Stevens, Zoel Amberg, Daniil Move, Nikolay Martsenko, Jazeman Jaafar, Carlos Huertas, Marlon Stöckinger… Esses daí, se estivessem na categoria rival, provavelmente adormeceriam nas últimas filas do grid. Para a World Series by Renault, uma razoável brochada em relação ao ano passado.

A verdade é que, custos à parte, a categoria ainda está longe de ser tão atraente como a GP2. Seu carro, ainda que tenha o mesmo chassi Dallara e o mesmo motor Renault da rival, não proporciona um aprendizado tão bom. Aerodinamicamente falando, ele está mais próximo de um carro de Fórmula 1 de 2008 do que dos bólidos contemporâneos. O motor é 80cv e 500rpm mais fraco que o da GP2. Os pneus feitos pela Michelin são muito mais duros do que os que a Pirelli faz para a Fórmula 1 e a GP2. Sua única vantagem era a presença do DRS, mas os Dallara da GP2 também terão esse nojento dispositivo em 2013.

Além do mais, a GP2 é bem mais interessante devido à sua grande proximidade esportiva e organizacional com a Fórmula 1. O paddock é o mesmo. A categoria sempre aproveita os eventos da irmã maior, buscando não competir em lugares que não servirão para nada para os jovens pilotos. E os veículos de mídia certamente se interessam muito mais por ela do que pela WSbR. As vantagens desta, como um número bem maior de testes e a entrada franca para vários de seus eventos, muitas vezes acabam não compensando.

Mas nenhum dos dois certames está num patamar ideal. Há uma categoria que combina muito bem um carro razoavelmente veloz, orçamento baixo e contato direto com a Fórmula 1. Essa, ao meu ver, se as coisas continuarem do jeito que estão, tem tudo para engolir a GP2 e a World Series by Renault tranquilamente. Com vocês, a GP3.

Parece estranho dizer que uma categoria que surgiu para rivalizar diretamente com a Fórmula 3 acabe canibalizando sua irmã maior e também possa derrotar a WSbR. Mas é a realidade. Nesse ano, a GP3 estreará um carro novo que será utilizado até 2015. OK, não é bem um novo carro, mas um belo upgrade em cima do carro anterior, que correu entre 2010 e 2012. Por uma quantia módica, as equipes levam suas velhas diligências à Dallara e a fabricante devolve carros com grandes atualizações aerodinâmicas que os aproximam dos foguetes da GP2 e um novo motor V6 com 400cv.

Valtteri Bottas, o primeiro grande teste da eficácia da GP3

Valtteri Bottas, o primeiro grande teste da eficácia da GP3

É uma tremenda cavalaria para uma categoria menor, não acha? O carro antigo da GP3 tinha 260cv e os bólidos da Fórmula 3 não ultrapassam os 200cv. Na verdade, o novo Dallara da GP3 está muito mais próximo dos carros da extinta Fórmula 3000, que rendiam 450cv. Ou até mesmo dos carros de Fórmula 1 do início dos anos 70, que também desenvolviam potência semelhante. Na verdade, até mesmo os carros contemporâneos da Fórmula 1 não estão tão distantes: em 2013, a distância entre eles e os pequeninos da GP3 será de apenas 400cv.

Em relação à World Series by Renault, o déficit é de apenas 130cv. Em se tratando de categorias cujo único propósito é o de ensinar um pirralho a se comportar em um monoposto, é uma diferença irrelevante. Some-se a isso algumas das vantagens da GP2, como o mesmo calendário europeu e o mesmo paddock da Fórmula 1, e temos uma categoria que acaba valendo mais a pena que a WSbR.

Racionalmente falando, a GP3 também dá uma surra na GP2 em termos de custo/benefício. As duas seguem a Fórmula 1 aonde ela for, mas a irmã menor faz isso com um orçamento muito mais baixo. Por apenas meio milhão de euros anuais, cerca de 25% do orçamento pedido da GP2, um piloto poderá fazer meia-dúzia de testes e dezesseis corridas com um carro bastante potente. No inviável automobilismo de hoje, um puta negócio.

Muita gente já percebeu isso. Se 2012 foi o ano da World Series by Renault, 2013 será o ano da GP3 Series. Até aqui, há nove equipes, vinte e sete carros e vinte pilotos confirmados. Entre eles, algumas surpresas muito positivas. O atual campeão da Fórmula 3 britânica, o bretão Jack Harvey, preferiu migrar para a GP3 ao invés de seguir para uma categoria mais cara. Os dois novos astros da Red Bull, o russo Daniil Kvyat e o espanhol Carlos Sainz Jr., também competirão por lá. Muitos acreditavam que Kvyat e Sainz Jr. correriam na WSbR nesse ano, mas a Red Bull deve ter percebido que a GP3 poderia ser bem mais vantajosa.

Outros nomes que valem boas menções são o argentino Eric Lichtenstein (olho nele!), o sueco Jimmy Eriksson, o suíço Alex Fontana e até mesmo dois bons egressos da World Series by Renault, o estoniano Kevin Korjus e o inglês Nick Yelloly. Eles se juntarão a ótimos garotos que já haviam competido no ano passado, como o finlandês Aaro Vainio, o helvético Patrick Niederhauser, o cipriota Tio Ellinas, o romeno Robert Visoiu e o italiano David Fumanelli. Todos eles valem uma bisbilhotada. Aposto cegamente em Ellinas, que fará um teste com a Marussia no final desse ano.

Outra coisa que vale menção aqui é a estreia de dois ex-campeões da GP3 na Fórmula 1 nesse ano. Esteban Gutiérrez, da Sauber, foi o primeiro campeão da história da categoria, em 2010. Valtteri Bottas, da Williams, papou o caneco no ano seguinte. Bottas, diga-se, não disputou mais nada depois da GP3. Será o primeiro piloto a fazer a transição direita para a categoria maior. Milhões de holofotes ficarão em cima do finlandês. Se o cara fizer seu trabalho direito, todo mundo olhará para a GP3 com bons olhos. Viu só? Ninguém precisa correr na GP2 ou na World Series by Renault para mandar bem na Fórmula 1…

E se todos realmente pensarem assim, as duas categorias aí estarão fritas e assadas. Tudo bem, não será a primeira vez e nem a última que um piloto saltará de uma categoria baixa diretamente para a Fórmula 1. Jenson Button e Kimi Räikkönen estão aí, felizes e ricos, para provar que nada é impossível. O caso é que os tempos estão difíceis. Ninguém tem 1 ou 2 milhões de euros para sair gastando com besteira. Seguir o caminho de Valtteri Bottas não parece uma má ideia. Com um carro muito mais rápido que o anterior e um orçamento ainda baixo, a GP3 pode virar um trampolinzinho para a Fórmula 1.

Lembrando que um trampolinzinho ainda é um trampolim. Só que mais barato.

GP DA ESPANHA: Depois de quatro corridas nos confins da humanidade, a Fórmula 1 retorna ao seu berço. Sim, porque a Europa é a Pasárgada do automobilismo, o lugar onde ainda há fãs de verdade, pilotos de verdade e pessoas realmente interessadas no esporte. Não há muito dinheiro por lá, reconheço. A Espanha, em especial, está afundada no desemprego e no caos social. Mais da metade dos jovens, como era o caso de Jaime Alguersuari até um tempinho atrás, sofre com o desemprego. Não serão muitos os que terão dinheiro para assistir à corrida de domingo. Talvez falte um pouco de ânimo, também. Espanhol papudo nenhum terá vontade de torrar valiosos euros para ver Fernando Alonso levando surra de vara de pilotos com carros melhores que o seu. E eles não são poucos, sabemos disso. Também não são multidões os que acham a corrida de Barcelona divertida. Pista estreita, curvas rápidas e curtas demais para carros com tanto downforce, desnível suave, uma chatice que só lá. Por isso que o GP da Espanha, até o dia em que Fernando Alonso apareceu ao mundo, era um dos que menos atraíam espectadores. Se o Cara-de-Pau das Astúrias largasse as corridas e virasse mágico, a Fórmula 1 na Ibéria falida simplesmente acabaria.

REVEZAMENTO: Sou totalmente disléxico com esta porra de palavra. Não foi apenas uma vez que eu digitei um “revesamento”. Até hoje, paro e penso se escrevi corretamente. É que nem paralisar. Em espanhol, é com “z”. Por isso, me embanano. Com “z” ou “s”, revezamento é exatamente o que passará a ocorrer com a Fórmula 1 na Espanha a partir do ano que vem. Sem dinheiro e com dois enormes pepinos deficitários nas mãos, os promotores das etapas de Barcelona e Valência decidiram alternar suas corridas a partir do ano que vem. A categoria passará a ter apenas um GP da Espanha, que será realizado em Barcelona em um ano, em Valência no ano seguinte e assim sucessivamente. Não vejo ninguém lamentando profundamente pela medida. Eu gosto de Valência, mas não a ponto de chorar durante um mês pela sua ausência. Chato, apenas, é o fato da Europa perder mais uma corrida. Bom pro Bernie Ecclestone, que poderá arranjar espaço para alguma corrida em algum país ainda mais micado que a Espanha.

HRT: A equipe mais grunge da Fórmula 1 está cheia de novidades. Novidades boas. Neste próximo fim de semana, o carro do velho Pedro de la Rosa estreará uma série de atualizações que inclui asa dianteira e traseira novas e um assoalho totalmente modificado. Uma boa surpresa para os céticos que acham que os espanhóis não têm dinheiro nem para pagar a conta de água. Mas não acaba aí. Há alguns dias, foi inaugurada a nova e sofisticada sede hispânica no complexo esportivo da Caja Mágica. Teve até visita do presidente e do vice-presidente da FIA, Jean Todt e Carlos Gracia respectivamente. Os ventos da mudança estão soprando tão forte que até mesmo um nomezinho novo deverá ser adotado. Porque HRT remete à Hispania, que tinha tudo a ver com o antigo dono, José Ramón Carabante. Um nome feio e sem sentido algum. Agora, Luis Pérez-Sala e companhia querem uma nova denominação a ser utilizada no futuro. Nessa onda revival que assolou o automobilismo, que tal Onyx Grand Prix? Conto com o bom senso de todos.

SCHUMACHER: O heptacampeão está furioso. Não com Rubens Barrichello, que continua falando suas bobagens às paredes. Seu grande motivo de incômodo neste início de temporada é o pneu Pirelli. Em entrevista à CNN, Michael afirmou que o desgaste de pneus italianos impede que os pilotos ou os carros sejam exigidos até o limite e que não dá para exigir demais dos compostos, pois não se chega a lugar algum. Ele ainda afirmou que pilotar com os Pirelli está sendo como “dirigir sobre ovos crus”, uma versão gastronômica do “dirigir sobre uma pista ensaboada”. A equipe Mercedes, por intermédio de Nick Fry, deu razão ao seu piloto. Como discordar? Schumacher, que já ganhou quase cem corridas na vida, sabe das coisas mais do que qualquer um ali no paddock. Se o pneu é ruim, ele é ruim e ponto final. Mas um pouco de ponderação também não mata criancinha africana nenhuma. A Pirelli realmente fez pneus que degradam facilmente porque era isso que FIA e Bernie Ecclestone queriam. Estes, por sua vez, argumentam que foi exatamente isso que o povo pediu. A Bridgestone costumava fazer compostos duríssimos, que permitiam que os pilotos andassem a mil o tempo todo e as corridas ficassem chatas de doer. Pneus frágeis tornam as corridas mais movimentadas, o que não é ruim. Todos nós sabemos, além de tudo, que os carros prateados da Mercedes gastam mais borracha que a média. Mas isso daí é culpa do Ross Brawn, que sequer foi à Espanha porque está com caganeira. Se Michael e Nico Rosberg não tivessem problemas com desgaste, nenhum deles estaria reclamando da Pirelli. Pilotos são assim mesmo, só se incomodam com algo quando a água encosta na bunda.

GP3: Começa neste fim de semana uma das categorias mais inúteis do planeta. A GP3 não tem mais história que a Fórmula 3, não é mais barata que a Fórmula 2 e também não é mais eficiente para mandar jovens talentos à GP2 do que a World Series by Renault ou até mesmo a AutoGP. Sua única vantagem é tão somente acompanhar o paddock da Fórmula 1 e da GP2, o que em muitos casos nem é tão vantajoso assim, pois as limitações de calendário e horários acabam sendo terríveis. Vinte e seis pilotos tentarão as vitórias nas duas corridas realizadas em Barcelona. Poucos aí no meio valem a pena. Entre os pilotos de maior talento, temos Mitch Evans, Conor Daly, Antônio Félix da Costa, Kevin Ceccon, Tio Ellinas, William Buller e só. Há um brasileiro, Fabiano Machado, que não foi bem nos testes de pré-temporada e brigará no máximo por alguns pontinhos. Por isso que o melhor a se fazer é acompanhar Vicky Piria e Carmen Jordá. Não andam nada, mas quem está interessado nelas pilotando?

No pódio, Lucas Foresti ri. Um salve a aqueles que não acreditavam nisso, como eu.

Esse negócio de escrever sobre esporte é algo engraçado. Jornalistas, blogueiros e gaiatos são aquelas pessoas razoavelmente cruéis e ávidas por notoriedade que buscam incansavelmente a opinião definitiva e os dividendos que ela traz, como a fama, o reconhecimento ou a capacidade de formar opinião. Sem grandes compromissos com a responsabilidade, com a ética ou até mesmo com a realidade, nós escrevemos besteiras a rodo e emitimos ideias como se nossos dedos fossem a verdadeira reserva moral e intelectual da humanidade contra os ignóbeis.

Em poucas palavras, falamos muita merda. No caso de quem comenta sobre automobilismo, a merda costuma ser ainda mais abundante e malcheirosa. Reputações são detonadas em uma única reportagem, picaretas são levados aos céus imediatamente após única grande atuação e competentes são miseravelmente enterrados a sete palmos após duas corridas ruins consecutivas. Todo mundo faz isso, especialmente eu. Pois bem, quero fazer meu mea culpa hoje. Retrato-me sobre o piloto brasileiro mais surpreendente no automobilismo estrangeiro.

Lucas Foresti, brasiliense de 19 anos, é o atual vice-líder da Fórmula 3 britânica. Com 121 pontos, ele já está a distantes 75 pontos do líder, o compatriota Felipe Nasr, mas tem dez pontos a mais que o malaio Jazeman Jaafar. Chama a atenção o fato de Foresti estar metido em uma panelinha da Carlin, a equipe dominante da Fórmula 3 britânica: ele é o único piloto entre os seis melhores que não corre pela escuderia de Trevor Carlin. Sua equipe é a Fortec, competente mas sem cacife para pelear pelo título.

Como dito acima, Foresti é o piloto brasileiro que mais me chamou a atenção pelo lado positivo neste ano até aqui. Ao contrário de Felipe Nasr, sempre reverenciado como um piloto promissor, Lucas iniciou a temporada 2011 naquela incômoda situação de piloto brasileiro sem expressão, sem muito dinheiro e sem moral. Em 2010, ele se arrastou na GP3 e na mesma Fórmula 3 britânica. Terminou o primeiro campeonato em 19º e o segundo em 13º.

E aí entra o que eu falei nos dois primeiros parágrafos. Na GP3, considerava Foresti o mais fraco entre os quatro brasileiros que competiram por lá em 2010. Acreditava que Leonardo Cordeiro, Pedro Nunes e principalmente Felipe Guimarães eram melhores. Na Fórmula 3, as transmissões só o mostravam errando ou saindo da pista. Na segunda corrida de Thruxton, ele conseguiu a segunda posição no grid e pulou para a ponta na largada, mas se envolveu em um acidente tão perigoso quanto besta com Felipe Nasr. Os dois tiveram culpa, mas na época eu nem me preocupei em estudar um pouco mais o assunto e fiz meu julgamento apenas com o que via nos replays de outros incidentes: a culpa era do Foresti e ponto final.

Foresti e seu carro atual, o Dallara da Fortec

Na verdade, nunca escrevi nada sobre ele aqui, já que nunca considerei que havia motivos para tal. Como vocês devem saber, tenho uma seção especial aqui (O Futuro já Começou) que comenta sobre os pilotos brasileiros com maior potencial no automobilismo de base. Além de Nasr, já falei do Razia, do Rafael Suzuki e do César Ramos. Tinha para mim que só valeria a pena escrever sobre quem aparentava ter algum potencial.  E para mim, o Foresti era só um piloto meia-boca sem futuro. Hoje, seria puro oportunismo de merda enterrar no rabo o que pensava sobre ele e escrever um perfil puxando seu saco vigorosamente. Preferi escrever um texto sobre ele e sobre injustiças cometidas por quem escreve.

Quinze corridas foram o suficiente para Lucas calar minha boca. Venceu três corridas de maneira absolutamente convincente até aqui. Em Outlon Park, fez uma pole-position fácil e enfiou 18 segundos no segundo colocado na bandeirada. Em Snetterton, aproveitou-se da regra de grid invertido para sair da ponta e vencer de maneira igualmente tranquila. Em Brands Hatch, sob chuva, ele saiu da quinta para a primeira posição após várias ultrapassagens e ainda decidiu permanecer na pista já seca com pneus de pista molhada. Vitória impressionante. Acabei tendo de rever alguns conceitos. Para alguém como eu, um sacrifício comparável a um tiro no saco.

Foresti está longe de brigar pelo título da Fórmula 3 neste ano, mas o que foi obtido até aqui já o credencia como um dos pilotos a serem observados pelo Brasil nos próximos anos. Se esta sua curva de melhora prosseguir desta maneira, não seria absurdo imaginá-lo na Fórmula 1 ou na Indy. Mas o que aconteceu em 2010 para sua fama ficar ruim? Analisando sua carreira por cima, dá pra ver que seus dois grandes problemas diziam respeito à falta de experiência e à repentina mudança de rumos na sua vida.

Foresti sempre gostou de velocidade – mais precisamente, de motos. Quando era criança, ganhou uma moto de 50cc para disputar campeonatos mirins de motocross. Embora ele tenha vencido vários campeonatos, um acidente em uma prova realizada em Acreúna (?!) resultou em um monte de ossos quebrados. A partir daí, a família começou a reprovar a brincadeira, mas Foresti decidiu seguir em frente.

Até 2006, tudo indicava que Foresti seguiria o pai, campeão de motocross de seu estado, e continuaria angariando troféus com duas rodas. Num belo dia, no entanto, Lucas descobre que seu tio tem um kart encostado em um galpão por aí. Pronto. O garoto decide trocar as motos pelo kart e, de cara, ganha uma saraivada de títulos no Centro-Oeste em apenas dois anos de carreira.

Em 2010, dificuldades na Fórmula 3 britânica...

Em 2008, o velho Amir Nasr decidiu dar uma mão ao jovem piloto e lhe emprestou um Dallara-Mugen para fazer alguns testes com um monoposto. Foresti completou mais de mil voltas conhecendo o carro e Amir considerou que ele estava pronto para subir para o automobilismo. No fim do ano, Nasr decidiu criar uma equipe para disputar a última rodada dupla da Fórmula BMW das Américas, realizada em Interlagos. A dupla, como não poderia deixar de ser, seria Felipe Nasr e Lucas Foresti. Brasília estava bem representada lá na corrida paulistana.

Foresti largou em nono e terminou em décimo nas duas provas. Não era lá um desempenho enormemente brilhante, mas estava bom para quem nunca havia disputado uma corrida de monoposto na vida. Depois disso, ele decidiu competir na Fórmula 3 sul-americana em 2009, mas como a Amir Nasr Racing não seguiria na categoria naquela temporada, Lucas teve de encontrar um espaço na Cesário Formula, a melhor equipe da história da Fórmula 3 no Brasil.

Tadinha da Fórmula 3 sul-americana, outrora grande e reluzente categoria. Com grids rondando inaceitáveis dez carros por corrida e divulgação zero, não dava para aprender muito por lá. Lucas Foresti terminou o ano em terceiro, tendo vencido uma corrida em Campo Grande. Sem muita paciência, ele decidiu dar um salto para a Europa.

Foi um processo turbulento e imperfeito. Lucas inicialmente havia assinado com a Hitech para correr na Fórmula 3 britânica, mas fez um teste na GP3 com a Carlin e acabou impressionando Trevor Carlin, que decidiu contratá-lo para correr nos dois campeonatos, a GP3 e a Fórmula 3 britânica. Imagine: quatro anos antes, correr de kart era algo tão inimaginável para Foresti quanto ir para Saturno. O que canso de falar sobre Bruno Senna vale para ele também: uma carreira tão atropelada costuma render mais problemas do que qualquer coisa.

A prioridade maior de Foresti era a Fórmula 3 – e isso explicaria o fato dele ter perdido as rodadas de Istambul e Hungaroring da GP3. Fazer dois campeonatos extremamente competitivos ao mesmo tempo acabou não sendo lá uma boa ideia. Na GP3, ele fez uma ótima segunda corrida em Barcelona, segurou os ataques dos badalados Jean-Eric Vergne e Esteban Gutierrez e terminou em uma boa segunda posição. Dali em diante, penou muito e não conseguiu marcar mais pontos. Terminou a temporada em 19º, com sete pontos. Até ficou na frente dos compatriotas Cordeiro e Nunes, mas não conseguiu deixar uma boa imagem por lá.

... e na GP3

Na Fórmula 3, que utilizava um carro menos potente e que tinha um ambiente menos competitivo e carregado, as coisas não foram muito melhores. Em trinta corridas, Lucas conseguiu um terceiro lugar em Silverstone como melhor resultado. Nas demais corridas, errou demais e não conseguiu andar rápido. Terminou o ano em 13º, com 45 pontos. Foi facilmente o pior dos seis pilotos da Carlin, algo que não pegou muito bem.

Automobilismo é uma coisa meio desagradável. Uma única temporada ruim pode fazer de um Ayrton Senna um sujeito lerdo, burro, bobo, feio e chato. Jornalistas e torcedores não se furtam em tecer comentários maldosos sobre pilotos que fracassam em determinado momento, praguejar contra a continuidade de suas carreiras e soltar pérolas como “nunca mais teremos um campeão do mundo”. Os pilotos acabam padecendo no paraíso: correm sob enorme pressão, sofrem todos os tipos de problemas, cobram-se muito, não podem dar-se o luxo de chorar no colo da namorada ou da mãe após uma má corrida e ainda borram as calças de medo de ficar sem dinheiro para seguir em frente. Do outro lado do oceano, instalados confortavelmente em nossas cadeiras giratórias, ignoramos todas as dificuldades pelas quais um cara desses passa e simplesmente dizemos idiotices ao alto de nossas vassouras.

E aí me retrato. Sempre falei mal de gente como Pedro Paulo Diniz e Bruno Senna, alegando que são caras que chegaram longe demais unicamente pelo dinheiro ou pelo nome e que eles não são tão talentosos quanto o povo gostaria. Eu posso até não estar errado, mas o que me garante que estou certo? O fato deles não terem sido brilhantes nas categorias de base não poderia significar que eles enfrentaram mais dificuldades do que outros pilotos que fizeram bonito nessa mesma fase, como um Antonio Pizzonia ou um Chico Serra?

A verdade é que, na esmagadora maioria das vezes, somos injustos com quem está pilotando a mais de 200km/h, tanto pelo bem como pelo mal. Nunca saberemos quem realmente merece nossos elogios mais rasgados e nossas críticas mais contundentes. No geral, todos que chegaram mais longe merecem nossos parabéns. E todos nós deveríamos dar uma segunda chance a um piloto. Ou uma terceira. Ou uma quarta. Nigel Mansell precisou de várias antes de se tornar campeão do mundo.

Por isso, confesso que achava o Lucas Foresti um mero almofadinha picareta que não chegaria a lugar algum e admito que estava totalmente errado. Mesmo que ele não consiga ir muito além do patamar atual, é um piloto que merece respeito e crédito. Para infelicidade de jornalistas oportunistas, torcedores corneteiros e experts de cadeira giratória como eu, até mesmo um backmarker da GP3 pode surpreender e trazer glórias para o Brasil.

Nürburgring, figurinha fácil em quase todos os calendários

Se eu fosse um jovem piloto que competisse em uma categoria de base, que sonhasse com a Fórmula 1 e que tivesse o máximo de dinheiro possível, faria de tudo para conhecer o máximo de pistas possível. Não, não iria querer ser um Luca Filippi, militante incansável de categorias menores. Faria, sim, de tudo para correr o máximo possível. Correria em carros-esporte, em protótipos, em GTs, em monopostos e, se sobrasse um tempo, em caminhões. Correria nos EUA, na América do Sul, na Ásia e na Europa. Correria em circuitos de rua, em circuitos permanentes e em ovais. A palavra de ordem, comigo, seria versatilidade.

No passado, era comum ver um número considerável de pilotos competindo em várias categorias ao mesmo tempo. O saudoso José Carlos Pace, por exemplo, arriscava o pescoço na Fórmula 1, no Mundial de Marcas e em corridas de turismo. Se havia um fim de semana disponível, lá estava o Moco competindo com seu célebre capacete preto com uma flecha amarela no topo. Mario Andretti e Graham Hill também eram assim, e me arrisco a dizer que são dois dos pilotos mais versáteis que o automobilismo já viu. Os três, além de terem contato com diferentes carros e adversários, conheciam um bom número de circuitos.

Mas os tempos mudaram. E cada macaco permaneceu naquele galho que lhe convinha mais. O aumento nos ganhos, a flexibilidade cada vez menor dos contratos e a intensificação da dedicação do piloto fizeram com que ele tivesse de se concentrar em uma única categoria. Casos como o de Sebastien Bourdais, que chegou a fazer Le Mans e Fórmula 1 em um mesmo ano, são cada vez mais incomuns, especialmente na Europa. Volto à primeira frase do texto. Se pudesse, eu disputaria o máximo de corridas para conhecer o maior número possível de pistas.

Só que, nos dias atuais, isso vem sendo cada vez mais difícil. Os pilotos estão menos versáteis e passam por cada vez menos categorias. Paradoxalmente, as categorias, que aumentam de número a cada ano que passa, diminuem cada vez mais a variedade de sua lista de autódromos. Os calendários das diversas categorias estão parecidíssimos.

Spa-Francorchamps: inegavelmente foda, mas precisa aparecer em tanto calendário?

É uma constatação que eu até já tinha feito antes, mas que só apareceu com força após escrever sobre a situação das diversas categorias de base em 2011. Acha que é só impressão? Vamos lá.

Comecemos com nossa querida Fórmula 1. Com 20 etapas no campeonato, dá pra encontrar de tudo. Temos provas na Oceania (Melbourne), na América do Sul (Interlagos) e na América do Norte (Montreal), mas são a Europa e a Ásia que dominam o calendário. O primeiro continente tem Barcelona, Mônaco, Valência, Silverstone, Nürburgring, Hungaroring, Spa-Francorchamps e Monza. Já a turma asiática contabiliza Sakhir, Sepang, Shanghai, Istambul, Marina Bay, Suzuka, Yeongam, Jaypee e Yas Marina, uma corrida a mais que os europeus, algo inimaginável há dez anos.

Falemos da GP2 e da GP3, agora. Nesse caso, devemos considerar que Bernie Ecclestone deliberadamente faz com que os dois campeonatos sigam a caravana da Fórmula 1 e, portanto, as nove pistas utilizadas por eles são as oito pistas europeias da categoria principal mais Istambul. O piloto que corre na GP2, portanto, encontrará as mesmas pistas na Fórmula 1. Em tempos mais remotos, a antiga Fórmula 3000 tinha formação mais pluralista, com etapas em pistas que a Fórmula 1 escarraria em cima: Enna-Pergusa, Pau, Vallelunga, Nogaro e Mugello são bons exemplos. Muita gente achava ruim, já que os pilotos chegavam à Fórmula 1 tendo de aprender quase todas as pistas. Mas será que correr em lugares como Pergusa ou Pau não dão uma formação complementar? Afinal, são desafios diferentes que demandam técnicas diferentes e experiência nunca é demais.

Mas e as categorias que não seguem diretamente a Fórmula 1? A Superleague também corre em Monza e Nürburgring, mas realiza etapas nos traçados chineses de Ordos e Pequim e passa por velhos rincões europeus, como Assen, Oschersleben e Zolder, além de pistas novinhas em folha como Algarve e Navarra. Para os padrões atuais, este é um calendário eclético, quase alternativo.

Hockenheim: traçado genérico para calendários genéricos

A AutoGP compete nas manjadas Monza, Zolder e Oschersleben. As novidades são as pistas de rua de Marrakech e Bucareste, além de Brno e Valência. Monza, Nürburgring, Barcelona, Silverstone e Spa-Francorchamps reaparecem no calendário da Fórmula 2, que corre também em Magny-Cours, Brands Hatch e Red Bull Ring. A World Series by Renault reutiliza Spa-Francorchamps, Monza, Mônaco, Nürburgring, Hungaroring, Silverstone e Barcelona, só trazendo de “novidades” as pistas de Aragón e Paul Ricard.

A Fórmula 3 Euroseries reaproveita Paul Ricard, Red Bull Ring, Nürburgring, Silverstone e Valência, trazendo também Hockenheim (duas rodadas duplas), Zandvoort e Norisring. O Europeu de Fórmula Renault traz Aragón, Spa-Francorchamps, Nürburgring, Hungaroring, Silverstone, Paul Ricard e Barcelona. Não há nenhuma pista exclusiva em seu calendário. O variado campeonato NEC de Fórmula Renault corre em Hockenheim, Spa-Francorchamps, Nürburgring, Assen, Oschersleben, Zandvoort e Monza, trazendo de novo as pistas de Dijon e Most.

Vamos à matemática. Até agora, 43 pistas para dez campeonatos, sendo que só a Fórmula 1 congrega 20 dessas pistas. Com relação às outras nove categorias, o tamanho médio de seus calendários é de 8,4 rodadas. E a média de “pistas exclusivas”, aquelas que aparecem apenas em um único calendário é de 1,1 por calendário. Logo, para cada calendário de 8,4 pistas, 7,3 delas são recorrentes, aparecendo em ao menos outro calendário. Nürburgring aparece em oito calendários. Monza, em sete. Silverstone e Spa-Francorchamps, em seis. Barcelona, em cinco. A matemática é clara: os calendários das categorias europeias são enfadonhamente repetitivos.

Esse fenômeno pode ser tolerado em uma categoria de caráter continental, mas o que dizer dos campeonatos ditos “nacionais”? A Fórmula 3 britânica, que ganhou o status de internacional há alguns anos, reutiliza Monza, Paul-Ricard, Spa-Francorchamps, Nürburgring, Brands Hatch, Silverstone e Donington. Se quer alguma novidade, é bom você se satisfazer apenas com Outlon Park, Snetterton e Rockingham.

Monza: a Itália também emplaca sua pista em vários calendários

A Fórmula 3 alemã reutiliza Oschersleben, Zolder, Nürburgring, Assen (duas vezes), Red Bull Ring e Hockenheim, e só Sachsenring e Lausitzring são exclusivas. O novo campeonato internacional de Fórmula 3 da FIA tem as conhecidas pistas de Hockenheim, Spa-Francorchamps, Zandvoort e Yeongam, trazendo apenas Pau e a exclusivíssima Macau de diferente. A Fórmula 3 Open, antiga Fórmula 3 espanhola, corre em Valência, Magny-Cours, Spa-Francorchamps, Brands Harch, Algarve, Monza e Barcelona, além da solitariamente exclusiva Jerez. E a transgressora Fórmula 3 italiana é a mais inovadora: só reaproveita Monza e Spa-Francorchamps, competindo em Franciacorta, Misano, Imola, Adria, Vallelunga e Mugello.

Fora da Europa, as coisas não são muito diferentes. Na Ásia, com exceção do tradicional automobilismo japonês, o incipiente e profissionalizado automobilismo internacional vem buscando correr apenas nos locais mais bem-estruturados. E tome Sepang, Shanghai, Sentul, Dubai e Abu Dhabi. Nos EUA, locais como Laguna Seca, Sebring e Elkhart Lake são constantes em categorias de monopostos. E as coisas não mudam muito quando mudam os tipos de carro. A DTM não utiliza nenhuma pista diferente das que eu falei acima. O WTCC, campeonato mundial, compete na pista de rua de Porto e em Guangdong.

Muitos podem olhar pra todo esse parlatório e alegar que isso não é um fenômeno novo e que é impossível ter calendários muito diferentes entre si. Em termos, é verdade. Não dá pra ter calendários mirabolantes para vários campeonatos, tanto por não haver tantos circuitos para tal como por estes circuitos mais utilizados serem simplesmente melhores.  Mas a padronização sempre é chata. Os pilotos chegam todos à Fórmula 1 tendo competido e vencido nos mesmos circuitos.

Em tempos remotos, embora também houvesse pistas comuns nas diversas categorias, dava pra identificar campeonatos pelos seus calendários. A Fórmula 3 inglesa corria apenas em pistas inglesas (a prova de Spa era uma exceção, uma boa licença poética) como Snetterton, Thruxton e Outlon Park. A Fórmula 3 italiana se aventurava em Enna-Pergusa, Binetto, Magione, Misano e Mugello. A Fórmula 3 da França competia em lugares como Albi, Croix-en-Ternois, Dijon e Lédenon. Na Alemanha, corria-se em Sachsenring, Wunstorf, Diepholz e Avus. Cada escola automobilística era bastante distinta da outra. E mesmo as categorias internacionais, como a Fórmula 3000 e a Fórmula Opel, eram mais criativas. Esta última, por exemplo, corria em Luxemburgo, na Irlanda e até na Croácia.

Com o passar do tempo, algumas coisas começaram a mudar o panorama. A especulação imobiliária e os apelos dos ecochatos são dois dos bons motivos que decretaram o fim de alguns dos autódromos existentes até os anos 90. Além disso, a busca desenfreada pelo corte de custos fez com que o número de rodadas diminuísse muito. Surge, aí, o sistema de rodadas duplas. O piloto continua fazendo as mesmas 16 corridas, mas em apenas oito fins de semana. Com isso, não dá pra ter uma variedade menor de etapas. E a vida segue com aquele calendário default com Barcelona, Monza, Spa-Francorchamps, Nürburgring, Hockenheim, Magny-Cours, Valência e Silverstone. Nada contra essas pistas, muito pelo contrário. Mas um pouco de mudança não mata ninguém. Padronização enche o saco e qualquer coisa em excesso enche o saco, até mesmo o logo da Mercedes em Nürburgring ou as árvores de Spa-Francorchamps.

GP3: a caçulinha de Bernie Ecclestone

Com o excesso de categorias de base no cenário europeu, qualquer atrativo é atrativo. E uma categoria que surgiu em 2010 conseguiu se destacar exatamente por oferecer atrativos que as outras não conseguem. Essa foi a GP3, a caçulinha das categorias comandadas por Bernie Ecclestone.

A GP3 surgiu com a pouco nobre proposta de simplesmente derrotar a Fórmula 3 europeia. O objetivo de Bernie Ecclestone é monopolizar todo o caminho feito até a Fórmula 1. Tendo a moral, o dinheiro e os contatos que possui, bastava a ele criar um novo campeonato de baixo custo que acompanhasse os pomposos paddocks da Fórmula 1 e da GP2. Limpinha e organizadinha, a GP3 definiu que utilizaria um calendário quase igual ao da categoria imediatamente acima. E que teria apenas dez equipes, as melhores da Europa, com três pilotos para cada uma.

Aqueles tempos de categorias de base surgindo do nada e sem a menor base técnica, comercial e financeira, definitivamente, acabaram. Dentro de seus limites, a GP3 foi um sucesso em 2010. Teve grids cheios e corridas disputadíssimas. Faltou, apenas, um concorrente para o mexicano Esteban Gutierrez, que levou o título com um pé nas costas. Esteban venceu cinco corridas e marcou 17 pontos a mais que o canadense Robert Wickens, um dos destaques do ano. E também não dá pra contestar a qualidade dos demais adversários, sempre muito alta. Infelizmente, os brasileiros acabaram sofrendo com isso. O melhorzinho, como era esperado, foi Felipe Guimarães, que conseguiu um pódio e terminou o ano em 16°. Leonardo Cordeiro, Lucas Foresti e Pedro Nunes foram os demais tupiniquins.

Uma categoria certinha e profissional como a GP3 mexe seus pauzinhos com muita rapidez nessa pré-temporada. Hoje, a organização anunciou a primeira versão do calendário para 2011. Sem grandes surpresas, houve apenas uma mudança: a adição de uma rodada em Mônaco, ausente no ano passado. Ainda assim, há a necessidade de uma confirmação oficial. As equipes também estão correndo atrás de seus novos pupilos. A ART, campeã com Wickens, já montou seu “dream team”: terá os promissores James Calado e Valtteri Bottas. E Pedro Nunes, já que alguém precisa pagar as contas.

Nas outras equipes, com exceção das renovações de contrato do favoritíssimo Nico Müller com a Jenzer e de Nigel Melker com a Mücke, teremos muitas novidades. Simon Trummer largou a Jenzer e se bandeou para a MW Arden, equipe de Mark Webber e Christian Horner. E há muitos estreantes, como Will Stendl (Mücke), Nick Yelloly (ATECH), Marlon Stöckinger (ATECH) e Aaro Vainio (Tech 1). Os prognósticos para a GP3, nesse ano, são os mesmos do ano passado: ótimos. Tentarei acompanhar ao máximo a categoria em 2011.

F-3 britânica: cada vez mais internacional

Da Fórmula 3 britânica, eu tenho cacife para comentar. Vi a reprise de boa parte de suas etapas em 2010 nos meus recentes dias de férias e gostei bastante: carros velozes, pilotos competentes e ávidos pelo sucesso, pistas das mais divertidas da Europa. O domínio do francês Jean-Eric Vergne, com 13 vitórias em 30 corridas, foi tão assustador que eu até contestei a legalidade daquele Dallara-Volkswagen preparado pela Carlin e patrocinado pela Red Bull. Em saída de curva e nas retas, a superioridade do bólido de Jean-Eric era perceptível. Mas tudo bem. Vergne é dos bons.

2010 foi bom porque os estreantes deram show. Entre os cinco primeiros colocados, quatro deles eram calouros: além de Vergne, o vice James Calado, o terceiro colocado Oliver Webb e o quinto colocado Felipe Nasr. O melhor veterano foi outro brasileiro, Adriano Buzaid, o quarto colocado. Os brasileiros tiveram um bom ano de modo geral, mas demonstraram certa falta de calma e irregularidade em alguns momentos. Deve ser a juventude. Com exceção de Lucas Foresti, os garotos daqui demonstraram ter bastante potencial e, com boa orientação e sorte, poderão chegar longe.

Em 2011, as coisas deverão continuar positivas para o Brasil. Três nomes já foram anunciados até aqui. O brasiliense Felipe Nasr trocou a Double R pela favoritíssima Carlin e entra no campeonato como o favorito ao título. Além dele, dois estreantes: Pipo Derani corre pela mesma Double R e Yann Cunha, campeão da Fórmula 3 sul-americana, pela T-Sport. Entre os outros pilotos já confirmados, destacam-se o inglês com nacionalidade barenita Menasheh Idafar, campeão da National Class em 2010, os ingleses 100% from UK William Buller, Rupert Svendsen-Cook e Jack Harvey e o dinamarquês Kevin Magnussen, filho de Jan Magnussen.

Outras mudanças importantes já foram anunciadas. Os dois campeonatos da Fórmula 3 britânica serão renomeados, deixando de ser Championship Class e National Class para se tornarem International Class e Rookie Class, sendo que o campeão desta última receberá como prêmio uma temporada inteiramente paga na série International. Na terceira etapa de cada rodada, passará a ser obrigatória a parada de boxes para troca de, no mínimo, dois pneus. E o calendário continuará tendo dez rodadas triplas, com Monza, Nürburgring, Donington e Magny-Cours substituindo Thruxton, Hockenheim, Paul-Ricard e a rodada de Silverstone que utiliza o setor Bridge. A tendência da categoria é transferir cada vez mais etapas para pistas de outros países europeus. Não por acaso, o nome oficial da categoria é British F3 International Series.

AutoGP: aquela que quer se profissionalizar

Outra categoria que deve ter um 2011 razoável é a AutoGP. Esta daqui, que já teve muitas denominações, quer se consolidar como um porto seguro para pilotos que não conseguem encontrar vagas na Fórmula 1 e também como uma incubadora de talentos. Em 2010, a AutoGP conseguiu realizar um bom primeiro campeonato, apesar da descrença e do esquecimento por parte da mídia e da torcida. Os pilotos, que não eram muitos, utilizaram o antigo Lola-Zytek da A1GP, carro que tem poderosos 550cv de potência. Equipes como DAMS, Charouz, Supernova e Trident marcaram presença, além de pilotos do calibre de Luca Filippi, Giorgio Pantano, Esteban Guerrieri e Carlos Iaconelli. Ganhou Romain Grosjean, que participou de apenas quatro rodadas duplas, ganhou quatro corridas e fez 16 pontos a mais que o vice, Edoardo Piscopo.

Faltaram, como eu disse acima, uma maior atenção por parte da mídia e também um pouco mais de carros no grid. Em 2011, as coisas deverão melhorar um pouco. Três equipes novas, a Campos (sim, aquela…), a TP e a Edil Cris, já anunciaram participação com dois carros. Serão sete rodadas duplas, uma a mais que no ano passado, e a categoria substituirá a Fórmula 2 como parceira oficial do WTCC. Com isso, estreiam as etapas de Marrakech, Donington, Oschersleben, Bucareste e Valência e saem as de Imola, Spa-Francorchamps, Magny-Cours e Navarra.

Como a AutoGP tem como objetivo ser uma categoria profissional e, de certo modo, autossuficiente, ela tem alguns atrativos bem interessantes. O mais óbvio é a premiação em dinheiro, algo único no automobilismo de base. E que premiação! Nada menos do que 1,2 milhão de dólares será entregue ao campeão da categoria, um chamariz que atrai muita gente experiente, como Luca Filippi, que já confirmou que seguirá na categoria em 2011. Para dar mais identidade aos participantes, a organização já confirmou também que a escolha de números será livre por parte das equipes. Com exceção do número 1, reservado à equipe campeã, os demais poderão ser escolhidos livremente pelas demais participantes da maneira que convier. Se, por exemplo, a Charouz quiser usar o 2 e o 76, poderá fazê-lo perfeitamente. Achei legal. Confesso que torci o nariz para a AutoGP no ano passado, mas espero que a categoria dê certo nesse ano.

João Paulo de Oliveira na F-Nippon: brasileiro reina em categoria esquecida pelos ocidentais

Um dos leitores, o Zim, pediu pra que eu fizesse um comentário sobre a Fórmula Nippon. Reconheço que meu interesse, nesse sentido, sempre foi muito maior com relação à antiga Fórmula 3000 japonesa, aquela que abrigou Heinz-Harald Frentzen, Eddie Irvine, Johnny Herbert, Mika Salo, Jeff Krosnoff e demais dissidências ocidentais. Da atual F-Nippon, não sei muita coisa. Mas não há como não falar de João Paulo de Oliveira, o campeão da categoria no ano passado.

João Paulo é um daqueles talentos que um país civilizado teria muito orgulho de ter. No Brasil, foi o único piloto da história da Fórmula 3 sul-americana a fazer uma pole-position com um carro da categoria B, em 1999. Depois, com muitas dificuldades financeiras, conseguiu ganhar os títulos da Fórmula 3 alemã em 2003 e da Fórmula 3 japonesa em 2005. Mesmo assim, Oliveira nunca conseguiu chegar nem perto da GP2. A Williams lhe deu um teste no início de 2006 e só. Restou a JP fazer suas corridinhas no turismo japonês e na Fórmula Nippon para, ao menos, embolsar uns bons cobres. No SuperGT, foi o vice-campeão. E na Nippon, após vencer duas corridas, o brasileiro sagrou-se campeão com quatro pontos a mais que o experiente alemão Andre Lotterer.

No Japão, a Fórmula Nippon rende tanta audiência e dinheiro quanto a Fórmula 1, e seus pilotos são verdadeiros ídolos locais. Fora da ilha, a categoria só é vista por fanáticos patológicos do automobilismo alternativo. É uma pena, pois as pistas são muito boas, as corridas são divertidíssimas e os acidentes são uma atração à parte. O carro, um Swift-Toyota, é muito bonito e veloz. E há nomes conhecidos por lá, como o ex-GP2 Kohei Hirate e o folclórico Yuji Ide. Como um campeonato desses pode ser tão ignorado?

Em 2011, não haverá muitas mudanças. O calendário seguirá com as mesmas corridas, com a única diferença de que a etapa de Autopolis será a terceira e não mais a antepenúltima do campeonato. O número de carros não deverá mudar muito, mas comenta-se que o plantel de pilotos receberá uma estrela vinda da Europa: Kazuki Nakajima, ex-piloto da Williams, que já participou de testes coletivos com o Swift da equipe TOM’S. Em compensação, os poucos europeus que competem por lá não deverão seguir. O francês Loic Duval já anunciou que só correrá no SuperGT, o alemão Lotterer também não sabe se segue e o também francês Benoit Treluyer segue quieto, sem anunciar nada. Pelo visto, a Fórmula Nippon será bem nipônica em 2011.

E me recuso a falar da tal A10 World Series. Motivo? Olhem o site. Quem não sabe nem contratar um webdesigner decente não pode saber tocar uma categoria.

Espero falar sobre todas as categorias apresentadas aqui durante o ano, até porque a Fórmula 1, a Indy e a GP2 estão bem sonolentas na hora de render assunto…

Em um mundo que está de cabeça para baixo, a geografia de pilotos do automobilismo não poderia deixar de completamente bagunçada. Países outrora fornecedores viscerais de uma miríade de pilotos bons sofrem com um período de entressafra que parece nunca terminar. Por outro lado, alguns países que nunca tiveram lá grande tradição em lançar pilotos ao automobilismo de ponta decidiram por as manguinhas de fora para mostrar que não estão relegados ao eterno segundo plano. Enquanto França, Itália, Finlândia e Brasil parecem não ter lá grandes expectativas a médio prazo, dois países fazem a festa no automobilismo mundial. Um deles é a Austrália de Mark Webber, Will Power, Ryan Briscoe e Daniel Riccardo. Falo da ilha outro dia. O outro é, ¡caramba!, o México!

Pedro Rodriguez, o último mexicano a fazer algo de relevante na F1

No dia 11 de julho de 1971, um acidente com uma Ferrari 512M em uma etapa da Interseries realizada em Paul Ricard ceifava a vida daquele que foi o último mexicano a trazer alguma esperança para o país na Fórmula 1. Pedro Rodriguez, duas vitórias na Fórmula 1 e uma vitória indiscutível nas 24 Heures du Mans de 1968, era um dos pilotos mais aguerridos e versáteis de seu período. Nove anos antes, seu irmão Ricardo também havia falecido nos treinos para o GP do México. Após a ascensão e o sumiço dos hermanos Rodriguez, o país dos Astecas só conseguiu ser representado na categoria-máxima pelo saltimbanco Hector Rebaque, 10º colocado na temporada de 1981 a bordo de um Brabham-Ford.

Não que o país não tivesse pilotos. A Indy, por exemplo, recebeu vários deles: o pródigo Josele Garza, o combativo Adrian Fernandez, o injustiçado Michel Jourdain Jr, o picareta Mario Dominguez e alguns domingueiros como Jorge Goeters, Roberto Gonzalez e David Martinez. No Velho Continente, me lembro de Fernando Plata e Giovanni Aloi chegando a competir na Fórmula 3000 internacional em 1990. Restou a Plata prosseguir sua carreira no México e Aloi mudou de esporte, se tornando um conhecido toureiro. O mais próximo da Fórmula 1 que o país chegou foram alguns testes esparsos. Josele Garza pilotou um Minardi em 1988 e Mario Dominguez dirigiu um Jordan no fim de 2005. Além disso, Adrian Fernandez foi bastante sondado para correr na Tyrrell em 1998. Em todos esses casos, faltou um apoio de peso. Mas esse problema acabou, ao menos para alguns pilotos.

Todos que acompanham o automobilismo com alguma frequência já ouviram falar da Telmex, a maior empresa de telecomunicações do México. O CEO dessa empresa é Carlos Slim, dono de uma fortuna de 60 bilhões de dólares e, portanto, homem mais rico do mundo. Nos últimos anos, a Telmex vem empreendendo um plano de expansão internacional agressiva. Andou comprando operações da AT&T e Verizon em vários países latinos por aí e, no Brasil, comanda a Claro, a Embratel e a NET. Megalomaníaco, Slim quer fazer do nome da sua empresa algo conhecido e identificável por todos. Nada melhor, portanto, do que patrocinar alguns jovens talentos do automobilismo em suas empreitadas européias.

Dois nomes estão dando o que falar na Europa. O primeiro deles é Sergio Perez, um baixinho nascido em Guadalajara que está chamando a atenção de todo mundo na GP2. Quando ele estreou, no ano passado, confesso que não apostava um vintém nele. Afinal, além de correr na insuficiente Arden, Perez havia sido o quarto colocado na Fórmula 3 inglesa em 2008 e, na minha visão estreita, achava que os três primeiros obviamente tinham mais potencial. O que presenciei, no entanto, foi um garoto com cara tipicamente mexicana e exuberância incontida. A partir da corrida de Silverstone, na qual o filho da puta largou em último, passou quase todo mundo e terminou em quarto e colado na caixa de câmbio do terceiro colocado, virei torcedor.

Nesse ano, ele conseguiu pegar uma boa vaga na Barwa Addax e, com três vitórias, é o vice-líder da categoria. Sergio está 26 pontos atrás do líder Pastor Maldonado e dificilmente conseguirá alcançá-lo. No entanto, o que mais chama a atenção é a maneira na qual ele conseguiu as vitórias. Em Mônaco, sem muita cerimônia, tomou a ponta de Dani Clos na primeira curva. Em Silverstone, sem muita cerimônia, passou três pilotos nas cinco primeiras voltas e assumiu a liderança até o fim. Em Hockenheim, ele foi ainda mais impressionante e, saindo da sétima posição no grid, passou todo mundo e venceu também. O mexicano é o cara.

Sergio Perez. Seria ele o cara pra repetir o sucesso de Rodriguez?

Além de muito bom piloto, Sergio Perez é bastante endinheirado. Seu carro é coberto de patrocinadores importantes: além da Telmex, há também decalques da Lenovo e da Ericsson, duas multinacionais que apostam muito nele. A Virgin já demonstrou interesse em seu talento e em sua carteira. No entanto, o destino mais provável de Perez é a Sauber, equipe que precisa desesperadamente de dinheiro e que enxerga na Telmex uma possível parceria dessas de pintar o carro inteiro com as cores da empresa. Sem maiores incidentes, a ascensão de Sergio Perez à Fórmula 1 parece ser apenas uma questão de tempo.

O México pode até acabar batendo na trave da GP2, mas tudo indica que o país não perderá o título da GP3, aquela nova categoria do Bernie Ecclestone. Nascido em Monterrey e com 19 anos recém-completados, Esteban Gutierrez lidera o campeonato com 30 pontos de vantagem sobre o vice-líder Robert Wickens. Faltam apenas quatro corridas para o fim do campeonato e estão em disputa 40 pontos. Gutierrez só perde o título se decidir virar bailarino do Balé Bolshoi. Ele corre pela muito bem estruturada ART Grand Prix e já venceu quatro corridas. O provável título da GP3 será o segundo de sua carreira: em 2007, ele foi campeão da Fórmula BMW Européia com sete vitórias. Nunca o vi correr, mas pelo seu extenso histórico de vitórias, parece levar jeito para coisa.

Gutierrez ainda é um moleque e tem uma longa estrada pela frente. Ele já fez alguns testes pela BMW Sauber no final do ano passado e acabou assinando para ser terceiro piloto da Sauber, emprego mais inútil do que cabeleireiro para carecas. A equipe demonstrou muito interesse nele também, mas é muito improvável que Esteban suba diretamente para a Fórmula 1 em 2011. Eu consigo imaginar outro ano como enfeite da Sauber e como piloto da ART Grand Prix na GP2. Se o cara der certo por lá, a Fórmula 1 viria em 2012. Com o gordo patrocínio da Telmex, ele pode fazer o que quiser com bastante calma.

Com Perez e Gutierrez, o México pode vir a ser um dos países da velocidade em um futuro próximo. E, com certeza, não por causa do Ligeirinho.