janeiro 2014


Bertrand Gachot, Stefan Johansson e os carros que só melhoravam

Bertrand Gachot, Stefan Johansson e os carros que só melhoravam

Onze é a camisa do Romário e também o número de capítulos que escrevi até agora. Mesmo tendo tido vida curta na Fórmula 1, a mítica Onyx Grand Prix provavelmente baterá o recorde de atenção aqui nesse espaço. Calculo eu que passarei mais algumas boas semanas contando a historinha da equipe mais legal de todos os tempos no automobilismo. Pena para quem não gosta, pois é obrigado a procurar informações sobre Sebastian Vettel e o escambau em outros lugares, e pena também para o número de visitas desse blog, que cai em épocas de especiais. Mas e daí?

Estamos ainda no primeiro semestre de 1989. Nas três etapas iniciais daquele ano, a Onyx não conseguiu sequer passar pela porteira da pré-classificação, ficando totalmente alijada do direito de participar das corridas. Em Hermanos Rodriguez e em Phoenix, o sueco Stefan Johansson até arranjou um lugar para o ORE-1 anil, rosa e branco no grid de largada, mas não recebeu a bandeirada final em nenhuma das duas ocasiões. O carro realmente estava melhorando, mas ainda precisava de um gás a mais.

Depois da prova americana, o circo da Fórmula 1 tomou a estrada rumo à simpática cidade de Montreal, onde seria realizado o Grande Prêmio do Canadá. Como o caminho entre os estados do Arizona e de Québec era interminável, as equipes da categoria evidentemente não tiveram tempo para nada e os carros que correriam em Montreal seriam praticamente os mesmos daqueles de Phoenix.

Então vamos falar um pouco de pré-classificação. O belga Bertrand Gachot… Pois é, ele não se pré-qualificou novamente. Em seis tentativas, seis fracassos. Já estava ficando feio.

Como a pré-classificação era sempre a primeira atividade oficial de um Grande Prêmio, os treze pilotos que a disputavam eram obrigados a enfrentar uma pista em petição de miséria, completamente suja e escorregadia. Em Montreal, a situação era ainda pior porque o traçado não costumava ser utilizado em outras épocas do ano e o asfalto ainda sofria com a salinidade oriunda do Rio St. Lawrence e com as cacas que as gaivotas despejavam lá do alto. Em poucas palavras, os caras teriam de se virar em algo análogo a um rinque de patinação.

Gachot sabia que, na pista canadense, suas melhores chances residiam no uso dos pneus de classificação, que lhe garantiriam a aderência necessária para enfrentar as curvas mais difíceis. Ele equipou seu carro com os tais compostos, veio à pista e abriu uma volta rápida apenas para ver o suíço Gregor Foitek bater forte logo à sua frente. O sempre destrambelhado Foitek não havia percebido o perigo de um asfalto intransitável, perdeu o controle de seu já instável Eurobrun, acertou o muro e largou sua carroça estourada no meio da pista. Apenas alguns metros atrás, Bertrand teve de afundar o pé no freio e desviar dos destroços. A bandeira vermelha foi acionada e o belga da Onyx perdeu sua grande chance de fazer a volta salvadora. Com isso, seu melhor tempo acabou sendo apenas 1m25s952 e o piloto terminou a sessão apenas em sexto, fora da turma dos quatro pilotos que seguiriam adiante.

Stefan Johansson, sempre um bom aluno, teve mais sorte novamente. Seu grande problema na sessão foi a dificuldade em aquecer bem seus pneus Goodyear. Por conta disso, ele chegou a completar seis voltas consecutivas com os compostos de qualificação, que costumam durar apenas uma ou duas passagens em outras pistas. Fora isso, seu Onyx-Ford nº 36 não apresentou outros grandes problemas e o sueco conseguiu fazer 1m24s764, finalizando a pré-classificação na terceira posição e obtendo acesso liberado para o restante do fim de semana.

O problema é que as coisas até ficaram mais difíceis dali em diante. No primeiro treino livre, a Onyx não foi capaz de resolver as dificuldades de aquecimento de pneus e Stefan Johansson terminou a sessão apenas em 22º. À tarde, já na primeira classificação, outros problemas surgiram. Logo no começo, uma das válvulas do motor Ford Cosworth voou para longe e o sueco teve de retornar aos boxes às pressas para assumir o carro-reserva. O complicado da história é que este novo bólido tinha uma relação de marchas completamente diferente da do titular e Stefan demorou algum tempo até se acostumar.  Quando finalmente pegou a mão, ele enfrentou tráfego pesado justamente em suas melhores voltas e acabou perdendo muito tempo. Ainda assim, terminou a sexta-feira provisoriamente classificado na 18ª posição.

Stefan Johansson e sua mangueira de estimação

Stefan Johansson e sua mangueira de estimação

No treino livre da manhã de sábado, as picuinhas continuaram enlouquecendo Johansson. O carro titular apresentou um inédito radiador furado e o reserva teve uma série de pequenos problemas que comprometiam bastante seu desempenho. Stefan deu apenas dez voltas e ainda fez muito ao ficar em 16º.

No segundo e último treino classificatório, mais aborrecimentos. Quando ninguém esperava mais nada de novo, eis que a parte inferior da carroceria do Onyx-Ford se solta em plena volta rápida e ameaça cair no meio da pista. Stefan Johansson, que estava com o bólido titular equipado com pneus de corrida, retorna aos boxes com a carenagem raspando no asfalto, pula para o reserva e ordena a seus mecânicos para que instalem os bons compostos de classificação nele. Mas não acaba aí. A relação de marchas do carro-reserva continuava toda errada, Johansson voltou a errar várias mudanças e quase estourou o motor Cosworth em certos momentos. Com tudo isso, ele ainda conseguiu assegurar um lugar no grid de largada: o tempo de 1m23s979 marcado ainda na sexta-feira o colocou na 18ª posição da grelha.

Ufa. Participação confirmada, a Onyx só precisava garantir também que os problemas, erros, desgraças, tragédias, equívocos, enganos, desastres e idiotices da sexta-feira e do sábado não se repetissem na prova do domingo. Mas isso não aconteceu.

O início não foi tão ruim assim. A chuva havia empapado o asfalto logo antes da largada e os pilotos não sabiam se partiam com pneus de pista seca ou molhada. Alguns, perdidos da silva, não conseguiram evitar acidentes já na primeira volta. Por conta dos inúmeros abandonos, Stefan Johansson chegou a subir para 12º ainda nos primeiros metros. Na quarta passagem, percebendo que a pista estava secando muito rapidamente, o sueco decidiu entrar nos boxes para trocar seus pneus biscoito por slicks. A tragicomédia começou a partir daí.

Stefan parou e os mecânicos rapidamente executaram a troca. Até aí, tudo bem. O problema se iniciou quando o sueco tirou o pé do freio antes da hora e deixou o carro avançar, levando com ele nada menos que a mangueira de ar comprimido. No melhor estilo Felipe Massa em Cingapura, Johansson voltou à pista com uma verdadeira tromba de elefante grudada na parte traseira de seu Onyx.

Stefan retornou à ação sem perceber a burrada que tinha acabado de cometer. E seguiu em frente, desfilando com uma enlouquecida mangueira de ar como adorno. Os organizadores se assombraram com a cena e acionaram imediatamente a bandeira preta e laranja, aquela que obriga o piloto a retornar aos boxes para resolver algum problema técnico. Mas Johansson seguiu adiante e não obedeceu coisa alguma.

Ele só descobriu que havia algo muito de errado quando percebeu, em uma de suas passagens, a tal bandeira preta e laranja sendo balançada freneticamente em sua direção. E aí cabe a explicação que o próprio piloto deu após a prova: como a chuva forte havia voltado em poucas voltas, Stefan não estava conseguindo enxergar nada, nem a mangueira presa e nem as bandeiras agitadas. Ao perceber que a organização de prova e o mundo o estavam obrigando a retornar aos pits, Johansson não pensou duas vezes e acatou a ordem.

Mas já era tarde demais. Ele entrou nos boxes, teve a porcaria da mangueira retirada e voltou à corrida apenas para tomar uma vigorosa bandeira preta e ser desclassificado por desobediência. Stefan desceu do carro e foi se justificar aos organizadores com a desculpa da falta de visibilidade. Os caras aceitaram as explicações, mas não podiam voltar atrás. Johansson estava fora da prova mais uma vez.

Pode-se dizer, portanto, que houve um padrão bem estrito na temporada norte-americana da Onyx em 1989. Enquanto Bertrand Gachot não se pré-classificava em momento algum, Stefan Johansson não só superava a temida sessão como também garantia um lugar no grid de largada com alguma facilidade, embora jamais conseguisse chegar ao fim das corridas. Era hora de mudar esse script.

Bertrand Gachot fazendo sua primeira corrida na vida, o GP da França de 1989

Bertrand Gachot fazendo sua primeira corrida de Fórmula 1 na vida, o GP da França de 1989

Então vamos a Paul Ricard, tradicional palco do retorno da Fórmula 1 ao continente europeu.

Estava fazendo um calor desgraçado no sul da França, coisa opressiva, sinal do verão que havia acabado de começar. Os carros de F-1 costumam sofrer absurdamente nesse tipo de condição e poucos deles conseguem aguentar uma corrida de duas horas sem apresentar problemas. Para piorar, a pista de Paul Ricard era conhecida pelo seu asfalto extremamente abrasivo, devorador de pneus macios.  Isso era terrível para a Pirelli e ótimo para a Goodyear, fornecedora da Onyx.

A pré-classificação foi um pouco diferente do que vimos até aqui. Na verdade, ela foi é excepcional para a equipe de Mike Earle, que pode celebrar o sucesso de seus dois pilotos pela primeira vez no ano.

Foi um êxito suado. Logo no começo da sessão, um rolamento da roda traseira direita do carro de Bertrand Gachot escapou e deixou o piloto belga sem qualquer controle sobre sua máquina. Ele não conseguiu frear em uma daquelas malditas curvas lentas de Paul Ricard, passou reto rumo à caixa de brita e deu muita sorte de não bater. Em seguida, retornou à pista, voltou aos boxes devagarinho, saiu do cockpit e ficou esperando seu companheiro Stefan Johansson assegurar um tempo para depois assumir seu bólido.

A espera valeu a pena. Mesmo em um carro de acerto completamente diferente do anterior, Gachot conseguiu aproveitar bem o ótimo desempenho dos pneus de classificação da Goodyear em Paul Ricard e marcou uma excelente volta em 1m09s617. Esse tempo não só garantiu sua primeira pré-classificação em 1989 como também o permitiu terminar a sessão numa inédita primeira posição. A sexta-feira de manhã não poderia ter sido melhor para Bertrand.

Stefan Johansson também apresentou ótimo desempenho na sessão. Ele não colaborou muito nos primeiros minutos quando rodou sozinho com seu próprio carro titular e teve de utilizar o reserva – obrigando, assim, o próprio Gachot a esperar sua vez para pilotá-lo posteriormente – para ao menos tentar uma volta competitiva. O plano deu certo e o sueco conseguiu marcar 1m09s668, tempo que só viria a ser superado pelo seu companheiro belga. Com Bertrand em primeiro e Stefan em segundo, a Onyx não só garantiu seus dois carros nos treinos oficiais pela primeira vez como também conquistou sua primeira dobradinha. Num treino inútil, é verdade, mas já era melhor do que nada.

Foi tudo novo para Gachot, que pôde demonstrar felicidade aos jornalistas pela primeira vez no ano. Nos dois treinos de sexta-feira, ele só se preocupou em andar o máximo possível e, se possível, tentar garantir um lugar no grid de largada. Conseguiu ambos: acumulou quilometragem equivalente ao de uma corrida completa e fechou a primeira classificação em 16º, um posto à frente de Stefan Johansson. Vale dizer que o carro que Bertrand pilotou foi exatamente aquele que Johansson havia conduzido nas etapas anteriores e que estava sendo usado como reserva na França. Meio amargo, Stefan não escondia a inveja do bólido do companheiro: “Não me importaria se ele o devolvesse a mim!”.

Faz sentido. O sueco teve problemas de sobreesterço que, segundo o próprio, “eram muito piores do que aquele carro reserva que está com o Gachot jamais teve”. Além do mais, ele foi claramente atrapalhado pelo Rial de Christian Danner, que rodou logo à sua frente e deixou um bocado de cascalho espalhado pela pista. Se não fosse por tudo isso, pela inflação e pela queda das ações da OGX, Stefan poderia ter obtido um resultado fantástico, quem sabe a primeira posição. Devaneio da cabeça dele, que fique claro.

Aí veio o sábado. As condições de pista melhoraram, o vento passou a soprar a favor, os carros certamente melhorariam seus tempos. O inspiradíssimo Bertrand Gachot finalmente encontrou um acerto perfeito para seu ORE-1, abusou do pedal do acelerador e marcou 1m09s122, o que lhe rendeu uma inacreditável 11ª posição no grid de largada. Em sua primeira corrida de Fórmula 1, o belga partiria da sexta fila, à frente de medalhões como Nelson Piquet, René Arnoux, Ivan Capelli e Eddie Cheever.

Mas quem fez a festa mesmo em Paul Ricard foi Johansson

Mas quem fez a festa mesmo em Paul Ricard foi Johansson

Stefan Johansson não conseguiu resolver seus problemas de sobreesterço, mas também se qualificou. O tempo de 1m09s299 lhe garantiu a 13ª posição no grid de largada, apenas duas atrás do companheiro Gachot. Pela primeira vez em sua curta história, a Onyx participaria de uma corrida de Fórmula 1 com dois carros. Largando de posições tão boas, Stefan e Bertrand acordaram no domingo sabendo que tinham boas chances de pontos.

E lá foram eles para o Grande Prêmio da França. Mas quase que tudo deu errado na largada.

Mauricio Gugelmin perdeu o ponto da freada e atropelou os carros de Gerhard Berger, Nigel Mansell e Thierry Boutsen na primeira curva, iniciando um dos acidentes mais artísticos da história da Fórmula 1. Com a confusão, os pilotos de trás se desesperaram, uns saíram para um lado, outros para outro, alguns bateram, todos enlouqueceram na busca pela sobrevivência.  Bertrand Gachot, que estava do lado de fora, se viu obrigado a passar reto para evitar o carro de Gugelmin, saiu pela caixa de brita e retornou atrás do pelotão lentamente. Stefan Johansson, em posição mais favorável, conseguiu escapar do bólido descontrolado de René Arnoux por questão de centímetros e desviou pela direita, cortando caminho pela brita e retornando à pista normalmente. Os dois Onyx sobreviveram, mas a bandeira vermelha foi acionada e o espetáculo teve de ser reiniciado.

Na segunda largada, tanto Gachot quanto Johansson pularam bem e subiram para a nona e a 11ª posição, respectivamente. O belga passou as primeiras 46 voltas à frente do sueco e chegou a ocupar a sexta posição por alguns instantes. Nos pit-stops, os mecânicos mantiveram a calma e fizeram um trabalho bastante decente com os dois pilotos. Tudo indicava que ao menos um carro da Onyx chegaria aos pontos. E esse carro provavelmente seria o de número 37.

Só que o destino não quis assim. Justamente no momento em que estava em sexto, Bertrand Gachot foi obrigado a entrar nos boxes para um pit-stop de emergência na volta 47. A bateria de seu Onyx-Ford havia pifado e Gachot só conseguiu chegar aos pits porque o problema se manifestou poucos metros antes. Os desolados mecânicos tiveram de abrir o bólido e trocar a bateria ferrada por uma nova. Essa operação, por mais rápida que tenha sido sua execução, lhe custou uma baciada de posições. Bertrand voltou à pista em 16º e teve de se conformar em finalizar a prova em 13º.

Em compensação, o sueco Stefan Johansson salvou as honras da casa. No início da corrida, por conta de um pedal de acelerador que teimava em emperrar, ele não conseguia se aproximar de seu companheiro de equipe. Mesmo assim, pilotando com calma e sem esforçar demais o carro, Johansson sobreviveu aos abandonos, ao fortíssimo calor de Paul Ricard e à histórica fragilidade de seu Onyx para completar sua primeira corrida naquele ano.

E o melhor: nos pontos. Stefan cruzou a linha de chegada numa excelente quinta posição, assegurando os dois primeiros pontinhos da Onyx em sua história. Com isso, a equipe saía do zero e começava a sonhar com sua saída definitiva da pré-classificação. Caso a Minardi não marcasse ao menos três pontos na corrida seguinte, o Grande Prêmio da Inglaterra, a escuderia italiana desceria e a Onyx subiria.

Como as chances disso acontecer eram praticamente nulas, o pessoal da equipe de Mike Earle e Jean-Pierre Van Rossem celebrou como se tivesse ganhado a final da Copa do Mundo. Uma escuderia que iniciou o ano com enormes dificuldades para fazer ao menos um carro funcionar já havia, em poucos meses, evoluído a ponto de se mostrar capaz de lutar por posições intermediárias e até pontos. Dali em diante, a Onyx só poderia seguir rumo ao estrelato. Quanto a Stefan Johansson, ele acabou ganhando um modesto presentinho pelo quinto lugar: uma Ferrari Testarossa que havia sido prometida pelo próprio Van Rossem ao primeiro piloto que fizesse pontos para sua equipe.

No capítulo seguinte, falo mais sobre essa evolução. Só termino com um conselho: nunca conte com os ovos antes da própria galinha.

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Sim, as coisas melhoraram!

Sim, as coisas melhoraram!

Chegamos à casa das dezenas. Esses especiais estão se tornando verdadeiras enciclopédias sobre o nada, sobre assuntos irrelevantes que só interessam a pessoas com gostos estranhos. Lamento apenas pela rede mundial de computadores, que é obrigada a armazenar em seus servidores inúmeros bytes de informações que não trarão benefícios concretos à humanidade. Eu poderia estar pesquisando a cura da diabetes, uma forma barata de dessalinizar a água do mar ou um meio de transmitir energia elétrica sem aqueles horrendos fios que cobrem nossas cidades. Ao invés disso, torro tempo escrevendo sobre a Onyx Grand Prix. Foda-se o resto.

No último capítulo, falei sobre os três primeiros GPs de Fórmula 1 que a Onyx tentou disputar em 1989. Em Jacarepaguá, quebrou a cara. Em Imola, também. Em Mônaco, idem. O sueco Stefan Johansson e o luxemburguês naturalizado belga Bertrand Gachot não conseguiram passar por nenhuma das sessões de pré-classificação até então realizadas. Apesar do seu ótimo potencial, o Onyx-Ford ORE-1 apresentou tantos defeitos e contratempos quanto qualquer porcaria feita por Eurobrun ou Coloni.

Mas as coisas mudaram. E em pouco tempo.

Logo após Mônaco, o circo da Fórmula 1 deu um pulo em Paul Ricard para realizar mais testes coletivos. Nesse teste, pela primeira vez a Onyx mostrou a que veio na categoria. Os carros de Johansson e Gachot foram enviados à pista com pneus Goodyear de classificação, decisão tomada com o intuito de verificar o real potencial com o bólido. Equipados com os compostos certos, Bertrand surpreendeu a todos marcando 1m08s2, o que o deixava atrás apenas de Alain Prost (1m05s19), Ayrton Senna (1m05s93) e Thierry Boutsen (1m06s42). Stefan também foi bem e ficou na sexta posição com o tempo de 1m08s82.

Depois do excelente resultado com pneus de classificação, a Onyx decidiu testar os ORE-1 com compostos de corrida. Mesmo inferiores, eles permitiram que tanto Bertrand Gachot como Stefan Johansson fizessem voltas em torno de 1m10s, o que ainda os posicionaria entre os quinze primeiros num total de 26 pilotos. Os dois pilotos respiraram aliviados e descobriram que aquele esguio e colorido monoposto não era tão ruim assim.

Após Paul Ricard, a Onyx alugou a pista de Silverstone para confirmar que os ótimos resultados lá na França não tinham sido apenas obra do acaso. Johansson e Gachot completaram, cada um, quinze voltas em cada um dos três carros que a equipe utilizaria na etapa seguinte, o Grande Prêmio do México. Os noventa giros ocorreram sem grandes transtornos e os caras puderam viajar para a América do Norte mais tranquilamente. “Tudo correu conforme os planos a partir de Paul Ricard, que foi a primeira vez em que nós testamos sem enfrentar chuva ou problemas persistentes. Estamos começando a conhecer o carro de verdade”, afirmou um exultante Mike Earle.

No México, Stefan Johansson se tornou o primeiro piloto a pré-classificar um Onyx

No México, Stefan Johansson se tornou o primeiro piloto a pré-classificar um Onyx

Vamos ao México, pois. Hermanos Rodriguez era uma pista bacana, rápida, encardida, poluída, toda cheia de ondulações, coisa para domadores de leão e estupradores. A curva Peraltada, inclinada e de raio variável, era considerada até mais perigosa e difícil que a Eau Rouge. A Onyx desembarcaria naquela pista sem nunca ter comido nachos na vida. Não sabiam seus integrantes o que estavam perdendo.

Comecemos falando do pobre Bertrand Gachot. Sua pré-classificação começou muitíssimo bem e terminou literalmente em lágrimas. Ciente da evolução de seu ORE-1, o belga optou por sair dos boxes nos primeiros minutos para tentar garantir um resultado bacana logo de cara. Ele preferiu utilizar pneus mais duros nessa primeira tentativa e guardar os compostos de qualificação para mais tarde. Com um carro que, segundo o próprio piloto, se comportava razoavelmente bem nas curvas lentas e muitíssimo bem nas rápidas, Gachot conseguiu marcar um bom tempo de 1m23s752 sem grandes apuros, garantindo-se provisoriamente entre os pré-classificados. Faltavam ainda 55 minutos para o fim da sessão e seus melhores pneus ainda não haviam sido utilizados.

Seguro de si, Bertrand retornou aos boxes e pediu para que seus mecânicos instalassem em seu bólido os tais compostos de classificação. Ao voltar à ação, o cara percebeu que, por incrível que pareça, os pneus mais macios haviam piorado muito o comportamento do Onyx-Ford nas curvas velozes. Ainda na volta de aquecimento, Gachot já estava praticamente sem estabilidade alguma ao passar pela Peraltada. Sua melhor volta nessa segunda tentativa havia sido apenas 1m24s1. Mesmo assim, ele ainda estava pré-classificado, embora Alex Caffi e a dupla da Brabham já tivessem estraçalhado seu tempo.

O golpe final veio de sua própria equipe. Faltando dez minutos para o fim da pré-classificação, Stefan Johansson conseguiu completar um giro em 1m23s288 e assumiu a quarta posição da sessão, empurrando o companheiro belga para o primeiro posto entre aqueles que não passariam para a próxima fase. Desesperado, Bertrand Gachot voltou à pista para uma última tentativa. Abriu volta rápida e até estava muito perto de recuperar sua vaga entre os pré-classificados, mas o pneu traseiro direito explodiu meio que do nada e o piloto teve de retornar aos boxes lentamente, abortando sua última chance e dando novamente adeus ao sonho de participar de uma corrida. Ao sair do carro, Gachot colocou as mãos no rosto e começou a chorar feito uma criança. Embora essa atitude seja mais típica de uma menina chiliquenta, entendo que perder a pré-classificação em questão de minutos deve ser realmente uma coisa bem desagradável.

Como ninguém aqui gosta de drama, então vamos contar um pouco sobre o bom fim de semana de Stefan Johansson. Comecemos pelo começo, a famigerada pré-classificação. O sueco também teve problemas com os pneus de classificação e, assim como Gachot, acabou marcando sua melhor volta com os compostos de corrida. Após passar quase cinquenta minutos atrás até mesmo do ridículo Eurobrun de Gregor Foitek, Johansson acertou a mão e fez o tempo de 1m23s288 que eu apresentei lá em cima. Esse tempo o colocou exatamente na quarta posição entre os treze participantes, quatro décimos mais lento que o Dallara de Alex Caffi e meio segundo mais veloz que o desafortunado Gachot. Pela primeira vez, a Onyx participaria dos treinos oficiais de Fórmula 1. Oba!

E também foi o primeiro a qualificar o carro para uma corrida

E também foi o primeiro a qualificar o carro para uma corrida

Todo empolgado, Johansson foi para seu primeiro treino livre de sexta-feira buscando principalmente a resolução da falta de aderência de seu ORE-1 em algumas curvas. O próprio sueco admitiu que poderia ter algo a ver com a poeira que costuma emporcalhar o asfalto, mas como isso é um problema que atinge todos os participantes, o negócio era tentar encontrar uma solução através da configuração da altura do bólido, algo que não é tão simples numa pista ondulada como Hermanos Rodriguez.

Brilhante, a sexta-feira de Stefan Johansson não foi. Ele terminou o primeiro treino livre em 22º e o primeiro treino classificatório em 24º – provisoriamente classificado para a corrida, portanto, mas muito longe do sossego. Todas as fichas estavam jogadas para o dia seguinte.

No segundo treino livre, realizado na manhã de sábado, a Onyx não só conseguiu encontrar a altura ideal de seu ORE-1 como também optou por ganhar velocidade nas longas retas retirando asa traseira. Deu certo: o simpático bólido ganhou aderência nas curvas e velocidade nas retas. Johansson terminou a sessão numa excepcional sexta posição, atrás apenas das McLaren, da Ferrari de Nigel Mansell, da Williams de Riccardo Patrese e da March de Ivan Capelli. Foi o primeiro grande resultado oficial para a escuderia de Mike Earle e Jean-Pierre Van Rossem.

Stefan iniciou o segundo e definitivo treino classificatório esperando melhorar bastante sua posição no grid de largada. Arriscando mais um pouco, ele decidiu utilizar os compostos de classificação, aqueles que tinham lhe trazido problemas na pré-classificação. Dessa vez, com o carro acertadinho, eles funcionaram muito bem. Infelizmente, a sessão não foi tranquila para o sueco. Em vários momentos, ele teve de abrir espaço para carros mais rápidos, sujando seus pneus e perdendo aderência. Para piorar, choveu na parte final do treino. Ainda assim, o nórdico conseguiu uma volta em 1m21s358, assegurando a 21ª posição no grid de largada. Não era o cenário ideal, mas não importa: pela primeira vez em sua curta história, a Onyx participaria de uma corrida de Fórmula 1.

A ansiedade obviamente era enorme. Não era apenas uma questão de nervosismo, natural para os novatos, mas de pura falta de prática com a dinâmica da corrida: a Onyx nunca havia testado carros com 100 quilos de combustível e obviamente não sabia como eles se comportariam nessa situação. Largadas e pit-stops eram outras situações alienígenas para essa turma. Mas as boas qualidades do ORE-1 permitiram que Stefan fizesse o nono tempo no warm-up, provando que o bólido também sabia andar em condições de corrida. Então vamos à largada.

Só faltou ter terminado a corrida

Só faltou ter terminado a corrida

Com o carro no chão, Stefan Johansson pulou muito bem e saiu da 21ª para a 17ª posição logo na primeira volta. Nas primeiras voltas, teve um duelo renhido com Satoru Nakajima, passou, tomou o troco e depois passou novamente. Em seguida, fez boas ultrapassagens sobre Johnny Herbert (de Benetton!), Martin Brundle (com o dito melhor carro da pré-classificação) e Olivier Grouillard. Os abandonos de caras à frente também ajudaram o sueco a subir de posições.

O ORE-1 estava muito rápido, “talvez entre os cinco ou seis carros mais rápidos na pista”, como admitiu posteriormente Johansson. Houve um momento em que ele estava reduzindo a diferença para a Benetton de Alessandro Nannini, então o oitavo colocado, à razão de meio segundo por volta. Mas a festa não demorou a acabar. Na volta 17, a embreagem quebrou e o Onyx ficou parado no meio da pista. Caso tivesse chegado ao fim, Stefan poderia até ter terminado em terceiro ou quarto. Apesar do abandono, um excelente fim de semana para Mike Earle e sua trupe.

Acabou a corrida no México, mas não a jornada pela América do Norte. Logo no fim de semana seguinte à etapa de Hermanos Rodriguez, a Fórmula 1 desembarcou na terra do Tio Sam e do Pato Donald para disputar o primeiro Grande Prêmio dos Estados Unidos nas ruas áridas de Phoenix, Arizona. O traçado era estranho, todo cheio de largas avenidas e esquinas largas, um prato cheio para zebras. Essa era possivelmente uma das melhores oportunidades para as equipes menores na temporada. Equipes como a Onyx, quero dizer.

Nos Estados Unidos, a escuderia celebrou o retorno do velho Greg Field, que havia sido contratado antes do GP de Mônaco para substituir Martin Dickson no cargo de diretor esportivo da escuderia. Field estava na Benetton e só não retornou à Onyx a partir de Mônaco porque a equipe de Luciano Benetton precisava de seus serviços no lançamento do B189, que estava previsto justamente para a corrida do México. Como houve atrasos que postergaram esse lançamento para a temporada europeia, a Benetton se viu obrigada a liberar seu então responsável pelas peças sobressalentes.

Mas essa não foi a única novidade. Nos Estados Unidos, o bizarro Jean-Pierre Van Rossem, criador do Moneytron e dono de jus da Onyx, finalmente decidiu fazer seu nome aparecer um pouco na mídia. Surpreendentemente quieto e low profile nas primeiras etapas, Van Rossem atraiu jornalistas e curiosos com algumas extravagâncias com que nem mesmo uma McLaren jamais poderia (e desejaria) arcar, quanto mais uma escuderia humílima como a sua. Seu grande anúncio foi a aquisição, por 17 milhões de dólares, de um exemplar do Gulfstream 4, um dos jatos executivos mais sofisticados do planeta naquela época. O economista belga comprou o brinquedinho e o deixou à disposição da Onyx, que se tornou a única equipe do grid naquele ano a dispor de um meio de transporte próprio. Chique, hein?

As modelos da Moneytron em Phoenix

As modelos da Moneytron em Phoenix

No paddock de Phoenix, Van Rossem decidiu assumir de vez seu lado “rei do camarote”. Ele chegou ao autódromo a bordo de uma limusine presidencial de sete metros de comprimento com portas blindadas e insulfilm. Os americanos, que são chegados a essa cultura besta de ostentação, ficavam impressionados quando viam aquele arremedo de profeta saindo de um veículo tão suntuoso. E não acabou aí. Para divulgar sua equipe de Fórmula 1 e até mesmo seu genial sistema de análise econômica, Jean-Pierre contratou três modelos britânicas para desfilarem pelos boxes vestidas com roupinhas by Moneytron. O povão gostou. Ignore os penteados: nos anos oitenta, padrão de beleza era aquilo lá.

Dentro das pistas, as coisas foram um pouco menos glamourosas. Bertrand Gachot não se pré-classificou mais uma vez. O belga entrou na pista com seu carro titular e só conseguiu completar duas voltas antes de parar com a junta homocinética quebrada. De volta aos boxes, ele teve de esperar um tempão até que seus mecânicos conseguissem deixar o carro reserva, originalmente destinado a Stefan Johansson, a seu gosto. Gachot retornou à ação novamente, mas também sua nova ferramenta de trabalho apresentou problemas: o motor começou a apresentar falhas devido ao excesso de rotações. Praticamente sem conseguir andar direito com os dois carros, o piloto só conseguiu uma volta pavorosamente lenta em 1m45s530, ficando na última posição entre os treze pilotos que tomaram parte na sessão.

Stefan Johansson também não deixou de ter suas dores de cabeça. Logo de cara, seu carro apresentou problemas nas trocas de marcha, que estavam muito difíceis de serem realizadas. Não demorou muito e a segunda marcha foi para o beleléu de vez. Como esta é a mais importante das marchas no circuito de Phoenix, Johansson teve de se virar. Ele passou a entrar nas inúmeras curvas lentas de 90° em terceira marcha ao mesmo tempo em que enterrava o pé na embreagem e no acelerador simultaneamente para gerar força. Essa pequena adaptação no estilo de pilotagem resultou em algumas rodadas sem grandes consequências, nada que impedisse Stefan de terminar a pré-classificação na terceira posição com o tempo de 1m33s768. Pela segunda vez seguida, a Onyx teria um carro participando dos demais treinamentos.

A grande preocupação de Johansson naquela sexta-feira era conseguir balancear o carro de modo que ele andasse bem nas curvas sem perder tempo nas avenidas. Foi difícil. No primeiro treino livre, ele terminou apenas em 29º. No treino classificatório realizado à tarde, Stefan decidiu botar mais asa para ganhar mais tempo nas esquinas. A mudança surtiu algum efeito e o sueco conseguiu a 17ª posição no grid provisório. Mesmo assim, ele foi dormir insatisfeito com a crônica falta de aderência na parte traseira.

No sábado de manhã, o Onyx-Ford de Johansson entrou na pista com ainda mais asa traseira do que no dia anterior e apenas algumas gotas de combustível no tanque. O resultado foi surpreendente: mesmo tendo enfrentado tráfego em quase todas as suas voltas, Stefan terminou a sessão numa inacreditável terceira posição, atrás apenas da McLaren de Ayrton Senna e da Brabham de Martin Brundle. Vale lembrar, no entanto, que as demais equipes já estavam trabalhando com acertos de corrida e os carros, por conta disso, estavam entupidos de gasolina e obviamente mais lentos.

Stefan em Phoenix

Stefan em Phoenix

É uma pena que o segundo treino classificatório não tenha sido tão auspicioso. A pista estava encharcada de óleo e a Onyx teve de dar um jeito de encontrar mais aderência no bólido número 36. Ela fez alterações na configuração das asas e na altura das suspensões, mas o carro não só não melhorou sua estabilidade como também ficou mais lento mesmo com pneus de classificação. Já que não dava tempo para voltar atrás no acerto, Stefan Johansson teve de se contentar com o tempo de 1m33s370, que lhe garantiu apenas a 19ª posição no grid de largada definitivo.

O domingo começou de forma bastante promissora para Johansson, que fez o 11º tempo no warm-up pela manhã. À tarde, quando o calor havia alcançado níveis diabólicos, os 26 carros partiram para o início da corrida mais difícil do ano (a organização tentou reduzir o número de voltas de 80 para 70, mas o velho Ken Tyrrell negou e acabou vetando a mudança). Stefan largou bem novamente, chegou a dividir curvas com o Williams de Thierry Boutsen e finalizou a primeira volta em 18º. A partir dali, o sueco passou várias voltas numa disputa incansável com Boutsen e o americano Eddie Cheever, piloto da casa.

Com o carro em boas condições, Johansson não só conseguiu se manter no mesmo ritmo de seus rivais como também fez uma improvável ultrapassagem sobre Boutsen ainda no início da prova. Mas a felicidade logo começaria a acabar. De forma repentina, Stefan começou a sentir que um dos seus pneus dianteiros estava perdendo pressão por conta de um furo. Ele tentou permanecer na pista pelo máximo de tempo possível, mas teve de deixar sua teimosia de lado e fez seu pit-stop na volta 34.

De volta à pista, Johansson iniciou uma ótima recuperação fazendo boas ultrapassagens sobre Johnny Herbert e Christian Danner. Só que aquele não era seu dia. O furo de pneu na primeira parte da corrida fez com que o carro ficasse batendo seu assoalho no asfalto durante quase todo o tempo. Esses impactos acabaram sendo refletidos na suspensão, que aguentou o tranco até onde deu. Na volta 50, um dos braços da suspensão dianteira acabou se soltando por conta do esforço excessivo, o que obrigou Stefan a abandonar a prova quando estava na sétima posição. Caso tivesse chegado ao fim, o piloto sueco provavelmente teria terminado ao menos na quarta posição.

Duas corridas, dois fracassos de Gachot, dois bons desempenhos e dois abandonos de Johansson. Essa era a nova Onyx, uma Onyx absolutamente capaz não só de se classificar como também de lutar por posições dignas. Dali em diante, as coisas só tendiam a melhorar. O carro era bom, o dinheiro era farto, as expectativas eram muitas.

Como foram as corridas seguintes? No próximo capítulo, conto tudo.

Os exoticamente trajados caras da Onyx, que fazia sua estreia na Fórmula 1 no GP do Brasil de 1989

Os exoticamente trajados caras da Onyx, que fazia sua estreia na Fórmula 1 no GP do Brasil de 1989

Depois de oito capítulos deblaterando sobre secos e molhados, é hora de falar sobre competições de verdade. Sobre corridas de Fórmula 1, quero dizer. Após uma vida inteira ralando, suando, trabalhando, vencendo e perdendo, nosso querido Mike Earle finalmente conseguiria realizar, no dia 24 de março de 1989, o sonho de participar da dita categoria máxima do automobilismo mundial com equipe e carros próprios. Valeu a pena bater de frente com as vontades do pai, que jamais acreditou que esse negócio de competição de automóvel era algo sério.

Apesar da ansiedade, Earle não tirou os pés no chão em momento algum. “Estamos pensando em 1990”, sempre afirmava o dirigente, consciente que a temporada de 1989 seria de puro aprendizado. Sobre sua nova categoria, ele procurava não demonstrar grande deslumbre: “A Fórmula 1 não é um sonho, mas apenas uma ambição, um negócio”. E sua inspiração, como não poderia deixar de ser, era simplesmente a maior escuderia do mundo naquela época: “A McLaren também já foi uma equipe pobre. É preciso começar de algum modo, entrar no negócio. Depois, lutar”. A serenidade em pessoa.

Serenidade essa que contrastava com a agressividade e a petulância de Jean-Pierre Van Rossem. Falastrão, o belga saía pelos quatro cantos contando a todos que quem mandava na Onyx era ele e que a equipe seria, em dois anos, a maior e mais poderosa de toda a Fórmula 1. Em entrevistas, o economista Van Rossem não economizava em promessas: num futuro próximo, sua amada escuderia contrataria pilotos consagrados, teria seu próprio túnel de vento, sua própria estufa de fibra de carbono, sua própria de pista de testes e, o mais importante, motores Porsche. Jean-Pierre era tão obcecado com a Porsche que não se furtava em dizer que abandonaria a Fórmula 1 se seus carros não fossem equipados com os propulsores da marca alemã.

Esse tipo de discurso não costuma convencer ninguém. As equipes rivais não davam muito crédito a Jean-Pierre Van Rossem e suas extravagâncias. “Quem gasta dinheiro como ele, em breve, acaba ficando sem nada”, comentava Günter Schmid, dono da Rial. Sábias palavras.

Mas nada disso importava diante do desafio que estava por vir. Os dois carros azulados da Onyx estavam entre as treze diligências que deveriam passar pela pré-classificação, aquela temida sessão que eliminava os competidores mais lentos antes mesmo dos treinos livres. No início de 1989, os adversários da equipe de West Sussex eram os seguintes: Alex Caffi (Dallara), Martin Brundle (Brabham), Stefano Modena (Brabham), Piercarlo Ghinzani (Osella), Nicola Larini (Osella), Bernd Schneider (Zakspeed), Aguri Suzuki (Zakspeed), Joachim Winkelhock (AGS), Pierre-Henri Raphanel (Coloni), Volker Weidler (Rial) e Gregor Foitek (Eurobrun).

A pré-classificação funcionava da seguinte forma: em uma sessão de apenas uma hora, os coitados entravam na pista e buscavam o melhor tempo possível como em qualquer qualifying normal. Os quatro mais rápidos eram admitidos nos treinos classificatórios e os nove pilotos restantes voltavam para casa mais cedo. Era um sistema cruel, pérfido, mas não havia outra solução para a superpopulação da Fórmula 1 naqueles dias. Algumas equipes chegaram a propor à FISA que os nove eliminados na pré-classificação e os quatro não classificados para a corrida disputassem no domingo pela manhã uma prova preliminar de quinze voltas apenas para justificar a viagem e os patrocinadores. A ideia era ótima, mas os chatos da Federação obviamente nem deram bola.

Especialistas e jornalistas diziam que três das quatro vagas para as demais atividades do fim de semana já estavam praticamente garantidas para a Brabham, que tinha com um carrão tão belo quanto promissor, e para a Dallara de Alex Caffi, que já vinha andando razoavelmente bem desde meados de 1988. Portanto, a Onyx teria de lutar pela última vaga teórica com as demais sofredoras. O ORE-1 era um bólido conceitualmente muito melhor do que, por exemplo, os calhambeques da Zakspeed, da Eurobrun, da Coloni e da Rial. O problema é que a falta de testes prévios muito provavelmente comprometeria seus resultados ao menos nas primeiras etapas.

Bertrand Gachot em suas primeiras voltas oficiais a bordo de um carro de Fórmula 1

Bertrand Gachot em suas primeiras voltas oficiais a bordo de um carro de Fórmula 1

Mas chega de parnasianismo. Vamos falar de carros e de motores roncando e de pistas e de pilotos em ação.

Sexta-feira, 24 de março de 1989, oito horas da manhã, o sol opressivo do Rio de Janeiro castiga a pequena turma de estrangeiros mofinos que acordou cedinho com o sonho de disputar o Grande Prêmio do Brasil. Lá nos boxes da Onyx, a apreensão era um pouco maior. A equipe estava morrendo de medo de dar vexame e o piloto Bertrand Gachot não tinha feito um metro sequer de testes em Jacarepaguá. Ele iniciou a sessão conhecendo a pista tanto quanto sua avó.

Sem ter feito uma pré-temporada de verdade, a Onyx enfrentou tudo quanto é tipo de problema em sua pré-classificação. Stefan Johansson veio à pista e logo percebeu que o ORE-1 simplesmente não funcionava direito. Um problema crônico na bomba de gasolina fazia com que o motor desligasse e ligasse de forma súbita principalmente nas curvas de alta velocidade, obrigando o sueco a engatar a terceira marcha para recuperar força em trechos onde os demais competidores passavam em quinta ou sexta marcha. Além disso, em algumas curvas, o bicho era tão instável que Johansson tinha de brigar com o volante para não voar para fora da pista. Por fim, como a embreagem também não fazia sua parte, cada troca de marcha significava uma elevação absurda nos giros do motor Cosworth. Lento e incontrolável, o Onyx nº 36 não conseguiu completar volta melhor que 1m35s232. No pit lane, depois de tamanho esforço, o bólido morreu de vez.

A situação do novato Bertrand Gachot foi ainda mais complicada. O belga foi instruído pela sua equipe a utilizar seus pneus de classificação, muito mais rápidos e muito menos resistentes, logo nos primeiros minutos da sessão, quando a pista ainda estava uma desgraça. Tendo marcado seu tempo, ele teria de retornar aos boxes logo em seguida e entregar a caranga a Johansson para o caso deste ter problemas em seu próprio carro. A Onyx sabia que, se havia alguma mínima chance de sucesso em Jacarepaguá, ela só poderia ser concretizada pelo experiente sueco. Logo, o pobre Gachot teve de pagar o pato.

Insatisfeito, Bertrand foi à pista com um carro que não tinha sequer uma relação de marchas bem ajustada. Completou a volta de aquecimento com dignidade e até conseguiu abrir uma volta rápida, mas a suspensão dianteira esquerda arrebentou no último trecho e o belga teve de atravessar a linha de chegada com o bólido todo torto. Em seguida, estacionou na grama, saiu do carro possesso, jogou o volante no chão e foi chorar as pitangas nos boxes. O tempo marcado foi de 1m37s932.

As melhores voltas de Stefan Johansson e Bertrand Gachot foram as mais lentas daquela pré-classificação. Muito mais lentas, diga-se. Para se ter uma noção, o antepenúltimo colocado da sessão foi o japonês Aguri Suzuki, que ainda conseguiu ser 2,1 segundos mais rápido que Johansson e quase cinco (!) segundos melhor que Gachot. Tudo isso mesmo pilotando um Zakspeed-Yamaha que mal conseguia aguentar alguns quilômetros. A vergonhosa participação da Onyx no GP do Brasil acabou às nove da manhã daquela sexta-feira, é lógico.

Os pilotos reagiram de formas ligeiramente diferentes. Stefan Johansson, conhecido no paddock pela tranquilidade e pelo sorriso tão grande quanto torto, parecia não estar muito preocupado com o insucesso na pré-classificação. “O carro ficou pronto há pouquíssimo tempo, eu não pude testá-lo e a ausência de problemas teria sido um verdadeiro milagre. Sei que ele é bom, mas nós nunca tivemos uma chance real aqui em Jacarepaguá”, afirmou. No entanto, Johansson não perdeu o otimismo: “Nas outras provas, tudo correrá bem”. E ainda teve espírito para ironizar a inutilidade de sua viagem ao Brasil: “O pior de não se classificar é ser confundido com um turista rico…”.

Mais melindroso, Bertrand Gachot não conseguia esconder sua insatisfação. Após arremessar o volante no chão, o belga retornou aos boxes e desandou a reclamar aos jornalistas: “Não posso fazer milagres. Eu tive de ser extremamente cuidadoso, pois não conhecia nem a pista e nem o carro. Na prática, foi a minha primeira vez em um carro de Fórmula 1 e eu não podia abusar“. Esse foi apenas o primeiro dos chiliques de Gachot em 1989.

O sueco Stefan Johansson em Imola

O sueco Stefan Johansson em Imola

Findo prematuramente o fim de semana carioca, era hora de empacotar as coisas e voar de volta à Europa, onde o clima ainda estava mais agradável. Como o Grande Prêmio de San Marino, segunda etapa da temporada, seria realizado apenas no fim de abril, a Onyx decidiu utilizar o tempo livre para correr atrás do tempo perdido e acumular a quilometragem que lhe faltou na pré-temporada.

Em 4 de abril, a equipe alugou o traçado menor do autódromo de Donington Park para realizar seus primeiros testes de verdade. Stefan Johansson entrou na pista, completou quase 200 quilômetros sem grandes encrencas e marcou um razoável tempo de 1m03s8. Bertrand Gachot deu dez voltas e obteve resultados inferiores ao do colega. A sessão foi bacana, mas não muito útil: choveu muito na região e os pilotos tiveram de andar com pneus biscoito durante todo o tempo.

No dia 7, o solitário Bertrand Gachot foi a Outlon Park não só para ganhar mais experiência como também para testar algumas novidades que Alan Jenkins havia projetado para o ORE-1 nos dias anteriores, como uma revisada geometria de suspensão, uma nova caixa de câmbio e um novo desenho da parte traseira. Bertrand voltou a ter de andar em asfalto molhado, mas o teste correu bem e ele já estava se sentindo bem mais entrosado com o carro.

A partir do dia 12, todas as equipes de Fórmula 1 se reuniriam no autódromo de Imola para uma semana de testes coletivos promovidos pela FOCA. A Onyx montou um esquema todo diferente para a ocasião: os dois pilotos testariam juntos na quarta e na quinta-feira, mas Bertrand Gachot retornaria à Inglaterra na sexta-feira para testar dois chassis novos em Silverstone. No sábado, o belga voltaria a fazer companhia a Stefan Johansson em Imola.

Gachot teve uma série de problemas nos testes no circuito italiano, mas seus trabalhos na Inglaterra foram mais frutíferos. No Circuito Sul de Silverstone, Bertrand não enfrentou nenhum contratempo e marcou o bom tempo de 55s2. Naquele dia, a Onyx dividiu a pista com as equipes Brabham, March e Silk Cut Jaguar, esta última uma das escuderias de ponta do Mundial de Protótipos.

Em Imola, Bertrand completou um total de apenas dez voltas, nenhuma em pista seca. Stefan Johansson teve mais sorte e conseguiu andar um pouco mais sob o sol italiano, ainda que o ORE-1 se mostrasse incapaz de completar mais do que cinco giros consecutivos. Na tabela final de resultados da semana, o sueco registrou como melhor tempo 1m32s501, oito segundos mais lento que a McLaren de Ayrton Senna e mais veloz apenas do que as marcas de Johnny Herbert, Yannick Dalmas e Joachim Winkelhock. Nada menos que 31 pilotos obtiveram voltas mais rápidas que Stefan. Quer dizer, ainda faltava muito para a situação da Onyx melhorar.

No dia 18 de abril, terça-feira anterior ao GP de San Marino, Stefan Johansson e Bertrand Gachot foram realizar novos testes na pista italiana de Misano. Por lá, o sueco teve seu primeiro grande susto como piloto da Onyx. Enquanto rumava aos boxes, o ORE-1 se descontrolou e bateu violentamente no muro, ficando totalmente destruído. Johansson não se machucou, mas a equipe certamente não ficou muito contente. E eu, obviamente, lamentei muito pelo desastre ocorrido com um carro tão espetacular.

Gachot, ainda se adaptando à Fórmula 1, tenta se pré-classificar em Imola sem sucesso

Gachot, ainda se adaptando à Fórmula 1, tenta se pré-classificar em Imola sem sucesso

Como o chassi não tinha conserto, a Onyx decidiu trazer um novo para a etapa de Imola, a segunda da temporada de 1989. Os mecânicos passaram vários dias montando o novo bólido e só o finalizaram aos dez minutos da pré-classificação, quando os outros carros já estavam na pista buscando uma vaga nos treinos oficiais.

Johansson saiu para a sessão com um carro que não virava e nem freava direito. Logo na volta de aquecimento, o sueco não conseguiu frear na aproximação da Tosa, passou reto e só não ficou por ali por pura sorte. Nas voltas seguintes, a história se repetiu exatamente da mesma forma e Stefan demonstrava grande destreza ao evitar por muito pouco a sempre ameaçadora barreira de pneus. Mas o acidente, naquelas condições, era inevitável. Em uma das passagens, os pneus travaram, o Onyx-Ford nº 36 seguiu reto e bateu com tudo na proteção. O piloto saiu ileso, mas com o orgulho ferido por ter destruído dois chassis em uma única semana.

Antes do acidente, Stefan Johansson havia feito sua melhor volta em 1m30s647, o que o colocava apenas na oitava posição entre os treze participantes da pré-classificação – fora do páreo, portanto.

Bertrand Gachot, dessa vez, teve um pouco mais de sorte do que seu companheiro. O belga entrou na pista ainda com pouquíssima experiência com o ORE-1 em pista seca e conhecimento quase nulo da pista de Imola. Diante disso, até que a pré-classificação não foi tão ruim assim. Ele teve problemas com um câmbio que não conseguia passar da quinta para a sexta marcha direito, tentou compensar as deficiências do equipamento com uma pilotagem agressiva e surpreendeu a todos marcando 1m30s384, o que lhe garantiu uma razoável quinta posição na sessão. Infelizmente, como apenas quatro passavam para a próxima fase, tanto o belga como Johansson acabaram ficando de fora dos treinos oficiais novamente.

Após a etapa de Imola, a Onyx levou seus carros azulados para mais testes. Como a etapa seguinte seria realizada nas ruas de Mônaco, o pessoal resolveu andar numa pista tão travada e irritante quanto. Acabaram escolhendo Croix-en-Ternois, um pequeno autódromo localizado lá no norte da França. Ao que parece, não ocorreu nada de errado, Stefan Johansson não destruiu chassi algum e a equipe conseguiu dar mais um passo rumo ao sucesso.

Antes da etapa de Montecarlo, a turma de Mike Earle anunciou uma boa novidade. Um retorno, aliás. Antigo parceiro de Earle lá nos anos 70, o mecânico Greg Field foi anunciado como novo diretor esportivo da Onyx Grand Prix. Field chegou a participar dos primeiros anos da Onyx nos tempos da Fórmula 2, mas largou a equipe por puro saco cheio e arranjou emprego na Benetton como coordenador de peças sobressalentes. Agora, ele estava de volta na casa que praticamente o lançou ao mundo do automobilismo.

“É uma dessas oportunidades que você não tem como recusar”, afirmou Greg Field. No entanto, ele não poderia assumir o emprego logo de cara. Mesmo após ter assinado com a Onyx, o cara ainda tinha algumas coisas para resolver na Benetton. A escuderia colorida ainda precisava da ajuda de Field na ocasião do lançamento de seu novo carro, o B189, então previsto para o Grande Prêmio do México. Assim que a diligência de Luciano Benetton fizesse sua estreia, Greg estaria livre para retornar à Onyx.

Gachot em Mônaco: nem mesmo o extintor colaborou

Gachot em Mônaco: nem mesmo o extintor colaborou

Mas vamos falar um pouco de Mônaco, que foi o palco da terceira etapa da temporada. Após os inúmeros problemas de Jacarepaguá e Imola, a Moneytron Onyx esperava ter ao menos uma pré-classificação sem dores de cabeça. Enfiar ao menos um dos carros nos treinos oficiais também seria muito bacana, ainda mais em um circuito maluco que sempre favorece as zebras.

Visando evitar o tráfego, Stefan Johansson decidiu ir à pista bem cedo com os pneus de classificação. Estratégia burrinha, já que o asfalto de Mônaco sempre costuma estar vergonhosamente encardido nos primeiros instantes e só melhora depois dos carros já terem criado uma trilha limpa no traçado. Por conta de sua decisão errada, Johansson acabou desperdiçando seus melhores compostos nos primeiros minutos e ficou sem pneus bons quando a pista já estava muito melhor. Além do mais, o Onyx nº 36 vinha enfrentando graves problemas de subesterço e de freios, imperdoáveis em Montecarlo. Tudo isso explica o fato dele ter marcado apenas o sexto tempo na sessão, com 1m27s821. Pela terceira vez seguida, o sueco não conseguiria seguir adiante no fim de semana.

Mais calejado com o carro, Bertrand Gachot ainda enfrentava um problema adicional, o total desconhecimento do traçado monegasco. Tudo o que ele queria era tomar contato com as curvas da cidadezinha que beira o Mar Mediterrâneo e ganhar experiência para a próxima, mas nem isso ele conseguiu direito. Graças a um extintor.

Como é que é? Extintor? Sim, extintor de incêndio, que nem aquele do Taki Inoue. Não sei se vocês sabem, mas assim como seu Celta e meu Aston Martin, todo carro possui um pequeno extintor acoplado em seu interior. Vai que, sei lá, o cidadão dá uma de Jos Verstappen e o fogo toma conta de tudo? Para evitar uma tragédia, esse extintor deve ser acionado lá dentro do cockpit pelo próprio piloto. Ou algo assim, não sei. Acreditem em mim, de qualquer forma.

Pois um mecânico tonto fez jus ao fato de que seu salário era quase mil dólares mais baixo do que o de seus colegas da McLaren e da Ferrari. De forma imprudente, ele esbarrou no botão que aciona o tal do extintor e lambuzou o ORE-1 com espuma anti-incêndio. Os demais mecânicos deram umas coças no amigo e tiveram de perder uns dez preciosos minutos limpando o bólido e recarregando o reservatório do extintor. Vale lembrar: a pré-classificação durava apenas uma hora e cada minuto valia uma barra de ouro, que vale mais do que dinheiro.

Após ter seu carro devidamente lavado, Bertrand Gachot entrou na pista para ver se conseguia fazer algum milagre. Faltando dez minutos para o fim da sessão, o belga se mostrou tão imprudente quanto seu mecânico ao exagerar um pouco na entrada do Cassino e esbarrar seu Onyx-Ford na parede, destruindo a suspensão e o aerofólio traseiros. Ali acabou sua pré-classificação – e seu fim de semana. Com o tempo de 1m28s897, Gachot foi apenas o nono colocado e fez companhia a Stefan Johansson na choradeira dos que acordaram cedo à toa.

“Nós estamos completamente perdidos”, afirmou Stefan Johansson sem meias palavras após a tristeza de Mônaco. É verdade. Após três etapas, a Onyx tinha colecionado apenas fracassos. Johansson e Gachot não foram capazes de se pré-classificar em momento algum. As promessas foram inúmeras e os resultados até então, nulos. Estava mais do que na hora de justificar o dinheiro de Jean-Pierre Van Rossem, a boa fama de Alan Jenkins e a motivação da boa dupla de pilotos.

Será que as coisas melhorariam do Grande Prêmio do México em diante? Falo para vocês no próximo capítulo.

Uma reprodução da dianteira do Onyx ORE-1, a maior obra-prima da história da Fórmula 1

Uma reprodução da dianteira do Onyx ORE-1, a maior obra-prima da história da Fórmula 1

Será que vamos, finalmente, falar de corridas de Fórmula 1 hoje? Boa pergunta, diria o narrador do comercial de cerveja. O especial sobre a Onyx Grand Prix, a equipe mais espetacular que já apareceu no automobilismo, segue a todo vapor neste chuvoso, quente e preguiçoso mês de janeiro. Nesse oitavo capítulo, imagino que teremos gasolina queimando, pistões girando e motores roncando. Finalmente.

Depois de semanas de apreensão, a Onyx conseguiu garantir sua participação na temporada de 1989 através do magnata doidão Jean-Pierre Van Rossem, criador do sistema computadorizado de análise financeira Moneytron. Van Rossem conseguiu transformar os 2,5 milhões de dólares que a equipe então comandada por Mike Earle, Jo Chamberlain e Paul Shakespeare havia juntado em um montante de mais de 10 milhões de dólares. O toque de mágica exigiu, no entanto, uma contrapartida: Jean-Pierre acabou se tornando o único dono de toda a escuderia.

Foi chato, mas não havia outra alternativa. Earle e Chamberlain foram mantidos na equipe em cargos gerenciais, mas não apitavam mais nada no que concernia à sua propriedade. Além do mais, as coisas estavam andando a um ritmo muito bom. Com dinheiro no bolso, a Onyx podia se desenvolver com toda a tranquilidade.

Falemos, então, um pouco do carro.

O primeiro bólido da história da Onyx Grand Prix estava sendo concebido pelo projetista inglês Alan Jenkins, de quem já falamos um pouco em um capítulo anterior. Para quem não se lembra, Jenkins havia sido demitido da Penske em meados de 1987, convidado para assistir a algumas corridas de Fórmula 3000 daquele ano nos boxes da escuderia de Mike Earle e posteriormente integrado para assumir o desenvolvimento do futuro carro de Fórmula 1. Na prática, ele é a pedra fundamental do negócio.

Antes de passar apuros na Penske, Alan Jenkins trabalhou durante algum tempo como uma espécie de auxiliar do celebrado John Barnard na McLaren. Com Barnard, Jenkins não só aprendeu um bocado de coisas como também desenvolveu um estilo de trabalho bastante semelhante ao de seu mestre. Essa influência “barnadeana” apreceria de forma muito clara no bólido da Onyx.

O galpão da mansão Westergate House, sede da Onyx, possuía uma infraestrutura que poucas equipes pequenas teriam condições de reproduzir. O que mais chamava a atenção era a moderníssima rede interna de computadores que permitia operações CAD (de desenvolvimento) e CAM (de fabricação), luxo que só as equipes maiores dispunham. Isso significava que Jenkins e amigos poderiam fazer quase tudo apenas apertando teclas e botões, dispensando o uso de instrumentos prosaicos como lápis, esquadros e mãos.

A tecnologia permitiu que a Onyx pudesse desenvolver um carro bastante ousado pra uma escuderia estreante e sem a infinidade de recursos de uma McLaren ou Ferrari. As inovações são várias e bem interessantes.

A forma do chassi é o grande ponto de contato entre o discípulo Alan Jenkins e o professor John Barnard. Em 1983, quando ainda estava na McLaren, Barnard havia idealizado um bólido com uma lateral curvada em sua parte posterior e com menor comprimento total, deixando razoável espaço vazio em relação tanto às rodas dianteiras quanto às traseiras. A novidade apareceu com ares de revolução: até então, os sidepods eram todos quadradões, grandões e ocupavam toda a extensão entre os pneus dianteiros e traseiros.

Visto de cima, é possível perceber o estilo

Visto de cima, é possível perceber o estilo “garrafa de Coca-Cola” adotado no carro da Onyx. OK, finjam que vocês viram uma garrafa aí

Vamos a um pouco de teoria barata. Um dos pontos aerodinamicamente mais críticos do carro é o espaço entre a parte final do sidepod e a roda traseira. Essa região é bastante importante porque o ar que vem diretamente lá da frente precisa encontrar um caminho por onde fluir, e esse caminho pode aumentar ou diminuir drasticamente a eficiência aerodinâmica do carro. Quando o fluxo de ar atravessa o sidepod e contorna o pneu traseiro pelo lado de fora, o próprio pneu age como uma barreira que acaba reduzindo a velocidade. O grande desafio, até meados dos anos 80, era fazer com que o ar passasse por entre o pneu e a parte traseira do chassi, evitando o contorno externo.

O problema é que não dava para simplesmente construir um sidepod bem estreito, pois o ar poderia tomar tanto o rumo interno como o externo, gerando dois fluxos simultâneos e desestabilizando toda a traseira. Era necessário não só evitar o contorno externo como também canalizar todo o ar para a parte interna. John Barnard concluiu, dessa forma, que uma lateral curvada na extremidade posterior poderia conduzir o fluxo diretamente à parte traseira do chassi, evitando ao máximo que o pneu agisse como uma barreira aerodinâmica. Como seu braço-direito na McLaren, Alan Jenkins também participou dessa descoberta.

A ideia parece ter dado certo, pois os carros da McLaren começaram a ganhar um monte de coisa a partir de 1984 e outras equipes passaram a seguir a nova moda. Em poucos anos, a Fórmula 1 acabou ficando infestada de carros “garrafa de Coca-Cola” – o apelido surgiu no momento em que perceberam que os bólidos com laterais curvadas, quando vistos de cima, se assemelhavam a garrafas do citado líquido negro.

Ao iniciar os primeiros rabiscos do chassi da Onyx, Alan Jenkins não se esqueceu da Coca-Cola que cansou de tomar lá nos dias de McLaren. Ele projetou um sidepod bastante curto, que começava apenas no fim do cockpit, tomava uma ligeira curvatura na metade e terminava em linha reta na suspensão traseira. A dianteira longa e esguia, a pequena asa dianteira e a cobertura do motor com duas curvaturas deram ao carro uma aparência bastante elegante e limpa. E, sim, visto de cima, ele realmente lembra um pouco uma garrafa. De Pepsi azulada.

Outra grande novidade do carro da Onyx se referia ao posicionamento dos amortecedores dianteiros. A equipe havia decidido adotar suspensões push-rod, aquelas em que o acionamento dos amortecedores é feito por uma barra que liga a parte inferior da roda à parte superior do chassi. O problema da suspensão push-rod é que o amortecedor costuma ser ligado à barra através de um buraco aberto dentro do chassi e esse buraco, mesmo que de forma sutil, compromete a rigidez daquela região do bólido. Pois Jenkins encontrou uma solução espertinha: cavou dois nichos paralelos na parte superior da fibra de carbono e encaixou, em cada um dos nichos, um reduzido amortecedor em posição horizontal. Esses nichos permitiram considerável aumento na rigidez dessa parte dianteira.

Alan Jenkins também optou pela ousadia quando optou por um câmbio transversal Xtrac de seis marchas – as outras equipes pequenas adotavam o tipo longitudinal e não reclamavam. O motor seria um Ford Cosworth DFR de oito cilindros preparado pelo suíço Heini Mader, que também cuidava dos propulsores da Arrows e da Tyrrell. Era uma unidade barata, confiável (de vez em quando, as bronzinas davam problemas, mas nada de muito grave) e que rendia satisfatórios 600cv, apenas cinquenta a menos do que os diabólicos V10 da Honda. Com relação aos pneus, a Onyx chegou a negociar com a Pirelli, mas acabou acertando com a Goodyear mesmo.

Uma questão fundamental e bastante relevante que consumiu noites de sono do pessoal da equipe foi o nome do carro. Depois de muito discutirem, acabaram optando por ORE-1. Mas o que significa “ORE”? Stefan Johansson explica: “Nós denominávamos o projeto como ORE-1 desde o primeiro instante, quando a escuderia ainda se chamava Onyx Race Engineering. Portanto, decidimos que seria legal manter um resquício do passado a partir do momento em que passamos a ser a Onyx Grand Prix”.

Depois destes parágrafos, o leitor até tende a achar que a Onyx era uma equipe tecnicamente competente. E você está certo. A escuderia era bastante esmerada mesmo nos tempos em que não tinha dinheiro ou infraestrutura. Um bom exemplo disso é o uso de túnel de vento. Naquela época, somente equipes infinitamente grandes possuiam o seu. As menores, quando não compravam um ventilador Faet de segunda mão, alugavam estruturas já prontas por algumas horas. Consta que a Onyx realizou testes no famoso túnel de vento de Southampton por mais de um ano, o que lhe permitiu alcançar um alto nível de refinamento em seu carro.

O pomposo lançamento do primeiro carro de Fórmula 1 da Onyx

O pomposo lançamento do primeiro carro de Fórmula 1 da Onyx

A qualidade e a meticulosidade do trabalho praticado na equipe também mereciam destaque. Formado na “escola McLaren”, Alan Jenkins aprendeu com Ron Dennis que a obsessão quase patológica por detalhes é um dos caminhos seguros para o sucesso. Na Onyx, ele coordenou um grupo técnico que caprichou bastante nos mínimos detalhes da construção do carro, cujo acabamento era digno de qualquer máquina de ponta. E o próprio Jenkins chegou a um ponto em que ele mesmo quis desenhar as maçanetas das portas do banheiro da Westergate House! Alguns chamam isso de empenho, outros de Transtorno Obsessivo Compulsivo…

No papel, tudo estava dando muito certo. Mas havia um pequeno problema que dinheiro nenhum no universo poderia resolver: falta absoluta de tempo.

Em meados de março, enquanto as demais equipes de Fórmula 1 já estavam realizando sua segunda bateria de testes no circuito falecido de Jacarepaguá, a Onyx não tinha sequer um carro pronto ainda. Ela precisava terminar ao menos um o mais rápido possível não só para mostrar ao mundo que o bólido existia como também para levá-lo à pista e comprovar que ele era capaz de sair do lugar.

A equipe anunciou a jornalistas e bicões que lançaria o ORE-1 em 13 de março de 1989 no Hipódromo de Londres. Porém, mesmo com toda a festança pronta, todos os convites enviados, todos os canapés de salmão fresquinhos na bandeja, todas as garrafas de uísque esperando pelas sempre sedentas bocas dos jornalistas, o carro ainda não estava terminado até a manhã do tão esperado dia. Os pobres mecânicos atravessaram a madrugada colando peças no bólido e só conseguiram finalizá-lo por volta de 12h15, quando faltavam apenas quinze minutos para o início da cerimônia. O nível de desespero foi tão grande que, nas horas anteriores, o ORE-1 foi conduzido para ser montado ao lado de um boteco na praça Leicester, em pleno centro londrino. Assim que ficou pronto, ele foi conduzido às pressas ao Hipódromo. Não teve nem polimento.

Mas a apresentação, ó, foi uma beleza. O mundo foi apresentado a uma das maiores maravilhas já produzidas na Fórmula 1. O Onyx-Ford ORE-1 era um carro com linhas refinadas, um nível de acabamento que não condizia com a pequeneza da estrutura da equipe e um esquema de cores que era um espetáculo à parte.

Carros azulados são relativamente comuns na Fórmula 1. Algumas equipes tradicionais, como a Ligier e a Tyrrell, ficaram eternizadas na mente dos fãs de automobilismo pela fidelidade ao azul. A preferência é facilmente explicável: a cor é agradável aos olhos, razoavelmente boa para a publicidade e quase sempre funciona em carros de corrida.

A Onyx optou por um tom anil, algo entre o azul clássico e o violeta. É uma cor que chama a atenção não só por nunca ter sido a mais comum na Fórmula 1 como também pelos efeitos visuais enganadores: dependendo da foto, você pode estar diante de um carro azul-escuro ou violeta. Mas qual é a razão para a escolha? Coisas de Jean-Pierre Van Rossem, que também chegou a pintar o carro de Fórmula 3 do belga Karl Frahm com essa tonalidade. Apesar de doido, o cara tinha um gosto cromático interessante.

As demais cores do carro, todas associadas ao logotipo do Moneytron, eram o branco e o rosa. Uma faixa branca se iniciava na parte posterior da cobertura do motor, seguia até o cockpit e depois descia rumo à extremidade do bico. O rosa aparecia na asa dianteira, em uma das asas traseiras e como complemento da faixa branca. Era uma combinação curiosa, vista como moderna e vanguardista por alguns e brega e espalhafatosa por outros. Eu simplesmente achava a coisa toda muito legal.

Stefan Johansson, que ficou mais tempo sentado no cockpit para apresentações do que para testes naquela pré-temporada

Stefan Johansson, que ficou mais tempo sentado no cockpit para apresentações do que para testes naquela pré-temporada

O emblema que mais aparecia obviamente era o do tal do Moneytron, o que deixava o carro ainda mais legal. Além dele, apareciam também o indefectível adesivo da Marlboro, que se inseria dentro da faixa branca, e o discreto sticker das tintas Capa, apoiadores da carreira de Bertrand Gachot. De certa forma, a apresentação foi decepcionante para quem esperava ver um carro repleto de patrocinadores fortes, ainda mais depois de vários rumores sobre grandes empresas se associando ao projeto.

Todos se divertiram muito, comeram e beberam de graça, Stefan Johansson e Bertrand Gachot deram várias entrevistas e o otimismo festivo reinou lá no hipódromo. Mas o tempo, esse implacável, continuava a correr. Faltavam apenas duas semanas para o início de temporada e nenhum quilômetro de teste havia sido completado até então. A Onyx estava com tanta pressa que, logo após o fim da cerimônia de apresentação, o pessoal da equipe empacotou o carro e o enviou de forma imediata ao Rio de Janeiro para que ele pudesse participar ao menos dos quatro últimos dias de testes coletivos em Jacarepaguá.

O ORE-1 chegou ao Brasil na tarde da quinta-feira no mesmo voo que o novo carro da McLaren, mas as perspectivas dos dois bólidos eram bem diferentes. Enquanto a escuderia de Ron Dennis torrava dólares e equipamentos buscando a perfeição absoluta, a Onyx desejava apenas botar sua criação na pista e fazê-la funcionar pelo máximo de tempo possível. Ela chegou a nomear o veterano John Watson como responsável pelo primeiro shakedown do carrinho azulado, mas quem acabou sendo convocado para pilotá-lo, no fim das contas, foi o sueco Johansson.

Logo depois de chegar ao aeroporto, todo o equipamento da Onyx foi enviado diretamente ao Autódromo Nelson Piquet. Os caras queriam entrar na pista ainda naquela quinta-feira, 16 de março, mas todos sabiam que o máximo que daria para fazer naquele dia seria ligar o carro e dar uma ou outra voltinha ao redor de Jacarepaguá. Era preciso ser realista, aceitar que não dá para fazer tudo na maior correria e tentar curtir um pouco do sol carioca.

Os mecânicos, cujo salário representava apenas pouco mais da metade do que um colega da McLaren recebia, desmontaram as caixas, sacaram algumas ferramentas e remontaram o carro com as peças que faltavam. Pronto para a ação, o ORE-1 só precisava ser ligado para entrar na pista ainda no mesmo dia. Apreensivos, os esforçados ingleses vestidos de branco, anil e rosa deram a partida no carro na esperança que o motor ganhasse vida. Funcionou. O primeiro carro de Fórmula 1 da história da Onyx estava pronto para rasgar o asfalto.

Modestamente, Stefan Johansson olhou para os lados, esterçou para a direita e saiu para o mundo. Deu uma volta bem lenta, contemplou a bela paisagem montanhosa da região da Barra, torrou gasolina, queimou pneus e retornou aos boxes dignamente. Aliviados, os mecânicos desligaram o carro e decidiram fazer alguns primeiros acertos para tentar torná-lo um foguete. Cerca de uma hora depois, Stefan retornou à pista para mais uma volta. Dessa vez, o ORE-1 não voltou aos boxes inteiro: um pedaço do bico se soltou do carro e voou longe. Devagarinho, o sueco retornou com um bólido sem nariz.

Retornou e não fez mais nada, pois aquele bico era o único disponível no Brasil. Os mecânicos tiveram de ligar para a Inglaterra pedindo para que lhes enviassem um bico novo o mais rápido possível. OK, afirmou o pessoal da Inglaterra, mas só para o domingo. Só para o domingo? Só para o domingo. A Onyx não gostou, mas ela não tinham nenhum direito de reclamar. Conseguir receber uma encomenda vinda da Inglaterra em pouco mais de dois dias era uma proeza numa época em que os serviços de transporte eram ainda piores do que atualmente. Hoje em dia, em pleno século XXI, eu estou esperando de braços cruzados um livro que comprei em um site italiano há quase dois meses…

Na sexta-feira, os integrantes da equipe foram ao autódromo tentar deixar o carro nos trinques enquanto o bico novo não chegava. Stefan Johansson acompanhou os trabalhos de seus colegas, passeou pelo paddock, entupiu o estômago de Coca-Cola (naqueles tempos, a organização de Jacarepaguá disponibilizava uma geladeira vermelha para cada uma das equipes) e nem chegou a sentar no ORE-1, que passou o dia todo no cavalete. Mais tarde, quando viu que não entraria na pista nem de Fusca, o sueco decidiu voltar para o hotel mais cedo. Porque é melhor ficar em um lugar com televisão e ar condicionado, certo?

A estreia de Bertrand Gachot na Fórmula 1 ocorreu... no kartódromo Maqui-Mundi!

A estreia de Bertrand Gachot na Fórmula 1 ocorreu… no kartódromo Maqui-Mundi!

No sábado, as coisas pouco mudaram, com o bólido no cavalete, os mecânicos tentando encontrar algo para fazer e Stefan Johansson totalmente entediado. O bico abençoado só chegou no Rio de Janeiro no domingo, último dia dos treinamentos coletivos de Jacarepaguá. Na luta contra o tempo, a Onyx o instalou rapidamente no ORE-1 de modo que ele pudesse entrar na pista ainda nas horas finais da sessão.

Johansson foi à pista para tentar acumular uma quilometragem mínima, mas o carro apresentou problemas de semi-eixo na segunda volta e os trabalhos tiveram de ser abortados novamente. Como não havia nem peças sobressalentes disponíveis e nem tempo para fazer qualquer reparo, a Onyx preferiu deixar para lá e encerrar definitivamente sua participação nos testes coletivos. Em dois dias, apenas três voltas completadas. Pior que isso, só a HRT e sua mania de sempre aparecer na primeira etapa do ano com dois carros virgens.

Faltando apenas uma semana para o Grande Prêmio do Brasil, a Onyx precisava dar um jeito de fazer seu carro andar mais um pouco antes de ser jogado aos tubarões. Ela também precisava colocar Bertrand Gachot para ter um contato mínimo com o ORE-1 antes dele cair de paraquedas na pré-classificação da próxima sexta-feira. Qual foi a solução encontrada? Testar em um kartódromo!

Na quinta-feira imediatamente anterior ao GP, os mecânicos da Onyx juntaram seus trapos e levaram um dos carros para o extinto kartódromo Maqui-Mundi, localizado no Recreio dos Bandeirantes. Bertrand Gachot foi para lá acompanhado da namorada Kate Palmer, que ironicamente sugeriu aos mecânicos que abrissem uma champanhe no caso de o carro funcionar. Mesmo sem a mesma urgência de testar, Stefan Johansson também deu as caras. Aos poucos jornalistas presentes naquele arremedo de sessão, Gachot afirmou a opção da Onyx pelo Maqui-Mundi: “Infelizmente, os carros atrasaram e ficamos praticamente sem treinar. O Johansson conseguiu andar, mas muito pouco. Por isso, procuramos outra alternativa apenas para ver se o carro estava funcionando”.

Os mecânicos levaram o primeiro ORE-1 já pronto, terminaram de montar o segundo ali mesmo e logo ligaram os motores. Vários moradores da região, intrigados com o barulho diferente daquele que eles estavam acostumados a ouvir nas corridas de kart, foram ao Maqui-Mundi assistir ao teste da Onyx. Aquele foi, provavelmente, o momento de maior prestígio internacional da história do kartódromo.

Gachot foi o primeiro a ser mandado para a pista. Na primeira volta do teste, os mecânicos perceberam que o carro estava soltando uma estranha fumaça branca. Mandaram o piloto belga estacionar, deram uma olhada e concluíram que não havia nada de errado. Bertrand seguiu adiante e até conseguiu completar dez voltas, mas como a pista era extremamente curta e travada para os padrões de um carro de Fórmula 1, ele só conseguiu engatar as três primeiras marchas e logicamente não pôde compreender o real desempenho do ORE-1. Johansson, por sua vez, fez 21 voltas e os mecânicos ficaram satisfeitos com o fato de que seu brinquedinho funcionava. Bertrand, porém, não estava tão otimista assim sobre sua participação no GP do Brasil:

– Acredito muito no projeto do Alan Jenkins e tenho certeza de que conseguiremos nos classificar para as demais corridas. Mas as coisas serão muito difíceis aqui no Rio. Se as equipes que correram no ano passado estão preocupadas com possíveis problemas, imagine nós.

Esta foi a pré-temporada da Onyx, uma fase de muitas promessas e poucas realizações concretas. A aventura da equipe na Fórmula 1 começaria no dia seguinte, 24 de março, data da primeira pré-classificação da temporada de 1989. No capítulo que vem, enfim, vamos falar de corridas.

Jean-Pierre Van Rossem, o estranho messias da Onyx

Jean-Pierre Van Rossem, o estranho messias da Onyx

Mais um pouco de Onyx para os senhores. Chegamos ao sétimo capítulo e sequer começamos a falar dos resultados da equipe mais legal de todos os tempos na Fórmula 1. Desculpem-me, é que eu realmente me empolgo quando conto uma história que me interessa de forma quase particular. Prometo que serei mais rápido e cortarei alguns detalhes não tão necessários. Só que não, é lógico.

A Onyx, que já havia sido rebatizada como Onyx Grand Prix naquela altura, estava correndo atrás de um messias que pudesse salvar seu projeto de disputar a temporada de 1989. Com apenas 2,5 milhões de dólares no bolso, a escuderia comandada por Mike Earle, Jo Chamberlain e Paul Shakespeare precisava de pelo menos quatro vezes mais para conseguir participar de todas as corridas. Muito embora o desenvolvimento do carro estivesse caminhando razoavelmente bem, a total falta de fundos poderia encerrar a equipe antes mesmo de ela começar.

Quando parecia que o sonho havia acabado prematuramente, eis que surge meio que do nada uma insólita e obscura figura disposta a dar uma força. Cabelos longos e grisalhos, cara redonda, óculos sessentistas, sobrancelhas malignas e IMC exageradamente acima do ideal, o estranho cidadão aparentava um misto de roqueiro velho, acadêmico das humanas e guru de alguma seita psicopata. Para os padrões assépticos e almofadinhas da Fórmula 1, um alienígena.

Seu nome? Jean-Pierre Van Rossem. Ele é belga e nasceu na região dos Flandres em 1945.

Van Rossem se interessou a injetar dinheiro na Onyx por causa de um dos seus pilotos, o compatriota Bertrand Gachot. No capítulo anterior, expliquei que não há uma versão oficial sobre como Jean-Pierre e Bertrand se aproximaram. Resumidamente, o primeiro diz que ficou sabendo da delicada situação em que se encontrava o jovem esportista e decidiu apoiá-lo. Gachot, por outro lado, afirma que leu nos jornais sobre a ascensão do tal milionário e resolveu procurá-lo. Isso pouco importa, a bem da verdade. O caso é que, graças a Bertrand Gachot, Jean-Pierre Van Rossem surgiu como possível grande salvador da escuderia.

Mas quem é esse cara? O que ele faz da vida? Como ficou milionário? Hoje, no Globo Repórter.

Imagino que utilizarei esse capítulo inteiro para contar um pouco sobre Jean-Pierre Van Rossem. Mas ele merece, afinal . Via de regra, donos de equipe não costumam ser figuras tão interessantes de um ponto de vista mais humano e histórico. Muitos são ex-pilotos frustrados, outros tiveram tanto sucesso esportivo que se julgaram igualmente capazes de administrar uma escuderia, alguns são apenas pilantras que querem lavar dinheiro, vários apenas gostavam de montar carrinhos, há ainda alguns financistas tontos que se iludem com a ideia de ganhar dinheiro fácil com Fórmula 1. Confesso não conseguir enquadrar Van Rossem em nenhuma dessas categorias, nem mesmo nas mais duvidosas. O cara é realmente diferente.

O mais interessante de tudo é que o rebelde Jean-Pierre não nasceu exatamente em um ambiente favorável às suas maluquices. Seus pais eram os típicos bons cidadãos da classe média conservadora belga que defendiam a Igreja Católica e a monarquia acima de qualquer outra coisa. Segundo JP, suas relações com papai e mamãe não eram as melhores do mundo: “Na minha casa, não havia espaço para uma conversa calorosa, quanto mais para um abraço. Na verdade, eu nem me lembro de ter sido acariciado ou beijado alguma vez. Meus pais faziam de tudo para esconder seus sentimentos e suas emoções. E havia uma razão para isso: eles viviam se perguntando o que é que a sociedade pensaria caso eles se exaltassem demais“. Tamanha frieza deve ter dado um nó definitivo nos miolos do garoto.

Em entrevista a um jornal belga, Jean-Pierre Van Rossem conta outros detalhes bem sombrios de sua juventude. Quando ele ainda era criança, seu irmão Harold correu em direção a um caminhão e acabou atropelado, morrendo na hora. De forma absurda, seus pais lamentaram que “o Senhor havia escolhido o bom filho ao invés do malcriado”.

Outra boa história aconteceu aos treze anos de idade. Em casa, como era de se esperar, o assunto “sexo” era um tabu inquebrável. Longe da família, Van Rossem passava o tempo observando uma vizinha peituda e boazuda cujos 35 anos de idade ainda não lhe tinham feito muito mal. De vez em quando, ele ganhava uma grana ajeitando o jardim da casa da mulher e coisas do tipo. Num belo dia, JP contou a ela que a amava. A balzaquiana, talvez com alguma pena do garoto, o levou para dentro de cara e lhe mostrou as coisas boas da vida.

Na escola, Jean-Pierre Van Rossem era um sujeito que se destacava tanto pelas notas impecáveis como pelo espírito contestador. Leitor ávido, ele gostava de estudar assuntos razoavelmente avançados para sua tenra idade e jamais aceitava logo de cara aquilo que seus professores empurravam goela abaixo dos alunos. “Napoleão foi à Rússia com um exército de três milhões de homens e 300 mil cavalos e retornou com apenas quinze mil homens e dois mil cavalos. E, na escola, nós ainda éramos levados a crer que ele era um grande estrategista“, ironizava o insurgente.

Você imagina que esse cidadão com cara de professor de Ciência Política já foi dono de uma equipe de Fórmula 1?

Você imagina que esse cidadão com cara de professor de Ciência Política já foi dono de uma equipe de Fórmula 1?

Aos 17 anos, enfastiado com a carolice de seus familiares, o jovem Jean-Pierre decidiu sair de casa em busca de uma vida feliz, gloriosa e livre. Mesmo com pouco dinheiro no bolso, ele passou tranquilamente pelos processos de admissão e garantiu uma vaga na tradicional Universidade de Gent. Em um primeiro instante, o curso escolhido foi Psicologia, mas Van Rossem logo se aborreceu e trocou de área, migrando para algo um pouco mais numérico. Seu negócio era estudar Economia.

No geral, um futuro economista tem apenas um sonho: ficar rico de forma rápida e, em muitos casos, sem grandes esforços. Mas este não é o caso de Jean-Pierre Van Rossem, que tinha planos um pouco diferentes. Na adolescência, o cara devorou livros e mais livros sobre Karl Marx e outros teóricos que formavam a base da ideologia comunista. Ao ingressar no curso de Economia, JP estava interessado em aprimorar sua compreensão marxista a respeito do mundo e, se possível, mudá-lo.

Na faculdade, Van Rossem caiu de cara nos livros e logrou, em apenas cinco anos, diplomas de graduação não só na Economia como também na Física e na Matemática, tornando-se um intelectual completo. Nas horas vagas, trabalhava como ajudante em uma fábrica de folhas de papel. Achava aquilo uma merda, mas ao menos podia descolar uma grana para beber, trepar e enriquecer sua cultura e seu aprendizado.

Ainda antes de concluir sua graduação, Jean-Pierre Van Rossem já desfilava com uma Ferrari vermelha pelas ruas de Gent, deixando colegas e professores mordidos de inveja. Mas como ele conseguiu um carro tão bom tendo apenas 21 anos de idade?

Jean-Pierre tinha o costume de viajar a Paris de carro para se divertir. Num belo dia, passando por uma inóspita estrada que ligava a capital francesa a Lille, ele avistou um majestoso Rolls-Royce parado no acostamento e rodeado de espessa fumaça branca. No banco traseiro, estava uma sofisticada e indefesa senhora. JP se aproximou, ofereceu ajuda e conseguiu solucionar o danado do problema. Como forma de agradecimento, a senhora o deixou dirigir o Rolls-Royce até Paris.

A mulher em questão era a esposa de um famoso joalheiro parisiense. Ela e JP acabaram se tornando amantes e o garotão ganhou de presente vinhos, roupas e visitas a locais badalados da Cidade Luz, como o Museu do Louvre e o café antigamente frequentado por Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre e outros nomes da esquerda francesa.

Duas semanas após o início do romance proibido, Van Rossem confessou que teria de retornar para Gent e que provavelmente não voltaria a Paris tão cedo. A dondoca obviamente ficou triste, mas não deixou de lhe oferecer a possibilidade de escolher um grande presente. “Qualquer coisa que você quiser”, ressaltou. Jean-Pierre pediu uma Ferrari como aquela que havia vencido as 24 Horas de Le Mans de 1965. O pedido não foi recusado e o belga se deu muito bem.

Jean-Pierre Van Rossem concluiu sua graduação em 1967 com a monografia “A Velocidade do Dinheiro: Abordagem Teórica Para a Compreensão e Aplicação Prática na Bélgica”. “Velocidade do dinheiro”, para quem não tem afinidade com esse tipo de conceito, se refere à maior ou menor circulação de determinada quantidade de dinheiro em certo período. Em poucas palavras, quanto mais “veloz” é o dinheiro, mais transações serão feitas com ele em menor tempo: a dona-de-casa compra frutas com o feirante, o feirante conserta seu sapato com o sapateiro, o sapateiro compra jornais na banca, o dono da banca compra cachaça e por aí vai.

Em 1968, “A Velocidade do Dinheiro” conquistou o prêmio de melhor artigo apresentado na Feira Internacional de Comércio de Flandres. Com o dinheiro do prêmio e o currículo turbinado, Jean-Pierre Van Rossem descolou uma vaga para estudar com o falecido Lawrence Klein, um dos maiores especialistas em Econometria que já existiram, na Universidade da Pensilvânia. Mas a empreitada não deu certo. O belga ficou nos Estados Unidos por apenas quinze meses e logo voltou para a Bélgica.

No seu país de origem, Van Rossem se ocupou com várias coisas. Mesmo sem estar vinculado a uma universidade, ele seguiu escrevendo artigos sobre Economia e Política, além de romances e até mesmo histórias em quadrinhos. Como forma de ganhar dinheiro fácil, Jean-Pierre fundou a Metodika, uma consultoria financeira destinada a atender universitários oriundos de famílias ricas. Pelo que pude entender, a Metodika não só fornecia orientação aos jovens abonados sobre como investir bem sua fortuna como também intermediava aplicações no mercado financeiro. Ou seja, o moleque entregava seu dinheiro a Van Rossem, que o investia nas operações mais rentáveis e depois o retornava, multiplicado, ao seu dono original.

Alguns dos carros baratos da frota de Van Rossem

Alguns dos carros baratos da frota de Van Rossem

Mas nada disso realmente seduzia o marxista Jean-Pierre Van Rossem. Os artigos acadêmicos e a Metodika lhe serviam apenas para colocar o pão na mesa. Silenciosamente, ele vinha desenvolvendo outro projeto, algo bem maior e mais pretensioso. Falo disso daqui a pouco.

No início dos anos 70, quando já era um cara razoavelmente respeitado tanto na academia como no mercado financeiro, Jean-Pierre van Rossem se meteu em suas primeiras grandes enrascadas na vida. Em 1971, ele foi condenado a um ano de prisão após falsificar documentos e emitir cheques falsos. Dois anos depois, Jean-Pierre arranjou um problema ainda maior com a justiça belga por causa dela mesma, a heroína.

Van Rossem teve seu primeiro contato com a droga no final dos anos 60. Não demorou muito e o cara pirou de vez, gastando todo o seu dinheiro em seu vício e estragando sua vida por completo. Com o tempo, deixou de praticar esportes, sair com mulheres ou apreciar qualquer forma de cultura. Na sua fase mais complicada com a heroína, chegou a pesar apenas 46 quilos, algo impensável para um sujeito que se tornaria conhecido pela obesidade na época da Onyx. Em 1973, Jean-Pierre foi condenado a quatro anos de prisão.

Não posso deixar de dizer que o duro período de encarceramento o fez muito bem. Van Rossem saiu do presídio totalmente limpo, sem a menor vontade de voltar a usar a porra da heroína. De volta à sua vida normal, ele pôde levar adiante o seu grande projeto. Mas do que estou falando?

Com a Metodika, Jean-Pierre Van Rossem chegou a duas conclusões muito interessantes. A primeira delas, totalmente coerente com sua posição política, é que o capitalismo é um troço naturalmente fadado ao fracasso exatamente por conta da dinâmica do mercado financeiro. Segundo ele, o comportamento tipicamente especulativo dos agentes que vendem e compram produtos financeiros torna todo o sistema instável e constantemente perto da falência. Portanto, cabia a ele, seguidor fiel das ideias de Marx, tentar apressar ao máximo o fim do capitalismo justamente por meio do crescimento do mercado financeiro. A segunda conclusão é que esse negócio de tentar derrubar um sistema poderia ser muito lucrativo.

Sendo assim, Van Rossem decidiu criar um sistema que, por meio da previsão do comportamento futuro dos grandes mercados financeiros, gerasse ao investidor a melhor alternativa possível de investimento. Dou um exemplo: se os Estados Unidos entrassem em guerra contra um país produtor de petróleo no Oriente Médio, esse sistema diria que não é bom investir na Bolsa de Nova Iorque e que o ideal é manter a cautela e comprar metais e títulos públicos, que são as aplicações mais confiáveis naquele momento.

Onde Jean-Pierre queria chegar? Se esse sistema realmente se provasse muito mais inteligente e eficiente que qualquer corretor de investimentos ou computador, os grandes investidores internacionais o adotariam e aumentariam ainda mais suas aplicações. Com isso, o mercado financeiro se expandiria ainda mais, todos ficariam excessivamente empolgados e se meteriam com investimentos cada vez mais arriscados. Num belo dia, assim como ocorreu em 1929, a bolha explodiria e toda a economia capitalista implodiria. Voilà! Dessa forma, Jean-Pierre Van Rossem teria utilizado o próprio capitalismo para destruir o capitalismo.

O melhor de tudo é que, enquanto isso não acontece, ele seguiria embolsando milhões de dólares de corretagem com os investidores que utilizariam seu sistema. Não é conveniente?

Pois é. Animado com seu sonho ideológico maior, Jean-Pierre Van Rossem mobilizou uma grande equipe de matemáticos, economistas e profissionais de informática e desenvolveu ao longo de duas décadas um complexo sistema computadorizado de análise de mercado financeiro. O nome do brinquedinho? Moneytron.

Você não precisa ser um gênio das finanças para compreender como funciona o tal do Moneytron. Um enorme banco de dados com 248 variáveis relacionadas à economia (PIB, taxas cambiais, juros, cotações de diferentes bens e ativos financeiros, tributos), à política (decisões tomadas por governantes, tendências políticas), à geopolítica (conflitos entre países, taxas alfandegárias) e até mesmo à cultura e à sociedade de diversos países fornece informações a um algoritmo, que as processa através de um complexo arranjo de 200 equações diferenciais e, em seguida, emite pareceres mostrando quais são os melhores investimentos que podem ser feitos considerando todo o contexto geral. Assim, se o programinha entende que os juros do Brasil são mais altos que os do México, ele diz para o cara esquecer os chicanos e aplicar na nossa economia. Entendeu?

Moneytron, o sistema computadorizado que fez de Jean-Pierre Van Rossem um dos homens mais ricos da Bélgica

Moneytron, o sistema computadorizado que fez de Jean-Pierre Van Rossem um dos homens mais ricos da Bélgica

Numa época em que internet era palavrão e os computadores ainda não sabiam fazer muita coisa, o Moneytron foi visto como algo revolucionário por financistas, economistas e nerds. Grandes investidores logo passaram a requisitar os serviços de Jean-Pierre Van Rossem, entregando suas fortunas para que o barbudão fizesse as melhores aplicações possíveis a partir do que o sistema dizia. Não demorou muito e Van Rossem ficou podre de rico.

Jean-Pierre administrava o Moneytron diretamente de sua mansão, na Antuérpia. Acordava, bocejava, tomava um café, engolia um croissant, entrava em uma sala de acesso restrito, ligava seu supercomputador, alimentava o banco de dados com informações novas, monitorava o processamento de todo o negócio, analisava os relatórios emitidos, acessava os mercados financeiros (principalmente a Bolsa de Valores de Nova Iorque) e fazia os investimentos considerados mais rentáveis e seguros em nome de seus clientes.

Aparentemente, o treco funcionava que é uma beleza. Segundo o próprio Jean-Pierre Van Rossem, as margens de lucro se mantinham em patamares altíssimos, entre 52 e 376 por cento. Por conta disso, o belga se deu ao luxo de poder escolher seus clientes, dispensando quem não tivesse condições de aplicar pelo menos 50 milhões de dólares. Ele faturava com as comissões que decorriam exatamente dos polpudos lucros dos investimentos. Vale notar que nenhum centavo de seu bolso foi reinvestido em aplicações balizadas pelo Moneytron.

Nos cinco primeiros anos de atividade, o Moneytron rendeu ao seu criador um faturamento assustador de até 500 milhões de dólares. No auge do uso da traquitana, em 1988, Jean-Pierre Van Rossem chegou a amealhar irreais 791 milhões de dólares de patrimônio. Entre suas maiores extravagâncias, podemos contabilizar um dos maiores iates então existentes no mundo, vinte Ferraris (somente uma delas, uma GTO dos anos 60, valia 8,5 milhões de dólares), um Lamborghini Countach, um Ford AC Cobra e várias festas com astros de Hollywood.

Uma das grandes paixões de Jean-Pierre Van Rossem, além do marxismo e da cultura, era a velocidade. Na adolescência, ele costumava disputar corridas de bicicleta com o amigo Willy Bocklant, que se tornaria um dos melhores ciclistas da Bélgica, e surpreendentemente ganhou muitas delas. Ao ficar rico, Jean-Pierre começou a se envolver com alguns eventos automobilísticos na Bélgica. Consta que, em certa ocasião, vários donos de carros Ferrari se reuniram em Spa-Francorchamps para uma corrida demonstrativa. Nosso herói financista levou sua GTO, não deixou nenhum zé-mané colocar suas mãos sujas e pobres no carrão, entrou na pista e conseguiu marcar o melhor tempo entre todos os convidados daquele encontro. Nem mesmo o peso e os cabelos intermináveis o atrapalharam.

Apesar disso, Van Rossem jamais tinha tido qualquer intenção de injetar dinheiro na Fórmula 1. A Moneytron não era exatamente uma empresa, não produzia nada, não tinha lá muitas intenções de expandir sua base de clientes e obviamente não precisava patrocinar porcaria alguma. Sua intenção maior, no caso da Onyx, era simplesmente permitir que um piloto belga (OK, luxemburguês naturalizado belga) pudesse competir com alguma dignidade em 1989.

No início de 1989, Jean-Pierre Van Rossem marcou uma reunião com a diretoria da Onyx fazendo uma proposta bastante interessante. Ele não pretendia tirar dinheiro do próprio bolso para ajudar a escuderia em um primeiro instante, mas poderia pegar os 2,5 milhões de dólares que ela tinha, investi-los no mercado financeiro através dos diagnósticos fornecidos pelo Moneytron e retornar com um montante bem maior. Nesse caso, Van Rossem, que só trabalha com valores muito altos, teve de abrir uma exceção.

Os caras da Onyx, desesperados, aceitaram a proposta e lhe entregaram os dois paus e meio. Jean-Pierre Van Rossem aplicou a grana e, três semanas depois, conseguiu devolver à equipe inglesa 9,5 milhões de dólares, dinheiro que por si só já possibilitaria sua participação na temporada de 1989. Empolgada, a Onyx decidiu reinvestir cinco milhões de dólares para aumentar ainda mais seu orçamento.

Nesse momento, Van Rossem apresentou outra proposta: ele investiria quatro milhões de dólares do próprio bolso na Onyx se Mike Earle, Jo Chamberlain e Paul Shakespeare aceitassem transferir todas as ações da escuderia a ele. Babando com a possibilidade de poderem participar de um projeto rico e promissor logo de cara, os três britânicos não pensaram duas vezes e entregaram sem pestanejar suas ações a Jean-Pierre, que acabou se tornando o único proprietário da Onyx Grand Prix em 1989.

Com o dinheiro de Jean-Pierre Van Rossem, a tempestade acabou e todos lá em West Sussex passaram a acreditar que o ano de 1989 seria muito melhor do que o esperado. As incertezas haviam chegado ao fim, os trabalhos continuaram a todo vapor e a Onyx realmente seria a vigésima equipe daquela temporada.

No próximo capítulo, contarei um pouco sobre a primeira pré-temporada da história da equipe na Fórmula 1.

Em 1988, apesar da disputa na Fórmula 3000, os olhos da Onyx estavam voltados para seu futuro na Fórmula 1

Em 1988, apesar da disputa na Fórmula 3000, os olhos da Onyx estavam voltados para seu futuro na Fórmula 1

Voltamos! Depois de duas semanas de bebedeiras e comedeiras, um heptacampeão acidentado e dois posts sem qualquer relação com a coisa, o Bandeira Verde retoma a série sobre a equipe mais legal e icônica da história da Fórmula 1? Ferrari? Williams? Lotus? McLaren? Nada disso. Estamos falando da Onyx, aquela que se tornou conhecida entre os fanáticos patológicos por automobilismo pela beleza de seus carros e pelo seu fracassado modelo administrativo. Tendo sobrevivido por apenas um ano e meio, a Onyx é um exemplo de como sepultar rapidamente uma equipe com bastante potencial.

Nos cinco primeiros capítulos, me esbaldei de falar sobre Fórmula 2, Fórmula 3000 e o diabo. Os acessos nesse blog não foram muitos, o que prova que a humanidade está errada de forma geral, mas é bem possível que o interesse se reacenda daqui em diante. Depois de acumular sucessos (e também vários fracassos) nas categorias de base, o já veterano Mike Earle estava disposto a alçar sua escuderia ao mais alto dos patamares do automobilismo: a Fórmula 1.

Onde parei? Ah, sim, em 1988, o melhor ano de todos os tempos.

A Onyx tinha tido uma temporada lamentável na Fórmula 3000. Apesar da bufunfa que a Marlboro injetava em seus cofres, a equipe sofreu com um chassi March incapaz de superar os Reynard e também com a incompetência de seus pilotos. No fim das contas, apenas cinco pontos foram marcados com o alemão Volker Weidler. Uma tristeza.

Mas Mike Earle não estava muito preocupado. A Fórmula 3000 era apenas uma forma de sua escuderia não ficar de fora de qualquer competição em 1988. Seu foco era outro naquele momento.

Desde o fim de 1987, a Onyx já vinha falando seriamente em Fórmula 1. Bem que ela tentou adiantar algumas coisas para ver se dava para estrear ainda em 1988, mas como as primeiras ideias haviam surgido meio tarde, Earle decidiu fazer tudo com mais calma visando a temporada de 1989, quando todos os carros já estariam andando com motor aspirado.

Certas coisas, no entanto, foram definidas desde muito cedo. O primeiro carro de Fórmula 1 da escuderia seria projetado pelo inglês Alan Jenkins e utilizaria o motor Ford Cosworth DFR preparado por Brian Hart, exatamente o último homenageado por este blog. O patrocínio da Marlboro estava garantido, sendo que ela aparentemente teria o direito de escolher ao menos um dos pilotos. Os nomes mais citados em meados de 1988 eram os de Stefano Modena, campeão de Fórmula 3000 no ano anterior com a própria Onyx e piloto da Eurobrun na F-1, e J. J. Lehto, finlandês que vinha barbarizando no campeonato inglês de Fórmula 3. Não obstante, a dupla de pilotos para a temporada de estreia não era um assunto para ser resolvido tão logo.

A Marlboro continuaria patrocinando a Onyx, mas só com alguns trocados

A Marlboro continuaria patrocinando a Onyx, mas só com alguns trocados

Durante o ano de 1988, as notícias que surgiam sobre a Onyx não eram muitas e talvez nem tão animadoras ou positivas, o que denotava certa falta de fé dos jornalistas com relação ao projeto. Apesar da redução drástica de custos que o novo regulamento de motores proporcionaria, a esquadra de Mike Earle teria enormes dificuldades para encontrar pelo menos os dez milhões de dólares necessários para a sobrevivência de uma equipe pequena. A Marlboro, que já despejava um caminhão de dinheiro na McLaren e também apoiava outras equipes e pilotos, certamente não poderia contribuir com muito. Durante um período, surgiu um boato de que o grupo japonês Leyton House, que já apoiava a March, poderia também patrocinar a Onyx, mas tudo não passou de bullshit.

Nos meses finais de 1988, enquanto Ayrton Senna e Alain Prost se engalfinhavam pelo título da temporada, a FISA coçava a cabeça com uma lista de inscritos que não parava de crescer. Na mais absurda das hipóteses, a Fórmula 1 poderia ter até 46 (!) carros tentando largar para os 16 GPs a serem realizados em 1989. Quer saber a relação das vinte e três equipes que poderiam participar? McLaren, Ferrari, Williams, Benetton, March, Lotus, Arrows, Tyrrell, Rial, Minardi, Larrousse, Ligier, AGS, Dallara, Coloni, Zakspeed, Eurobrun, Osella, Brabham, First Racing (equipe de Lamberto Leoni que competia na Fórmula 3000), Life (aquela mesma, que obviamente não pretendia usar o carro da First como acabou acontecendo em 1990), ATMOS (projeto do francês Jean Mosnier, que comandava as operações da Lola na Fórmula 3000) e a nossa querida Onyx. Diante de tal possibilidade, a Federação acabou cancelando a obrigatoriedade de inscrição de dois carros, algo que ela queria ter implantado já em 1989.

Bons tempos. Havia até mais vagas disponíveis do que pilotos e estes obviamente tinham totais possibilidades de escolha. Caras como Michele Alboreto, Stefan Johansson e Stefano Modena conversavam com várias equipes ao mesmo tempo e sabiam que caso perdessem uma vaga na Escuderia A, poderiam assinar com a Escuderia B numa boa e garantir seu emprego em 1989. As crianças que competiam na Fórmula 3000 também estavam muito animadas. Ao contrário de 2014, haveria em 1989 um monte de lugares onde elas poderiam estrear na Fórmula 1.

Nesse mercado extremamente aquecido, a Onyx saía em desvantagem em relação às demais equipes pequenas. Em estágio inicial de estruturação, ela ainda não tinha como provar a um piloto experiente que poderia ser uma casa melhor que a Eurobrun, por exemplo. Quem assinasse com ela saberia que estaria dando um tiro no escuro. Com uma pré-classificação inchadíssima, quem poderia garantir que a Onyx conseguiria escapar dela com alguma dignidade?

Em setembro, enfim, uma boa notícia: o milionário inglês Paul Shakespeare surgiu do nada e decidiu comprar a maior parte das ações da equipe. Com isso, a Onyx conseguiu um importante reforço financeiro que lhe permitiria não só desenvolver o carro sem tanto medo de quebrar a cara como também provar ao mercado que a equipe tinha algum cacife e não estava vindo para a Fórmula 1 para brincar.

A chegada de Shakespeare permitiu que a Onyx tivesse alguns bons avanços nas semanas seguintes. Para melhor acomodar a estrutura de fabricação dos carros, os chefões da escuderia adquiriram um amplo espaço industrial na mansão Westergate House, em Fontwell. Os primeiros motores Ford Cosworth DFR começaram a chegar na nova sede e o próprio chassi já estava em fase final de desenvolvimento, embora ainda houvesse um bocado a ser feito até ele poder entrar na pista para testes.

Stefan Johansson e sua cara de roqueiro decadente: o sueco foi o primeiro piloto a ser confirmado pela Onyx

Stefan Johansson e sua cara de roqueiro decadente: o sueco foi o primeiro piloto a ser confirmado pela Onyx

Nos dias seguintes ao Grande Prêmio da Austrália, última etapa da temporada de 1988, a mídia inglesa divulgou a informação de que o sueco Stefan Johansson poderia assinar com a Onyx para a temporada de 1989. Experiente, veloz e não muito caro, Johansson era exatamente o tipo de cara que uma equipe novata e desesperada necessita. E ele mesmo precisava de ares novos, já que sua passagem pela Ligier havia sido desastrosa. Um casamento conveniente para os dois lados, em suma.

No dia 29 de novembro, Mike Earle confirmou que Stefan Johansson seria o primeiro piloto da Onyx em 1989. O nórdico sabia que havia acabado de pegar uma pedreira: teria de liderar todo o desenvolvimento do novo carro e também arriscar seu pescoço e sua reputação nas pré-classificações mundo afora. Mas ele, que nunca foi um cara muito esquentado, parecia bem tranquilo: “Se você tem fé no projeto da sua equipe, então não há problemas”.

Mike Earle demoraria um pouco mais para confirmar o companheiro de equipe de Johansson. Stefano Modena era o candidato favorito ao segundo carro, mas ele também conversava com os caras da Eurobrun e da Brabham. Caras? Um cara só. No fim de 1988, tanto a Eurobrun como a Brabham pertenciam a um só cara, o magnata suíço dos jogos de azar Walter Brun. Caso as conversas com Brun não avançassem, Modena teria caminho livre para ir para a Onyx. Mas havia outros nomes em consideração.

Um deles, acredite, era o do ferrarista Michele Alboreto. Este daqui vinha passando por uma fase conturbada: foi descartado dos planos da Ferrari para 1989 ainda muito cedo, assinou um contrato com a Williams, teve esse contrato rasgado depois que Frank Williams decidiu continuar com Riccardo Patrese e acabou tendo de caçar alguma vaga aberta por aí. Além da Onyx, Alboreto considerava várias outras possibilidades, algumas delas totalmente indignas: Benetton, Lotus, Tyrrell, Brabham, Rial, Coloni, Eurobrun, Zakspeed, First, até mesmo a campeoníssima McLaren no caso da comentada possibilidade de aposentadoria de Ayrton Senna. Quer dizer, o cara estava atirando para todos os lados torcendo para que ao menos um dos alvos fosse atingido.

Outro nome bastante mencionado era o do também italiano Nicola Larini. Ele estava competindo pela malfadada Osella e sabia que não chegaria a lugar nenhum se continuasse por lá. Como Larini era um dos muitos pilotos patrocinados pela Marlboro, ele poderia ingressar na Onyx por meio da tabaqueira no caso de Stefano Modena assinar com a Brabham. Suas possibilidades, no entanto, não pareciam muito altas.

Dentro do universo “pilotos italianos apoiados pela Marlboro”, um nome que ressurgia das cinzas era o de Emanuele Pirro. Se vocês se recordam bem, Pirro foi piloto da Onyx na Fórmula 2 e na Fórmula 3000 entre os anos de 1984 e 1986. No ano de 1988, ele trabalhou exaustivamente como piloto de testes da McLaren no circuito de Suzuka. Dizem as boas línguas que Emanuele foi um dos grandes responsáveis pelo brilhantismo do MP4/4. Para a Onyx, ele seria uma ótima opção.

A contratação surpreendente: Bertrand Gachot

A contratação surpreendente: Bertrand Gachot

Por fim, ainda havia a possibilidade de J. J. Lehto fazer sua estreia antecipada na Fórmula 1. O finlandês dominou a temporada de 1988 da Fórmula 3 britânica e já havia sido confirmado como primeiro piloto da Pacific na Fórmula 3000 no ano seguinte. Mas ele, no entanto, tinha pressa. Lehto chegou a conversar com o pessoal da Dallara visando um carro de Fórmula 1 em 1989, mas os homens da Marlboro vetaram as negociações. A Onyx poderia ser sua casa caso as negociações com Modena, Alboreto, Larini e Pirro falhassem. Um cenário pouco provável, é bom que se diga. Tudo indicava que a dupla da Onyx em 1989 seria composta por Johansson e Modena.

Pois é, só faltou avisar o piloto italiano. No fim de dezembro, Stefano Modena assinou contrato com a Brabham e deixou Mike Earle com as mãos vazias. Dessa forma, Nicola Larini passava a ser o favorito ao posto de companheiro de Stefan Johansson. Os jornalistas ingleses diziam que Nicola levaria cerca de 1 milhão de libras esterlinas e ainda satisfaria um suposto patrocinador italiano que estava interessado em investir uma caralhada de liras na Onyx. Esse dito patrocinador, como o tempo haveria de provar, não existia.

O que fazer? Como Michele Alboreto já havia sido confirmado pela Tyrrell, seria Larini realmente a opção mais confiável? Ou seria mais interessante pegar alguém de fora, como Pirro ou Lehto? Os diretores da Onyx, Mike Earle, Jo Chamberlain e Paul Shakespeare, discutiram muito a respeito. E tomaram uma decisão definitiva na semana após o Natal. Decisão essa que só seria anunciada oficialmente após o Ano Novo.

Nem Larini, nem Pirro, nem Lehto. O nome escolhido para o segundo carro da Onyx é o do belga Bertrand Gachot, 26 anos. Todos ficaram bastante surpresos com o anúncio, já que Gachot jamais havia sido mencionado como candidato à vaga na equipe inglesa. Até então, ele estava prestes a assinar com a Rial e também vinha conversando com a First Racing.

Gachot foi um dos personagens de destaque na Fórmula 3000 em 1988, tendo feito uma pole-position e obtido dois pódios com uma equipe que não estava entre as melhores. Nas categorias menores, notabilizou-se por um quebra-pau ferrado com o brasileiro Marco Greco e uma capotagem assustadora em Zandvoort nos tempos da Fórmula Ford. Apesar disso, tratava-se, sim, de um bom piloto.

“Estou feliz pra caramba. Acredito no projeto e, ao que parece, o carro ficará bastante bonito. Se a equipe estivesse interessada somente em dinheiro, poderia ter escolhido qualquer piloto italiano. Estou empolgado em conseguir fazer minha estreia na Fórmula 1 com a Onyx”, afirmou Gachot com sua característica voz fina de boiola. Ele tem razão, mas não muita. A Marlboro, que o patrocina desde o início da carreira, foi um fator determinante para sua contratação.

A salvação?

A salvação?

Com Stefan Johansson e Bertrand Gachot, a Onyx finalmente resolveu um de seus grandes problemas. Mas havia outro, de resolução bem mais difícil: o orçamento.

Até o início do ano, a equipe de Mike Earle, Jo Chamberlain e Paul Shakespeare havia amealhado apenas 2,5 milhões de dólares. Essa quantia, a bem da verdade, estava mais para a realidade da Fórmula 3000 do que para a da Fórmula 1, onde qualquer equipe pequena gastava pelo menos o quádruplo disso durante uma temporada. O dinheiro de Shakespeare, o apoio histórico da Marlboro e a grana que Gachot trouxe por meio da CAPA não eram suficientes para uma existência digna. Caso não ocorresse um milagre, a Onyx não conseguiria fazer sua tão esperada estreia na Fórmula 1.

Vocês acreditam em milagres?

Bertrand Gachot sabia que precisava ajudar a Onyx de alguma forma. Mesmo que ele não tivesse entrado por conta de muito dinheiro, não era possível dar-se ao luxo de cruzar os braços e esperar o navio afundar. Caso ele obtivesse ao menos uns 100 milhões de francos belgas, o equivalente a pouco mais de três milhões de dólares, já daria para resolver alguns problemas. A mídia belga, ávida por ver mais um piloto que representasse seu país na Fórmula 1 (Thierry Boutsen já estava lá), concedeu razoável espaço ao drama de seu pupilo.

A partir daí, a história fica razoavelmente nebulosa. Não sei dizer qual dos lados fez o primeiro contato, cada um afirma que a iniciativa foi tomada por ele próprio, atualmente os dois nem se falam, mas o fato é que a aproximação aconteceu. Como não quero arriscar uma injustiça, conto as duas versões que encontrei e deixo o veredito para vocês.

Bertrand Gachot afirma que, ainda na ávida busca por dinheiro que ajudasse a salvar o sonho da Onyx, acabou se interessando pela história recorrente em jornais e revistas da época sobre um economista que ficou multimilionário com um programinha de computador. Impressionado, Gachot foi atrás desse economista e apresentou sua história. O homem de negócios se compadeceu da situação do piloto e decidiu lhe ajudar, fazendo uma proposta ao mesmo tempo dura e irrecusável à própria Onyx. Essa é a versão contada a partir do ponto de vista do piloto.

Em entrevista à Autosport, o tal economista contou uma história ligeiramente diferente. Diz o cara que ele tinha ouvido falar sobre a preocupante situação de Bertrand Gachot, que precisava de pelo menos 100 milhões de francos belgas para garantir a participação da Onyx na Fórmula 1. Como essa quantia não poderia ser arranjada de um dia para o outro, o bondoso economista decidiu salvar a carreira do jovem piloto procurando a Onyx e lhe fazendo uma proposta salvadora. Quer dizer, são versões com diferenças sutis, mas marcantes. Ambos querem, cada um a seu modo, puxar a sardinha para seu lado.

Mas do que estou falando? Lógico que o economista em questão é ninguém menos que o mítico, folclórico, bizarro e inacreditável Jean-Pierre Van Rossem, criador de um troço tão espaventoso quanto obscuro chamado Moneytron. Segurem a barra, pois o próximo capítulo vai dissecar a vida desse enigmático barbudo.

teofabi

Ayrton Senna costumava dizer que este era o ponto fraco de seu carro. Rubens Barrichello não via a hora de trocá-lo por um Peugeot que tinha algo em torno de sessenta cavalos a mais. Outros pilotos também compartilhavam da insatisfação, alguns de forma resignada, outros com um discurso mais maledicente. O alvo de todo esse bombardeiro era o motor Hart, símbolo de uma época em que pequenos fabricantes podiam construir seus propulsores de forma artesanal e instalá-los em carros de Fórmula 1. Verdade que eles não conseguiam lutar de igual para igual com as grandes fábricas, mas o que valia era a intenção.

No último domingo, o automobilismo chorou a morte do construtor inglês Brian Hart. Aos 77 anos, Hart faleceu em um hospital após longa batalha contra uma doença não revelada. Ele já estava fora do automobilismo fazia algum tempo, mais precisamente desde 1999, quando a Arrows utilizou um motor fabricado sob seus cuidados nos carros de Pedro de la Rosa e Toranosuke Takagi. Não era exatamente o mais potente e resistente dos propulsores, mas era o que estava mais ao alcance da claudicante escuderia de Tom Walkinshaw.

“Não era exatamente o mais potente e resistente dos propulsores”. Essa frase, de alguma forma, se aplica a tudo o que Brian Hart produziu para a Fórmula 1. Fornecedor para equipes da categoria entre 1981 e 1999, Hart nunca conseguiu gozar de muito sucesso nesse patamar. O engenheiro britânico fazia o máximo que dava com o orçamento que tinha, que não era muito. Sem apoio oficial de qualquer parceiro de monta (como, por exemplo, a concorrente Ilmor teve com a Chevrolet e a Mercedes-Benz), Brian não possuía recursos para operar milagres e sonhar com vitórias e títulos. Restou apenas o folclore.

Mas quem diz que seu problema era incompetência não sabe o que diz. Brian Hart sempre foi muito bom tanto na arte de construir como na de pilotar. Pilotar?

Nascido em 1936, ele se apaixonou pelo automobilismo aos treze anos de idade, quando assistiu a um Grande Prêmio em Silverstone numa época em que nem mesmo a Fórmula 1 existia. Virou piloto e chegou a competir na Fórmula 2, conseguindo vencer corridas até mesmo em Enna-Pergusa. Então por que parou? Parou por quê?

Porque ele também trabalhava, desde 1967, como engenheiro aeronáutico. Nesse ramo, Brian conheceu gente bacana e dois desses seus novos amigos decidiram convidá-lo para trabalhar em sua modesta empresa de motores. Foi assim que o então piloto descolou um emprego de engenheiro na Cosworth de Mike Costin e Keith Duckworth.

Na Cosworth, Hart aprendeu as coisas de forma tão rápida que nem acabou ficando muito tempo por lá. Em 1969, ele fundou sua própria preparadora de motores, a Brian Hart Limited. A Ford, empresa conhecida de Hart lá dos tempos da Cosworth, ficou interessada nesse projeto e decidiu entregar ao jovem engenheiro todo o desenvolvimento dos motores da marca na Fórmula 2 e nos ralis. A parceria Hart-Ford deu muito certo e resultou nos títulos de Ronnie Peterson (1971) e Mike Hailwood (1972) na F-2.

Porém, com a chegada da Renault e da BMW na categoria, a Ford arregou e decidiu cancelar seus investimentos. Ao invés de acompanhá-la, a Brian Hart Limited decidiu continuar no certame fabricando seus próprios motores. Mesmo sem a grana vinda lá dos EUA, Brian Hart não perdeu a mão e seguiu ganhando corridas.

Em 1978, a Brian Hart Limited se associou à Toleman, equipe inglesa criada por Ted Toleman, magnata dos transportes na Inglaterra. A Toleman tinha dinheiro para gastar, recursos técnicos e muita disposição para vencer a Fórmula 2. A parceria, que tinha tudo para dar certo, realmente funcionou e a equipe gerenciada por Alex Hawkridge fez dobradinha com Brian Henton e Derek Warwick na temporada de 1980.

Depois de ter se tornado o bicho-papão da Fórmula 2, a Toleman decidiu pular para a Fórmula 1 em 1981. Bem que os caras tentaram um namoro com a italiana Lancia, mas a paquera não deu certo e eles tiveram de se contentar com os motores da Brian Hart Limited, que também faria seu salto maior no automobilismo. Para seu primeiro ano na F-1, Brian Hart construiu um propulsor turbinado e em linha com capacidade de 1,5 litros, o 415T.

1981 foi um ano dificílimo, com Toleman e Hart pagando pela inexperiência. Tanto o chassi TG181 como o 415T eram uma joça e nem mesmo os astros da Fórmula 2 Brian Henton e Derek Warwick deram um jeito de salvar as honras. Em doze GPs, cada um deles conseguiu largar apenas uma vez e apenas Henton logrou terminar sua corrida: décimo no GP da Itália. Se botassem um dos 500 caminhões que pertenciam ao grupo Toleman na pista, os dois botas britânicos teriam feito melhor.

1982 foi um pouco melhor. Brian Henton foi demitido e Teo Fabi foi contratado para ser o companheiro de Derek Warwick. Os resultados melhoraram um pouco, o carro vermelho e azul passou a ser visto em algumas corridas e tal, mas nada de pontos. O motor Hart, ainda em desenvolvimento, era muito frágil e não conseguia durar mais do que algumas voltas. Na penúltima corrida do campeonato, realizada em Monza, a Toleman ainda lançou o TG183, carro que seria utilizado na temporada seguinte. Sem quilometragem prévia, ele também não trouxe nada de novo nessa fase final.

Em 1983, a Toleman manteve Derek Warwick novamente, mandou Teo Fabi para a casa do capeta e trouxe para seu lugar o compatriota Bruno Giacomelli. Com novos patrocinadores, como a fabricante de eletrodomésticos Candy, deu para a equipe investir um pouquinho mais no desenvolvimento do seu razoavelmente promissor TG183. Brian Hart, já um pouco mais calejado com esse negócio de Fórmula 1, conseguiu implantar um sistema de ignição dupla no seu velho motor 415T.

No início da temporada, inúmeros problemas com a turbina Garrett impediram que Warwick e Giacomelli terminassem as primeiras corridas do campeonato. Irritados com tantos abandonos, tantos motores quebrados, tantas dores de cabeça, a Toleman e a Brian Hart Limited decidiram cortar relações com a Garrett e passaram a utilizar turbinas Holset. As quebras desapareceram e os resultados começaram a aparecer. Depois de tanto tempo de escuridão, Derek Warwick conseguiu nada menos que nove pontos nas últimas quatro corridas da temporada. Em Brands Hatch, além do quarto lugar do inglês, a Toleman ainda comemorou o sexto lugar de Bruno Giacomelli. Com dez pontos, a escuderia finalizou 1983 na nona posição. Naquela altura, o nome Hart começou a se tornar mais conhecido no paddock.

1984 é o excepcional livro de George Orwell (é excepcional mesmo, não morram sem lê-lo) e o ano em que a Toleman teve Ayrton Senna em um de seus carros. A história nós conhecemos bem: estreia abortada em Jacarepaguá, cãibra em Kyalami, não-qualificação em Imola, histórico segundo lugar em Mônaco, ultrapassagem sobre Lauda em Brands Hatch, acidente assustador em Hockenheim, briga com a equipe em Monza e novo pódio no Estoril. Os treze pontos marcados por Ayrton e os três que Stefan Johansson obteve em Monza garantiram à Toleman o sétimo lugar na temporada. Contudo, não foi um ano tão prazeroso assim para Brian Hart.

O motor Hart 415T, praticamente o mesmo de 1981, já não quebrava o tempo todo como antes, mas continuava sofrendo com a absoluta falta de fôlego. Seus 610 cavalos de potência no início da temporada não faziam cócegas aos 810 cavalos do TAG-Porsche ou do BMW. Brian Hart trabalhou, melhorou a questão do superaquecimento, implantou um sistema de injeção eletrônica a partir de Mônaco, arranjou novas turbinas a partir de Brands Hatch e conseguiu extrair 700 cavalos do velho 415T no final da temporada. Já era alguma coisa. Alguma coisa ainda bem distante.

Da mesma forma, 1984 foi o ano em que Brian Hart passou a fornecer motores a mais de uma equipe. Além da Toleman, as ridículas Spirit e RAM também equiparam em seus carros o 415T. Desnecessário dizer que elas só serviram para dar mais dor de cabeça a Hart.

OK, mas até onde vou chegar com isso?

Você viu que os primeiros anos dos motores Hart foram pra lá de complicados. Difíceis. Ingratos. Terríveis. Desastrosos. Péssimos. Horrendos. Tétricos. Assombrosos. Deprimentes. Sejamos honestos, os poucos bons resultados foram obtidos à revelia das qualidades do 415T, graças somente ao talento dos pilotos e aos bons chassis produzidos pela turma de Hawkridge. O segundo lugar de Ayrton Senna em Mônaco, por exemplo, foi obra apenas da destreza do piloto em pista molhada.

Dito isso, minha intenção é homenagear Brian Hart. Não é fácil escolher bons momentos proporcionados por esse motor. Mas não é que eles existem? Quero dizer, houve ocasiões em que o propulsor não atrapalhou tanto quando poderia. Destaco uma delas, a primeira pole-position da história da Hart na Fórmula 1.

Mas por que falo disso e não do pódio de Senna em Mônaco ou da pole-position de Rubens Barrichello em Spa-Francorchamps, por exemplo? Por uma única razão: 1985 foi uma das melhores temporadas da história em se tratando de disputas em treinos oficiais. Aquele ano representou o auge técnico do pega-pra-capar entre as equipes nas sessões de formação do grid de largada. Fabricantes de motores desenvolviam unidades que ultrapassavam facilmente os mil cavalos de potência e só podiam ser utilizadas por algumas voltas. Os pneus de classificação eram extremamente macios, permitindo que o piloto voasse por apenas duas ou três voltas. Havia até mesmo um prêmio para quem obtivesse a pole-position: a fabricante de motos Piaggio concedia ao autor da melhor marca uma motoneta Vespa zero quilômetro. Ayrton Senna, que sempre gostou dos sábados, levou nada menos que sete Vespinhas para casa naquela temporada.

Ou seja, obter uma pole-position nos tempos dos motores diabólicos, das pistas ultravelozes, dos pneus suicidas, de pilotos como Ayrton Senna e Keke Rosberg, da segurança ainda precária em alguns autódromos e do Troféu Vespa não era exatamente a coisa mais fácil do mundo. Pois o italiano Teo Fabi conseguiu. E com motor Hart.

Para chegar lá, voltemos a 1984. No início daquele ano, a Toleman teve uma briga seríssima com sua fornecedora de pneus, a Pirelli. O chefe Alex Hawkridge alegava que os compostos italianos eram muito ruins em comparação com os desenvolvidos pelas concorrentes Michelin e Goodyear e ainda afirmou que havia recebido uma proposta altamente tentadora da marca francesa, que não só concederia seus produtos de F-1 gratuitamente como ainda faria um descontão para o setor de caminhões do grupo. Hawkridge tentou cancelar o contrato com a Pirelli antes do GP de San Marino, Bernie Ecclestone não quis deixar e toda a história pode ser lida aqui.

Pirelli e Toleman romperam de vez após Imola e a equipe dos caminhões seguiu utilizando pneus antigos da Michelin até o fim da temporada. Todos na escuderia já estavam contando com o apoio oficial da fornecedora francesa para 1985, mas eis que ela pegou todo mundo de surpresa anunciando a saída imediata da Fórmula 1. (Parágrafo corrigido pelo leitor Vagner. Como agradecimento, estou lhe mandando credenciais para o GP da Croácia)

Sem nenhum acordo, a Toleman correu atrás da Goodyear, que afirmou que já fornecia para muitas equipes e não tinha como atender mais um cliente. Desesperada, a escuderia iniciou o ano de 1985 em busca de pneus. Na pré-temporada, ela desenvolveu seu novo chassi TG185 com compostos usados de nada menos que três marcas: Goodyear, Pirelli e Avon, esta última fornecedora oficial da Fórmula 3000. Na verdade, qualquer coisa estava servindo: Bridgestone, Dunlop, Continental, Kumho, Hankook, BS Colway, Bandag, enfim, até mesmo o velho estepe de seu Uno Mille estaria valendo. Mas não apareceu nada a tempo.

Descalça, a Toleman chegou a anunciar em março que não mais competiria na Fórmula 1, deixando a pé os pilotos contratados Stefan Johansson e John Watson. Quem a salvou do fim definitivo foi a coitadinha da Spirit, que estava com apenas quatro funcionários e não tinha condição alguma de terminar a temporada. Após o Grande Prêmio de San Marino, Alex Hawkridge apareceu do nada e ofereceu 620 mil dólares a Gordon Coppuck e John Wickham, os donos da Spirit, pelo único bem valioso que a equipe possuía, um contrato de pneus com a Pirelli. Aceitaram no ato.

Lógico que a Toleman não queria utilizar os pneus da marca italiana, que até pioraram em 1985, mas ela não tinha escolha. De contrato novo, Hawkridge correu contra o tempo para reestruturar sua escuderia. Descolou um bom patrocínio com a grife italiana Benetton, que já apoiava a Alfa Romeo, e convidou Teo Fabi para ser o piloto do único carro disponível até então. Assuntos resolvidos, a equipe conseguiu dar as caras no Grande Prêmio de Mônaco, quarta etapa da temporada.

Nas cinco primeiras provas que a Toleman disputou, nenhum sucesso. Teo Fabi largou sempre do meio para trás e não chegou ao final em nenhuma. Em Mônaco e no Canadá, o turbo quebrou. Em Detroit, a embreagem arrebentou. Na França, um problema de alimentação surgiu a poucas voltas do fim. Em Silverstone, o câmbio falhou. Trágico, trágico.

Mas todos tiveram motivos para sorrir em Nürburgring, nona etapa do mundial de 1985.

Apesar do abandono na corrida, a Toleman já havia ficado razoavelmente satisfeita com o fim de semana de Silverstone, em que Teo Fabi obteve uma razoável nona posição do grid de largada. Para a etapa da Alemanha, Brian Hart trouxe uma novidade: um novo sistema de gerenciamento eletrônico de injeção de combustível, que permitiu um aumento considerável da potência do propulsor. Some-se a isso a constante evolução dos pneus de qualificação da Pirelli, que conseguiram minimizar a defasagem em relação à concorrência, e a qualidade do chassi projetado por Rory Byrne e temos aí um conjunto interessante.

É uma pena que o próprio Byrne não tenha podido viajar a Nürburgring por conta de doença. Nem precisava. Ele passou boa parte da pré-temporada desenvolvendo o chassi TG185 no túnel de vento, trabalho este que resultou em uma dianteira diferente, que conseguia maior pressão aerodinâmica sem gerar resistência adicional ao ar. Jornalistas, especialistas e o próprio Teo Fabi não se furtavam em dizer: o chassi da Toleman é o melhor da temporada. Com um motorzinho apimentado, poderia fazer milagres. Com o que tinha em mãos, Brian Hart deu seu jeito.

Em 1985, o grid de largada era definido por dois treinos oficiais realizados na sexta-feira e no sábado. No primeiro dia, fez um sol meio tímido, mas caliente o suficiente para permitir o bom trabalho dos pilotos. O novo autódromo de Nürburgring, naquela época, era o que havia de mais moderno no automobilismo mundial: poucos trechos realmente velozes, muitas curvas de baixa marcha, grandes áreas de escape, barreiras de pneus, asfalto lisinho, bocejos. Um lugar ideal para um carro um pouquinho mais anêmico.

Teo Fabi surpreendeu a todos já no primeiro treino livre, marcando 1m20s317 e terminando a sessão na primeira posição – o segundo colocado, Niki Lauda e seu poderoso McLaren, foi superado em 142 milésimos. E no primeiro treino oficial, quando as coisas seriam pra valer?

Para essa fase, a Toleman optou por equipar o TG185 nº 19 com um motor normal de corrida, mais calmo e mais resiliente. Fabi foi à pista dois minutos após o início do treino e, logo de cara, marcou 1m19s1. Depois, voltou aos boxes, ficou por lá durante oito minutos e retornou à pista.

O italiano parecia estar apenas desfilando com seu bólido, tamanha era a facilidade com que enfrentava as curvas de Nürburgring. Sem dar uma de Keke Rosberg, ele apenas fazia seu trabalho, conduzindo o carro branco coberto com bandeiras de vários países na maior suavidade. De repente, o cronômetro acusa a surpresa: 1m17s429. Ele marcou uma volta inacreditável sem sequer assustar ninguém.

O pessoal no paddock ficou bobo. O carro de Fabi foi apenas o 14º mais rápido na medição de velocidade final, mas compensava com uma agilidade assombrosa nas curvas, resultado do equilíbrio do chassi e da aderência dos novos pneus Pirelli. Não havia como competir contra um cara desses. Bólidos como o da Brabham tinham até 100 cavalos a mais de potência, mas ficavam totalmente para trás por conta da aerodinâmica.

E foi isso mesmo. Os demais caras tentaram batê-lo de qualquer jeito, mas não conseguiram nada. No fim das contas, Fabi terminou a sexta-feira na pole-position provisória, com a mesma volta em 1m17s429. O segundo colocado, Stefan Johansson, fez um tempo 1s2 acima do do italiano. Naquele fim de semana, a Toleman estava metendo uma lavada em cima da concorrência. Sem motor de classificação, ainda por cima.

O próprio Fabi estava surpreso: “Depois do treino da manhã, sabia que o carro estava muito equilibrado, mas não esperava voltar a ser o mais rápido. De qualquer modo, esse resultado comprova que estamos no caminho certo: a equipe vem trabalhando muito, o Brian Hart está sabendo aproveitar o dinheiro investido na eletrônica dos seus motores e a Pirelli já tem bons pneus de classificação, o que não ocorria no início da temporada”. Depois, confessou seu real desejo: “Espero que chova amanhã”.

Choveu. Não havia jeito de melhorar o tempo. A pole-position já estava garantida para Teo Fabi.

Mas a segunda sessão classificatória tinha de ser realizada de qualquer jeito. Então, o engenheiro Pat Symonds (já ouviu falar dele?) teve uma “brilhante” ideia: mandar Fabi voltar à pista apenas para fazer alguma quilometragem na chuva. “Ele não era muito bom em pista molhada”, justificou posteriormente Symonds.

O resultado foi desastroso. Fabi perdeu o controle de seu TG185 e bateu violentamente na entrada do pitlane. O impacto foi colossal e o carequinha meteu a cabeçorra no volante do carro, perdendo a consciência no ato.

Outros tempos. Em alguns segundos, Teo já tinha recobrado a consciência. Os médicos se aproximaram do carro batido e lhe perguntaram se estava tudo bem. “Estou”, respondeu um baqueado Fabi. Aliviado, o pessoal de resgate o liberou imediatamente. Não houve visita ao centro médico, tomografia, exame de pupila, nada disso. Fabi falou que estava bem e todos acreditaram em sua palavra de homem atordoado.

Fabi voltou aos boxes pelos seus próprios meios e o pessoal da Toleman começou a lhe cobrir de perguntas. “Não me lembro de nada” e “em que posição eu terminei ontem?” foram algumas das palavras proferidas pelo ainda confuso italiano. Cientes de que Teo provavelmente havia sofrido uma concussão, o pessoal da Toleman o mandou para o centro médico. Ele ficou lá por algum tempo e depois foi liberado até mesmo para a corrida.

Corrida. A Toleman precisava de um ótimo resultado naquele domingo. Ela vinha tentando renovar o contrato de patrocínio com a Benetton em 1986 e também estava cortejando a Alfa Romeo visando uma futura parceria de fornecimento de motores. Caso Fabi saísse de Nürburgring com alguns bons pontos no bolso, tudo isso poderia ser conseguido.

Infelizmente, nada deu certo para ele. Logo na largada, a embreagem falhou e Fabi perdeu um monte de posições ainda antes da primeira curva. No fim da primeira volta, já havia caído para o oitavo posto. Os abandonos de Nelson Piquet e Ayrton Senna permitiram que ele subisse para o sexto lugar momentaneamente. Mas a embreagem, sempre ela, não quis colaborador e quebrou de vez, resultando no fim da prova para o italiano.

Essa foi possivelmente a única chance real de bom resultado que a Toleman teve naquela temporada. Mesmo assim, a equipe seguiu em frente, virou Benetton, ganhou títulos, virou Renault, ganhou mais títulos, virou Lotus e hoje luta para sobreviver.

E Brian Hart? Ele seguiu colecionando baixos em número muito maior do que altos, mas seus poucos grandes momentos foram realmente grandes, menos pelos resultados finais e mais pela luta contra adversários muito mais poderosos e endinheirados. A pole-position de Teo Fabi foi apenas um dos capítulos dessa luta.

Morre Brian Hart, morre um pouco desse automobilismo guerreiro, esforçado, suado e humilde, que reconhece limitações e continua brigando apenas pela esperança de que essa briga resulte em alguma coisa.

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