julho 2013


O carro da AGS em 1988. Mas espera aí: aquele não é Roberto Moreno...

O carro da AGS em 1988. Mas espera aí: aquele não é Roberto Moreno…

Depois de uma primeira temporada pra lá de difícil e ingrata, a Automobiles Gonfaronnaises Sportives fechou o ano de 1987 tendo aprendido um bocado e se ferrado outro tanto. Para a turma liderada pelo ex-mecânico Henri Julien, 1988 certamente seria melhor. Tinha de ser. O piloto Pascal Fabre e o carro JH22 foram apenas episódios infelizes de um passado que não tinha de ser ressuscitado. Bora pra frente que o futuro há de ser mais róseo para Gonfaron.

Apesar de a tempestade ter sido longa, a recompensa pelo esforço foi boa pra caramba. O brasileiro Roberto Moreno aguentou firme e levou seu precário carro vermelho e branco à sexta posição no GP da Austrália, auferindo um suado e sonhado pontinho. Esse ponto permitiu que a AGS se enquadrasse entre as treze melhores equipes de 1987, garantindo que a FOCA pagasse suas despesas de transporte em 1988. Para uma escuderia que vendia o almoço para pagar a janta de ontem, uma muito bem vinda esmolinha.

A AGS tinha boas esperanças para sua segunda temporada completa na Fórmula 1. Pela primeira vez em sua curta existência, ela estava construindo um carro do zero, sem utilizar nenhum chassi Renault velhusco como base. O patrocínio da grife italiana El Charro não estava garantido, mas o governo francês, sempre ele, queria ajudar a pequena equipe a lutar contra seus leões na Fórmula 1. Em dezembro de 1987, surgiram até boatos de que o governo local de Gonfaron estava por trás da construção de uma nova sede que estava sendo realizada nas dependências do circuito de Du Var. Não se sabe se essa mãozinha realmente existiu, mas o fato é que a AGS utiliza a estrutura de Du Var até os dias de hoje.

Em tese, o piloto da equipe em 1988 seria o mesmo Roberto Pupo Moreno do fim de 1987. Moreno tinha tudo o que uma escuderia nanica precisava: um currículo muito bom, conhecimento técnico, experiências anteriores em equipes grandes e muita cabeça. De quebra, ainda não custava caro. Em um primeiro instante, o carioca competiria com apoio da El Charro ou do governo francês. Mas a El Charro acabou pulando fora mesmo após a AGS ter cumprido o acordo de obter resultados razoáveis no fim da temporada de 1987 e os políticos franceses não estavam querendo gastar dinheiro público com um piloto que não representaria a bandeira bleu, blanc et rouge. A torta começou a desandar a partir daí.

Moreno terminou 1987 numa boa, celebrando a boa fase com os amigos e a família, ciente de que o próximo ano seria tranquilo como grilo. O negócio era aproveitar as merecidas férias em Brasília, aprender um pouco de francês e, então, esperar que a AGS o convocasse para as primeiras atividades da temporada vindoura.

Mas o telefone não tocava. E os dias se passavam.

Roberto começou a estranhar o silêncio. A AGS não lhe mandou um telegrama sequer em janeiro e no início de fevereiro. E quando teu chefe não se manifesta para nada, temos aí um sinal claro de que seus dias na empresa estão contados.

O simples porém belo carro acima não foi pilotado por Roberto Moreno em 1988...

O simples porém belo carro acima não foi pilotado por Roberto Moreno em 1988…

Os planos que Moreno tinha para os primeiros meses de 1988 restringiam-se a correr atrás de patrocinadores no Brasil e a esperar a convocação para a realização de testes da Europa. Uma das ideias da AGS para a pré-temporada era a de levar à pista o novo motor MGN W12, um propulsor que estava sendo preparado por Guy Nègre e que poderia ser equipado no carro de 1989. Nègre era amigo pessoal de Henri Julien, tendo sido convidado pelo próprio para projetar um carro de Fórmula 2 que acabou não sendo construído. A MGN pretendia entrar na Fórmula 1 em 1989 e a AGS seria a óbvia parceira de aventuras. Os primeiros testes com uma versão experimental do motor provavelmente seriam feitos por Moreno, que estava sentadinho em casa esperando algo acontecer.

Mas o telefone não tocava. E os dias se passavam.

Em meados de fevereiro, numa altura em que os testes de pré-temporada já ocorriam a todo vapor, Moreno decide ligar para o pessoal da AGS para ver o que estava acontecendo. E aí, galera, vamos testar ou não? Roberto, precisamos conversar.

Precisamos conversar. Que tipo de gente utiliza esta frase? Um cirurgião que tem de contar aos pais que o filho morreu após não resistir aos ferimentos de um acidente de moto. A namorada que quer terminar logo de uma vez o relacionamento de seis anos com o parceiro. O marido que arranja uma amante, fica com a consciência pesada e se vê obrigado a contar à ingênua esposa sobre o mais sórdido de seus segredos. O médico que precisa confirmar que, sim, aquela manchinha preta na pele é um câncer em estágio terminal. É lógico que “precisamos conversar” é uma expressão de merda que só serve como porta de entrada para as piores notícias do mundo.

Henri Julien precisava conversar. O mais rápido possível. Pessoalmente. “Você precisa vir para cá, Roberto”, afirmou. O piloto, que não tinha dinheiro para queimar na lareira, respondeu que só embarcaria para a Europa se alguém lhe pagasse a passagem. A AGS topou e financiou a amarga viagem. Ao chegar à França, Moreno foi a Nice e se encontrou com Julien em um botequim da cidade.

Você não será mais nosso piloto titular.

Sem delongas, Henri Julien apresentou a realidade nua e crua a Roberto Moreno. Sem a El Charro, a AGS esperava que alguma boa alma francesa aparecesse e injetasse a grana necessária para fechar o orçamento. Esperava-se também que o governo da França despejasse parte do rico dinheiro do contribuinte no projeto. E esperava-se também que o próprio Moreno encontrasse algum apoiador no Brasil. Como nada disso aconteceu, a equipe teve de apelar para um piloto pagante, ou ao menos um que pudesse seduzir os franceses. Lógico que o cara, neste caso, teria de ser nascido no país do Napoleão.

Philippe Streiff em Jacarepaguá, única corrida de 1988 em que a AGS apareceu com a pintura branca

Philippe Streiff em Jacarepaguá, única corrida de 1988 em que a AGS apareceu com a pintura branca

No dia 17 de fevereiro, a AGS anunciou seu piloto para 1988. Após algumas passagens irregulares pela Renault, pela Ligier e pela Tyrrell, o francês Philippe Streiff retornaria à pequena escuderia de Gonfaron como o único responsável por conduzir o JH23 pelas pistas do mundo. Do ponto de vista comercial, a contratação foi excelente. Graças a Streiff, a petrolífera Elf, a água mineral suíça Tennen e a construtora Bouygues decidiram patrocinar a pequena equipe, garantindo a ela um orçamento ao redor de 5 milhões de dólares em 1988. Não ria, pois essas cifras eram comuns naquela época. Além do mais, 5 milhões é dinheiro pra cacete.

Essa grana ajudou a equipe a terminar o JH23, um carro completamente diferente daqueles utilizados em 1986 e 1987. Para começo de conversa, o chassi era totalmente inédito, sem qualquer relação com os bólidos que a Renault havia utilizado em meados dos anos 80. Projetado por Christian Vanderpleyn, Michel Costa e Paul-Henry Monpied em apenas cinco meses, o JH23 era um bólido bem mais compacto e elegante do que os desajeitados JH21C e JH22. Minimalismo era a palavra de ordem.

Uma das novidades do regulamento da temporada de 1988 era a nova posição dos pedais, que não deveriam ultrapassar a linha correspondente ao eixo dianteiro. Isso levaria ao aumento da distância entre os pés do piloto e o bico do carro, medida tomada para melhorar a segurança dos carros. No caso da AGS, havia dois problemas a serem enfrentados: o fato da equipe nunca ter construído um carro do zero e o corpanzil de Philippe Streiff, um dos mais altos da Fórmula 1 daquela época.

Para aumentar o espaço disponível de Streiff dentro do cockpit, os engenheiros decidiram comprimir amortecedores e suas alavancas de acionamento em um sistema unificado de dimensões reduzidas posicionado sob o bico, o que permitiu ampliar ao máximo o espaço para os pés do piloto francês. Outras novidades referentes à miniaturização do carro foram a instalação do tanque de combustível de apenas 185 litros entre o banco do piloto e o motor e a construção de uma caixa de velocidades de comprimento 17 centímetros menor. O propulsor a ser utilizado seria o Ford Cosworth DFV V8, já que o MGN só ficaria pronto em 1989 e não havia dinheiro para adquirir uma versão mais atualizada do motor Ford.

O foda é que equipe pequena quase nunca consegue cumprir prazos. A AGS só conseguiu finalizar seu carro faltando apenas dez dias para as primeiras atividades do Grande Prêmio do Brasil, primeira etapa da temporada de 1988. Após conseguir montar um dos bólidos, a escuderia o levou para Paul Ricard apenas para ver se ele, branco como a mais pura cocaína, conseguiria sair do lugar. Philippe Streiff entrou na pista, fez algumas voltas não cronometradas e aparentemente gostou do que viu.

Mais uma "fotinha" do AGS branco. Detalhe para o freezer estiloso da Coca-Cola ali atrás

Mais uma “fotinha” do AGS branco. Detalhe para o freezer estiloso da Coca-Cola ali atrás

Após esse rápido shakedown, a AGS empacotou tudo e despachou sua carga para o Rio de Janeiro, palco do GP do Brasil naquela época. Apenas um dos chassis foi mandado para o Brasil, já que o outro ficaria na Europa para testes com o motor MGN. Henri Julien e companhia viajaram ao Brasil com algumas coisas ainda não resolvidas. Uma delas dizia respeito a patrocínio. A Bouygues já tinha sido confirmada como a apoiadora principal, mas seu logotipo ainda não tinha aparecido nos testes em Paul Ricard. Na certa, houve algum entrave burocrático, essa novela que nunca termina.

Outro pepino era Roberto Pupo Moreno. Disse o brasileiro em entrevista dada aqui mesmo que houve um desacerto entre ele e François Guerre-Berthelot, naquela altura já com um cargo de diretor na AGS. Segundo Moreno, Guerre-Berthelot descumpriu o acordo entre eles ao não pagar as passagens aéreas para o Japão e a Austrália, onde foram realizadas as duas últimas etapas de 1987. Os dois se encontraram no Brasil no início de 1988 e Moreno precisou recorrer a seus advogados para arrancar a grana que seu ex-patrão lhe devia.

Enquanto isso, a mídia europeia ventilava a possibilidade de o brasileiro assinar com a AGS para ser apenas o piloto de testes da escuderia em 1988 com vistas para uma possível promoção em 1989, quando a equipe provavelmente já conseguiria inscrever um segundo carro. Moreno testaria, entre outras coisas, o tal motor MGN que seria introduzido na temporada seguinte. Foi um desses boatos que, no fim das contas, acabaram não dando em nada. Roberto voltou suas atenções para a Fórmula 3000 e o resto é história.

Streiff chegou ao Rio, hospedou-se no hotel Intercontinental e passou quase que todo o tempo dando justificativas aos jornalistas brasileiros que queriam entender o porquê de o escolhido da AGS ter sido ele e não Roberto Moreno. Não havia como fugir das respostas óbvias. “Fui o escolhido porque meus patrocinadores são franceses” e “é uma pena que a equipe não tenha conseguido inscrever um segundo carro para Moreno” foram algumas das entediantes réplicas.

No passado, assim como nos últimos três anos, as apresentações oficiais da equipe costumavam ser pra lá de espartanas. Na quinta-feira anterior ao GP do Brasil, a AGS montou um pequeno regabofe para apresentar seus novos carro e piloto. Jornalistas e bicões deram as caras para comer de graça, bater um papo com Streiff e até levar para casa alguns souvenires da escuderia francesa. Não foi o mais badalado dos eventos relacionados à Fórmula 1 naquela semana, mas eu jamais reclamaria se tivesse sido convidado.

Philippe Streiff em Imola. Primeira corrida da AGS com sua nova pintura azul escura (não, não é preta) e laranja

Philippe Streiff em Imola. Primeira corrida da AGS com sua nova pintura azul escura (não, não é preta) e laranja

Vamos falar de corrida. Por ter participado de toda a temporada de 1987 e até marcado um pontinho, a AGS se livrou da malfadada pré-classificação, aquela que eliminava logo na sexta-feira de manhã os mais incompetentes. Em 1988, com 31 inscritos dando as caras em cada corrida, a pré-classificação se encarregaria de fechar a lista dos 30 pilotos que poderiam participar dos treinos oficiais, mandando um único desafortunado para casa mais cedo.

E não é que a Streiff mandou bem no primeiro fim de semana de Fórmula 1 em 1988? Mostrando serviço desde o primeiro treino livre, Philippe conseguiu um razoável 19º lugar no grid de largada, deixando para trás nada menos que onze pilotos, entre eles Stefan Johansson e Jonathan Palmer. Na corrida, Streiff teve problemas com os freios e com a suspensão traseira, abandonando na 35ª volta. Mas tudo bem, o ano de 1988 estava apenas começando.

Se o desempenho em Jacarepaguá já havia sido bastante satisfatório, o de Imola foi quase genial. Estreando pintura nova, Streiff assustou a todos marcando um espetacular nono tempo no segundo treino livre, realizado em pista molhada, e conseguindo a 13ª posição no grid de largada, de longe o melhor resultado da AGS na Fórmula 1 até então. O tempo de 1m32s013 era “apenas“ 4s865 mais lento que a pole-position de Ayrton Senna, mas bom o suficiente para colocá-lo à frente de carros da Arrows, March, Larrousse, Rial, Tyrrell, Dallara e Minardi. Será que a pequena escuderia de Gonfaron se tornaria uma notória participante do meio do pelotão?

Em Imola, o grande problema de Streiff vinha sendo a bateria de seu carro, que insistia em descarregar do nada. Ele teve essa dor de cabeça nos treinos livres, nos treinos oficiais (“se nada tivesse acontecido, eu teria conseguido uma posição entre os dez primeiros no grid”) e na corrida. Philippe largou bem e andou quase que a prova inteira na décima posição, ensanduichado entre as Arrows de Eddie Cheever e Derek Warwick. No final da corrida, o maldito problema elétrico dos treinos se repetiu e o piloto da AGS, que estava grudado em Cheever, acabou perdendo terreno e decaiu algumas posições. Ainda assim, terminou numa boa décima posição.

Em Mônaco, a turma da AGS foi às nuvens. Streiff foi décimo no primeiro treino livre, oitavo colocado no primeiro treino oficial (à frente de Michele Alboreto e Nelson Piquet) e 12º no grid definitivo, um dos melhores pilotos das equipes que não eram de ponta. Ainda assim, Philippe não estava satisfeito: o chassi utilizado no sábado foi o reserva, que não era tão bom como o titular.  Além do mais, os freios não funcionaram direito e ainda houve um pneu furado durante a última qualificação. O que será que Streiff teria conseguido se tudo tivesse dado certo?

Apesar do sábado relativamente difícil, o francês esperava marcar seus primeiros pontos do ano na corrida. Pena que o carro não colaborou, apresentando um problema de acelerador antes mesmo da largada, impedindo a participação de Streiff no GP. Fazer o quê? Bola para frente, pois o JH23 era um foguete perto dos antecessores e sonhar com pontos já não era mais uma coisa impensável para Henri Julien e companhia.

Streiff em sua melhor corrida do ano, no Canadá

Streiff em sua melhor corrida do ano, no Canadá

Hermanos Rodriguez, palco do GP do México, não era uma pista tão favorável assim para o carro aspirado da AGS. Philippe Streiff passou todo o tempo no meio do bolo, conseguindo como melhor resultado o 15º lugar no primeiro treino oficial. Mas como o desempenho na segunda sessão não foi bom, ele teve de se contentar com a 19ª posição no grid, ainda um milagre para uma equipe que havia iniciado o ano com pretensões pra lá de modestas.

No GP, Streiff largou bem e chegou a andar em 11º, mas perdeu posições no final e teve de remar muito até subir para a 12ª posição. Notável foi a facilidade com que ele ultrapassou concorrentes que, teoricamente, estavam na mesma nau técnica, como a Eurobrun de Oscar Larrauri e a Coloni de Gabriele Tarquini. Naquele momento, apesar de carente de recursos, a AGS não ficava devendo em nada para as equipes do meio do pelotão, como Tyrrell e Rial.

Mas o melhor ainda estava por vir. O GP do Canadá foi o ponto alto da AGS naquele ano.

Streiff começou o fim de semana metendo um 13º tempo no primeiro treino livre e outro na primeira classificação. O pessoal da equipe ralou um bocado e conseguiu melhorar ainda mais o acerto do JH23, permitindo que ele conseguisse um heroico sexto lugar no segundo treino livre, atrás apenas de Prost, Senna, Boutsen, Piquet e Alboreto. No último treino oficial, Philippe fez 1m24s968, o que lhe garantiu o décimo lugar no grid. Como será que ele se sentiu colocando um AGS entre dois carros da Williams?

Streiff partiu bem na largada e manteve a décima posição nas primeiras voltas. Na oitava passagem, deixou Eddie Cheever para trás e assumiu o nono posto. Os abandonos de Alessandro Nannini, Gerhard Berger, Michele Alboreto e Nigel Mansell permitiram que Philippe e seu AGS ocupassem uma improvável quinta posição na volta 34. O mais incrível, contudo, é que o francês passou boa parte da corrida colocando pressão sobre a Lotus turbinada de Nelson Piquet. Com um carro aparentemente muito mais veloz e estável, Streiff apertou o tricampeão a ponto de realmente ameaçar a ultrapassagem em alguns momentos, para glória da turminha de Gonfaron.

Mas o sonho não demorou muito para acabar. Sempre irregular, Philippe Streiff era conhecido em sua época por ser do tipo que desperdiçava bons resultados por causar acidentes idiotas e forçar demais o carro. Ele era capaz de fazer voltas maravilhosas para, num único lance, jogar tudo na lata do lixo com um erro dos mais infantis. Em Montreal, numa de suas tentativas de ultrapassagem, ele quase estampou a Lotus de Piquet no grampo. Devido à agressividade de sua pilotagem, a suspensão traseira direita do AGS não aguentou e quebrou na volta 41, quando o piloto francês parecia estar em vias de assumir a quarta posição. Fim de prova para ele. O que teria sido da escuderia de Henri Julien se Streiff tivesse marcado aqueles três pontos…

A história não muda e o futuro do pretérito não existe, porém. O próximo capítulo contará um pouco sobre a segunda metade do ano de 1988 para os esforçados homens da AGS.

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Pascal Fabre na última corrida em que conseguiu chegar ao fim, o GP da Hungria

Pascal Fabre na última corrida em que conseguiu chegar ao fim, o GP da Hungria

O início da temporada de 1987 foi razoavelmente positivo para a Automobiles Gonfaronnaises Sportives, que conseguiu a proeza de terminar as sete primeiras corridas que disputou naquele ano com Pascal Fabre. Seu JH22 era um carro feio, horrível, monstruoso e ainda por cima lento de doer, mas ao menos não deixava o piloto francês no meio do caminho. O que, numa época em que era comum ter menos de dez pilotos recebendo a bandeirada nas corridas, não deixava de ser um mérito.

Só que as coisas começaram a ficar mais difíceis após Silverstone. Sem dinheiro para testar ou implantar grandes novidades no carro, a AGS começou a perder ainda mais terreno para as outras equipes. E a confiabilidade deixou de ser uma qualidade absoluta. A oitava etapa da temporada foi o GP da Alemanha, realizado em Hockenheim. No veloz circuito alemão, Pascal Fabre teve mais um fim de semana cheio de dificuldades, chegando a não participar da segunda sessão de treinos oficiais por problemas no carro. Mas ainda conseguiu se livrar da última posição do grid de largada porque Alex Caffi teve ainda mais xaropices com seu Osella e não conseguiu marcar nenhum tempo razoável nas duas sessões oficiais.

A única expectativa de Fabre numa pista completamente desfavorável ao seu carro era a de terminar a oitava corrida consecutiva. As primeiras voltas nem foram tão ruins, com o francês ultrapassando Ivan Capelli logo no início e mantendo o italiano atrás nos cinco primeiros giros. Mas a empolgação não duraria muito. Na décima volta, o motor Cosworth pediu arrego e Pascal teve de estacionar lá no meio da floresta, o que significava uma longa caminhada rumo aos boxes. Pela primeira vez no ano, o AGS não constaria na lista de carros classificados na tabela final.

E quando uma coisa ruim acontece, outras vêm logo em seguida. O GP da Hungria ainda nem foi tão deprimente assim, já que a pista era mais favorável aos carros aspirados. Mesmo assim, Fabre bisou a lanterna nos dois treinos livres e no grid de largada, tendo ficado a 9s6 da pole-position e a 1s6 do penúltimo colocado. Na corrida, Pascal sobreviveu às durezas de Hungaroring e recebeu a bandeirada na 13º posição, cinco voltas atrás do vencedor Nelson Piquet.

Este foi o último fim de semana razoável de Pascal Fabre na Fórmula 1. A partir daí, sua então sólida carreira virou de cabeça para baixo.

As próximas duas etapas seriam realizadas em pistas de velocidade demoníaca, Österreichring e Monza. No GP da Áustria, Fabre iniciou os trabalhos com desempenhos razoáveis, sobretudo sob a chuva do sábado: 20º no segundo treino livre e 21º na segunda classificação. No entanto, a primeira classificação havia sido realizada em pista seca e o francês não teve chance alguma de sair da última posição no grid. Assustadora foi a diferença em relação aos demais. Pascal levou 5s3 do penúltimo colocado e inacreditáveis 17s2 da pole-position. Nada muito diferente do que a Life fazia em 1990.

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E o domingo foi uma loucura só. A corrida teve três largadas, tendo as duas primeiras sido anuladas por causa de engavetamentos. Na primeira delas, Pascal sobreviveu numa boa. Mas na segunda…

Você sabe como é que aconteceu aquele famoso acidente de Österreichring? Vamos lá. Tudo começou quando a embreagem da Williams de Nigel Mansell, em decorrência dela já ter sido desgastada na primeira largada, falhou e o inglês passou os primeiros metros se arrastando. Os pilotos que vinham atrás se desesperaram com a Williams tartarugando na pista e aí a coisa toda desandou. Ao tentar desviar de Mansell, Patrese prensou Cheever no muro, Johansson ficou sem caminho e bateu na traseira de Cheever, Brundle bateu em Johansson, Ghinzani meteu o pé no freio para evitar o choque, Caffi atropelou Ghinzani, Capelli afundou o pé no freio, Alliot estampou Capelli, Streiff bateu em Alliot e nosso herói Pascal Fabre não teve como frear, voando pro cima de Streiff e caindo sobre os carros de Alliot, Capelli e Ghinzani. Ufa.

Resultado: 1.489 carros destruídos, nenhum piloto ferido e mais uma largada abortada. O AGS de Fabre, diligentemente encavalado sobre um amontoado de ferro-velho, era um dos bólidos que não poderiam ser consertados nem com a ajuda do gênio da lâmpada. Felizmente, a equipe tinha um carro-reserva prontinho para uso. Na terceira largada, que foi totalmente livre de incidentes, Fabre partiu dos boxes. Comedido, passou a corrida inteira apenas tentando chegar ao fim da corrida. Deu certo e Pascal recebeu a bandeirada de chegada após 45 voltas.  O problema é que o GP teve 52 voltas e o número mínimo de passagens necessárias para constar na classificação oficial era 47. Isso significava que embora o francês tenha efetivamente finalizado a prova, ele não pôde aparecer na lista final de classificados. Nem sempre a filosofia “devagar e sempre” funciona.

A AGS começou a ficar realmente preocupada com tamanha defasagem em relação ao resto. Alguma coisa tinha de ser feita. Na verdade, por trás dos panos, alguma coisa já estava sendo feita.

Um dos diretores da equipe era Fréderic Dhainault, responsável pelas partes comercial e gerencial. No começo de junho, Dhainault viajou a Pau para assistir ao Grande Prêmio de Fórmula 3000 que seria realizado nas ruas da cidade. Nessa corrida, o brasileiro Roberto Moreno foi o líder por muitas voltas, mas parou o carro com pane seca quando estava a apenas duas voltas da vitória. Dhainault ficou impressionado com o desempenho de Moreno, um conhecido seu desde os dias de Fórmula 2, e o chamou para uma conversa de canto. Vem cá, gostei do que vi, quer fazer um negócio para nós?

Começou ali o relacionamento entre Roberto Moreno e AGS. Dhainault queria que Roberto entrasse no lugar de Pascal Fabre na segunda metade da temporada. O carioca, que sabia ter boas chances de ganhar o título da Fórmula 3000 naquele ano, respondeu que não queria largar a disputa naquele momento, mas que poderia dar uma força após o final da temporada da categoria menor.

Houve um momento em que até classificar-se para o grid de largada se tornou um desafio. Nessa foto, Fabre fracassa no Estoril

Houve um momento em que até classificar-se para o grid de largada se tornou um desafio. Nessa foto, Fabre fracassa no Estoril

Sem muita confiança, Moreno topou pilotar um segundo JH22 no Grande Prêmio da Itália, a ser realizado em setembro. Em tese, ele faria essa corrida como uma espécie de referencial de comparação que responderia se o problema da AGS era com o carro ou com Pascal Fabre. Mas o acidente do piloto francês em Österreichring destruiu um dos dois chassis da equipe e a falta de peças e de tempo para consertar o cacareco significava que só haveria um carro inteiro e algumas peças sobressalentes para Pascal Fabre em Monza. O segundo carro era, naquele momento, apenas um sonho.

Mas se fosse assim, então era melhor já ter demitido Fabre no ato. Em Monza, havia 28 inscritos, mas apenas 26 deles poderiam largar (agradeça à Benetton, que foi a única equipe do grid que votou contra a possibilidade de todos os inscritos participarem das corridas), o que significava que a mirrada AGS tinha grandes chances de não participar da corrida. As duas novidades no grid eram o segundo carro da Osella, pilotado pelo suíço Franco Forini, e o carro da Coloni, que fazia sua estreia na Fórmula 1 com Nicola Larini. Superar Larini não seria um problema, mas Forini tinha a vantagem de competir com um motor turbinado. Somente um milagre, portanto, colocaria Pascal Fabre no grid de largada do GP da Itália.

Milagres não acontecem o tempo todo. Em momento algum Fabre teve um desempenho minimamente aceitável. No resultado final dos dois treinos classificatórios, o francês conseguiu a proeza de ficar na última posição, atrás até mesmos dos estreantes Forini e Larini. Seu tempo foi 1s mais lento que o de Nicola, que também não conseguiu se classificar, e 13s2 mais lento que o da pole-position. Uma vergonha.

Não pegou bem. A AGS e o patrocinador El Charro estavam de saco cheio de um piloto tão pouco competitivo. Enquanto lamentava as péssimas performances de Pascal Fabre, a escuderia pressionava Roberto Moreno para que este assumisse seu lugar e o piloto respondia que não faria nada enquanto o carro não melhorasse e a temporada de Fórmula 3000 já não estivesse bem encaminhada. Em Portugal, os franceses continuaram tendo de se contentar com Fabre.

Dessa vez, as circunstâncias lhe foram um pouco mais favoráveis. O circuito do Estoril não era, de forma alguma, tão veloz como os de Österreichring e Monza. Além disso, havia apenas 27 inscritos, pois a Coloni decidiu não competir nessa etapa. Mesmo assim, Pascal Fabre não aproveitou a oportunidade. Sempre muito lento nos treinos, o piloto francês foi o único a não conseguir classificação para o grid de largada. Com o tempo de 1m26s946, ele ficou três décimos atrás de Franco Forini e 9s3 atrás da pole-position. Se nem numa pista de média velocidade ele consegue se qualificar, o que ainda daria para esperar do piloto francês?

Jerez: a última vez em que Pascal Fabre largou na Fórmula 1

Jerez: a última vez em que Pascal Fabre largou na Fórmula 1

A próxima corrida, o GP da Espanha, aconteceria uma semana depois. Nesse ínterim, a AGS convidou Roberto Moreno para testar seu carro e o brasileiro, nesse caso, aceitou. Como a equipe disputaria a etapa de Jerez ainda com Pascal Fabre e obviamente precisava de um carro para ele, a solução encontrada foi mandar para Paul Ricard o carro-reserva restaurado e um staff mínimo, com dois engenheiros (sim, a AGS fez contratações durante o ano!) e um mecânico, para que Moreno pudesse fazer seu trabalho.

Na quinta-feira anterior à etapa de Jerez, Moreno entrou na pista pela primeira vez com o JH22. Segundo o próprio piloto, “só mexendo em amortecedor, mola e sistema de uso de borracha, consegui melhorar o carro em uns quatro segundos”. De fato, o brasileiro conseguiu resultados considerados espetaculares. No primeiro dia, ele marcou 1m06s2, tempo próximo ao alcançado pelo Larrousse de Philippe Alliot e três segundos melhor do que o recorde pessoal de Pascal Fabre. No segundo dia, Moreno baixou sua marca para 1m05s9, considerado o melhor tempo já feito por um carro aspirado de Fórmula 1 na pista curta de Paul Ricard até então. A AGS terminou essa sessão de testes babando pelo piloto brasileiro, mas ele não poderia correr em Jerez por causa de seus compromissos na Fórmula 3000.

De uma hora para outra, apenas com algumas mudanças pontuais de acerto, o AGS deixou de ser uma lesma motorizada para se tornar, enfim, apenas mais um carro ruim de Fórmula 1. Provavelmente, essas mudanças foram reportadas ao pessoal que estava lá na Espanha. E o intercâmbio de informações trouxe resultados imediatos. É possível dizer que, pela primeira vez no ano, Pascal Fabre apresentou algum sinal de competitividade.

Com 28 pilotos inscritos (a Coloni voltou ao circo com Nicola Larini) e apenas 26 pilotos podendo largar, havia ainda alguma chance da AGS não conseguir passar pela malha fina. Mas Fabre foi quase sempre mais rápido que os carros da Coloni e da Osella. No grid de largada, o francês abocanhou o 25º lugar no grid, superando três concorrentes na raça. Na corrida, o cara estava tão animado que fez uma largada sensacional, ultrapassando a Minardi de Adrian Campos e os dois carros da Ligier. Pena que sua boa atuação acabou na volta 10 devido a um problema de embreagem.

Hermanos Rodriguez: au revoir, Fabi

Hermanos Rodriguez: au revoir, Fabi

Então o problema realmente era o carro, suspiraram os caras da AGS. Talvez nosso Pascal Fabre não seja um piloto tão ruim assim, pensaram. Pode ser simplesmente que ele seja completamente incapaz de acertar um carro de corrida, mas isso acontece nas melhores – e principalmente nas piores – famílias. Então vamos dar mais uma chance a ele, até porque Roberto Moreno continuava recusando os convites, que estavam se transformando em intimações, para correr.

Em Hermanos Rodriguez, palco do GP do México, o sinal amarelo acendeu para a AGS. Homens da El Charro se aproximaram de Henri Julien e deram o aviso: se esse maldito carro branco e vermelho não conseguir resultados minimamente toleráveis nas últimas três corridas, nem conte com nossa grana em 1988. Julien ficou atônito. Ele continuou implorando para que Moreno competisse no México, no Japão e na Austrália, mas o brasileiro afirmou que não abandonaria a Fórmula 3000 para correr num lixo de carro. Após o fim da “três mil”, aí a gente poderia ver.

Roberto sabia que a AGS não teria chance alguma no México, pois além da pista de Hermanos Rodriguez ser de alta velocidade, a altitude suprimiria uns bons cavalos de potência do motor Cosworth. Havia 27 inscritos para a corrida: a Osella voltou a colocar apenas um carro na pista e a Coloni se absteve de disputar as provas não-europeias, mas a Larrousse decidiu inscrever Yannick Dalmas em um segundo bólido. Graças à viadagem da Benetton, somente 26 desses inscritos poderiam largar.

Depois de ficar em 27º nos dois treinos livres, 27º no primeiro treino classificatório e 26º no segundo, ninguém precisa ser Albert Einstein para adivinhar como terminou o fim de semana de Pascal Fabre. Ele ficou a 1s do penúltimo colocado (e último classificado) e a 10s2 do pole-position, sem qualquer chance de participar da corrida dominical.

Foi a gota d’água. Acabou. Por mais que o carro não ajudasse muito, não dava mais para ficar com esse cara. Dias antes do GP do México, Roberto Moreno voltou a fazer testes com o carro da AGS em Paul Ricard. Mesmo tendo completado apenas cinco voltas, o brasileiro conseguiu melhorar seu próprio recorde em um décimo, fazendo 1m05s8. Com o resultado desse teste, o fracasso de Fabre em Hermanos Rodriguez e o fim da temporada de Fórmula 3000, a AGS pôde, enfim, confirmar Roberto Pupo Moreno para as duas últimas corridas de 1987 na Fórmula 1.

Roberto Moreno, o salvador da pátria de Gonfaron, em Suzuka

Roberto Moreno, o salvador da pátria de Gonfaron, em Suzuka

Moreno chegou em Suzuka ao mesmo tempo tranquilo e apreensivo. Tranquilo porque estava negociando com outras equipes e sabia que, na pior das hipóteses, tinha um lugar assegurado na AGS em 1988. Apreensivo porque estava competindo no Japão sob enorme pressão, pois a El Charro havia estabelecido como condição para manter seu patrocínio na equipe em 1988 a classificação para as duas últimas provas de 1987 – caso contrário, o provável destino da grife italiana seria a Tyrrell.

Os mesmos 27 carros de Hermanos Rodriguez estavam presentes em Suzuka, uma pista completamente inédita para a Fórmula 1, mas não para Moreno, que já havia corrido por lá em 1985 na Fórmula 2 japonesa. O brasileiro tentaria utilizar sua experiência nessa pista para compensar a total incapacidade de seu bólido e conseguir, quem sabe, um lugar no grid.

Nem precisou de tanto. Nigel Mansell se quebrou todo num acidente ainda na sexta-feira e decidiu não participar do GP, abdicando da luta pelo título. Com isso, restavam 26 carros no grid, o que significava que todo mundo teria lugar garantido no grid. Mesmo assim, Moreno ainda se esforçou para tirar o máximo de seu JH22, o que ficou claro no ótimo 22º lugar obtido no segundo treino livre. No grid de largada, o brasileiro não conseguiu fazer milagres: ficou na lanterna após ter feito um tempo 10s1 mais lento que o da pole. Em compensação, a distância para o penúltimo colocado foi de apenas meio segundo, feito incomum nos tempos de Pascal Fabre.

“Esse carro é uma porcaria. Não dá prazer nenhum dirigir algo assim”, comentou Moreno após o treino. De fato, ele não podia esperar muito da corrida. O brasileiro passou o tempo todo no fundão e só chegou a ter Alain Prost e René Arnoux atrás porque estes tiveram problemas ainda nos primeiros instantes. Na volta 28, o sistema elétrica de seu carro começou a falhar e Roberto foi obrigado a abandonar a disputa.

E a última etapa da temporada foi o GP da Austrália, realizado em Adelaide. Naquela altura, todos os campeonatos (pilotos, equipes, Copa Jim Clark e Troféu Colin Chapman) já haviam sido decididos e a galera só viajou para a Cangurulândia para desfrutar de alguns dias de sol e praia. Para a AGS, era a última chance de um bom resultado.

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Em Adelaide, o JH22 estava bem melhor do que em Suzuka e Moreno conseguiu alguns resultados razoáveis, como o 23º lugar no primeiro treino oficial e no warm-up. No grid de largada, o brasileiro ficou em 25º, à frente da Minardi de Adrian Campos e da Osella de Alex Caffi, que não se classificou. Dava para esperar muita coisa? Não. Mas a Fórmula 1 do passado era uma caixinha de surpresas.

Moreno fez uma corridaça, brigando e superando Piercarlo Ghinzani e Christian Danner nas primeiras voltas. Embora agressivo nos momentos certos, pilotou de forma segura e constante e não comprometeu seu carro. Enquanto os adversários deixavam a contenda às pencas, Roberto se aproveitava disso para ganhar posições uma atrás da outra. Após duas horas de corrida, o carioca conseguiu completar a prova na sétima posição. Mais uma posição e a AGS terminaria o ano com um pontinho marcado…

Mas eis que, algumas horas depois, Ayrton Senna foi desclassificado e perdeu sua segunda posição. Todos os pilotos que terminaram atrás dele subiram na tabela e isso permitiu que Moreno pulasse para o sexto lugar, garantido o primeiro ponto da equipe de Henri Julien na Fórmula 1. Naquele dia, ninguém celebrou mais no paddock do que os saltimbancos da AGS.

Com o pontinho milagreiro de Roberto Moreno, a AGS terminou a temporada na 12º posição no campeonato de construtores, empatada com a March e à frente de Osella, Minardi e Coloni. Esse resultado garantiu que todas as despesas de transporte da equipe fossem pagas pela FOCA em 1988. Depois de tanto sofrimento, Henri Julien e amigos poderiam finalmente sorrir e celebrar com umas garrafas de bordô.

Na semana que vem, conto sobre a temporada de 1988.

Um carro de Fórmula 1 da AGS em fase de montagem

Um carro de Fórmula 1 da AGS em fase de montagem

Depois de uma década e meia comendo o pão que o diabo amassou em corridas irrelevantes de Fórmula Renault e Fórmula 2, a Automobiles Gonfaronnaises Sportives faria em 1987 sua estreia de verdade na Fórmula 1. As duas corridinhas de 1986 valeram mais como um canapé de caviar desses que nem enchem o buraco dos dentes. Banquete dos bons, mesmo, seria participar de todas as 16 corridas de uma temporada da autoproclamada maior categoria do mundo.

Disputar os GPs da Itália e de Portugal em 1986 permitiu à AGS chegar a algumas conclusões fundamentais. A mais importante delas é que seria uma burrice permanecer com um motor tão ridículo como aquele V6 turbo fabricado pela Motori Moderni. Em 1987, a FISA anunciou que a Fórmula 1 teria dois subcampeonatos exclusivos para competidores com motor aspirado, a Copa Jim Clark para pilotos e o Troféu Colin Chapman para construtores. Era uma forma de estimular as equipes a já irem desenvolvendo seus carros aspirados, que se tornariam obrigatórios em 1989. Sabendo que não tinha condições de arcar com um motorzão turbo mais potente e desejando se antecipar às demais participantes, a AGS decidiu recorrer ao velho motor Cosworth DFZ V8, uma atualização daquele que ganhou milhares de corridas e títulos no passado. Esse propulsor rendia módicos 650cv, uma merreca perto dos 880cv dos motores Honda e Ferrari.

Outra coisa: apesar da falta de recursos e do fato do chassi JH21C ser apenas uma atualização meia-sola do Renault RE40 de 1983, não havia como inovar muito para o carro de 1987. O dinheiro era escasso e havia na equipe apenas cinco homens aptos a desenvolver o carro, o engenheiro Christian Vanderpleyn e os faz-tudo Gérard Moreau, Philippe Leloup, Christian Martel e Jean Silani. Os outros elementos da equipe eram exatamente o dono Henri Julien e o relações-públicas Fréderic Dhainaut. Num esquema digno de uma borracharia de Bady-Bassit, não dava para sonhar em jogar o JH21C no lixo e criar um novo carro do zero.

Vanderpleyn, dessa vez sem a ajuda freelance de Michel Costa, bolou algumas pequenas atualizações e as implantou no chassi JH21C, resultando no modelo JH22. Olhando à primeira vista, ele pouco diferia do anterior. Olhando mais detalhadamente, você concluirá que o carro realmente não mudou quase nada. OK, estou sendo injusto, o bico e a asa traseira foram remodelados, ganhando uma aparência um pouco mais aceitável. De qualquer jeito, os aprimoramentos não conseguiram deixar o carro bonito. Com soluções aerodinâmicas duvidosas e a maior distância entre eixos da Fórmula 1 naquele ano, ele continuou tão desagradável aos olhos como antes.

Numa equipe pobre e com um staff mínimo, não dá para esperar que as coisas fossem feitas rapidamente. Apenas dois chassis foram construídos em tempo, um para ser utilizado de forma oficial e o outro reserva. Os motores Cosworth foram entregues com atraso devido a contratempos ocorridos com o próprio fornecedor: além de ter ocorrido problemas na fase de desenvolvimento, a fabricação ficou interrompida durante um tempo devido à falta de cabeças de cilindro no estoque. Todos os clientes foram prejudicados e a AGS, coitadinha, deve ter sido a última a receber seus propulsores.

Pascal Fabre, o piloto da AGS em 1987, fazendo teste de pré-temporada. Detalhe para a entrada de ar, que seria utilizada a partir de Imola

Pascal Fabre, o piloto da AGS em 1987, fazendo teste de pré-temporada. Detalhe para a entrada de ar, que seria utilizada a partir de Imola

Faltava também um piloto. Ivan Capelli, que representou a escuderia em 1986, havia assinado um contrato com a March após jamais ter demonstrado qualquer vontade de voltar a correr pela AGS em 1987. Na verdade, a própria equipe alimentava o sonho de ter um piloto francês em seu carro. E nem precisava ser um Prost ou um Laffite. Qualquer moleque francófono com sangue nos olhos já servia.

Havia um disponível no mercado: Pascal Fabre, um velho conhecido de Henri Julien. Fabre foi piloto da AGS na Fórmula 2 em 1982, tendo terminado a temporada apenas em 15º. Após isso, piloto e equipe se separaram e cada um tomou seu rumo. Fabre disputou temporadas de Fórmula 2, Fórmula 3 e Fórmula 3000 e conseguiu se sair muito bem em 1986, quando ganhou a chuvosa etapa de Silverstone e marcou 15,5 pontos. Não se tratava de um piloto genial, mas também não era um completo inapto. Para uma equipe como a AGS, já estava de bom tamanho.

Fabre iniciou o ano de 1987 paquerando o segundo carro da equipe Ligier, que demorou um tempão para escolher o companheiro de René Arnoux. Pascal disputava esse emprego com concorrentes do calibre de Jacques Laffite, Didier Pironi e Michel Ferté, mas a vaga acabou ficando com uma zebra, o italiano Piercarlo Ghinzani, apoiado pela fornecedora de motores Alfa Romeo. Sem nenhuma outra alternativa, Fabre acabou aceitando no final de fevereiro o modesto convite para ser o único piloto da AGS, numa altura em que não daria para realizar muitos testes.

Ironicamente, patrocinador foi o menor dos problemas. A grife italiana El Charro decidiu permanecer com a AGS em 1987 após seus representantes terem conversado com quase todas as equipes de Fórmula 1 (diz a lenda que apenas Ferrari, Benetton e Williams não foram consultadas). A empresa, no entanto, preferia cobrir de adesivos um carro do fim do pelotão a restringir-se a apenas uma pequena e caríssima etiqueta num bólido de ponta. Nesse caso, a AGS era a parceira mais interessante. Tão interessante que, na mídia francesa, surgiram rumores de que a El Charro estaria comprando a estrutura da AGS para ter sua própria equipe de Fórmula 1 seguindo a tendência da concorrente Benetton. Mas Henri Julien foi rápido em desmentir qualquer rumor: “a AGS é uma marca automobilística que me pertence e que não está à venda”.

Após conseguir resolver todos os seus problemas, a AGS fez sua modesta apresentação formal na segunda metade do mês de março. Lá estava o desajeitado carrinho branco coberto com alguns adesivos e seu envergonhado piloto devidamente instalado dentro do cockpit. Naquela época, as suntuosas apresentações com shows, modelos, pirotecnia, comes, bebes e cheiras não eram comuns, principalmente no caso das equipes menores.

Fabre em Jacarepaguá. Detalhe maior: a diabólica especulação imobiliária

Fabre em Jacarepaguá. Detalhe maior: a diabólica especulação imobiliária

Esta foi uma das raras atividades da AGS no início do ano. Com pouco tempo para testar, a equipe realizou a maioria de suas sessões no quintal de casa, o autódromo de Paul Ricard. Por lá, ficou claro que ela teria de enfrentar dificuldades quase intransponíveis nesse primeiro ano. Em um dos testes, Pascal Fabre tomou absurdos cinco segundos de Philippe Streiff, que também pilotava um carro aspirado. O detalhe é que uma volta no circuito de Paul Ricard não demorava mais do que 75 segundos. Isso significava que, caso nada fosse mudado, a tendência é que o carro da AGS tomasse mais de dez segundos do pole-position na maioria dos circuitos. E você aí achando que Caterham e Marussia passam vergonha…

Com tudo teoricamente pronto, é hora de falar um pouco sobre carreras.

A primeira etapa da temporada de 1987 foi o Grande Prêmio do Brasil, realizado no circuito assassinado de Jacarepaguá. Sem as presenças da Ligier, que perdeu o apoio da Alfa Romeo faltando apenas algumas semanas para o início do campeonato após René Arnoux ter falado horrores de seu motor à imprensa, e da Larrousse, que não conseguiu se preparar a tempo, a AGS seria a única equipe francesa do grid daquela corrida. O baixo número de inscritos, 23, e o calor escaldante do Rio de Janeiro poderia favorecer a turma de Gonfaron. Vai que, numa dessas, todo mundo abandona e sobra um pontinho para o carro da El Charro?

Fabre chegou ao Brasil na maior discrição. Sujeito dos mais tímidos, não se sentia à vontade na interação com os jornalistas. Além do mais, não falava outra língua a não ser o francês. Quando alguma pessoa se aproximava e puxava papo em inglês, Pascal se esquivava. Ou simplesmente chamava por Isabelle Saint Frison, que havia sido contratada para o papel de relações-públicas no início do ano. E os jornalistas, sempre maledicentes, não se furtaram em aplicar ao piloto francês a pecha de homem arrogante e orgulhoso. Coitado…

No primeiro treino livre, Fabre teve problemas e marcou uma volta 22 segundos mais lenta do que o mais veloz. No segundo, as coisas melhoraram muito e a diferença foi de “apenas” 13,6 segundos. Muito constante, Pascal conseguiu manter nos treinos oficiais o mesmo buraco de 13,6 segundos entre ele e o pole-position Nigel Mansell. Antes que você ache que a AGS era um Chevette inscrito numa corrida de Fórmula 1, saiba que outros três carros fizeram tempos dez segundos acima do de Mansell. Quer dizer, a AGS podia até fazer parte da escória da categoria, mas também não era uma equipe alienígena.

No domingo, Fabre largou, se arrastou durante todo o tempo, irritou os organizadores da corrida com algumas manobras perigosas, teve de lidar com um persistente problema no câmbio e ainda conseguiu chegar ao fim da corrida na 12ª posição, seis voltas atrás do vencedor Alain Prost. Para a AGS, o resultado foi excelente. Desde o início do ano, a palavra de ordem de Henri Julien e asseclas era confiabilidade. Em tempos nos quais algumas equipes abandonavam mais de 80% das corridas por conta de problemas no carro, construir um que conseguisse chegar ao final pode ser considerado um feito. Para a escuderia francesa, o carro podia ser lento como um jabuti, mas se não fundisse o motor já estava bom demais.

Fabre metendo o susto na galera em Imola. Mas ele chegou ao fim

Fabre metendo o susto na galera em Imola. Mas ele chegou ao fim

A segunda etapa foi o GP de San Marino, realizado no circuito de Imola. Para essa corrida, a AGS trouxe sua primeira atualização, uma horrorosa entrada de ar instalada sobre a cobertura do motor. O troço tinha uma aparência tão anacrônica que chegava a ser involuntariamente retrô, fazendo alusão aos simpáticos carrinhos de Fórmula 1 de meados dos anos 70. Quer dizer, como se não bastasse a base do chassi ser datada de 1983, a entrada de ar era tão setentista quanto seu tio loucão ouvindo Janis Joplin.

Dessa vez, havia 27 inscritos para o fim de semana. Além dos 23 de Jacarepaguá, a Ligier conseguiu voltar à Fórmula 1 após arranjar motores Megatron e entregou dois carros a Arnoux e Ghinzani. A Larrousse também deu as caras pela primeira vez com Philippe Alliot. Por fim, a Osella decidiu botar na pista um segundo carro para o estreante Gabriele Tarquini. Para alívio de todo mundo lá no fim do grid, a FISA assegurou que todos os 27 pilotos estavam autorizados a largar no domingo. A AGS estava, portanto, não teria de se preocupar com a possibilidade de ficar de fora.

As dificuldades continuaram as mesmas nos treinos e Fabre só conseguiu o 26º lugar no grid com um tempo 10,3s mais lento que o da pole-position de Ayrton Senna. Para sua felicidade, o debutante Tarquini teve problemas e acabou ficando com a posição derradeira na grelha. E para melhorar ainda mais, Nelson Piquet e René Arnoux desistiram de disputar a corrida por causa, respectivamente, de um acidente na Tamburello e de problemas no carro.

O domingo não foi ruim, não. O único susto de Pascal Fabre foi uma rodada na Rivazza que assustou os dois carros da Tyrrell que vinham atrás. Fora isso, ele passou boa parte da corrida à frente do Osella de Gabriele Tarquini e manteve um ritmo correto, sem invencionices. E com isso, conseguiu chegar novamente ao fim da corrida, obtendo um razoável 13º lugar, seis voltas atrás do vencedor Nigel Mansell.

Spa-Francorchamps foi o palco da terceira etapa da temporada. Dessa vez, haveria apenas 26 carros, pois a Osella voltou a inscrever apenas um carro para Alex Caffi. Sem novidades, a AGS partiu para contenda esperando apenas conseguir finalizar mais uma corrida. Fabre voltou a apanhar nos treinos e só se livrou da última posição no grid porque o pobre Caffi teve problemas com seu carro. Com um tempo de 2m07s361, Pascal ficou a obscenos 15s3 segundos da pole-position de Mansell.

Fabre e seu AGS "embalagem da Mesbla" em Mônaco

Fabre e seu AGS “embalagem da Mesbla” em Mônaco

Na corrida, Fabre teve um duelo bacana com Philippe Streiff, que também sofria com um carro aspirado numa pista que exige muito do motor. Infelizmente, dessa vez, o AGS lhe deixou na mão faltando cinco voltas para o fim da corrida por causa de problemas elétricos. Porém, por ter abandonado na volta 38, ainda foi classificado oficialmente em décimo lugar. No sistema atual de pontuação, a equipe de Henri Julien teria feito seu primeiro pontinho logo na terceira corrida. Todos na Caterham chora.

Mas nem todo mundo estava satisfeito com esse resultado. Logo após a prova, a Federação Internacional do Automóvel emitiu um comunicado dizendo que Pascal Fabre passaria a estar sob observação nas próximas corridas. O motivo? Pura e simples falta de competitividade em relação aos demais pilotos com carros aspirados. Por mais que os motores Cosworth realmente fossem ridículos perante os turbinados, não dava para defender um cara que toma 15 segundos da pole-position.

Em Mônaco, a AGS voltou a trazer novidades. Motor novo? Chassi novo? Soluções aerodinâmicas arrojadas, proativas e vibrantes? Nada disso. O que mudou foi tão somente a pintura do carro. Que ficou uma desgraça, diga-se. Foi a partir do GP de Mônaco que a equipe começou a utilizar aquela famosa pintura branca com listras avermelhadas, como se o carro tivesse sido embrulhado com um papel de presente da Mesbla. O logotipo da El Charro era a cereja do bolo desse projeto estético de gosto duvidoso.

Com relação aos resultados, sem novidades. Fabre passou por inúmeras dificuldades no traiçoeiro circuito de rua e nos treinos classificatórios tomou 1,5s do penúltimo colocado e 8,6s do pole-position. Devagar e sempre, ainda conseguiu sobreviver aos muros de Montecarlo e heroicamente chegou ao fim da prova em 13º. Dessa vez, com sete voltas de atraso.

A etapa seguinte foi o GP dos Estados Unidos, realizado em outro circuito de rua escroto, o de Detoit. Ninguém gostava de correr por lá: a pista era chata de doer, o asfalto era uma porcaria, os bueiros trucidavam pneus e suspensões e as acomodações eram horríveis para pilotos e equipes. Pelo menos, o cenário era deslumbrante – tempos em que Detroit ainda era uma cidade minimamente respeitável. E Pascal Fabre se superou nesse calvário, conseguindo ficar na última posição nos dois treinos livres e no primeiro treino oficial. No segundo, só não ficou em 26º porque Adrian Campos teve problemas. Ainda assim, a lamentável última posição no grid de largada ficou reservada para o francês, que tomou 3s1 do piloto logo à frente e 14s3 de Nigel Mansell.

Estava sendo um fim de semana infernal para AGS. E o domingo não foi muito melhor. No warm-up, Fabre estampou seu carro listrado no muro e deu mais um pouco de trabalho aos seus mecânicos. Pelo menos, não houve grandes problemas na corrida e Pascal terminou mais uma, na 14ª posição, a cinco voltas do vencedor Ayrton Senna.

O rei da regularidade em Silverstone

O rei da regularidade em Silverstone

A próxima corrida foi realizada em Paul Ricard, circuito não muito distante das dependências da AGS. Mesmo em casa, conhecendo o traçado como ninguém, a equipe não tinha lá muitas esperanças. O traçado, veloz, era completamente desfavorável aos carros aspirados. E Fabre, de fato, apanhou feio. Ficou em 25º e 26º nos dois treinos livres e sequer sonhou em sair da última posição do grid de largada. Pelo menos, seu tempo foi somente 8,2s mais lento que o da pole-position e apenas 1,2s pior que o do piloto logo à frente. Um avanço minúsculo, mas um avanço.

E a corrida até que não foi ruim. Fabre largou bem, teve bons duelos com os carros de Philippe Alliot e Alex Caffi e conseguiu passar a corrida inteira à frente de Satoru Nakajima, que havia tido problemas graves com seu Lotus. No fim, completou mais uma. Tendo terminado em nono, seis voltas atrás do vencedor Mansell, Pascal obteve seu melhor resultado na temporada. No regulamento atual, seriam mais dois pontos para sua conta. Em seis corridas, seis classificações no resultado final. A prova definitiva de que o JH22 era um verdadeiro tanque de guerra, grande, lento e muito resistente.

Depois, Silverstone. Se Paul Ricard já não era o lugar dos sonhos para um palco aspirado, a pista inglesa com suas intermináveis retas e curvas de altíssima velocidade era uma verdadeira visão do inferno para uma equipe como a AGS. Pascal Fabre voltou a sofrer as dificuldades de sempre nos treinos e ficou novamente em último no grid de largada, com um tempo 11s1 mais lento que o da pole de Nelson Piquet. Só não largou em 26º porque Piercarlo Ghinzani havia sido desclassificado ainda na sexta-feira.

A corrida também não apresentou novidades, com Fabre sempre se arrastando na lanterninha. Mas andar devagar tem suas vantagens. Numa pista muito veloz, quebras e panes secas são coisas das mais comuns do planeta. E muita gente com motor turbinado poderosão acabou se dando mal. Resultado: apenas nove carros chegaram ao fim e o AGS de Pascal foi um deles, o último, obviamente. Pela sétima corrida consecutiva, o francês constava como um dos relacionados na classificação oficial.

Após Silverstone, o vagaroso Fabre era nada menos que o piloto com maior número de voltas completadas até ali. Na Copa Jim Clark, ele tinha acumulado 32 pontos, ficando atrás apenas de Jonathan Palmer, com 41. Isso significava que Philippe Streiff, Philippe Alliot e Ivan Capelli estavam atrás dele mesmo tendo carros bem superiores. Num primeiro instante, a AGS conseguiu o que queria: resistência.

Mas só isso não basta. As coisas ficariam bem difíceis na segunda metade da temporada. Te conto no próximo capítulo.

O primeiro carro de Fórmula 1 da AGS, o JH21C

O primeiro carro de Fórmula 1 da AGS, o JH21C

Depois de dois textos gigantescos enchendo linguiça, fazendo papel semelhante ao da polenta frita e do pãozinho com alho numa churrascaria, finalmente vamos falar um pouco de Fórmula 1, a categoria pela qual o povo clama. Após mais de quinze anos aprendendo muito e apanhando mais ainda nos certames de base, a Automobiles Gonfaronnaises Sportives, ou AGS para os íntimos, finalmente conseguiu, em 1986, dar o tão almejado salto para a maior e mais nojenta categoria do mundo. A modesta, quase humílima, equipe de Henri Julien e Christian Vanderpleyn estava pronta para dividir asfalto com McLaren, Ferrari, Williams, Lotus e quetais.

Em dezembro de 1985, alguns jornais na França publicaram uma quase irrelevante notícia apresentando uma possível nova equipe de Fórmula 1 nascida em berço francês. Naquele momento, o país vivia um momento contraditório na categoria: ao mesmo tempo em que se orgulhava de ter o melhor piloto do grid, Alain Prost, também lamentava pelo fechamento da equipe oficial da Renault e pela péssima fase em que se encontrava a azulada Ligier. Por isso, o surgimento de uma nouvelle écurie, especialmente uma que não tivesse laços diretos com o presidente François Mitterrand, interessava demais à classe automobilística francesa.

Essa equipe, caso exista algum gênio que ainda não tenha percebido, é a AGS. Num primeiro momento, o patrão Henri Julien foi atrás de parceiros dentro de seu próprio país. Os empresários franceses, com uma má vontade lazarenta, nem se deram ao trabalho de abrir a porta ao visionário. Uma das empresas consultadas foi justamente a Renault, que simplesmente se recusou veementemente a fornecer motores a Julien. O que fazer numa hora dessas? Dar uma banana à francesada e procurar apoio em outros países. Deu certo.

Julien viajou à Itália para conversar com o pessoal da Jolly Club, a equipe de Mario Angiolini que disputava campeonatos de rali e de protótipos com carros da Lancia. Angiolini gostou do que lhe foi proposto e topou juntar sua estrutura com a do francês, resultando numa AGS encorpada e minimamente apta a disputar corridas de Fórmula 1 com alguma dignidade. Com o casamento entre AGS e Jolly Club, os franceses puderam se concentrar apenas na engenharia e os italianos passaram a cuidar dos assuntos comerciais e organizacionais.

Foi por meio da Jolly Club, por exemplo, que a AGS conseguiu um motor para seu primeiro carro de Fórmula 1. Pouco após a união entre as duas partes, Mario Angiolini apresentou Henri Julien a um velho amigo seu, o também italiano Piero Mancini, o chefão da empresa Motori Moderni. Em 1985, a Motori Moderni havia entrado na Fórmula 1 como fornecedora de motores V6 turbo à Minardi. Eles eram pesados, beberrões, frágeis e ainda tinham um nome ridículo, mas era o que havia de disponível no mercado. Péssimos ou não, a escuderia de Henri Julien teve de se contentar com eles num primeiro instante.

O terrível motor Motori Moderni, o primeiro adotado pela AGS

O terrível motor Motori Moderni, o primeiro adotado pela AGS

Ao se associar à AGS, a Motor Moderni desejava ampliar sua gama de clientes, por piores que eles fossem. Confiante, a empresa italiana acreditava que seus motores, desenvolvidos pelo velho Carlo Chiti, melhorariam muito em 1986. Faz sentido, pois não havia como construir propulsores piores do que aqueles de 1985.

Após ter conseguido um parceiro e um motor, a AGS também não perdeu tempo para iniciar negociações com pilotos. O primeiro nome cogitado foi o do sueco naturalizado suíço Mario Hytten. Alguns de vocês poderão se lembrar de um artigo que escrevi sobre sua pessoa há algum tempo. Para os que nunca ouviram falar de seu belo nome e estão com preguiça de ler o texto aí, conto apenas que Hytten era um piloto que correu contra Ayrton Senna na Fórmula 3 britânica e que competiu na Fórmula 3000 Internacional com patrocínio da família de Osama Bin Laden, o próprio.

Segundo a mídia francesa, Hytten seria o piloto oficial da AGS no Grande Prêmio da Itália de 1986, que seria exatamente a primeira corrida da história da escuderia na Fórmula 1. Enquanto o tão esperado dia da estreia não chegasse, piloto e equipe gastariam umas boas horas testando o carro até ele ficar redondinho. Ao mesmo tempo, Hytten disputaria naquele ano a Fórmula 3000 com a equipe Arno International, que não é aquela que fabrica batedeiras e ventiladores.

Mas os planos mudaram. Por alguma razão, Hytten acabou não sendo chamado para nada. Para seu primeiro teste oficial como equipe de Fórmula 1, a AGS preferiu convocar o italiano Ivan Capelli, que liderava o campeonato de Fórmula 3000 e já tinha pilotado o bólido da Tyrrell no ano anterior. Mas Capelli não estava disponível. O que fazer?

Henri Julien, Christian Vanderpleyn e amigos devem ter pensado muito. Era necessário chamar um piloto com alguma experiência para fazer esse primeiro shakedown. Alain Prost? Por razões óbvias, impossível. Sebastian Vettel? Ele não havia nascido ainda. Jim Clark? Morto. René Arnoux? Bah…

E que tal Didier Pironi?

Didier Pironi e o AGS em Paul Ricard

Didier Pironi e o AGS em Paul Ricard

Didier Pironi, francês de Villecresnes, 34 anos, casado, prestes a engravidar sua esposa com gêmeos. Piloto de Fórmula 1 entre 1978 e 1982, teve sua carreira interrompida de forma abrupta após estampar a traseira do Renault de Alain Prost na pista encharcada de Hockenheim. Arrebentou as duas pernas, o braço esquerdo e o nariz, mas sobreviveu e se recuperou de forma plena. Como é daqueles que gosta de aventura, sonhava em voltar para o automobilismo o mais rápido possível.

Pironi era amigo íntimo de François Guerre-Berthelot, aquele que já vinha ajudando a AGS desde o final dos anos 70. E foi por intermédio de Guerre-Berthelot que a AGS conseguiu entrar em contato com Didier. E aí, cara, firmeza? Topa ser o primeiro homem a dirigir um carro de Fórmula 1 preparado por nós? Ele topou.

Paul Ricard, 12 de agosto de 1986. Um batalhão de jornalistas, fotógrafos e curiosos se reuniu no circuito localizado no sul francês para acompanhar o retorno de Didier Pironi, aquele que tinha tudo para ter sido o primeiro campeão de Fórmula 1 nascido na terra do Napoleão. Antes de o velho piloto entrar na pista, a AGS faria uma espécie de apresentação informal às 9h30 da manhã. Mas como franceses não são ingleses, Henri Julien e seus funcionários só chegaram ao autódromo cinco horas mais tarde…

Ainda mais atrasado que a galera da AGS, Pironi só pousou em Paul Ricard às três da tarde. Desceu todo meninão de seu helicóptero, despreocupado e vestindo uma camiseta da Lamborghini. Os mais maldosos notaram que o francês portava um físico pouco condizente com o de um atleta de alto nível. Didier estava pesando 83kg, oito a mais do que durante seus dias na Ferrari. Aumento de peso justificável para um sujeito que, nos quatro anos anteriores, não havia feito mais nada na vida além de 34 cirurgias.

Logo de cara, a AGS melou as expectativas de muitos ao afirmar que Didier Pironi estava apenas prestando uma cortesia ao esforçado pessoal da equipe e, portanto, não disputaria corridas com ela em 1987. O piloto até queria voltar a competir, mas num carro “que lhe permitisse vencer já logo de cara”, um desejo que nem é assim tão sacal. Além do mais, dizia a lenda que Pironi recebeu uma nota preta de apólice de seguro após o acidente de Hockenheim, mas seria obrigado a devolver a grana no caso de um retorno à Fórmula 1. Ou seja, para justificar um prejuízo dos grandes, Didier teria de assinar com uma equipe de ponta e fim de papo.

Pironi alegrão

Pironi alegrão

Pironi estava felizão. Garantiu que se sentia pronto para voltar a competir, confessou que estava emocionado por poder pilotar um carro de verdade em um circuito de verdade, agradeceu ao médico que esteve sempre ao seu lado durante o período de tratamento e ainda disse que nem pensava mais no acidente fatal de Elio de Angelis, ocorrido naquela mesma pista apenas algumas semanas antes. Depois de tanto parlatório empolgado, Didier trocou de roupa, vestiu seu capacete e deu um jeito de encaixar seus excedentes adiposos no cockpit do AGS JH21C.

Falemos no AGS JH21C, pois. Quando Didier Pironi afirmou que estava feliz por pilotar um “carro de verdade”, nem parecia que ele estava se referindo à criação de Christian Vanderpleyn e Michel Costa. Longo e largo, o JH21C não era exatamente um carro inédito no automobilismo. Na verdade, ele já havia sido visto circulando pelas pistas marotas da Fórmula 1 três anos antes com o nome de Renault RE40. Sim, é isso mesmo que você entendeu: o primeiro AGS de Fórmula 1 era uma releitura de um carro que a Renault utilizou na temporada de 1983.

Com o fechamento da equipe de fábrica da Renault, Henri Julien negociou com a montadora a compra de um de seus antigos chassis. A grana era tão mirrada que Julien não podia se dar ao luxo de sequer adquirir um modelo mais novinho. Então, o negócio foi se contentar com um chassi RE40 que Alain Prost utilizou para ser vice-campeão em 1983. Humildade era a palavra-chave.

Christian Vanderpleyn e Michel Costa eram os responsáveis por transformar aquela barca velha em um bólido minimamente aceitável. Eles desenvolveram novas asas, sidepods, entradas de ar, cobertura de motor e formaram um carro que não era bonito, harmônico, leve ou inovador, mas que ao menos já tinha uma carinha de 1986. Em seguida, derramaram uns baldes de tinta guache branca sobre ele, colaram alguns adesivos da grife italiana El Charro e voilà! Estava pronto o mais novo Fórmula 1 fait en France.

Didier Pironi levou o JH21C à pista pela primeira vez às 18h30, quando o sol já se punha a dormir. Completou 70 voltas no traçado de 2,2 quilômetros, passou por poucas e boas com o motor Motori Moderni e ainda marcou uma volta em 47s6, resultado considerado muito promissor . Ao descer do carro, o empolgado Pironi bradou “eu não mudei nada!”. O teste lhe deu a confiança necessária para tentar ressuscitar sua carreira na Fórmula 1. Didier ainda fez um teste com a Ligier em Dijon-Prenois e também conversou com a McLaren, a Brabham e a Ferrari visando ao menos o cargo de piloto de testes dos seus futuros carros aspirados, que se tornariam obrigatórios a partir de 1989. Infelizmente, as conversas não evoluíram e Pironi migrou para as corridas de motonáutica em 1987. Numa dessas corridas, seu barco Colibri 4 acertou em cheio uma onda, deu uma pirueta e caiu de ponta cabeça na água, matando Pironi e seus dois companheiros de forma imediata. Triste fim para o homem que se julgava bom o suficiente para peitar Gilles Villeneuve e as ordens de equipe ferraristas.

As sofisticadíssimas instalações da AGS

As sofisticadíssimas instalações da AGS

Após o teste de Didier Pironi, a AGS respirou aliviada com o fato de que seu carro andava e levou adiante sua bateria de testes. Já na semana seguinte, nosso camarada Ivan Capelli se livrou de seus afazeres na Fórmula 3000 e arranjou, enfim, um tempinho para conhecer o JH21C. No primeiro dia de testes, a porcaria do motor falhou novamente e Capelli não conseguiu fazer muita quilometragem. Nos dias seguintes, o propulsor decidiu colaborar e Ivan dirigiu por várias voltas sem danificar uma arruela ou um rolamento.

Os testes provaram que o AGS JH21C não era exatamente um desastre ambulante. Rápido ele não era, obviamente. Resistente, também não. Mas ainda daria para pelejar alguma coisa contra os caras da Minardi e da Osella, que também viviam na maior dureza.

Para o ano de 1986, os ambiciosos planos da AGS se restringiam a disputar os GPs da Itália e de Portugal, os dois últimos da fase europeia da temporada. As razões eram óbvias: o período de preparação não permitiria uma estreia antecipada e também não havia bufunfa o suficiente para custear as viagens ao México e à Austrália. O único piloto seria Ivan Capelli, que aceitou competir nessas duas provas após perceber que não prejudicaria sua temporada na Fórmula 3000, onde estava brigando pelo título.

A estrutura da AGS era minúscula, praticamente risível. Contando o dono, havia apenas sete pessoas envolvidas na brincadeira. É bem possível que a padaria da esquina do teu quarteirão tenha mais funcionários do que a escuderia de Henri Julien em seus primeiros dias. A título de comparação, uma equipe média como a Tyrrell contava com pelo menos uns trinta componentes. E numa McLaren da vida, onde os funcionários chegavam à casa da centena, é bem possível que Ron Dennis sequer soubesse o nome de todos eles de cabeça.

A sede da equipe, como não poderia deixar de ser, ficava na cidade francesa de Gonfaron. Tratava-se de um galpão de alumínio do tamanho de uma casa média. À primeira vista, observando todas as rústicas árvores em volta, os banquinhos de plástico e o chão de terra batida, você poderia até confundi-lo com uma pequena granja. Quem imaginaria que nessas acanhadas instalações alguém poderia construir um carro de Fórmula 1?

Capelli em Monza

Capelli em Monza

Após alguns meses de preparação, o grande dia chegou. Monza, 5 de setembro de 1986, exatos dois anos antes do nascimento do ditador deste blog. 27 pilotos estavam inscritos para a corrida mais rápida do calendário, o Grande Prêmio da Itália. Nos dias de hoje, se algum milagre dos céus permitisse que tanta gente pudesse participar dos treinos, ao menos um cidadão ficaria de fora da prova. Mas as coisas não funcionavam assim naqueles tempos sépia, em que bastava a aprovação unânime de todas as equipes para que uma mudança nas regras fosse realizada rapidamente. Via de regra, o número cabalístico de 26 carros no grid de largada costumava ser extrapolado numa boa quando havia 27 ou 28 pilotos tentando largar.

Esse tipo de flexibilidade foi de grande ajuda para a AGS, que imaginava não ter chance alguma de largar se apenas 26 bólidos fossem permitidos para a corrida. Felizmente, e para surpresa de muitos, o JH21C não iniciou o fim de semana como o mais vagaroso dos carros. Nos dois treinos livres, Ivan Capelli conseguiu um 23º e um 24º lugar, superando as carroças da Osella, da Minardi e da Zakspeed. No grid de largada, o italiano conseguiu se livrar da última fila, ficando com o 25º tempo. Apesar de seu melhor tempo ter sido quase dez segundos mais lento do que o do pole-position Teo Fabi, Capelli ainda meteu 2s3 segundos em Piercarlo Ghinzani e 3s1 segundos no estreante Alex Caffi.

Na corrida, Ivan manteve a dignidade, andando sempre à frente dos rivais da Osella e evitando erros. Antes de abandonar devido a um pneu furado, já estava em 13º. Apesar de lento, o JH21C fez seu trabalho com correção. A AGS podia ser miserável e minúscula, mas não era ridícula e caricata.

O GP de Portugal foi a segunda e última corrida da equipe de Henri Julien em 1986. No primeiro treino livre, Capelli conseguiu a proeza de derrotar o Brabham de Derek Warwick por apenas 30 milésimos. No grid de largada, ele voltou a obter a 25ª posição, superando o Zakspeed de Huub Rothengatter e o Osella de Allen Berg. A corrida não durou muito para o italiano, que abandonou na sexta volta por causa de problemas de câmbio. Antes de sair, estava conseguindo andar à frente dos dois carros da Osella e do Zakspeed de Rothengatter.

Ivan Capelli e a AGS não mais retornaram para a Fórmula 1 em 1986, mas ambos já tinham planos bem encaminhados para o ano seguinte. Agenciado por Cesare Gariboldi, o piloto já sabia que competiria por uma nova escuderia, a March. Quanto à AGS, seu único objetivo era o de disputar a temporada completa de 1987. Objetivo alcançado.

Mas isso eu só conto no próximo capítulo.

Richard Dallest, que proporcionou à AGS sua melhor temporada na Fórmula 2 ganhando duas corridas em 1980

Richard Dallest, que proporcionou à AGS sua melhor temporada na Fórmula 2 ganhando duas corridas em 1980

Vamos, crianças da pátria, a segunda parte do texto já chegou! Comecei ontem contando sobre os primeiros, e complicados, dias da equipe Automobiles Gonfaronnaises Sportives, ou simplesmente AGS. A escuderia liderada por Henri Julien e Christian Vanderpleyn teve uma década de 70 repleta de altos e baixos, com avassaladora predominância desses últimos. Em alguns momentos, ela até lembrava a humilde AGS que a gente conheceu na Fórmula 1.

Se os fracassos dos primeiros anos continuassem se repetindo até o fim dos tempos, a AGS não teria passado nem perto dos paddocks da Fórmula 1. Para nossa felicidade, as coisas melhoraram bastante já em 1980, terceiro ano da esquadra na Fórmula 2.

A AGS manteve Richard Dallest como seu piloto principal e contratou o ex-piloto de Fórmula 1 Patrick Gaillard para ocupar um segundo carro, mas o cara não chegou a entrar na pista com a equipe. Tendo, portanto, Dallest como seu solitário piloto, a turma de Gonfaron pôde se concentrar no desenvolvimento de um único chassi JH17. De forma surpreendente, o carrinho azul, vermelho e branco se mostrou muito rápido e versátil. Dallest ganhou as corridas de Pau e Zandvoort, terminou em quarto em Hockenheim e em quinto em Enna-Pergusa. No fim do ano, havia somado 23 pontos e terminado a temporada na sexta-posição, à frente de pilotos agraciados com esquemas muito mais sofisticados, como o neozelandês Mike Thackwell (piloto oficial da March) e o brasileiro Chico Serra (protegido de Ron Dennis).

Após dez anos de fracassos, a AGS finalmente havia se tornado uma equipe respeitável. Em 1981, Henri Julien optou pelo conservadorismo. Manteve o mesmo piloto, o mesmo staff técnico, a mesma pintura e, se bobear, a mesma cueca e as mesmas meias. Só faltou ter acertado a mão no carro, pois o JH18 era uma carroça em comparação ao ano anterior.

Enquanto esperava ansiosamente pela sua nova máquina, Dallest participou das primeiras três corridas da temporada com o JH17. Não obteve nada de bom, mas não estava nem aí, pois tinha certeza de que pontos e vitórias viriam com o JH18. Para sua consternação, o bólido era um lixo e só lhe permitiu marcar quatro pontos nas duas últimas etapas do ano, em Misano e em Mantorp Park. O francês Patrick Gaillard e o inglês Tiff Needell também fizeram corridas pela equipe, mas também não fizeram diferença alguma. Depois do milagre da temporada de 1980, a AGS voltou ao purgatório em 1981.

Pascal Fabre, um dos dois novatos em quem a AGS investiu em 1982

Pascal Fabre, um dos dois novatos em quem a AGS investiu em 1982

Como a filosofia “não se mexe em time que está ganhando” não serviu para droga alguma, Henri Julien decidiu mudar tudo novamente em 1982. Mandou Richard Dallest para casa e contratou dois jovens pilotos, Philippe Streiff e Pascal Fabre, para pilotar os dois JH19 equipados com motor BMW. Era uma aposta temerária, à primeira vista. Embora Streiff tenha sido o campeão francês de Fórmula 3 em 1981, nenhum deles tinha a experiência necessária para derrotar pilotos muito mais tarimbados, como Beppe Gabbiani e Mike Thackwell.

Mas é incrível o quão competente a AGS era na arte de sair do buraco quando as coisas pareciam não poder ficar piores. Para quem dependia dos esforços corajosos de dois pilotos estreantes, o saldo final foi excelente. Streiff obteve dois segundos, dois quartos e dois quintos lugares, tendo marcado 22 pontos e finalizado o ano em sexto. Fabre teve bem mais dificuldades, terminou várias provas no meio do pelotão, não se classificou para a prova de Pau e marcou apenas cinco pontos. O destaque maior vai para a etapa de Vallelunga, em que os camaradas Streiff e Fabre dividiram o pódio.

No ano de 1983, a AGS manteve apenas um carro para Philippe Streiff nas três primeiras etapas e a partir da etapa de Vallelunga passou a inscrever um segundo bólido para Fulvio Ballabio, um italiano que chamava a atenção por sempre dirigir carros estampados com a carinha simpática e demoníaca do Mickey Mouse. Simpatia gratuita pelos personagens de Walt Disney? Nada disso. Um dos patrocinadores de Ballabio era a editora Arnoldo Mondadori, que publicava os gibis de Mickey “Topolino” Mouse e amigos na Itália.

De carreira apenas risível no automobilismo italiano, Fulvio Ballabio era um corpo estranho no meio de pilotos talentosos e profissionalizados o suficiente para assumir carros de Fórmula 1 nos anos seguintes. Mas a verdade é que a cambaleante AGS precisou recorrer ao seu farto dinheirinho. Após ter perdido os polpudos patrocínios da Motul e da GPA, a escuderia teve de se virar no início de 1983 arranjando apoiadores no esquema corrida-a-corrida. Foi assim que, por exemplo, a Sharp aceitou colocar uma graninha nos cofres de Monsieur Henri para enfiar uns adesivos no carro em Silverstone. Por pior que Fulvio Ballabio fosse, a grana da Mondadori salvou a temporada da AGS.

Depois dessa descrição, imagino o caro leitor portando um maldoso sorriso de canto de boca esperando mais um ano desastroso para a AGS. Afinal de contas, após ir mal em 1979, bem em 1980, mal novamente em 1981 e bem novamente em 1982, é de se esperar que o ano ímpar a seguir também seja de grandes tristezas para a pequena garagem de Gonfaron, ainda mais numa fase de penúria financeira. Nada disso. Henri Julien e Christian Vanderpleyn acertaram a mão novamente. Pelo segundo ano seguido, os bons resultados predominaram em relação aos ruins.

Philippe Streiff e o carro "Mickey Mouse" da AGS em 1983

Philippe Streiff e o carro “Mickey Mouse” da AGS em 1983

O ótimo Philippe Streiff subiu ao pódio quatro vezes, com um segundo lugar em Enna-Pergusa e três terceiros lugares em Donington, Zolder e Mugello. No fim do campeonato, tinha conseguido 25 pontos, ficando atrás apenas de Jonathan Palmer, Mike Thackwell e Beppe Gabbiani no campeonato de pilotos. Ballabio, que fez apenas sete corridas com a AGS, obteve um quinto lugar em Misano e um sexto em Mugello. Para um piloto que não conseguiu sequer a superlicença para correr na Fórmula 1 em 1984 por pura inaptidão, um bom amontoado de pontos.

Em 1984, a AGS iniciou o ano na maior alegria. O esforçado Philippe Streiff correu atrás de patrocinadores dentro da França e conseguiu atrair nada menos que três grandes empresas do país, a tabaqueira Gitanes, a petrolífera Elf e a distribuidora de equipamentos de informática Blanchet Locatop. Com isso, os carros abandonaram as cores branca e vermelha e passaram a ser predominantemente azuis, como se fossem versões mais singelas dos carros de Fórmula 1 da Ligier. Pela primeira vez em sua existência, a escuderia de Henri Julien desfrutaria de alguma tranquilidade financeira.

O carro a ser utilizado era o JH19C, uma atualização do JH19 fabricado em 1982. Apesar de não ser exatamente o mais novo dos monopostos de Fórmula 2, ainda era bastante capaz de colher um resultado bom aqui e outro acolá. O grande obstáculo a ser enfrentado era a equipe Ralt, de Ron Tauranac. Numa época em que a Fórmula 2 aterrissava de barriga por causa dos custos altíssimos e do total desinteresse da mídia, somente a Ralt tinha dinheiro (graças à Casio e à Honda) e disposição para investi-lo num carro moderno e competitivo. Resultado: Mike Thackwell e Roberto Moreno ganharam nove das onze corridas e humilharam a amedrontada concorrência.

Único piloto da AGS durante toda a temporada, Streiff ainda conseguiu vencer de forma excepcional a corrida de Brands Hatch, a última da história da Fórmula 2 original – no ano seguinte, a categoria daria espaço à Fórmula 3000 Internacional. Essa prova teve de ser interrompida após 31 voltas por causa da típica chuva torrencial inglesa e só foi reiniciada quando a maior parte da água despejada sobre o asfalto já havia secado. Nessa segunda bateria, Streiff conseguiu superar Roberto Moreno e venceu com mais de um minuto de vantagem, um estrondo em se tratando de categoria de base. Diria eu que foi o maior feito da história da AGS.

O fim da Fórmula 2 e o início da Fórmula 3000 Internacional não trouxe nada de novo para Henri Julien, que topou disputar a nova categoria numa boa. Como já contei para vocês em outros verões, a Fórmula 3000 foi uma criação de Bernie Ecclestone que visava promover uma competição de baixo custo utilizando carros antigos de Fórmula 1 e velhos motores Cosworth DFV. Essa, no entanto, não era uma obrigatoriedade. Quem quisesse construir seus próprios chassis e propulsores poderia fazê-lo numa boa. E Henri Julien não era homem de ficar comprando carrinho pronto dos outros. Seu negócio era começar seus próprios bólidos do zero.

Philippe Streiff na última corrida da história da Fórmula 2, a etapa de Brands Hatch da temporada de 1984. Ele venceu essa corrida de forma maestral

Streiff na última corrida da história da Fórmula 2, a etapa de Brands Hatch da temporada de 1984. Ele venceu essa corrida de forma maestral

Caprichada, a AGS construiu talvez o mais bonito e moderno dos chassis daquela temporada inaugural, o JH20. Os patrocinadores seriam os mesmos de 1984, Elf, Blanchet Locatop e Gitanes, o que significava que a bela pintura azul turquesa também continuaria existindo. E o piloto seria o mesmo desde 1982, Philippe Streiff. Com três bons anos de experiência na Fórmula 2 e um esquema ajeitadinho, Streiff iniciava 1985 como um dos favoritos ao título.

Mas não foi bem assim. A temporada foi boa, sim, mas nada summa cum laude. Em Silverstone, Streiff teve um primeiro fim de semana discretíssimo: largou em oitavo e abandonou ainda na sétima volta com problemas de suspensão. Thruxton foi outra etapa ruim, com o piloto francês largando apenas em nono e saindo da prova com problemas de freios. Os carros que estavam dominando a festa, num primeiro instante, eram os das equipes Ralt, Onyx e ORECA.

Streiff só viu a bandeira quadriculada pela primeira vez no Estoril, onde terminou em décimo após largar em 11º. Os primeiros pontos vieram na etapa seguinte, em Vallelunga. O francês largou em sexto, passou a primeira parte da corrida colado nos cinco primeiros colocados e só perdeu terreno nas últimas voltas, quando foi ultrapassado por Olivier Grouillard. Com os abandonos à frente, acabou terminando na quinta posição. Para quem acreditava que ele desembestaria a ganhar corridas, um início de temporada bem frustrante.

Em Pau, Streiff repetiu a história de Vallelunga: sexto lugar no grid e quinto na corrida. O detalhe é que somente cinco carros chegaram ao fim e o próprio piloto francês não conseguiu completar todas as 72 voltas previstas. A etapa de Spa-Francorchamps prometia muito, com Philippe obtendo o quinto lugar no grid e assumindo a quarta posição antes mesmo da primeira curva. Infelizmente, enquanto disputava a terceira posição com Emanuele Pirro, bateu no carro do adversário e abandonou a prova com a suspensão estourada. As corridas de Dijon e Enna-Pergusa também não renderam muitos frutos, com o AGS azulado largando e terminando no meio do pelotão.

O final da temporada foi bem melhor graças a algumas novidades aerodinâmicas que a AGS implantou em seu JH20. No lendário circuito de Österreichring, Philippe Streiff abocanhou o quarto lugar no grid de largada, subiu para terceiro na primeira curva e roubou a segunda posição de Mike Thackwell ainda no complemento da primeira volta. Algumas voltas depois, fez uma ultrapassagem espetacular sobre o líder Christian Danner e assumiu a liderança de uma corrida de Fórmula 3000 pela primeira vez. Infelizmente, o carro começou a perder desempenho graças a um vazamento de óleo e Streiff foi facilmente engolido por Ivan Capelli, que acabou ganhando a prova. Após levar ultrapassagens de mais gente, Philippe ainda conseguiu chegar ao fim na quinta posição.

Streiff na etapa de Österreichring da Fórmula 3000 em 1985. Esta foi uma de suas melhores atuações na temporada

Streiff na etapa de Österreichring da Fórmula 3000 em 1985. Esta foi uma de suas melhores atuações na temporada

Na pista holandesa de Zandvoort, Philippe Streiff obteve seu melhor resultado na temporada. Largando da sétima posição, ele se aproveitou da pista molhada e de um problema de Ivan Capelli para ganhar três posições ainda na primeira volta. Logo depois, passou um tempão perseguindo desesperadamente o Ralt de Mike Thackwell na briga pela terceira posição. Após algumas voltas aborrecidas atrás do neozelandês, Streiff resolveu ultrapassar o cara por fora na curva Tarzan, uma das mais perigosas da Europa. A manobra deu certo e o francês assumiu a terceira posição, que se transformou em segundo lugar após o pit-stop de John Nielsen. Pouco corajoso, ele…

Thackwell, outro grande piloto, não deixou barato e tentou devolver a ultrapassagem, mas Philippe não só se livrou do adversário como engoliu Michel Ferté com enorme facilidade pouco tempo depois, assumindo a liderança da prova. Mas a felicidade não durou muito. Com o fim da chuva e o secamento do asfalto, Streiff teve de ir aos boxes para trocar seus pneus de chuva por slicks novinhos em folha. O pit-stop acabou lhe derrubando para a terceira posição, atrás de Christian Danner e Mike Thackwell. Se a pista tivesse continuado encharcado e ninguém tivesse ido aos boxes, Philippe Streiff certamente teria vencido a prova.

Donington foi a última corrida da temporada. Nono colocado no grid, Philippe Streiff se deu muito bem com o acidente entre Emanuele Pirro e Mike Thackwell na largada, subindo para a sexta posição. Pouco depois, assumiu a quinta posição e permaneceu nesta até o fim, terminando a prova com Alain Ferté colado em sua caixa de câmbio.

Com doze pontos, Philippe Streiff finalizou a temporada na oitava posição. Longe de ter sido um resultado espetacular, o fato é que o francês teve ótimas atuações em Österreichring e Zandvoort e também poderia ter ido longe em Spa-Francorchamps. Mas não dava para competir contra um inspiradíssimo Christian Danner, o campeão, e contra as poderosas equipes Ralt, Onyx e ORECA. Nem todo Davi consegue vencer seu Golias.

Em 1986, a AGS não competiu na Fórmula 3000 com equipe oficial. Uma versão atualizada do chassi JH20 foi vendida à Danielson, uma tradicional equipe sediada em Magny-Cours que participava dos campeonatos menores de monopostos e protótipos na França. A Danielson não tinha dinheiro para disputar a temporada inteira da Fórmula 3000, mas dava seu jeito nas rodadas realizadas da França e naquelas em que conseguia um ou outro patrocinador disposto a conceder uns trocados.

O velho Richard Dallest, que ainda fez milagre com o JH20 no GP de Pau da Fórmula 3000 em 1986

O velho Richard Dallest, que ainda fez milagre com o JH20 no GP de Pau da Fórmula 3000 em 1986

A primeira corrida da Danielson em 1986 foi a tradicional etapa de Pau. Para pilotar o JH20B, a equipe convidou ninguém menos que Richard Dallest. Lembra-se dele? Aquele mesmo, que ganhou duas corridas de Fórmula 2 com a equipe oficial da AGS em 1980. Naquela altura, já com 35 anos de idade e sem nenhuma ambição de subir para a Fórmula 1, Dallest decidiu participar daquelas corridas apenas por falta de coisa melhor pra fazer. E mesmo assim, sem muita seriedade e sem muita quilometragem com o carro, ele provou que não tinha perdido seu talento.

No meio de nada menos que 38 inscritos, Dallest conseguiu surpreender obtendo o nono lugar no grid de largada com um carro completamente imaculado, sem sequer um estúpido adesivo daqueles de papai, mamãe, filhinhos e papagaio. Aproveitando-se do fato de conhecer o traiçoeiro circuito de rua de Pau como seu próprio pau, Richard sobreviveu 72 voltas, envolveu-se em um bom duelo com Michel Ferté e conseguiu um milagroso quarto lugar. Fala sério, esse cara deveria ter ido para a Fórmula 1.

Richard Dallest ainda fez mais duas corridas com a Danielson em 1986, mas previsivelmente não conseguiu repetir a boa atuação de Pau. Ainda fez muito ao andar o tempo todo no meio do pelotão em Spa-Francorchamps, fugindo da indignidade das últimas posições. Outro piloto que também competiu pela Danielson foi Alain Ferté, que largou nas duas últimas etapas da temporada sem terminar nenhuma delas. De fato, a Danielson não tinha grandes ambições na Fórmula 3000 no ano de 1986, tanto que só viria a disputar uma temporada completa na categoria oito anos depois…

E aí vem a pergunta do leitor: se a AGS não participou oficialmente da Fórmula 3000 ou de qualquer outro campeonato em 1986, então o que demônios Henri Julien, Christian Vanderpleyn e companhia estavam fazendo naquele ano? Coçando o saco no sol de Saint-Tropez? Não. Embora não estivesse disputando nada, a equipe de Gonfaron trabalhou um bocado na construção daquele que era a realização do sonho de Julien e Vanderpleyn, um carro de Fórmula 1.

Fórmula 1? Pois é. Mas a continuação dessa história fica para o terceiro capítulo.

Olha que baratinha graciosa! Esse carrinho de brinquedo foi nada menos que o primeiro carro da AGS, o JH1

Olha que baratinha graciosa! Esse carrinho de brinquedo foi nada menos que o primeiro carro construído por Henri Julien, dono da AGS

Dias infelicíssimos para o automobilismo, estes últimos. Os que acompanham o esporte há algum tempo certamente ficaram tristes com o passamento de duas personalidades, uma do jornalismo brasileiro e outra dos anais da Fórmula 1. Primeiramente, Marcus Zamponi, certamente dono de um dos melhores textos desse país. Não o conheci pessoalmente, mas fui leitor fiel de sua impagável coluna na Racing durante vários anos. Zampa foi, certamente, uma das inspirações que me levaram a abrir este troço aqui. Qualquer dia desses, postarei uma pequena homenagem, uma historinha sobre sua participação nas 24 Horas de Le Mans de 1978 como membro da equipe de Paulão Gomes, Alfredo Guaraná Menezes e Marinho Amaral.

A outra morte ocorrida nestes últimos dias, pouco lembrada nos paddocks europeus, foi a de Henri Julien, criador da antiga equipe AGS de Fórmula 1. Aos 85 anos, Julien faleceu no último sábado no Hospital de Hyères, nos arredores da cidade francesa de Toulon. Deixou para trás uma sólida empresa de locação de carros de corrida e uma história digna de alguém que gostava de automobilismo mais do que qualquer um aqui.

Como homenagem, nesses próximos dias, publicarei uma série de artigos contando a história da Automobiles Gonfaronnaises Sportives, talvez a última equipe literalmente garageira que existiu na Fórmula 1.

Primeira parte.

Alô, você que tem menos de vinte anos de idade e acompanha a Fórmula 1 com a fidelidade de um Sancho Pança. Saiba que, um dia, o automobilismo já foi comandado por gente que realmente gostava do esporte. Você sabe do que estou falando, o mecânico que sonhava em repetir a trajetória de Enzo Ferrari, o playboy que só queria espairecer em alta velocidade, o sonhador que almejava ganhar a vida pilotando um bom possante. Esse negócio de pilotos tão profissionalizados e corporativistas como participantes de O Aprendiz e de donos de equipe bilionários e enrolados com problemas obscuros é coisa dos tempos recentes. Um dia, Fórmula 1 já foi sinônimo de malucos tentando chegar completar um número de voltas no menor tempo possível.

Não sei se você conhece a história de Enzo Ferrari, criador daquela que é a mais politiqueira e corporativista das equipes de Fórmula 1 atualmente. O comendador não era uma pessoa muito diferente de mim e de você, tendo iniciado no automobilismo na época em que trabalhava num pequeno estúdio de conversão de caminhões para carros. Enzo é, possivelmente, o maior dos garagistas. E a trajetória do francês Henri Julien é bastante semelhante.

Gonfaron, França. A poucas dezenas de quilômetros do Mar Mediterrâneo, uma pequena comuna encravada num terreno íngreme do departamento de Var congrega algumas centenas de humildes sobradinhos grudados uns aos outros, uma igreja e uns poucos milhares de habitantes tranquilos e bem alimentados. Certamente, um lugar para morar quando você já estiver velho, rico, cansado e doido para entornar umas garrafas de bom vinho tinto.

Henri Julien e o JH02

Henri Julien e o JH2

Um dos ilustres habitantes dessa cidade é Henri Julien, um sujeito de aparência tipicamente gaulesa cuja grande paixão era o automóvel. Nascido em 18 de setembro de 1927, Julien iniciou sua vida com as maquinetas de quatro rodas ao decidir abrir uma pequena oficina em sua cidade-natal no fim dos anos 40. A Garage de l’Avenir não era lá muito diferente daquelas oficinas de fundo de quintal a que você é obrigado a recorrer quando está com o motor fundido numa viagem de férias no meio do Tocantins. Julien se divertia consertando os Peugeots, Citroëns e Renaults que circulavam em Gonfaron na época.

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, os europeus lentamente foram recuperando seus antigos hábitos, como o de fazer sexo sem se preocupar com uma bomba amiga arrebentando o telhado de sua casa na calada da madrugada ou o de se juntar com alguns amigos de disputar uma corrida clandestina numa estradinha de interior. Provavelmente enfastiado com a pacata vida de mecânico de um vilarejo francês, Julien adicionou um pouco de emoção à sua vida se envolvendo com o esporte a motor, naquela altura em fase de renascimento.

Julien fez sua primeira corrida na vida ainda em 1947, mas foi em 1950 que ele decidiu fazer as de piloto e construtor. De forma prosaica e humilde, o cara utilizou seu tempo livre para desenvolver um pequeno bólido equipado com motor Simca de 500cc e o levou para pilotá-lo em corridas amadoras realizadas em território francês. A alcunha do carrinho era “JH1”, possivelmente uma alusão ao sobrenome Julien e ao nome Henri. A sigla “JH” seria utilizada nos demais monopostos construídos por ele, inclusive os de Fórmula 1.

Embora Henri Julien não fosse exatamente um novo Tazio Nuvolari, sua carreira como piloto resistiu por um período razoavelmente longo. O que ficava claro, porém, é que seu negócio era construir bólidos de corrida. Sua próxima criação foi o JH2, um monoposto de aparência medonha que era equipado com motor BMW 500cc. Em 1957, surgiu o JH3, um carrinho de Fórmula Junior empurrado por um propulsor Panhard de 850cc. Estranhou as cilindradas desses motores? Eram tempos minimalistas, aqueles.

Apesar de Julien não ser um gênio ao volante, ele insistiu em continuar nessa de pilotar e construir carros simultaneamente. Durante um tempo, ele até deixou seu lado engenheiro de lado. Em 1960, o teimoso francês comprou um carro de Fórmula 3 da Alpine e decidiu competir de forma mais séria no automobilismo de seu país. Levou um pau da concorrência, ficou deprimido e resolveu abandonar o esporte em 1965. Então a história da AGS acaba aí?

Não.

Em 1968, surgiu uma nova categoria no cenário automobilístico francês, a Fórmula France. Animado com a novidade, Henri Julien se interessou em disputar o certame apenas como chefe de equipe e decidiu voltar a construir carros de corrida em 1969. Dessa vez, ele viria para a contenda com um esquema um pouquinho mais profissional. Arranjou um sócio, seu antigo mecânico Christian Vanderpleyn, e fundou junto com ele a Automobiles Gonfaronnaises Sportives, ou simplesmente AGS.

Christian Vanderpleyn era um cara mais ou menos como Henri Julien, um mecânico que aprendeu a fazer engenharia por conta própria e que sonhava em se tornar bem sucedido no automobilismo. Para a temporada de 1969 da Fórmula France, os dois parceiros desenvolveram de forma conjunta o AGS JH4, o quarto carro criado por Julien e o primeiro sob a insígnia da escuderia.

O AGS de Fórmula Renault utilizado em 1971

O AGS de Fórmula Renault utilizado em 1971

O primeiro ano da AGS na Fórmula France não foi fácil. O único piloto da equipe, François Rabbione, não conseguiu marcar nenhum pontinho sequer. Para o ano de 1970, Julien e Vanderpleyn prepararam um chassi novo, o JH5. Dessa vez, foi decidido colocar dois exemplares do JH5 nas pistas e Rabbione ganhou a companhia de Gerard Cerruti. Os resultados melhoraram, Rabbione marcou quatro pontos e Cerruti até conseguiu um pódio em Paul Ricard, veja só. Mas as vitórias ainda eram apenas uma utopia para a turminha do barulho da AGS.

Em 1971, a simpática Fórmula France mudou de nome, ganhando uma denominação que se tornaria difundida nas décadas seguintes: Fórmula Renault. A esquadra de Henri Julien e Christian Vanderpleyn permaneceu na categoria, mas lançou um novo carro, o JH7, e trocou de pilotos, dispensando os dois anteriores e contratando apenas François Guerre-Berthelot, um cara que também trabalhava como dublê em filmes. Guerre-Berthelot não venceu nenhuma corrida, mas notabilizou-se por ter marcado um monte de voltas mais rápidas nas corridas que disputou. Seu desempenho agradou a AGS e os dois lados iniciaram uma amizade que durou até o final dos anos 80.

Mas François Guerre-Berthelot não foi o único piloto a competir com um chassi AGS. Ainda naquele ano, a equipe vendeu dois de seus chassis JH6 à Team Total, cujos pilotos eram Couderc e Gougeon. Os três carros podiam ser simpáticos e tal, mas não amealharam muitos resultados de relevo. O fato é que, naquele instante, podíamos chamar a AGS de esforçada, mas não de brilhante.

Ainda assim, a equipe quis dar um salto já em 1972, primeiro e único ano em que construiu um chassi de Fórmula 3, o JH9. Seu único piloto seria o mesmo François Guerre-Berthelot da Fórmula Renault. Apesar das expectativas, o JH9 só disputou duas corridas e não conseguiu nenhum resultado decente. Desiludidos, Henri Julien e Christian Vanderpleyn optaram por esquecer esse negócio de Fórmula 3 e concentrar esforços apenas na Fórmula Renault europeia, que substituía a Fórmula Renault francesa naquele ano.

A AGS só apareceu na categoria em 1972 como fornecedora de chassis da Team Total, cujos pilotos eram Christian Gonnetant e Gérard Bareyre. Por ter destinado atenções apenas ao fracassado projeto da Fórmula 3, a manufatureira também não conseguiu nada na Fórmula Renault e finalizou mais um ano sem resultados e cheia de contas para pagar. Quem acha que a AGS só se lascou na Fórmula 1 está redondamente equivocado.

Em 1973, sem grandes ambições, a escuderia de Gonfaron construiu um único bólido de Fórmula Renault, o JH10, para o piloto Alain Jallot. A modéstia fez bem à AGS, que conseguiu quinze pontinhos e a 17ª posição no campeonato de pilotos com Jallot. Para uma turma que raramente conseguia se aproximar da zona de pontuação nos anos anteriores, um baita de um resultado.

José Dolhem, o irmão do Pironi, e o primeiro carro de Fórmula 2 da AGS. Pau, 1979

José Dolhem, o irmão do Pironi, e o primeiro carro de Fórmula 2 da AGS. Pau, 1979

Animada com a discreta melhora no ano anterior, a AGS volta a expandir suas operações em 1974. Pela primeira vez em sua curta existência, ela construiu um chassi do tipo monocoque, seguindo a tendência que tomava conta do automobilismo nos anos 70. O JH11 foi utilizado por quatro pilotos: Jallot, Maillard, Pecqueur e Lacoste, sendo os dois últimos ligados a outras equipes. Resultados? Os de sempre.

Em 1975, a equipe voltou a reduzir suas operações, fornecendo seu novo chassi JH13 a apenas dois pilotos da Fórmula Renault europeia, Xavier Mathiot (que seria substituído posteriormente por Christian Ethuin) e um tal de “Steve”. Nenhum grande avanço foi registrado, o mesmo ocorrendo também em 1976. Quando diabos a AGS começará a engrenar?

Resposta: em 1977. Naquele ano, a equipe nem se deu ao trabalho de construir um chassi novo para a Fórmula Renault, reaproveitando o JH14 do ano anterior. Por incrível que pareça, justamente nessa fase meio sombria, os primeiros grandes resultados da equipe começaram a aparecer com o francês Richard Dallest, um dos pilotos mais injustiçados do automobilismo nos últimos quarenta anos. Desconhecido no Brasil, Dallest era um daqueles que não tinha dinheiro algum, mas que topava qualquer oportunidade para correr e geralmente mandava muito bem. Um Roberto Moreno que falava francês.

Na categoria Fórmula Super Renault, Richard finalizou na segunda posição em quatro ocasiões e acabou terminando a temporada em quarto. A temporada foi tão animadora que Henri Julien decidiu construir um monoposto com a intenção de disputar a competitiva Fórmula 2 em 1978. Seria esse mais um passo em falso da AGS?

Dessa vez, parecia que não. Lembram-se de François Guerre-Berthelot? Ele deu a maior força para essa nova fase da AGS arranjando para ela os patrocínios dos lubrificantes Motul e dos fones de ouvido GPA. Com a grana, foi possível construir dois chassis JH15, que seriam pilotados por Dallest e pelo irmão de Didier Pironi, José Dolhem. Apesar do apetite, a AGS deu o azar de ter estreado numa temporada inspiradíssima dos chassis March e de Bruno Giacomelli, que venceu oito das doze etapas da temporada. Dallest e Dolhem passaram o ano em branco, não marcando um pontinho sequer.

Já está de saco cheio de ler parágrafos sobre os sucessivos fracassos da AGS? Calma que falta pouco para acabar. Infelizmente, 1979 ainda foi um ano bastante difícil para Henri Julien e amigos. José Dolhem disputou apenas a primeira corrida do ano e depois se escafedeu. Alain Couderc, que já havia competido com a equipe na Fórmula Renault, deu as caras em quatro corridas e não passou nem perto da zona de pontuação. E aí?

E aí que eu só vou postar a segunda parte amanhã. Eu sei que você já deve estar aborrecido pra cacete, é realmente um chute nas bolas gastar tanto tempo lendo a história de uma equipe que nasceu mal e morreu pior. Não se preocupe, pois os anos seguintes foram muito bons para a AGS, a começar por 1980. Não me abandonem!

Sergey Sirotkin, o pivô no resgate da Sauber promovido por três empresas estatais russas

Sergey Sirotkin, o pivô no resgate da Sauber promovido por três empresas estatais russas

Como andei comentando há algum tempo, este espaço de excelência jornalística e corneteira funcionou com a ajuda de aparelhos por quase um ano por causa da minha monografia, que me consumiu tempo, energia e até um pouco de grana – imprimir 194 páginas não é algo propriamente barato. Curiosamente, o tema dessa trabalheira toda tem alguma, ou muita, relação com o assunto de hoje. Sim, estou forçando a barra.

Deixei, durante esses últimos doze meses, de falar sobre rodas, arruelas e diferenciais neste blog para tratar de um assunto muito importante para a geopolítica mundial, a Ásia Central, aquela região dos Turcomenistões da vida. Não faça essa cara. A Ásia Central é muito mais relevante do que aquele filme “Borat” sugeriu. É de lá que sai, por exemplo, o gás natural que aquece casas e apartamentos na Europa, inclusive os hotéis monegascos que hospedam os almofadinhas da Fórmula 1 na ocasião do GP em Montecarlo. Ou o petróleo que russos utilizam para mover seus Nivas avermelhados e os monopostos da Russian Time na GP2.

Rússia. O foco da minha monografia era analisar se a Ásia Central, uma histórica zona de influência dos skavurskas, está começando a ser dominada pelos chineses, que já mandam na economia dos países da região. Os russos são cheios de querer ser o Império Romano eslavo, gostam dessa ideia de mandar em todo mundo que está à sua volta, mas não têm condições de competir com os chineses e seus badulaques de plástico e silício.

Isso não significa, porém, que a Rússia desistiu de seu projeto imperialista. O presidente Vladimir Putin e seus amigos investem um bocado na expansão de suas grandes empresas estatais, como a Lukoil, que já patrocinou a Arden na Fórmula 3000, e a Gazprom, cujo logotipo chegou a aparecer nos carros da Minardi em 2002. O objetivo é claro: manter corporações grandes o suficiente para penetrar mercados mundiais, competindo de igual para igual com as maiores empresas do mundo.

Russos não costumam ter medo de cara feia e de ameaças vindas de outras potências. No século XIX, os russos tomaram toda a Ásia Central (composta por Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Turcomenistão e Uzbequistão) de assalto, povoando suas cidades históricas e alterando toda a demografia local. Em determinado momento, essa turma ocupou a região do Pamir, uma parte montanhosa do Tadjiquistão que faz fronteira com o Afeganistão. O problema é que o Afeganistão em si era uma espécie de barreira que os britânicos mantinham para evitar que qualquer outro povo adentrasse a Índia, naquela altura sob seu domínio. Assim, ao invadirem o Tadjiquistão com grande facilidade, os russos poderiam querer entrar no Afeganistão e, enfim, na Índia. E aí toda a merda estaria feita.

Essa é uma pequena e simplificada descrição do Grande Jogo, uma espécie de Guerra Fria entre Rússia e Reino Unido em meados do século XIX. Os dois lados quase caíram no pau durante alguns momentos, mas a assinatura de alguns acordos na segunda metade do século definiram as fronteiras que não poderiam ser desrespeitadas por uns e outros e a paz, se é que dá para chamar dessa forma, voltou a reinar. Esta foi, de qualquer forma, a primeira grande demonstração de força da Rússia sobre o Ocidente nos séculos mais recentes.

Alguns anos se passaram e chegamos a 2013. Hoje em dia, os russos são vistos pela maioria das pessoas apenas como esquisitões de semblante psicótico que gostam de vodca, não gostam de democracia e fazem algum dinheiro se jogando na frente de carros e processando seus motoristas. Alguns preconceituosos mais radicais ainda afirmam que eles são chegados em envenenamento de inimigos políticos e atividades mafiosas. É óbvio que generalizações são uma forma de empobrecer a realidade, mas a imagem dos caras é exatamente esta.

Carro da equipe Russian Time na GP2: mais um sinal do aumento da presença da Rússia no automobilismo nesse ano

Carro da equipe Russian Time na GP2: mais um sinal do aumento da presença da Rússia no automobilismo nesse ano

Voltemos ao automobilismo. Quando vemos uma empresa russa patrocinando alguma coisa no esporte, algumas pressuposições surgem à mente. Em primeiro lugar, essa empresa obviamente é estatal. Em segundo lugar, essa empresa evidentemente é grande pra cacete. Em terceiro lugar, ela certamente pertence a alguém que fez carreira como membro do Partido Comunista da URSS e que se tornou bilionário do dia para a noite nesses esquemas de privatizações envolvendo só os amigos do presidente. Em quarto lugar, sei lá, nunca se sabe quais são as reais intenções de um patrocínio cirílico num carro de corrida…

Nesse ano, o automobilismo europeu recebeu uma boa injeção de rublos que ajudou a resgatar, ao menos, duas escuderias de tradição. No início do ano, a iSport International, uma das mais fortes participantes da GP2, foi salva do fechamento definitivo no último minuto da prorrogação quando o ucraniano Igor Mazepa comprou seus ativos e a recriou como Russian Time. A equipe fez apenas três dias de testes na pré-temporada e não tem nenhum patrocinador relevante, mas já conseguiu três vitórias na temporada. A decisão de contratar dois pilotos bons e experientes, Sam Bird e Tom Dillmann, se mostrou totalmente acertada.

É bom ressaltar que a Russian Time só conseguiu formar essa dupla do barulho aí porque não tem de se preocupar com dinheiro. Ao contrário de equipes como a DAMS e a Trident, que dependem da grana dos seus pilotos para sobreviver, a escuderia russa não precisa apelar para nenhum Ricardo Teixeira da vida porque seu chefão, Mazepa, é podre de rico. Antes de se tornar dirigente na GP2, ele havia feito fortuna como CEO da Concorde Capital Ltd., uma das maiores empresas de investimento, corretagem e capitalização do Leste Europeu.

Apesar de ter nascido na Ucrânia e de operar em Kiev, Mazepa é russo de coração. Além do mais, a bandeirola da Rússia e o logotipo às Olimpíadas de Sochi no ano que vem estão estampados nos bólidos da Russian Time. Outra coisa interessante: ele aparentemente não tem nenhuma relação com o comunismo russo. Ainda muito novo (37 anos de idade), o empresário se formou em Economia (uhu!) na Ucrânia e iniciou sua carreira no mercado bancário. Logo, não pode, de forma alguma, ser comparado a um Roman Abramovich da vida.

Mas o anúncio mais interessante veio hoje, com a confirmação de que a quase falida Sauber finalmente conseguiu encontrar alguém que lhe ajudasse a sair da lama. Depois de longas semanas de dores de cabeça com fornecedores e rumores pra lá de negativos, que apontavam até mesmo o fechamento das portas após o GP da Hungria, a escuderia de Peter Sauber e Monisha Kaltenborn será definitivamente salva pelo capital russo. Por meio do respeitável Fundo Internacional de Investimento Corporativo, do magnânimo Fundo Estadual de Desenvolvimento do Noroeste da Federação Russa e do indispensável Instituto Nacional de Tecnologia da Aviação, o governo da Rússia empregará uma boa grana nos cofres da Sauber, garantindo sua sobrevivência a médio prazo.

Todo esse apoio pomposo tem um preço, é claro. Pelo suporte, que incluirá o acesso a técnicos e recursos do Instituto Nacional de Tecnologia da Aviação, a Sauber será obrigada a ter em sua folha de pagamentos um piloto russo a partir de 2014. Mas não será um piloto qualquer.

Sergey Sirotkin, 17 anos, terá a oportunidade de andar com o carro da equipe a partir de 2014. O texto publicado no site da equipe afirma que Sirotkin participará de um programa de desenvolvimento que o deixará apto para ser um piloto de corridas em 2014. Não deu para entender exatamente se Sergey efetivamente será um dos pilotos oficiais na equipe já no ano que vem ou se ele apenas iniciará esse estágio de preparação em 2014 visando as temporadas posteriores, mas o fato é que o garoto se deu bem.

E a Sauber vai falar russo a partir de 2014

E a Sauber vai falar russo a partir de 2014

Você, torcendo o nariz, se pergunta “puxa vida, não havia nenhum piloto russo minimamente mais capacitado ou experiente?”. É uma pergunta pertinente. Vitaly Petrov, vice-campeão da GP2 e ex-piloto da Renault e da Caterham, está aí de bobeira, esperando uma nova chance para voltar a competir. Outro soviético que está desesperado por uma oportunidade na carreira é Mikhail Aleshin, que parece estar condenado a passar o resto da vida na World Series by Renault após até ter sido campeão da categoria em 2010. E há também Daniil Kvyat, um dos moleques de ouro da Red Bull, atualmente fazendo seu ano de estreia na GP3. Além de ter um currículo mais interessante, Kvyat é um ano mais velho que Sirotkin.

Mas nenhum deles possui o que Sergey tem de melhor, um pai importante. Oleg Sirotkin é exatamente o diretor do Instituto Nacional de Tecnologia da Aviação, uma dos três órgãos públicos russos que apoiarão a Sauber a partir de agora. Decerto que a vontade de Oleg de ver seu filho subindo para a Fórmula 1 falou bem alto no momento em que ele assinou o acordo que salvou as finanças da escuderia suíça. Na prática, não há muitas diferenças entre ele e Grahame Chilton, o cara que arranjou um carro de Fórmula 1 para seu filhinho Max por meio da aquisição de parte da equipe Marussia.

Os puristas torcem o nariz para esse tipo de coisa. Para nós, o piloto tem de comer muito arroz com feijão e farofa antes de sequer ousar sentar em um carro de Formula 1. Entrar na categoria por meio do apoio do papai é um atalho indigno do ponto de vista esportivo. Mal comparando, é como o garoto que apanha na escola, corre para casa e pede para o pai se vingar dos bullies. Se você não consegue resolver sua carreira sem o apoio paterno, então seu negócio não é a Fórmula 1. Recomendo que estude Administração de Empresas, vista um terno, trabalhe de verdade e pare de gastar o suado dinheiro do “papis”.

O pior é que Sergey Sirotkin nem é um piloto tão ruim assim. Na verdade, ele realmente aparenta estar acima da média de boa parte de seus colegas. Uma característica peculiar da carreira é a celeridade: seu primeiro contato com um kart ocorreu no início de 2008, aos doze anos de idade. Isso significa que apenas cinco anos e meio se passaram entre sua primeira corrida na vida e o anúncio mais importante de sua carreira. Isso não aconteceu nem mesmo com Kimi Räikkönen, que pulou da Fórmula Renault britânica diretamente para a Fórmula 1, ou com Jaime Alguersuari, que estreou na categoria maior aos 19 anos de idade.

Depois de dois anos no kartismo, onde obteve resultados bons sem furor, Sergey estreou no automobilismo em 2010 aos quinze anos de idade disputando meia dúzia de corridas na Fórmula Abarth, aquela simpática categoria de base italiana financiada pela Fiat. Não fez nada de mais e decidiu cumprir uma temporada inteira em 2011. Mesmo iniciando o ano pela equipe Jenzer e terminando pela Euronova, Sirotkin venceu cinco das catorze provas, ganhou o título europeu da categoria e foi vice-campeão do italiano. Para quem não entendeu nada, a Fórmula Abarth realiza dois campeonatos simultâneos e, em cada corrida, seus pilotos marcam pontos em ambos.

Bem que, após o título, ele poderia ter avançado com um pouco mais de calma. Mas após ser campeão da Abarth, a primeira coisa que Sergey Sirotkin fez foi arranjar um contrato para disputar em 2012 a AutoGP, aquela categoria bizarra que só serve para dar emprego a gente que não consegue mais nada em outras categorias. Uma decisão estranha: um garoto com potencial e apenas 16 anos de idade não precisava arriscar sua reputação com um carro escroto e uma concorrência que incluía nulidades como Pal Varhaug, Daniel de Jöng e Giancarlo Serenelli. Caso fosse mal, as críticas seriam imperdoáveis: “perdeu pro De Jong, deve ser um lixo”.

Sirotkin na etapa de Hungaroring da AutoGP, no ano passado

Sirotkin na etapa de Hungaroring da AutoGP, no ano passado

Mas Sirotkin se saiu bem. Muito bem. Nos treinos, ele foi o único piloto a conseguir andar no mesmo ritmo do campeão Adrian Quaife-Hobbs, um cara muito mais experiente. Alguns resultados foram perdidos por causa de acidentes bobos e um lapso de desatenção na pista de rua de Marrakech: após ter marcado a pole-position, Sergey bobeou e não viu as luzes verdes se acendendo na largada, saindo muito depois dos outros e perdendo centenas de posições. Apesar da burrada, seu ano foi excelente. Duas vitórias e a terceira posição no campeonato de pilotos fizeram de Siroktin a mais interessante das revelações da AutoGP em 2012.

Para não perder tempo, Sergey também decidiu disputar de forma simultânea a Fórmula 3 italiana. Em 24 extenuantes corridas, o russo venceu duas delas e fechou a temporada na quinta posição, com 166 pontos. Não chegou nem perto do campeão Riccardo Agostini, mas ao menos aprendeu um bocado. Apesar do carro mais fraco, a Fórmula 3 é um campeonato bem mais atraente e forte do que a obscura AutoGP. Tendo disputado 38 corridas nesses dois certames, Siroktin ganhou um caminhão de experiência e conhecimento técnico. Incansável, ainda participou da rodada dupla de Moscou na World Series by Renault apenas para ter o primeiro contato com um carrinho ainda mais potente.

Nesse ano, ao invés de passar quase todos os fins de semana disputando corrida de qualquer coisa, o jovem Sergey decidiu sossegar na World Series by Renault, onde disputaria corridas contra pilotos até dez anos mais velhos. Mesmo só na mamadeira, o russo ainda pegou um segundo lugar em Alcañiz e, nesse exato instante, ocupa a oitava posição do campeonato, com 34 pontos. Atrás dele, nomes bem mais badalados, como Marco Sorensen, o compatriota Mikhail Aleshin e Carlos Huertas. Não tá mal, não.

Mas está na cara, por outro lado, que Fórmula 1 ainda seria uma grande precipitação para o mela-cueca aí. Não dá para formar um piloto completo em apenas cinco anos e meio. Não é nem questão de pilotagem, mas de cabeça e maturidade. O garoto chega no paddock todo deslumbrado e encontra um ambiente hostil, hipócrita, peçonhento, quase doentio. De duas, uma: ou ele se frustra e acaba perdendo o gosto pelo automobilismo, permanecendo no negócio apenas pela grana, ou ele se adapta ao sistema e se torna mais um dos podres.

Se eu tenho de apostar, diria que isso é coisa de papai. O cara é engolido pela ansiedade de ver o filhote brilhando no automobilismo e praticamente compra o direito de pular etapas erroneamente consideradas inúteis. Para que perder dois anos na GP3 e outros dois na GP2?, raciocina. O negócio é fazer tudo o mais depressa possível. E que se dane o desenvolvimento pessoal do filho. Se depois ele se tornar um perdidão no melhor estilo Lewis Hamilton, não tem problema. Sempre vai ter uma Rihanna para consolá-lo.

E a Rússia, assim, caminha para ter equipe e piloto no seu GP inaugural, a ser realizado em Sochi no ano que vem. Estou, é óbvio, ignorando a precária Marussia. O país é talvez a grande vedete financeira do automobilismo, com seus magnatas loucos para enfiar sua grana no esporte, alguns deles por propósitos pouco recomendáveis. Numa época em que os xeiques do Oriente Médio parecem ter desanimado um pouco e os venezuelanos estão ainda lamuriando pela morte do Comandante, os russos parecem ser os emprestadores de última instância de equipes e pilotos nesse momento. Graças à Mãe-Rússia, a Sauber e a iSport estão salvas.

Num passado distante, a Rússia queria expandir seu império e foi sumariamente barrada pelos europeus. Hoje em dia, os europeus fazem malabarismo no semáforo por uns míseros trocados soviéticos. É a virada do Grande Jogo.

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