Se tem alguém que errou, é Webber. Mas sempre há canhões apontando para a Lotus

Sou um defensor dos fracos e oprimidos. Não, não vou abrir uma ONG para dar sopa aos mendigos da Sé. Meu nobre sentimento de caridade e meu bom coração se restringem ao importantíssimo mundo do automobilismo. Torço para as equipes pobres e para os pilotos do fundão. Desejo dias melhores aos mecânicos da Lotus, aos cozinheiros da Virgin e às faxineiras da Hispania. E não me furto em defendê-los aqui, mesmo que isso canse os leitores.

Neste domingo, os inimigos das equipes novatas ficaram em polvorosa. Afinal de contas, aquilo que todos temiam aconteceu: um carro de uma equipe novata esteve envolvido em um enorme acidente com um carro de uma equipe de ponta. Na volta de número 9 do Grande Prêmio da Europa, o australiano Mark Webber, segundo piloto da poderosa Red Bull, se aproximava rapidamente do finlandês Heikki Kovalainen, segundo piloto da fraca Lotus. Como a diferença de velocidade entre os dois carros é óbvia, Webber não tardaria em ultrapassar Kovalainen, que fez o seu papel e manteve-se na sua linha. Por um erro grotesco de cálculo, Mark demorou demais para tomar a linha de ultrapassagem e o resultado foi aquele: um RB6 dando uma belíssima pirueta, caindo de cabeça para baixo e se deslocando em altíssima velocidade até a barreira de pneus.

Enquanto todos se preocupavam com o estado do australiano, eu, defensor dos fracos e oprimidos, só pensava em “agora é que vão encher o saco com reclamações sobre a novatas”. Embora as reações não tenham sido tão contundentes como eu esperava, sempre tem alguém pronto para dizer merda. Na transmissão global, Galvão Bueno reclamou mais uma vez que a FIA não deveria permitir que carros tão lentos participassem da Fórmula 1, que estas equipes precisam de um longo período de testes antes de irem para a pista e que deveriam dar passagem aos carros mais rápidos sempre que estes estivessem atrás. Em seu site, o próprio Mark Webber disse que o piloto que tem um carro cinco segundos mais lento não deve ficar lutando por posição com um carro muito mais rápido.

Ridículas, todas estas opiniões. O próprio Webber tem como seu primeiro cartão de visitas uma bela briga contra um carro muito mais rápido ocorrida logo em sua primeira corrida, em Mélbourne/2002. Naquela ocasião, Webber e seu Minardi seguravam como podiam a quinta posição contra o Toyota de Mika Salo, que vinha como um maluco atrás. Será que Mark acha que o que ele fez é muito diferente do que queria fazer Kovalainen? Ah, mas era uma quinta posição. Ah, mas o Minardi não era tão mais lento que o Toyota. Ah, mas eu era inexperiente. Fala sério. A obrigação de um piloto, não importando se ele corre pela McLaren ou pela Hispania, é ser combativo sempre. Se Heikki Kovalainen não fizesse o que fez, não mereceria sequer estar na Fórmula 1.

Estes pilotos desta atual década se mostram completamente desacostumados com carros mais lentos. É um misto de desinformação com prepotência. Me soa lamentável que um cidadão como Webber, que teve de ralar um bocado antes de chegar aonde chegou, ache que um piloto deve abrir passagem a ele unicamente por guiar em um carro mais lento. O problema é que ele não é o único. Fernando Alonso, ex-Minardi, terminou o Grande Prêmio de Mônaco irritadíssimo com Lucas di Grassi pelo fato do brasileiro ter segurado sua posição por algumas voltas no início da corrida. Voltando a alguns anos, tivemos David Coulthard e Ron Dennis ralhando com Enrique Bernoldi por este ter feito o mesmo com o escocês por mais de 30 voltas no mesmo circuito monegasco. Os caras simplesmente apagam da cabeça que um dia já foram pilotos novatos ou do fundão, que um dia já tiveram de rolar muita bosta lá no final dos grids da vida antes de chegar aonde chegaram.

Por fim, bato na mesma tecla pela milésima vez: o Lotus não é um carro abismalmente lento. Vamos à matemática para fazer a prova. Mais ainda: vamos comparar as performances de Webber e Kovalainen nos treinos de classificação. Peguei os tempos de ambos os pilotos no Q1 de todos os nove treinos de classificação até agora. O tempo médio feito por Webber é de 1m31s930. O de Kovalainen é de 1m34s776. A diferença entre os dois é de 2s846. Peguei também o melhor tempo do Q1 feito nos nove treinos, fiz a média e cheguei ao tempo de 1m30s952, 3s825 mais rápido que Kovalainen. Me responda, Mark Webber: aonde estão esses cinco segundos? E mesmo que fossem, qual é o problema? Uma coisa é ter um Life andando a 25 segundos do tempo da pole. Outra coisa, totalmente diferente, é ter carros pouco testados de equipes muito mais pobres do que Ferrari ou Red Bull andando a quatro ou cinco segundos dos carros de ponta.

O diabo da história é que uma pessoa como Mark Webber, que já foi diretor da GPDA, e um narrador como Galvão Bueno, que tem um enorme poder de influência sobre milhões, conseguem mobilizar um enorme número de detratores destas equipes. Rejeitadas, elas acabam apresentando dificuldades para negociar com fornecedores de motores, para contratar pilotos e principalmente para arranjar patrocinadores. E não crescem. E continuam culpadas por tudo. Webber bateu, culpa da Lotus. Hamilton espirrou, culpa da Virgin. Button brochou, culpa da Hispania.

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