Norbert Haug e Nick Heidfeld. Um excelente piloto até 2009, um aspone na Mercedes

Há um piloto de Fórmula 1 trabalhando nesse exato instante. Não que Felipe Massa tenha voltado aos seus tempos de entregador de comida ou que Adrian Sutil esteja tocando Shostakovich em um conservatório alemão. Há, de fato, um piloto de Fórmula 1 dirigindo um bólido da referida categoria em uma pista européia por aí. Longe de ser o indivíduo mais lembrado e badalado do automobilismo mundial, quiçá do automobilismo de Mönchengladbach, o teutônico Nick Heidfeld está dirigindo um TF109 pelas curvas do circuito italiano de Mugello. Ex-enfeite da Mercedes, Heidfeld foi contratado pela Pirelli para testar a primeira versão dos pneus que serão utilizados na Fórmula 1 no ano que vem. Vale lembrar que a Pirelli volta à categoria após 19 anos como fornecedora única.

Por mais que isso pareça um emprego ingrato a alguém que já foi considerado um piloto de ponta e um potencial campeão do mundo, o fato é que Nick Heidfeld está em uma posição mais confortável do que um Bruno Senna ou um Heikki Kovalainen da vida. Afinal de contas, é um cara respeitável, experiente e competente o suficiente para ajudar os ingegneri da turma dos pneus. Além do mais, o benefício será mútuo. Ele irá conhecer os meandros dos novos pneus antes de todo mundo. Uma equipe minimamente sensata deveria pensar nisso na hora de contratar alguém. Em resumo, Nick Heidfeld é um dos melhores negócios da Fórmula 1. Mas qual é o problema dele? Se Heidfeld é tão grandes coisas assim, por que ele está solitário em Mugello testando pneus italianos em um carro ancião e não em uma equipe de ponta colhendo glórias?

Em momentos de tédio absoluto, quando eu realmente não tinha mais o que pensar, tentei chegar a alguma conclusão a respeito. Eu tenho dessas, fico divagando sobre a vida, a morte e o sexo dos anjos. No caso de Heidfeld, como não consegui pensar em nada satisfatório, recorro ao velho subterfúgio de culpar o destino e as conspirações cósmicas. Em outras palavras, o alemão é um sujeito sem sorte. Ou, em palavras hortencianas, é um sujeito sem estrela. Por mais que ande, por mais que mostre resultados, por mais que destrua seus companheiros de equipe, ele nunca será visto como alguém vencedor. Pior: em um primeiro instante de derrota, será reconhecido como um notório e inapto perdedor. Como, aliás, ocorreu em 2008.

Divaguemos juntos. Nick Heidfeld é, tecnicamente, um dos melhores pilotos do grid. Eu tenho total certeza de que ele vale mais a pena do que uns três ou quatro pilotos das equipes grandes (tenho nomes em mente mas não os cito, é claro). É um indivíduo veloz, consistente, bom para evitar ultrapassagens, melhor ainda para ultrapassar e quase imune a erros. É um falso lento, como li em uma ótima descrição há um tempo atrás. Ou, criando definição própria, é uma mistura refinada de Jenson Button com Lewis Hamilton. Em suma, é um cara pra ser campeão do mundo. Todavia, por alguma razão que escapa às terrenas compreensões humanas, ele não tem sequer uma mísera vitória. Se levarmos em conta unicamente as estatísticas nuas e cruas de vitórias, ele vale tanto quanto Pedro Paulo Diniz ou Piercarlo Ghinzani.

E é exatamente a ausência de uma vitória que destrói a credibilidade de Nick Heidfeld. A questão do “no wins” faz com que vários ótimos pilotos como Martin Brundle, Stefan Johansson, Mika Salo e, principalmente, Chris Amon sejam vistos com extremo ceticismo por aqueles apegados aos números. E, infelizmente, estes são maioria. Ignoram que a Fórmula 1 não é uma ciência exata e a vida de um piloto pode ser afetada por milhares de fatores que vão da falta de potência de um motor até o chifre colocado pela mulher. Como já falei um tempo atrás, Senna e Schumacher foram campeões porque absolutamente tudo deu certo para eles. No caso de Heidfeld, é evidente que bastante coisa também deu certo a ele. Mas não o suficiente.

Sei lá... sem comentários

Fenômeno do automobilismo alemão na segunda metade dos anos 90, Heidfeld foi adotado pela McLaren em 1997. Em 1998 e 1999, correu na Fórmula 3000 Internacional por uma impecável e grandiosa estrutura montada pela equipe de Ron Dennis. O título veio no segundo ano, mas muitos críticos diziam que o alemão foi campeão de maneira quase covarde porque a West Competition, a tal da equipe júnior da McLaren, era desproporcionalmente grande e endinheirada em relação às concorrentes. Alheio a tudo isso, Nick esperava substituir David Coulthard na equipe principal em 2000. Como o escocês renovou seu contrato, o ansioso novato preferiu assinar com a instável Prost para seu ano de estréia. A torta começou a desandar a partir daí.

A aura de provável substituto de Michael Schumacher começou a desaparecer tão logo os resultados se mostraram parcos. Apesar de ter superado sistematicamente seu companheiro Jean Alesi e apesar do seu Prost AP03 ter sido uma completa bosta, Nick não conseguiu deixar uma boa impressão em seu primeiro ano. Uma mudança para a Sauber reavivou seu conceito, mas o fato de ver seus companheiros Kimi Raikkonen e Felipe Massa, ambos derrotados por ele, decolando rapidamente deve ter sido um golpe duro em sua auto-esima. Após isso, houve uma curta e traumática passagem pela Jordan, uma curta e razoável passagem pela Williams e o desenvolvimento de um bom relacionamento com a BMW. A montadora alemã o trouxe para a nova BMW Sauber em 2006. E lá ele ficou até o ano passado, sempre mostrando boas performances.

Nick Heidfeld superou, em pontos e na pista, Kimi Raikkonen, Felipe Massa, Timo Glock, Giorgio Pantano, Jacques Villeneuve e Robert Kubica, este último em duas ocasiões. Ele também conseguiu convencer mais do que Jean Alesi na Prost e Mark Webber na Williams. Derrotas, de jus e de facto, só contra Heinz-Harald Frentzen na Sauber em 2003 e contra Robert Kubica na BMW Sauber em 2008. Ainda assim, nenhuma dessas derrotas foi tão avassaladora a ponto de comprometê-lo. Em 2008, Heidfeld rumava para vencer sua primeira corrida em Montreal. Os homens da BMW Sauber não deixaram. Preferiam Kubica, que estava em melhores condições. E o alemão terminou chupando o dedo, “no wins”.

É estranho o que acontece com esse rapaz barbudo e baixinho que se tornou pai pela terceira vez exatamente hoje. Racionalmente falando, Nick Heidfeld é um piloto de ponta. Mas ninguém o enxerga como tal. O cara pode bater os companheiros que forem. O cara pode ultrapassar dois, três ou sete carros de uma vez. O cara pode fazer milagre em Santiago de Compostela. Se uma vitória não vier, ele continuará sendo o rapaz barbudo e baixinho do “no wins”.

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