GP DA ITÁLIA: Para mim, a corrida mais importante da Fórmula 1. Você pode dizer que Spa-Francorchamps é mais legal, Silverstone possui uma história mais bonita e Mônaco sempre tem algum marido trambiqueiro rico para tirar sua prima da seca, mas não há, ao menos para mim, lugar que exalte mais o puro automobilismo das antigas do que Monza. O autódromo é simples e muito veloz, assim como todos deveriam ser. Retas, curvas de alta e chicanes, está bom demais, porque quem gosta de cotovelo é ortopedista.  As áreas de escape são relativamente curtas e feitas majoritariamente de brita, assim como no passado. As arquibancadas estão sempre lotadas de gente avermelhada e apaixonada. O pódio é o mais bonito de toda a Fórmula 1. As curvas têm nomes ao invés de números ou merchandising. As bandeiras da Ferrari cobrem as tribunas. E a Itália, ah, o país mais belo (e de língua mais bela) da Europa, apaixonado por arte, comida, vinho tinto e automobilismo. Os italianos podem ser barulhentos, mafiosos, esquentados e decadentes, mas compensam tudo com uma passionalidade calorosa e cativante que não encontra similaridade no Hemisfério Norte. Itália é paixão. E as corridas de carro devem ser movidas à paixão. Por isso que ninguém nunca vai gostar do corporativo e esnobe GP de Abu Dhabi. Por isso que tutti amano Monza.

D’AMBROSIO: O belga mais italiano da Fórmula 1 arranjou um trampo valiosíssimo. Como Romain Grosjean tomou uma merecida suspensão de uma corrida pelo acidente na largada do GP da Bélgica, a Lotus não teve nenhuma outra escolha a não ser promover temporariamente o piloto de 26 anos que fez sua estreia na categoria pela Virgin no ano passado e que trabalha um pouquinho como piloto de testes neste ano. Como Grosjean retornará já em Marina Bay, será provavelmente a única oportunidade de Jérôme D’Ambrosio mostrar alguma coisa. Ao contrário do horroroso carro da Virgin, o Lotus E20 é bonito, veloz e ainda estreará o tão falado duto ligado ao DRS, que dará de presente alguns pentelhésimos de segundo. Como Monza não é o mais complexo dos circuitos, ainda mais para alguém que corre lá desde os tempos de Fórmula Renault, não é absurdo imaginar que D’Ambrosio poderá marcar alguns pontos e, quem sabe, subir ao pódio. Vale lembrar que o cara chegou a ser cogitado para ocupar a vaga de companheiro de Robert Kubica na mesma equipe, quando ela se chamava Renault, em 2010. Vitaly Petrov, mais rico, acabou assumindo o carro. Neste próximo fim de semana, a justiça será feita. Go, Dambrrosiô!

HAMILTON: Foi Eddie Jordan quem acendeu um dos grandes pavios da silly season. Como quem não quer nada, o ex-dono de equipe e atual comentarista da BBC afirmou que Lewis Hamilton, patrimônio da McLaren desde 2005, está de malas prontas rumo à outra equipe prateada do grid, a Mercedes. Ele entraria no lugar de Michael Schumacher, que pode se aposentar ou até mesmo retornar à Ferrari (quem lançou essa foi o Humberto Corradi). Hamilton está cansado da escuderia que o trouxe à Fórmula 1. No fim de semana da corrida de Spa-Francorchamps, ele causou uma polêmica infantil e desnecessária. Após ter apanhado de Jenson Button no treino classificatório, o campeão de 2008 escancarou para os seus numerosos seguidores no Twitter uma foto com dados sigilosos de telemetria recolhidos de seu carro. Este tipo de coisa é guardado a sete chaves e os mortais nunca poderiam ter acesso a esse tipo de coisa. Imagine, então, quando se trata dos dados referentes a um piloto de ponta de uma equipe de ponta. Até mesmo a Red Bull já admitiu que utilizará a foto publicada por Hamilton para estudar e ver se aprende alguma coisa. Atitude ridícula e totalmente antiprofissional de um cara cuja cabecinha é inversamente proporcional ao talento. Se continuar assim, nunca mais será campeão de nada no automobilismo.

MALDONADO: Outro microcéfalo do grid é este venezuelano aqui. Em Spa-Francorchamps ele superou todos os recordes: conseguiu três punições em apenas dois dias. Duas destas, referentes a uma queima de largada escandalosa e a um acidente com Timo Glock, serão pagas em Monza na forma de dez posições a menos no grid. O site Grande Prêmio fez um estudo que apontou nada menos que dezessete punições nos 31 GPs que Pastor Maldonado disputou em sua carreira na Fórmula 1. 17 em 31 significam mais de uma punição a cada dois fins de semana. O que dizer? Mais: apesar da vitória em Barcelona, quase que Maldonado foi ultrapassado pelo discreto companheiro de equipe em número de pontos no domingo passado. Se Bruno Senna tivesse terminado em sétimo, como chegou a ameaçar, ele sairia de Spa-Francorchamps com um ponto a mais que o festejado bolivariano. Caso Pastor Maldonado consiga a proeza de terminar o ano atrás de um companheiro bem mais lento, seria caso da Williams repensar a duração deste contrato. Do que adianta tanto dinheiro e tanta velocidade se o piloto é incapaz de terminar duas corridas seguidas nos pontos? Como torcedor de Maldonado, digo que fico até preocupado com o andamento de sua carreira. Ele é talentoso e tem grandes possibilidades de se tornar um piloto de ponta no futuro, mas precisa ajustar a cabeça e apertar alguns parafusos. Bani-lo por uma ou duas corridas lhe faria bem, a bem da verdade. E faria melhor ainda a Valtteri Bottas.

FERRARI: Falando em Schumacher na Ferrari, a tal vaga de companheiro de Fernando Alonso continua sendo um dos assuntos que mais voam de boca em boca no paddock da vida. Felipe Massa continua esperando, mais na torcida do que na convicção, que o míope Stefano Domenicali anuncie sua permanência na Ferrari para 2013. Difícil. Embora a corrida de Spa-Francorchamps tenha sido boa, as duas anteriores foram terríveis. Nesse momento, a Ferrari está atrás até mesmo da Lotus de Romain Grosjean no campeonato de construtores, situação inaceitável para a equipe que lidera o campeonato de pilotos. Por causa disso, outras possibilidades surgem. O tabloide alemão Bild divulgou a informação de que Nico Hülkenberg, da Force India, já teria assinado um pré-contrato com os italianos. O piloto alemão desconversou e não negou as negociações. Outros nomes que aparecem na disputa também são alemães, o supracitado Michael Schumacher e o desempregado Adrian Sutil. Embora ache que o alemão que deveria ser chamado atende pelo nome de Nick Heidfeld, não reclamo de nenhuma das possibilidades. Hülkenberg é ótimo piloto e está derrotando Paul di Resta com facilidade nas últimas etapas. Sutil é uma boa e nem tão arriscada opção, embora tenha as desvantagens de não ter ficha limpa e de estar fora do automobilismo. Schumacher é Schumacher, mas a idade pesa. Enquanto isso, Felipe Massa segue com seu santinho e sua língua presa esperando pela renovação. Sabe de uma coisa? Os teutônicos que me perdoem, mas a renovação virá.

O tempo passa, o Alonso voa e o Massa continua numa boa. Nossa, sou muito criativo. Nessa semana, o sempre competente Américo Teixeira Junior, cara que leio desde os dias da Racing, divulgou que a Ferrari já bateu o martelo e decidiu pela permanência de Felipe Massa em 2013. Confio na fonte. A Ferrari foi sensata e optou pela continuidade. Muitos acham que seguir com um cara que ocupa a 14ª posição no campeonato pilotando um F2012 não é exatamente aquilo que consideramos uma continuidade saudável. Raciocinemos.

Segundo Teixeira, a Ferrari não ficará com Felipe Massa por causa de seus resultados na pista nestes últimos três anos. Sua semelhança com o Zacarias pouco ajudará neste sentido, da mesma forma. O que o mantém lá é puramente um sentimento conservador que aponta que o certo é melhor que o duvidoso. Não há tantos ótimos pilotos disponíveis para a próxima temporada. E mesmo que haja, qual deles conseguiria se adaptar tão bem e tão rapidamente a Maranello? Mais ainda: quem garante que os resultados seriam tão melhores?

Massa não é uma incerteza. A Ferrari sabe que não poderá mais contar com ele para vitórias e títulos. No entanto, crente que o brasileiro é um piloto bom o suficiente para atrapalhar os adversários quando está numa boa fase, os ferraristas preferem apostar em sua melhora no ano que vem do que apostar num Heikki Kovalainen ou Kamui Kobayashi da vida. Por isso, é melhor manter o segundo carro da equipe nesta posição meio nebulosa e cruzar os dedos.

Se Massa realmente permanecer na escuderia até o fim do contrato, se o calendário do próximo ano realmente tiver vinte etapas e se mola nenhuma entrar no meio do caminho, o paulista terá participado de 141 GPs pela Ferrari até o fim do ano que vem. OK, 140: aquele do acidente no treino oficial de Hungaroring não conta. De qualquer jeito, é um número respeitabilíssimo. Felipe é o segundo piloto em número de corridas disputadas pela equipe italiana. Ele só perde para… Bom, o Top Cinq de hoje mostra aqui quais são os cinco pilotos que, “Felipe Passa” à parte, fizeram mais corridas vestindo o vermelho de Maranello.

5- JEAN ALESI (79 GPs)

Poucos pilotos tiveram uma passagem tão marcante pela Ferrari quanto Jean Alesi. Os cartesianos que só olham para números, contas e ábacos desprezam o francês por ele ter vencido apenas 1,2% de suas corridas disputadas pela equipe vermelha. Veja como é fácil transformar uma inofensiva porcentagem numa inverdade maldosa. Por isso que desrespeito quem só analisa as coisas por meio dos números, do empirismo bocó e do “se eu não vi, não existe”. Quem viu Alesi viu um dos melhores pilotos que a Fórmula 1 teve nos últimos trinta anos.

Alesi foi contratado pela Ferrari a peso de ouro como o cara que substituiria Alain Prost qualquer dia desses. O tetracampeão já estava velho e parecia não ter muito saco para aquele histrionismo típico da Itália. Mas o jovem francês de olhos preguiçosos e cuore siciliano, aziago como só ele, mergulhou de cabeça numa equipe que estava entrando em uma de suas piores crises. Mudanças de gestão, carros ruins, inovações furadas e resultados tristes foram as marcas da Ferrari dos tempos de Jean Alesi.

Mas ele não desanimou. Em 1991, realmente, foi difícil brilhar. O ambiente estava muito ruim. Por incrível que pareça, a situação melhorou muito para Alesi em 1992. O piloto de Avignon era praticamente a única coisa que prestava lá. De vez em quando, Jean improvisava e arrancava suspiros dos fãs das corridas. Em Barcelona, ele largou feito um foguete, duelou com carros muito mais velozes e terminou num pódio que seria impossível para a maioria dos outros pilotos. Em 1993, o carro continuou ruim e Alesi terminou apenas duas corridas no pódio.

1994 foi talvez o ano mais difícil de Alesi no mundo ferrarista. Um acidente em testes em Mugello não o deixou confinado a uma cadeira de rodas por pouco. Ele perdeu duas corridas, teve dificuldades durante a temporada e acabou tomando uma naba de Gerhard Berger. Sua última temporada na Ferrari foi a de 1995. Foi só neste ano derradeiro que Alesi conseguiu vencer uma corrida, a do Canadá. Ele acabou trocando a Ferrari pela Benetton após uma série de desentendimentos com a cúpula italiana. No fim, Jean disputou 79 GPs entre 1991 e 1995. Ganhou uma corrida e os corações de milhares de tifosi. “Mais vale um Alesi hoje que cem Schumachers amanhã”.

4- MICHELE ALBORETO (80 GPs)

Em outubro de 1983, a Ferrari fez talvez um dos anúncios mais aplaudidos de sua história. O francês Patrick Tambay, que nunca foi lá um gênio, daria lugar ao jovem italiano Michele Alboreto, astro da Fórmula 3 e da Tyrrell. Aos 26 anos, Alboreto era talvez a grande esperança de uma Itália que havia acabado de completar trinta anos sem um título de pilotos. Como a Ferrari havia conquistado os dois últimos títulos de construtores, todos imaginavam que a entrada do promissor piloto milanês poderia trazer uns bons troféus para a pátria azulada nos anos seguintes.

Mais ou menos. Na verdade, não. Alboreto certamente era um cara bastante talentoso, mas talvez não o suficiente para comandar a Ferrari. Acontece. Muita gente realmente competente acaba não conseguindo aguentar o rojão de liderar uma escuderia grande e histórica. E também existe o contrário: picaretas que acabam mandando bem com uma Williams da vida, como aquele irmão que rende pela metade. Michele não conseguiu.

Em 1984, Alboreto não teve trabalho para derrotar o relaxado René Arnoux. Venceu o GP da Bélgica e se estabeleceu bem na equipe. Para 1985, a Ferrari conseguiu acertar a mão e – milagre! – criou um bom chassi e um bom motor. Michele começou o ano com tudo, ganhou duas corridas e liderou o campeonato até o GP da Alemanha. Depois, o 156/85 não evoluiu e acabou ficando para trás. Alboreto foi vice-campeão, mas viu o campeão Alain Prost pelo binóculo.

Infelizmente, foi seu último grande ano na Ferrari. Quiçá, na Fórmula 1. Em 1986, a Ferrari arranjou uma tonelada de estrume e criou a partir dele um carro conhecido como F1/86, um negócio que até andava rápido, mas que tinha tanta resiliência quanto um Kinder Ovo sob o sol. Alboreto marcou pontos em apenas quatro corridas e desanimou. Nos dois anos seguintes, ele conquistou apenas alguns pódios e foi derrotado com alguma folga pelo novo contratado Gerhard Berger. Em meados de 1988, a Ferrari anunciou que traria Nigel Mansell para correr em seu lugar. O prestígio de Michele Alboreto, aquele que foi contratado para ser o mais novo campeão italiano, esvaiu e ele teve de voltar para sua casa original, a decadente Tyrrell.

3- GERHARD BERGER (96 GPs)

“Fui o último piloto contratado por Enzo Ferrari”. O orgulhoso Gerhard Berger, um dos melhores amigos de Ayrton Senna, contou a um repórter britânico que o entrevistou há alguns anos alguns detalhes obscuros daquele que foi o ritual que sacramentou sua primeira passagem pela equipe italiana, entre 1987 e 1989. “Fui vendado e colocado dentro de um carro, que seguiu até não sei aonde. Quando tiraram a venda, eu estava em uma sala escura e lá estava o Comendador“. Não foram exatamente estas as palavras, mas o teor foi exatamente este. Berger foi contratado pela Ferrari em novembro de 1986 após seus bons préstimos à Benetton naquele ano.

A Ferrari iniciou o ano de 1987 numa pior, com um carro que padecia com problemas de confiabilidade. As coisas melhoraram bastante no segundo semestre, quando os italianos conseguiram resolver tanto a questão das quebras como a falta de velocidade. Nas últimas corridas, a F1/87 alcançou o status de melhor carro do grid. E Berger acabou vencendo os dois últimos GPs da temporada. É uma pena que a excelente forma do final de 1987 não foi mantida em 1988. Não só a McLaren estava impossível como a própria Ferrari havia derrapado no desenvolvimento do F1/87, que virou 88C durante o ano. Berger acabou vencendo apenas o GP da Itália, única corrida do ano onde a McLaren não terminou com nenhum dos carros.

Em 1989, a Ferrari mudou tudo. Câmbio semiautomático, carroceria em formato de garrafa, Nigel Mansell… É uma pena que o ano tenha sido desastroso para Berger. O acidente de Imola e a inacreditável sequência de abandonos que se seguiu até o GP da Bélgica acabaram com qualquer chance de título. Mesmo assim, Berger terminou o ano com a reputação lá no alto, tanto que a McLaren não pensou duas vezes ao contratá-lo para substituir Alain Prost.

A passagem pela esquadra de Ron Dennis não foi tão feliz e Berger acabou voltando para a Ferrari em 1993, meio que com o rabo entre as pernas. Teve um primeiro ano horroroso e só voltou à antiga forma em 1994, quando ganhou o GP da Alemanha e fez 41 pontos, sendo um dos poucos pilotos com algum motivo para sorrir naquela temporada. 1995 foi seu último ano com os ferraristas. Não venceu corrida alguma, ficou 11 pontos atrás de Jean Alesi e saiu da equipe coberto de críticas. Seus 96 GPs na Ferrari foram bem típicos dele: uma dúzia de corridas geniais, uma série de erros bobos, alguns acidentes assustadores e uma simpatia desconcertante fora do carro.

2- RUBENS BARRICHELLO (104 GPs)

Falei dele exatamente na semana passada, né? Inicio este post com uma frase dita numa entrevista concedida à revista F1 Racing no início de 2010: “Fui mais feliz guiando uma Honda de merda do que na Ferrari tendo de ouvir o que fazer o tempo todo”. Aí você olha a razoável quantidade de GPs disputados pela equipe italiana e torce o nariz. Tudo bem, muitos de nós acabamos permanecendo num emprego que odiamos por razões puramente pessoais. Não há nada de errado disso. O problema reside nos intermináveis elogios que Rubens Barrichello não se cansou de proferir durante suas seis temporadas pela Ferrari.

Barrichello foi anunciado pela escuderia do cavalo que empina em setembro de 1999. Começou todo cheio de prosa, dizendo que seria piloto 1B, que teria os mesmos direitos que Michael Schumacher e que o título só dependia dele. Enfim, fantasiou um monte de promessas que a grande massa ignara, obviamente, veio cobrar lá na frente. Eu não caí nessa. Continuei torcendo pelo ótimo piloto Rubens Barrichello que ele sempre foi. Tapei os ouvidos e segui acreditando em seu talento. Mas sua boca é grande demais. Chegou um momento que eu comecei a dar razão aos seus críticos. Rubens fala demais. E quase nada que sai da sua boca presta.

Enfim, voltemos à Ferrari. O primeiro ano, 2000, foi de aprendizado, se é que dá para dizer assim. Rubens venceu de maneira magistral o GP da Alemanha e terminou a temporada em quarto, atrás de Schumacher e dos dois pilotos da McLaren – fez a tarefa de casa, em resumo. Em 2001, com um carro melhor, Barrichello não foi bem: errou, perdeu corridas fáceis e não venceu uma corrida sequer. 2002 foi mais interessante e Rubens foi vice-campeão após ganhar quatro provas. Enquanto isso, Schumacher abocanhava títulos e recordes.

Diz a lenda que o melhor ano de Barrichello foi 2003. Estava bem de pilotagem, de cabeça e ganhou duas corridas na maior competência. Não terminou o ano em posição melhor porque seu carro esteve muito ruim em alguns momentos da temporada. Em 2004, Barrichello foi vice-campeão novamente, fez um ano apenas correto e se aproveitou do fato de seu F2004 ter sido o carro de Fórmula 1 mais rápido de todos os tempos. O último ano, 2005, foi uma lástima. Rubens se desentendeu com a equipe, rescindiu o contrato e saiu da Ferrari repleto de mágoas. E duvido que ele tenha sido tão mais feliz assim na “Honda de merda”.

1- MICHAEL SCHUMACHER (181 GPs)

O único homem que esteve vestindo o macacão da Ferrari em mais GPs do que Felipe Massa é o senhor Michael Schumacher da Silva, heptacampeão de Fórmula 1. Este, aliás, é mais um dos inúmeros recordes que Schumacher detém na categoria, o de maior números de GPs disputados por uma mesma equipe. O alemão fez parte da famiglia italiana entre 1996 e 2006, dez anos redondinhos. Apenas dezessete pilotos completaram, em toda carreira, mais do que esses 181 GPs nos quais Schumacher era o homem maior da Ferrari.

É óbvio que tem GP aí que nem deveria contar, como o da Inglaterra em 1999, onde um acidente na primeira volta arrebentou uma perna sua e anulou a largada. Mas não falemos das exceções. Schumacher foi contratado pela Ferrari por míseros 25 milhões de dólares anuais em meados de 1995. Os italianos estavam sem ganhar um título de pilotos desde 1979 e decidiram apelar com o melhor condutor de um carro de Fórmula 1 desde Ayrton Senna. Modesto, Schumacher sequer previa um longo futuro com os ferraristas. “Não me vejo correndo na Fórmula 1 por mais do que quatro ou cinco anos”, disse em 1995. Errou feio.

Em 1996, Schumacher teve um ano difícil que até fazia parte do script, pois a Ferrari estava se reestruturando com nomes sugeridos pelo próprio alemão, como os geniais Ross Brawn e Rory Byrne. Os frutos apareceram já em 1997, quando Michael disputou o título com Jacques Villeneuve até a última corrida e perdeu naquela patacoada de Jerez. Em 1998, voltou a disputar o título até a última corrida e voltou a perder, dessa vez para Mika Häkkinen. Em 1999, houve o acidente de Silverstone e Schumacher teve de esperar mais um ano para ser campeão. Naquela altura, os impacientes italianos já estavam de cara feia. Será que esse alemão antipático e queixudo poderá conquistar um título para nós algum dia?

Schumacher respondeu a dúvida ganhando um, dois, três, quatro, cinco títulos consecutivos. Tá bom pra vocês, italianada? Em 2000, um campeonato suado contra Mika Häkkinen e uma McLaren impecável. Em 2001, Williams e McLaren ameaçaram, mas não chegaram nem perto do alemão. 2002 foi pura humilhação e 2003 serviu para mostrar que nem mesmo os bons pneus Michelin seriam o suficiente para impedi-lo de vencer. O último título, o de 2004, foi de constranger o resto do grid. Ainda bem que a Ferrari nunca mais conseguiu repetir um carro como aquele F2004. E ainda bem que Fernando Alonso apareceu. Mesmo assim, Schumacher teve um 2006 de tirar o chapéu e anunciou sua “primeira” aposentadoria após a vitória no GP da Itália. Mesmo sendo antipático e queixudo, deixou saudades lá em Maranello.

Felipe Massa. Por que ele é a melhor opção para a Ferrari e a Ferrari é a melhor opção para ele

Enquanto Fernando Alonso ganha corridas, arranja uma bela namorada nova, recebe elogios aqui e acolá e consagra-se como o homem mais feliz da Espanha, seu companheiro de equipe anda frequentando até mesmo sessões com psicólogo para tentar sair dessa fase altamente depressiva. Felipe Massa, piloto brasileiro com seis temporadas e meia de relevantes serviços prestados à Ferrari, está em um dos momentos mais tensos de sua vida. Incapaz de enfrentar Alonso na pista, o outrora agressivo Massa se contenta em terminar um domingo com dez ou doze pontos no bolso, sempre pensando em agradar aos ferraristas que pagam seu salário.

Dez corridas já foram realizadas até aqui neste ano. Neste exato minuto, Massa é o 14º no campeonato, com apenas 23 pontos. Está atrás de gente como Kamui Kobayashi, Pastor Maldonado e Paul di Resta, algo que soa inaceitável para um piloto da Ferrari. Se Alonso lidera o campeonato, faz o pessoal da Red Bull e da McLaren coçar a cabeça e dá seus sutis espetáculos, como é que Felipe não consegue sequer fazer duas corridas razoáveis seguidas?

Claro que esta é uma pergunta retórica. Todo mundo sabe que Massa levou uma molada na testa em Hungaroring há três anos e ficou um bom tempo de molho, perdendo um pouco do momentum. Todo mundo sabe, também, que Fernando Alonso tomou conta da equipe já em 2010 e a ordem de equipe do GP da Alemanha foi um duro golpe para um piloto que, diz a lenda, criticava a postura “subserviente” de Rubens Barrichello aos amigos íntimos. O mundo dá voltas, diz sua avó prudente.

Até aí, os três primeiros parágrafos não apresentam novidade alguma. Na verdade, o restante do texto também não trará nada de muito novo. Isso daqui é quase um editorial, se é que um blog tem dessas coisas. Se você perguntar a qualquer um que se interesse minimamente por Fórmula 1 se Felipe Massa deveria continuar na Ferrari, a resposta provável seria algo como “claro que não, cacete. Massa está fazendo um papel ridículo trabalhando como escudeiro de Fernando Alonso. Ele envergonha a nossa pátria, fere nosso orgulho e abobrinhas afins que fiz questão de censurar“.

Para a maioria das multidões, se Massa ainda tem algum interesse em voltar a ser um piloto respeitado na Fórmula 1, a única saída seria ele deixar a Ferrari e ir para qualquer outro lugar, nem que seja uma equipe péssima de tudo. Se eu realmente concordasse com isso, este monte de palavras mal agrupadas não existiria. Mas não concordo. Fica, Felipe, vai ter bolo.

 

Sergio Pérez, citado como o principal candidato à vaga de companheiro de Fernando Alonso em 2012. Vale a pena?

Não torço para Felipe Massa, mas acho que não há lugar melhor para ele que a Ferrari. E honestamente, não há piloto mais cômodo para a Ferrari do que Felipe Massa. Um precisa do outro.

Nos últimos meses, midiáticos e torcedores têm falado muito em Sergio Pérez Mendoza, um moleque com cara de índio que tem feito corridas bem interessantes nesta temporada a bordo de um eficiente porém apático Sauber. No GP do Canadá, por exemplo, ele saiu da 15ª posição rumo a um surpreendente pódio após apostar numa perigosa estratégia de apenas um pit-stop. Caracterizado pela pilotagem veloz e suave, Pérez vem batendo sistematicamente seu companheiro Kamui Kobayashi e impressionando muitas pessoas, algumas delas vestidas de vermelho.

No final de 2010, uma semana após assinar com a Sauber, o então vice-campeão da GP2 ingressou no Ferrari Driver Academy, aquele tal celeiro de jovens pilotos que são amamentados com leite de primeira para virarem ídolos em Maranello num futuro tão distante. Como mais novo contratado da Ferrari, Pérez passou a ser um assunto de relevo na equipe. 2010 havia sido um ano sofrível para Felipe Massa e o grupo comandado por Stefano Domenicali começou a filosofar se já não era hora de mandar o simpático piloto língua-presa para casa.

Pérez e Jules Bianchi, um mauricinho francês que tem muito crédito entre as torcedoras mais empolgadas, são as apostas para a Ferrari de amanhã. Uma Ferrari que pertencerá a Fernando Alonso até 2016. O bicampeão espanhol foi contratado para fazer exatamente aquilo que Michael Schumacher fez durante quase uma década: por ordem na casa e afundar o pé no acelerador dos carros italianos. Muito lentamente, a parceria rende seus frutos. Enquanto aproveita o melhor de Alonso, os italianos preparam as crianças para que possam assumir o seu lugar lá na frente.

Onde entra Felipe Massa nisso aí? Aí é que está.

O Ferrari Driver Academy não é uma escola de Bergers e Patreses. A Ferrari não gasta tempo, sola do sapato e dinheiro para criar pilotos que só servem para dar passagem e atrapalhar o curso dos caras das outras equipes. Ela quer vencedores. Pilotos decisivos, diferenciados, que são tão bons na pista molhada como na hora de motivar mecânicos e engenheiros. Hoje em dia, a equipe italiana tem Fernando Alonso e está muito feliz com ele. Portanto, não precisa de outro piloto com perfil semelhante. A McLaren, com seus célebres pares Senna/Prost e Alonso/Hamilton, demonstrou bem como é complicado manter dois gênios sob o mesmo Brasilit.

 

Jules Bianchi, terceiro piloto da Force India e cria da Ferrari. Este é outro que se enxerga em Maranello num futuro próximo

Portanto, se Pérez ou Bianchi quisessem entrar na Ferrari atual, eles poderiam trabalhar apenas como típicos escudeiros. O carro pior, os engenheiros menos nerds, o elevador de serviço, o vinho que dá ressaca, enfim, as sobras de Maranello seriam o que qualquer um desses meninos-prodígios teria direito hoje em dia. Dividir uma equipe com Fernando Alonso é isso aí. Eles sabem disso. Por isso, é melhor esperar um pouco. A própria Ferrari prefere ser paciente.

Mas a equipe precisa de um segundo piloto para 2013. Ela tentou tirar Mark Webber da Red Bull. O australiano é um perfil perfeito para a vaga: experiente, competente, sem grandes ambições para o futuro distante, camarada de Alonso e disposto a ser segundo piloto se isso significa pilotar um carro de ponta. Quase que a mudança aconteceu. A vitória de Webber em Silverstone reacendeu a chama de um casamento desgastado com a Red Bull. Dois dias após a corrida, Mark recebeu um contrato novo em folha na sua mesa. Assinou e deu uma banana aos italianos.

Sem poder contar com Webber e preferindo esperar um pouco para promover algum de seus jovens pilotos, a Ferrari se encontra sem muitas opções disponíveis no mercado. Para correr ao lado de Alonso, o piloto precisa ser ao mesmo tempo muito bom e muito pouco ambicioso. Ou muito desesperado. Quem poderia entrar aí neste balaio? Adrian Sutil, Jaime Alguersuari, Jarno Trulli, Vitantonio Liuzzi, Jerôme D’Ambrosio, Kamui Kobayashi, Timo Glock, Heikki Kovalainen, Bruno Senna, Luca Filippi, Davide Valsecchi, Davide Rigon e quem mais você quiser.

Qual desses aí vale mais a pena que Felipe Massa? Honestamente, não sei. Alguns aí, como Valsecchi e D’Ambrosio, definitivamente não perfazem o perfil dos sonhos de piloto da Ferrari. Outros, como Trulli e Liuzzi, deixaram seus melhores dias para trás há muito. Uma Ferrari mais cautelosa até poderia apostar num desses bons nomes que foram deixados de lado pelo destino, um Kovalainen ou Alguersuari da vida. Aí vem a segunda pergunta: um cara desses poderia fazer mais do que Felipe Massa vem fazendo hoje?

Considere vários fatores. Felipe é peça-chave da Ferrari desde 2006 e tem boas relações com Maranello desde 2001. Só Michael Schumacher teve um vínculo tão longo com a equipe em mais de 60 anos de história. O brasileiro deve conhecer mais do que qualquer um a forma de funcionamento da equipe, as pessoas que estão lá dentro, a filosofia ferrarista e a receita da macarronada da cantina. Nada que não possa ser aprendido por qualquer pessoa de fora, alguém diria. Nada que levará pouco tempo para ser agregado como uma espécie de cultura corporativa, eu responderia.

 

Mark Webber, que quase tomou o lugar de Felipe Massa na Ferrari em 2013. Uma rara opção tão boa como o brasileiro

Felipe está perfeitamente integrado à Ferrari e se dá muito bem com todo mundo que está lá dentro. Fico na dúvida se a troca por um Heikki Kovalainen da vida, cujo melhor predicado é a incerta possibilidade de obter alguns resultados melhores a curto prazo, valeria a pena. Entrando na Ferrari, um piloto vindo de fora poderia demorar algum tempo para se ambientar à equipe e começar a obter resultados. Se os ferraristas esperam dele boa colaboração logo de cara, esse período de ambientação não ajudará muito.

Há de ser pensar também se a Ferrari colaboraria com boas condições de trabalho. Ninguém aqui, eu e você, sabe o que se passa entre quatro paredes ferraristas. Vai lá imaginar o que o contrato de Felipe Massa diz e não diz. Pense que Alonso pode ter um carro mais moderno, veloz e polido. Uma estratégia mais inteligente. Um acerto mais adequado. Mais pão e vinho no almoço de domingo. Estamos falando de Fórmula 1. Esse negócio de “carros iguais, oportunidades iguais” dentro de uma mesma equipe é mito. Sempre foi, sempre será. Muita ingenuidade da parte de quem acredita.

É preciso ter uma enorme dose de otimismo e boa vontade para acreditar que Felipe e Alonso compitam em condições iguais. O espanhol não é bobo. Seu histórico de situações que lhe favoreceram é antigo. O motor 150cv mais potente que o de Tarso Marques nos tempos da Minardi. As estratégias que lhe favoreceram nos GPs da Austrália e de Mônaco de 2007 em relação ao colega Lewis Hamilton. A mediocridade do segundo carro da Renault em 2008 e 2009. A proteção onipotente de Flavio Briatore. Costumo defender Alonso, mas não consigo imaginar que as coisas sejam diferentes numa Ferrari que aprendeu com Schumacher que não dá para dividir todas as atenções com dois pilotos.

Por fim, tenho lá minhas ressalvas com aqueles que dizem que o Felipe Massa de hoje é menos talentoso do que um Kovalainen, um Alguersuari ou um Glock. Perdoem-me, mas ainda não acredito nisso. Felipe é um vice-campeão com onze vitórias no currículo. Pode ter perdido um pouco de confiança no acidente de Hungaroring, mas não desaprendeu a pilotar. Ainda acredito que o episódio de Hockenheim/2010 foi muito mais danoso do que a mola da Brawn. Se continuar tratando o lado emocional, como ele vem fazendo ultimamente, terá boas possibilidades de recuperar a forma antiga. E um Felipe com uma cabeça um pouco melhor já é o suficiente para bater qualquer um dos que falei acima.

Portanto, Felipe deve se esforçar ao máximo para permanecer na Ferrari. Há boas motivações para isso. Uma delas, a mais vil de todas, é o dinheiro. Atualmente, Massa ganha algo em torno de 10 milhões de euros anuais. Apenas Alonso e a dupla da McLaren embolsam mais verdinhas nesta temporada. Corre um boato que diz que uma renovação de contrato com a Ferrari estaria condicionada à redução drástica seu salário. Se Felipe começasse a ganhar, sei lá, cinco milhões por ano, suas cifras ainda estariam muito maiores do que a de pilotos das equipes médias. Ainda compensaria ficar na Ferrari, portanto.

 

Heikki Kovalainen pilotando a McLaren em 2009. Duvido que ele realmente prefira ser a cabeça da formiga ao rabo do elefante

“Se Felipe ficar apenas por dinheiro, ele será o maior vendido de todos, um subserviente de merda”. Dou risada de quem argumenta assim. Quer uma pessoa mais vendida do que aquela que bajula o chefe, trabalha no que odeia, acorda cedo, aceita ser perturbado até mesmo nas férias e nem ganha tanto assim? Você que não pense que, fazendo seus R$ 7 mil por mês na melhor das hipóteses enquanto camela num emprego filho da puta, é mais digno de aplausos e elogios do que um cara que é pago em milhões para pilotar uma Ferrari ao redor do mundo. Por 1/10 do que Massa ganha hoje, eu trabalharia limpando as latrinas da Ferrari.  Com a língua.

Outra boa motivação é o carro. Sair do papel de coadjuvante da Ferrari para ser rei na Sauber ou Force India é a pior coisa que pode acontecer para um piloto profissional. Uma Ferrari ruim ainda é uma Ferrari, que sempre tem totais chances de melhora. Hoje em dia, mesmo nos dias muito ruins, Felipe Massa tem boa chance de pontuar, coisa que nem sempre acontece numa equipe média mesmo que você tenha feito a melhor atuação da sua vida. Numa equipe pequena, nem adianta pensar muito. Pergunte a Heikki Kovalainen se ele não preferia estar desmoralizado na McLaren andando em 10º a celebrar um 16º lugar na Caterham.

Falo tudo isso, é claro, na hipótese de Felipe Massa ter facilidade de encontrar emprego, o que corresponde à realidade. Se até Lewis Hamilton está relutando sobre esse negócio de deixar a McLaren por não haver outro lugar melhor no mercado, alguém acha que realmente Massa teria condições de escolher a dedo onde correr?

Por fim, a satisfação pessoal. Massa ainda aparenta adorar seu emprego e sua equipe. Se não gostasse, teria dado uma de Kimi Räikkönen e pedido as contas para andar de jet-ski no Guarujá pelo resto da vida. E se ele está contente onde está, por que mudar? Direito de felicidade todos nós temos.

Uma última coisa. No Brasil, um monte de gente está dizendo um bocado de merda a respeito do cara. Que ele deveria ter autoestima e não se sujeitar a isso, que sua atitude feriu o orgulho do país, que é um mercenário, isso e aquilo. Um conselho, Felipe: mande todo mundo tomar no cu. OK, não seja tão boca-suja: mande o povo cuidar de seus respectivos orifícios anais. Ignore a estúpida e desnecessária opinião do brasileiro, um povo espúrio, cínico e semianalfabeto que nunca será levado a sério pelos demais. Não deixe seu bem-estar ser afetado pelo que dizem aqui nestas bandas. Faça sua vida e dê satisfação apenas à sua equipe e aos seus próximos. Quanto ao resto, uma banana.

Fica, vai ter bolo. Mas não de banana.

Felipe Massa. Ele pode estar muito mal e correndo riscos, mas pressão nunca é a palavra certa para descrever o estado de espírito de um piloto

Vocês já ouviram falar em Joe Saward? Ele é um jornalista britânico que mantém um dos melhores blogs sobre automobilismo que existem no planeta. Leitura recomendadíssima, embora muito extenuante para quem não morre de amores pela língua inglesa – ele abusa de gírias, expressões idiomáticas e palavras que você não aprende em qualquer cursinho meia-boca. Sujeito muito bem integrado ao mundo do automobilismo, Saward é um dos que costumam lançar boatos, suposições e opiniões que deixam jornalistas e fãs enlouquecidos.

Mas por que estou falando sobre ele? Há dois dias, Saward publicou um texto bastante interessante com o título de “Brasileiros sob os holofotes”.  Nele, o jornalista contesta se Bruno Senna e Felipe Massa estão realmente se sentindo pressionados após os grotescos resultados no GP da Espanha. Como os senhores chimpanzés sabem, Massa terminou na 1584ª posição e Bruno Senna foi estuprado por Michael Schumacher na primeira curva do circuito de Barcelona. Tudo isso após ambos terem largado da milésima nona fila. Mesmo para os novos padrões brasileiros na Fórmula 1, foi um fim de semana péssimo.

Saward defende a tese de que esse negócio de pressão é um conceito criado por jornalistas para gerar um factoide. Os pilotos, na verdade, não se sentem pressionados por fatores externos, pois eles são resilientes o suficiente para ignorar o que jornalistas sensacionalistas e espectadores bobocas vomitam. A questão verdadeira diz respeito à confiança que ele sente em sua capacidade e à satisfação que sua equipe sente pelo seu trabalho. O que derruba um sujeito como Felipe Massa não é a pressão em si, mas a inabilidade em se descobrir em uma posição inferior, aceitar a realidade e trabalhar o máximo possível para revertê-la.

O texto de Joe Saward deveria ser esfregado na cara de jornalistas e alguns narradores da aldeia global que costumam enxergar focos de pressão em pilotos e equipes como se a Fórmula 1 fosse uma enorme panela cheia de feijão prestes a explodir. Não, não é. Pilotos como Massa e Senna sabem quais são suas realidades muito mais do que qualquer um do lado de fora. Imagino eu que ambos devem dar risada ao lado de seus empresários quando leem um boato esdrúxulo do tipo “Jerôme D’Ambrosio poderá assumir sua vaga”.

Não, não quero dizer que Felipe Massa e Bruno Senna estão 100% tranquilos. O primeiro não tem motivo nenhum para estar. O segundo deve ter ficado bem incomodado ao ver que seu companheiro de equipe acabou de quebrar o jejum de vitórias da Williams. Também não estou insinuando que o que jornalistas e torcedores relincham não afeta diretamente quem está lá no carro. Gente como Massa, Nelsinho Piquet ou Rubens Barrichello tem total noção de sua rejeição e tomam todo o cuidado do mundo para não pisar em ovos e desagradar ainda mais as massas. Mas que há um tremendo exagero aí, isso não há dúvidas.

Felipe Massa ainda não fez uma única corrida digna de aplausos nesta temporada. Andou melhor em algumas, pior em outras e tudo o que conseguiu até aqui foram os mesmos dois pontos de Michael Schumacher e Daniel Ricciardo. É, sem dúvida, o menos competitivo dos pilotos das equipes normais. Não há como discordar. Mas qual é a real posição dele lá dentro da Ferrari?

Massa não caiu fora da Ferrari (e talvez nem caia) porque há uma série de fatores que contam ao seu favor

A equipe italiana sabe que não pode contar com Massa, por exemplo, numa disputa pela vitória. Na verdade, não anda sendo possível contar com ele sequer para levar uma pizza a Luca di Montezemolo em 27 minutos. Desde 2010 que as coisas são assim. E aí é que me aparecem algumas dúvidas. Está sendo tão inconveniente assim para a Ferrari manter um segundo piloto tão improdutivo durante todo tempo? Haveria gente mais interessante para esta vaga? Até quando a situação de Massa é tão desesperadora?

Eu tenho o palpite de que a Ferrari está fazendo de tudo para ficar com Massa. De tudo mesmo, a ponto de rebater toda e qualquer declaração que ataque seu pupilo brasileiro. As razões para esta possibilidade são várias.

Massa é um dos pilotos com quem a equipe italiana, que possui um largo histórico de brigas e picuinhas com seus contratados, se deu melhor. Os dois lados combinam. Felipe é um oriundi, daqueles inúmeros descendentes de italianos que povoam o estado de São Paulo. Fala italiano fluentemente há mais de dez anos, meio caminho andado para conquistar o amor ferrarista. Possui imagem simpática dentro do paddock. Nunca se envolveu em problema algum com a Ferrari. Sempre agiu conforme os objetivos da equipe, Hockenheim/2010 que o diga.

Além disso, ele é uma importante peça estratégica para muita gente graúda. Felipe pilota para uma equipe que pertence à Fiat, cujo grande mercado para seus carros pão-de-queijo é o Brasil. O casamento entre Fiat e Felipe Massa é, acima de tudo, geográfico. A Fórmula 1 tem destas coisas. Ter um piloto brasileiro, por menos que ele esteja pilotando, é uma excelente forma de diálogo da empresa com um público de quase 200 milhões de pessoas. Negócios, negócios e mais negócios.

Mas não é só a Fiat que se interessa. O banco que patrocina Fernando Alonso também gosta de Felipe Massa por causa de suas raízes tupiniquins. Estima-se que 25% dos resultados globais deste banco teriam saído do Brasil. Para os próximos dois anos, a porcentagem deverá crescer para 30%. É coisa pra caramba, ainda mais considerando que o país-sede do banco está chafurdado numa crise interminável. Como não amar o brasileirinho?

É óbvio que a presença de Massa na Ferrari também agrada à família Todt. O filhote Nicolas empresaria o piloto brasileiro e obviamente quer o melhor para ele. Se Massa enche as burras, sobra uma boa fatia para o francês. E o próprio presidente da FIA, o pai Jean, também se simpatiza com Massa e certamente deve representar força a favor do brasileiro na Ferrari. E não duvidaria se o onipotente Bernie Ecclestone também enchesse os ouvidos dos italianos alegando algo mercadológico do tipo “precisamos de um brasileiro em uma equipe grande, o Brasil está crescendo, não podemos perder fãs, blábláblá, cifrões, dinheiros, moedas, blábláblá”.

A permanência de Bruno Senna na Williams só corre perigo imediato nos delírios de Mika Salo

A única coisa que advoga contra Felipe Massa são os resultados do próprio. Se ele estivesse no mesmo nível de competitividade de Fernando Alonso, estaria tudo perfeito. Como não está, podemos viajar um pouco. A gente nunca sabe o que se passa por trás de contratos, acordos, ordens e preferências. Fernando Alonso manda no cabaré. Não é absurdo imaginar que ele poderia exigir um carro de Fórmula 1 pra ele e um Gurgel BR800 pintado de vermelho para Felipe Massa. Nós realmente não sabemos. No meio da neblina, qualquer coisa se torna possível.

Como não há nada certo, só dou meu palpite. Pelo bem da Fórmula 1, até acharia bacana ver um piloto como Adrian Sutil assumindo seu lugar ainda neste ano. Mas não acho que nada disso vai acontecer: Felipe Massa terminará a temporada. E talvez nem só isso. Luca Colajanni, porta-voz ferrarista, afirmou que uma renovação de contrato para 2013 não estava descartada. É certo que a palavra de um italiano vale tanto quanto uma nota de 100 cruzeiros, mas até que se prove o contrário, a versão do porta-voz é a que vale e as esperanças para o piloto se mantêm acesas.

Até porque quem poderia se dar melhor numa Ferrari estruturada para Fernando Alonso? Jogar um Sergio Pérez cheio de apetite na equipe italiana neste momento pode ser um desastre para sua carreira. Mark Webber foi cogitado e é o que Fernando Alonso gostaria de ter como companheiro, mas isso só aconteceria se a Red Bull o dispensasse – e, cá entre nós, Webber não representaria uma enorme melhora em relação a Massa. Os outros candidatos não são tão animadores. Sutil? D’Ambrosio? Alguersuari? Bianchi? Qual deles aguentaria o tranco de andar em uma equipe de ponta? Qual deles aceitaria ser segundão de Alonso sem chorar? A verdade é que pouca gente parece compensar muito mais do que Felipe Massa. A Ferrari sabe disso e é por isso que o brasileiro não foi demitido até agora.

Por isso que eu acho que esse negócio de pressão é um pouco superestimado. É óbvio que Felipe Massa corre sérios riscos de cair fora da Ferrari, mas sua posição também não é tão ruim assim. Não duvidaria se os italianos lhe arranjassem outro lugar numa Sauber da vida, o que não seria de todo mal. E para isso acontecer, a equipe primeiramente precisaria encontrar um piloto que seja mais vantajoso do que o brasileiro. Por enquanto, isso parece não ter acontecido ainda. Quando acontecer, será fácil de perceber: a Ferrari simplesmente não irá mais defender Felipe Massa dos ataques da mídia e responder os inúmeros boatos que surgem a cada momento.

A situação de Bruno Senna é muito mais tranquila. Tão tranquila que se a questão da pressão é exagerada com Felipe Massa, ela se torna simplesmente estúpida com o sobrinho de Ayrton. Na verdade, quem diz que há alguma possibilidade ruim para Senna num futuro próximo simplesmente deseja que isso aconteça. Não é, Mika Salo?

O ex-piloto finlandês e atual comentarista de Fórmula 1 do canal MTV3 andou dizendo que havia uma grande possibilidade de Bruno Senna não terminar a temporada com a Williams. Segundo Salo, a equipe estaria disposta a colocar em seu lugar o jovem Valtteri Bottas, que, veja só a coincidência, é finlandês. Não é intrigante? Inocente que sou, nem insinuo que Mika esteja falando estas bobagens para tentar dar uma força ao compatriota.

Valtteri Bottas pode até estar nos planos a médio prazo da Williams, mas isso ainda está longe de significar que os dias de Bruno Senna na equipe estão contados

O diretor Toto Wolff, um dos medalhões da Williams, se apressou para dizer que Mika Salo estava falando merda. Há contratos a serem respeitados e a decisão de contratar Bruno Senna não foi tomada numa roda de cachaça e cocaína. Quanto a Bottas, ele está passando por um programa de desenvolvimento e não será colocado para correr tão cedo porque isso é burrice. Palavras de Toto Wolff. Alguém aí pretende bater de frente?

Mente quem diz que Bruno Senna faz uma temporada muito ruim. Ele teve dois fins de semana péssimos na Austrália e na Espanha, mas foi maravilhosamente bem na Malásia e na China. Até a última corrida, Bruno tinha dez pontos a mais que o agora genial e revolucionário Pastor Maldonado. Uma única corrida mudou as coisas. Fazer o quê? Acontece. Para julgar se um piloto está bem ou não, precisamos de muito mais corridas. Por enquanto, Senna não está mal. Ponto.

Além do mais, ele carrega uma verdadeira Casa da Moeda no bolso. Graças a Bruno, a OGX, a Procter & Gamble (Head and Shoulders/Gilette), a Embratel e a MRV injetam em torno de providenciais 30 milhões de reais que vêm sendo fundamentais na recuperação da Williams. Menos do que Pastor Maldonado, cuja PDVSA desembolsou quase cem milhões de reais pela vaga do venezuelano, é verdade. Mas mais do que muita gente por aí. A Williams não se pode dar ao luxo de dispensar um piloto destes.

Isso quer dizer que Bruno Senna está garantido para a próxima temporada? É evidente que não, e eu realmente acredito que há boas chances de Valtteri Bottas assumir seu lugar em 2013. Mas isso também não quer dizer que o brasileiro deva se sentir pressionado. Ainda há um bocado de corridas até o fim do campeonato e a briga com Pastor Maldonado está mais apertada do que a pontuação sugere. Bruno tem o apoio da equipe e pode, sim, conquistar resultados muito bons e até mesmo a atenção de outras equipes. O resto é secos e molhados, como diria o falecido.

Bruno e Felipe entendem que seus destinos dependem apenas deles e das pessoas mais próximas. Sabem também no que precisam melhorar. E têm total noção da difícil realidade e das cobranças óbvias que os chefes fazem. Quanto ao papo de pressão, isso só existe no feijão com arroz da vovó.

O Felipe Massa de 2008, todo cheio da moral

Quando Timo Glock começou a perder bastante rendimento naquela última volta, ninguém imaginava que a carreira de um determinado piloto de ponta nunca mais seria a mesma. O piloto alemão da Toyota havia apostado em permanecer com pneus para pista seca num asfalto que apenas começava a se molhar para tentar ao menos chegar em quarto. Deu certo, não. O chuvisco virou monção e Glock teve de se virar para não sapatear e terminar entalado na brita. Numa dessas, ele foi ultrapassado por Lewis Hamilton. A corrida mudou de cara. O campeonato mudou de cara. Hamilton ganhou o título ali. Felipe Massa perdeu o título ali. Brasil, 2008.

O 2 de novembro de 2008 foi o auge da carreira de Massa, então com 27 anos. Estava rico, muito bem casado e tinha fãs ao redor do mundo. No Brasil, a Fórmula 1 havia voltado a ser uma febre. Febre passageira, de 37°C, mas ainda uma febre, algo mais ou menos próximo do UFC hoje em dia. A revista Época o adicionou na sua lista anual de cem brasileiros mais influentes. Perder o título, no fim das contas, foi um detalhe. Outras oportunidades virão. A torcida estava com ele.

É incrível o que o destino faz com as pessoas. Após aquela maldita ultrapassagem de Lewis Hamilton sobre Timo Glock que valeu uma estúpida quinta posição, absolutamente nada deu certo para Felipe Massa. Mais nada. No mundo da mídia televisiva americana, existe uma gíria que designa quando um programa de TV famoso e bem-reputado comete alguma barbaridade ou sofre algum revés e nunca mais consegue se recuperar. Jump the shark. Pular o tubarão, em tradução literal.

Exemplifico: no Brasil, o Domingo Legal de Gugu Liberato pulou o tubarão em 2003, quando apresentou uma entrevista falsa com um suposto integrante do PCC. Descoberta a farsa, Gugu Liberato enfrentou problemas legais e nunca mais conseguiu o mesmo nível de credibilidade e projeção de antigamente. O Domingo Legal, que ameaçava a audiência do Domingão do Faustão global, virou um zumbi nos domingos à tarde. Pois é. A ultrapassagem de Hamilton sobre Glock foi a verdadeira pulada de tubarão de Felipe Massa. E o pior: sem a menor sombra de culpa.

Claro, você pode argumentar que Massa não perdeu o título apenas ali. Perdeu porque rodou sozinho em Sepang, por exemplo. Perdeu porque girou mais que pião em mão de criança em Silverstone. Perdeu porque o motor fundiu em Hungaroring. Perdeu porque a mangueira foi embora junto com o carro em Marina Bay. Oras bolas, perdeu porque fez menos pontos que Lewis Hamilton. Punto e basta.

Depois daquela tarde chuvosa de São Paulo, o que se passou com Felipe Massa? Um F60 lamentável, concorrência melhor, Hungaroring, mola, coma induzido, fim de temporada. Retorno, F10, Fernando Alonso, Hockenheim, faster than you, confirm it? 150th Italia, pneus frios, desânimo, nada de pódios, seis, six. F2012, pneus gastos, Q2, zero pontos.

O escorraçado Felipe Massa de 2012

Hoje, aos 30 anos, Felipe Massa é um piloto que só gera pena e constrangimento enquanto dirige. Fora do carro, nada a reclamar: continua rico e bem casado, além de ter um filho gorducho e saudável. O problema é a vida profissional. Em seu sétimo ano na Ferrari, sua moral e sua auto-estima foram reduzidos a pó. A mídia brasileira, inclusive a global, o abandonou. Os torcedores de padaria, aqueles que o chamavam de “novo Ayrton Senna” em 2008, estão agora maravilhados com a troca de sopapos do UFC. Muitos nem se lembram que, um dia, existiu um Felipe Massa.

Dentro da pista, o Massa de hoje não chega nem perto daquele piloto abusado e agressivo até demais da conta que barbarizava o meio do pelotão com o carro azul da Sauber. Incomodava bastante gente porque ultrapassava de qualquer jeito, não tinha medo de fazer bobagem, batia pra caramba e era fonte inesgotável de diversão. Nunca vou me esquecer da ultrapassagem que ele fez na marra sobre David Coulthard na Rivazza durante o GP de San Marino de 2005. Depois daquilo, o escocês pegou enorme antipatia por ele, um cara que não tinha limites.

O Felipe de hoje tem limites. Até demais. Não consegue andar rápido com pneus novos. Nem com os velhos. Tem dificuldades para aquecer a borracha. Não faz uma única volta rápida e nem é constante durante uma prova inteira. Anda tendo dificuldades para defender posições. É a pura imagem do desânimo – algo quase criminoso num mundo efusivo por natureza como é o ferrarista.

Até aqui, não falei nada de novo. Qualquer blog mequetrefe de automobilismo é capaz de enumerar todos os defeitos do Felipe Massa pós-mola ou do Felipe Massa pós-Hockenheim, como queira. Difícil é falar alguma coisa além disso. E advogar.

Advogar a favor de quê? O piloto brasileiro realmente faz uma temporada péssima e se continuar assim, será demitido antes do final do ano de forma merecida. Não, não vou tentar elogiar seu desempenho. A história é outra.

Em 2008, Felipe Massa era febre no Brasil. Falei lá em cima, febre passageira, de 37°C, mas ainda uma febre. Mas o que é ser febre? É você chegar numa rodinha de boteco com seus amigos, beber umas garrafas de cerveja pilsen vagabunda, comer frituras e filosofar sobre os assuntos do momento. Pois Massa, o piloto, era assunto. Viu a corrida? Ah, eu acho que ele vai ser campeão do mundo. Finalmente um piloto bom, que honra o Brasil. Viva o Brasil!

Lembro-me bem. Horas antes do GP do Brasil de 2008, estava na fila de um supermercado com a minha namorada. Atrás de mim, uma mulher quarentona falando no celular. O assunto? Não queria de jeito nenhum perder a largada da corrida. Após ela desligar o aparelho, perguntei sobre o interesse dela por Fórmula 1. Ficamos lá, batendo papo. Você nunca diria que ela era fã de corrida de carros. Nunca.

GP da Alemanha de 2010. Um torcedor de verdade deixaria este infelicíssimo momento para trás e seguiria apoiando

Onde será que está essa mulher hoje? Será que ela acordou às quatro da manhã do último domingo, desperdiçando provavelmente a única noite em que ela conseguiria dormir um pouco mais na semana para ver os pilotos brasileiros disputando um ou outro ponto? Será que ela continua ligando para o marido, o filho ou o demônio para dizer que não quer perder a largada do que quer que seja? Ou será que hoje ela vê o MMA sentada com a família no sofá da sala? Porque o Anderson Silva é muito bom, né?

Sou meio chato com algumas coisas. Mentira, eu sou chato com tudo. Acho apenas um pouco triste que Felipe Massa tenha sido descartado tão rapidamente. De “futuro herói nacional” e “novo Senna” (argh!) a “mais um capacho” e “novo Barrichello”. Tudo isso em somente quatro anos.

Em 2008, Massa era o queridinho de todos. Sua tropa de novos-fãs era insuportável: gente que tinha acabado de começar a ver Fórmula 1, ignorava a história da categoria, achava que a Ferrari era a única equipe que existia e tripudiava os principais adversários do brasileiro sem a menor vergonha, especialmente Lewis Hamilton. Não que somente doutorandos em automobilismo possam acompanhar o esporte, mas era bem desagradável quando um moleque de 16 anos se aproximava, tratava o piloto da Ferrari como um semideus e sentava a bota em todo o resto com a arrogância de alguém que até parecia ter acompanhado o esporte desde Emerson Fittipaldi.

O moleque de 16 cresceu, virou adulto, dobrou a década e hoje nem fala mais em Felipe Massa. Provavelmente nem assiste mais à Fórmula 1, irritado que está com a falta de brasileiros nas primeiras posições. Se seu antigo ídolo é mencionado, o sujeito torce a cara e dá vazão à verborragia. “Pra mim, ele morreu”. “Nunca foi um bom piloto”. “Só ganhava porque tinha o melhor carro”. “Um cagão”. “Vendido do caralho”. “O real Felipe Massa é esse daí”.

Existem três coisas que me incomodam profundamente. Calor e arroz com uvas passas são duas delas. A terceira é este maldito comportamento volúvel, que puxa o sujeito de um extremo a outro em três tempos. Trazendo isso ao mundo automobilístico: gente que torce de maneira xiita por um piloto na segunda-feira, deixa de torcer por ele na quarta-feira e passa a ser seu maior detrator na sexta-feira. Geralmente, por duas motivações: ir na onda dos outros ou simplesmente só gostar de torcer para quem está ganhando.

É fácil ter este comportamento de manada. Conveniente também. E socialmente necessário. Se todos gostam do vermelho, por que raios inventar de apreciar o azul? Basta parar e refletir: quantas coisas você realmente gosta ou pensa por conta própria? Abrir aquela maldita conta de Facebook, lotada de fofocas, demonstrações baixas de inveja e falso moralismo religioso, estava em seus planos de vida ou você simplesmente o fez porque a “galera” fez? Ou aquela merda de comercial de cerveja que você fingiu dar risada porque, se o achasse um punhado de bosta publicitária, seria tachado de ranzinza e idoso pelos amigos?

Hoje em dia, defender Felipe Massa é algo como defender um estuprador: inexplicável aos olhos do senso-comum. Se o cara perde, é ruim, fracassado e indigno de qualquer sentimento bom. Se ele deu uma posição ao colega de equipe, além de ruim e fracassado, é também vendido e mau caráter. Porque não há mais nada de bom a ser dito sobre Felipe, nem mesmo que ele quase ganhou um título de Fórmula 1 há não muito tempo. É o velho maniqueísmo que pessoas de baixa capacidade imaginativa e cognitiva costumam abraçar.

Quantos destes aí da arquibancada ainda assistem Fórmula 1? Quantos aí ainda torcem por Felipe Massa e se vestem de vermelho?

Tem também o torcedor-farofa, que te dá a maior força apenas quando você está bem. Isso daí é um comportamento que nunca consegui ter e nem entender. Não sou fã de equipes pequenas e pilotos de carreira duvidosa na Fórmula 1 à toa: são eles que precisam do apoio da torcida. Expliquem-me: qual é a porra de sentido de se torcer por alguém que somente ganha? Mais ainda: que tipo de torcida é essa que pula fora no primeiro infortúnio? Torcer é, acima de tudo, estar do lado de quem está com dificuldades. Se você é vira-casaca nas horas ruins, sinto muito: você não é torcedor de bosta alguma.

Não vou negar que já torci e destorci para muita gente. No geral, por incrível que pareça, paro de torcer por um piloto quando ele deixa de ser uma promessa presa em uma equipe ruim para se tornar um vencedor numa equipe astronômica. Exemplo? Sebastian Vettel, um de meus pilotos favoritos nos tempos de Toro Rosso e apenas mais um atualmente. Se Nick Heidfeld, por exemplo, tivesse ganhado sua primeira corrida na Fórmula 1, minha torcida provavelmente minguaria um pouco. O mesmo valeria para um título de Rubens Barrichello. Sou utilitário: eles não precisariam mais de torcida alguma, pois já se deram bem. Mas já que Massa possuía torcedores enquanto estava por cima, qual é o problema de mantê-la depois?

Ah, muitos vão falar de Hockenheim/2010. Felipe Massa realmente teve seu pior momento na carreira ali naquela ordem de equipe. É incrível como o sujeito é bombardeado por simplesmente ter aceitado uma ordem que provavelmente lhe custaria um emprego desejado por quase todos os envolvidos em automobilismo e até mesmo um lugar na Fórmula 1. Mas, vá lá, vamos supor que o que ele fez realmente fosse imperdoável. Caramba, será que o fato dele ser ídolo o torna imune a erros ou fraquezas? Um torcedor de verdade o mandaria tomar no cu na hora, como é normal entre torcedores, mas seguiria esperando por dias melhores que sempre podem acontecer. Não se abandona seu ídolo por causa de um único evento.

Dizer que há apenas um jeito certo de torcer é fascismo, mas sei bem como diferenciar torcida de oportunismo. Aquela multidão que lambia o saco de Felipe Massa em 2008 e disparava bazucas contra quem não fazia parte do oba-oba era simplesmente oportunista. Exatamente o mesmo tipo de gente que, por exemplo, condenou Ronaldo Fenômeno e seus exóticos hábitos sexuais em 2008 e passou a tratá-lo como rei não muito depois. Vocês me perdoem, mas gente sem idéia, sem postura, sem senso crítico, sem coerência com seus valores e sem ídolos definidos não merece meu respeito. Trato a pontapés, mesmo.

Não torço por Felipe Massa. Nunca fui seu torcedor, aliás. Mas não há como não me solidarizar com o mau momento pelo que ele passa. Sim, mau momento: suas enormes dificuldades profissionais devem afetá-lo de uma maneira que ninguém sequer imagina. É aí que ele descobre que, no fundo, está sozinho. Que a torcida que deveria estar ali, falando “calma, Massa, a situação está foda mas vai melhorar”, prefere jogar gasolina na fogueira e correr atrás de outro esportista de sucesso instantâneo. Que a mídia tem o poder de mandá-lo ao céu ou ao inferno em uma única reportagem. Que a Fórmula 1 lhe virou as costas de vez e está contando os dias para que seu carro vermelho seja ocupado por qualquer outro.

Massa pulou o tubarão. Ao invés de jogar uma corda, seus falsos torcedores decidiram ir embora. Quando não me serve mais, eu jogo fora, compro outro, uso enquanto servir, jogo fora de novo e assim por diante. E a vida das efemeridades segue.

GP DA MALÁSIA: Sepang, segunda corrida no ano. A primeira, em Melbourne, foi legal demais da conta. A deste próximo de semana também deverá ser divertida. Inaugurado em 1999, o circuito malaio foi a primeira grande obra de Hermann Tilke para a Fórmula 1. Não seja preconceituoso por causa da ascendência genética: Sepang é uma jóia rara, cheia de traiçoeiras curvas cegas, mudanças bruscas de raio e retas interminavelmente largas. Não há nenhuma pista parecida com ela no calendário, talvez nem no mundo. Como bom acompanhamento, chuva torrencial. Neste ano, os meteorologistas decidiram erguer sua arca após perceber que a torneira natural ficaria aberta nos três dias. Se não houver bandeira vermelha ou pilotos covardes reclamando por terem de enfrentar um perigo absolutamente natural no automobilismo, este próximo tem tudo para ser um dos fins de semana mais legais da Fórmula 1 neste ano.

HAMILTON: David Coulthard está preocupado. Para o ex-piloto, a desanimada expressão de Lewis Hamilton após o GP da Austrália era a prova cabal de que ele havia sido derrubado por Jenson Button. Bobagem. Hamilton estava chateado porque terminou em terceiro uma corrida na qual poderia ter vencido facilmente após ter feito a pole-position. E a chateação fica maior se pensar que o companheiro de equipe foi o ganhador. Qual piloto ficaria feliz com um resultado assim? Para mim, tudo segue normal. Lewis ainda é o piloto mais veloz da McLaren e, ao meu ver, o melhor com alguma folga. Uma corrida ruim acontece com qualquer um. OK, não acontece com Button, mas a loteria meteorológica malaia existe para isso. Espero que Hamilton vença a próxima prova – seria sua primeira vitória em território malaio. Quando ao David, será que ele também desanimou desta forma quando Mika Häkkinen começou a surrá-lo?

MASSA: Este daqui é outro que está levando chibatadas da mídia. A revista Autosprint foi categórica: o antigo Felipe Massa morreu em agosto de 2009 e o atual Felipe Massa é simplesmente inútil para a Ferrari. O site ItaliaRacing debochou das declarações oficiais de apoio ao brasileiro por parte da equipe e ainda noticiou que seus leitores declararam quase que unanimemente que Massa está muito abaixo do que se espera de um ferrarista. Os italianos estão totalmente impacientes com ele, que fez uma corrida horrenda em Melbourne e parece não ter conseguido evoluir muito em relação às duas infelizes temporadas anteriores. O editorial da Autosprint praticamente implora por outro piloto no carro nº 6. Até mesmo o velho Jarno Trulli, sumariamente dispensado da Caterham no início do ano, foi cogitado. Por mais que eu não mergulhe nesta típica verborragia italiana, concordo que a Ferrari precisa de alguém que possa ao menos acompanhar Fernando Alonso. Se Felipe Massa não conseguir convencer nas próximas corridas, ficará difícil até mesmo garantir sua permanência até o final do campeonato. Ele terá de voltar a trabalhar de entregador de macarronada em Interlagos.

HERBERT: Ao que parece, aquele negócio de empregar um ex-piloto diferente a cada corrida para trabalhar ajudando os comissários de prova ficou para trás. Na Malásia, o inglês Johnny Herbert voltará a assumir a posição. Ele havia feito o mesmo na Austrália e em mais um bocado de corridas nos últimos dois anos, como o GP do Brasil de 2010. No início, eu achava que os pilotos locais teriam preferência. Como seria um baita desafio achar um piloto de Fórmula 1 coreano ou barenita, a solução foi chamar apenas pilotos campeões ou de gabarito. Como eles também não estavam aceitando o trampo de bom grado, foram de Johnny Herbert mesmo. Mas não tenho absolutamente nada contra ele. É um piloto muito bom que deveria ter sido vencedor de corridas e de títulos na Fórmula 1 se não fosse o nosso gênio às avessas Gregor Foitek. Fora das pistas, dizem que é a pura expressão da simpatia. E pelo visto, ainda gosta bastante de circular pelo paddock. Pensando bem, haveria alguém melhor do que Johnny para o cargo?

GP2: Começa neste fim de semana. Animado, eu? Bastante. Aconteça o que acontecer, a GP2 Series é a categoria de monopostos mais legal da Europa. As melhores disputas, os acidentes mais engraçados e as maiores possibilidades de aleatoriedades acontecem lá e não na World Series by Renault do Bruno Giacomelli. Mas não há como reconhecer que o nível de pilotos deste ano está risível, vergonhoso, patético, feio, sujo e pobre. Contrariando as recomendações dos médicos, a temporada 2012 reunirá medalhões obscuros como Julian Leal, Ricardo Teixeira e até mesmo um tal de Giancarlo Serenelli, um venezuelano trintão que corria numa espécie de Fórmula Renault andina até uns dias atrás. Lá na frente, são poucos os nomes que realmente empolgam, notadamente Esteban Gutierrez, Marcus Ericsson e Fabio Leimer. No meio deles, gente que já passou da hora de cair fora da categoria. Davide Valsecchi, Giedo van der Garde e Luiz Razia, é de vocês mesmos que estou falando. Entre os novatos, nada muito além de James Calado, Felipe Nasr, Rio Haryanto e Tom Dillmann. Mesmo assim, a corrida de Sepang será legal e valerá a pena. Aposto cegamente em Valsecchi ganhando a primeira corrida e Calado triunfando na segunda. Podem me cobrar em casa.

Você é o inquisidor, o carrasco do dia. Depois de escolher os melhores pilotos da temporada, o leitor pôde calibrar seu dedo e apontá-lo na fuça daqueles que, definitivamente, não fizeram um bom trabalho em 2011. O último post deste ano, que não foi lá aquelas coisas, trata dos piores pilotos da temporada de Fórmula 1 do ano prestes a findar. Os cinco piores.

Pelo que percebi, criar uma lista sobre os piores foi bem mais tranquilo e interessante do que uma sobre os melhores, já que os que realmente se destacaram pelo lado positivo não foram muitos e, Vettel, Button e Alonso à parte, não foi fácil encontrar mais dois pilotos dignos de um Top Cinq dos bons. No caso dos piores, não houve tanto trabalho assim. A verdade é que bastante gente fez por merecer uma menção aqui.

Minha lista? Não consigo pensar em nada logo de cara. Talvez após uns copos de vinho. Os três primeiros colocados deste Top Cinq certamente apareceriam nela, no entanto. Enfim, prefiro apenas seguir a opinião do Brasil varonil.

Por fim, a metodologia é a mesma do Top Cinq dos melhores. Foi atribuída uma pontuação para cada posição: dez para o primeiro, oito para o segundo, seis para o terceiro, quatro para o quarto e dois para o quinto. Quem fez mais pontos lidera a lista. Simples.

Feliz ano novo para os senhores. Que o mundo acabe em 2012.

10- TIMO GLOCK (38 pontos)

9- KARUN CHANDHOK (40 pontos)

8- NICK HEIDFELD (52 pontos)

7- VITANTONIO LIUZZI (60 pontos)

6- LEWIS HAMILTON (60 pontos)

5- JERÔME D’AMBROSIO (68 pontos)

Coitado. Aconteceu justamente o que eu previa no início do ano. O insípido Jerôme D’Ambrosio acabou dando as caras no Top Cinq mais amargo da estação. O belga de 26 anos foi contratado para ocupar o lugar mais ingrato da temporada, o de segundo piloto da Marussia Virgin. Pilotando um carro deprimente e sem grandes perspectivas de melhora, D’Ambrosio tinha a obrigação de ao menos dar algum espetáculo para chamar a atenção de alguma equipe melhor, como a HRT ou a Eurobrun. Só que esse tipo de coisa não é típico dele.

A ausência de pecados como o orgulho e a soberba foi justamente o grande pecado de D’Ambrosio neste ano. Ele foi aquele típico funcionário certinho que chegava na hora certa, fazia seu trabalho sem excessos, saía na hora certa e nem dava as caras no happy hour. Esta rotina pode ser adequada quando você é um bancário ou um funcionário público, mas nunca para um piloto de Fórmula 1, que precisa ser mais pirotécnico do que o Macarrão pulando do caminhão em Interlagos. Jerôme abusou da discrição e isto foi absolutamente fatal para sua carreira.

O chato da história é que seu trabalho em 2011 foi bastante aceitável. Ele abandonou apenas três das dezenove corridas, nenhuma por erro. Seu único grande acidente ocorreu em um dos treinos livres do GP da Índia, resultando na destruição total da traseira de seu MVR02. De qualquer jeito, Jerôme obteve os dois melhores resultados da Virgin neste ano, 14º na Austrália e no Canadá. O que não pegou bem foi ter largado várias vezes atrás de um ou até mesmo dos dois carros da HRT, como aconteceu no Canadá e na Hungria. Falando em Hungria, que pit-stop foi aquele, meu Deus? Rodar dentro dos pits está longe de ser a maneira mais estilosa de conduzir seu bólido à troca de pneus.

No ano que vem, Jerôme D’Ambrosio dará lugar a Charles Pic, que muito provavelmente fará um papel igual e será igualmente defenestrado no final da temporada. É o matadouro de carreiras da Virgin.

Se a Fórmula 1 fosse um prostíbulo, D’Ambrosio seria uma garota de programa de vintão. Sem carisma e faz o serviço meia-boca.“ – Fernando Bezerra

Não aqueceu, nem arrefeceu. Aliás, pergunto-me se existiu na pista.” – Speeder

4- NARAIN KARTHIKEYAN (78 pontos)

Num belo dia, um certo indiano que estava fazendo algumas aparições esporádicas na NASCAR Camping World Truck Series postou no Twitter, com certo ar de galhofa, que havia assinado com a HRT para correr na Fórmula 1 em 2011 e que a equipe anunciaria a contratação no dia seguinte. Ninguém levou a sério, a princípio. Como assim, Narain Karthikeyan retornando à categoria após seis longos anos? Que história é essa?

Pois é, ele não estava lançando mão do mais fino humor indiano. A HRT realmente o contratou para a temporada 2011. Ou melhor, para o máximo de corridas possível na temporada. Não foram os olhos cor-de-mel, o semblante safado ou o currículo que motivaram a vinda de Karthikeyan. A equipe espanhola estava muito interessada nas rúpias da Tata, o enorme conglomerado indiano que apoia o piloto. Que não foi bem, é claro.

Narain não fez testes com o carro de 2011 na pré-temporada e chegou basicamente cru em Melbourne. Não conseguiu se classificar para a corrida de lá, como era esperado, mas logrou a participação nas demais etapas em que foi inscrito. Em Mônaco, Karthikeyan largou à frente do companheiro Vitantonio Liuzzi porque nenhum dos dois fez tempo e a numeração do indiano era maior, só isso. Na Turquia, deixou Liuzzi para trás na corrida porque fez uma parada a menos. De resto, fidelizou-se à última posição. Em Valência, teve o duvidoso privilégio de ser o único piloto da história a completar uma corrida em 24º. Pelo bem ou pelo mal, deixou seu complicado nome nos anais da categoria.

Depois que a Red Bull propôs um empréstimo de Daniel Ricciardo à HRT, Narain Karthikeyan teve de ceder seu lugar e foi rebaixado ao inútil cargo de terceiro piloto da mirrada equipe. Ele voltou à competição no inédito GP da Índia e, diante das honoráveis forças hindus, conseguiu deixar Ricciardo para trás na corrida. Mesmo assim, sua presença neste Top Cinq era a maior barbada do ano.

O que ele tem de feio tem de péssimo piloto.“ – Anderson Nascimento

Nem queria colocar nenhum dos pilotos mais fracos nesse Top 5, mas esse cidadão conseguiu a proeza de ser um dos piores dos piores.“ – Felipe Andrade

3- JARNO TRULLI (168 pontos)

Este italiano de Pescara é aquele que liderou mais de 35 voltas de sua 14ª corrida na Fórmula 1 a bordo de um Prost-Mugen. É aquele que colocou um problemático Jordan-Mugen na primeira fila de algumas corridas em 2000. É aquele que venceu em Mônaco segurando um desesperado Jenson Button. É aquele que fez quatro poles em sua extensa carreira. É aquele que já foi considerado o sucessor de Alberto Ascari. É aquele que deixou o kartismo com a reputação de melhor piloto do mundo. É aquele que, após catorze anos de carreira e mais de 250 grandes prêmios, foi eleito o terceiro pior piloto de 2011.

Não que ser piloto da Lotus, que se chamará Caterham na próxima temporada, seja lá a mais gloriosa das tarefas, mas bem que Jarno Trulli poderia ter se empenhado um pouco mais. Pelo segundo ano consecutivo, ele não ofereceu qualquer dificuldade ao companheiro Heikki Kovalainen. Em treinos, o italiano só conseguiu superar o finlandês em duas míseras ocasiões, Montreal e Monza. Nas corridas, terminou apenas três vezes à frente de Kovalainen. Em várias ocasiões, enquanto Heikki peitava a galera do meio do pelotão, Trulli se embananava com os carros da Virgin e da HRT.

Durante boa parte do ano, Jarno Trulli argumentou que não estava se dando bem com a direção hidráulica da equipe. Para ele, a direção não permitia que ele sentisse corretamente o carro e desfavorecia seu estilo de pilotagem, mais técnico. A equipe ouviu as inúmeras chorumelas, fez as mudanças que ele pediu e os resultados seguiram os mesmos. O problema é que Trulli, 37, não parece mais ter saco para aturar um carro tão fraco e posições tão ruins. Ao mesmo tempo, ele não quer deixar a Fórmula 1. Só que ele precisa mostrar mais do que um corriqueiro mau humor, fluência em cinco línguas e bom gosto para vinhos.

Se Trulli sobreviver ao assédio de outros pilotos à sua vaga, ele terá de aproveitá-la para, ao menos, fechar sua carreira de maneira digna. O sucessor de Alberto Ascari está mais para sucessor de Michele Alboreto nos tempos de Minardi. Ah, Itália!

Correu esse ano com a vontade de uma criança que acorda de manhã pra ir pra escola.“ – Brunny Calejon

APOSENTADORIA não é uma palavra tão feia assim.“ – Marabo Toquinho

2- MARK WEBBER (298 pontos)

Esta segunda posição poderia ser definida por apenas três palavras: onze a um. Este é o placar de vitórias dos pilotos da Red Bull Racing. O onze, é claro, pertence a Sebastian Vettel, que ganhou o título com louvor, estrelinha na testa e beijinho da professora. Seu companheiro, o australiano Mark Webber, venceu apenas uma prova. Uma. Pilotando um RB7, maravilha da engenharia concebida pelo mago Adrian Newey. Dependendo de um duvidoso problema de câmbio de Vettel em Interlagos.

Dizer que Mark Webber não foi bem é ser bastante gentil com ele. O australiano simplesmente desperdiçou o melhor carro de sua vida e fez uma temporada parecida com a de Riccardo Patrese em 1992. Sendo o segundo piloto da melhor equipe do ano com sobras, sua obrigação era ter sido vice-campeão sem maiores problemas. Terminou em terceiro, doze pontos atrás de Jenson Button e apenas um à frente de Fernando Alonso, que foi superado apenas na última corrida. Fora a vitória com gosto de presente de Natal no Brasil, ele obteve dois segundos e sete terceiros lugares. Abandono, apenas um: batida na Parabolica de Monza após se chocar com Felipe Massa na disputa por uma mísera sexta posição. O resto da temporada foi uma profusão de resultados medíocres para os padrões rubrotaurinos.

Tenho de ser justo com Webber e dizer que uma das ultrapassagens mais bonitas do ano foi executada por ele sobre Fernando Alonso em plena Eau Rouge: mais um pouco e Stefan Bellof teria companhia. Além disso, ele não deixou de marcar três poles. Estes foram os pontos altos. Os baixos foram bem mais frequentes e aconteceram especialmente na corrida. Webber acostumou-se a largar muito mal na maior parte das corridas da temporada, perdeu duelos contra carros mais lentos e jogou no lixo provas nas quais a equipe lhe deu todo o apoio, como Nürbugring e Abu Dhabi. Seu início de temporada, em especial, foi somente deplorável.

Em 2012, Webber seguirá na equipe graças ao sempre presente suporte de Christian Horner e Dietrich Mateschitz, os homens fortes da Red Bull. Como ninguém da cúpula deu muito crédito a Sébastien Buemi ou Jaime Alguersuari, a equipe taurina achou que seria negócio permanecer com Mark por mais um ano. Mas já sabe: se repetir 2011, vai dar lugar a qualquer outro e não haverá nenhum Christian Horner para consolá-lo.

Se Vettel foi Mrs. Mansell, Webber foi Mrs. Patrese. Pilotando um RB7, tão digno quanto as Williams de Adrian Newey, o australiano nos presentou com um ano repleto de largadas lamentáveis, dois segundos lugares e uma única vitória (dada pela RBR em Interlagos). Pelo carro que teve e o desempenho de teve, merece o topo.“ – Thiago Medeiros

Não foi nem sombra do Vettel esse ano e só ganhou no Brasil por causa do câmbio bipolar do alemão. Só não fica mais a frente no meu ranking porque ele é um Canberra Milk Kid.“ – Vitor Fazio

1- FELIPE MASSA (326 pontos)

No ano passado, Felipe Massa foi o segundo colocado no Top Cinq de piores pilotos da temporada, perdendo apenas para o indefensável Vitantonio Liuzzi. Muita gente não gostou da decisão e alguns inocentes acreditaram que, veja só, eu não o deixei em primeiro lugar por puro patriotismo. Neste ano, para escapar covardemente das críticas, deixei a lista na mão dos respeitáveis leitores. Que não perdoaram e emplacaram o paulista de língua presa na primeira posição deste indesejável ranking.

Pelo segundo ano seguido, Massa foi impiedosamente derrotado por Fernando Alonso das Astúrias, aquele que não tem pena nem de velha perneta. Enquanto Alonso quase derrotou Mark Webber no campeonato, obteve uma vitória, nove pódios e 257 pontos, Felipe não pegou um podiozinho sequer e ficou isolado na sexta posição do campeonato, absolutamente distante dos cinco primeiros e bastante à frente dos demais por simplesmente pilotar um carro deveras melhor.

O “seis”, aliás, foi o número cativo de Felipe Massa neste ano. Virou até piada. Duvida? Ele não só terminou o ano em sexto como também pilotou o carro nº 6, obteve seis quintos lugares, largou seis vezes na sexta posição e terminou quinze treinos livres nesta tão amada posição. Na China, ele abusou: ficou em sexto nos três treinos livres, no Q2 e Q3 da classificação e na corrida. Os chineses gostam do número seis porque ele traz boa fortuna. É, deve ser isso.

Mas o que incomodou mais não foram exatamente os resultados, e sim a passividade. Enquanto Fernando Alonso se esforçava ao máximo para fazer uma ultrapassagem ou conquistar uma posição a mais no grid de largada, Felipe Massa parece ter deixado de lado o arrojo que sempre o caracterizou e se transformou em um sujeito insuportavelmente conformista. Ele até teve alguns bons momentos, como os zerinhos em Interlagos, as duas voltas mais rápidas, a briguinha com Hamilton em Cingapura e as atuações agressivas em Nürburgring e em Sepang. Mas o resto do ano foi medíocre, para dizer o mínimo. O fundo do poço foi em Spa-Francorchamps: Massa perdeu todas as disputas em que se envolveu de maneira humilhante. Eita, mola má.

Enquanto o Alonso disputava a Eau Rouge com Webber, Felipe duelava com Buemi, Kobayashi… para, quem sabe, chegar em sexto. “ – Gabriel Milaré

Desde 1981 um piloto da Ferrari não disputava toda uma temporada sem ir ao pódio, algo que Alonso conseguiu por 10 vezes. Triste.“ – Alexandre