Christian Fittipaldi em Phoenix, 1995. Ele foi um dos primeiros pilotos da fase "internacionalizada" da Indy. Aparentemente, teremos algo parecido ocorrendo novamente daqui em diante

Christian Fittipaldi em Phoenix, 1995. Ele foi um dos primeiros pilotos da fase “internacionalizada” da Indy. Aparentemente, teremos algo parecido ocorrendo novamente daqui em diante

Christian Fittipaldi desembarcou nos Estados Unidos com quatro milhões de dólares na carteira, o orgulho ferido e uma vontade ferina de reviver sua combalida carreira. O ano era 1995 e o sobrinho de Emerson Fittipaldi havia passado por tudo quanto era tipo de apuro na Fórmula 1, categoria que o abrigou durante três temporadas. Não foi um grande abrigo, é verdade: a Minardi e a Arrows não eram exatamente as melhores escuderias do mundo, para ser bem razoável. A primeira passava pela pior crise financeira de sua história e teve a pachorra de trocar o brasileiro pelo francês Jean-Marc Gounon por uma estúpida diferença de 1 milhão de dólares. A segunda chegou ao absurdo de impedi-lo de utilizar um carro-reserva no treino oficial do GP da Bélgica de 1994, quase o deixando de fora do grid de largada. Se fosse para continuar tendo dor de cabeça e aborrecimento, era melhor ir embora.

É verdade que, antes da mudança para os States, Christian chegou a conversar com algumas equipes do meio do pelotão visando seguir na Fórmula 1 em melhores condições. Sonhou com a McLaren, paquerou a Jordan numa época em que Rubens Barrichello se aproximou de Ron Dennis, chegou muito perto de um acordo com a Tyrrell e também urubuzou um carro da Sauber torcendo para que Karl Wendlinger não retornasse. No fim das contas, sem grandes possibilidades, aceitou um convite da Walker para disputar a Indy em 1995. Pelo mesmo orçamento que a Minardi exigia por um lugar lá no pelotão da desgraça, Fittipaldi teria a oportunidade de disputar o certame americano em condições de vitória.

No mesmo ano, 1995, outros dois brasileiros fizeram sua estreia na Indy. O franco-paulista Gil de Ferran, por recomendação da Reynard, encontrou uma vaga na amarelada Hall Racing, uma das equipes mais tradicionais do automobilismo americano. Em 1994, Gil havia disputado sua segunda temporada na Fórmula 3000 internacional visando um lugar ao sol da Fórmula 1 no ano seguinte. Faltando duas corridas para o fim da temporada, ele estava empatado na liderança do campeonato com o francês Franck Lagorce – naquela época, o campeão da F-3000 praticamente assegurava um lugar na categoria maior para a próxima temporada. De repente, as coisas começaram a dar errado. No Estoril, Gil foi tirado da pista justamente pelo companheiro de Lagorce e abandonou a prova. Em Magny-Cours, o brasileiro foi novamente acertado por um concorrente e saiu da disputa ainda na primeira volta. Como Lagorce também aprontou das suas nessas etapas derradeiras, o título ficou para Jean-Christophe Boullion, que ganhou as três últimas corridas e se sagrou um dos campeões mais improváveis da história da categoria.

De Ferran fechou sua segunda temporada na F-3000 em terceiro lugar, mais ou menos da mesma forma que Felipe Nasr nesse ano. Pela lógica, poderia ter pleiteado um lugar na Fórmula 1 numa boa. O apoio da Marlboro quase lhe abriu uma porta na Footwork, onde poderia substituir Christian Fittitpaldi. Outra razoável possibilidade era a Tyrrell, que estava em alta na época. Porém, nada disso animava o piloto paulista, acostumado com vitórias e títulos. Caso debutasse na F-1, provavelmente demoraria algum tempo até chegar às primeiras posições – isso se ele chegasse lá. Quando Jim Hall o convidou para fazer um teste na Indy visando contratá-lo, Gil não pensou duas vezes. Pegou suas coisas e foi para os States.

O terceiro brasileiro nessa história é o também paulista André Ribeiro. Esse largou mão da Europa um pouco mais cedo, ainda antes da Fórmula 3000. Ribeiro havia feito três temporadas apenas razoáveis na Fórmula 3 britânica e não parecia estar no caminho certo rumo à Fórmula 1. Apesar de ter propostas da F-3000 nas mãos, André não via com bons olhos o destino do automobilismo europeu, que na época passava por uma grave crise política e econômica (para variar). Enquanto isso, a Indy bombava especialmente por causa da presença de Nigel Mansell. Diante disso, o jovem paulista decidiu dar uma oportunidade aos Estados Unidos.

Ribeiro foi o primeiro piloto brasileiro a ter uma carreira propriamente dita na Indy Lights. Disputou a temporada de 1994 pela equipe Tasman, ganhou quatro corridas e perdeu o título para o inglês Steve Robertson (ele mesmo, o atual empresário de Kimi Räikkönen) por apenas nove pontos. No entanto, ao contrário do britânico, conseguiu assegurar um lugar na Indy em 1995 graças à decisão da Tasman de subir para o campeonato principal com o apoio da Firestone e da Honda.

Christian, Gil e André meio que representaram o início de uma fase de internacionalização do automobilismo de monopostos nos Estados Unidos. Eles basicamente compuseram a primeira geração de pilotos de alto nível que optaram por sair da Europa enquanto ainda eram competitivos para desenvolver uma carreira na América do Norte. Até então, apenas pilotos velhos (Emerson Fittipaldi, Nigel Mansell) ou rejeitados bizarros (Alessandro Zampedri, Eric Bachelart, Gregor Foitek) atravessavam o Atlântico.

Com a invasão de brasileiros, outros europeus começaram a olhar para a Indy, que posteriormente se dividiu em CART World Series e Indy Racing League, com mais carinho. Como consequência, as duas categorias ficaram abarrotadas de estrangeiros na segunda metade dos anos 90. A lista é interminável: Tony Kanaan, Hélio Castroneves, Gualter Salles, Luiz Garcia Jr., Alex Zanardi, Juan Pablo Montoya, Mark Blundell, JJ Lehto, Jan Magnussen, Vincenzo Sospiri, Andrea Montermini, Domenico Schiattarella, Kenny Bräck, Michele Alboreto, Naoki Hattori, Arnd Meier e por aí segue.

Charles Pic com um carro da Andretti na Fórmula E: ele é um dos vários ex-pilotos de Fórmula 1 que estão olhando com carinho para a Indy

Charles Pic com um carro da Andretti na Fórmula E: ele é um dos vários ex-pilotos de Fórmula 1 que estão olhando com carinho para a Indy

A Fórmula 1 passava por uma fase de aumento substancial de custos acompanhado da redução do número de carros no grid. Fora das equipes de ponta da época (McLaren, Ferrari, Benetton e Williams), não dava para sonhar com muita coisa a não ser uns pontinhos aqui e acolá, muita pressão e muita encheção de saco. Não era todo dia que uma Sauber da vida surpreendia e andava lá na frente. Na Indy, como os carros eram muito parecidos, qualquer nota 7 da Europa tinha chances de ganhar corridas e abastecer sua conta corrente. Os caras lá do Velho Continente não demoraram muito para perceber isso.

A demanda por vagas na Indy foi tamanha que vários bons nomes da Fórmula 1, da Fórmula 3000 e das categorias menores acabaram ficando de  fora da festa. De cabeça, cito Érik Comas, Thierry Boutsen, Derek Warwick, Allan McNish, Tom Kristensen, Jari Nurminen e Marco Apicella como alguns daqueles que tentaram a vida nos Estados Unidos e não conseguiram exatamente porque, em pleno êxodo, não havia vagas para todos.

Com o tempo, no entanto, as coisas mudaram.

A Fórmula 1 não ampliou seu grid, mas as equipes que estavam lá se fortaleceram graças à maior presença das montadoras e ao aumento dos patrocinadores de peso. No decorrer da década de 2000, a diferença entre as grandes e as nanicas caiu bastante e competir numa Toro Rosso ou Force India da vida não parecia ser uma coisa tão ruim assim. Além do mais, a moda dos programas de desenvolvimento de jovens pilotos garantiu que vários nomes sem grandes recursos financeiros (Lewis Hamilton e Sebastian Vettel, apenas para citar dois) pudessem ter ótimas oportunidades na categoria.

Do outro lado do oceano, a ChampCar e a Indy Racing League haviam mergulhado numa profunda crise. A primeira não tinha dinheiro para nada e a segunda não tinha credibilidade e nem grandes atributos esportivos. A ChampCar, que viveu momentos dourados nos anos 90, atravessou a primeira década do século XXI abrigando gênios do quilate de Alex Yoong, Gastón Mazzacane, Patrick Lemarié, Rodolfo Lavin, Roberto González e Tonis Kaesemets, que disputavam freadas em pistas memoráveis como San Jose e Zolder. A Indy Racing League ainda tinha mais patrocinadores e Danica Patrick, mas os acidentes e a presença nefasta de Tony George não ajudavam nada.

Com o renascimento da Fórmula 1 e a decadência do automobilismo de monopostos norte-americano, os pilotos europeus e sul-americanos voltaram a ignorar solenemente os Estados Unidos. Para que perder tempo em uma ChampCar ou IRL que não tem mais nenhum prestígio e nem mesmo tanto dinheiro assim? Até porque se não houvesse lugar na Fórmula 1, ainda daria para se divertir e fazer uma grana no DTM, no FIA GT, no WTCC, na A1GP, na Superleague Formula ou na corrida de mulas da Expoagro de Alagoas.

Essa foi a tendência mais recente. O cara só ia para a Indy se estivesse realmente interessado em continuar correndo em monopostos mesmo que a lógica e o bom-senso sugerissem o contrário. Mas como esperar bom-senso de alguém como Takuma Sato? Os demais, quando não se arranjavam na Fórmula 1, se viravam nos campeonatos de turismo e protótipos. O surgimento do FIA World Endurance Championship em 2012 criou uma excelente oportunidade para quem quisesse pilotar carrões nervosos e não morrer de fome.

Mas tudo mudou. De repente, a Indy voltou a ser o destino de todos.

Nas últimas semanas, muitos pilotos de renome no automobilismo europeu manifestaram vontade de migrar para a Verizon IndyCar Series em 2015. Cientes da crise profunda que vive a Fórmula 1, vários nomes importantes perceberam que caso quisessem continuar a correr de monopostos, teriam de olhar para a América do Norte com carinho. E com orçamentos individuais que não são exatamente muito maiores do que aquele exigido por uma temporada competitiva na GP2 Series, a Indy não deixa de ser uma boa opção.

O francês Charles Pic, ex-Marussia e ex-Caterham, foi o último piloto do Velho Continente que manifestou oficialmente algum interesse na categoria gerida por Mark Miles. “A IndyCar é uma categoria muito competitiva e interessante. É claro que tudo depende de uma boa oportunidade, e elas não são as mesmas para cada equipe, mas o fato é que eu quero correr na Indy”, afirmou Piquenique da Silva. Um bom caminho para ele seria a Andretti Autosport, equipe pela qual chegou a competir na etapa de Putrajaya da Fórmula E.

Daniel Abt: um cara com o talento, o dinheiro e os contatos que ele tem é exatamente o que a Indy precisa

Daniel Abt: um cara com o talento, o dinheiro e os contatos que ele tem é exatamente o que a Indy precisa

Pic é apenas mais um na enorme lista cujo nome mais reconhecido é o do compatriota Jean-Éric Vergne, que passou as últimas três temporadas correndo pela Toro Rosso na Fórmula 1. Dispensado em favor dos estreantes Carlos Sainz Jr. e Max Verstappen, Vergne decidiu focar na Indy para 2015. “Quero lutar pelo título logo no meu primeiro ano. Não que eu realmente ache que irei vencer tudo logo de cara ou me adaptar rapidamente aos ovais. Há um monte de coisas para aprender vindo da Europa, mas sabendo que vários europeus se deram bem nas pistas ovaladas e que há tantas pistas mistas e de rua no calendário, sei que posso me dar bem”, bradou Jean-Éric. Assim como Charles Pic, ele também poderia encontrar uma porta aberta na Andretti Autosport, equipe que defenderá na etapa de Punta del Leste da Fórmula E.

Os dois enfrentariam concorrência bravíssima do alemão Daniel Abt. Esse daqui pode até não ter experiência na Fórmula 1 ou sequer um currículo vitorioso na GP2, mas ao menos conta com duas pequenas vantagens muito interessantes nos dias atuais: dinheiro e contatos.

Daniel Abt é o filho de Hans-Jürgen Abt, presidente da ABT Sportsline, empresa que ficou famosa na Europa por executar trabalhos de tuning em carros da Audi, da Volkswagen, da Seat e da Skoda. No automobilismo europeu, a ABT Sportsline mantém relacionamento figadal com a Audi, representando a marca tanto no DTM como na Fórmula E. Além do apoio extraoficial da montadora germânica, Daniel também pode contar com os patrocínios da DHL, da Red Bull, do Sport Bild e da Sony, que estampa o logotipo do Playstation 4 em seus carros. Poucos pilotos no mundo são tão bem apoiados.

Infelizmente, tanto dinheiro não foi o suficiente para lhe garantir bons resultados na GP2. Em 2013, mesmo competindo pela ART Grand Prix, teve um crônico problema de motor que praticamente o impediu de lutar por pontos durante toda a temporada. Nesse ano, correndo pela Hilmer, sofreu com inúmeros azares e também com a falta de competência de sua equipe. Não vai para a Fórmula 1 nem se for patrocinado pelo Playstation 15, é óbvio. Mas a Indy ficou interessada em seus apoiadores e seu cavanhaque.

O apoio da DHL, a mesma que patrocina Ryan Hunter-Reay na Verizon IndyCar Series, foi fundamental para que Daniel Abt conseguisse um teste com a Andretti Autosport no circuito de Barber em outubro. Caso Michael Andretti ainda esteja ponderando um quarto carro para a temporada de 2015 (os outros já estão ocupados por Hunter-Reay, Marco Andretti e Carlos Muñoz), Abt deve sair na frente justamente por conta do patrocínio amarelado. Outro ponto a favor: comenta-se há algum tempo que a Audi poderia estar interessada em fornecer motores para a Indy. A presença de um cara como Daniel Abt poderia estimular a presença do fornecedor alemão na categoria.

Vamos a mais nomes. O inglês Dean Stoneman é um desses caras cuja história de vida poderia render milhões de dólares a muito escritor de livro e cineasta picareta por aí. Stoneman se sagrou campeão de Fórmula 2 em 2010 e estava prestes a assinar com a Williams para ser piloto de testes quando, em uma consulta médica, foi surpreendido com a notícia de que estava com um câncer em estágio avançado em seus testículos. Em questão de dias, poderia ter morrido. Dean foi obrigado a interromper sua promissora carreira para fazer tratamento. Na primeira etapa, foi submetido a quimioterapia pesada durante 14 horas por dia, cinco dias por semana. A medicação não funcionou num primeiro instante. Os médicos foram obrigados a aumentar o tratamento para 18 horas diárias, seis horas por dia. Sofrimento puro.

Mas tudo deu certo. Em pouco mais de um semestre, o câncer havia ido embora. Stoneman retornou às competições em 2013, venceu corridas no campeonato inglês da Porsche Supercup e até ganhou um improvável título no P1 SuperStock UK, um dos campeonatos de barcos de competição mais prestigiados no planeta. Nesse ano, Dean retornou aos monopostos na GP3. Venceu cinco corridas correndo por duas equipes diferentes (Manor e Koiranen) e não ganhou o título por pouco. Foi considerado pela mídia especializada um dos nomes do ano no automobilismo internacional.

Desculpem pelo jeito corrido e escroto pelo qual descrevi a fantástica história de Dean Stoneman. Se quiserem um pouco mais de dramaticidade, recomendo que leiam o artigo no The Guardian. O fato é que Stoneman, mesmo após seu desempenho na GP3, provavelmente não terá condições para subir para a GP2, quanto mais sonhar com um lugar na Fórmula 1. Por conta disso, ele decidiu focar sua carreira nos Estados Unidos. “Estou preparado para ir para a América. Sei que tenho talento o suficiente para correr na IndyCar. Para mim, seria um sonho”, afirmou o britânico. Se vier para a Indy, poderia até mesmo fazer um trabalho de divulgação de doença que quase o matou, promovendo a ideia de que o câncer não é uma sentença de morte, mais ou menos como Charlie Kimball faz com a diabetes.

É, Rossi... Quem te viu, quem te vê, hein?

É, Rossi… Quem te viu, quem te vê, hein?

Os nomes não acabam por aí. Os americanos mais europeus do planeta, Alexander Rossi e Conor Daly, também desistiram da Fórmula 1 e estão de olho na Indy. O caso de Rossi, que não é filhote do Valentino, é bem curioso. Seu sonho sempre foi correr na F-1. A Indy, para ele, não passava de um produto de quinta categoria, um troço perigoso, inútil e sem prestígio algum. Mas é engraçado como o destino gosta de uma boa ironia. Foi só o calo apertar que Alexander mudou de ideia. Um ano terrível na GP2 e uma inacreditável sequência de boladas na trave na Marussia (Spa-Francorchamps, Sochi, Austin e Abu Dhabi) impediram que ele fizesse sua tão sonhada estreia na categoria mais boiola do automobilismo mundial. Agora, a perigosa e inútil Indy se tornou a única solução para uma carreira que, até 2011, parecia bastante promissora. Língua mordida, sim ou com certeza?

O mesmo não acontecerá com Conor Daly, um cara que nunca teve nada contra a Indy, muito pelo contrário. No ano passado, ele insistiu em disputar as 500 Milhas de Indianápolis com a AJ Foyt Racing. Mesmo destruindo o carro em um acidente nos treinos, Daly não arregou, largou, correu com dignidade e terminou em 22º. Vale lembrar que seu pai, Derek Daly, também disputou corridas na Indy nos anos 80 e posteriormente trabalhou como comentarista da categoria.

O que Conor realmente queria era a Fórmula 1, tanto que se matou para conseguir um lugar na GP2 nessa temporada. Disputou quase todas as corridas do ano pela fraca Venezuela Lazarus, só não participando das etapas de Monza e Sochi porque o dinheiro acabou. Antes disso, ele participou de três temporadas completas na GP3 e, embora tenha vencido corridas, nunca sequer passou perto do título. A F-1 foi apenas um sonho de uma noite de verão para ele. Na Indy, será bem mais fácil retomar a trilha vencedora que foi iniciada na Star Mazda, competição que ganhou com folga em 2010. Seja feliz em casa, Conor.

Abt, Daly e Rossi provam que a GP2 pode, sim, ser um bom celeiro de pilotos da Indy. Um nome que foi recentemente mencionado é o do italiano Davide Valsecchi, campeão da GP2 em 2012 e infeliz enfeite de Natal da Lotus em 2013. Valsecchi passou cinco temporadas na categoria de base imediatamente anterior à Fórmula 1 esperando pela grande oportunidade de sua vida. Após o título, a Lotus decidiu recrutá-lo para o cargo de terceiro piloto em 2013, uma aposta arriscadíssima para o carcamano. Quando Kimi Räikkönen resolveu se ausentar das duas últimas corridas da temporada, ao invés da equipe promover Valsecchi ao carro nº 7, ela preferiu trazer Heikki Kovalainen das profundezas para substituir seu compatriota. Isso irritou Davide de tal forma que o italiano não escondia a fúria quando as câmeras de TV focalizavam sua cara na maior zoeira.

Valsecchi passou o ano de 2014 fazendo biscates aqui e acolá. Há poucos dias, venceu uma corridinha realizada com carros da AutoGP no Motor Show de Bolonha. Apesar da conquista, essa não era exatamente a vida que Davide sonhava ter quando resolveu torrar dezenas de milhões de dólares na GP2. Em 2015, ele pretende se mudar para os Estados Unidos para correr na Indy. Na semana que vem, o italiano fará testes com a Schmidt Peterson visando a vaga de companheiro de James Hinchcliffe – o russo Mikhail Aleshin, que parecia ter tudo certo para seguir na equipe em 2015, deverá ficar de fora por conta dos problemas financeiros ocasionados pelas sanções econômicas que o Ocidente vem aplicando na Rússia.

Outro que quer a Indy é o inglês Sam Bird, vice-campeão da GP2 em 2013 e vencedor da corrida de Putrajaya da Fórmula E. O filho bastardo de Hugh Laurie já desistiu da Fórmula 1 faz tempo e sonha em poder conciliar sua carreira nos protótipos com uma vida na IndyCar Series, assim como fazem pilotos como Mike Conway e Sébastien Bourdais. “Venho falando com vários chefes de equipe na Indy já faz algum tempo. É uma opção que gostaria de explorar, pois me vejo fazendo uma temporada completa na categoria”, disse Bird. Ele chegou a ser cogitado para uma vaga na Chip Ganassi há algum tempo, mas os rumores envolvendo seu nome andam meio arrefecidos.

Querem mais nomes? Nelsinho Piquet já confirmou que quer disputar a etapa de Brasília com a KV Racing, mas nada impede que ele amplie sua participação. O venezuelano Rodolfo Gonzalez, de carreira vergonhosa lá na Europa, testou recentemente um carro da Schmidt Peterson, mas os deuses da velocidade certamente não deixarão que ele chegue perto de um carro da Indy novamente. Na turma da Indy Lights, o campeão Gabby Chaves parece estar próximo de uma vaga na categoria maior, mas nomes como Luiz Razia e Jack Harvey também estão sempre à espreita. A própria Indy Lights, aliás, terá um aumento expressivo em seu grid em 2015 e não se assuste se um bocado de nomes europeus desembarcarem na categoria – a Carlin velha de guerra já anunciou que disputará o certame com dois carros.

A Indy agradece por tanto interesse. É lógico que os gordos batistas que habitam as fazendas do Alabama não voltarão a assistir à categoria por causa do Abt e do Valsecchi, mas o fato é que esses pilotos do outro lado do Atlântico trazem talento, disposição e dinheiro a uma categoria que precisa de tudo isso para retomar definitivamente o caminho do sucesso. Por mais que nenhum deles tenha o apelo midiático de uma Danica Patrick ou um Dale Earnhardt Jr., são eles que poderão resgatar ao menos um pouco daquela aura que a CART tinha no passado. Além do mais, sua presença poderá aumentar e muito a audiência da Verizon IndyCar Series na Europa e na América Latina. São mercados já aborrecidos com a Fórmula 1 que buscam uma categoria mais sólida e relaxada do que o circo de Bernie Ecclestone.

Que venha toda a boiada.

Qual será o futuro da Lotus? E como Kimi Räikkönen terminará a temporada?

Qual será o futuro da Lotus? E como Kimi Räikkönen terminará a temporada?

Se jogar uma lona, vira circo. É piloto que ameaça deixar de correr por causa de salário atrasado. É piloto que assina contrato que não vale nada. É piloto talentoso tomando portada na cara de tudo quanto é escuderia. É piloto picareta chamando a atenção das equipes médias por motivações fundamentalmente monetárias. É piloto deixando de testar na GP2 por vontade própria. Na Fórmula 1 de hoje, quem não se garantiu com um contrato seguro e recheado de cláusulas pétreas, dançou.

Vocês sabem bem o que significa a expressão silly season. A tradução literal “temporada boba” não quer dizer rigorosamente nada por si só. Silly season foi um negócio inventado por jornalistas ingleses para descrever aquele momento do ano em que o mercado de pilotos e equipes está no auge da agitação e os boatos correm à boca solta. Por que silly? Vai lá saber. Pergunte ao bobo que inventou esse negócio.

Depois de três anos em que pouco de interessante aconteceu em relação a trocas de pilotos, o circo da Fórmula 1 voltou a pegar ffffffooooooogo com um turbilhão de notícias, boatos, fofocas e invenções. A categoria passará por uma mudança técnica radical em 2014, os motores turbinados voltarão à categoria após um jubileu de prata e estima-se que os custos advindos das novidades poderão subir em até 20 milhões de euros.

Mais 20 milhões de euros na conta. Isso significa que a coitada da Marussia teria de aumentar cerca de 35% de seu orçamento. A Caterham teria de arranjar mais uns 30% sabe-se lá de onde. Lotus e Williams, que não fazem a menor ideia do que virá no futuro, serão obrigadas a expandir seus recursos em 15%. Como toda essa gente vai descolar mais vintão do nada?

É uma pergunta amarga. Dinheiro não dá em árvores. 20 milhões de euros é coisa pra cacete. Apenas para situá-los, a Minardi gastou, em termos de valores atuais, cerca de 8,2 milhões de euros em 1989 para comandar uma razoável escuderia de dois carros. Com essa bagatela, Pierluigi Martini e Luis Perez-Sala obtiveram dois quintos e dois sextos lugares, resultados que credenciavam a equipe como uma sólida participante do meio do pelotão.

Com 20 milhões de euros, você poderia operar uma equipe de ponta na NASCAR Sprint Cup durante uma temporada com alguma tranquilidade, embora já haja quem gaste mais do que isso lá nos States.  Ou financiar até duas escuderias de ponta da IndyCar Series. Ou custear nada menos do que dez equipes da GP2. Ou pagar três meses de cerveja, vinho e batata frita para mim. Olhando para tudo isso, você percebe o quão inglório e até patético é o esforço de sobrevivência de Marussia e Caterham. Com a cachoeira de euros que despejam em carroças sem futuro, as duas equipes poderiam estar chutando bundas em qualquer outro campeonato de ponta no mundo.

Mas a Fórmula 1 é assim mesmo e se o povo continua lhe dando toda a moral, é porque atrativos há. O problema é que poucos conseguem participar da brincadeira com alguma dignidade. Red Bull, Mercedes, Ferrari e Toro Rosso já confirmaram suas duplas para 2014 – três delas virão com novidades interessantes. As outras seis equipes ainda estão no varejão disputando a tapa os poucos legumes que prestam.

Como de costume, há muito mais pilotos do que vagas disponíveis. Tudo bem, a Fórmula 1 sempre foi assim, mas a situação nunca esteve tão preta justamente por conta da escassez de grana que força as equipes a apelarem para os nomes mais abastados, e não necessariamente mais talentosos, do mercado. Complicado é que, em alguns casos, nem mesmo esses estão conseguindo espaço. A Fórmula 1 virou uma feira da fruta onde assalariados e pagantes estão guerreando pelos poucos espaços à sombra.

Vamos às histórias:

Fabio Leimer, mais um campeão da GP2 a ver navios?

Fabio Leimer, mais um campeão da GP2 a ver navios?

CAMPEÃO, RICO E SEM VAGA – No último fim de semana, o suíço Fabio Leimer se tornou o nono campeão da história da GP2 Series. Ganhou o caneco após uma temporada bem esquisita: foram três vitórias austeras em Sepang, em Sakhir e em Monza, quatro terceiros lugares e uma série de resultados discretos. Sempre muito veloz, muito irregular e razoavelmente azarado, Leimer chegou a ficar cinco corridas consecutivas sem pontuar. Despertou a partir da rodada de Nürburgring, onde iniciou uma série de doze provas consecutivas na zona de pontos.

Muitos torcem o nariz pelo fato de Fabio ter sido o campeão após quatro longos anos na GP2. Sejamos razoáveis. O suíço é um piloto talentoso que surrou a concorrência na Fórmula Master, onde foi campeão em 2009 após sete vitórias. Na GP2, ficou famoso pelo desempenho sempre forte em treinos oficiais e pela absurda falta de sorte e de constância nas corridas. Pode não ser um novo Senna, mas anda bem e não passa vergonha.

Além dos bons predicados técnicos, Leimer é um cara cheio da grana. Sua família tem como amigo o respeitável Rainer Gantenbein, dono da Bautro AG, uma empresa suíça que desenvolve produtos relacionados ao tratamento do ar e à secagem de água. Fanático por corridas, Gantenbein chegou a afirmar em 2011 que tinha gasto, até então, cerca de 17 milhões de dólares com Leimer. Adicione a esse montante a grana que foi aplicada também nos últimos dois anos e podemos dizer que Fabio custou ao tycoon a módica quantia de 20 milhões de dólares até hoje. Tudo isso por um piloto que ainda nem chegou à Fórmula 1. E provavelmente nem chegará.

Mesmo com currículo e padrinho rico (o próprio Gantenbein afirmou em 2011 que “se a Virgin pedisse cinco milhões de dólares por uma vaga, eu pagaria”), Fabio Leimer não foi citado em nenhum boato até aqui. Aparentemente, nenhuma das equipes parece estar interessada nele. Bizarro, pois seu custo/benefício é um dos melhores do mercado. Caso não encontre uma vaga de titular em 2014, o que me parece provável, Leimer será o melhor exemplo do curioso caso do cara que tem talento e dinheiro e mesmo assim acabou ficando de fora da festa.

O caso de Fabio é bastante semelhante ao de Davide Valsecchi, o italiano que se sagrou campeão da GP2 no ano passado. Podemos obviamente argumentar que Valsecchi não era tão naturalmente talentoso quanto o suíço: ele demorou cinco anos para galgar o troféu, nunca havia demonstrado muito potencial até então e seus resultados nas categorias anteriores foram risíveis. Mesmo assim, o título da GP2 e o pomposo patrocínio da Ediltecnica o credenciavam a uma vaga de titular. Pois o que aconteceu? Davide passou o ano inteiro assistindo às corridas nos boxes da Lotus com um tampão no ouvido e a cara emburrada. Pelo camarote com carrão e amigos famosos, ainda deve ter pagado uma fortuna.

Essa é a Fórmula 1 contemporânea: mesmo que você seja uma mistura de Ayrton Senna com Carlos Slim Helú, suas dificuldades na hora de brigar por uma vaga serão as mesmas de um Max Chilton. O mundo está louco.

E aí, Nico? Vai pra Lotus ou vai ficar coçando o saco em casa?

E aí, Nico? Vai pra Lotus ou vai ficar coçando o saco em casa?

O DILEMA DA LOTUS: Em 2012, a Lotus registrou prejuízo líquido de 91,3 milhões de dólares.  Se te interessa, foi a maior perda anual de uma equipe de Fórmula 1 na história da categoria (lembro-me bem que a BAR anunciou em 2003 um passivo de cerca de 300 milhões de dólares acumulado em quatro anos). Somando esse buraco com as dívidas de anos anteriores, o montante da encrenca chega a 162 milhões de dólares. Se você considerar que o orçamento da equipe comandada por Eric Boullier gira em torno dos 176 milhões anuais, entenderá que a situação é ainda mais preta do que os carros de Kimi Räikkönen e Romain Grosjean.

Pouco antes do GP de Abu Dhabi, o piloto finlandês veio a público para dizer o quanto havia recebido de sua equipe em 2013: “nada”. Laconicamente, Kimi deixou claro a todos que a Lotus lhe devia os 27,4 milhões de dólares referentes ao seu salário anual e até ameaçou não disputar as duas últimas corridas do ano caso a questão trabalhista não fosse resolvida. Ao que parece, o próprio Bernie Ecclestone teve de intervir. O velho asquenaze, apesar de notório pão-duro, costuma tirar do bolso para ajudar as equipes mais necessitadas. Pelo visto, Räikkönen não terá de entrar de férias mais cedo.

A Lotus está esperando sentada pela grana do grupo Quantum Motorsport, um consórcio fundado pelo americano de origem paquistanesa Mansoor Ijaz, pelo emiratense Suhail Al Dhaheri e pela família real de Brunei. A Quantum adquiriu cerca de 35% das ações da equipe com a promessa de quitar dívidas e dar a ela um novo gás após a saída de Räikkönen, já confirmado para correr na Ferrari no ano que vem. O próprio Ijaz já afirmou que o acordo já está selado, mas o dinheiro ainda não entrou. E isso pode afetar inclusive a definição da dupla para 2014.

Com os pódios e as caprichadas atuações em Suzuka e em Yas Marina, Romain Grosjean está praticamente garantido na nau claudicante da Lotus em 2014. Seu companheiro de equipe ainda não foi anunciado. O jornalista Américo Teixeira Jr. cravou que a vaga pertencerá ao venezuelano Pastor Maldonado, que, de fato, já tem um contrato assinado com os aurinegros. A lógica é simples de entender: Maldonado e a grana interminável da PDVSA seriam a solução para o caso de não haver nenhuma Quantum Motorsports na história. A desconfiança fazia todo o sentido.

A revista alemã Der Spiegel insinuou que Mansoor Ijaz, o cabeça da Quantum, não é do tipo que cumpre os acordos previamente combinados.  Em fevereiro de 2012, a Suprema Corte de Nova York reuniu documentos que provavam que Ijaz era o criador e o único funcionário de duas empresas que captavam empréstimos e não os pagava. Após ser processado pelo Banco de Investimento de San Marino, o caloteiro foi obrigado a ressarci-lo em cerca de 1,4 milhão de dólares. Foi aí que seu esquema trambiqueiro foi descoberto.

Mas sua grande estripulia foi o envolvimento no chamado memogate, um escândalo diplomático que ocorreu há dois anos e envolveu Estados Unidos e Paquistão. Na famosa operação que resultou na morte de Osama bin Laden, o governo civil paquistanês obrigou que seus militares abrissem caminho para os americanos. Os militares não gostaram do pedido e seu relacionamento com o governo azedou de vez. Dias depois, o embaixador do Paquistão nos Estados Unidos Husain Haqqani escreveu um memorando destinado ao governo americano pedindo para que os Estados Unidos interviessem no Paquistão para evitar a possibilidade de os militares tomarem o poder. O memorando teria sido concebido pelo próprio presidente do Paquistão e entregue a um funcionário do governo americano por ninguém menos que Mansooh Ijaz. Posteriormente, o próprio Ijaz admitiu o ocorrido em uma coluna no Financial Times. A crise política eclodiu e Haqqani teve de deixar seu cargo. Ijaz, pelo visto, saiu incólume da confusão.

Apesar do perfil polêmico do dono, a Quantum se comprometeu a resolver os problemas financeiros da Lotus e exigiu que o alemão Nico Hülkenberg fosse contratado como colega de equipe de Romain Grosjean. Hülkenberg não tem dinheiro, mas é talentoso pra caramba. Na Fórmula 1, não há uma viva alma que se oponha à sua permanência na categoria. Após ser obrigado a abrir caminho para os rublos de Sergey Sirotkin na Sauber, Nico teve de correr atrás de um carro para 2014. Foi rejeitado pela Ferrari, praticamente não tem chances na McLaren e não tem vaga garantida sequer em suas antigas casas, a Williams e a Force India. A Lotus parece a única possibilidade palpável, mas tudo depende da Quantum. Caso contrário, Maldonado é quem assume o carro.

E assim caminha a humanidade. Curioso é que estamos falando da quarta melhor equipe do campeonato. Sinal de que o mundo está louco.

Max Chilton na Force India. Sim, isso pode virar realidade em 2014

Max Chilton na Force India. Sim, isso pode virar realidade em 2014

MUITO BOI, POUCO PASTO: Agora é hora de embananar suas cabeças.

Insatisfeito com a precariedade da Williams, Pastor Maldonado está de malas prontas para migrar a outra equipe. Seu contrato com a Lotus existe, mas está parado e pode ser rasgado a qualquer momento. A solução poderia residir na Sauber, que pode até nem receber o dinheiro russo ligado a Sergey Sirotkin. Ou sei lá, vai que a Williams o convença a ficar? De qualquer jeito, é improvável que Pastor fique de fora. Muitos gostariam de estar em sua pele – apesar de o cara ser feio como o demônio de cócoras.

Pois é, galera, pode ser que o jovem Sirotkin rode. No último GP de Abu Dhabi, os comentaristas da Globo levantaram essa possibilidade. Se isso acontecer, a Sauber volta para a marca do pênalti. Confiar em empresários russos dá nisso, né? Mas pode ser que a salvação venha de lá, mesmo. Vitaly Petrov, lembra-se dele? O ex-piloto da Renault e da Caterham teria arranjado cerca de 30 milhões de euros e estaria louco para roubar o carro de Sirotkin. Em Hinwil, a luta é entre bolcheviques e mencheviques.

Os dois Felipes, o Massa e o Nasr, deverão dividir a mesma equipe em 2014. O intrépido Américo Teixeira Jr. cravou não só a contratação de Massa como o companheiro de Valtteri Bottas na Williams como também a entrada de Nasr como o terceiro piloto que testará na maioria das sessões de sexta-feira da próxima temporada. Confirmação? Nenhuma. Mas é bem possível que ela venha nos próximos dias. E pode ser também que nada disso aconteça. Afinal de contas, tudo está louco.

Max Chilton e Giedo van der Garde. Os dois, símbolos mais proeminentes da figura nefasta do piloto pagante, podem não estar impressionando ninguém com sua pilotagem, mas seus extratos bancários compensam qualquer deficiência técnica. O holandês Van der Garde já teve seu nome vinculado à Williams, à Sauber e à Force India graças ao dinheiro da McGregor, que é uma das muitas companhias comandadas pelo sogrão. Chilton, certamente o pior dos pilotos da temporada, é um candidato forte ao carro da Force India, equipe pela qual andou testando no ano passado. Ficou assustado com a possibilidade de ter Giedo na Williams e Max na Force India? Aceite. O planeta endoidou.

Se Van der Garde sair, a Caterham já tem um nome para substituí-lo, o do finlandês Heikki Kovalainen. O cara esteve na escuderia de Tony Fernandes entre 2010 e 2012 e sua ausência deixou muita gente triste, tanto que acabaram o convidando para participar de alguns treinos de sexta-feira para acertar o carro. O próprio Fernandes já admitiu que o retorno de Kovalainen é algo possível, mas tudo depende da grana. Se a Caterham terminar o ano fora do Top 10, não receberá o benefício logístico que a FIA concede às dez melhores escuderias de cada temporada e terá de apelar para uma dupla pagante. Nesse caso, Van der Garde e Charles Pic ficariam. Mas o francês com cara de cu também está olhando para outras fazendas. Seu empresário, o ex-piloto Olivier Panis, já andou conversando com a Sauber e a Force India.

Jules Bianchi deve ficar na Marussia, mas que ninguém duvide se a escuderia russa decidir trocá-lo por Kevin Magnussen, filho do Jan e campeão da World Series by Renault nesse ano. O dinamarquês pode até acabar na McLaren como substituto do subaproveitado Sergio Pérez, mas a turma de Woking gostaria de vê-lo aprendendo o caminho das pedras numa casa menos exigente, a própria Marussia ou a Force India. As chances de ele fazer sua estreia na Fórmula 1 em 2014 nem que seja para andar de patinete pelo paddock são bem altas. Vale dizer que Kevin tinha um teste de GP2 agendado com a DAMS na pista de Abu Dhabi, mas deu para trás no dia anterior e deixou a equipe francesa furiosa. Nos dias de hoje, um cara só recusa a GP2 se já tiver a carreira encaminhada. Muito bem encaminhada.

Paul di Resta e Adrian Sutil até podem continuar, tem boas chances para isso, mas que ninguém se assuste se ao menos um deles for mandado para casa. Di Resta poderia voltar para a DTM com a própria Mercedes, que está planejando voltar a ter oito carros na categoria e andou testando uma baciada de gente pensando exatamente nessa expansão. O outrora promissor Sutil não parece ter muito mais espaço na Fórmula 1 depois do barraco que armou lá no camarote da China. As vagas de ambos estão ameaçadas por vários pilotos citados acima. Outro que poderia pingar aí é James Calado, o inglês muito talentoso e muito azarado que militou na GP2 nos últimos anos. Calado obviamente quer a titularidade imediata, mas um caminho provável é o cargo de terceiro piloto na escuderia indiana. Fazendo tudo direitinho, ele poderia ser promovido em 2015.

Entendeu? Não entendeu? Não importa. Todo mundo está conversando com todo mundo, uma meia dúzia se arranja e o resto chora na cama. Mas não arrisque previsões. Todos estão loucos.

P.S.: Pouco antes de fechar essa Bíblia, saiu na mídia que o ex-piloto Mika Salo, pacheco escandinavo maior, afirmou que Kimi Räikkönen poderia disputar as duas últimas corridas da temporada pela Sauber no lugar de Nico Hülkenberg, que já assumiria seu lugar na Lotus de forma imediata. É isso mesmo: Räikkönen e Hülkenberg, insatisfeitos com os atrasos salariais de suas equipes atuais, trocariam de lugar. Ficam elas por elas, não é? Mais ou menos. Apesar de a pobreza ser a mesma tanto na Sauber como na Lotus, é sempre bom mudar de ares.

Mas como quem deu a notícia foi o ex-piloto Mika Salo, pacheco escandinavo maior, não leve a sério. Salo, assim como todo o resto do paddock, é doido de pedra.

Assistiu à GP2 Series neste fim de semana? Vibrou com a vitória de Luiz Razia no sábado? Brilhou os olhos com a bela estréia de Felipe Nasr? Ficou impressionado com o alto nível das disputas? Achou a categoria mais divertida do que a Fórmula 1? Se você respondeu “não” a todas estas perguntas, digo que está na hora de rever seus conceitos. A GP2 será bastante interessante nesta temporada. Muito. Portanto, se quiser um conselho gratuito meu, tente assistir ao menos às corridas de sábado.

Muitas pessoas deixam de acompanhar uma categoria por duas razões bem interessantes: desconhecimento e falta de contato com os participantes. Se você não tem muita idéia do que é a GP2 e alimenta alguns preconceitos sobre o fato da categoria ser mais barata e ter pilotos menos habilidosos que a exagerada Fórmula 1, não irá perder seu valioso tempo com uma estúpida corrida de quase uma hora de duração em um horário esquisito. É a mesma mentalidade de alguém que se recusa a ver um jogo da Série B, por exemplo. Deixe este elitismo tosco de lado.

A falta de contato com os participantes é uma coisa bem intrigante. Você assiste à NASCAR por causa da Danica Patrick ou do Kyle Busch. Na Fórmula 1, podemos torcer pela vilania de Fernando Alonso, pela jovialidade de Sebastian Vettel ou pelo alcoolismo de Kimi Räikkönen. Na Stock Car, todo cidadão de bem torce contra o Cacá Bueno. Mas e na GP2? O que significa um Fabrizio Crestani ou um Giedo van der Garde? É muito chato ver um esporte onde você não conhece ninguém. È vero.

Mas o Bandeira Verde serve para isso, tirar você das trevas da ignorância. Aqui, você conhecerá brevemente os 26 pilotos que participaram da rodada de Sepang e deverão aparecer ao menos nas próximas. Se alguém cair fora até Sakhir, paciência. Você ao menos poderá ter uma idéia de quem foram os adversários de Felipe Nasr e Luiz Razia na Malásia. E, quem sabe, poderá até mesmo arranjar algum piloto para acompanhar e torcer antes mesmo dele subir para a Fórmula 1 ou voltar para casa e cursar Administração de Empresas na Estácio de Sá. E você conhecerá também as treze equipes e suas pinturas.

Primeiro, os pilotos.

FELIPE NASR, A ESPERANÇA BRASILEIRA

Muita gente tomou conhecimento deste cara após aquela reportagem do Jornal Nacional que noticiou sua contratação pela DAMS para a temporada 2012 da GP2. Mas meus leitores já sabiam que Luiz Felipe de Oliveira Nasr, 19 anos, é o piloto brasileiro mais promissor no automobilismo internacional atualmente há uns dois anos.

Filho do chefe de equipe Samir Nasr, Felipe ostenta alguns títulos importantes nas categorias de base. Em 2009, deixou adversários mais experientes para trás e sagrou-se campeão da Fórmula BMW européia. No ano passado, não teve problemas para levar a taça da Fórmula 3 britânica. Neste ano, Nasr fez sua estréia na GP2 por uma equipe boa, mas sem estardalhaço, e apareceu muitíssimo bem em Sepang. É patrocinado pelo Banco do Brasil e pela OGX. Se continuar nesta curva de crescimento, vencerá corridas na GP2 e chegará logo à Fórmula 1.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Altas. Parece ter finalmente obtido bons patrocinadores e o talento está lá. Apostaria numa estréia em 2014.

LUIZ RAZIA, A ETERNA ESPERANÇA BRASILEIRA

Um dia, o baiano Luiz Razia teve tanta moral quanto Felipe Nasr teve hoje. Mais precisamente, uns dois ou três anos atrás. Campeão da Fórmula 3 sul-americana em 2006, Razia ganhou destaque na mídia quando conseguiu ser terceiro colocado em um teste de pré-temporada na GP2 no início de 2007. Ele só conseguiu o resultado porque pegou uma pista em condições melhores que as dos adversários, mas mesmo assim fez seu nome e conseguiu estrear na categoria em 2009.

Infelizmente, Razia nunca obteve nada além de uma vitória na segunda corrida de Monza, ainda no seu ano de estréia. Nos dois últimos anos, ele pilotou por boas equipes (Rapax e Air Asia), mas não conseguiu capitalizar bons resultados e terminou 2011 com o sonho da Fórmula 1 praticamente enterrado. Neste ano, está fazendo provavelmente sua última temporada na GP2. Começou muito bem, vencendo a primeira corrida de Sepang e saindo da Malásia como o líder do campeonato. Mas precisará de mais resultados positivos se quiser reverter sua até certo ponto injusta fama de piloto limitado.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Baixas. Embora esteja ligado ao programa de desenvolvimento de pilotos da Red Bull, já não é mais considerado um novo talento e sua imagem na GP2 está um pouco chamuscada. Precisará de uma grande reviravolta.

JOHNNY CECOTTO JR., JOLYON PALMER E STÉPHANE RICHELMI, OS FILHOS

Três sobrenomes de peso. Bom, mais ou menos. Johnny Cecotto Jr. é o filho daquele motociclista que ganhou um título nas 350cc e enfileirou uma série de bons resultados na segunda metade dos anos 70. No Brasil, Cecotto pai ficou famoso por ter sido o primeiro companheiro de Ayrton Senna na Fórmula 1. O filho não é tão bom e ainda tem cara de criança, mas ao menos faz uma grande corrida por ano: Mônaco/2010 e Spa/2011. Neste ano, corre pela poderosa Addax, mas não tem grandes expectativas.

Jolyon Palmer é filho do Dr. Jonathan, que pilotou alguns carros bem ruins nos anos 80. Hoje em dia, Jonathan Palmer é o promotor da Fórmula 2, categoria onde Jolyon fez seu nome e se sagrou vice-campeão em 2010. Mas o rebento não é tão talentoso quanto o pai. Estreou na GP2 no ano passado pela Arden e não fez nenhum ponto. Mesmo assim, tem muito dinheiro e conseguiu comprar a segunda vaga da competente iSport. Marcará alguns pontos, fará um ou outro pódio e só.

O monegasco Stéphane Richelmi também tem pai famoso. OK, nem tanto. Jean-Pierre Richelmi era um piloto de rali que havia obtido relativo sucesso na Europa e que chegou a fazer algumas corridas no WRC, chegando em quinto no Rali de Portugal de 1997. O jovem Stéphane preferiu a vida nos monopostos, mas nunca conseguiu nada de muito relevante. Seu melhor momento foi o vice-campeonato na Fórmula 3 italiana em 2010, tendo perdido o título para o brasileiro César Ramos. Na GP2, será apenas mais um participante do meio do pelotão.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Baixas. Cecotto Jr. é o melhor deles, mas nenhum tem cacife para vôos mais altos. Só o dinheiro não é suficiente.

DAVIDE VALSECCHI, A VACA-BRAVA

Primeiramente, ele não é um gênio. Sua carreira nas categorias anteriores à GP2 é risível, praticamente inexistente. Seu primeiro título foi na GP2 Asia há dois anos, nada muito animador. Na pista, seu estilo de pilotagem é nervoso e irregular. Erros na tangência das curvas, dificuldades para ultrapassar, ritmo irregular e enorme propensão a acidentes. Este é Davide Valsecchi, sujeito a quem talvez nem os italianos dêem crédito.

Infelizmente, Valsecchi é um dos grandes favoritos ao título. Ele é o piloto mais experiente do grid atualmente: estreou em 2008 e já fez 74 largadas. Dessas, só converteu três delas em vitórias. Na tabela final do campeonato, nunca conseguiu mais do que dois oitavos lugares em 2010 e 2011. Mesmo assim, sua experiência é um ativo importantíssimo. Na pré-temporada, Davide foi constantemente o cara mais rápido. No entanto, terminou o fim de semana em Sepang em cambalhotas. Davide Valsecchi tem tudo para ser campeão, mas tem em Davide Valsecchi seu maior adversário.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Médias. Mesmo se for campeão, não terá facilidade para achar uma vaga boa. Falta-lhe credibilidade.

GIEDO VAN DER GARDE, O GENRO

O holandês Giedo van der Garde, 27, é um sujeito obstinado. Somente isso poderia explicar como é que um sujeito que foi contemporâneo de Lewis Hamilton, Robert Kubica, Nico Rosberg e Sebastian Vettel na Fórmula 3 poderia estar insistindo nesse negócio de Fórmula 1 até hoje. Van der Garde não é um grande talento e nem tem um currículo tão brilhante, contabilizando apenas o troféu da World Series by Renault em 2008 como único trunfo. Mas ele tem dinheiro e paciência.

A carta na manga de Van der Garde é sua namorada, filha de um dos homens mais ricos da Holanda. Graças a isso, seu carro sempre está repleto de adesivos, todos ligados às empresas do sogrão Marcel Boekhoorn, dono de uma fortuna de 1,3 bilhão de dólares. As equipes de GP2 o adoram, tanto que Giedo está na categoria desde 2009. Seu ano de estréia foi o melhor: três vitórias e uma ótima impressão. Nos últimos dois anos, ele correu pela Addax e não ganhou uma corrida sequer. Nesse ano, terá sua última chance de ser campeão e atrair as atenções sérias de alguma equipe de Fórmula 1. Mas se depender de sua atuação na pré-temporada e em Sepang, fica difícil.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Altas. Mas só por causa do dinheiro.

ESTEBAN GUTIERREZ, O FAVORITO

Apesar dos pesares, o mexicano Esteban Gutierrez ainda é a minha grande aposta para o título da GP2 nesta temporada. Ele tem tudo aquilo que é necessário para o sujeito se dar bem no automobilismo: apoio de um cara importante, muito talento, uma equipe excepcional e tempo. Gutierrez é uma das apostas de Carlos Slim, homem mais rico das galáxias e dono de um monte de empresas. Graças a isso, ele não teve dificuldades para arranjar uma vaga na ART Grand Prix, que virou Lotus neste ano. Pilotar para a equipe de Fréderic Vasseur é meio caminho andado para um título na GP2.

O talento de Gutierrez também é um negócio à parte. O cidadão de apenas 20 anos foi vice-campeão da Fórmula BMW americana, campeão da Fórmula BMW européia e campeão da GP3. Sua adaptação à GP2, no entanto, tem sido árdua. No ano passado, Esteban ganhou apenas uma corrida e terminou o ano em 13º. Neste ano, ele ainda não engrenou e está sofrendo com a pressão do companheiro James Calado. Mesmo assim, é uma boa aposta para o futuro.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Altíssimas. Ele é o terceiro piloto da Sauber e tem grandes chances de começar sua vida por lá, ainda mais se Sergio Pérez bandear para a Ferrari.

JAMES CALADO, O BARULHENTO

O sobrenome é curioso. Ao que consta, é de origem portuguesa, o que poderia representar uma pequena ascendência lusitana nos genes deste piloto de 22 anos. Mas James Calado não tem absolutamente nada de silencioso. Na verdade, seu currículo é pra lá de expressivo. Com apenas cinco anos de carreira nos monopostos, ele conseguiu ganhar dois títulos de inverno da Fórmula Renault e foi vice-campeão da Fórmula Renault britânica, da Fórmula 3 britânica e da GP3.

Não o julgue mal pelo grande número de vice-campeonatos. Calado é uma das maiores esperanças inglesas nos dias atuais. A ponto da Racing Steps Foundation, programa de desenvolvimento de pilotos ingleses, ter deixado Oliver Turvey de lado para apostar suas fichas no jovem de Cropthorne. Pelo visto, o apoio renderá frutos. Mesmo com apenas quatro corridas de GP2, James já contabiliza duas vitórias. Embora ainda seja estreante, é um interessante candidato ao título. É bem típico de James Calado fazer barulho aonde chega.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Médias. É um grande talento, mas precisa de um suporte mais sólido do que o da Racing Steps Foundation. Caso contrário, pode virar um novo Oliver Turvey.

MARCUS ERICSSON, O ALAIN PROST SUECO

Num belo dia, um garotinho de nove anos quebrou o recorde de uma pista de kart na Suécia e impressionou o ex-piloto Fredrik Ekblom. A família do garoto não tinha qualquer pretensão e sequer dinheiro para financiar uma carreira no automobilismo, mas Ekblom insistiu que o pequeno Marcus Ericsson seguisse em frente. Não muito depois, o também ex-piloto Kenny Brack ficou entusiasmado com o talento do moleque. “Ele me lembra o Alain Prost dirigindo”, garantiu o ex-astro da Indy Racing League.

Ericsson estreou nos monopostos em 2007 e já começou ganhando o título da Fórmula BMW européia com folga. No ano seguinte, correu na Fórmula 3 britânica e terminou em quinto. Em 2009, sagrou-se campeão da Fórmula 3 japonesa e garantiu uma vaga na Super Nova para correr na GP2 e um teste na Brawn GP em Abu Dhabi. Até aqui, infelizmente, Ericsson não conseguiu nada além de uma vitória e uma série de aborrecimentos na GP2. Neste ano, ele entra como um dos favoritos. Seu início de temporada não foi bom, mas ainda podemos considerá-lo como candidato ao título.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Médias. Talvez se terminasse o ano entre os três primeiros. Não me parece ter tanto dinheiro para comprar um lugar na Fórmula 1.

FABIO LEIMER E SIMON TRUMMER, OS SUÍÇOS RIQUINHOS

Da Suíça, saíram alguns dos pilotos mais ricos que militam no automobilismo de base atualmente. O melhor deles, obviamente, é Fabio Leimer. Aos 22 anos, ele entra em sua terceira temporada na GP2 após ter sofrido bastante na Ocean e na Rapax. Fabio ficou conhecido há algum tempo quando alguém publicou que sua carreira, até aqui, custou a bagatela de 16 milhões de dólares. Este montante foi todo financiado por empresas como a Bautro e a Certina, aquela dos relógios. Mas não dá para dizer que Leimer é um mau piloto. Em 2009, ele ganhou com sobras a Fórmula Master. No fim do ano passado, liderou alguns testes de pré-temporada e ainda passeou em uma daquelas corridas extracampeonato de Abu Dhabi. É alguém que brigará por vitórias neste ano.

O outro suíço é Simon Trummer, egresso da GP3 Series. Este daqui não tem muita solução: em duas temporadas na GP3, andou sempre nas últimas posições e marcou um total de apenas treze pontos. Antes disso, Trummer não contabiliza nada além de um vice-campeonato na obscura Fórmula Renault suíça em 2008. Mas ele tem dinheiro e é por isso que conseguiu a vaga de companheiro de Luiz Razia na Arden. Agradeça à Allianz e à Castrol, que o apóiam. Não é curioso que um sujeito ruim como ele conte com parceiros tão fortes?

CHANCES NA FÓRMULA 1: Médias para Leimer, baixíssimas para Trummer. Os dois têm muito dinheiro, mas apenas um tem algum talento.

STEFANO COLETTI, O BASTARDO

Pouca gente sabe disso e você provavelmente não é um deles, mas o monegasco Stefano Coletti é um dos pilotos patrocinados pela Red Bull. É só reparar no seu capacete, que possui as cores azul e cinza e o touro vermelho adornado. Só que Coletti não é nem a primeira e nem a segunda prioridade dos rubrotaurinos. Na verdade, ele nem costuma ser lembrado quando se fala de uma vaga disponível na Toro Rosso. Stefano só recebe o dinheiro das latinhas e tenta se virar com ele.

Compreensível. Ele é um bom piloto, mas não um gênio. Teve passagens razoáveis pela Fórmula BMW americana, pela Fórmula Renault européia, pela Fórmula 3 Euroseries e pela World Series by Renault, mas nada de muito empolgante. Por incrível que pareça, sua melhor fase está sendo agora na GP2. No ano passado, Coletti venceu duas corridas, apareceu bem em outras e terminou em 13º com o fraco carro da Trident. Neste ano, corre pela Coloni, que é melhorzinha, e poderá surpreender. Precisa apenas aprender a não se suicidar em Spa-Francorchamps: dois acidentes gravíssimos nas corridas de 2009 e 2011 quase acabaram com sua carreira.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Baixas. Se depender da Red Bull, não chegará a lugar algum. Precisará de muito dinheiro e de uma temporada excepcional na GP2.

Amanhã, a segunda parte.

Luca Filippi, vice-campeão e grande nome da GP2 nas últimas etapas

Para ler a primeira parte, clicar aqui.

Segunda parte da retrospectiva da temporada 2011 da GP2 Series. Ontem apresentei um panorama geral da categoria e também as quatro melhores equipes da temporada. Se possível, falo hoje de todas que restam. Vejo o que vai acontecer. É, não deu. Falo das equipes que ficaram entre a quinta e a nona posição na tabela final.

A primeira do resto é a grande, rica, poderosa e desejada ART Grand Prix. Nesse ano, ela parecia ter montado talvez a melhor dupla de sua história. Seu primeiro piloto, Jules Bianchi, é simplesmente a maior aposta a médio prazo da Scuderia Ferrari e tem um dos currículos mais interessantes de todo o grid. O segundo piloto, Esteban Gutierrez, foi campeão da Fórmula BMW na Europa e da GP3 e era, de longe, o estreante mais interessante da temporada. Tudo indicava uma temporada inesquecível. No fim, nada disso aconteceu. Muito pelo contrário, na verdade: a ART acabou tendo sua pior temporada de todas. De positivo, só a bela pintura verde e amarela, fruto da patética discórdia entre Lotus Cars e Team Lotus.

Bianchi foi uma das grandes decepções da temporada. Se você considerar apenas o resultado numérico, nem terá tanto para criticar, já que ele terminou em terceiro e fez uma baciada de pontos na segunda metade do campeonato. Velocidade e arrojo nunca foram problemas para o francês. O problema maior foi sua gigantesca propensão para arranjar confusões e cometer erros idiotas. Comento aqui apenas os principais: colisão com Romain Grosjean em Istambul, acidente com Giedo van der Garde na largada da segunda corrida espanhola, acidente com o mesmo Van der Garde em Mônaco, acidente com Marcus Ericsson na largada da primeira corrida de Valência e escapada nas últimas voltas de Nürburgring.

Vai lá saber quantos pontos não foram desperdiçados por Jules nesses dias. Pelo menos, ele conseguiu fazer algumas boas corridas de recuperação, como as Sprint Race de Valência e Spa-Francorchamps. O destaque maior, no entanto, vai para a belíssima disputa com Christian Vietoris durante várias voltas na primeira corrida de Silverstone. Bianchi se deu melhor e acabou ganhando a corrida, sendo esta sua única vitória na GP2 europeia até hoje. Se o garoto prodígio da Ferrari repetisse esta atuação mais algumas vezes, teria sérias dúvidas em apontar um favoritismo para Romain Grosjean neste ano.

Esteban Gutierrez foi outro que decepcionou demais, talvez até mais que o companheiro. Deve ter algo a ver com o fato de eu ter torcido por ele no início do ano. Nem digo que seu maior problema tenha sido os erros, que aconteceram em razoável número (Michael Herck, tocado por ele nas duas corridas de Barcelona, que o diga), mas sim uma incômoda e inesperada falta de velocidade, especialmente nas corridas. Seus únicos resultados positivos foram a vitória na segunda corrida de Valência, herdada após o erro de Josef Kral, e o segundo lugar na segunda corrida de Hungaroring. Seria ele um especialista em pistas mais travadas? Se for, é bom ele começar a se especializar também nas demais pistas. Caso contrário, sua bela carreira poderá ter sérios problemas de continuidade. Dizer que ele foi o melhor estreante do ano é ridículo, considerando o nível de seus contemporâneos.

Jules Bianchi: terceiro lugar amargo para quem deveria ter peitado Grosjean na briga pelo título

E a equipe do brasileiro Luiz Razia? Essa deu o que falar, até. Nas primeiras corridas da temporada, seu nome era Team Air Asia, bastante corporativo e sem-graça. A aquisição da Caterham por parte do dono Tony Fernandes fez com que a designação da equipe fosse ampliada para Caterham Team Air Asia, ligeiramente mais simpático. A pintura também mudou no decorrer do ano: no início, os carros número 26 e 27 tinham um inexpressivo layout vermelho e branco. Em julho, pouco antes da rodada de Hockenheim, a Air Asia anunciou que o carro teria as mesmas cores da Team Lotus, verde e amarelo. O problema é que os carros da ART também carregavam estas cores e o que vimos nas últimas etapas foram quatro carros verdes. Acompanhar as duas equipes confundia bastante meus já confusos neurônios.

Assim como a Lotus na Fórmula 1, a Air Asia decidiu ser bastante conservadora e apostou em dois pilotos experientes. O problema é que nenhum deles conseguiu trazer grandes resultados para a equipe. Falemos primeiro de Davide Valsecchi, claramente o mais bem-sucedido da dupla. O italiano começou o ano a todo vapor, marcando pontos em seis das oito primeiras corridas e saindo de Valência na terceira posição do campeonato, apenas quatro pontos atrás do líder Grosjean. Os destaques ficam para o terceiro lugar na primeira corrida de Valência e uma vitória de ponta a ponta na primeira corrida monegasca, talvez a melhor atuação de Valsecchi em sua longa carreira na GP2.

O problema é que, de Valência para frente, Valsecchi não marcou mais nenhum pontinho. Foram dez corridas obscuras, nas quais os melhores resultados foram dois décimos lugares e a melhor posição no grid foi um discreto 12º. Um final de temporada terrível para quem já está em sua temporada e precisa, mais do que nunca, de bons resultados para justificar uma subida para a Fórmula 1.

E o Razia? Olhando para ele hoje, o que dá para dizer? Que sua terceira temporada na GP2 foi ruim, não há como discordar. Que o companheiro Valsecchi, mesmo tendo um péssimo final de temporada, conseguiu terminar bem à frente, os números não nos deixam mentir. Então, qual foi o problema? Teria sido o carro? Vendo como seu combativo companheiro italiano dirigia de modo agressivo e parecia extrair o máximo do Dallara, tenho lá minhas dúvidas se o bólido da Air Asia era tão ruim assim. A má sorte se manifestou com força? Pode ser, já que o baiano não me parece ser o piloto mais sortudo do grid. O fato é que 2011 não foi um bom ano para Luiz Razia e isso certamente não o ajudará muito em sua escalada rumo à Fórmula 1.

Luiz Razia: ano fraco em uma equipe que teve bons e maus momentos

Razia marcou 19 pontos em quatro corridas e terminou a temporada em décimo segundo, atrás de gente que pilotava carros teoricamente piores (Stefano Coletti, Dani Clos e Christian Vietoris, por exemplo). Sua grande atuação, de longe, ocorreu na primeira corrida de Hungaroring: Razia marcou a pole-position, única de sua equipe no ano, e terminou em terceiro. Mas quem viu sua prova chegou a ficar irritado com sua má largada e com a facilidade com a qual os adversários o ultrapassavam. Em uma pista como Hungaroring, na qual quem larga na pole tem grandes chances de vencer e as ultrapassagens são dificílimas, não dá para bater palmas para o cara após este resultado. E o chato é que as outras corridas foram ainda mais discretas – várias prejudicadas por erros, outras por problemas mecânicos ou acidentes causados por outrem. A verdade é que ele precisa se benzer. Em Salvador, conheci um terreiro de umbanda lá perto do Pelourinho. Se quiser, passo o endereço.

Atrás da Air Asia, temos a felicíssima Scuderia Coloni. Esta daqui tirou a sorte grande com um de seus quatro pilotos. Os outros três não merecem muitos comentários. Davide Rigon, coitado, estourou a fíbula e a tíbia após ter sido empurrado para o muro da reta dos boxes de Istambul pelo idiota do Julián Leal. O bicampeão da Superleague acabou perdendo o restante da temporada. Seu primeiro substituto foi Kevin Ceccon, que estreou na GP2 com apenas 17 anos de idade, sendo o mais jovem da história da categoria. Muito inexperiente, teve enormes dificuldades e preferiu se concentrar apenas na AutoGP, categoria vencida por ele neste ano. O primeiro carro foi ocupado por Michael Herck, filho do novo dono da equipe, que marcou apenas um ponto e, se não errou tanto, também não demonstrou aquela evolução que vinha sendo apresentada nos tempos da DPR. Quem merece ser mencionado aqui é Luca Filippi.

Após a etapa de Silverstone, o italiano, que vinha pilotando pela Super Nova Racing, tinha apenas nove pontos e ocupava uma distante 13ª colocação na tabela de pilotos. Aí, a Super Nova arranjou um patrocinador que exigiu a entrada de Adam Carroll no lugar de Filippi. Feito isso, Luca foi atrás da Coloni, que precisava de um substituto para Ceccon para a etapa de Nürburgring. Era uma parceria despretensiosa, na qual a equipe só precisava de alguém que ajudasse a acertar o carro e o piloto só precisava de um lugar para continuar correndo na GP2. Mas qual!

Em apenas oito etapas, Filippi venceu nada menos que três corridas e marcou 45 pontos, tendo seu contrato renovado etapa a etapa. Ninguém marcou mais pontos do que ele nesse período, nem mesmo o campeão Grosjean. Em Nürburgring, o italiano ganhou sua centésima corrida na categoria após tomar a liderança de Charles Pic nos pits. Em Spa-Francorchamps, Filippi tomou a liderança das mãos de Josef Kral. Em Monza, ele assumiu a ponta logo na primeira curva e não saiu mais de lá. Sem cometer erros, sempre seguro e muito veloz, Luca saltou da 13ª posição para um belíssimo vice-campeonato. Agora, sim, ele merece a Fórmula 1.

Stefano Coletti, uma grata surpresa lá no meio do pelotão

Outra equipe que deve muito a um piloto em especial é a Trident. O primeiro piloto, o venezuelano Rodolfo Gonzalez, só serviu para transferir os muitos dólares da PDVSA para a pequena escuderia. Gonzalez participou de todas as corridas e, se não cometeu os mesmos erros do ano passado, também não andou rápido em momento algum e não marcou pontos. Portanto, todos os 22 pontos da equipe foram marcados pelo monegasco Stefano Coletti, uma grata surpresa desta temporada 2011.

Coletti inicou a temporada europeia da GP2 embalado pelo quarto lugar obtido na temporada asiática. Logo na segunda corrida de Istambul, ele fez uma excelente ultrapassagem sobre Dani Clos e obteve a primeira de suas duas vitórias na temporada. A segunda, igualmente batalhada, foi obtida na segunda corrida de Hungaroring, realizada em pista molhada. Mesmo que ele não tenha aparecido em boa parte das etapas, Stefano fez muito para alguém que era o segundo piloto da Trident. O chato foi ter se acidentado violentamente em Spa-Francorchamps – assim como há dois anos -, o que abriu um lugar para o compatriota Stéphane Richelmi em Monza. Sem experiência, Richelmi não conseguiu fazer muita coisa.

Nona colocada entre os construtores, a Super Nova Racing passou por mais um ano de pesadelos. Para quem acompanhava a antiga Fórmula 3000, a decadência soa ainda mais triste: foi por esta equipe que gente como Vincenzo Sospiri, Ricardo Zonta, Juan Pablo Montoya e Sébastien Bourdais foram campeões. Hoje em dia, ela não passa de uma equipe média que tem sérias dificuldades de sair do fim do pelotão. E não dá para acusar seus pilotos de falta de experiência, por exemplo. A dupla Fairuz Fauzy e Adam Carroll, por exemplo, tem média de idade de 29 anos. Na Fórmula 1, apenas cinco equipes tem duplas com média de idade maior!

Fauzy continuou sendo o piloto lento e desastrado que sempre foi. Dessa vez, ele até conseguiu marcar cinco pontinhos em três corridas. Foram seus primeiros pontos na GP2 europeia, o que prova que até mesmo gente como ele consegue evoluir. O outro carro foi pilotado por Luca Filippi, que só teve tristeza enquanto correu por lá, e por Adam Carroll, que não conseguiu fazer o Dallara azul e amarelo subir alguns patamares. Pelo menos, o italiano marcou nove pontos e o irlandês anotou outros seis. Desse jeito, não dá para ver muito futuro para a Super Nova.

Amanhã, a última parte. As quatro últimas equipes e um ou outro comentário adicional.

Cena comum em 2010

Oba, um texto sobre a GP2! Pois é, pequenos gafanhotos. Nos próximos dois dias, o Bandeira Verde só falará sobre a categoria mais legal do mundo nos dias atuais. Há quem ache uma tremenda forçada de barra dizer que a GP2 é tão legal assim. Mas ela é, embora já tenha tido dias mais interessantes.

O calcanhar de Aquiles da categoria, atualmente, é o carro. A atual geração do Dallara-Renault, que começou a ser utilizada em 2008 e que felizmente foi abandonada após os últimos testes em Abu Dhabi, não conseguiu permitir que os pilotos tivessem o mesmo nível de disputas como tinham com os carros da geração antiga. Dizem que o que mais pega é a questão do efeito solo, que foi quase suprimido com a introdução de um fundo 100% plano no Dallara atual. O antigo, com fundos curvados, gerava efeito solo o suficiente para garantir a aderência necessária na hora de se pensar em uma ultrapassagem. Se a próxima geração do chassi, a ser utilizada entre 2011 e 2013, terá o tal fundo curvado? Mistério, mistério.

O caso é que o novo carro ficará muito parecido com a nova especificação da Fórmula 1, que exige carros com asas dianteiras mais largas e asas traseiras estreitas. Receio que essa conexão cada vez mais paulatina com a Fórmula 1 possa, a médio prazo, até matar a GP2. As equipes, que serão 13 no ano que vem, estão reclamando dos altíssimos custos, que ficaram ainda maiores após a troca de carros. E o pior é que o aumento será repassado aos pilotos. Nesse ano, a ART chegou a cobrar absurdos 2 milhões de dólares para correr em um de seus valiosos caros. É verdade que correr na ART é o máximo, mas 2 milhões para uma categoria-base é inaceitável. E a situação ficará ainda pior. Há estimativas que dizem que, em 2011, correr na GP2 poderá custar até 2,5 milhões de dólares. Quem vai pagar tudo isso pra competir em um campeonato que, sejamos honestos, só eu e mais uns 16 dão importância? Por causa disso, aposto: 2011 será o ano de aberrações como Rodolfo Gonzalez na iSport e Josef Kral na Addax.

Se o futuro parece nebuloso, falemos do presente e do pretérito perfeito. 2010 foi um ano bom, nada além disso. Campeão e vice, o venezuelano Pastor Maldonado e o mexicano Sergio Perez, fizeram uma temporada impecável e foram, de longe, os dois melhores pilotos do ano. Sergio Perez já arranjou um lugarzinho na Sauber para o ano que vem, e Maldonado deverá ser confirmado como companheiro de Rubens Barrichello na Williams nas próximas semanas. A ascensão é merecida. Juntos, os dois ganharam onze das vinte corridas. Se parece ter faltado adversários para entrar aí na briga, por outro lado não há como creditar um mérito extra aos dois por terem dominado um campeonato com carros teoricamente iguais.

Sam Bird, um dos destaques

Começamos pelos dois, portanto. Pastor Maldonado deve ter sido um dos pilotos mais mencionados nesse site nos últimos meses. O venezuelano, que fez sua quarta temporada, conseguiu a proeza de vencer seis Feature Races, aquelas de sábado, consecutivas. Em Istambul, Silverstone, Hockenheim e Hungaroring, ele foi simplesmente imperial e não teve adversários. Em Valência, ultrapassou Jules Bianchi em duas ocasiões e Perez para assumir a ponta. Em Spa-Francorchamps, aproveitou-se do abandono de Jerôme D’Ambrosio e ainda conseguiu suportar a pressão de Álvaro Parente na última volta. É verdade que, apesar do ano impecável, o sempre agressivo piloto da Rapax não podia deixar de cometer seus erros. O maior deles ocorreu em Monza, quando Maldonado bateu com tudo no DAMS de Romain Grosjean ainda no comecinho da prova.

Sergio Perez foi considerado, por muitos, o melhor piloto do ano. Os que compartilham da opinião pensam que Maldonado só dominou porque tinha quatro anos de experiência. Perez, por outro lado, estava em sua segunda temporada, sendo a primeira em uma equipe grande. Venceu duas corridas Feature e três Sprint, aquelas menores de domingo. Poderia ter vencido mais, como a corrida de sábado de Barcelona, que foi jogada no lixo após um mau trabalho de sua equipe, a Addax, nos pits. O destaque maior vai para a segunda corrida de Silverstone, na qual ele ultrapassou três pilotos e venceu com maestria. Agressivo, inteligente, confiante e pouco propenso a erros, o mexicano mostrou que está pronto para a Fórmula 1.

E o restante da galera? A categoria teve outros trinta pilotos que fizeram de tudo e mais um pouco para conter o domínio dos hispanohablantes da América Latina. Vou comentar sobre as equipes e acabo comentando sobre todos esses pilotos. E falo dos dois brasileiros por último.

Começo falando da Addax. Como o brilhante ano de Sergio Perez já foi apresentado acima, só me resta falar de seu companheiro, o superestimado Giedo van der Garde. Sétimo colocado no campeonato, o holandês, enteado de um dos homens mais ricos de seu país, teve apenas algumas poucas atuações de brilho, como os três terceiros lugares nas corridas dominicais de Mônaco, Valência e Spa-Francorchamps. O estilo agressivo de pilotagem apresentado no ótimo 2009, quando ele venceu três corridas pela iSport, parece ter ficado para trás. Com 25 anos e competindo em monopostos há bastante tempo, VDG já não tem mais o que fazer em categorias de base. Pleiteia um lugar na Fórmula 1 para o ano que vem.

Davide Valsecchi, uma das decepções

E a ART, hein? A equipe rica e bonitona do Nicolas Todt se deu ao luxo de meter a faca em seus dois pilotos, Jules Bianchi e Sam Bird, tirando quase 2 milhões de dólares de cada um deles. O francesinho se garantiu como o primeiro piloto porque tem apoio direto da Ferrari por trás. Restou a Bird, que tem patrocinadores razoáveis, entrar como o segundo piloto, esperando colher apenas os restos deixados por Jules. Mas por incrível que pareça, Bianchi decepcionou um bocado e Bird surpreendeu positivamente. A única vitória da equipe aconteceu em Monza, exatamente com o subestimado inglês. Além disso, Sam chamou a atenção com duas belas ultrapassagens na segunda corrida de Monza. Enquanto isso, Bianchi até fez três poles, mas não venceu nenhuma corrida. E ainda se envolveu em acidentes imbecis, como os de Istambul e Barcelona. Curiosamente, a vítima em ambos foi Charles Pic. Já Bird sofreu como azares de todo tipo. Ano infeliz para a ART, que já confirmou Esteban Gutierrez para 2011 e deverá continuar com Bianchi no outro carro.

Os oriundos da Fórmula 3 europeia sofreram bastante, e não foi só Bianchi que acabou decepcionando. Na Racing Engineering, todo mundo começou o ano depositando todas as fichas em Christian Vietoris, vice-campeão da F3 em 2009 e ex-protegido da BMW. O espanhol Dani Clos, o outro piloto, era só o mauricinho que levava a grana que faz a equipe funcionar e que só o eterno otimista Alfonso de Orleans e Bourbon acreditava. Mas assim como na ART, as coisas se inverteram na Racing. Dani Clos foi uma das sensações do campeonato ao fazer um início de campeonato excelente, chegando a peitar Maldonado e Perez na pontuação.  Os destaques ficam para a pole-position em Mônaco e para a vitória de ponta a ponta na segunda corrida de Istambul. Apesar da queda de rendimento após a rodada de Silverstone, Dani conseguiu terminar o ano em quarto, algo inacreditável. E Vietoris? Teve muitos azares, mas também não conseguiu andar próximo de Clos em boa parte da temporada. Ao menos, fez uma ótima Sprint Race em Monza e conseguiu sua única vitória no ano. 2011 será um ano decisivo para “Fítorris”: ou vai ou racha. Apoiado pela Gravity, ele sabe que tem muita gente na empresa que está em posição melhor do que ele para subir para a Fórmula 1.

A iSport, uma das minhas equipes favoritas na categoria, teve outro ano como aquela típica equipe que sempre está lá na frente e que ganha umas duas ou três corridas por ano, mas que não consegue chegar com fôlego pra brigar pelo título na reta final. Ao menos, a pintura do carro, branca com quadrados vermelhos e azuis, ficou ótima. Cortesia da Racing Steps Foundation, empresa de gerenciamento esportivo que apoiou o inglês Oliver Turvey, um dos destaques do campeonato. Sexto colocado na pontuação, Turvey não venceu nenhuma, mas teve ótimas atuações e conseguiu alguns pódios. Sua melhor corrida foi a primeira de Abu Dhabi: pole-position e segundo lugar, após perder a ponta para um impecável Perez. Oliver conseguiu convencer mais do que seu companheiro Davide Valsecchi, que também fez uma pole e até venceu a segunda corrida de Abu Dhabi. Mas Valsecchi está em seu terceiro ano na GP2 e parece não sair daquela condição de piloto mediano que anda bem de vez em quando e comete mais erros do que o aceitável. Oitavo lugar minguado na classificação final para o italiano.

Amanhã, a segunda parte.

YELMER BUURMAN (FORCE INDIA)

É holandês e nasceu em 19 de fevereiro de 1987.

Sujeito de nome esquisito (pronuncia-se o sobrenome como “Birman”), Buurman é um desses pilotos esquecidos pela mídia, pelos torcedores e pelo destino. Experiente, já passou pela Fórmula 3 Inglesa, pela GP2, pela GP2 Asia e pela Fórmula 3 Européia. Em todos esses campeonatos, ficou conhecido pela extrema perspicácia na chuva e pela irregularidade nos resultados. Nos últimos anos, competiu por Anderlecht e Milan na Superleague e se destacou como um dos melhores pilotos do campeonato. Ainda assim, não quer ser deixado de lado pela Fórmula 1 e, por isso, foi a Abu Dhabi testar pela equipe indiana.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Baixíssimas. Longe de ser o mais endinheirado dos holandeses, se estabeleceu na Superleague porque é a melhor opção, fora da Fórmula 1, para viver das corridas. Além disso, não tem amizades ou parcerias com empresas. E não é nenhum gênio. Assim, fica difícil.

ANTÔNIO FÉLIX DA COSTA (FORCE INDIA)

É português e nasceu em 31 de agosto de 1991.

Quando o piloto português nasceu, Michael Schumacher já era um piloto de Fórmula 1. Mesmo que o velho alemão esteja fazendo hora extra, o fato acima é um bom indicativo da pouca idade de Félix da Costa, que completou 19 anos há poucos meses. Sua carreira é curta, mas marcante. Logo em seu ano de estreia nos monopostos, 2008, o lusitano conseguiu o vice-campeonato na Fórmula Renault norte-europeia. No ano seguinte, ganhou este campeonato e ainda terminou em terceiro no europeu da categoria. Nesse ano, fez sua estreia na Fórmula 3 Europeia e, mesmo dirigindo o pior carro do grid, ganhou três corridas. É muito arrojado, mas ainda meio imaturo e trapalhão. Já tem contrato assinado com a Ocean para correr na GP2.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Médias. Antônio Félix da Costa ainda é bastante novo e pode perder mais uns três anos em categorias de base. Seu talento é dos maiores. Ainda assim, as coisas podem ficar dificultadas se ele não arranjar muito dinheiro ou uma parceria com uma empresa. Seu ano de estreia na GP2 será decisivo.

SERGIO PEREZ (SAUBER)

É mexicano e nasceu em 26 de dezembro de 1989.

De todos os pilotos que testaram, Perez é o único com contrato assinado para correr na Fórmula 1 em 2011. O mexicano, vice-campeão da GP2 com impressionantes cinco vitórias, será o segundo piloto da Sauber. É o primeiro piloto do país a correr na Fórmula 1 desde Hector Rebaque há quase 30 anos. E quem viu “Checo” correndo na GP2 nos últimos dois anos concorda com a contratação. O baixinho é extremamente veloz e arrojado, além de errar muito pouco. Além do vice-campeonato da GP2, ele foi campeão do National Cup da Fórmula 3 Inglesa em 2007 e quarto colocado do campeonato principal em 2008.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Contratado pela Sauber para correr em 2011. Sobre seu futuro na categoria, só o tempo dirá. Mas o cara é bom o suficiente para crescer muito.

ESTEBAN GUTIERREZ (SAUBER)

É mexicano e nasceu em 5 de agosto de 1991.

O México vive grande fase no automobilismo. Além do vice-campeonato de Sergio Perez na GP2, o país celebrou o título de Esteban Gutierrez na GP3, a nova categoria de Bernie Ecclestone. Quando você olha para o cara, magrelo e de aparência até meio sofrida, fica com pena, mas pena é exatamente o que ele não sente pelos seus adversários. Além do título da GP3, Gutierrez foi campeão da Fórmula BMW Européia em 2008 e vice-campeão da Fórmula BMW americana no ano anterior. Em 2011, será o primeiro piloto da poderosa ART na GP2. Ao meu ver, é até mais promissor do que o próprio Perez.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Altíssimas. Esteban Gutierrez é o atual piloto de testes da Sauber e a equipe o adora. Além de extremamente talentoso, o cara é um dos astros da Escudería Telmex, um projeto liderado pela empresa de Carlos Slim que congrega várias outras visando apoiar jovens talentos do México. Com muito dinheiro, talento e amigos nos lugares certos, é impossível não enxerga-lo na Fórmula 1 até mesmo em 2012.

JEAN-ERIC VERGNE (TORO ROSSO)

É francês e nasceu em 25 de abril de 1990.

Depois de várias decepções, a França deposita a maior parte das suas fichas em Jean-Eric Vergne, o atual campeão da Fórmula 3 Inglesa. Campeão, na verdade, é um eufemismo para a temporada massacrante que ele fez neste ano: ganhou 19 das 30 corridas disputadas e fez quase 100 pontos a mais que o vice-campeão. De quebra, fez algumas poucas corridas na World Series by Renault, ganhou uma etapa e conseguiu terminar em 8º. Além disso, foi campeão de Fórmula Campus em 2007 e vice-campeão europeu de Fórmula Renault no ano passado. Sua maior desvantagem: o fato de ter aparecido depois de Daniel Ricciardo, que está à sua frente na lista de prioridades da Red Bull.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Altíssimas. Afinal de contas, todo mundo quer ver um francês na Fórmula 1. E Jean-Eric Vergne parece ser o cara. Ficará mais um ano na World Series e, se tudo der certo, a Toro Rosso o espera para 2012.

VLADIMIR ARABADZHIEV (LOTUS)

É búlgaro e nasceu em 26 de março de 1984.

Não há muito o que se dizer sobre Arabadzhiev, tirando talvez o fato de ser o primeiro piloto de seu país a andar em um Fórmula 1 (confere, Rianov?). Piloto medíocre, fez uma temporada quase completa na GP2 pela Coloni nesse ano e terminou zerado, além de ter mandado uma série de carros ao ferro-velho. Seus maiores feitos foram algumas vitórias na Fórmula Master Italiana, uma única vitória na Fórmula Master principal e outra na AutoGP. Só chegou ao patamar que chegou porque tem muita grana, é óbvio.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Baixas. Vladimir Arabadzhiev, definitivamente, não é do ramo e todos sabem disso. Mas tem o dinheiro que falta a muita gente. Numa dessas, quem sabe…

RODOLFO GONZALEZ (LOTUS)

É venezuelano e nasceu em 14 de maio de 1986.

Assim como seu companheiro, é outro zé-ruela. Com o sempre polpudo apoio da PDVSA, pagou 500 mil dólares para se divertir no carro da Lotus por alguns dias. E é só por esse motivo que Rodolfo Gonzalez conseguiu chegar perto de um carro de Fórmula 1, já que sua carreira é pífia. Seu único título foi o duvidoso National Cup da Fórmula 3 Inglesa em 2006, disputado pelos quatro ou cinco pilotos que correm com carros defasados. Fora isso, ele só conseguiu vencer uma única corrida de verdade na vida, uma prova da Euro 3000 com cerca de dez carros no grid. O dinheiro manda.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Baixas. E o mesmo dito sobre Arabadzhiev vale para ele.

DAVIDE VALSECCHI (HISPANIA)

É italiano e nasceu em 24 de janeiro de 1987.

A Itália anda em uma fase tão ruim no automobilismo que até mesmo um sujeito de capacidades limitadas como Davide Valsecchi acaba sendo considerado promissor. Posso estar sendo muito maledicente com ele, que venceu a GP2 asiática no início do ano, mas a verdade é que Davide nunca conseguiu fazer muito mais do que isso na carreira. Em três temporadas de GP2, uma e meia em equipes grandes, apenas duas vitórias. Antes da GP2, o retrospecto é ainda mais nebuloso: muita experiência em vários campeonatos e poucos resultados concretos. Mas reconheço que há uma curva de crescimento lenta e ascendente. Quem sabe daqui a uns 10 anos…

CHANCES NA FÓRMULA 1: Médias. Na verdade, eu diria que elas são baixíssimas. Mas Davide Valsecchi tem dinheiro. E como o dinheiro compra tudo na Fórmula 1…

JOSEF KRAL (HISPANIA)

É checo e nasceu em 15 de junho de 1990.

Até o final do ano passado, nunca tinha ouvido falar desse cidadão, que tem como pontos altos na carreira um 3º lugar na Fórmula Master em 2009 e um vice-campeonato na Fórmula BMW inglesa em 2007. Quando a Supernova anunciou sua contratação para os campeonatos europeu e asiático da GP2 em 2010, muitos que o conheciam minimamente torceram o nariz. Afinal, Josef Kral é o típico filhinho de papai. Nesse ano, só chamou a atenção quando se envolveu nesse violento acidente em Valência. O teste na Hispania só ocorreu porque Kral e seus patrocinadores pagaram 300 mil dólares pela brincadeira. Ponto positivo? Ele é estudante de Economia na Universidade de Praga. Logo, é dos meus.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Baixíssimas. Tem dinheiro para um teste, mas não tenho muita certeza sobre algo além disso. No mais, não tem experiência, não tem apoio importante e, ao que parece, também não tem muito talento natural.

LUIZ RAZIA (VIRGIN)

É brasileiro e nasceu em 4 de janeiro de 1989.

Único representante do Brasil varonil nos testes em Abu Dhabi, Luiz Razia periga ser, igualmente, o único piloto apto a subir para a Fórmula 1 a curto prazo. Para nossa sorte, Razia é um piloto talentoso e promissor. Em seu currículo, constam um título fácil na Fórmula 3 sul-americana em 2006 e ótimas passagens na Euro 3000. Está na GP2 há duas temporadas e penou com uma equipe ruim na primeira delas e com o desempenho avassalador de seu companheiro na segunda. Ainda assim, a Virgin acredita em seu potencial e o manteve como terceiro piloto durante boa parte do ano. Sua especialidade é correr na chuva.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Baixas. Infelizmente, parece faltar um apoio realmente forte a Luiz Razia. A Virgin está conversando com vários pilotos para 2011 e Razia não parece estar sendo considerado. O negócio seria tentar a GP2 por mais um ano e ver no que dá.

RIO HARYANTO (VIRGIN)

É indonésio e nasceu em 22 de janeiro de 1993.

Aos 17 anos, é o piloto mais novo a testar em Abu Dhabi. Você pode até olhar torto para o pivete por ele ser indonésio. Pois recomendo que engula seu preconceito. Rio Haryanto é considerado atualmente o piloto mais promissor da Ásia. Logo em seu ano de estréia, 2008, ele conseguiu um notável 6º lugar no campeonato asiático de Fórmula Renault. No ano seguinte, pintou e bordou na Fórmula BMW do Pacífico. Como prêmio, acabou ganhando uma vaga na Manor para correr na GP3. Muitos acreditavam em seu fracasso, mas não é que o infante consegue bater seus dois companheiros e terminar em um surpreendente 5º lugar? Alô, Lotus e companhia. Se querem investir em um cara bom do sudeste asiático, é nele que vocês devem mirar, e não em Fairuz Fauzy.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Médias. Por ser do sudeste asiático, pode acabar despertando a simpatia da Fórmula 1. Mas como tem apenas 17 anos, ainda precisa comer muito arroz e feijão nas categorias de base. É piloto para daqui a três ou quatro anos.

O saltimbanco Davide Valsecchi vencendo seu primeiro campeonato na vida

Hoje cedo, o terceiro campeonato da GP2 asiática definiu seu campeão. Em Sakhir, o italiano Davide Valsecchi venceu a 1ª corrida do fim de semana e o título. É a terceira vitória dele no campeonato.

O campeonato é composto por, acreditem, apenas quatro fins de semana de corridas, dois em Abu Dhabi e dois em Sakhir. Asiática, portanto, é modo de falar: se o campeonato fosse chamado “GP2 Allah”, não faria diferença alguma. Essa corrida de hoje é a quinta corrida do campeonato. É o que você leu: o campeão foi definido com apenas cinco corridas.

Carros antigos, ausência de patrocinadores, pilotos ruins, pistas tenebrosas no meio do deserto e horários bizarros: essa é a GP2 feita para árabe assistir. Pelo menos, as corridas estavam boas, mesmo em Abu Dhabi. Mas mesmo assim, o campeonato é uma merda e, felizmente, será o último. Sua criação só seu deu porque Bernie Ecclestone queria sufocar a A1 GP. Objetivo cumprido, o campeonato abençoado por Alá não serve para mais nada.