Qual será o futuro da Lotus? E como Kimi Räikkönen terminará a temporada?

Qual será o futuro da Lotus? E como Kimi Räikkönen terminará a temporada?

Se jogar uma lona, vira circo. É piloto que ameaça deixar de correr por causa de salário atrasado. É piloto que assina contrato que não vale nada. É piloto talentoso tomando portada na cara de tudo quanto é escuderia. É piloto picareta chamando a atenção das equipes médias por motivações fundamentalmente monetárias. É piloto deixando de testar na GP2 por vontade própria. Na Fórmula 1 de hoje, quem não se garantiu com um contrato seguro e recheado de cláusulas pétreas, dançou.

Vocês sabem bem o que significa a expressão silly season. A tradução literal “temporada boba” não quer dizer rigorosamente nada por si só. Silly season foi um negócio inventado por jornalistas ingleses para descrever aquele momento do ano em que o mercado de pilotos e equipes está no auge da agitação e os boatos correm à boca solta. Por que silly? Vai lá saber. Pergunte ao bobo que inventou esse negócio.

Depois de três anos em que pouco de interessante aconteceu em relação a trocas de pilotos, o circo da Fórmula 1 voltou a pegar ffffffooooooogo com um turbilhão de notícias, boatos, fofocas e invenções. A categoria passará por uma mudança técnica radical em 2014, os motores turbinados voltarão à categoria após um jubileu de prata e estima-se que os custos advindos das novidades poderão subir em até 20 milhões de euros.

Mais 20 milhões de euros na conta. Isso significa que a coitada da Marussia teria de aumentar cerca de 35% de seu orçamento. A Caterham teria de arranjar mais uns 30% sabe-se lá de onde. Lotus e Williams, que não fazem a menor ideia do que virá no futuro, serão obrigadas a expandir seus recursos em 15%. Como toda essa gente vai descolar mais vintão do nada?

É uma pergunta amarga. Dinheiro não dá em árvores. 20 milhões de euros é coisa pra cacete. Apenas para situá-los, a Minardi gastou, em termos de valores atuais, cerca de 8,2 milhões de euros em 1989 para comandar uma razoável escuderia de dois carros. Com essa bagatela, Pierluigi Martini e Luis Perez-Sala obtiveram dois quintos e dois sextos lugares, resultados que credenciavam a equipe como uma sólida participante do meio do pelotão.

Com 20 milhões de euros, você poderia operar uma equipe de ponta na NASCAR Sprint Cup durante uma temporada com alguma tranquilidade, embora já haja quem gaste mais do que isso lá nos States.  Ou financiar até duas escuderias de ponta da IndyCar Series. Ou custear nada menos do que dez equipes da GP2. Ou pagar três meses de cerveja, vinho e batata frita para mim. Olhando para tudo isso, você percebe o quão inglório e até patético é o esforço de sobrevivência de Marussia e Caterham. Com a cachoeira de euros que despejam em carroças sem futuro, as duas equipes poderiam estar chutando bundas em qualquer outro campeonato de ponta no mundo.

Mas a Fórmula 1 é assim mesmo e se o povo continua lhe dando toda a moral, é porque atrativos há. O problema é que poucos conseguem participar da brincadeira com alguma dignidade. Red Bull, Mercedes, Ferrari e Toro Rosso já confirmaram suas duplas para 2014 – três delas virão com novidades interessantes. As outras seis equipes ainda estão no varejão disputando a tapa os poucos legumes que prestam.

Como de costume, há muito mais pilotos do que vagas disponíveis. Tudo bem, a Fórmula 1 sempre foi assim, mas a situação nunca esteve tão preta justamente por conta da escassez de grana que força as equipes a apelarem para os nomes mais abastados, e não necessariamente mais talentosos, do mercado. Complicado é que, em alguns casos, nem mesmo esses estão conseguindo espaço. A Fórmula 1 virou uma feira da fruta onde assalariados e pagantes estão guerreando pelos poucos espaços à sombra.

Vamos às histórias:

Fabio Leimer, mais um campeão da GP2 a ver navios?

Fabio Leimer, mais um campeão da GP2 a ver navios?

CAMPEÃO, RICO E SEM VAGA – No último fim de semana, o suíço Fabio Leimer se tornou o nono campeão da história da GP2 Series. Ganhou o caneco após uma temporada bem esquisita: foram três vitórias austeras em Sepang, em Sakhir e em Monza, quatro terceiros lugares e uma série de resultados discretos. Sempre muito veloz, muito irregular e razoavelmente azarado, Leimer chegou a ficar cinco corridas consecutivas sem pontuar. Despertou a partir da rodada de Nürburgring, onde iniciou uma série de doze provas consecutivas na zona de pontos.

Muitos torcem o nariz pelo fato de Fabio ter sido o campeão após quatro longos anos na GP2. Sejamos razoáveis. O suíço é um piloto talentoso que surrou a concorrência na Fórmula Master, onde foi campeão em 2009 após sete vitórias. Na GP2, ficou famoso pelo desempenho sempre forte em treinos oficiais e pela absurda falta de sorte e de constância nas corridas. Pode não ser um novo Senna, mas anda bem e não passa vergonha.

Além dos bons predicados técnicos, Leimer é um cara cheio da grana. Sua família tem como amigo o respeitável Rainer Gantenbein, dono da Bautro AG, uma empresa suíça que desenvolve produtos relacionados ao tratamento do ar e à secagem de água. Fanático por corridas, Gantenbein chegou a afirmar em 2011 que tinha gasto, até então, cerca de 17 milhões de dólares com Leimer. Adicione a esse montante a grana que foi aplicada também nos últimos dois anos e podemos dizer que Fabio custou ao tycoon a módica quantia de 20 milhões de dólares até hoje. Tudo isso por um piloto que ainda nem chegou à Fórmula 1. E provavelmente nem chegará.

Mesmo com currículo e padrinho rico (o próprio Gantenbein afirmou em 2011 que “se a Virgin pedisse cinco milhões de dólares por uma vaga, eu pagaria”), Fabio Leimer não foi citado em nenhum boato até aqui. Aparentemente, nenhuma das equipes parece estar interessada nele. Bizarro, pois seu custo/benefício é um dos melhores do mercado. Caso não encontre uma vaga de titular em 2014, o que me parece provável, Leimer será o melhor exemplo do curioso caso do cara que tem talento e dinheiro e mesmo assim acabou ficando de fora da festa.

O caso de Fabio é bastante semelhante ao de Davide Valsecchi, o italiano que se sagrou campeão da GP2 no ano passado. Podemos obviamente argumentar que Valsecchi não era tão naturalmente talentoso quanto o suíço: ele demorou cinco anos para galgar o troféu, nunca havia demonstrado muito potencial até então e seus resultados nas categorias anteriores foram risíveis. Mesmo assim, o título da GP2 e o pomposo patrocínio da Ediltecnica o credenciavam a uma vaga de titular. Pois o que aconteceu? Davide passou o ano inteiro assistindo às corridas nos boxes da Lotus com um tampão no ouvido e a cara emburrada. Pelo camarote com carrão e amigos famosos, ainda deve ter pagado uma fortuna.

Essa é a Fórmula 1 contemporânea: mesmo que você seja uma mistura de Ayrton Senna com Carlos Slim Helú, suas dificuldades na hora de brigar por uma vaga serão as mesmas de um Max Chilton. O mundo está louco.

E aí, Nico? Vai pra Lotus ou vai ficar coçando o saco em casa?

E aí, Nico? Vai pra Lotus ou vai ficar coçando o saco em casa?

O DILEMA DA LOTUS: Em 2012, a Lotus registrou prejuízo líquido de 91,3 milhões de dólares.  Se te interessa, foi a maior perda anual de uma equipe de Fórmula 1 na história da categoria (lembro-me bem que a BAR anunciou em 2003 um passivo de cerca de 300 milhões de dólares acumulado em quatro anos). Somando esse buraco com as dívidas de anos anteriores, o montante da encrenca chega a 162 milhões de dólares. Se você considerar que o orçamento da equipe comandada por Eric Boullier gira em torno dos 176 milhões anuais, entenderá que a situação é ainda mais preta do que os carros de Kimi Räikkönen e Romain Grosjean.

Pouco antes do GP de Abu Dhabi, o piloto finlandês veio a público para dizer o quanto havia recebido de sua equipe em 2013: “nada”. Laconicamente, Kimi deixou claro a todos que a Lotus lhe devia os 27,4 milhões de dólares referentes ao seu salário anual e até ameaçou não disputar as duas últimas corridas do ano caso a questão trabalhista não fosse resolvida. Ao que parece, o próprio Bernie Ecclestone teve de intervir. O velho asquenaze, apesar de notório pão-duro, costuma tirar do bolso para ajudar as equipes mais necessitadas. Pelo visto, Räikkönen não terá de entrar de férias mais cedo.

A Lotus está esperando sentada pela grana do grupo Quantum Motorsport, um consórcio fundado pelo americano de origem paquistanesa Mansoor Ijaz, pelo emiratense Suhail Al Dhaheri e pela família real de Brunei. A Quantum adquiriu cerca de 35% das ações da equipe com a promessa de quitar dívidas e dar a ela um novo gás após a saída de Räikkönen, já confirmado para correr na Ferrari no ano que vem. O próprio Ijaz já afirmou que o acordo já está selado, mas o dinheiro ainda não entrou. E isso pode afetar inclusive a definição da dupla para 2014.

Com os pódios e as caprichadas atuações em Suzuka e em Yas Marina, Romain Grosjean está praticamente garantido na nau claudicante da Lotus em 2014. Seu companheiro de equipe ainda não foi anunciado. O jornalista Américo Teixeira Jr. cravou que a vaga pertencerá ao venezuelano Pastor Maldonado, que, de fato, já tem um contrato assinado com os aurinegros. A lógica é simples de entender: Maldonado e a grana interminável da PDVSA seriam a solução para o caso de não haver nenhuma Quantum Motorsports na história. A desconfiança fazia todo o sentido.

A revista alemã Der Spiegel insinuou que Mansoor Ijaz, o cabeça da Quantum, não é do tipo que cumpre os acordos previamente combinados.  Em fevereiro de 2012, a Suprema Corte de Nova York reuniu documentos que provavam que Ijaz era o criador e o único funcionário de duas empresas que captavam empréstimos e não os pagava. Após ser processado pelo Banco de Investimento de San Marino, o caloteiro foi obrigado a ressarci-lo em cerca de 1,4 milhão de dólares. Foi aí que seu esquema trambiqueiro foi descoberto.

Mas sua grande estripulia foi o envolvimento no chamado memogate, um escândalo diplomático que ocorreu há dois anos e envolveu Estados Unidos e Paquistão. Na famosa operação que resultou na morte de Osama bin Laden, o governo civil paquistanês obrigou que seus militares abrissem caminho para os americanos. Os militares não gostaram do pedido e seu relacionamento com o governo azedou de vez. Dias depois, o embaixador do Paquistão nos Estados Unidos Husain Haqqani escreveu um memorando destinado ao governo americano pedindo para que os Estados Unidos interviessem no Paquistão para evitar a possibilidade de os militares tomarem o poder. O memorando teria sido concebido pelo próprio presidente do Paquistão e entregue a um funcionário do governo americano por ninguém menos que Mansooh Ijaz. Posteriormente, o próprio Ijaz admitiu o ocorrido em uma coluna no Financial Times. A crise política eclodiu e Haqqani teve de deixar seu cargo. Ijaz, pelo visto, saiu incólume da confusão.

Apesar do perfil polêmico do dono, a Quantum se comprometeu a resolver os problemas financeiros da Lotus e exigiu que o alemão Nico Hülkenberg fosse contratado como colega de equipe de Romain Grosjean. Hülkenberg não tem dinheiro, mas é talentoso pra caramba. Na Fórmula 1, não há uma viva alma que se oponha à sua permanência na categoria. Após ser obrigado a abrir caminho para os rublos de Sergey Sirotkin na Sauber, Nico teve de correr atrás de um carro para 2014. Foi rejeitado pela Ferrari, praticamente não tem chances na McLaren e não tem vaga garantida sequer em suas antigas casas, a Williams e a Force India. A Lotus parece a única possibilidade palpável, mas tudo depende da Quantum. Caso contrário, Maldonado é quem assume o carro.

E assim caminha a humanidade. Curioso é que estamos falando da quarta melhor equipe do campeonato. Sinal de que o mundo está louco.

Max Chilton na Force India. Sim, isso pode virar realidade em 2014

Max Chilton na Force India. Sim, isso pode virar realidade em 2014

MUITO BOI, POUCO PASTO: Agora é hora de embananar suas cabeças.

Insatisfeito com a precariedade da Williams, Pastor Maldonado está de malas prontas para migrar a outra equipe. Seu contrato com a Lotus existe, mas está parado e pode ser rasgado a qualquer momento. A solução poderia residir na Sauber, que pode até nem receber o dinheiro russo ligado a Sergey Sirotkin. Ou sei lá, vai que a Williams o convença a ficar? De qualquer jeito, é improvável que Pastor fique de fora. Muitos gostariam de estar em sua pele – apesar de o cara ser feio como o demônio de cócoras.

Pois é, galera, pode ser que o jovem Sirotkin rode. No último GP de Abu Dhabi, os comentaristas da Globo levantaram essa possibilidade. Se isso acontecer, a Sauber volta para a marca do pênalti. Confiar em empresários russos dá nisso, né? Mas pode ser que a salvação venha de lá, mesmo. Vitaly Petrov, lembra-se dele? O ex-piloto da Renault e da Caterham teria arranjado cerca de 30 milhões de euros e estaria louco para roubar o carro de Sirotkin. Em Hinwil, a luta é entre bolcheviques e mencheviques.

Os dois Felipes, o Massa e o Nasr, deverão dividir a mesma equipe em 2014. O intrépido Américo Teixeira Jr. cravou não só a contratação de Massa como o companheiro de Valtteri Bottas na Williams como também a entrada de Nasr como o terceiro piloto que testará na maioria das sessões de sexta-feira da próxima temporada. Confirmação? Nenhuma. Mas é bem possível que ela venha nos próximos dias. E pode ser também que nada disso aconteça. Afinal de contas, tudo está louco.

Max Chilton e Giedo van der Garde. Os dois, símbolos mais proeminentes da figura nefasta do piloto pagante, podem não estar impressionando ninguém com sua pilotagem, mas seus extratos bancários compensam qualquer deficiência técnica. O holandês Van der Garde já teve seu nome vinculado à Williams, à Sauber e à Force India graças ao dinheiro da McGregor, que é uma das muitas companhias comandadas pelo sogrão. Chilton, certamente o pior dos pilotos da temporada, é um candidato forte ao carro da Force India, equipe pela qual andou testando no ano passado. Ficou assustado com a possibilidade de ter Giedo na Williams e Max na Force India? Aceite. O planeta endoidou.

Se Van der Garde sair, a Caterham já tem um nome para substituí-lo, o do finlandês Heikki Kovalainen. O cara esteve na escuderia de Tony Fernandes entre 2010 e 2012 e sua ausência deixou muita gente triste, tanto que acabaram o convidando para participar de alguns treinos de sexta-feira para acertar o carro. O próprio Fernandes já admitiu que o retorno de Kovalainen é algo possível, mas tudo depende da grana. Se a Caterham terminar o ano fora do Top 10, não receberá o benefício logístico que a FIA concede às dez melhores escuderias de cada temporada e terá de apelar para uma dupla pagante. Nesse caso, Van der Garde e Charles Pic ficariam. Mas o francês com cara de cu também está olhando para outras fazendas. Seu empresário, o ex-piloto Olivier Panis, já andou conversando com a Sauber e a Force India.

Jules Bianchi deve ficar na Marussia, mas que ninguém duvide se a escuderia russa decidir trocá-lo por Kevin Magnussen, filho do Jan e campeão da World Series by Renault nesse ano. O dinamarquês pode até acabar na McLaren como substituto do subaproveitado Sergio Pérez, mas a turma de Woking gostaria de vê-lo aprendendo o caminho das pedras numa casa menos exigente, a própria Marussia ou a Force India. As chances de ele fazer sua estreia na Fórmula 1 em 2014 nem que seja para andar de patinete pelo paddock são bem altas. Vale dizer que Kevin tinha um teste de GP2 agendado com a DAMS na pista de Abu Dhabi, mas deu para trás no dia anterior e deixou a equipe francesa furiosa. Nos dias de hoje, um cara só recusa a GP2 se já tiver a carreira encaminhada. Muito bem encaminhada.

Paul di Resta e Adrian Sutil até podem continuar, tem boas chances para isso, mas que ninguém se assuste se ao menos um deles for mandado para casa. Di Resta poderia voltar para a DTM com a própria Mercedes, que está planejando voltar a ter oito carros na categoria e andou testando uma baciada de gente pensando exatamente nessa expansão. O outrora promissor Sutil não parece ter muito mais espaço na Fórmula 1 depois do barraco que armou lá no camarote da China. As vagas de ambos estão ameaçadas por vários pilotos citados acima. Outro que poderia pingar aí é James Calado, o inglês muito talentoso e muito azarado que militou na GP2 nos últimos anos. Calado obviamente quer a titularidade imediata, mas um caminho provável é o cargo de terceiro piloto na escuderia indiana. Fazendo tudo direitinho, ele poderia ser promovido em 2015.

Entendeu? Não entendeu? Não importa. Todo mundo está conversando com todo mundo, uma meia dúzia se arranja e o resto chora na cama. Mas não arrisque previsões. Todos estão loucos.

P.S.: Pouco antes de fechar essa Bíblia, saiu na mídia que o ex-piloto Mika Salo, pacheco escandinavo maior, afirmou que Kimi Räikkönen poderia disputar as duas últimas corridas da temporada pela Sauber no lugar de Nico Hülkenberg, que já assumiria seu lugar na Lotus de forma imediata. É isso mesmo: Räikkönen e Hülkenberg, insatisfeitos com os atrasos salariais de suas equipes atuais, trocariam de lugar. Ficam elas por elas, não é? Mais ou menos. Apesar de a pobreza ser a mesma tanto na Sauber como na Lotus, é sempre bom mudar de ares.

Mas como quem deu a notícia foi o ex-piloto Mika Salo, pacheco escandinavo maior, não leve a sério. Salo, assim como todo o resto do paddock, é doido de pedra.

Valtteri Bottas, o cara que meteu a bota na bunda de Ayrton Senna

Valtteri Bottas, o cara que meteu a bota na bunda de Bruno Senna

Pré-temporada rolando à solta em Jerez, a Fórmula 1 retorna à ação após alguns meses de férias e silêncio. Os belos e escuros carros das onze equipes estão na pista andaluz sendo testados à exaustão. Alguns deles funcionam melhor do que os outros, os cabelos dos técnicos da Mercedes caem aos tufos após tantos problemas e as equipes nanicas continuam à míngua com suas diligências, mas não é dos carros que quero falar. Não gosto de falar de máquinas, os frios engenhos que serão descartados na primeira maldonadice. Meu negócio é falar de gente.

Algo que chama bastante a atenção nesse início de ano é o grande número de pilotos estreantes confirmados para essa temporada 2013. Até hoje, nove do dois, são cinco os debutantes. Da gélida Finlândia, Valtteri Bottas senta a botina no carro da Williams. O México contribui com Esteban Gutiérrez, que fez dois anos irregulares na GP2 antes de ser anunciado na Sauber. Do Brasil brasileiro, surge o nome de Luiz Razia, que acabou de assinar com a Marussia. Ao seu lado, outro novato, o inglês Max Chilton. Por fim, a Caterham traz da Holanda o sortudo Giedo van der Garde, genro de um homem definitivamente rico.

Bottas, Gutiérrez, Razia, Chilton e Van Der Garde compõem aquela que já é, desde 2010, a maior trupe de estreantes em um início de temporada na Fórmula 1. Pode ser que um sexto nome seja anunciado, o do francês Jules Bianchi, que tem tudo para acertar com a Force India. Se Bianchi for confirmado, haverá seis estreantes em Melbourne, o que seria o maior contingente desde o belíssimo ano de 1989.

Tem gente que gosta. Eu acho legal quando um cara consegue subir para a Fórmula 1 após tocar o terror nas categorias de base. Há aqueles que acham bom pelo espírito de renovação, pois é muito chato ficar com um monte de Karthikeyan ocupando espaço. Há também as menininhas que gostam de pilotos novinhos com cara de boy band dos anos 90. Mas o que dá para dizer sobre essa enxurrada de crianças? Bastante coisa.

Em primeiro lugar, por que tanto estreante? Em 1989, seis estreantes entre 39 pilotos era um número absolutamente trivial, até meio conservador, ainda dava para encaixar mais uns três ou quatro aí tranquilamente. A coisa muda quando falamos de seis estreantes entre 22 pilotos, nada menos que 27% do grid. É moleque demais para o meu gosto. ¿Qué pasa?

É bom dar uma olhada no perfil desses caras aí. Até algum tempo atrás, um novato de maior talento atraía as atenções das equipes que tinham dinheiro, aquelas mesmas que podem arcar com salário, 13º, férias, vale-refeição, vale-alimentação, previdência, plano de saúde para toda a família, plano odontológico, seguro, adicional-insalubridade, participação nos lucros e, por fim mas não menos importante, passe de ônibus. O cabra não necessariamente estreava na McLaren ou na Ferrari, mas numa Toyota limpa e que não atrasava salário. Foi assim que gentes como Timo Glock, Nico Rosberg, Heikki Kovalainen e Nico Hülkenberg, apenas para citar os exemplos mais fáceis de lembrar, fizeram seu début na Fórmula 1.

Esteban Gutierrez, o homem-sobrancelha

Esteban Gutierrez, o homem-sobrancelha

Sim, é claro, a maioria dos novatos entrava no esporte com um malote de dinheiro em uma mão e um cartão de crédito sem limites na outra. No entanto, isso daí era mais comum entre a galera de menor talento, aqueles pilotos que andavam em 11º na Fórmula 3000, coisa assim. Geralmente, quando pensávamos em pilotos pagantes, logo vinham à mente nomes como os de Pedro Paulo Diniz (que levava cerca de 10 milhões de dólares anuais às suas equipes) e Alex Yoong (certa vez, li que o cara pagava até 20 milhões de dólares para correr na Minardi). Se o cara tinha um tiquito a mais de talento, não precisava pagar muito, talvez até conseguisse um soldo razoável. E assim a vida avançava.

Mas tudo mudou. A Fórmula 1 ficou uma coisa cara, ingrata, desgraçada. A publicidade tabagista, que pagava a maioria das contas na categoria, foi banida em 2005. Três anos depois, a crise financeira mundial que drenou 34,4 trilhões de dólares em valor de ativos em apenas um ano e meio limou boa parte das verbas de publicidade das grandes empresas. O desdobramento mais recente da crise, aquele que devastou a Europa, atingiu em cheio o automobilismo concentrado no continente. Por fim, as indústrias automobilísticas diminuíram seus investimentos em automobilismo e realocaram a grana no desenvolvimento de projetos sustentáveis. Tudo isso pode ser resumido em uma pequena frase: acabou a grana!

As equipes grandes se viraram. Utilizaram sua fama e sua boa imagem para atrair as poucas empresas que ainda demonstravam algum interesse na Fórmula 1. Por isso, podem se dar ao luxo de contratar pilotos de ponta. Do meio do pelotão para baixo, a situação fica preta. As equipes médias já não se constrangem mais em condicionar a permanência de seus dois pilotos a fatores econômicos ou administrativos. E as equipes pequenas, que se fodiam mesmo quando as vacas estavam gordas, bem…

Tudo isso daí você já sabe. Eu já cansei de falar disso. Sou repetitivo. De dois em dois meses, lá estou eu numa glossolalia lazarenta misturando Autosprint com The Economist, relacionando corrida de carro com análise de balanço, escrevendo um artigo chato e cheio das manias de economista. Como suponho que todos vocês sabem de cor e salteado quais são os orçamentos de todas as equipes participantes de 2013, pulamos direto para a análise dos estreantes. E o porquê deles estarem aqui.

Falo, primeiramente, dos dois estreantes que marcarão pontos nessa temporada. Eles tem algo em comum: um título na GP3. O primeiro a ser campeão foi o mexicano Gutiérrez, 21 tenros anos de idade. Sua aparência é bizarra até mesmo para uma criança mexicana (se achou a comparação grotesca, vá pro inferno). Esteban é um cara alto e magrelo como um poste,  dotado de olhos fundos, sorriso humilde e um par de gigantescas sobrancelhas que ameaçam se juntar sobre o nariz. Ainda bem que Fórmula 1 não é desfile de beleza. No que concerne ao esporte a motor, Gutiérrez é um cara bom, sim senhor.

O mexicano foi campeão da Fórmula BMW europeia em 2008 e da temporada inaugural da GP3 em 2010. Além disso, ele também foi vice da Fórmula BMW norte-americana em 2007 e terceiro colocado na GP2 em 2012. Eu só acompanhei sua carreira nesse último estágio e percebi que o cara é meio loucão. No ano passado, Gutiérrez se notabilizou pela brilhante capacidade de fazer merdas e sair ileso da maioria delas. O melhor exemplo disso foi sua atuação em Valência: ele bateu nos carros de Fabio Leimer e Giedo van der Garde, acabou com a corrida dos dois e ainda venceu o diabo da prova. Foi assim, cagando e andando, que Esteban terminou a temporada no Top 3.

Meu forrifo!

Meu forrifo!

Em tese, um cara que fica entre os três primeiros na GP2 pode dizer em alto e bom som que é apto para correr onde na Fórmula 1. Mas não é por isso que Esteban Gutiérrez está lá. Diz a lenda que a Telmex, gigante mexicana das telecomunicações do tycoon Carlos Slim Helú, injetou cerca de 20 milhões de dólares para estampar adesivos nos carros da Sauber apenas em 2011 e 2012. Duvido que o fluxo de verdinhas diminua nesse ano. E a condição única que Carlos Slim exigiu para manter o apoio à equipe suíça em 2013 era tão somente esta: queremos um outro chicano no lugar do Sergio Pérez! Monisha Kaltenborn, a chefona da Sauber, obedeceu sem esmorecer, mandou Kamui Kobayashi plantar moyashi e colocou Gutiérrez em seu lugar.

Confiem nele. Apesar dos pesares, da cara esquisita, dos dois anos insuficientes na GP2 e do apoio do supermilionário mexicano, Esteban Gutiérrez é um dos pilotos mais promissores vindos recentemente das categorias de base. Se não cagar e sentar na merda, tem tudo para fazer um primeiro ano muito legal na Fórmula 1. Vai bater o companheiro Nico Hülkenberg? Não, não vai, esqueçam. Mas será o estreante do ano, podem cobrar. E pode cobrar mais uma coisa: aposto mais nele do que no próprio Sergio Pérez. Assim falei eu.

O outro novato que vai marcar pontos e que pode, ainda que com um peso na consciência, dizer que não entrou unicamente por causa dos cruzados novos é o finlandês Valtteri Bottas, 23 anos. Esse Bottas, veja bem, tem a maior cara de alemãozinho balofo que comia chocolate pra cacete e tomava cuecão no ensino primário. É só olhar bem para a cara redonda: aquilo ali é um ex-gordinho fanático por biscoito recheado. Mesmo assim, sua inequívoca compleição de Augustus Gloop (nunca assistiu à Fantástica Fábrica de Chocolate? Toma tenência!) foi o suficiente para conquista o coração da bela nadadora Emilia Pikkarainen, sua namorada há algum tempo.

Foda-se também. Bottas é um cara que sabe sentar a bota. Ele ganhou dois títulos de Fórmula Renault (Eurocup e norte-europeu em 2008), dois Masters de Fórmula 3 em Zandvoort e o título da GP3 em 2011. Sinceramente, eu só o vi correr na Fórmula 3 Euroseries em 2010. O cidadão terminou aquela temporada em terceiro e foi talvez a grande decepção daquele ano, pois corria na equipe que havia vencido todos os títulos da categoria desde 2004. O que poucos sabem é que Bottas foi o melhor piloto Mercedes numa temporada onde o melhor motor era, de longe, o Volkswagen. Foi um desempenho notável, vendo por essa perspectiva nem sempre óbvia.

Quando Valtteri Bottas foi anunciado como companheiro de Pastor Maldonado, os fãs do referido sobrinho explodiram em indignação. As frases de efeito eram sempre as mesmas. A Williams não gosta da família Senna. O dinheiro venceu. Os europeus não respeitam os brasileiros. A Williams trocou o talento pela conta corrente. Esse finlandês não limpa as botas do Bruno. Pra puta que o pariu com tudo isso.

Enquanto o injustiçado Bruno Senna tinha cerca de 14 milhões de dólares como grande diferencial, o riquíssimo Valtteri Bottas é basicamente o menos abastado dos estreantes. Ele, que entrou na Williams como terceiro piloto, foi efetivado como titular unicamente por influência de Toto Wolff, o austríaco que detém boa parte das ações da tradicional equipe. Vamos explicar como isso funciona. Pouca gente sabe, mas Wolff é um agenciador de talentos. Assim como a Genii ou a Racing Steps Foundations, o austríaco adota pilotos com muito mais competência do que dinheiro e conduz suas carreiras rumo à Fórmula 1. No caso de Bottas, Wolff trabalha em conjunto com o ex-piloto Mika Häkkinen, que apoia Valtteri desde o início de sua carreira.

Papai compra tudo, né? Menos o talento

Papai compra tudo, né? Menos o talento

Bottas, portanto, não é, de forma alguma, um piloto pagante. É bem mais honesto comparar sua entrada na Williams ao funcionamento da Toro Rosso, que só contrata pilotos apoiados pela Red Bull desde o início. Sua estreia na Fórmula 1 não é nem um pouco injusta. Apenas aquela parcela mais doentia dos fãs de Bruno Senna, boa parte dela composta apenas por gente que não para de chorar há dezenove anos, acha que Valtteri Bottas não tinha mérito algum para entrar na Williams. O chororô é livre.

Se ele vai se dar bem? Não faço ideia. É injusto, quase imbecil, dizer nesse exato momento que Valtteri Bottas é um piloto de Fórmula 1 melhor que Bruno Senna. O que dá para dizer é que Bottas tem uma carreira muito mais relevante que o sobrinho nas categorias de base. E dá para dizer também que Senna esteve longe de ser brilhante no certame maior. O resto é chute. E eu dou o meu: Valtteri fará seus pontos, mas vai tomar surra de Pastor Maldonado.

São esses dois aí, Valtteri e Esteban, os estreantes que realmente contarão nessa temporada. Os outros três são apenas os caras que estão na ponta da mesa prontos para pagar a conta para os amigos. Falemos primeiro da Caterham de Giedo van der Garde. Esse daqui seduz bastante pelo sorriso. Veja só. O cara é genro de um dos homens mais ricos da Holanda, Marcel Boekhoorn, envolvido em vários negócios, membro do conselho administrativo da Danone. Imagino eu que a família Van Der Garde também não é pobre. Diante disso, sua dentição de Nelson Muntz (personagens dos Simpsons não são estranhos a vocês, né?) não deixa de ser minimamente curiosa. Um aparelho dentário era tão caro assim?

Tô fazendo muito bullying em cima da aparência dos novatos. OK, vamos fazer bullying em cima do currículo do piloto holandês. A carreira de Van Der Garde nas categorias de base completou quase dez anos agora, uma eternidade para os padrões atuais. Ele estreou na Fórmula 3 Euroseries em 2004, mesmo ano de estreia de Lewis Hamilton e Adrian Sutil. Ficou por lá durante três temporadas, fez 59 corridas e ganhou apenas uma delas. Isso diz muito né? Se fosse eu, largava esse negócio de automobilismo e abriria um inferninho em Amsterdã.

Mas Giedo (pronuncia-se “Hiedo”) decidiu seguir em frente e foi para a World Series by Renault em 2007. Fez duas temporadas e foi campeão em 2008, seu único título na vida. Não fique admirado. Van Der Garde ganhou um título numa época em que a World Series só atraía pereba. Muito mais experiente que o resto, soava quase que uma obrigação vencer pilotos pobres como Fabio Carbone e Mikhail Aleshin ou limitados como Julien Jousse ou Miguel Molina.

Van Der Garde estreou na GP2 em 2009. Fez quatro temporadas por lá. Por incrível que pareça, a melhor foi a primeira: pilotando pela iSport, ganhou três corridas e terminou o ano em sétimo. Em 2010 e 2011, mesmo correndo pela forte Addax, não venceu uma prova sequer e viu os companheiros Sergio Pérez e Charles Pic brilhando muito mais. No ano passado, meio deprimido, ainda abocanhou duas etapas e finalizou numa discreta sexta posição. Para um cara multimilionário e ultraexperiente, o saldo final foi bastante abaixo do esperado.

Luiz Razia no ano passado

Luiz Razia no ano passado

Desnecessário explicar o porquê de Van Der Garde ter assumido um lugar na Caterham. Seus estimados 15 milhões de dólares em patrocinadores chegaram a seduzir outras equipes, como a Williams e a Virgin. Agora, após milhões de anos, ele finalmente fará sua tão esperada estreia na Fórmula 1. Palpite meu? Vai apanhar do Charles Pic. Pela segunda vez.

A dupla da Marussia é… Como posso ser simpático? Impossível. É uma dupla fraquinha. Max Chilton é um moleque de 21 anos que nunca fez nada na vida a não ser alimentar os cofres das equipes por onde passou. Chilton demorou três anos para ganhar sua primeira corrida de Fórmula 3 na vida e também precisou de três temporadas na GP2 para conseguir andar lá na frente. Sua sorte é ter iniciado no automobilismo com 16 anos de idade recém-completados, o que o faz um dos pilotos mais precoces da história do automobilismo internacional.

Chilton é o menos talentoso dos estreantes, e olha que a concorrência é dura. Mas ele chegou lá porque seu pai é Grahame Chilton, já apresentado aqui em outros posts. Vice-diretor da gigante britânica de seguros AON, Grahame estaria injetando cerca de 11,5 milhões de euros na Marussia, muito provavelmente num movimento de aquisição de ações da equipe russa. Vale lembrar que o poderoso papai chegou ao ponto de criar uma empresa, a Capsicum Motorsport, com o intuito de ajudar na carreira automobilística dos filhos Max e Tom, este atualmente no WTCC. Até o ano passado, a Capsicum era a acionista majoritária da Carlin, equipe por onde Max Chilton correu na Fórmula 3 britânica e na GP2.

Chilton não fará absolutamente nada nessa temporada, mas tem grandes chances de bater o companheiro porque seu pai é que manda na bagaça. Falando no companheiro, quem é ele? Luiz Razia, baiano de Barreiras, 23 anos, vice-campeão da GP2 no ano passado. Não se engane. Ele não é um mal piloto. Acho, inclusive, que é o melhor dos estreantes das equipes pequenas. Não é falso patriotismo, pois não gosto disso. Acho apenas que sua presença é ligeiramente menos financeiramente descarada do que as dos überfilhinhos de papai Chilton e Van Der Garde.

OK, mas de onde vem a grana de Razia? Até aqui, o que parece é que a maior parte é de origem familiar – o pai é um dos maiores produtores de soja do Brasil, segundo consta. Há algum tempo, saiu uma notícia da prisão de sua mãe, tabeliã em Barreiras que estava envolvida num esquema de compra de papéis públicos para grilagem de terras. Não dá para fazer nenhuma comparação persecutória aí, que fique claro. O pai de Razia é realmente rico.

Na pista, Luiz tem uma carreira sólida sem ser genial. A excelente campanha na GP2 em 2012, onde ele conquistou quatro vitórias e ótimos resultados com a mediana Arden, foi o grande ponto alto de sua vida até aqui. Antes disso, ele também conseguiu o título da Fórmula 3 sul-americana em 2006, ainda que isso infelizmente não signifique muito atualmente. Entretanto, não pegou bem para ele apanhar nos seus primeiros três anos de GP2, entre 2009 e 2011. Ganhou uma nova chance e agora poderá fazer sua tão sonhada estreia na Fórmula 1. Não espero nada dele, apenas que não vire um capacho do Max Chilton rapidamente.

Esses são os caras, a galerinha que está entrando aí. E aí, o que você acha deles? Pode se manifestar, eu deixo. Só não espere muitas atualizações – estarei argentinando na semana do Carnaval e não vou chegar perto de um “ordenador” durante um bom tempo.

Assistiu à GP2 Series neste fim de semana? Vibrou com a vitória de Luiz Razia no sábado? Brilhou os olhos com a bela estréia de Felipe Nasr? Ficou impressionado com o alto nível das disputas? Achou a categoria mais divertida do que a Fórmula 1? Se você respondeu “não” a todas estas perguntas, digo que está na hora de rever seus conceitos. A GP2 será bastante interessante nesta temporada. Muito. Portanto, se quiser um conselho gratuito meu, tente assistir ao menos às corridas de sábado.

Muitas pessoas deixam de acompanhar uma categoria por duas razões bem interessantes: desconhecimento e falta de contato com os participantes. Se você não tem muita idéia do que é a GP2 e alimenta alguns preconceitos sobre o fato da categoria ser mais barata e ter pilotos menos habilidosos que a exagerada Fórmula 1, não irá perder seu valioso tempo com uma estúpida corrida de quase uma hora de duração em um horário esquisito. É a mesma mentalidade de alguém que se recusa a ver um jogo da Série B, por exemplo. Deixe este elitismo tosco de lado.

A falta de contato com os participantes é uma coisa bem intrigante. Você assiste à NASCAR por causa da Danica Patrick ou do Kyle Busch. Na Fórmula 1, podemos torcer pela vilania de Fernando Alonso, pela jovialidade de Sebastian Vettel ou pelo alcoolismo de Kimi Räikkönen. Na Stock Car, todo cidadão de bem torce contra o Cacá Bueno. Mas e na GP2? O que significa um Fabrizio Crestani ou um Giedo van der Garde? É muito chato ver um esporte onde você não conhece ninguém. È vero.

Mas o Bandeira Verde serve para isso, tirar você das trevas da ignorância. Aqui, você conhecerá brevemente os 26 pilotos que participaram da rodada de Sepang e deverão aparecer ao menos nas próximas. Se alguém cair fora até Sakhir, paciência. Você ao menos poderá ter uma idéia de quem foram os adversários de Felipe Nasr e Luiz Razia na Malásia. E, quem sabe, poderá até mesmo arranjar algum piloto para acompanhar e torcer antes mesmo dele subir para a Fórmula 1 ou voltar para casa e cursar Administração de Empresas na Estácio de Sá. E você conhecerá também as treze equipes e suas pinturas.

Primeiro, os pilotos.

FELIPE NASR, A ESPERANÇA BRASILEIRA

Muita gente tomou conhecimento deste cara após aquela reportagem do Jornal Nacional que noticiou sua contratação pela DAMS para a temporada 2012 da GP2. Mas meus leitores já sabiam que Luiz Felipe de Oliveira Nasr, 19 anos, é o piloto brasileiro mais promissor no automobilismo internacional atualmente há uns dois anos.

Filho do chefe de equipe Samir Nasr, Felipe ostenta alguns títulos importantes nas categorias de base. Em 2009, deixou adversários mais experientes para trás e sagrou-se campeão da Fórmula BMW européia. No ano passado, não teve problemas para levar a taça da Fórmula 3 britânica. Neste ano, Nasr fez sua estréia na GP2 por uma equipe boa, mas sem estardalhaço, e apareceu muitíssimo bem em Sepang. É patrocinado pelo Banco do Brasil e pela OGX. Se continuar nesta curva de crescimento, vencerá corridas na GP2 e chegará logo à Fórmula 1.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Altas. Parece ter finalmente obtido bons patrocinadores e o talento está lá. Apostaria numa estréia em 2014.

LUIZ RAZIA, A ETERNA ESPERANÇA BRASILEIRA

Um dia, o baiano Luiz Razia teve tanta moral quanto Felipe Nasr teve hoje. Mais precisamente, uns dois ou três anos atrás. Campeão da Fórmula 3 sul-americana em 2006, Razia ganhou destaque na mídia quando conseguiu ser terceiro colocado em um teste de pré-temporada na GP2 no início de 2007. Ele só conseguiu o resultado porque pegou uma pista em condições melhores que as dos adversários, mas mesmo assim fez seu nome e conseguiu estrear na categoria em 2009.

Infelizmente, Razia nunca obteve nada além de uma vitória na segunda corrida de Monza, ainda no seu ano de estréia. Nos dois últimos anos, ele pilotou por boas equipes (Rapax e Air Asia), mas não conseguiu capitalizar bons resultados e terminou 2011 com o sonho da Fórmula 1 praticamente enterrado. Neste ano, está fazendo provavelmente sua última temporada na GP2. Começou muito bem, vencendo a primeira corrida de Sepang e saindo da Malásia como o líder do campeonato. Mas precisará de mais resultados positivos se quiser reverter sua até certo ponto injusta fama de piloto limitado.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Baixas. Embora esteja ligado ao programa de desenvolvimento de pilotos da Red Bull, já não é mais considerado um novo talento e sua imagem na GP2 está um pouco chamuscada. Precisará de uma grande reviravolta.

JOHNNY CECOTTO JR., JOLYON PALMER E STÉPHANE RICHELMI, OS FILHOS

Três sobrenomes de peso. Bom, mais ou menos. Johnny Cecotto Jr. é o filho daquele motociclista que ganhou um título nas 350cc e enfileirou uma série de bons resultados na segunda metade dos anos 70. No Brasil, Cecotto pai ficou famoso por ter sido o primeiro companheiro de Ayrton Senna na Fórmula 1. O filho não é tão bom e ainda tem cara de criança, mas ao menos faz uma grande corrida por ano: Mônaco/2010 e Spa/2011. Neste ano, corre pela poderosa Addax, mas não tem grandes expectativas.

Jolyon Palmer é filho do Dr. Jonathan, que pilotou alguns carros bem ruins nos anos 80. Hoje em dia, Jonathan Palmer é o promotor da Fórmula 2, categoria onde Jolyon fez seu nome e se sagrou vice-campeão em 2010. Mas o rebento não é tão talentoso quanto o pai. Estreou na GP2 no ano passado pela Arden e não fez nenhum ponto. Mesmo assim, tem muito dinheiro e conseguiu comprar a segunda vaga da competente iSport. Marcará alguns pontos, fará um ou outro pódio e só.

O monegasco Stéphane Richelmi também tem pai famoso. OK, nem tanto. Jean-Pierre Richelmi era um piloto de rali que havia obtido relativo sucesso na Europa e que chegou a fazer algumas corridas no WRC, chegando em quinto no Rali de Portugal de 1997. O jovem Stéphane preferiu a vida nos monopostos, mas nunca conseguiu nada de muito relevante. Seu melhor momento foi o vice-campeonato na Fórmula 3 italiana em 2010, tendo perdido o título para o brasileiro César Ramos. Na GP2, será apenas mais um participante do meio do pelotão.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Baixas. Cecotto Jr. é o melhor deles, mas nenhum tem cacife para vôos mais altos. Só o dinheiro não é suficiente.

DAVIDE VALSECCHI, A VACA-BRAVA

Primeiramente, ele não é um gênio. Sua carreira nas categorias anteriores à GP2 é risível, praticamente inexistente. Seu primeiro título foi na GP2 Asia há dois anos, nada muito animador. Na pista, seu estilo de pilotagem é nervoso e irregular. Erros na tangência das curvas, dificuldades para ultrapassar, ritmo irregular e enorme propensão a acidentes. Este é Davide Valsecchi, sujeito a quem talvez nem os italianos dêem crédito.

Infelizmente, Valsecchi é um dos grandes favoritos ao título. Ele é o piloto mais experiente do grid atualmente: estreou em 2008 e já fez 74 largadas. Dessas, só converteu três delas em vitórias. Na tabela final do campeonato, nunca conseguiu mais do que dois oitavos lugares em 2010 e 2011. Mesmo assim, sua experiência é um ativo importantíssimo. Na pré-temporada, Davide foi constantemente o cara mais rápido. No entanto, terminou o fim de semana em Sepang em cambalhotas. Davide Valsecchi tem tudo para ser campeão, mas tem em Davide Valsecchi seu maior adversário.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Médias. Mesmo se for campeão, não terá facilidade para achar uma vaga boa. Falta-lhe credibilidade.

GIEDO VAN DER GARDE, O GENRO

O holandês Giedo van der Garde, 27, é um sujeito obstinado. Somente isso poderia explicar como é que um sujeito que foi contemporâneo de Lewis Hamilton, Robert Kubica, Nico Rosberg e Sebastian Vettel na Fórmula 3 poderia estar insistindo nesse negócio de Fórmula 1 até hoje. Van der Garde não é um grande talento e nem tem um currículo tão brilhante, contabilizando apenas o troféu da World Series by Renault em 2008 como único trunfo. Mas ele tem dinheiro e paciência.

A carta na manga de Van der Garde é sua namorada, filha de um dos homens mais ricos da Holanda. Graças a isso, seu carro sempre está repleto de adesivos, todos ligados às empresas do sogrão Marcel Boekhoorn, dono de uma fortuna de 1,3 bilhão de dólares. As equipes de GP2 o adoram, tanto que Giedo está na categoria desde 2009. Seu ano de estréia foi o melhor: três vitórias e uma ótima impressão. Nos últimos dois anos, ele correu pela Addax e não ganhou uma corrida sequer. Nesse ano, terá sua última chance de ser campeão e atrair as atenções sérias de alguma equipe de Fórmula 1. Mas se depender de sua atuação na pré-temporada e em Sepang, fica difícil.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Altas. Mas só por causa do dinheiro.

ESTEBAN GUTIERREZ, O FAVORITO

Apesar dos pesares, o mexicano Esteban Gutierrez ainda é a minha grande aposta para o título da GP2 nesta temporada. Ele tem tudo aquilo que é necessário para o sujeito se dar bem no automobilismo: apoio de um cara importante, muito talento, uma equipe excepcional e tempo. Gutierrez é uma das apostas de Carlos Slim, homem mais rico das galáxias e dono de um monte de empresas. Graças a isso, ele não teve dificuldades para arranjar uma vaga na ART Grand Prix, que virou Lotus neste ano. Pilotar para a equipe de Fréderic Vasseur é meio caminho andado para um título na GP2.

O talento de Gutierrez também é um negócio à parte. O cidadão de apenas 20 anos foi vice-campeão da Fórmula BMW americana, campeão da Fórmula BMW européia e campeão da GP3. Sua adaptação à GP2, no entanto, tem sido árdua. No ano passado, Esteban ganhou apenas uma corrida e terminou o ano em 13º. Neste ano, ele ainda não engrenou e está sofrendo com a pressão do companheiro James Calado. Mesmo assim, é uma boa aposta para o futuro.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Altíssimas. Ele é o terceiro piloto da Sauber e tem grandes chances de começar sua vida por lá, ainda mais se Sergio Pérez bandear para a Ferrari.

JAMES CALADO, O BARULHENTO

O sobrenome é curioso. Ao que consta, é de origem portuguesa, o que poderia representar uma pequena ascendência lusitana nos genes deste piloto de 22 anos. Mas James Calado não tem absolutamente nada de silencioso. Na verdade, seu currículo é pra lá de expressivo. Com apenas cinco anos de carreira nos monopostos, ele conseguiu ganhar dois títulos de inverno da Fórmula Renault e foi vice-campeão da Fórmula Renault britânica, da Fórmula 3 britânica e da GP3.

Não o julgue mal pelo grande número de vice-campeonatos. Calado é uma das maiores esperanças inglesas nos dias atuais. A ponto da Racing Steps Foundation, programa de desenvolvimento de pilotos ingleses, ter deixado Oliver Turvey de lado para apostar suas fichas no jovem de Cropthorne. Pelo visto, o apoio renderá frutos. Mesmo com apenas quatro corridas de GP2, James já contabiliza duas vitórias. Embora ainda seja estreante, é um interessante candidato ao título. É bem típico de James Calado fazer barulho aonde chega.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Médias. É um grande talento, mas precisa de um suporte mais sólido do que o da Racing Steps Foundation. Caso contrário, pode virar um novo Oliver Turvey.

MARCUS ERICSSON, O ALAIN PROST SUECO

Num belo dia, um garotinho de nove anos quebrou o recorde de uma pista de kart na Suécia e impressionou o ex-piloto Fredrik Ekblom. A família do garoto não tinha qualquer pretensão e sequer dinheiro para financiar uma carreira no automobilismo, mas Ekblom insistiu que o pequeno Marcus Ericsson seguisse em frente. Não muito depois, o também ex-piloto Kenny Brack ficou entusiasmado com o talento do moleque. “Ele me lembra o Alain Prost dirigindo”, garantiu o ex-astro da Indy Racing League.

Ericsson estreou nos monopostos em 2007 e já começou ganhando o título da Fórmula BMW européia com folga. No ano seguinte, correu na Fórmula 3 britânica e terminou em quinto. Em 2009, sagrou-se campeão da Fórmula 3 japonesa e garantiu uma vaga na Super Nova para correr na GP2 e um teste na Brawn GP em Abu Dhabi. Até aqui, infelizmente, Ericsson não conseguiu nada além de uma vitória e uma série de aborrecimentos na GP2. Neste ano, ele entra como um dos favoritos. Seu início de temporada não foi bom, mas ainda podemos considerá-lo como candidato ao título.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Médias. Talvez se terminasse o ano entre os três primeiros. Não me parece ter tanto dinheiro para comprar um lugar na Fórmula 1.

FABIO LEIMER E SIMON TRUMMER, OS SUÍÇOS RIQUINHOS

Da Suíça, saíram alguns dos pilotos mais ricos que militam no automobilismo de base atualmente. O melhor deles, obviamente, é Fabio Leimer. Aos 22 anos, ele entra em sua terceira temporada na GP2 após ter sofrido bastante na Ocean e na Rapax. Fabio ficou conhecido há algum tempo quando alguém publicou que sua carreira, até aqui, custou a bagatela de 16 milhões de dólares. Este montante foi todo financiado por empresas como a Bautro e a Certina, aquela dos relógios. Mas não dá para dizer que Leimer é um mau piloto. Em 2009, ele ganhou com sobras a Fórmula Master. No fim do ano passado, liderou alguns testes de pré-temporada e ainda passeou em uma daquelas corridas extracampeonato de Abu Dhabi. É alguém que brigará por vitórias neste ano.

O outro suíço é Simon Trummer, egresso da GP3 Series. Este daqui não tem muita solução: em duas temporadas na GP3, andou sempre nas últimas posições e marcou um total de apenas treze pontos. Antes disso, Trummer não contabiliza nada além de um vice-campeonato na obscura Fórmula Renault suíça em 2008. Mas ele tem dinheiro e é por isso que conseguiu a vaga de companheiro de Luiz Razia na Arden. Agradeça à Allianz e à Castrol, que o apóiam. Não é curioso que um sujeito ruim como ele conte com parceiros tão fortes?

CHANCES NA FÓRMULA 1: Médias para Leimer, baixíssimas para Trummer. Os dois têm muito dinheiro, mas apenas um tem algum talento.

STEFANO COLETTI, O BASTARDO

Pouca gente sabe disso e você provavelmente não é um deles, mas o monegasco Stefano Coletti é um dos pilotos patrocinados pela Red Bull. É só reparar no seu capacete, que possui as cores azul e cinza e o touro vermelho adornado. Só que Coletti não é nem a primeira e nem a segunda prioridade dos rubrotaurinos. Na verdade, ele nem costuma ser lembrado quando se fala de uma vaga disponível na Toro Rosso. Stefano só recebe o dinheiro das latinhas e tenta se virar com ele.

Compreensível. Ele é um bom piloto, mas não um gênio. Teve passagens razoáveis pela Fórmula BMW americana, pela Fórmula Renault européia, pela Fórmula 3 Euroseries e pela World Series by Renault, mas nada de muito empolgante. Por incrível que pareça, sua melhor fase está sendo agora na GP2. No ano passado, Coletti venceu duas corridas, apareceu bem em outras e terminou em 13º com o fraco carro da Trident. Neste ano, corre pela Coloni, que é melhorzinha, e poderá surpreender. Precisa apenas aprender a não se suicidar em Spa-Francorchamps: dois acidentes gravíssimos nas corridas de 2009 e 2011 quase acabaram com sua carreira.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Baixas. Se depender da Red Bull, não chegará a lugar algum. Precisará de muito dinheiro e de uma temporada excepcional na GP2.

Amanhã, a segunda parte.

Julian Leal. Ele foi um dos piores pilotos que eu já vi na GP2, mas não teve dificuldade alguma para arranjar uma vaga nesta temporada

É Pai Verde de Ogum fazendo mais uma previsão. Certeira? Infelizmente, as chances são grandes. A temporada 2012 da GP2 Series, oitava de sua história, está prestes a começar. No verdadeiro microondas de Gaia que é o Sudeste Asiático, vinte e seis jovens e ansiosos pilotos darão as caras para os desafios da primeira rodada dupla da temporada, a ser realizada nos dias 24 e 25 de março. O palco será o circuito malaio de Sepang, que fará parte do calendário convencional da GP2 pela primeira vez.

Não que eu esteja lá babando por esta temporada. Normalmente, fico mais animado para ver a GP2 do que a própria Fórmula 1, que não anda tendo lá grandes atrativos para um início de temporada. Neste ano, porém, pelo que foi visto até aqui, a categoria júnior de Bernie Ecclestone e Bruno Michel terá de se esforçar se não quiser ter sua pior temporada até aqui. Custos nas alturas, pilotos medíocres, calendário excessivamente abrangente, conflitos de horários com a Fórmula 1 e poucas possibilidades de aprendizado para o piloto são os principais problemas que ameaçam a ainda grande credibilidade da GP2.

Até aqui, vinte e dois pilotos estão confirmados. O último a ter seu nome sacramentado foi o francês Nathanael Berthon, que nunca foi nada além de um participante do meio do pelotão na World Series by Renault nos últimos dois anos. Berthon fará companhia ao suíço Fabio Leimer, piloto que ganhou certa notoriedade quando foi revelado que sua carreira custou, até aqui, nada menos que 16 milhões de dólares. Tudo isso por um sujeito que está entrando em sua terceira temporada na GP2 tendo vencido apenas duas corridas na categoria até aqui.

É este tipo de comportamento exagerado e desesperado que está levando a categoria a um discreto porém implacável buraco. E não podemos criticar apenas Fabio Leimer quando temos pilotos como Giedo van der Garde e Dani Clos torrando o dinheiro de seus patrocinadores há séculos. Van Der Garde é genro de Michel Boeknoorn, magnata holandês dono de uma fortuna de 1,3 bilhão de euros. Ele é dono de grandes empresas como a Spyker Cars e a McGregor, além de apitar nos rumos da gigante francesa de alimentos Danone.

Van Der Garde vem disputando categorias de base relevantes desde 2004, quando fez sua estréia na Fórmula 3 Euroseries. De lá para cá, tudo o que ele conseguiu foi um título na World Series by Renault em 2008. Neste ano, ele fará 27 anos e participará de sua quarta temporada na GP2 Series pela Caterham. Para ele, é tudo ou nada: se não for campeão, nunca mais conseguirá nada na Europa e terá de refazer sua carreira em outro planeta.

Por outro lado, as equipes não reclamam. Afinal, Giedo é um dos poucos pilotos que podem pagar os mais de dois milhões de euros exigidos anualmente por uma equipe de ponta da GP2. De quebra, aceitemos ou não, ele ainda é bastante experiente e tem um título em uma categoria importante. Seu carro em 2012 estará coberto de decalques da McGregor e ainda terá um ou outro adesivo da Voicecash, que também pertence ao sogrão.

Giedo van der Garde: o sogro é um dos homens mais ricos da Europa. Não por acaso, o carro está todo coberto com adesivos de suas empresas

Dani Clos também tem um sogro conveniente. Hristo Stoichkov, já ouviu falar? Consagrado atacante da seleção búlgara nos anos 90, parceiro de Romário no Barcelona e um dos escolhidos por Pelé na lista dos 125 melhores jogadores de futebol ainda vivos. Hoje em dia, ele gerencia um time da primeira divisão do campeonato búlgaro. Sua filha, Mihaela Stoickhova, trabalha atualmente em um programa de TV na Bulgária após ter morado na Espanha durante quase toda a vida. Desnecessário dizer que a família Stoickhov nada em dinheiro, portanto. No ano passado, o ex-jogador tentou articular uma vaquinha de 5 milhões de euros para financiar a carreira de Clos na Fórmula 1. Mesmo que não tenha logrado, você vê que o piloto espanhol está muito bem acompanhado nesta sua jornada.

Leimer, Van Der Garde e Clos são três figuras irreais em um mundo que perdeu cerca de 50 trilhões de dólares apenas na crise de 2008 e que definitivamente optou pelo conservadorismo na hora de manejar a riqueza. As quotas de patrocínio estiveram na linha de frente das áreas mais afetadas por se tratarem de uma questão supérflua e não-produtiva. Ninguém quer gastar dinheiro para brincar de mecenas ou para auferir os tais “ganhos institucionais” que não servem para muita coisa na hora em que a fome aperta. Entramos em uma era de prudência, de cintos apertados. Agora me responda: onde há prudência em um esporte no qual se admite o gasto de 16 milhões de dólares apenas para o sujeito ficar se divertindo nas categorias de base?

Ao que parece, a GP2 ainda não digeriu bem esta nova e dura realidade. Em entrevista ao site Autosport, o diretor Bruno Michel afirmou que a categoria “não tinha qualquer intenção de reduzir os custos de participação para atrair pilotos que não podem sustentá-los”. Para demonstrar convicção, Michel simplesmente desdenhou o caso de Jules Bianchi, francês que disputou as duas últimas temporadas da GP2 e que preferiu, neste ano, concentrar suas forças na World Series by Renault. “Bianchi se tornou o terceiro piloto de uma equipe de Fórmula 1 (Force India) e obviamente não tinha dinheiro para fazer, ao mesmo tempo, uma temporada na GP2. Dito isso, se seus empresários acreditavam que havia uma grande necessidade de correr e que seria conveniente fazê-lo em outra categoria, assim é a vida”, disse ele.

Ou seja, a GP2 pode ficar esvaziada e risível, mas não deixará de manter a pompa e o nariz empinado. Michel e Ecclestone crêem que há glamour com Stéphane Richelmi, Julian Leal, Rodolfo Gonzalez, Max Chilton e Simon Trummer. A World Series by Renault, para essa gente, inexiste. Ela pode atrair todos os bons pilotos das categorias de base, mas ainda não é a GP2. Por isso, não se basta. Este é o raciocínio.

É triste saber que o certame que revelou nomes como Lewis Hamilton, Nico Rosberg, Kamui Kobayashi, Nico Hülkenberg e Sergio Pérez seja comandado por pessoas tão mesquinhas e fechadas. O que não se percebe é que o modelo esportivo e comercial da GP2 começa a dar sinais de esgotamento. Ainda são iniciais e pequenos, mas se não forem resolvidos, a categoria não terá vida muito longa.

Vale dizer que as duas categorias que antecederam a GP2, a Fórmula 2 e a Fórmula 3000, faliram por algumas razões que encontram eco nos dias atuais. A primeira, que durou até 1984 e revelou nomes como Ronnie Peterson, Jacky Ickx, Jacques Laffite e Clay Regazzoni, deixou de existir porque os custos estavam absurdos, ninguém mais demonstrava qualquer interesse e a qualidade dos pilotos havia decaído absurdamente. Já a Fórmula 3000, que durou vinte anos e revelou gente como Jean Alesi, Juan Pablo Montoya e Nick Heidfeld, também desapareceu por causa dos custos absurdos, do desinteresse e da falta de qualidade dos pilotos.

Fabio Leimer, o piloto de 16 milhões de dólares. E olha que ele nem chegou à Fórmula 1 ainda

Vale dizer que a GP2 já está enfrentando o problema dos custos e da falta de qualidade dos pilotos. O novo chassi Dallara, implantado na última temporada, elevou as cifras a um patamar inaceitável. Equipes como a ART Grand Prix passaram a cobrar até 2,5 milhões de euros para uma temporada completa. Dois paus e meio para custear uma categoria que quase ninguém assiste – o que essa gente tem na cabeça? E mesmo as equipes pequenas não cobravam menos de 1,5 milhão de euros. Gastar esta fortuna para passar um ano sofrendo na Trident é algo que não faz sentido para mim, desculpe.

Antigamente, conseguia-se dinheiro via indústria tabagista ou atividades ilegais. O patrocínio dos cigarros acabou oficialmente em agosto de 2005 por meio de proibição em toda a União Européia e creio inocentemente que lavar dinheiro via patrocínios esportivos esteja ligeiramente mais difícil hoje do que em outros verões. Atualmente, só há duas grandes maneiras de obter financiamento para correr: entrar em um daqueles grandes e concorridíssimos programas de desenvolvimento de pilotos ou torrar o dinheiro da empresa do papai ou de algum conhecido. Que é a solução tomada por grande parte do grid da GP2.

Max Chilton é filho de um dos diretores da AON, uma das maiores seguradoras do planeta. Jolyon Palmer é filho do ex-piloto Jonathan Palmer, um dos grandes promotores de corridas na Inglaterra. Johnny Cecotto Jr. é filho daquele antigo motociclista que foi companheiro de Ayrton Senna na Toleman. Davide Valsecchi, Josef Kral, Stefano Coletti e Rodolfo Gonzalez também são conhecidos pelos rotundos apoios que os cercam.

Para ser honesto, são poucos os pilotos que estão na GP2 mais pelo talento do que pelo dinheiro. Não, não sou inocente de acreditar que haja algum aí que não leve grana nenhuma – todos levam, e muita. Porém, nomes como James Calado e Esteban Gutierrez, que são apoiados por programas de desenvolvimento de pilotos e que não disporiam de meios de estar na categoria por si só, são cada vez mais raros. O resultado: em 2012, teremos o pior grid da história da categoria, lotado de pilotos de currículo prévio fraquíssimo e disposição para gastar o que for.

São poucos os que realmente têm cara de Fórmula 1. Felipe Nasr, felizmente para os torcedores brasileiros, aparenta ser um deles. Gutierrez, Calado e Marcus Ericsson também. Abaixo deles, Rio Haryanto, Stefano Coletti e Nigel Melker precisarão trabalhar muito para conseguir um lugar na categoria maior sem maiores problemas. O resto é composto por veteranos eternamente esperançosos (Van Der Garde, Valsecchi, Razia, Leimer, Kral, Cecotto Jr., Crestani) e gente genuinamente ruim (Gonzalez, Chilton, Trummer, Leal, Richelmi). É possível apontar um futuro campeão do mundo entre todos os nomes citados neste parágrafo? Sou honesto, mas acho extremamente difícil.

Infelizmente, os problemas da GP2 não se restringem apenas aos custos e à qualidade dos pilotos. Na verdade, eles até são a causa ou a conseqüência de outros problemas.

Dani Clos. Este também tem um sogro importante, o ex-jogador Hristo Stoichkov

A GP2 cobra até 2,5 milhões de euros por uma temporada, mas o que ela oferece ao otário que aceita pagar tudo isso? Algo entre nove e doze rodadas duplas compostas por um treino livre de meia hora, um treino oficial de meia hora, uma corrida de 170km e outra de 120km e uns dez dias de testes coletivos na pré-temporada. Só. Não há mais sessões de treinos nos fins de semana. Testes privados são apenas um sonho de uma noite de verão. O caso é que o piloto da GP2 não só paga muito como também anda muito pouco e acaba não se preparando direito.

Mas e se ele quiser fazer uns testes na Fórmula 1 para ganhar quilometragem, conseguirá? Não. Em primeiro lugar, porque a própria Fórmula 1 limitou drasticamente seus testes. Na prática, um jovem mancebo só poderá ter o gostinho de andar em um carro desses naqueles três dias destinados à garotada em Abu Dhabi. Portanto, aquelas funções de “piloto de testes” e “piloto-reserva” se tornaram inúteis e desapareceram.

Mas há também os treinos livres de sexta-feira, alguém poderia argumentar. Sim, é verdade, mas não para os pilotos da GP2, que não podem pilotar carros da Fórmula 1 sabe-se lá o porquê. Logo, se o cara quiser participar destes treinos livres, ele terá de estar totalmente disponível naquele fim de semana. Isso só é possível para o pessoal da World Series by Renault, cujos fins de semana não coincidem com os da Fórmula 1. Logo, dá para conciliar as duas vidas, coisa que a quadrada GP2 não permite.

A World Series by Renault, por sinal, está se dando bem nestes vacilos que a rival mais rica anda cometendo. Com um carro atualizado, o advento do DRS, orçamentos que não ultrapassam a casa do milhão de dólares, um sistema de provas que inclui dois treinos livres de 75 minutos e dois treinos oficiais, um calendário restrito à Europa e uma maior possibilidade de testes durante o ano, a categoria ganha em atratividade e desvia boa parte das atenções antes reservadas apenas à GP2. As recentes migrações de Jules Bianchi e Sam Bird provam que a World Series tem totais condições para satisfazer quem deseja subir à Fórmula 1.

Uma pena. Afinal de contas, a GP2 é, ainda, uma categoria excelente. Embora ainda longe do ideal, sua estrutura de marketing, divulgação e transmissão televisiva é muito melhor do que a das antigas Fórmula 3000 e Fórmula 2. Além disso, o carro é um foguete: motor de 600cv, câmbio semi-automático, pneus Pirelli iguais aos da Fórmula 1 e desenho aerodinâmico que também segue as tendências da categoria maior. É desnecessário dizer, também, que dividir o mesmo paddock com a Fórmula 1 é algo que não tem preço. Por fim, as corridas são muito boas mesmo sem DRS. Esta, aliás, é talvez a grande vantagem sobre a World Series by Renault, que precisará do artefato da asa móvel para dar um pouco de ânimo às suas entediantes provas.

Mas nada disso ajuda quando Julian Leal e Rodolfo Gonzalez tomam as vagas de jovens talentos com qualidade e sem infinitos apoios financeiros. Dependendo apenas do interminável dinheiro de alguns playboys incompetentes, a GP2 desvia do nobre objetivo de mandar carne fresca e de boa qualidade à Fórmula 1. Se continuar assim, disse lá em cima, vai morrer.

Romain Grosjean, o campeão da temporada 2011

Começa agora a temporada mundial de caça aos flamingos. Mentira. Começa agora a reta final da temporada 2011 das diferentes categorias do automobilismo mundial. No DTM, ganhou Martin Tomczyk pela primeira vez. Na Fórmula 2, quem se sagrou campeão foi Mirko Bortolotti. No AutoGP, o joveníssimo Kevin Ceccon derrotou a velharada e ganhou seu primeiro título na vida. A Fórmula 1 e a Indy, as duas categorias mais importantes dos monopostos, ainda não consagraram seus campeões, que deverão ser os mesmos do ano passado. E a GP2?

A GP2 Series foi a primeira categoria relevante a definir seu campeão nesta temporada de 2011. No dia 27 de agosto, o suíço que se diz francês Romain Grosjean ganhou o sétimo título de sua vida após terminar a primeira corrida da etapa de Spa-Francorchamps em terceiro. Antes disso, Grosjean já havia sido bicampeão da GP2 Asia (2007/2008 e 2011), campeão do AutoGP em 2010, da Fórmula 3 Euroseries em 2007, da Fórmula Renault francesa em 2005 e até mesmo da discreta Fórmula Renault suíça em 2003. Quem diz que ele é um mau piloto não sabe o que diz e deveria discorrer sobre outros assuntos, como o voo das borboletas.

Grosjean foi talvez o campeão mais previsível de toda a ainda curta história da categoria até aqui. Embora eu estupidamente tenha apostado minhas fichas no francês Jules Bianchi no início do ano, sabia que Romain tinha totais chances de terminar o ano entre os três primeiros. E que Bianchi teria de acelerar muito se não quisesse perder o título para ele. Como o francês verdadeiro não acelerou, perdeu para o pirateado. E eu errei mais uma aposta. Até hoje, nunca acertei um campeão da GP2. De 2005 para cá, apostei em Kovalainen, Prémat, Ammermüller, Grosjean, Grosjean, Bianchi e Bianchi, nesta ordem. Ganharam Rosberg, Hamilton, Glock, Pantano, Hülkenberg, Maldonado e Grosjean. Pois é.

Foi uma temporada boa, até. Não foi genial, mas também não foi aquele desastre que todos os muitos haters da categoria adoram apontar desde sempre. Vi muita gente que não acompanha o automobilismo de base dizendo que a World Series by Renault teve um ano bem melhor e fatalmente deixará a GP2 para trás com o carro novo. Menos, pessoas. A World Series só foi melhor que a GP2 em relação à qualidade dos estreantes. De resto, a GP2 é melhor em tudo: qualidade do grid, qualidade das corridas, desempenho do carro e viabilidade comercial. Seu pecado maior foi não ter tido Daniel Ricciardo e Jean-Eric Vergne, os dois garotos da Red Bull que trouxeram toda a boa publicidade para a World Series.

Mas não fecho os olhos para os problemas da GP2, que não foram irrelevantes. O nível de pilotos, embora alto, não impediu que muitos erros fossem cometidos. Não por acaso, foi bastante comum ver a organização aplicando punições de perda de posições no grid a mais de um piloto em cada etapa. O novo carro aproximou ainda mais a categoria da Fórmula 1, o que significou também um aumento considerável nos custos. Isso fez com que muita gente talentosa e pouco endinheirada preferisse a World Series neste ano. O resultado foi o lamentável grupo de estreantes desta temporada, facilmente o pior da história da categoria: tirando o mexicano Esteban Gutierrez, campeão da GP3 em 2010, nenhum dos novatos tinha cacife para pilotar carros com quase 600cv de potência na antessala da Fórmula 1.

Giedo van der Garde: o maior adversário de Grosjean durante boa parte da temporada terminou em quinto. Bah...

Lá na frente, ao menos, as coisas prometiam. As principais equipes capricharam na escolha de seus pilotos e tudo indicava que a GP2 teria, talvez, sua temporada mais disputada na história. Mas não foi isso que aconteceu. Mesmo nomes experientes e consagrados, como Giedo van der Garde e Davide Valsecchi, não angariaram os resultados esperados e decepcionaram muitos. No fim, o título de Romain Grosjean ficou bastante facilitado. O que não quer dizer que ele mereceu. Ao contrário do Romain arrogante e imaturo de 2009, o que tivemos aqui foi um piloto completo, calculista, veloz e até afável. Aos 25 anos, ele está finalmente pronto para os desafios da Fórmula 1.

Portanto, falemos de cada equipe, assim como fiz no ano passado.

Começo com a DAMS, a equipe de Romain Grosjean. A DAMS, que foi criada em 1989 por um grupo de amigos que envolvia até mesmo René Arnoux, havia feito história na Fórmula 3000 Internacional e nos campeonatos de protótipos, mas nunca tinha sido mais do que uma simpática coadjuvante na GP2. No ano passado, a equipe ampliou sua parceria com a Gravity Sport Management, ligada ao grupo Genii, que também é dono da Renault na Fórmula 1. Esta parceria permitiu a chegada de Romain Grosjean na metade do ano passado. E o suíço, que trouxe também o apoio da joint venture energética Mercuria Group, deu um gás a mais à equipe comandada por Jean-Paul Driot.

Grosjean ganhou três corridas de sábado (Istambul, Valência e Hungaroring) e duas de domingo (Silverstone e Nürburgring). Além disso, obteve cinco terceiros lugares e uma única pole em Istambul. Nesta prova, ele venceu após se defender dos ataques duríssimos de Sam Bird. Em Valência, herdou a ponta de Giedo van der Garde, que havia sido punido. Em Hungaroring, ele também ganhou herdando a liderança de Marcus Ericsson, também punido. Em Silverstone, fez algumas ultrapassagens e ganhou com folga. Em Nürburgring, se aproveitou de um erro de Jules Bianchi no final e levou mais uma. Seu único grande erro no ano foi quase ter decapitado o companheiro de equipe em um acidente estúpido no treino oficial da etapa de Mônaco. Quer dizer, não faltou nada a Grosjean. Muito menos sorte.

Se Grosjean foi o piloto dos sonhos da DAMS, o norueguês Pal Varhaug não passou de um pequeno estorvo. Ao contrário do currículo impecável do colega, o viking só contabiliza um título na Fórmula Renault italiana e um 13º lugar na GP3 no ano passado. Mesmo que Pal não seja um mau piloto, parece óbvio que ele entrou cedo demais na GP2. Um ano a mais na GP3, por exemplo, teria lhe feito muito bem. Mas paciência, não dá para consertar o passado. Varhaug não marcou nenhum ponto, passou a maior parte do ano no fim do grid e só apareceu quando o próprio companheiro subiu em seu carro no treino oficial da etapa de Mônaco e quase lhe arrancou a cabeça. Pal Varhaug terminou o ano com o pescoço intacto e só. Foi o pior companheiro de equipe de um piloto campeão na história da categoria.

Christian Vietoris, o único que venceu corridas pela Racing Engineering

A equipe campeã da temporada foi a Barwa Addax. Esta daqui é rica e chique, pois é financiada por um grupo de investimentos do Catar e seu dono, o magnata Alejandro Agag, é um dos homens de negócios mais bem relacionados da Espanha. Não por acaso, enquanto as outras equipes se viram nos trinta para arranjar um mísero decalque de uma sorveteria no subúrbio de Auxerre, a Addax se dá ao luxo de ser patrocinada pelo Santander e pela Pepe Jeans. Mas tanta fartura nem sempre é traduzida em resultados. Virou tradição na categoria a equipe ganhar o título de construtores sem fazer um campeão.

Charles Pic e Giedo van der Garde foram os pilotos. O primeiro, francês, fez um ano bom mas sem summa cum laude. Ganhou duas corridas, uma delas (Barcelona) herdando a liderança após um problema com o companheiro Van der Garde nos pits e a outra (Mônaco) de ponta a ponta. Além disso, terminou em segundo em três corridas de sábado, o que o ajudou a finalizar o ano em quarto. No geral, dá para dizer que Pic não é tão arrojado, mas também não é tão propenso a erros e já tem condições técnicas para subir para a Fórmula 1. O problema é que, nesse momento, não há espaço para alguém discreto como ele lá.

E o Van der Garde? O genro de um dos homens mais ricos da Holanda fez mais um ano insuficiente e só subirá para a Fórmula 1 porque o patrocínio da McGregor é realmente grande e todo mundo anda precisando de um cobre a mais. Pelo segundo ano seguido, ele pilotou um dos desejadíssimos carros da Addax. Pelo segundo ano seguido, não ganhou uma única corrida sequer. Tudo bem que, em certas ocasiões, como em Barcelona, Giedo perdeu a vitória por azar. Tudo bem que sempre havia um Jules Bianchi para lhe complicar a vida. Mas não dá para creditar tudo ao acaso. Tanto a liderança em Valência como a pole-position em Mônaco desapareceram devido a merecidas punições. E o final da temporada foi patético. Van der Garde entrou nas últimas corridas como principal adversário de Grosjean e saiu delas como um infeliz quinto colocado. Riquinho superestimado, é isso o que ele é.

A Racing Engineering foi a terceira colocada entre as equipes. Seus pilotos tiveram sortes diferentes nesta temporada. O catalão Dani Clos fez sua terceira temporada pela equipe espanhola e não conseguiu repetir as mesmas boas atuações do ano anterior, quando chegou a sonhar com o título. Embora tenha aparecido bem com algumas boas ultrapassagens, Clos não conseguiu nada além de dois segundos lugares nas corridas dominicais de Barcelona e Silverstone. Seu maior problema era a incapacidade crônica dos carros da Racing Engineering em manterem os pneus Pirelli em bom estado até o final da corrida, o que fez com que algumas corridas promissoras do piloto, como a segunda de Istambul, fossem totalmente prejudicadas. Mas devo confessar que Clos também não é muito mais do que isso.

Sam Bird: é legal vê-lo correr, mas não nesta temporada

Seu companheiro, sim, fez uma temporada legal. Christian Vietoris teve um ano bem cansativo, pois dividiu suas atenções entre a GP2 e a DTM. No fim, apareceu bem em ambas. É verdade que as primeiras corridas da temporada não foram tão boas – ele chegou a ficar de fora da rodada de Mônaco após se machucar em um acidente em Istambul.  Todavia, a partir de Silverstone, as coisas melhoraram drasticamente. Na primeira corrida da pista inglesa, Vietoris protagonizou um belíssimo duelo com Jules Bianchi e terminou em segundo. Nas etapas seguintes, conseguiu duas vitórias em Spa-Francorchamps e em Monza. Também teve problemas com os pneus, mas não tanto como o companheiro. No fim das contas, terminou duas posições à frente dele. Fico feliz, pois Vietoris é um bom piloto que parecia estar perdendo o rumo da carreira até o início deste ano. Quanto à Racing Engineering, a equipe só ganhou o prêmio de melhor pintura da temporada. Mau gosto, o dos premiadores.

A iSport me irritou profundamente em 2011. No início do ano, a equipe parecia ser, de longe, a mais legal do grid. Em primeiro lugar, porque ela é 100% brit. Em segundo lugar, porque sempre costuma ter os carros mais bonitos da temporada. Por fim, mas não menos importante, sua dupla de pilotos seria composta por Sam Bird e Marcus Ericsson. No fim das contas, a pintura deste ano ficou horrível e os pilotos desapontaram. Bastante.

O crime de Sam Bird é ser arrojado demais. O de Marcus Ericsson é ser muito irregular. Juntos, então, os dois protagonizaram alguns dos momentos mais imbecis do início da temporada. Em Mônaco, a situação chegou às raias do absurdo: no treino oficial, Bird e Ericsson bateram um no outro. Na primeira corrida, os dois voltaram a se encontrar na Mirabeau. Paul Jackson, o chefe, ficou tão irritado que, na semana seguinte, convidou os dois para darem um pulo na sede da iSport e ajudarem os mecânicos a consertar os carros destruídos. Nada como um pouco de suor para dar um pouco mais de valor ao trabalho alheio.

Torço pelo Sam Bird. Considero-o um dos melhores pilotos da GP2, mas devo dizer que sua temporada 2011 foi apenas mediana. O início, de fato, foi muito bom e Bird terminou a primeira corrida de Istambul colado na caixa de câmbio do vencedor Grosjean. Nas duas corridas seguintes, ele obteve dois terceiros lugares e chegou a sair de Barcelona como líder do campeonato. Em Mônaco, Bird herdou a pole-position, mas sua sorte mudou drasticamente a partir da corrida, quando ele não conseguiu largar. Depois disso, não conseguiu nada melhor que dois quartos lugares em Monza. Não cometeu tantos erros nesta nova fase azarada, mas também não chamou a atenção, o que era sua grande especialidade no ano passado. Que, em 2012, consiga reverter esta má sorte.

Marcus Ericsson fez um trabalho apenas digno, nada além disso. Ao contrário de Bird, sua melhor fase ocorreu mais ou menos na metade da temporada, ainda que ele tenha pontuado nas duas corridas de Barcelona. Sua melhor apresentação, de longe, foi em Hungaroring: terceiro colocado no grid, Ericsson passou os dois primeiros na largada e disparou na liderança. Para sua infelicidade, sua equipe o liberou de sua parada nos pits em um momento perigoso e Marcus acabou punido. Com isso, sua única grande chance de vitória virou pó. As últimas corridas foram um lixo e o sueco com cara de caricatura terminou o ano em décimo.

Amanhã, e provavelmente na quarta, continuo falando sobre a temporada 2011 da GP2 Series.

 

Cena comum em 2010

Oba, um texto sobre a GP2! Pois é, pequenos gafanhotos. Nos próximos dois dias, o Bandeira Verde só falará sobre a categoria mais legal do mundo nos dias atuais. Há quem ache uma tremenda forçada de barra dizer que a GP2 é tão legal assim. Mas ela é, embora já tenha tido dias mais interessantes.

O calcanhar de Aquiles da categoria, atualmente, é o carro. A atual geração do Dallara-Renault, que começou a ser utilizada em 2008 e que felizmente foi abandonada após os últimos testes em Abu Dhabi, não conseguiu permitir que os pilotos tivessem o mesmo nível de disputas como tinham com os carros da geração antiga. Dizem que o que mais pega é a questão do efeito solo, que foi quase suprimido com a introdução de um fundo 100% plano no Dallara atual. O antigo, com fundos curvados, gerava efeito solo o suficiente para garantir a aderência necessária na hora de se pensar em uma ultrapassagem. Se a próxima geração do chassi, a ser utilizada entre 2011 e 2013, terá o tal fundo curvado? Mistério, mistério.

O caso é que o novo carro ficará muito parecido com a nova especificação da Fórmula 1, que exige carros com asas dianteiras mais largas e asas traseiras estreitas. Receio que essa conexão cada vez mais paulatina com a Fórmula 1 possa, a médio prazo, até matar a GP2. As equipes, que serão 13 no ano que vem, estão reclamando dos altíssimos custos, que ficaram ainda maiores após a troca de carros. E o pior é que o aumento será repassado aos pilotos. Nesse ano, a ART chegou a cobrar absurdos 2 milhões de dólares para correr em um de seus valiosos caros. É verdade que correr na ART é o máximo, mas 2 milhões para uma categoria-base é inaceitável. E a situação ficará ainda pior. Há estimativas que dizem que, em 2011, correr na GP2 poderá custar até 2,5 milhões de dólares. Quem vai pagar tudo isso pra competir em um campeonato que, sejamos honestos, só eu e mais uns 16 dão importância? Por causa disso, aposto: 2011 será o ano de aberrações como Rodolfo Gonzalez na iSport e Josef Kral na Addax.

Se o futuro parece nebuloso, falemos do presente e do pretérito perfeito. 2010 foi um ano bom, nada além disso. Campeão e vice, o venezuelano Pastor Maldonado e o mexicano Sergio Perez, fizeram uma temporada impecável e foram, de longe, os dois melhores pilotos do ano. Sergio Perez já arranjou um lugarzinho na Sauber para o ano que vem, e Maldonado deverá ser confirmado como companheiro de Rubens Barrichello na Williams nas próximas semanas. A ascensão é merecida. Juntos, os dois ganharam onze das vinte corridas. Se parece ter faltado adversários para entrar aí na briga, por outro lado não há como creditar um mérito extra aos dois por terem dominado um campeonato com carros teoricamente iguais.

Sam Bird, um dos destaques

Começamos pelos dois, portanto. Pastor Maldonado deve ter sido um dos pilotos mais mencionados nesse site nos últimos meses. O venezuelano, que fez sua quarta temporada, conseguiu a proeza de vencer seis Feature Races, aquelas de sábado, consecutivas. Em Istambul, Silverstone, Hockenheim e Hungaroring, ele foi simplesmente imperial e não teve adversários. Em Valência, ultrapassou Jules Bianchi em duas ocasiões e Perez para assumir a ponta. Em Spa-Francorchamps, aproveitou-se do abandono de Jerôme D’Ambrosio e ainda conseguiu suportar a pressão de Álvaro Parente na última volta. É verdade que, apesar do ano impecável, o sempre agressivo piloto da Rapax não podia deixar de cometer seus erros. O maior deles ocorreu em Monza, quando Maldonado bateu com tudo no DAMS de Romain Grosjean ainda no comecinho da prova.

Sergio Perez foi considerado, por muitos, o melhor piloto do ano. Os que compartilham da opinião pensam que Maldonado só dominou porque tinha quatro anos de experiência. Perez, por outro lado, estava em sua segunda temporada, sendo a primeira em uma equipe grande. Venceu duas corridas Feature e três Sprint, aquelas menores de domingo. Poderia ter vencido mais, como a corrida de sábado de Barcelona, que foi jogada no lixo após um mau trabalho de sua equipe, a Addax, nos pits. O destaque maior vai para a segunda corrida de Silverstone, na qual ele ultrapassou três pilotos e venceu com maestria. Agressivo, inteligente, confiante e pouco propenso a erros, o mexicano mostrou que está pronto para a Fórmula 1.

E o restante da galera? A categoria teve outros trinta pilotos que fizeram de tudo e mais um pouco para conter o domínio dos hispanohablantes da América Latina. Vou comentar sobre as equipes e acabo comentando sobre todos esses pilotos. E falo dos dois brasileiros por último.

Começo falando da Addax. Como o brilhante ano de Sergio Perez já foi apresentado acima, só me resta falar de seu companheiro, o superestimado Giedo van der Garde. Sétimo colocado no campeonato, o holandês, enteado de um dos homens mais ricos de seu país, teve apenas algumas poucas atuações de brilho, como os três terceiros lugares nas corridas dominicais de Mônaco, Valência e Spa-Francorchamps. O estilo agressivo de pilotagem apresentado no ótimo 2009, quando ele venceu três corridas pela iSport, parece ter ficado para trás. Com 25 anos e competindo em monopostos há bastante tempo, VDG já não tem mais o que fazer em categorias de base. Pleiteia um lugar na Fórmula 1 para o ano que vem.

Davide Valsecchi, uma das decepções

E a ART, hein? A equipe rica e bonitona do Nicolas Todt se deu ao luxo de meter a faca em seus dois pilotos, Jules Bianchi e Sam Bird, tirando quase 2 milhões de dólares de cada um deles. O francesinho se garantiu como o primeiro piloto porque tem apoio direto da Ferrari por trás. Restou a Bird, que tem patrocinadores razoáveis, entrar como o segundo piloto, esperando colher apenas os restos deixados por Jules. Mas por incrível que pareça, Bianchi decepcionou um bocado e Bird surpreendeu positivamente. A única vitória da equipe aconteceu em Monza, exatamente com o subestimado inglês. Além disso, Sam chamou a atenção com duas belas ultrapassagens na segunda corrida de Monza. Enquanto isso, Bianchi até fez três poles, mas não venceu nenhuma corrida. E ainda se envolveu em acidentes imbecis, como os de Istambul e Barcelona. Curiosamente, a vítima em ambos foi Charles Pic. Já Bird sofreu como azares de todo tipo. Ano infeliz para a ART, que já confirmou Esteban Gutierrez para 2011 e deverá continuar com Bianchi no outro carro.

Os oriundos da Fórmula 3 europeia sofreram bastante, e não foi só Bianchi que acabou decepcionando. Na Racing Engineering, todo mundo começou o ano depositando todas as fichas em Christian Vietoris, vice-campeão da F3 em 2009 e ex-protegido da BMW. O espanhol Dani Clos, o outro piloto, era só o mauricinho que levava a grana que faz a equipe funcionar e que só o eterno otimista Alfonso de Orleans e Bourbon acreditava. Mas assim como na ART, as coisas se inverteram na Racing. Dani Clos foi uma das sensações do campeonato ao fazer um início de campeonato excelente, chegando a peitar Maldonado e Perez na pontuação.  Os destaques ficam para a pole-position em Mônaco e para a vitória de ponta a ponta na segunda corrida de Istambul. Apesar da queda de rendimento após a rodada de Silverstone, Dani conseguiu terminar o ano em quarto, algo inacreditável. E Vietoris? Teve muitos azares, mas também não conseguiu andar próximo de Clos em boa parte da temporada. Ao menos, fez uma ótima Sprint Race em Monza e conseguiu sua única vitória no ano. 2011 será um ano decisivo para “Fítorris”: ou vai ou racha. Apoiado pela Gravity, ele sabe que tem muita gente na empresa que está em posição melhor do que ele para subir para a Fórmula 1.

A iSport, uma das minhas equipes favoritas na categoria, teve outro ano como aquela típica equipe que sempre está lá na frente e que ganha umas duas ou três corridas por ano, mas que não consegue chegar com fôlego pra brigar pelo título na reta final. Ao menos, a pintura do carro, branca com quadrados vermelhos e azuis, ficou ótima. Cortesia da Racing Steps Foundation, empresa de gerenciamento esportivo que apoiou o inglês Oliver Turvey, um dos destaques do campeonato. Sexto colocado na pontuação, Turvey não venceu nenhuma, mas teve ótimas atuações e conseguiu alguns pódios. Sua melhor corrida foi a primeira de Abu Dhabi: pole-position e segundo lugar, após perder a ponta para um impecável Perez. Oliver conseguiu convencer mais do que seu companheiro Davide Valsecchi, que também fez uma pole e até venceu a segunda corrida de Abu Dhabi. Mas Valsecchi está em seu terceiro ano na GP2 e parece não sair daquela condição de piloto mediano que anda bem de vez em quando e comete mais erros do que o aceitável. Oitavo lugar minguado na classificação final para o italiano.

Amanhã, a segunda parte.

Seguinte, personas. Um jornal belga, o La Libre, andou falando que a Virgin deverá ter, de fato, um novo companheiro de equipe para o alemão Timo Glock. Lucas di Grassi, portanto, estaria realmente fora. A novidade é que quem ocuparia essa vaga não será mais o belga Jerôme D’Ambrosio. O agraciado é o holandês Giedo Van Der Garde, sexto colocado na atual temporada da GP2 Series.

Segundo o jornal, o próprio D’Ambrosio teria desistido da vaga, uma vez que não tem dinheiro o suficiente. Van Der Garde, por outro lado, é MUITO rico. Por meio de seus patrocinadores, como a grife McGregor, ele teria conseguido oferecer o dobro da quantia oferecida pelo belga. Além disso, seu padrasto seria um dos homens mais ricos da Holanda.

O contrato seria assinado em Interlagos. É uma pena que isso venha a acontecer. Tanto Di Grassi quanto D’Ambrosio são bem mais talentosos do que Van Der Garde, que é bastante experiente e só conseguiu o título da World Series by Renault em 2008 devido a isso.

Vale lembrar que o jornal é belga e não seria normal da parte deles anunciar o infortúnio do único piloto de seu país com chances concretas de chegar à Fórmula 1. A conferir.