Nos anos 90, havia um cara lá no meio do grid que costumava animar as corridas. Umas duas vezes por ano, ele aparecia nas transmissões televisivas como aquele showman que carregava um carro precário nas costas lá para as primeiras posições ou como aquele showman que se safava dos acidentes mais impressionantes. Muitos gostavam dele e muitos o achavam um tremendo de um picareta. Eu estou no grupo do meio, mas reconheço que Johannes Franciscus Verstappen, ou simplesmente Jos Verstappen, era um dos meus pilotos preferidos. É a primeira vez que faço uma homenagem a um piloto nesse blog, e escolho Jos The Boss, o piloto holandês mais expressivo da história da Fórmula 1.

Verstappen nasceu na minúscula cidade de Montfort no dia 4 de Março de 1972. Estimulado pelo seu pai Frans, Jos começou a correr de kart aos 8 anos. E sua trajetória foi simplesmente impecável: campeão holandês em 1984 e 1986, campeão europeu em 1989 em duas categorias (Formula K e Intercontinental A) e campeão belga em 1991. Até aí, tudo bem, muitos kartistas são verdadeiros amontoados de títulos. No final de 1991, o cara foi chamado para testar um Fórmula Ford datado de 1985 no circuito de Zandvoort. Lá estavam seu pai e Huub Rothengatter, ex-piloto de Fórmula 1 que empresaria pilotos. Os tempos são impressionantes e Verstappen deixa o autódromo com um contrato com Rothengatter e o patrocínio da Marlboro.

Para 1992, Jos estrearia nos monopostos lá na Fórmula Opel Lotus realizada no Benelux (Bélgica, Holanda e Luxemburgo). E logo em sua temporada de estréia, Jos venceu 5 das 6 corridas e levou seu primeiro título para casa. De quebra, ele deu um pulo em Zolder para disputar a etapa dupla da Opel Lotus européia. O saldo: duas largadas e duas vitórias. No começo de 1993, ele ainda faz algumas etapas na Fórmula Atlantic neozelandesa e, sem conhecer o carro, venceu três corridas. O cara era um fenômeno.

Verstappen na F-Opel Lotus Benelux

Em 1993, Verstappen é chamado para correr na Fórmula 3 alemã pela WTS, ex-equipe de Michael Schumacher e a melhor da categoria. Depois de um começo discreto, o alemão vence oito etapas, termina outras cinco em segundo e se sagra campeão com extrema facilidade. Para completar o bolo com a cereja, Jos ainda venceu o Masters de Zandvoort, a corrida de Fórmula 3 mais importante da Europa.

Passeando na F3 alemã

A FÓRMULA 1 DESCOBRE VERSTAPPEN

O cara era tão sensacional que as equipes de Fórmula 1 começaram a disputá-lo a tapa! A Tyrrell prometeu a ele um teste, mas a Footwork saiu do campo da promessa e o colocou dentro de um carro no circuito do Estoril em Setembro ao lado de Gil de Ferran, mais experiente. E Verstappen foi 1,5 mais rápido que Gil de Ferran, e de quebra ainda fez um tempo melhor que o feito por Aguri Suzuki em fim de semana de corrida, um dos titulares da equipe! O cara era REALMENTE um fenômeno!

As grandonas McLaren e Benetton foram atrás do holandês para uma vaga de test-driver em 1994. Inicialmente, graças ao apoio da Marlboro, Verstappen se aproximou da McLaren e até testou pela equipe de Woking. Porém, em um movimento rápido e surpreendente, a Benetton acabou anunciando sua contratação em Janeiro. Uma semana depois do anúncio, o piloto oficial J. J. Lehto sofreu um acidente violento em testes em Silverstone e, com uma vértebra quebrada, teve de anunciar sua ausência das primeiras etapas da temporada. A Benetton não teve outra escolha senão promover Verstappen a titular. E assim, aos 22 anos e com apenas 52 corridas de monoposto no currículo, Jos Verstappen estrearia na Fórmula 1 no GP do Brasil de 1994.

A McLaren quis, mas ele preferiu a Benetton

O Benetton B194 era um carro caracterizado pela tendência ao sobreesterço, característica que agradava demais Michael Schumacher. Os outros pilotos, porém, tinham enormes dificuldades para dirigir um carro que saísse tanto de traseira. Sem muitos testes, Verstappen sofreria muito nesse carro.

E foi exatamente assim em Interlagos. Na classificação, Verstappen mostrou sua falta de preparo ao rodar na Junção. Ele largou em nono, nada muito ruim, mas a sua primeira corrida terminou de maneira assustadora: ao tentar ultrapassar Eddie Irvine, o irlandês o fechou na Reta Oposta e ambos se envolveram em uma carambola bizarra com mais dois carros. A Benetton deu uma pirueta no ar e caiu com tudo no chão. Fim de corrida. Em Aida, Verstappen cometeu um erro primário: ao sair dos boxes, o holandês ignorou os pneus frios e acelerou tudo na primeira curva. Rodou e terminou na caixa de brita. Começava a surgir a fama de barbeiro.

O belo B194

Lehto voltou à ativa em Imola e Verstappen só fazia testes. O finlandês, porém, voltou em péssimas condições e a Benetton não tardou em colocar o holandês de volta no Benetton nº 6 a partir de Magnycours. Sua reestréia foi complicada e Verstappen bateu forte no muro dos boxes na classificação, destruindo uma câmera de TV da FOCA. Mas legal mesmo foi o “inferno” de Hockenheim.

VERÃO QUENTE NA ALEMANHA

O GP da Alemanha de 1994 estava virado de cabeça para baixo. Na largada, dez carros se envolveram em acidentes múltiplos. Quem não batia, quebrava. Um dos que vinham sobrevivendo era exatamente Verstappen, o quinto colocado.

Na volta 15, o holandês foi para os pits fazer reabastecimento e troca de pneus. 1994 marcava o retorno do reabastecimento à Fórmula 1 e a Benetton, para ganhar tempo nas paradas, retirou da mangueira de combustível o “lacre” que controlava o fluxo de gasolina. O resultado foi que, quando o mecânico retirou a mangueira, um monte de combustível vazou sobre mecânicos e carro. A gasolina entrou em contato com as partes quentes e o resultado foi um incêndio de proporções seríssimas.

Benetton frita

Pânico no paddock. Os mecânicos de várias equipes se unem para conter o fogo. Jos Verstappen pula do carro em chamas. Depois de muitos baldes de água e montes de espuma de incêndio, o pandemônio foi controlado. O holandês saiu com algumas queimaduras na cara, mas nada que um Gelol não resolvesse. Depois desse episódio, a Benetton passou a ser investigada com relação ao equipamento de reabastecimento.

Verstappen frito

O FINAL DE 1994

O pior é que, após as chamas, o desempenho de Verstappen melhorou sensivelmente. Na Hungria, ele fez uma ótima corrida e garantiu seu primeiro pódio. Sua última volta, porém, foi curiosa: o McLaren de Martin Brundle, que vinha em terceiro, parou com problemas. Schumacher, o líder da corrida, diminuiu sensivelmente seu ritmo para permitir que Verstappen, retardatário, recuperasse uma volta e ultrapassasse o carro de Brundle. E assim fez-se seu primeiro pódio. Um detalhe: foi a única vez que, de fato, ele foi à cerimônia do pódio.

15 dias depois, em Spa-Francorchamps, ele também obteve um terceiro lugar às custas da desclassificação de Schumacher. Verstappen ainda marcaria mais dois pontos em Portugal. Mas o desempenho não vinha agradando a Benetton, que queria um piloto que pudesse ajudar Michael Schumacher na briga pelo título. Assim, após o GP da Europa, Johnny Herbert entrou em seu lugar. Acabou aí o primeiro ano de Verstappen na F1. E apesar de não ter sido uma boa temporada, seria a de maior número de pontos de sua carreira.
 
Amanhã, a segunda parte.

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