christmascarol

Era uma vez um homem de baixíssima estatura, cabelo alvo e olhos de águia protegidos por um clássico par de óculos redondos. Apesar do relativo handicap físico que a natureza impiedosamente lhe conferiu, trata-se de um homem altivo, poderoso e de inteligência ímpar, admirado por muitos e temido por tantos outros. A idade já bastante avançada não lhe consumiu qualquer traço de disposição ou astúcia. Que homem é este? Naquela pequena plaquinha devidamente pregada na porta de entrada de um gélido escritório na City londrina, pode-se avistar uma parte de seu nome: Mr. Bernard.

Daquela ampla sala com bela vista para o Tâmisa, Mr. Bernard comandava os rumos de um verdadeiro império. Seu ofício, muito bem executado desde há algumas décadas, é o de mandar e desmandar em um campeonato de carros de corrida que aceleram bastante em suntuosos circuitos ao redor do mundo. O ganha-pão de milhares e o divertimento de milhões estavam em suas enrugadas mãos.

Mr. Bernard é um sujeito compenetrado. Obstinado. Obcecado. Para ele, nada há de mais importante nessa vida ordinária do que dinheiro e poder. Quanto mais dinheiro, melhor. Quanto mais poder, melhor. Quanto mais dinheiro, mais poder, e vice-versa. Tendo ambos em abundância, qualquer outra coisa pode ser obtida. Mas do que mais Mr. Bernard precisaria se ele tem dinheiro e poder?

Mr. Bernard realmente não pensa em mais nada. Por causa disso, ele transformou seu campeonato de carros de corrida em uma verdadeira máquina de fazer dinheiro fácil. Os valores pagos pelas televisões ao redor do planeta, as inúmeras placas de publicidade, as inscrições feitas pelas equipes, as quantias despendidas pelos organizadores dos grandes prêmios, os direitos sobre o uso da marca, a receita da cantina, todo o fluxo de verdinhas tem um único destino: a conta corrente de Mr. Bernard. O que sobra para os outros? Muito pouco.

A ganância desmedida de Mr. Bernard se reflete na total pasteurização do seu campeonato de carros de corrida. Nos início dos anos 70, quando Mr. Bernard ainda trabalhava apenas como dono de equipe, a categoria não se diferenciava muito de uma festa campestre com relação ao ambiente e ao luxo. Pilotos destemidos conduziam baratinhas sem cinto de segurança ou qualquer outro artefato que protegesse sua integridade em circuitos sem barreiras de pneus e áreas de escape. Como os custos eram baixos e a liberdade era alta, qualquer um entrava. Qualquer um mesmo. Nem precisava de credencial.

Em poucos anos, Mr. Bernard transformou aquele arraial em um dos maiores espetáculos do planeta. Os carros se tornaram mais velozes, mais seguros e mais rentáveis. Em seus cockpits, os flamboyants diletantes deram lugar a atletas do mais alto nível. Os circuitos se transformaram em verdadeiros colossos arquitetônicos. Empresas e políticos apareceram aos montes trazendo grana e prestígio. A televisão levou o show para todos os cantos do planeta. Mr. Bernard ficou rico. Bilionário.

O problema é que a categoria, que era legal e democrática, se tornou um negócio antipático, frio, burocrático, distante das pessoas. Os antigos fãs se afastaram e não são muitos os jovens que se interessam. Mr. Bernard não se importa. A opinião da vassalagem não vale uma única libra. Não importa se os circuitos mais tradicionais estão desaparecendo, as equipes estão ficando empobrecidas, muitos ótimos pilotos nem sonham em passar pelo portão dos autódromos e a audiência esteja caindo. O que importa é a conta corrente.

– Mr. Bernard, eu não consigo pagar os 50 milhões de dólares anuais para manter meu país no calendário. Por favor, faça um desconto para mim.

– Claro. Dou um desconto de até 50 milhões de dólares se quiser. Basta não ter mais corrida no seu país.

– Mr. Bernard, minha equipe está falindo. Não consigo achar patrocinadores, o dinheiro das cotas televisivas é muito pouco e os custos só estão subindo.

– Vocês vão sair? Ótimo. Sem seu motorhome, teremos mais espaço no paddock.

– Tio, me dá dinheiro pra comprar um pacote de bolacha?

– Peça ao Mr. Max.

paganizonda

Noite do dia 24 de dezembro. Após um longo dia de trabalho, Mr. Bernard decide retornar para sua rotunda mansão. O pequeno ancião pega seu agasalho preto, um gorro de lã, luvas, deixa o escritório e entra em seu Pagani Zonda, estacionado na calçada da frente. Neva muito. Sem pneus com corrente, é necessário certo cuidado para dirigir pelas longas ruas londrinas.

Silenciosamente, Mr. Bernard chega em casa. O britanicamente eficiente relógio na parede do hall não mente: é quase meia-noite. Sem fome, nosso bom velhinho sobe lentamente as escadas desejando apenas uma boa noite de sono. Ele se aproxima da porta do quarto. Fechada. Tenta abri-la. Ela está trancada. A esposa deve estar uma fera. Por que será? O que eu fiz? Mr. Bernard pensa por alguns segundos e se lembra do ocorrido. Ele estava dando ré com seu Pagani, não olhou para o retrovisor, passou em cima da patinha do pobre poodle de estimação da patroa e sequer pediu desculpas. É, ele terá de passar a noite no sofá.

Sem sua cama, Mr. Bernard decide adiantar o trabalho para o dia seguinte. Ele desce lentamente as escadas, vai à cozinha, pega uma xícara morna de café e ruma ao escritório da mansão, um enorme cômodo com centenas de livros, papeis e uma réplica 1:2 de uma Ferrari. Instalado confortavelmente em sua poltrona, Mr. Bernard ligou seu notebook, companheiro inseparável, e reiniciou seus trabalhos. Entre suas tarefas, um plano de negócios para um futuro GP do Sudão, um estudo que justificaria um aumento de 568% nos valores de inscrição das equipes e um projeto de cobrança para cada foto tirada nas corridas e publicada em mídia impressa e internet.

Mr. Bernard é um homem sério e que não se desconcentra por qualquer coisa. Enquanto dedilha rapidamente pelo teclado, a janela maior do escritório faz um ruído incômodo, como se quisesse abrir violentamente. Seria o vento da nevasca? Não pode ser, pois não está nevando tanto assim, os galhos das árvores lá fora não estão se mexendo tanto. Cupins? Um rato? Nada disso parecia provável.

De repente, a janela se abre com força.

Uma forte luz irrompe o escritório. Mr. Bernard, que não se assusta com quase nada, dá um pulo para trás. Será que minha hora chegou? Poxa vida, sou jovem e bonito demais para morrer. A luz amarelada vem acompanhada de uma espécie de neblina espessa e de cheiro forte, algo semelhante a gelo seco. Eis que uma parte desta neblina começa a formar uma espécie de molde. Um molde humano. Uma coisa horrível. Um fantasma.

– Niki Lauda?!

– CALADO! Você sabe bem quem eu sou.

A forma humana não tem rosto. Sua cabeça tem o formato de um capacete. Amarelo. Com uma listra verde e outra azulada. O fantasma parece estar vestido. Um macacão. A harmonia azul e branca é agredida por manchas aleatórias de tom avermelhado.

– Venha comigo.

– Espere, para onde você está me levando? Eu tenho de trabalhar.

– VENHA COMIGO.

O escritório desapareceu no meio da neblina. Em poucos segundos, a neblina deu lugar a um autódromo. Muitas vozes eram ouvidas. Em italiano. Pelo que Mr. Bernard conseguiu interpretar, faltava pouco para o início de uma corrida.

“Eu era seu piloto favorito. Em seu campeonato, ninguém me superava. Ganhei três títulos. Venci dezenas de corridas. Muitas em circunstâncias inacreditáveis, que aumentavam a dramaticidade e tornavam seu campeonato ainda mais atraente e bonito. Os fãs, e eles eram contados aos milhões, ligavam a televisão e compravam ingressos apenas para me ver. A verdade é que, sem mim, seu esporte perderia grande parte da graça”.

O pole-position daquela corrida era um piloto muito parecido com o tal fantasma. Enquanto ele entrava no carro, o fantasma prosseguia:

“Você lucrou muito comigo, Bernard. Você sabe disso. O que você não sabe era a dor que senti no coração por ter de correr naquele dia”.

“Eu não deveria ter largado. Após o que aconteceu no sábado, a morte daquele rapaz, tudo o que eu mais queria era ir para a casa rever minha namorada e descansar um pouco. Mas você não quis. Você queria realizar aquela merda daquela corrida. Ninguém mais queria. Todos desejavam cancelar as atividades e ir embora. Só você, caralho, queria essa corrida. Apenas para não perder dinheiro. Unicamente por causa da porra da sua carteira. E sabe o que aconteceu?“.

Mr. Bernard, assustado, e o fantasma, indiferente, assistem ao talentoso piloto, muito mais rápido que os demais, espatifando seu belo carro azul e branco num implacável muro de concreto. As cenas a seguir são das mais dramáticas: o corpo do super-herói inerte, a poça de sangue, o desespero tomando conta de todos.

“Você perdeu seu piloto favorito. Você perdeu sua galinha dos ovos de ouro. Tudo porque você não faz concessões. Você nunca faz concessões. Você se acha perfeito. Tão perfeito que vai dormir no sofá em plena véspera de Natal. Eu estou aqui, em outra dimensão, rindo da mediocridade de sua alma, Bernard!”.

O tom exaltado do fantasma arrepia Mr. Bernard, cujos batimentos cardíacos disparam. Enquanto gritava, o capacete do fantasma desaparecia lentamente, pondo à mostra a face destruída de um ídolo, uma mistura de horror e escatologia. Mr. Bernard põe as mãos em seus olhos tentando evitar aquela imagem desagradável. Subitamente, tudo escurece. Tudo. Some o autódromo, o piloto, os paramédicos, o fantasma, tudo some. Acabou? É isso?

Não acabou.

fantasmadopassado

A escuridão não dura mais do que alguns poucos segundos. Mr. Bernard não faz a menor ideia do que está acontecendo. Seria algum efeito do café? Enquanto tentava articular algum pensamento, surge um pequeno foco de fumaça em um canto. A fumaça cresce rapidamente e se transforma em uma nova cortina de neblina espessa.

Tremendo da ponta do cabelo até a unha do dedão do pé, Mr. Bernard permanece estático. Após invadir toda a escuridão, a neblina começa a ganhar forma. Muito rapidamente. Uma nova forma humanoide.

O que seria este fantasma? Ele também está de capacete e macacão, mas o formato avantajado do corpo parece não condizer com a forma de um piloto de corridas. Em sua mão direita, uma chave de roda. Mr. Bernard, completamente assustado, faz a pergunta óbvia “quem é você?”.

“Eu sou um mecânico espanhol. Venha comigo”.

Em segundos, Mr. Bernard e o fantasma parecem atravessar várias dimensões. De repente, a imagem ganha cor e nitidez. A imagem de uma pequena e simpática cidade espanhola.

Mr. Bernard e o fantasma se aproximam de uma casa. Quadrada, pequena, antipática. O gramado alto, a caixa de correio danificada e os pneus velhos espalhados pelo quintal indicavam que os tempos andavam difíceis para quem quer que habitasse aquela modesta construção. Os dois se aproximam de uma das janelas, que dava para uma sala de jantar.

Na ponta da mesa, um homem muito semelhante ao fantasma. Nas demais cadeiras, uma mulher de boa porém sofrida aparência e duas crianças de olhar cabisbaixo. Na outra ponta, um enfraquecido idoso que tentava manter o sorriso no já desgastado rosto.

– Papai, o que vamos ganhar nesse ano?

– Minha querida filhinha, o papai não tinha muito dinheiro. Comprei essa bonequinha aqui. Ela não é a que você queria, mas saiba que o papai comprou com todo o amor e coração.

A menina ameaça torcer o nariz, mas ciente das dificuldades da família, troca a frustração pelo sorriso conformado.

– Querido, até quando as coisas serão assim? – pergunta a entristecida esposa.

– Não sei. A equipe ainda não me pagou nada.

– Nada, nada?

– Eles não tinham dinheiro algum. Tudo estava ficando cada vez mais caro. Não dá pra culpar o pessoal lá dentro. Os chefes não tinham dinheiro algum para conseguir pagar sequer os fornecedores.

– E o tal do Mr. Bernard ajudou sua equipe de alguma forma?

– Nada disso. Ele disse que é até bom. E que não queria doze, mas só dez equipes na categoria.

– Não acredito.

– Na verdade, não é que a equipe precisava de ajuda dele. Era só uma questão de baixar os custos. Estávamos viajando para vários países, as taxas estavam altíssimas e as possibilidades de retorno eram cada vez menores. Com a crise, fica ainda mais difícil para obter patrocínio. A verdade é que Mr. Bernard quer mais é que as equipes pequenas sumam. A minha sumiu e ele deve estar todo feliz em sua enorme casa.

Enquanto pai e mãe discutem, o garoto interrompe com a pergunta fatal:

– Papai, e o meu presente?

– Filhão… Meu filho… Você é o homenzinho da casa, está crescendo e consegue entender as coisas. Eu comprei apenas uma lembrancinha para sua irmã porque ela ainda é pequena. Não fique chateado com o papai. Eu prometo que quando as coisas melhorarem, você vai ganhar um baita presentão.

– Tudo bem.

Uma única lágrima escolheu pelo rosto do garoto, que a limpou rapidamente com os dedos e prosseguiu comendo seu modesto prato de frango com alface. O pai não aguentava mais aquela situação. Ficar sem emprego em pleno Natal era o pior que poderia acontecer.

Pouco depois, todos foram dormir. Todos menos um. Após perceber que a esposa havia adormecido, o pai se levantou e foi sorrateiramente em direção a um armário. Uma das portas foi aberta cuidadosamente e ele começou a tatear as coisas lá dentro. Ah, encontrei. Um pequeno revólver. Após recarregá-lo, o homem saiu de casa, andou por alguns poucos quilômetros e avistou uma praça vazia. Sentou-se em um banco, pensou por alguns segundos e sacou a arma de seu bolso.

“Quer ver o resto?”, perguntou o fantasma, com um sorriso transbordando cinismo e sadismo. Mr. Bernard ficou sem resposta. Para seu alívio, as imagens desapareceram rapidamente.

“Como é bom ter menos equipes no grid, não é? Afinal de contas, é menos gente empregada também. O melhor de tudo é que sobrará mais dinheiro e mais espaço no paddock para você! Feliz Natal!“.

Após pronunciar essas palavras, a figura do fantasma desaparecia em meio a risadas cínicas e mais fumaça. Naquela altura, Mr. Bernard soluçava como um bebê prestes a cair no choro. Totalmente amedrontado, ele fechou seus olhos esperando que tudo aquilo acabasse. Após alguns segundos, os olhos reabriram. O escritório. Os livros. A poltrona. A réplica da Ferrari. Tudo estava lá. Acabou. ACABOU!

Só que não.

yemen

Enquanto tentava se recompor de toda a loucura, uma forte ventania invadia o aposento de Mr. Bernard. Vento bravo. Enquanto o velho tenta fechar a janela, uma grande sombra se forma em uma das paredes.

Mr. Bernard observa a sombra com apreensão. A sombra estava estática. Ela era grande, assustadora e inexplicável, mas não fazia absolutamente nada. Os segundos se passavam e absolutamente nada acontecia. Aí o medo deu lugar à irritação:

– Você é mais um fantasma?

Nada.

– O que diabos você quer?

Nada.

– Você quer me passar mais alguma mensagem?

Nada.

– Por favor, reaja! Grite, destrua esse escritório, faça qualquer coisa.

Nada.

– Então vá para o inferno. Vou voltar para o trabalho.

De repente, a sombra cresceu de forma definitiva e engoliu tudo. Num piscar de olhos, Mr. Bernard estava em um autódromo. Mas que autódromo era aquele?

Era um autódromo grande, bonito, imponente, perfeito. Mr. Bernard sorriu. “Nem eu acreditava que poderia construir algo tão maravilhoso”, pensou. Mas que lugar era aquele? Caminhando mais um pouco, ele avistou uma bandeira vermelha, branca e preta. E um letreiro “Yemen International Circuit”. Espertamente, ele percebeu que estava no paddock do Grande Prêmio do Iêmen. O ano também estava claro na placa: 2020.

A sombra, que estava ao lado de Mr. Bernard, avançou imediatamente para onde havia um rebuliço de gente. Nosso velhinho foi até lá. O que ele encontrou ali foi seu verdadeiro objeto de desejo, aquilo que ele achava que seria a melhor coisa do mundo para sua categoria.

Li Stein, 20 anos de idade, era o motivo do rebuliço. Mr. Bernard rapidamente entendeu o porquê: ela era perfeita. Li Stein era bonita, feminina, expressiva, se articulava bem e parecia ter ideias fortes. Negra e judia, ela havia nascido numa família pobre na China e cresceu na vida apenas por causa do talento como pilota – um verdadeiro e improvável estrondo comercial. Para melhorar, ela liderava o campeonato e vinha com tudo para ser tricampeã do mundo. Não por acaso, a moça tinha bilhões de torcedores em todo o planeta. Todos a amavam. Uma unanimidade. E o automobilismo, obviamente, lucrava muito com o fenômeno Li Stein.

Stein e os demais pilotos participariam pela primeira vez do GP do Iêmen, país conhecido pelos grandes problemas de ordem religiosa. Poucos eram a favor da corrida, ainda mais em um circuito localizado a poucos quilômetros de uma base da Al Qaeda. O mentor desse absurdo, obviamente, era Mr. Bernard, que apesar dos seus 90 anos de idade, ainda tinha disposição para levar seu esporte para os lugares mais remotos do mundo. Mr. Bernard recebeu algo em torno de 950 milhões de dólares para realizar corridas no Autódromo Internacional do Iêmen durante cinco anos.

Li Stein, mulher e judia, não estava muito segura. Durante todo o tempo, ela andava com três ou quatro seguranças que a protegiam de qualquer coisa. Apesar dos olhares negativos de grande parte dos iemenitas que estavam presentes no autódromo, nada aconteceu no paddock. Mais tranquila, Li foi para a pista, liderou todos os treinos e marcou a pole-position com o carro da China Racing, projetado por Adrian Newey e equipado com motor JAC.

Li entrou no carro, foi para a pista e colocou seu carro no grid. Enquanto esperava pela volta de apresentação sentadinha no carro, um grupo de uns trinta malucos cobertos com burca irrompeu o autódromo, atirando em todos e destruindo tudo pela frente. Eles tinham um alvo certo.

Os terroristas se aproximaram do carro da China Racing e começaram a disparar na pobre Li Stein sem a menor dó. Uma saraivada de tiros, dezenas deles. Em poucos segundos, a linda mocinha que carregava a bandeira da China no bolso do macacão e utilizava um quipá nas entrevistas coletivas, que era seguida por mais de 400 milhões de pessoas no Twitter, que doava parte de seu salário a programas de caridade em países pobres, que lotava autódromos em todo o planeta, estava morta.

O mundo ficou atônito. Nunca a morte de uma celebridade foi tão comentada na internet, na mídia, nas redes sociais. Bilhões ficaram de luto. O automobilismo perdeu sua estrela maior. Logo na corrida seguinte, as arquibancadas ficaram vazias. Sem Li Stein, o interesse pelo esporte despencou rapidamente. Os patrocinadores começaram a ir embora. Em poucos anos, os grandes prêmios deixaram de existir.

Mr. Bernard, naquela altura vertendo algumas poucas lágrimas, observava as imagens do auge e da decadência de seu certame como um curta-metragem. A sombra estava ali, ao seu lado, imóvel. Após toda a dramática trajetória passar aos seus olhos, uma última e definitiva imagem: o túmulo de Mr. Bernard. O desgosto pelo fim das corridas foi forte demais para o velhinho.

– Eu entendi a mensagem – afirmou Mr. Bernard, num tom sério – Tomarei providências imediatas amanhã cedo, em pleno Natal.

Em segundos, a sombra começou a se esvair lentamente. Uma névoa tomou conta de tudo, mas era uma névoa diferente, serena, inodora, uma calma transição.

A névoa desaparece em pouco tempo. Mr. Bernard reconhece a calculadora, a poltrona, a janela aberta, o gato preto fazendo arruaça na árvore do lado de fora. Ele estava de volta ao escritório.

natal

Mr. Bernard é homem de palavra. Em pleno Natal, ele convocou uma coletiva de imprensa para anunciar novidades para seu esporte em 2013:

– Fim imediato dos GPs da Bélgica, do Japão, do Canadá, da Austrália, da Itália e do Brasil. Os seis espaços livres seriam ocupados por GPs extras em Abu Dhabi e no Bahrein.

– Expulsão de todas as equipes que não terminaram a temporada 2012 nas três primeiras posições. As três equipes restantes deverão inscrever quatro carros cada.

– Aumento de 894% nos valores de inscrição de equipes.

– Fim da transmissão das corridas em TV aberta.

 

——————————————————————————————————————————————————————————————————————–

 

Na noite do dia 25 de dezembro, Mr. Bernard trabalhava silenciosamente no escritório de sua mansão. De repente, a janela maior se abre e uma ventania adentra o cômodo. Em seguida, uma grande névoa se forma logo à sua frente. Eram os três fantasmas do dia anterior.

– Vocês por aqui… – resmungou Mr. Bernard, nem um pouco assustado.

– Porra, Mr. Bernard, você não aprendeu nada com ontem?

– Não.

– Nós esperávamos ao menos que o espírito natalino fizesse de você uma pessoa melhor, menos gananciosa. Todos os mãos-de-vaca que recebem fantasmas de Natal se tornam sujeitos generosos e bondosos.

– Pois é, mas vocês se esqueceram de um único e pequeno detalhe.

– Qual?

– EU SOU JUDEU E NÃO ACREDITO EM NATAL. Sumam daqui, por favor.

 

——————————————————————————————————————————————————————————————————————–

 

Aos que tiveram a paciência de chegar até aqui e acreditam em Cristo, desejo um sincero feliz Natal.

Aos que tiveram a paciência de chegar até aqui e não acreditam em Cristo, desejo um sincero feliz Hanukkah, feliz Ramadã ou simplesmente que não façam merda nesses últimos dias do ano.

Verde

Anúncios