Christian Fittipaldi, o campeão de F3000 de 1991

Ano novo, seção nova. Tom Jobim e sua bela música de 1987 emprestam o nome a esta série que irá contar sobre temporadas marcantes do que quer que seja no automobilismo. A princípio, vou falar sobre os anos em que houve títulos de pilotos brasileiros, mas vou tentar me estender a outros campeões com o passar do tempo. Não será uma série curta e os artigos serão longos o suficiente para serem divididos em dias. Mas tudo bem, vocês já estão acostumados a ler coisas mastodônticas por aqui.

Começo falando sobre o título de Christian Fittipaldi, sobrinho do bicampeão Emerson, na Fórmula 3000 Internacional em 1991. Há um motivo para isso. Em julho do ano passado, encontrei na internet um anuário relatando sobre essa temporada por um precinho camarada. Fiz a encomenda na mesma hora, mas o livro só acabou chegando em dezembro. O anuário, escrito pelo jornalista francês Stéphane Barbé, é ótimo, riquíssimo em detalhes. E com essa valiosa fonte que vou contar para vocês como foi o trunfo de um dos pilotos mais subestimados que o país já teve.

Aos 20 anos, Christian se tornou o segundo piloto da história da categoria a ser campeão logo no primeiro ano. Em 1987, o italiano Stefano Modena também havia conseguido o feito. Dois anos antes, Christian Danner foi o primeiro campeão da história da Fórmula 3000 Internacional, mas ele já havia competido antes na Fórmula 2, campeonato substituído pela F3000. Mas nenhum dos campeões anteriores havia sido tão celebrado quanto o brasileiro. Depois de 17 anos, o sobrenome Fittipaldi voltava a dar as cartas no cenário europeu.

O título na Fórmula 3000 foi o ápice de uma carreira iniciada em 1981, quando ele entrou em um kart para competir nas pistas paulistanas. Entre 1981 e 1987, Christian disputou 51 corridas, venceu 29 e obteve nada menos do que doze títulos. Em 1988, Fittipaldi fez sua estreia em monopostos com um F-Ford avermelhado e patrocinado pela Philishave. Ganhou cinco provas e foi o vice-campeão. No ano seguinte, sagrou-se campeão do campeonato brasileiro de Fórmula 3 e foi o terceiro colocado do sul-americano. Em 1990, decidiu competir simultaneamente nas Fórmula 3 sul-americana e britânica. Foi campeão na primeira e quarto colocado na segunda. Os títulos vieram de maneira tão estrondosa que seus conselheiros decidiram que já era hora de dar um passo além em 1991.

A Fórmula 3000 Internacional era o caminho lógico. Categoria imediatamente anterior à Fórmula 1, ela reunia poderosos carros de 450cv, famosos circuitos europeus e os melhores pilotos do automobilismo de base do Velho Continente. Como os motores eram limitados a 9000 rpm e como havia apenas quatro marcas de chassis, as condições eram mais ou menos as mesmas para todas as equipes e apenas pequenos detalhes, como um programa mais extensivo de testes ou o uso de gasolina especial, poderiam garantir alguma vantagem.

Alessandro Zanardi, o maior rival de Christian

Christian acertou com a Pacific Racing, equipe inglesa que já tinha dois anos de experiência na Fórmula 3000. Em 1990, a Pacific tinha tido um ano difícil com o junkie canadense Stéphane Proulx e recuperação era a palavra de ordem. Para isso, o dono Keith Wiggins decidiu começar a levar as coisas a sério. Ao invés do carro único de 1990, a equipe passaria a ter dois carros em 1991. O companheiro de Christian seria o italiano Antonio Tamburini, sujeito com pinta de ator da Globo e um ano de experiência na categoria.

As coisas não pareciam fáceis para Christian Fittipaldi. Apesar dos vários patrocinadores que o brasileiro levava, como a Gradiente e a M2000, o orçamento não era tão abundante e não haveria como fazer muitos testes na pré-temporada. Além disso, Christian era considerado o segundo piloto, uma vez que Tamburini era a esperança maior da equipe na briga pelo título. E a concorrência metia muito medo.

Cerca de 40 pilotos apareceram em Vallelunga para a primeira corrida. Alguns deles, competindo em equipes bem estruturadas, eram apostas muito mais seguras do que Christian. A DAMS, campeã do ano anterior, tinha o apoio oficial da Lola e o patrocínio da Marlboro e contava com Allan McNish, quarto colocado em 1990, para bisar o título. A Paul Stewart Racing tinha o forte patrocínio da Labatt’s e o italiano Marco Apicella, veterano com quatro temporadas no currículo, para brigar pelo caneco. A Eddie Jordan Racing era patrocinada pela Barclay e tinha em seus carros o veterano Damon Hill, considerado o piloto mais rápido da Fórmula 3000 em 1990, e o promissor Vincenzo Sospiri. Todos eles corriam com Lola.

A turma da Reynard, que incluía também a Pacific, tinha como representante principal uma equipe, no mínimo, peculiar e idiossincrática. O italiano Giuseppe Cipriani, filho do dono do bar veneziano Harrys, decidiu utilizar a grana da família para fundar uma equipe de Fórmula 3000. Católico fervoroso e sujeito de boa cultura, ele decidiu dar à equipe o nome de seu livro favorito, “Il Barone Rampante”, escrito por Italo Calvino. Com muitos recursos e forte estruturação de marketing, a Il Barone Rampante chamou a atenção de todos com seus ótimos resultados nos testes de pré-temporada em Vallelunga. Seus pilotos seriam os orelhudos Alessandro Zanardi e Giuseppe Bugatti, rivais na Fórmula 3 italiana.

A Forti-Corse, equipe ítalo-brasileira, aparecia com os experientes Emanuele Naspetti e Fabrizio Giovanardi e com um acordo polêmico de fornecimento de gasolina especial por parte da Agip. Outra dupla experiente era a da francesa Apomatox, que colocou para correr em seus carros os franceses Paul Belmondo e Andrea Chiesa. A First Racing, equipe de Jean-Denis Deletraz, teria três carros no grid, um para o dono, outro para o iconoclasta Giovanni Bonanno e outro para o promissor Eric Helary. E a Ralt, tradicional construtora de Ron Tauranac, retornava à Fórmula 3000 fornecendo chassis para algumas equipes, com destaque para a 3001 International, equipe do ex-Onyx Mike Earle que empregava Andrea Montermini e Jean-Marc Gounon.

Jean-Marc Gounon, vencedor em Pau

Como se vê, o nível dos pilotos era altíssimo e muitos deles, já bem experientes, estavam desesperados por terem de disputar mais uma temporada para tentar alcançar o sonho da Fórmula 1. Christian Fittipaldi, o único brasileiro do grid, não tinha lá grandes expectativas. O negócio era aprender o máximo possível para, em 1992, poder brigar pelo título.

A Fórmula 3000 teria algumas novidades em 1991. Os pneus passariam a ser radiais e os treinos livres realizados nos fins de semana de corrida seriam abolidos. Sendo assim, a experiência contaria mais do que nunca. E ter o equipamento certo, que pudesse lidar com esses novos pneus, também. O carro de Christian Fittipaldi seria um Reynard-Mugen Brown.

A primeira das dez etapas foi realizada no acanhado e perigoso circuito italiano de Vallelunga no dia 14 de abril de 1991. E Christian Fittipaldi surpreendeu a todos ao fazer a pole-position, com o tempo de 1m03s236, três décimos mais rápido do que Zanardi, que já vinha treinando nesse circuito desde janeiro. O bom começo, no entanto, terminou aí. Christian largou mal e perdeu duas posições para Tamburini, que largou muito bem e tomou a ponta, e para Zanardi, que acabou se mantendo em segundo. Mas o pobre Tamburini, que estava mal do intestino, não conseguiu manter a liderança e acabou ultrapassado por Zanardi e por Christian. E Alessandro liderava quando Andrea Montermini atropelou Paolo delle Piane, subiu sobre seu carro, bloqueou a pista e acabou obrigando a direção de prova a interromper a corrida.

Na relargada, o literalmente cagado Tamburini reassumiu a liderança, mas novamente ele não conseguiu segurar a galera que vinha atrás. Zanardi voltou à liderança, com Christian logo atrás, e a situação se manteve assim até o final. No primeiro round, vantagem para Zanardi, que conseguia fazer a Il Barone Rampante vencer em sua primeira participação. O segundo lugar de Fittipaldi não era um resultado tão ruim assim, ainda que a expectativa maior após a pole-position era pela vitória.

A segunda prova foi em Pau, circuito de rua ainda mais encardido do que Mônaco. Nos bastidores, o bafafá era grande com relação ao “caso Bonanno”. Tudo começou quando o alemão Michael Bartels deixou a GA Motorsport após a etapa de Vallelunga e assinou com a First Racing para correr no lugar de Giovanni Bonanno. O romano, cuja família tinha ligações com a máfia siciliana, ficou puto da cara e decidiu processar o chefe Deletraz pela patacoada. Foi o começo de uma disputa legal que deixaria muita gente com dor de cabeça.

Damon Hill, o filho do Graham e um dos melhores da F3000

Alessandro Zanardi fez uma pole-position fácil, marcando o espetacular tempo de 1m09s48. A volta foi tão rápida que alguns pilotos chorões reclamaram para a direção de prova alegando que ele teria cortado uma ou outra chicane. Recalque, é claro. Atrás dele, os Ralt de Andrea Montermini e Jean-Marc Gounon e o Reynard de Fittipaldi. Em uma pista estreitíssima como Pau, o negócio para Christian era apostar em possíveis abandonos à sua frente.

E foi isso que aconteceu. Montermini tomou a ponta e liderou por 15 voltas até perder a terceira, a quarta e a quinta marchas. Como ele não é Ayrton Senna, acabou abandonando a prova. Zanardi também não estava mais na pista, vítima de quebra no eixo do cardã. Gounou acabou herdando a vitória, proporcionando à Ralt seu primeiro trunfo desde 1987. E o segundo colocado foi Christian Fittipaldi, que acumulou 12 pontos e assumiu a liderança do campeonato.

A terceira corrida ocorreu em Jerez no dia 9 de junho. Para desespero da organização da corrida, a prova ocorreria na mesma hora do GP da Espanha de Motovelocidade e, sem espanhóis no grid, ninguém lá na terra ibérica estava ligando para a Fórmula 3000. De fato, não havia muitos motivos para isso. O grid foi um dejà vú de Vallelunga: Christian e Zanardi na primeira fila, Tamburini e Montermini na segunda.

Dessa vez, Fittipaldi largou direitinho e manteve a ponta na primeira curva. Sua estratégia de corrida era clara: abrir o máximo de distância possível no início para, depois, só manter um ritmo constante e seguro. Christian fez a volta mais rápida da prova no terceiro giro e, com boa vantagem sobre Zanardi, só percorreu a distância que o separava da vitória. Atrás dele, Zanardi se manteve em segundo e a briga entre Tamburini e Montermini acabou favorecendo esse último. Sem grandes brigas, foi uma corrida chatíssima e um desfile imperial de Christian Fittipaldi. O garoto de apenas 20 anos caminhava seguro em direção ao título daquele ano, deixando todos os europeus boquiabertos.

Amanhã, a segunda parte.

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