Kevin Ceccon, o piloto mais precoce do automobilismo de ponta até...

Kevin Ceccon, o piloto mais precoce do automobilismo de ponta até…

Onde você estava aos 17 anos e seis meses de idade? Engatando seu primeiro namoro sério? Fazendo um estágio? Ralando para passar na faculdade? Viajando ao redor do mundo? Alistando-se no exército? Coçando o saco em casa? Não interessa. O que importa é que você era um cabaço que não podia dirigir ou sair do país sem a permissão do papai. Votar era facultativo, como se tu fosses um café-com-leite no processo eleitoral brasileiro. Por mais que pensasse o contrário, você era um infante dos mais imaturos e abobalhados.

Eu sou daqueles que não acreditam no fim abrupto da adolescência, como se a simbólica mudança de datas transformasse um garoto mimado, rebelde e frágil em um rapaz pleno das suas responsabilidades, crenças e objetivos. Na verdade, não creio sequer que um cara de 20 ou 24 anos de idade se enquadre naquilo que eu imagine ser um adulto. Por mais que nossa mãe, nosso chefe e a sociedade queiram, nós, filhos da segunda metade dos anos 80, não diferimos muito daquele criançola irritadinho que nasceu em 1999. Todos nós gostamos de desenhos da Pixar, afinal.

Mas há exageros.

Há três anos, eu escrevi nesse espaço um texto criticando a apressadíssima estreia do italiano Kevin Ceccon na GP2 Series, antessala oficial da Fórmula 1. No dia em que sentou a bunda no cockpit para um treino oficial pela primeira vez, Ceccon tinha exatos 17 anos, 7 meses e 26 dias de idade. Nascido em 1993, o pirralho havia feito duas temporadas discretas na Fórmula 3 italiana antes de ser contratado pela Coloni para fazer algumas corridas a bordo de um carro com mais de 600cv de potência.

O argumento principal não foi muito original. É ridículo que um garoto não tenha permissão legal para conduzir um pacato Fiat Punto pelas ruas de Nápoles, mas possa pilotar um monoposto a mais de 300km/h pelas longas retas de Monza. Os critérios devem ser sempre respeitados à risca: se alguém concluiu que uma pessoa com a idade de Kevin Ceccon não pode dirigir veículos lentos, esse alguém também deveria tomar vergonha na cara e vetar qualquer brecha que permita que o jovem possa dirigir um brinquedinho de 600 e tantos cavalos. O que aconteceria se Kevin perdesse o rumo da história e causasse um acidente fatal?

Felizmente, isso não aconteceu. Ceccon disputou apenas oito corridas na GP2 em 2011 e não fez nada de muito brilhante, mas também não assassinou ninguém. Em 2012, resolveu dar um passo para trás ao aceitar um convite da equipe Ocean para correr na GP3. Novamente não foi genial, mas manteve a compostura, obteve um pódio e finalizou a temporada na nona posição. No ano passado, retornou à GP2 ao arranjar uma vaga de última hora na equipe Trident. Sem patrocínio, disputou apenas a primeira metade da temporada e conseguiu um bom segundo lugar em Mônaco. Hoje, aos 21 anos de idade, está voltando à GP3 em Spa-Francorchamps para tentar reavivar a carreira.

O caso de Ceccon me deixou realmente assustado com o rumo das coisas no automobilismo. Os dirigentes haviam extrapolado os limites do aceitável. No início da década passada, os medalhões Jenson Button e Kimi Räikkönen assombraram o mundo com uma carreira tão promissora quanto meteórica. O primeiro fez apenas uma temporada de Fórmula Ford e outra de Fórmula 3 antes de sentar em um carro da Williams. O segundo, ainda mais surpreendente, contabilizou tão somente 23 provas de Fórmula Renault em seu currículo de base. Ambos, Kimi e Jenson, estrearam na Fórmula 1 na tenra casa dos vinte anos de idade.

... a chegada desse garotinho aqui, Max Verstappen

… a chegada desse garotinho aqui, Max Verstappen

Com os olhos arregalados, acreditava que a precocidade dos casos de Kevin Ceccon, Jenson Button e Kimi Räikkönen não poderia jamais ser superada de forma séria. Talvez em um belo dia num futuro longínquo, aos doze anos de idade, um filho de xeique saudita seria instalado em um carro da Toro Rosso e completaria algumas voltas livres na pista de Abu Dhabi, assegurando um insólito recorde para si próprio e um bocado de publicidade para a Red Bull.

Estava redondamente enganado.

Nessa segunda-feira, o piloto português António Félix da Costa, uma das muitas antigas promessas que a Red Bull não levou adiante, anunciou no Twitter que a empresa rubrotaurina faria um anúncio bombástico ainda no mesmo dia. Tambores rufaram e o mundo do automobilismo ficou paralisado na dúvida. O que diabos seria? Sebastian Vettel deixaria a equipe e se mudaria para a Caterham, sendo substituído de forma imediata por Susie Wolff? Daniel Ricciardo seria promovido à presidência mundial da empresa? Os taurinos estariam coletando DNA de Ayrton Senna para recriar um clone que pudesse correr pela Toro Rosso em 2015? Quase.

Em pomposa coletiva de imprensa promovida pelos mandachuvas da Red Bull, o planeta ficou sabendo que o holandês Max Verstappen, de apenas 16 anos, 10 meses e 22 dias, disputaria a temporada de 2015 da Fórmula 1 pela equipe Toro Rosso. Filho do ex-piloto Jos Verstappen, Max comporia com o russo Daniil Kvyat a dupla mais infantil de todos os tempos – sua média de idade em março do ano que vem ficaria na casa dos 18,5 anos.

Ao debutar na F-1, o pequeno Verstappen terá completado apenas 17 anos e alguns meses. Se minha cabeça não tiver pifado de vez, posso assegurar que ele terá estreado na categoria maior do automobilismo mundial com alguns dias de idade a menos que o já precoce Ceccon, que ainda estava sujando as fraldas no Dallara-Renault da GP2. Como se não bastasse, Max seria o primeiro piloto menor de idade da história da Fórmula 1 e o segundo da história das competições top. O primeiro, o francês Nelson Philippe, debutou na extinta ChampCar quando estava a poucos meses de completar 18 anos de idade.

Muitos números e informações inúteis que não conseguem dar a real dimensão da coisa. A Fórmula 1, um dos campeonatos esportivos mais caros e inacessíveis do planeta, está estendendo tapetes a um garoto de apenas 17 anos de idade, um molequinho que deve acompanhar Chiquititas e Malhação enquanto não está competindo, um projeto de gente que nem pentelho no saco deve ter.

E daí?

Daí que os absurdos podem ser enumerados.

Em primeiro lugar, não existe ambiente mais opressor e insuportável do que o tal paddock da Fórmula 1. Como falei no último texto, a categoria é um caldeirão de fofocas, amizades destruídas, rinhas de egos, traições e tudo aquilo que a mente humana conseguiu produzir de ruim na complexidade de suas relações. Somente uma pessoa madura em sua plenitude, mentalmente imperturbável, excessivamente confiante e praticamente autista no que se refere às vozes que a circundam poderia sobreviver em tal inferno sem enlouquecer de vez. Seria esse o caso de Max Verstappen?

Wesley Graves (o nerd agachado à esquerda), um dos casos mais interessantes de pilotos jovens que não digeriram bem a ascensão e a queda

Wesley Graves (o nerd agachado à esquerda), um dos casos mais interessantes de pilotos jovens que não digeriram bem a ascensão e a queda

Eu duvido. Um adolescente de 17 anos não tem sequer condições intelectuais e emocionais de escolher entre um nabo e uma cenoura, quanto mais de ignorar um artigo maledicente do Autosport ou uma mordida de rabo do Helmut Marko. Deslumbrado e perdido em um mundo onde o dinheiro, a fama e o poder abundam ao infinito, seria possível imaginar um Max Verstappen se embriagando rapidamente com os frutos de seu repentino sucesso e posteriormente se tornando mais um desses insuportáveis prodígios que acham que o mundo gira em torno de seu umbigo. Ou até mesmo um decadente e deprimido Max Verstappen, incapaz de aguentar todas as pressões inerentes à Fórmula 1 e precocemente entalado num buraco profissional e pessoal.  

Há exemplos desse tipo de trajetória? Posso citá-los. No próprio automobilismo, ficou famosa a história de Wesley Graves, o garoto ruivo com cara de nerd que foi adotado pela McLaren para ser, ao lado de Lewis Hamilton, um dos dois pilotos que seriam apoiados oficialmente pela equipe de Woking desde o kartismo até a Fórmula 1. Graves era um dos melhores kartistas da Inglaterra e Ron Dennis decidiu adotá-lo na crença de que poderia estar diante de um futuro campeão.

Nada disso aconteceu. Segundo o próprio Graves declarou em entrevista ao The Guardian, a McLaren demonstrava certa preferência por Hamilton e isso ficava claro para ele na hora em que foram escolhidos os campeonatos de kart que cada um disputaria. Lewis foi inscrito em uma categoria onde não havia mais do que uns cinco ou seis concorrentes, nenhum do seu nível. Por outro lado, o pobre Wesley foi colocado em um certame com mais de cinquenta inscritos, muitos deles mais velhos e mais experientes. Como se não bastasse, Graves afirma não ter se dado bem com o equipamento que lhe foi dado, problema que não foi enfrentado pelo seu colega.

Com tudo conspirando contra, é evidente que os resultados não vieram. Wesley Graves foi dispensado do programa de desenvolvimento da McLaren após um ano e nunca mais conseguiu retomar sua carreira no mesmo nível. Disputou mais algumas provas de kart até 2000, quando teve de encerrar prematuramente seu sonho por conta de problemas financeiros. Seu pai, Steve, chegou a falir uma empresa de engenharia apenas para custear as corridas do pimpolho. Hoje, Wesley é um rapaz anônimo, frustrado e deprimido que não consegue sequer assistir às provas de Fórmula 1 e simplesmente não suporta pensar que seu antigo coleguinha, hoje em dia, é um homem milionário e extremamente bem-sucedido.

Uma leitura rápida na entrevista do Guardian mostra que a família Graves realmente mergulhou de cabeça na carreira esportiva do pequeno Wesley e não digeriu muito bem o fato dele não ter se tornado o novo Jim Clark do pedaço. O próprio Wesley ainda se enxergava um piloto de corrida, falando ao entrevistador como estivesse na ativa e não aceitando sua infeliz realidade. Resumindo em poucas palavras, ele ficou preso ao seu fantasma de infância e não cresceu.

Mas Wesley Graves era tão bom assim? Não teria sua história um bocado de drama exagerado? Não seria esse mais um caso de choradeira e vitimismo? Pouco importa. O que se extrai desse conto é um exemplo bem-acabado de um garoto de 11 anos de idade que foi elevado muito precocemente a uma condição de estrela, não cumpriu as expectativas, ficou para trás e não soube lidar com a decadência, tornando-se alguém digno de pena.

Wesley Graves hoje em dia

Wesley Graves hoje em dia

Por trás daquele garoto avermelhado e míope como Buddy Holly, consigo imaginar uma família inteira depositando todas as suas esperanças e frustrações pessoais nos talentos de um único jovem. Imagino também todas as pessoas de seu bairro e cidade celebrando o pequeno kartista como o mais genial dos filhos de sua terra. Jornalistas batendo à porta, querendo saber um pouco mais da vida daquele que chamou a atenção de ninguém menos que o chefão da McLaren. Concorrentes em um misto de reverência e inveja. A própria McLaren exigindo resultados impecáveis em troca de uma promessa que não necessariamente sendo cumprida. É coisa demais para uma criança suportar.  

Moleque de onze anos de idade tem de estudar, jogar bola na rua, assistir televisão e arranjar uma namoradinha. Se for para correr de kart, que seja de forma mais lúdica do que profissional. Nada de ficar projetando no coitadinho uma futura carreira bem-sucedida no que quer que seja. Os pais de Wesley Graves merecem boa parte da culpa por terem alimentado um monstro em seu filho. E a McLaren também não ajudou muito.

Lembre-se: em sua estreia na Fórmula 1 no ano que vem, Max Verstappen terá apenas seis anos de idade a mais do que Wesley Graves em seus tempos de pupilo da McLaren.

Muitos outros casos no esporte podem ser mencionados. No próprio esporte a motor, dizem que o sempre temperamental Wilsinho Fittipaldi não se importava em berrar e reprimir seu filho Christian quando este cometia um erro – e há quem diga que isso, de certa forma, afetou sua carreira profissional no automobilismo. Outra história que também merece ser mencionada é a de Michael Herck, ex-piloto da GP2. Nascido na Romênia e adotado por um milionário belga, Michael era um piloto sem grandes perspectivas que costumava ser duramente cobrado por bons resultados. No fórum Ten Tenths, um usuário diz ter testemunhado papai André Herck ameaçando deixar seu filho sem almoço caso ele não conseguisse andar bem em uma corrida de Fórmula Renault. Não sei até onde isso é verdade, mas não duvido que histórias como essa realmente aconteçam. O fato é que Michael Herck não chegou a lugar algum e abandonou o automobilismo no fim de 2011.

No show-business, nem preciso enumerar aqui casos de crianças que se tornaram famosas e milionárias muito cedo, acabaram sendo bombardeadas com críticas pesadas e cobranças e chegaram à idade adulta imaturas, irresponsáveis e problemáticas. Quer caso melhor que o de Michael Jackson? Pois é.

Não estou dizendo que Max Verstappen se tornará necessariamente um Wesley Graves, um Michael Herck ou um Michael Jackson. Talvez seja realmente um jovem bom e centrado o suficiente para amadurecer rapidamente, suportar pressões, conseguir resultados e mandar todo mundo ao diabo. Mas tudo isso é apenas especulação. Um moleque de 17 anos é um verdadeiro tiro no escuro, um amontoado de hormônios prestes a explodir, alguém que pode virar do avesso da noite para o dia. Caso desse certo na carreira, poderia virar um popstar antipático, arrogante e imprevisível. Caso desse errado, seria engolido pela depressão e pelo esquecimento. Seria a Fórmula 1 um ambiente adequado para um ser humano nesse estágio? Duvido.

Em suma, e como já deixei claro em textos sobre Kevin Ceccon e Daniil Kvyat, sou absolutamente contrário a esses estreantes muito jovens e muito inexperientes. O russo me surpreendeu e está fazendo uma temporada bem legal, mas não deve ser tratado como uma regra a ser seguida. Ninguém tem obrigação de virar Jenson Button ou Kimi Räikkönen e as equipes deveriam ter noção disso. A própria Fórmula 1 poderia prestar um pouco de atenção nesse tipo de coisa, estabelecendo alguma forma de limite etário. Afinal, se um Max Verstappen pode estrear na categoria sendo menor de idade, por que um garoto de quinze anos não poderia fazer o mesmo? Essa lógica poderia ser levada ao extremo até o ponto em que a competição se tornaria um reduto de adolescentes.

Jos Verstappen, o pai de Max: pelo visto, não aprendeu nada com a própria carreira...

Jos Verstappen, o pai de Max: pelo visto, não aprendeu nada com a própria carreira…

Posso enumerar outras razões para ser contrário à presença de Verstappen em 2015. Por ainda não ter responsabilidade legal sobre seus atos, fico imaginando o que ocorreria no caso de um acidente fatal ou um problema a ser resolvido na justiça. Os pais teriam de cuidar do pepino? Sobraria para a Toro Rosso? Respingaria no Bernie Ecclestone? Qual seria o impacto midiático no caso extremo de um adolescente morrer numa corrida de Fórmula 1? Afinal de contas, faria um bem danado à categoria aparecer nos The Sun da vida sob manchetes como “automobilismo mata garoto de 17 anos“, não é?

Outra coisa: um excelente piloto de 16 anos poderia evoluir ainda mais caso tivesse mais paciência. Ao invés de pular logo de uma vez para o touro vermelho da Fórmula 1, Max faria melhor gastando uns dois ou três anos na GP2 ou na World Series by Renault, categorias onde teria totais chances de andar bem logo de cara sem as toneladas de pressão de um campeonato top. Ganharia corridas, perderia outras, aprenderia com os erros, disputaria posições com caras mais experientes e chegaria à Fórmula 1 ainda bastante jovem e completamente pronto para enfrentar os leões.

Fico assustado que papai Jos Verstappen não tenha escolhido esse caminho para seu filho. Ele próprio é um dos exemplos mais clássicos do jovem piloto que pulou etapas e depois não conseguiu nada na Fórmula 1. Ele ganhou milhões de campeonatos de kart até 1991, sagrou-se campeão da Fórmula Opel Benelux em 1992 e da Fórmula 3 alemã em 1993 antes de assinar com a Benetton para ser piloto de testes em 1994.

Verstappen pai não imaginava que seria convocado para correr logo na primeira etapa na temporada. O titular JJ Lehto sofreu um violento acidente em testes em Silverstone, arrebentou o pescoço e teve de ficar de fora das corridas iniciais. Desesperada, a Benetton não teve outra opção a não ser promover o tal do garoto holandês ao difícil papel de escudeiro de Michael Schumacher. Inexperiente e afoito, Jos cometeu erros idiotas, se envolveu em acidentes violentos e ainda teve o azar extremo de virar churrasquinho em um incêndio ocorrido no GP da Alemanha. Os dois pódios obtidos em Hungaroring e Spa-Francorchamps não salvaram sua reputação.

Depois do fracasso na Benetton, Jos Verstappen foi dado como um caso perdido na Fórmula 1. Peregrinou nos anos seguintes por equipes pequenas e chegou a ficar desempregado em mais de uma ocasião. Triste saber que, em pouco mais de um ano, aquele jovem talento das categorias de base se transformou em apenas mais um entre tantos que poderiam ter sido e não foram. Cruel é pensar em que um cara de apenas 23 anos de idade já não era mais levado a sério por ninguém porque pegou uma pedreira logo de cara na Fórmula 1. Tivesse feito uma carreira mais ortodoxa, com uma passagem mais extensa pela Fórmula 3 e pela Fórmula 3000, Jos poderia ter tido, ao menos, uma carreira mais sólida e mais tempo de se desenvolver.

Agora, vinte anos depois, o pai resolve conduzir o filho pelo mesmo caminho. O apelido “Besta Holandesa” se justifica muito bem nesse caso.

Espero que Max Verstappen, 17, consiga compensar a imaturidade com seu enorme talento e queime minha língua. É bem melhor do que queimar a carreira.

Luca Filippi, vice-campeão e grande nome da GP2 nas últimas etapas

Para ler a primeira parte, clicar aqui.

Segunda parte da retrospectiva da temporada 2011 da GP2 Series. Ontem apresentei um panorama geral da categoria e também as quatro melhores equipes da temporada. Se possível, falo hoje de todas que restam. Vejo o que vai acontecer. É, não deu. Falo das equipes que ficaram entre a quinta e a nona posição na tabela final.

A primeira do resto é a grande, rica, poderosa e desejada ART Grand Prix. Nesse ano, ela parecia ter montado talvez a melhor dupla de sua história. Seu primeiro piloto, Jules Bianchi, é simplesmente a maior aposta a médio prazo da Scuderia Ferrari e tem um dos currículos mais interessantes de todo o grid. O segundo piloto, Esteban Gutierrez, foi campeão da Fórmula BMW na Europa e da GP3 e era, de longe, o estreante mais interessante da temporada. Tudo indicava uma temporada inesquecível. No fim, nada disso aconteceu. Muito pelo contrário, na verdade: a ART acabou tendo sua pior temporada de todas. De positivo, só a bela pintura verde e amarela, fruto da patética discórdia entre Lotus Cars e Team Lotus.

Bianchi foi uma das grandes decepções da temporada. Se você considerar apenas o resultado numérico, nem terá tanto para criticar, já que ele terminou em terceiro e fez uma baciada de pontos na segunda metade do campeonato. Velocidade e arrojo nunca foram problemas para o francês. O problema maior foi sua gigantesca propensão para arranjar confusões e cometer erros idiotas. Comento aqui apenas os principais: colisão com Romain Grosjean em Istambul, acidente com Giedo van der Garde na largada da segunda corrida espanhola, acidente com o mesmo Van der Garde em Mônaco, acidente com Marcus Ericsson na largada da primeira corrida de Valência e escapada nas últimas voltas de Nürburgring.

Vai lá saber quantos pontos não foram desperdiçados por Jules nesses dias. Pelo menos, ele conseguiu fazer algumas boas corridas de recuperação, como as Sprint Race de Valência e Spa-Francorchamps. O destaque maior, no entanto, vai para a belíssima disputa com Christian Vietoris durante várias voltas na primeira corrida de Silverstone. Bianchi se deu melhor e acabou ganhando a corrida, sendo esta sua única vitória na GP2 europeia até hoje. Se o garoto prodígio da Ferrari repetisse esta atuação mais algumas vezes, teria sérias dúvidas em apontar um favoritismo para Romain Grosjean neste ano.

Esteban Gutierrez foi outro que decepcionou demais, talvez até mais que o companheiro. Deve ter algo a ver com o fato de eu ter torcido por ele no início do ano. Nem digo que seu maior problema tenha sido os erros, que aconteceram em razoável número (Michael Herck, tocado por ele nas duas corridas de Barcelona, que o diga), mas sim uma incômoda e inesperada falta de velocidade, especialmente nas corridas. Seus únicos resultados positivos foram a vitória na segunda corrida de Valência, herdada após o erro de Josef Kral, e o segundo lugar na segunda corrida de Hungaroring. Seria ele um especialista em pistas mais travadas? Se for, é bom ele começar a se especializar também nas demais pistas. Caso contrário, sua bela carreira poderá ter sérios problemas de continuidade. Dizer que ele foi o melhor estreante do ano é ridículo, considerando o nível de seus contemporâneos.

Jules Bianchi: terceiro lugar amargo para quem deveria ter peitado Grosjean na briga pelo título

E a equipe do brasileiro Luiz Razia? Essa deu o que falar, até. Nas primeiras corridas da temporada, seu nome era Team Air Asia, bastante corporativo e sem-graça. A aquisição da Caterham por parte do dono Tony Fernandes fez com que a designação da equipe fosse ampliada para Caterham Team Air Asia, ligeiramente mais simpático. A pintura também mudou no decorrer do ano: no início, os carros número 26 e 27 tinham um inexpressivo layout vermelho e branco. Em julho, pouco antes da rodada de Hockenheim, a Air Asia anunciou que o carro teria as mesmas cores da Team Lotus, verde e amarelo. O problema é que os carros da ART também carregavam estas cores e o que vimos nas últimas etapas foram quatro carros verdes. Acompanhar as duas equipes confundia bastante meus já confusos neurônios.

Assim como a Lotus na Fórmula 1, a Air Asia decidiu ser bastante conservadora e apostou em dois pilotos experientes. O problema é que nenhum deles conseguiu trazer grandes resultados para a equipe. Falemos primeiro de Davide Valsecchi, claramente o mais bem-sucedido da dupla. O italiano começou o ano a todo vapor, marcando pontos em seis das oito primeiras corridas e saindo de Valência na terceira posição do campeonato, apenas quatro pontos atrás do líder Grosjean. Os destaques ficam para o terceiro lugar na primeira corrida de Valência e uma vitória de ponta a ponta na primeira corrida monegasca, talvez a melhor atuação de Valsecchi em sua longa carreira na GP2.

O problema é que, de Valência para frente, Valsecchi não marcou mais nenhum pontinho. Foram dez corridas obscuras, nas quais os melhores resultados foram dois décimos lugares e a melhor posição no grid foi um discreto 12º. Um final de temporada terrível para quem já está em sua temporada e precisa, mais do que nunca, de bons resultados para justificar uma subida para a Fórmula 1.

E o Razia? Olhando para ele hoje, o que dá para dizer? Que sua terceira temporada na GP2 foi ruim, não há como discordar. Que o companheiro Valsecchi, mesmo tendo um péssimo final de temporada, conseguiu terminar bem à frente, os números não nos deixam mentir. Então, qual foi o problema? Teria sido o carro? Vendo como seu combativo companheiro italiano dirigia de modo agressivo e parecia extrair o máximo do Dallara, tenho lá minhas dúvidas se o bólido da Air Asia era tão ruim assim. A má sorte se manifestou com força? Pode ser, já que o baiano não me parece ser o piloto mais sortudo do grid. O fato é que 2011 não foi um bom ano para Luiz Razia e isso certamente não o ajudará muito em sua escalada rumo à Fórmula 1.

Luiz Razia: ano fraco em uma equipe que teve bons e maus momentos

Razia marcou 19 pontos em quatro corridas e terminou a temporada em décimo segundo, atrás de gente que pilotava carros teoricamente piores (Stefano Coletti, Dani Clos e Christian Vietoris, por exemplo). Sua grande atuação, de longe, ocorreu na primeira corrida de Hungaroring: Razia marcou a pole-position, única de sua equipe no ano, e terminou em terceiro. Mas quem viu sua prova chegou a ficar irritado com sua má largada e com a facilidade com a qual os adversários o ultrapassavam. Em uma pista como Hungaroring, na qual quem larga na pole tem grandes chances de vencer e as ultrapassagens são dificílimas, não dá para bater palmas para o cara após este resultado. E o chato é que as outras corridas foram ainda mais discretas – várias prejudicadas por erros, outras por problemas mecânicos ou acidentes causados por outrem. A verdade é que ele precisa se benzer. Em Salvador, conheci um terreiro de umbanda lá perto do Pelourinho. Se quiser, passo o endereço.

Atrás da Air Asia, temos a felicíssima Scuderia Coloni. Esta daqui tirou a sorte grande com um de seus quatro pilotos. Os outros três não merecem muitos comentários. Davide Rigon, coitado, estourou a fíbula e a tíbia após ter sido empurrado para o muro da reta dos boxes de Istambul pelo idiota do Julián Leal. O bicampeão da Superleague acabou perdendo o restante da temporada. Seu primeiro substituto foi Kevin Ceccon, que estreou na GP2 com apenas 17 anos de idade, sendo o mais jovem da história da categoria. Muito inexperiente, teve enormes dificuldades e preferiu se concentrar apenas na AutoGP, categoria vencida por ele neste ano. O primeiro carro foi ocupado por Michael Herck, filho do novo dono da equipe, que marcou apenas um ponto e, se não errou tanto, também não demonstrou aquela evolução que vinha sendo apresentada nos tempos da DPR. Quem merece ser mencionado aqui é Luca Filippi.

Após a etapa de Silverstone, o italiano, que vinha pilotando pela Super Nova Racing, tinha apenas nove pontos e ocupava uma distante 13ª colocação na tabela de pilotos. Aí, a Super Nova arranjou um patrocinador que exigiu a entrada de Adam Carroll no lugar de Filippi. Feito isso, Luca foi atrás da Coloni, que precisava de um substituto para Ceccon para a etapa de Nürburgring. Era uma parceria despretensiosa, na qual a equipe só precisava de alguém que ajudasse a acertar o carro e o piloto só precisava de um lugar para continuar correndo na GP2. Mas qual!

Em apenas oito etapas, Filippi venceu nada menos que três corridas e marcou 45 pontos, tendo seu contrato renovado etapa a etapa. Ninguém marcou mais pontos do que ele nesse período, nem mesmo o campeão Grosjean. Em Nürburgring, o italiano ganhou sua centésima corrida na categoria após tomar a liderança de Charles Pic nos pits. Em Spa-Francorchamps, Filippi tomou a liderança das mãos de Josef Kral. Em Monza, ele assumiu a ponta logo na primeira curva e não saiu mais de lá. Sem cometer erros, sempre seguro e muito veloz, Luca saltou da 13ª posição para um belíssimo vice-campeonato. Agora, sim, ele merece a Fórmula 1.

Stefano Coletti, uma grata surpresa lá no meio do pelotão

Outra equipe que deve muito a um piloto em especial é a Trident. O primeiro piloto, o venezuelano Rodolfo Gonzalez, só serviu para transferir os muitos dólares da PDVSA para a pequena escuderia. Gonzalez participou de todas as corridas e, se não cometeu os mesmos erros do ano passado, também não andou rápido em momento algum e não marcou pontos. Portanto, todos os 22 pontos da equipe foram marcados pelo monegasco Stefano Coletti, uma grata surpresa desta temporada 2011.

Coletti inicou a temporada europeia da GP2 embalado pelo quarto lugar obtido na temporada asiática. Logo na segunda corrida de Istambul, ele fez uma excelente ultrapassagem sobre Dani Clos e obteve a primeira de suas duas vitórias na temporada. A segunda, igualmente batalhada, foi obtida na segunda corrida de Hungaroring, realizada em pista molhada. Mesmo que ele não tenha aparecido em boa parte das etapas, Stefano fez muito para alguém que era o segundo piloto da Trident. O chato foi ter se acidentado violentamente em Spa-Francorchamps – assim como há dois anos -, o que abriu um lugar para o compatriota Stéphane Richelmi em Monza. Sem experiência, Richelmi não conseguiu fazer muita coisa.

Nona colocada entre os construtores, a Super Nova Racing passou por mais um ano de pesadelos. Para quem acompanhava a antiga Fórmula 3000, a decadência soa ainda mais triste: foi por esta equipe que gente como Vincenzo Sospiri, Ricardo Zonta, Juan Pablo Montoya e Sébastien Bourdais foram campeões. Hoje em dia, ela não passa de uma equipe média que tem sérias dificuldades de sair do fim do pelotão. E não dá para acusar seus pilotos de falta de experiência, por exemplo. A dupla Fairuz Fauzy e Adam Carroll, por exemplo, tem média de idade de 29 anos. Na Fórmula 1, apenas cinco equipes tem duplas com média de idade maior!

Fauzy continuou sendo o piloto lento e desastrado que sempre foi. Dessa vez, ele até conseguiu marcar cinco pontinhos em três corridas. Foram seus primeiros pontos na GP2 europeia, o que prova que até mesmo gente como ele consegue evoluir. O outro carro foi pilotado por Luca Filippi, que só teve tristeza enquanto correu por lá, e por Adam Carroll, que não conseguiu fazer o Dallara azul e amarelo subir alguns patamares. Pelo menos, o italiano marcou nove pontos e o irlandês anotou outros seis. Desse jeito, não dá para ver muito futuro para a Super Nova.

Amanhã, a última parte. As quatro últimas equipes e um ou outro comentário adicional.

Aos 17 anos e 7 meses, Kevin Ceccon será o piloto mais jovem a correr na GP2 europeia

Falemos de GP2, pois. Depois de ficar sem o italiano Davide Rigon, que quebrou a tíbia e o perônio de uma perna após um choque infeliz com Julián Leal em Istambul, a Scuderia Coloni anunciou o compatriota Kevin Ceccon como seu substituto para as etapas de Barcelona e Mônaco. Aos 17 anos, sete meses e 27 dias, Ceccon será o piloto mais jovem da história a largar em uma corrida europeia da categoria. Ele, que já passou pela Fórmula 3 Open europeia e pela Fórmula 3 italiana, está em seu terceiro ano completo nos monopostos.

Peraí. Foi exatamente o que eu li? Não, é isso mesmo. Ceccon estreará na GP2 Series com 17 anos e alguma coisa. No Brasil, ele não precisaria votar, não poderia ir preso, não poderia sair do país sem autorização de papai ou mamãe e nem poderia dirigir um Clio 1.0 de 75cv pelas ruas esburacadas do país. Mesmo assim, lá estará o garoto pilotando um Dallara-Renault de 600cv de potência no razoavelmente veloz traçado de Barcelona. Há algo de errado ou o problema é a minha implicância costumeira?

Gostaria de crer que sou eu o chato da história, mas talvez não seja o caso. A GP2 é o último estágio pelo qual um piloto deve passar antes de chegar à Fórmula 1. Os pilotos que chegam lá, além de carregarem mundos de dinheiro em suas carteiras e contas-corrente, tiveram de competir – e vencer – em várias categorias menores. Na GP2, o cara dirige um carro extremamente potente e instável, começa a lidar com os holofotes implacáveis da mídia e dos torcedores, acompanha o paddock da Fórmula 1 e sofre enorme pressão por todos. Não é lugar para crianças, portanto.

E Ceccon, até aqui, não provou ser algo além de um infante rápido. Até 2008, quando tinha 15 anos, ele era um kartista de sucesso e poderia ter ficado um pouco mais nestes carrinhos, algo que não faria mal para sua carreira. Aliás, muito pelo contrário: o tricampeão Ayrton Senna sempre enalteceu o kart como a principal escola para alguém que quer se tornar um astro de Fórmula 1. Ayrton, que sabia das coisas, tinha razão. Olhando para seu sobrinho Bruno, um bom piloto com algumas deficiências claras na pilotagem, percebemos o quanto a ausência de uma carreira extensiva no kart é prejudicial. Garanto que Kevin Ceccon faria melhor se tivesse continuado no kart por mais uns dois anos.

Em 2009, Kevin fez sua estreia na Fórmula 3 Open europeia, a antiga Fórmula 3 espanhola. Não sei quem é o conselheiro deste cidadão, mas é evidente que ele usa drogas muito pesadas. Tirar um moleque que sequer havia completado 16 anos para disputar uma Fórmula 3 de baixo nível e correr o risco de empastelar sua carreira com um possível mau resultado em um carro completamente diferente do kart é uma das atitudes mais estúpidas do planeta. Para um italiano, há muitos outros caminhos nacionais melhores para alguém que quer subir do kart para os Fórmula. Fórmula Abarth e Fórmula Renault existem para quê?

Kevin Ceccon no kart, há apenas três anos

Correndo contra colegas mais velhos e experientes, Ceccon só poderia permanecer lá no meio do grid, mesmo. Em seu primeiro ano na F3 Open, ele terminou em 12º e obteve como melhor resultado um quarto lugar em Donington Park. Ele fez também seis corridas na Fórmula 3 italiana e ficou em 14º, com um sétimo lugar em Adria como melhor resultado. O problema já começa aí: ele pode ter sido o melhor kartista da história da humanidade, mas emplacar um 12º e um 14º em duas Fórmula 3 não faz bem para o currículo. Pesa. Os olheiros, espertos como só eles, ficam atentos a esse tipo de coisa.

Em 2010, Ceccon se manteve na Fórmula 3 Open e terminou em um bom quarto lugar no resultado final, com uma boa vitória na penúltima corrida, em Barcelona. Ficou atrás de Marco Barba (piloto do fundão na World Series By Renault), Callum MacLeod e David Fumanelli. Nada muito abonador, convenhamos. E o mais chato é que dá pra perceber que Kevin parece ser um piloto com algum talento. Não é muito comum ver alguém com 17 anos vencendo uma prova de Fórmula 3. Se ele não tivesse pulado etapas na carreira, teria tido muito mais chances de construir um currículo legal na Fórmula 3.

Para alguém como Kevin, não seria absurdo apostar em uma Fórmula 3 mais forte ou na GP3 em 2011. Mas seu conselheiro, provavelmente atordoado pelos efeitos massivos do óxi, sugeriu a ele que competisse na AutoGP. Eu entorto a cara e fico pensando: por que razão? A AutoGP é um desses campeonatos que só recebem expurgos de outras categorias e que não acrescentam muito à carreira de um piloto. Os únicos grandes atrativos são o prêmio de cem mil dólares oferecido ao vencedor de cada corrida e o teste na GP2 oferecido ao campeão e ao melhor piloto com menos de 21 anos. No meio de tantos pilotos muito mais experientes até mesmo entre os com menos de 21 anos, será que Ceccon conseguirá?

E quando menos se espera, a Coloni o anuncia como substituto de Rigon na GP2. Vale lembrar que Ceccon havia feito alguns testes pela mesma Coloni e pela DPR em Abu Dhabi nos primeiros testes de pré-temporada da categoria em novembro. Como eram testes que servem apenas para enriquecer as equipes, que cobram caro pelo prazer de pilotar por um ou dois dias, ninguém acreditava que Ceccon estivesse realmente pensando em correr na categoria. Empiricamente, eu imaginava que ele era só mais um piloto jovem que queria conhecer o carro da GP2 por diversão. Errado, eu estava.

Kimi Räikkönen é o exemplo que todo defensor dos "prodígios inexperientes" usa. Mas não seria ele um caso excepcional?

E ele só tem 17 anos. Eu ainda acho um pouco absurdo ver um sujeito chega tão cedo à GP2 em apenas três anos, pulando etapas importantes e agindo apenas pela pressa. Ele pode ter todo o talento que for, mas existem algumas qualidades, como a calma, o jogo de cintura e a sensatez, que só são obtidas com a experiência. Duvido que um cara que não é sequer maior de idade segundo os parâmetros brasileiros tenha lá alguma destas qualidades previamente desenvolvida.

A história pode até esfregar na minha cara alguns casos excepcionais, mas é isso mesmo que eles são: excepcionais. Kimi Räikkönen, campeão de Fórmula 1 em 2007, subiu à categoria maior após ter feito apenas duas temporadas de Fórmula Renault. Na época, a FIA não quis conceder a superlicença ao finlandês, alegando que ele teria de fazer ao menos uma boa temporada de Fórmula 3 para obtê-la. E ela não estava errada, já que um piloto de Fórmula Renault teoricamente não tem as competências mínimas necessárias para a Fórmula 1. Após muita choradeira de Peter Sauber, a FIA liberou o finlandês para correr em quatro corridas. Se fracassasse, voltaria para a creche.

Para surpresa de todos, Räikkönen era bem talentoso e conseguiu aprender rapidamente a manejar um carro de Fórmula 1. Só que, por outro lado, eu sempre estranhei alguns fatos que me parecem associados a uma ascensão muito rápida. No início de carreira, Kimi tinha alguns problemas com pressão, erros crassos e muitas quebras. Além disso, sua personalidade extremamente fechada e avessa aos meandros da Fórmula 1 sugeriam que ele nunca conseguiu se acostumar ao ambiente cruel do automobilismo. Tivesse tido uma ascensão normal, com passagens pela Fórmula 3 e Fórmula 3000, e talvez ele se sentisse um pouco menos deslocado e incomodado. Impressão minha, mas é impressão.

Eu não sou exatamente favorável a esse negócio de pular etapas para chegar ao topo o mais cedo possível. Hoje em dia, existe uma paranoia generalizada no sentido de criar astros cada vez mais jovens. No automobilismo, o sujeito obrigatoriamente deve chegar à Fórmula 1 com menos de 25 anos. Passou disso, é velho, não serve mais. Mal comparando, é que nem a candidata a modelo que é eliminada porque tem dois centímetros a mais no quadril. Por isso, quanto mais cedo chegar lá, melhor. Algo insensato – e sem grande utilidade prática.

Tarso Marques, que sofreu na Fórmula 3000 em 1994 devido à falta de maturidade

Não sou contra um jovem piloto estrear com 16 ou 17 anos nos monopostos. Na verdade, é uma idade bastante aceitável. Com 20 ou 21, ele chega à GP2. Se ele for bom, aos 23 ou 24 estará na Fórmula 1 e será feliz (ou não). Se demorar um pouco mais, não há problema. Na verdade, acho esse negócio de idade algo meio superestimado nos dias atuais. Damon Hill estreou na Fórmula 1 com 31 anos e ganhou seu título com 36 anos. Hoje em dia, o cara que estreia com 28 anos é um ancião. Passou dos trinta, então, não há jeito. Teu negócio é jogar carteado com seus colegas na pracinha da igreja. Não deveria ser assim.

Aos 17, 18 anos, o sujeito se vê completamente perdido, sem saber o que fazer. Um bom exemplo é o de Tarso Marques, o curitibano que entrou na Fórmula 3000 aos 18 anos recém-completados. Seu primeiro ano, 1994, foi terrível. Tarso não conseguia se dar bem com sua equipe, a inglesa Vortex. De um lado, ele reclamava que a equipe era amadora e praticamente não o permitia testar. Do outro, a equipe o acusava de ser irresponsável, de se atrasar demais, de perder um teste na Inglaterra por esquecimento e de perder o warm-up da corrida de Barcelona por não conseguir encontrar o autódromo. Ao mesmo tempo, Marques sofria com a falta de dinheiro, as dificuldades linguísticas e a solidão. Em um certo dia, ele chegou a ser visto chorando copiosamente na mesa de um restaurante. Não dá para apontar o dedo para ele. Na mesma idade, a maioria de nós faria o mesmo – ou até pior.

O automobilismo, assim como qualquer esporte de alto nível, é um negócio que requer uma série de qualidades e competências que um moleque de 17 anos raramente tem. Conhecimento técnico básico, desenvoltura, malícia, fluência em pelo menos dois idiomas, sangue frio, paciência, capacidade de improviso e desapego, por exemplo. Sem dominar tudo isso, um Kevin Ceccon da vida corre o risco de não aguentar o tranco e sucumbir aos leões, o que representaria um triste desperdício de talento.

Nunca fui muito a favor dessa precocização de crianças e adolescentes hoje em dia. Vejo aberrações como Neymar e Miley Cyrus, crianças que são ricas, celebradas e influentes demais para suas idades e seus níveis comportamentais e culturais, com medo do que será o futuro. Aos 22 anos, me considero um espermatozoide, alguém incapaz de decidir qual rabanete é o menos podre em um varejão. E acredito que sou, ainda assim, ligeiramente mais maduro que a média. Largar o mundo na mão das crianças não o tornará um lugar melhor, ao contrário do que Drummond certa vez sugeriu. Muito pelo contrário: tendências e grandes decisões serão realizadas por pessoas perdidas e superficiais que não tiveram um amadurecimento normal e completo.

No fundo, eu só disse tudo isso porque temo ver o Ceccon sendo batido pelo companheiro Michael Herck.