A Fórmula 1 é cega. É muda. E surda. E não faz a menor questão de reverter suas incapacidades. Daqui a dois fins de semana, poderemos ou não ter o Grande Prêmio do Bahrein, prevista quarta etapa da temporada 2012. Tudo depende do resultado da reunião a ser feita entre Bernie Ecclestone, Jean Todt e representantes das doze equipes da categoria no próximo sábado em Shanghai. Todas as partes emitirão suas opiniões e colocarão na balança os prós e os contras de viajar para o Bahrein. Da mesa, sairá o veredicto final: ou todo mundo voltará diretamente para a Europa ou a Fórmula 1 seguirá normalmente para o caldeirão do Oriente Médio.

Se existisse um mínimo de sensatez e dignidade em Ecclestone e Todt, é óbvio que ninguém embarcaria para o Bahrein e a Fórmula 1 nunca mais colocaria os pés no país. É óbvio que não estou esperando que os pilotos vistam capuzes, saiam às ruas e se unam aos protestantes xiitas jogando pedras e tochas contra a polícia. Não espero que Bernie Ecclestone cuspa na cara do rei Hamad al Khalifa ou que Jean Todt lidere um coral entoando We are the world, we are the sunnis. Nada disso. Só acho meio nojento que haja carros correndo e gente se divertindo enquanto o pau come do lado de fora. A única coisa que se espera da Fórmula 1 é o não-alinhamento com um regime que não se importa em assassinar algumas pessoas contrárias aos desmandos oficiais.

Se eu fosse o dono do mundo, publicaria uma lista de lugares aonde a Fórmula 1 não poderia ir. Não sou a favor de porcaria alguma na China, um país que dispensa comentários. Acho meio constrangedor erguer o circuito do GP da Índia no meio de um rincão indecorosamente pobre. E nunca sequer pensaria em um GP do Irã. Sim, sou meio radical com essas coisas. País sem liberdade, sem recursos ou sem respeito à dignidade humana não tem o direito de sonhar em realizar corrida de qualquer coisa. Primeiramente, é preciso consertar os problemas reais. Mas é óbvio que nada disso irá acontecer.

Não é de hoje que a Fórmula 1 se enfia em lugares encrencados e tenta fingir que tudo está bem. A melhor história é a do Grande Prêmio da África do Sul de 1985.

Nós, que temos menos de 25 anos, não temos lá muita noção do que era para um não-branco viver na África do Sul daqueles dias. Entre 1948 e 1994, o país foi regido por um sistema legalizado de segregação racial de nome apartheid. Desenvolvida por uma fração da minoria branca que compunha o Partido Nacional no fim dos anos 40, a legislação da apartheid considerava que o país era um conjunto de nações que deveria ser dividido como tal. Os sul-africanos foram classificados em quatro etnias: branca, nativa, indiana (vale ressaltar que muitos indianos emigraram em massa para a África oriental) e “colorida”, que era a nomenclatura utilizada para designar os mestiços.

A intenção era clara: estando legalmente diferenciadas, as etnias acabariam tendo direitos e deveres diferenciados. Com isso, era possível construir um país onde os brancos teriam privilégios e as demais raças ficariam com as sobras. Os atos proclamados posteriormente proibiram o casamento inter-racial, definiram que cada raça poderia morar somente em regiões delimitadas pelo governo, permitiram que áreas e estabelecimentos públicos pudessem ser freqüentados apenas por brancos e estabeleceram que os brancos receberiam educação superior às outras raças. Estas foram apenas alguns dos absurdos aprovados no país durante aqueles dias.

O que a África do Sul estava fazendo naquela época constrangia um mundo que respirava aliviado por ter acabado de extirpar o nazismo da Alemanha. Inicialmente, países como o Reino Unido e os Estados Unidos não reagiram negativamente, pois precisavam do ouro sul-africano e contavam com o governo do país na luta contra o comunismo em plena Guerra Fria. Conforme as coisas pioravam e a opinião pública tomava contato com a realidade, as sanções aumentaram e a África do Sul começou a se isolar.

No mundo esportivo, várias organizações esportivas baniram a participação de atletas e equipes sul-africanas. A FIFA proibiu a participação da África do Sul das competições oficiais a partir de 1963. O Comitê Olímpico Internacional não permitiu a participação do país nas Olimpíadas de 1964 e 1968 e baniu em definitivo sua delegação a partir de 1970. Pressionados pela comunidade internacional, outros esportes tiveram problemas para realizar competições envolvendo a África do Sul e acabaram riscando o país do mapa. Qual foi a única grande modalidade que realizou 25 eventos em plena era da apartheid? Adivinhem.

Em 1985, a autista Fórmula 1 tinha uma corrida prevista para o dia 16 de novembro, um sábado de sol, no circuito de Kyalami. Naquele ano, a revolta popular contra a apartheid havia chegado a níveis insustentáveis. Greves envolvendo estudantes e trabalhadores do campo paralisaram o país. Nas cidades, bombas e granadas eram arremessadas pelos revoltosos nos órgãos públicos e nas forças oficiais. O presidente Pieter Botha chegou a oferecer a liberdade condicional ao então presidiário Nelson Mandela, mas o ativista antiapartheid recusou a oferta. O principal jornal de oposição ao regime, o Rand Daily Mail, fechou as portas após sucessivos prejuízos. A economia mergulhou em uma crise de dívida externa após os bancos internacionais terem decidido cortar suas linhas de crédito. Seria neste ambiente sadio e pacífico que a Fórmula 1 iria fazer seu show.

Nos meses que antecederam a corrida, as discussões sobre o quão ético seria realizar alguma coisa por lá estavam ainda mais tensas do que hoje em dia. Na verdade, poucos acreditavam que a Fórmula 1 realmente iria para a África diante de tantos problemas. A própria organização parecia descrente, e isto pode ter sido uma das razões para ela decidir antecipar o evento do dia 16 de novembro para o dia 19 de outubro, outro sábado de sol.

No fim de agosto, o jornal italiano Corriere dello Sport perguntou a várias pessoas envolvidas com a Fórmula 1 o que elas achavam da realização do GP da África do Sul. As opiniões foram negativas em uníssono. O tricampeão Niki Lauda foi incisivo: “É uma loucura ir à África do Sul. Eles têm problemas demais para se interessarem por uma prova de Fórmula 1”.

O colega Elio de Angelis concordou: “Não deveríamos ir à África do Sul. Primeiramente, por motivos humanitários: estão matando pessoas por motivos políticos. Além disso, nós, da Fórmula 1, estamos correndo sérios riscos. Nossa presença naquele país seria utilizada pela polícia e pelo exército como justificativa para maior intervenção e repressão aos grupos que protestam contra a discriminação racial”. Alguém imagina um piloto contemporâneo dando uma opinião deste tipo?

No dia 9 de agosto de 1985, o presidente brasileiro José Sarney, por meio do decreto nº 91.524, sancionou uma política que restringia “todos os contatos esportivos, culturais e artísticos com a África do Sul, conforme recomendado pelas Nações Unidas”. Todos ficaram curiosos com relação à postura do governo brasileiro em relação às participações de Nelson Piquet e Ayrton Senna na corrida.

Em 10 de setembro, tendo como base o decreto descrito acima, o Itamaraty solicitou à FISA que transferisse a corrida para outro país. Ao mesmo tempo, o órgão diplomático pediu a Senna e Piquet para que não participassem da corrida caso ela acontecesse. Nelson, estritamente profissional, respondeu que não corria pelo Brasil, mas sim pela Brabham. Para ele, somente um decreto-lei poderia impedi-lo de ir em frente, portanto. Ayrton, por outro lado, só veio a falar oficialmente sobre o assunto dias depois. Disse que poderia boicotar, sim.

Houve ainda uma possibilidade da CBA cassar as licenças de Senna e Piquet, mas a medida foi considerada drástica e até mesmo inócua, pois eles poderiam arranjar facilmente uma carteirinha em qualquer paizeco por aí. Não dava para segurá-los, esta era a verdade.

Outros países também se manifestaram. Também em 10 de setembro, os governos da Suécia e da Finlândia anunciaram que não queriam ver seus pilotos, Stefan Johansson e Keke Rosberg respectivamente, participando da corrida. Se Johansson e Rosberg desobedecessem, perderiam as suas licenças e não poderiam chorar. A ministra da Educação finlandesa argumentou que a atitude seria tomada até mesmo para evitar que, no caso de vitória de Rosberg, o hino finlandês fosse executado no pódio.

Em 11 de setembro, o ministro da Juventude e dos Esportes da França pediu para que as equipes do país, Ligier e Renault, não participassem da corrida de Kyalami. No dia seguinte, a Renault anunciou que não participaria da corrida. Como a Ligier era diretamente ligada ao presidente François Mitterrand, ela também não demorou mais do que alguns dias para anunciar que não viajaria à África do Sul. Logo de cara, duas equipes a menos para a corrida. O pior para a Fórmula 1 é que nenhuma delas poderia ser punida, pois alegavam “motivos de força maior” para não comparecerem.

A situação ficava cada vez mais tensa. O francês Alain Prost, que havia acabado de se sagrar campeão, afirmou à mídia francesa que seria ridículo se o GP da África do Sul fosse realizado sem competidores como Rosberg, Senna e Piquet. Foi uma bela resposta ao presidente da FISA Jean-Marie Balestre, que disse que daria para fazer a corrida com apenas quinze carros.

Em 14 de setembro, Balestre voltou a demonstrar que não cederia a qualquer pressãozinha política e confirmou a realização do GP da África do Sul no dia 19 de outubro. Mas a pressãozinha estava virando um negócio cada vez mais difícil de lidar. No dia 18 de setembro, o Itamaraty voltou a mandar outra cartinha à FISA exigindo o cancelamento do Grande Prêmio da África do Sul.

Nestes mesmos dias, o governo da Itália também confirmou sua oposição à realização da corrida. E suas equipes, Ferrari, Alfa Romeo, Minardi e Osella, também correriam o risco de não participar do GP. O comendador Enzo Ferrari confirmou que não correria se sua rival, a McLaren, também não competisse. De bobo, ele não tinha nada: Ferrari e McLaren eram as grandes candidatas ao título.

Isso quase aconteceu quando o Reino Unido também considerou não deixar suas equipes irem à África. Como a esmagadora maioria das escuderias vinha da Inglaterra, as coisas ficariam realmente pretas. Considerando que a alemã Zakspeed não disputava provas fora da Europa, o mais bizarro dos cenários previa apenas uma equipe apta para participar do GP da África do Sul: a novata americana Haas!

Mas nem a Itália e nem o Reino Unido estabeleceram proibições e suas equipes puderam embarcar normalmente para Kyalami. Não demorou muito e Ayrton Senna também reviu sua posição de possível boicote, confirmando sua participação no GP da África do Sul. Portanto, 21 carros estariam presentes: as francesas Ligier e Renault realmente ficaram de fora, assim como a RAM, que não tinha dinheiro para prosseguir. O evento, para alívio de Jean-Marie Balestre e do governo sul-africano, estava salvo.

No Brasil, a participação de Piquet e Senna foi alvo de críticas. O cantor Martinho da Vila chegou a pedir para que eles não largassem, pois “seriam considerados racistas pelos meus irmãos negros”. Ativistas do movimento negro e alguns deputados fizeram coro com o sambista. Mas os dois largaram.

Depois de tanta choradeira, o GP da África do Sul transcorreu normalmente. Tão revoltosos enquanto estavam na Europa, pilotos e equipes não falaram uma única palavra contra o evento quando foram para lá. Alguns patrocinadores, como a Marlboro, a Barclay e a Beatrice, decidiram não estampar seus decalques nos seus carros. Em alguns países, como foi o caso na Itália, as emissoras de TV não transmitiram a prova como protesto. E só.

O GP de 1985 realmente aconteceu, mas a FISA não queria mais saber de confusão. Na semana seguinte à da corrida, o presidente Jean-Marie Balestre anunciou o cancelamento a edição de 1986 alegando a falta de “garantias necessárias para figurar no certame”. Após duas décadas e meia, a Fórmula 1 finalmente deixaria de dar as caras num pais que tratava pessoas de maneira completamente diferente unicamente por causa da cor da pele.

No fim das contas, o que aconteceu dentro das pistas é o que menos importa. Qual é a razão, então, da escolha da foto de Philippe Streiff para ilustrar o post?

Streiff havia sido contratado pela Ligier em meados de 1985 para substituir Andrea de Cesaris após o GP da Holanda. Como a equipe de Guy Ligier seria uma das duas que boicotariam a etapa da África do Sul, o piloto acabaria tendo de perder esta corrida. Para sua sorte, a Tyrrell tinha uma vaga aberta no carro que pertencia ao falecido Stefan Bellof.

Streiff conversou com Ken Tyrrell e os dois decidiram unir forças inicialmente apenas para a corrida de Kyalami, mas sempre pensando um pouco além. O acordo era vantajoso para ambos os lados: o piloto acabou abrindo caminho para a assinatura de um contrato válido para toda a temporada de 1986 e a equipe conseguiu descolar os motores Renault turbo por intermédio da chegada de Streiff.

No fim, todos ficaram felizes: Streiff, Tyrrell e Renault. Como é bom concretizar um bom negócio. Até mesmo o sofrimento daqueles negões lá fora desaparece, não é?

Danilo Petrucci e sua moto CRT

Não costumo ver corridas de motos. Não gosto. Tenho discurso de avó: acho moto um negócio perigoso pacas, um verdadeiro moedor de ossos urbano. E as corridas são diferentes do meu planeta, embora reconheço serem divertidíssimas. Mas neste fim de semana, larguei a TV ligada na primeira etapa da temporada 2012 da MotoGP, realizada no Catar. No geral, gosto mais de ver as movimentadas provas da Moto2 e da nova Moto3, cheias de novatos doidivanas. Mas a minha curiosidade no domingo era outra.

Eu queria ver o desempenho das motos CRT. Para quem não sabe, CRT significa Claiming Rule Team, um conjunto de regras estabelecidas neste ano que visa permitir que uma equipe pequena possa participar da tão esvaziada MotoGP. Por meio disso, a equipe pode arranjar um chassi artesanal e um motor parecido com aqueles utilizados nas motos de rua por um precinho camarada. Quem optar por este pacote terá direito a alguns pequenos benefícios: possibilidade de usar mais motores por ano e mais combustível no tanque. Para uma Garagem do Zé da vida, um baita negócio.

A MotoGP, sancionada pela Federação Internacional de Motociclismo, vinha perdendo inscritos a cada ano que passava. Os custos altos se tornaram tão mais altos que chegou-se a um ponto em que apenas Honda, Yamaha e Ducati tinham dinheiro e disposição para gastá-lo. Produzia-se um protótipo que nunca seria utilizado nas vias comuns deste planeta por pessoas normais. Em tempos de vacas magras, não fazia sentido jogar milhões de dólares no lixo para isso. Era melhor participar dos campeonatos de Superbike, que têm os pés no chão e usam motos de rua.

Os organizadores da MotoGP se tocaram. Enfiando o orgulho em orifícios pouco arejados, eles decidiram inventar este troço de CRT e o resultado foi a chegada de seis novas equipes e um razoável número de 21 motos largando na etapa do Catar. É óbvio que algumas estrelinhas reclamaram: Casey Stoner, conhecido marrento, e Dani Pedrosa, sempre simpático como uma fruta podre, disseram que as CRT eram muito lentas, seriam pilotadas por gente inexperiente, atrapalhariam o trânsito e mais um monte de bobagens que não vou elencar. Por isso que Valentino Rossi é um cara legal: mesmo podendo esbanjar quanta arrogância e elitismo desejar, o multicampeão afirmou que considerava a chegada de novas motos algo benéfico para o esporte e que não se importaria em pilotar uma CRT.

Rossi está certíssimo, embora talvez pense espertamente que motos mais lentas poderiam impedi-lo de mofar nas últimas posições. Sem as CRT, o grid do Catar teria apenas doze motos. Doze. Duvido que alguém seja retardado o suficiente para achar que uma disputa restrita a quatro Hondas, quatro Yamahas e quatro Ducatis não seria uma coisa constrangedora. E talvez até inviável: os contratos com as emissoras de TV sempre exigem um número mínimo de participantes. Imagine o quão ridículo seria se a MotoGP não fosse realizada por não ter participantes o suficiente.

A presença das CRTs serve para cobrir o buraco deixado por marcas como a Suzuki, representada no ano passado por Álvaro Bautista

Embora não seja o maior dos fãs da categoria, devo admitir que a organização do Mundial de Motovelocidade acertou em cheio ao entender que o rebaixamento de alguns padrões é necessário para a sobrevivência do esporte. Enquanto isso…

Pois é, você percebeu que vou colocar a maldita da Fórmula 1 no meio do assunto. É verdade que muito fã xiita da MotoGP reclamou pela presença de motos muito mais lentas do que as preparadas diretamente pelas grandes fábricas, mas a comoção não foi tão grande. No fundo, todos sabiam que somente isso poderia garantir a viabilidade da MotoGP. É um raciocínio que todo mundo que gerencia as categorias de ponta deveria ter. Mas é óbvio que a Fórmula 1 sempre vai no sentido oposto.

Hoje, a categoria tem doze equipes e 24 carros no grid. É muito? Óbvio que não, mas não é este o ponto agora. Indo mais a fundo, quem são estas equipes? Duas montadoras (Mercedes e Ferrari), três fabriquetas artesanais de carros esportivos (McLaren e Marussia), duas engarrafadoras de touros (Red Bull e Toro Rosso), dois trambolhos financeiros (Lotus e HRT), duas brincadeiras de gente rica (Force India e Caterham) e duas equipes de corrida (Williams e Sauber). Qual é a real sustentabilidade disso tudo aí?

Nestes últimos dias, três notícias chamaram bastante a atenção. Após a divulgação de um novo Pacto de Concórdia que pagaria valores especiais às equipes Red Bull, McLaren e Ferrari, a Daimler, dona da Mercedes-Benz, estaria considerando uma atitude de represália que poderia incluir uma ação legal e até mesmo a retirada de sua equipe no ano que vem. Afinal de contas, a Mercedes GP também é gente grande e merece uma fatia maior do bolo, confabulam os germânicos.

A segunda notícia é o fim do acordo entre Lotus e Lotus. Calma, calma, explico. A Lotus Cars, aquele ateliê de pequenas preciosidades em forma de meio de transporte, acabou tendo seu contrato de patrocínio rescindido com a Lotus GP, a equipe de Fórmula 1 comandada pelo fundo de investimentos GENII que tomava emprestado o famoso nome. Aparentemente, foi um divórcio amigável e sem paneladas. A Lotus GP segue Lotus GP até 2017. Depois disso, mistério total.

A outra notícia é a revelação, por parte da própria Sauber, que a equipe está falida e alguns de seus funcionários estão fazendo malabarismo no farol. OK, um pouco de exagero. A tal da Monisha Kaltenborn, executiva-chefe da equipe suíça, afirmou que não estava satisfeita com os patrocinadores e que somente a falta do apoio de uma grande empresa impede que Kamui Kobayashi e Sergio Pérez desafiem as equipes de ponta. A Sauber detém um orçamento de cerca de 80 milhões de euros. A maior parte dessa grana vem de Carlos Slim, o multimilionário mexicano que apoia a carreira do jovem Pérez. Mesmo que pareça um disparate reclamar do apoio do homem mais rico do planeta, os argumentos fazem sentido. Falta dinheiro, sim, senhor.

A Lotus, que deixou de ser patrocinada pela Lotus. O que será da Lotus?

Até quando dá para confiar nestas equipes? A Sauber não pretende cair fora e já até nomeou Monisha como a grande substituta de Peter Sauber na gestão daqui a algum tempo, mas fica claro que o dinheiro mexicano é o que move tudo ali. Sem ele, a equipe voltaria ao deplorável patamar de 2010. Ou simplesmente fecharia as portas, acompanhando a aposentadoria de seu criador. É algo que deve ser pensado com cuidado, até porque Pérez é um dos nomes preciosos da wishing list ferrarista para 2013 e não seria absurdo imaginar Slim e seus cifrões seguindo com o jovem pupilo para Maranello. A Lotus comandada por um fundo de investimentos é um verdadeiro castelo de cartas. E a Mercedes, se os ventos da política não lhe favorecerem, também cairia fora, embora eu prefira acreditar que todas aquelas ameaças não passem de blefe teutônico.

Os fatos podem não ter acontecido ainda, mas as probabilidades sempre pairam. Com exceção de Ferrari e McLaren, ninguém parece ter um futuro garantido. Nem mesmo as equipes da Red Bull: e se aquela gastança bilionária com patrocínio esportivo minguar por algum motivo, seja por uma falcatrua fiscal ou a descoberta de que a bebida nada mais é do que urina de capivara? A Mercedes aparenta estar totalmente atrelada no seu desempenho a curto prazo e também está prestando atenção no novo Pacto de Concórdia. Em mais de uma ocasião, uma possível saída da marca de três pontas foi cogitada – talvez seria melhor voltar à velha função de fornecer motores vencedores aos outros.

Lotus e HRT podem evaporar a qualquer momento, pois os fundos de capital que as controlam podem simplesmente desaparecer num dia de mau humor do mercado financeiro. A Marussia é russa e, sei lá, é sempre difícil confiar. Caterham e Force India dependem da saúde financeira e da vontade de seus excêntricos donos de continuar brincando de Colin Chapman. Por fim, Williams e Sauber sofrem com problemas financeiros há algum tempo e dependem de grana latino-americana. Que também pode acabar a qualquer momento.

A Fórmula 1 está assentada sobre um pedaço de papelão em um rio. Qualquer crise econômica mais grave poderia, na pior das hipóteses, limar mais da metade do grid. Considerando que zilhões de contratos televisivos, de patrocínios e de realização de corridas estão atrelados a um número mínimo de carros no grid, fico imaginando o desastre que seria se uma tormenta econômica um pouco mais forte no Primeiro Mundo engolisse umas três ou quatro equipes.

Todo mundo irá argumentar que a Fórmula 1 sempre esteve e sempre estará correndo este risco, pois é um esporte caro e será o primeiro gasto a ser cortado numa crise. É verdade, mas também é verdade que a categoria nunca esteve numa posição tão frágil. Grandiosa, mas frágil. Deixar o grid nas mãos de montadoras, fundos de investimento e milionários babacas porque eles são os únicos que conseguem sustentar os inacreditáveis níveis de gastos da categoria é um tremendo perigo. Não consigo acreditar que um sujeito astuto como Bernie Ecclestone não pense nisso em momento algum.

A Fórmula 1 também já teve sua "fase CRT": Jonathan Palmer, o campeão da Copa Jim Clark de 1987

Mesmo aqueles que acham que a Fórmula 1 é só para a elite e que a Daslu foi uma grande criação do ser humano deveriam ponderar um pouco sobre isso. Nem mesmo as grandes empresas e as marcas históricas conseguirão salvar o esporte por si só. A Williams virou isso aí que vemos hoje e tenderá a seguir os mesmos passos de Lotus, Tyrrell, Brabham e BRM se não acontecer uma revolução. Montadoras como a GM, a Volkswagen, a Ford e até mesmo a Honda e a Toyota andam ignorando a Fórmula 1 e estão muito bem assim, obrigado. Como nenhuma empresa de fora do mercado automobilístico tem a volúpia que a Red Bull possui para investir em corridas, fica difícil pensar em quem poderia manter o bote flutuando no caso de uma drástica baixa.

Só há um caminho a ser tomado, portanto. Mais cedo ou mais tarde, a Fórmula 1 terá de aceitar suas CRTs. Suas HRTs, aliás. Vocês entendem o que quero dizer. O modelo de gastos estratosféricos e refinamento maximizado se esgotou. Fora Ferrari, McLaren e Red Bull, ninguém mais tem condições financeiras para torrar o que quiser visando unicamente chegar à frente dos demais. É hora de aceitar a realidade e aparar um pouco estas arestas de grandeza. Diminuir motorhomes, promover menos festinhas, reduzir os salários mais altos e acabar com esta anarquia que se transformou a pesquisa aerodinâmica.

A HRT é lenta demais? A Marussia é enganadora? A Caterham promete evolução e não cumpre? As três parecem amadoras demais para o belíssimo e rotundo esporte? Paciência. O ideal seria as equipes grandes se aproximarem das menores e não o contrário. O teto orçamentário é uma boa ideia, ainda mais se vier acompanhado de total liberdade de gastos dentro do limite. Um regulamento que limite o desenvolvimento aerodinâmico e estimule as demais áreas seria interessante. Reduzir o número de viagens para os grandes prêmios ajudaria bastante – qual o nexo de meter uma corrida no Canadá no meio da temporada europeia? Por fim, bem que os fãs poderiam deixar de ser bestas. A Fórmula 1 não é mais o auge da tecnologia e do glamour. Acabou. Aceitem!

Ah, vinha me esquecendo: assim como a MotoGP, bem que a Fórmula 1 poderia deixar mais equipes entrar através de um regulamento diferenciado e um orçamento mais baixo. Um campeonato à parte, quem sabe? Para quem não se lembra, a categoria já chegou a ter dois campeonatos a mais em 1987. Para estimular o uso dos motores aspirados, que seriam os únicos permitidos a partir de 1989, a FISA decidiu promover um campeonato de pilotos próprio para a turma dos sem-turbo, a Copa Jim Clark, e outro de equipes, o Troféu Colin Chapman. A disputa dentro da disputa animou o pelotão de trás e os campeões foram a Tyrrell e seu piloto Jonathan Palmer. Naquela época, ninguém achou ruim. Por que falharia hoje?

Na verdade, eu sei porque falharia. Porque a Fórmula 1 e seus fãs se imbecilizaram e passaram a achar a presença de equipes menores um acinte à ordem e aos bons costumes. Enquanto isso, a comunidade da MotoGP se diverte quando um motociclista como James Ellison, da simplória Paul Bird Racing, comenta no Twitter uma foto do suntuoso restaurante da equipe oficial da Yamaha: “aqui, é sanduíche de presunto ou de queijo”!

Um abraço aos que preferem entrar no restaurante da Yamaha e acabam comendo só pão. Sem queijo ou presunto.

Bonobos, a Páscoa é uma data sacra que deve ser guardada. Podem deixar que eu farei isso: este blog ficará inativo nos próximos dias. Na segunda-feira, talvez, eu volte. Enquanto isso, vá se entupir de bacalhau e chocolate como todas as pessoas normais fazem.

Mas para não deixar isto aqui totalmente parado, lanço um pequeno desafio: piloto, categoria, ano e pista.

Dica? Não dou nenhuma. Mas a resposta não é extremamente descabida, algo do tipo “Tony Trimmer correndo num Mygale-Hyundai no GP de Jyllandsring de 1979.  Vá à caça. Procure. Pegue os indícios da foto. Chute. Tente, invente e faça um 92 diferente.

Feliz Natal aos senhores.

Não era exatamente este o assunto de hoje, mas vamos lá. Nestes últimos dias, um bocado de gente ligada ao automobilismo está postando no Twitter a hashtag #ORionãopodeficarsemautódromo. A mensagem é clara. O Rio de Janeiro está em vias de perder seu único autódromo, o de Jacarepaguá. Sem autódromo, não há automobilismo. Imagino eu que não seja uma idéia muito difícil de ser concebida para um fã do esporte.

Tudo começou neste domingo, um pouco antes da largada da segunda etapa da Fórmula Truck, sediada exatamente no condenado Autódromo Nelson Piquet. Diante de transmissão televisiva ao vivo, algumas pessoas envolvidas com a categoria estenderam uma faixa branca com os dizeres “O RIO NÃO PODE FICAR SEM AUTÓDROMO – Automobilismo também é esporte!”. A intenção foi mostrar, em cadeia nacional, que aquele histórico circuito erguido no bairro carioca de Jacarepaguá estava à beira do desaparecimento. E que toda uma comunidade automobilística sairia em total prejuízo.

A mensagem virou hashtag de Twitter. O jornalista carioca Rodrigo Mattar, um dos maiores fanáticos por automobilismo que eu conheço no Brasil, comprou a briga e acabou meio que liderando a movimentação no site. Eu mesmo, ignorante que sou, só tomei conhecimento disto porque sigo seu perfil. Mesmo sabendo que sou peixe minúsculo, acabei aderindo. Se quiser fazer o mesmo, basta postar #ORionãopodeficarsemautódromo no seu Twitter e esperar que um milagre aconteça e a frase vá parar na lista de assuntos mais comentados, as Trending Topics. A partir daí, um secretário dos esportes de coração mole poderia até ficar comovido. Ou ao menos Jacarepaguá viraria assunto de boteco, ainda que por alguns instantes.

Se você é um bonobo que se interessa minimamente pelo automobilismo brasileiro, sabe o que está se passando no Rio de Janeiro. Em 2003, o Autódromo de Jacarepaguá foi escolhido como local para a construção de um complexo esportivo a ser utilizado nos Jogos Pan-Americanos de 2007. Dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo. A prefeitura do Rio de Janeiro, liderada por César Maia, decidiu simplesmente cortar fora metade do traçado e levantar as instalações no lugar onde ficava a antiga curva Norte. Resultado: o traçado acabou perdendo quase dois quilômetros de extensão em 2006 e se tornou uma coisa perneta, totalmente patética e lamentável.

Esta foi a gota d’água de um prefeito que nunca parece ter gostado muito de corridas. Embora a CART tenha desembarcado no oval de Jacarepaguá em sua primeira gestão, o democrata César Maia não titubeou em cancelar o contrato com a categoria norte-americana no início de 2001. Três anos depois, ele também não se esforçou para segurar a tradicional etapa brasileira do Mundial de Motovelocidade. O Rio de Janeiro, que vinha se consolidando como uma tradicional praça do esporte a motor, sumiu, desapareceu, virou história. Nem mesmo o Autódromo Nelson Piquet foi poupado.

Jacarepaguá em 1988. Em breve, esta foto se referirá a um circuito extinto

Como se não bastasse a mutilação inicial, um acordo selado em 2008 entre o governo federal, a prefeitura do Rio, o COB e a própria CBA definiu o destino definitivo do circuito de Jacarepaguá: a morte. Absolutamente tudo seria demolido para a construção de mais instalações a serem utilizadas nas Olimpíadas de 2016. Segundo este acordo, o automobilismo não sairia perdendo: seria construído um novo e moderníssimo autódromo no bairro de Deodoro.

Como estamos no Brasil, é evidente que quatro anos não são tempo o suficiente para iniciar uma obra pública. Já que ainda não estamos na fase do concreto e das vigas, vamos falar apenas de números e projeções. A mídia oficial é só elogios para Deodoro: traçado de 4,7 quilômetros com desvio de nível, estacionamento para 10 mil carros, arquibancadas para 30 mil pessoas, kartódromo e espaço para escritórios e restaurantes. Nada foi falado sobre o orçamento, mas o blog SOS Autódromo do Rio de Janeiro apurou que poderiam ser gastos até 400 milhões de reais nas obras.

Como é? 400 milhões de reais? Para comparação, o autódromo barenita de Sakhir custou 273 milhões de reais e comporta 45 mil pessoas. O de Buddh, que estreou na Fórmula 1 no ano passado, custou só um pouquinho mais: 392 milhões de reais. Imagino eu que, com tanta grana investida, a pista de Deodoro não terá problemas para receber corridas de Fórmula 1, F-Zero e foguetes da NASA. A não ser que os 400 milhões revertidos para as obras não sejam exatos 400 milhões, se é que vocês me entendem.

Só que não é este o ponto principal. A destruição do autódromo de Jacarepaguá é ofensiva à história do esporte. Sou do tipo que acha que coisas antigas e boas devem ser tombadas. Evito colocar questões econômicas neste tipo de assunto, pois são elas que justificam a destruição de um belo casarão, uma praça ou um monumento – ou alguém aqui acha que não é rentável trocar um lugar histórico por um condomínio comercial devidamente posicionado em uma região estratégica? Como fã das corridas, não consigo banalizar a existência de um circuito com tanta história. Ainda mais quando este circuito desaparece por algum motivo inaceitável, como um shopping (procurem saber sobre a história de Riverside) ou um punhado de instalações poliesportivas que serão simplesmente abandonadas após os jogos olímpicos de 2016.

A questão aqui é mais de respeito à história do esporte do que qualquer outra coisa. Não sou fã do antigo traçado de Jacarepaguá. Para mim, ele se parecia com um kartódromo crescido, com seu terreno impecavelmente plano e suas curvas arredondadas. As corridas de Fórmula 1 realizadas por lá eram abaixo da média. Só que o que eu acho ou deixo de achar não tem a menor relevância agora. Este é um momento que os fãs de automobilismo deveriam se unir para provar que, sim, as corridas de carro não são apenas uma estúpida diversão de gente rica, boa parte do orgulho que o brasileiro sentia de si mesmo nos anos 80 vinha das pistas e, acima de tudo, muita gente depende das corridas para sobreviver. Como eu disse lá em cima, se não há autódromo, não há automobilismo.

O extinto Teatro Municipal de Campinas: a prefeitura derrubou e ninguém moveu uma palha para impedir a tragédia. A cultura campineira começou a decair a partir daí. Um bom exemplo para quem não liga para o fim de Jacarepaguá

Um protesto no Twitter realmente pode não servir para muita coisa, ainda mais em se tratando de um assunto que, aparentemente, não tem tanta utilidade pública. Que ninguém ache que uma simples hashtag vai mudar o planeta e salvar as baleias. Nem mesmo um carrapato acredita nisto. A intenção do #ORionãopodeficarsemautódromo é tão somente colocar este assunto à discussão pública. Levar aos políticos e às pessoas de fora do meio que existe um grupo contrário à demolição do Autódromo Nelson Piquet e que ele deve ser escutado. Mostrar que o automobilismo, aquele esporte que todo mundo aprendeu a gostar “nos tempos do Senna”, não vai bem no Brasil.

Alguns ainda achariam que defender um circuito é coisa de gente xiita e fútil que não tem outras preocupações na vida. Pois qual seria a utilidade de defender um autódromo ou, sei lá, um cinema antigo? Em São Paulo, um enorme grupo de manifestantes exigiu a reabertura do Cine Belas Artes, fechado no ano passado. Embora o grupo ainda não tenha conseguido reabrir o cinema, ele conseguiu forçar a reabertura do processo de tombamento do seu prédio, que corria o risco de ser demolido. Toda esta celeuma por um cinema. Mas o fato é que, sem o Belas Artes, São Paulo certamente ficou mais pobre. A reclamação geral é válida.

Dou um exemplo contrário. Falo com conhecimento de causa, pois ele aconteceu aqui na merda de cidade onde moro, Campinas. Em 1952, o então prefeito Ruy Novaes, com amplo apoio dos vereadores, pôs abaixo o majestoso prédio do Teatro Municipal alegando problemas estruturais. Esta explicação não colou e até hoje se discute quais foram as reais motivações para a derrubada de um belíssimo casarão que comportava 1.300 pessoas.

A elite campineira ficou incomodada com o fim do Teatro Municipal, mas também não se mobilizou para evitá-lo, assim como também nunca fez questão de brigar por um novo teatro da mesma magnitude. Resultado: sem seu grande pólo artístico, Campinas perdeu relevância cultural. Hoje, as pessoas de fora só conhecem a cidade por causa da enorme quantidade de nerds barrigudos que se orgulham de trabalhar como escravos nas empresas estrangeiras de tecnologia. Os poucos que se interessam por cultura por aqui são obrigados a se satisfazer em São Paulo ou até mesmo em Paulínia, uma cidade consideravelmente menor. Quanto ao espaço do antigo Teatro, ele deu lugar a um estacionamento e a uma loja da C&A…

Há quem veja tudo pela ótica economicista, aquela que diz que tudo se resume às relações de oferta e procura. Há quem empunhe uma lupa tecnocrata e diga que esporte, cultura, história, arte, diversão e qualquer coisa não-produtiva são inúteis e não merecem nossa indignação. Nem diria que são visões erradas, mas apenas tristes e cinzentas das coisas. O autódromo de Jacarepaguá faz parte da história de muita gente. Derrubá-lo do nada seria como jogar fogo em uma parte das memórias dessa gente. Faz parte do ser humano se apegar às coisas. Mesmo que elas aparentemente não sirvam para nada.

Por isso que apoio o movimento “O Rio não pode ficar sem autódromo”. #ORionãopodeficarsemautódromo

Hoje, termino de apresentar os pilotos da temporada 1982 da Fórmula 3 jamaicana. Mentira, pois a Jamaica não tem automobilismo, estou falando da GP2, a temporada em questão é a atual e todos os pilotos já foram apresentados na semana passada. Nesta parte final, você aprenderá a identificar os carros das treze equipes da melhor categoria de base do planeta. Assim como você se orgulha de saber quem é a Marussia na Fórmula 1, você poderá humilhar seus amigos leigos com todo o seu conhecimento enquanto os obriga a assistir a uma corrida.

BARWA ADDAX TEAM, A RICA

1- JOHNNY CECOTTO JR. & 2- JOSEF KRAL

Em termos de estrutura, histórico e gente envolvida, a Addax está para a GP2 como o Barcelona está para o futebol espanhol. Fundada em 2009 a partir da compra da Campos Racing, a equipe é rica, bem relacionada e poderia subir tranquilamente para a Fórmula 1. Seu dono é o espanhol Alejandro Agag, um economista que possui tudo quanto é tipo de empresa e que tem amigos tão desimportantes como Flavio Briatore, Bernie Ecclestone e até mesmo o ex-primeiro-ministro espanhol José María Aznar. O carro-chefe de Agag é a Addax Capital, um rotundo fundo de investimentos sediado na Inglaterra.

Tamanho é o brilho de Agag que sua equipe acabou atraindo alguns dos patrocinadores mais fortes da categoria, como o banco Santander, a grife Pepe Jeans e a gigante imobiliária Barwa, que nomeia a equipe. O dinheiro jorra a ponto da Addax ter conseguido contratar o engenheiro Chris Murphy, que já trabalhou em várias equipes de Fórmula 1. Não por acaso, os resultados são ótimos. Em apenas três anos de existência, a Addax ganhou um título e dois vices em campeonatos de equipes na GP2. Falta ainda um de pilotos. Neste ano, os dois representantes da equipe são os limitados Johnny Cecotto Jr. e Josef Kral. É tradição da escuderia preferir contratar pilotos experientes e endinheirados a apostar tudo em novatos.

DAMS, A VELHA

3- DAVIDE VALSECCHI & 4- FELIPE NASR

É a equipe mais antiga do grid e não me refiro apenas aos dias da GP2, é claro. A DAMS surgiu em 1989 a partir da associação do empresário Jean-Paul Driot, um dos sócios da antiga GBDA Motorsport, e do piloto quarentão René Arnoux, que já estava se cansando de permanecer na Fórmula 1 apenas para atrapalhar os líderes. Apoiada oficialmente pela Elf, a equipe rapidamente se tornou uma das grandes da antiga Fórmula 3000 Internacional, vencendo campeonatos com quatro pilotos. Deixou a Fórmula 3000 no fim de 2001 para se concentrar nos protótipos, mas decidiu participar da GP2 a partir de 2005.

Comandada apenas por Jean-Paul Driot nos dias atuais, a DAMS demorou um pouco para engrenar na categoria. Mesmo contando com o apoio oficial da Toyota entre 2006 e 2009, a equipe raramente conseguia sair do meio do pelotão. As coisas só melhoraram a partir de 2010, quando a Toyota deu lugar à GENII Capital, aquela mesma que passou a comandar a equipe Renault. A pintura mudou e o amarelo tomou conta dos carros. No ano passado, com Romain Grosjean, a DAMS conquistou o título de pilotos e só não venceu o de construtores porque seu segundo piloto, Pal Varhaug, não marcou nenhum ponto. Neste ano, a receita se repete: um piloto experiente, Valsecchi, e um novato, o brasileiro Nasr. Segue como uma das grandes favoritas aos títulos de pilotos e construtores.

RACING ENGINEERING, A NOBRE

5- FABIO LEIMER & 6- NATHANAËL BERTHON

Fundada em 1999, a Racing Engineering é talvez a equipe mais nobre do automobilismo mundial. Não entendeu? O dono da equipe é o espanhol Alfonso de Orléans-Borbón, o Duque da Galliera. Filho de uma família de alta linhagem na Espanha, Alfonso tem parentesco distante com a Rainha Vitória do Reino Unido, a que reinou durante quase todo o século XIX. Além do sangue azul, Orléans-Borbón possui uma das equipes mais bem sucedidas do automobilismo espanhol. Antes de ser escolhida para a temporada inaugural da GP2, a Racing Engineering ganhou quase tudo o que disputou na Fórmula 3 espanhola e na World Series by Nissan.

Nas primeiras quatro temporadas da GP2, a equipe se destacou por ter os melhores patrocinadores próprios entre todas: a Repsol e a Telefónica. A crise de 2008 acabou afastando estas parceiras, mas a competência e a conta-corrente ainda foram mantidas. A Racing Engineering foi campeã de pilotos em 2008 com Giorgio Pantano e apareceu bem em várias outras temporadas. No ano passado, seus carros apresentaram acentuada tendência de desgaste de pneus, o que denotaria um acerto ineficiente. Em 2012, conta com o bom suíço Fabio Leimer e com o francês Nathanaël Berthon para continuar presente no pelotão nobre da GP2.

ISPORT INTERNATIONALL, A AMISTOSA

7- MARCUS ERICSSON & 8- JOLYON PALMER

Esta é, talvez, minha equipe favorita da GP2. Por vários motivos. A pintura do carro é sempre das mais bonitas da temporada, um azul escuro adornado com partes em vermelho. A dupla de pilotos, via de regra, é experiente e caprichada. Os mecânicos e engenheiros são competentes. O ambiente da equipe, dizem, é o mais sadio e divertido entre todas as equipes da GP2. Por fim, um dos fundadores da equipe foi Jonathan Williams, filho de Sir Frank. O outro é Paul Jackson, que já teve cargo de direção na antiga Petrobras Jr da Fórmula 3000.

A iSport surgiu em 2005 apenas para disputar o então inédito campeonato da GP2. Desde então, a esquadra obteve um título de pilotos com Timo Glock em 2007 e ótimos resultados em outras temporadas. Nos últimos anos, o brilho da equipe arrefeceu um pouco, talvez graças à sentida ausência de um patrocinador diretamente ligado à equipe – a iSport sempre sobreviveu apenas com o dinheiro de seus pilotos. Neste ano, a dupla é composta pelo promissor Marcus Ericsson e pelo apenas mediano Jolyon Palmer. Não é o melhor par que a equipe já teve, mas ainda dá para o gasto. Vamos ver se toda a animação permanecerá neste ano.

LOTUS GP, A DESEJADA

9- JAMES CALADO & 10- ESTEBAN GUTIERREZ

Você deve achar que esta é uma das equipes mais novas do campeonato, mas ela não é. Na verdade, a Lotus GP nada mais é do que a antiga ART Grand Prix pintada de preto e dourado. No fim de 2010, naquele aborrecido imbróglio entre Lotus Cars e Lotus Racing, a poderosa equipe francesa da GP2 acabou sendo adquirida pela Lotus Cars e passou a contar com carros esverdeados no ano passado. Neste ano, o preto tomou conta de tudo. Desnecessário dizer que a Lotus da GP2 é parceira técnica da Lotus de Kimi Räikkönen e Romain Grosjean na Fórmula 1.

Uma grande parceira. A ART Grand Prix disputou corridas na GP2 entre 2005 e 2011, sempre obtendo resultados de ponta: três títulos de pilotos e três de equipes, o que a caracteriza como a equipe de maior sucesso da história da categoria. De lá, surgiram para o mundo nomes como Lewis Hamilton, Nico Rosberg, Nico Hülkenberg, Lucas di Grassi e Romain Grosjean. Neste ano, a sortuda dupla que tem todos os meios para brigar por vitórias e pela taça maior é composta pelos talentosos James Calado e Esteban Gutierrez, crias da GP3. Como não poderia deixar de ser, é uma das grandes favoritas ao título. Por fim, um último detalhe: um dos sócios da equipe é Nicolas Todt, filho do tal presidente da FIA.

CATERHAM RACING, A IRMÃZINHA

11- RODOLFO GONZALEZ & 12- GIEDO VAN DER GARDE

Esta é outra daquelas equipes com alguém muito poderoso por trás. A Caterham Racing da GP2 é a filial da Caterham Racing da Fórmula 1 e a história de ambas começa lá com aquele malaio obeso e extravagante conhecido como Tony Fernandes. Após ter fundado sua tão sonhada equipe de Fórmula 1, Fernandes concluiu que tinha o dever moral de dar apoio a jovens talentos das categorias menores. Ele decidiu fundar uma escuderia de GP2 e conseguiu ser um dos treze escolhidos para competir a partir da temporada de 2011.

Vale dizer que o nome Caterham Racing é novo. No ano passado, a equipe era conhecida como Team Air Asia em referência à companhia aérea de propriedade de Tony Fernandes. Ainda em 2011, ele comprou a Caterham, uma pequena fábrica inglesa de carros esportivos, e aproveitou seu conhecido nome nas suas equipes de corrida. Na GP2, mesmo sem tanta experiência prévia, a Caterham Racing é uma das equipes mais fortes. Nesta temporada, os experientes Giedo van der Garde e Rodolfo Gonzalez deverão conduzir os carros esverdeados a algum lugar. Ao título? Talvez, mas somente com Van der Garde. A tendência maior é beliscar uns pódios aqui e acolá.

SCUDERIA COLONI, A MANCHADA

14- STEFANO COLETTI & 15- FABIO ONIDI

Pergunta recorrente, e sempre acompanhada de alguma expressão de repulsa ou escárnio, é “esta Coloni é AQUELA Coloni?”. O sujeito certamente se refere à equipe que passou apuros na Fórmula 1 entre 1987 e 1991. A resposta é sim. E não. De fato, a estrutura daqueles tempos foi reaproveitada e a genética está aí até hoje. Mas a diretoria mudou. Não sei o que o velho Enzo Coloni anda fazendo da vida, mas os seus tempos de chefe de equipe ficaram na pré-história. Hoje em dia, quem manda na bodega é o filho Paolo Coloni, que chegou a andar de Fórmula 3 nos anos 90.

Muita gente não gosta de Paolo Coloni, que já foi acusado de ser um mercenário que mantém uma equipe apenas para tomar dinheiro de jovens iludidos. Fico em cima do muro. O fato é que a Coloni está aí e faz um papel até razoável. No ano passado, ela contou com Luca Filippi durante meio ano e o piloto italiano conseguiu a proeza de terminar o ano como vice-campeão. Mas não dá para esperar grandes feitos da equipe, que sempre alterna temporadas boas e péssimas. Neste ano, Stefano Coletti e Fabio Onidi serão os pilotos. De Coletti, dá para esperar uma ou outra vitória. E mais nada.

TRIDENT RACING, A DESPREOCUPADA

16- STÉPHANE RICHELMI & 17- JULIÁN LEAL

Se há uma equipe que nunca fez nada de brilhante e parece não estar muito preocupada com isso, é a Trident Racing. Ela surgiu em 2006, nunca conseguiu nada mais do que uma sexta posição entre as equipes no ano de estreia e parece não dar muita bola para isso. Na verdade, seus criadores tinham outros afazeres e tratavam o projeto mais como um hobby para ricos. Um deles era o próprio Clarence Seedorf, o meio-campo do Milan. Outro era Alessandro Alunni Bravi, diretor de marketing do Rali da Sardenha. O terceiro, e o único que permanece na equipe até hoje, é Maurizio Salvadori, empresário do ramo fonográfico. Eros Ramazzotti, aquele cantor italiano que sua mãe adora, é gerenciado por ele e foi o padrinho da Trident Racing no começo.

Por seus ótimos contatos nos ambientes empresarial e artístico, Salvadori nunca teve dificuldades para arranjar patrocinadores. Faltava apenas dar uma melhorada na área técnica da Trident, embora o engenheiro sueco Nick Wasyliw seja um dos mais experientes em atividade no automobilismo mundial. Contratar pilotos melhores também ajudaria. Nos últimos anos, a Trident não teve constrangimentos ao arregimentar pilotos ruins com muito dinheiro. Nesta temporada, a dupla Stéphane Richelmi e Julián Leal é uma das piores do grid. Mas o bolso de Maurizio Salvadori deve estar muito feliz. Cose della vita.

VENEZUELA GP LAZARUS, A SOCIALISTA

18- FABRIZIO CRESTANI & 19- GIANCARLO SERENELLI

A mais nova equipe da categoria não chegou despercebida. Ao ser anunciada como a substituta da antiga Super Nova Racing para esta temporada, a Venezuela GP Lazarus deixou bastante gente com inúmeros pontos de interrogação na cabeça. Quem são os donos? Hugo Chavez tem alguma coisa a ver? E esse negócio de Lazarus? Será que ela fará o papel de refúgio de pilotos venezuelanos sem jeito para coisa? Conforme o tempo passou, as perguntas começaram a ganhar respostas.

A Venezuela GP Lazarus é uma equipe italiana liderada por Tancredi Pagiaro, que havia criado a Team Lazarus em 2009. No início do ano, Pagiaro se uniu a alguns investidores venezuelanos e comprou os ativos da Super Nova, que não tinha dinheiro para seguir na GP2. Muito se discutiu sobre quem seriam estes tais investidores e a equipe até chegou a dizer que eles não tinham relação com o governo. Mas o adesivo da petrolífera estatal PDVSA não deixa mentir: há gente do governo venezuelano ali no meio. Sem entrar no mérito político, a Venezuela GP Lazarus faz sua temporada de estreia sem grandes ambições. Sua dupla de pilotos é medíocre: Fabrizio Crestani é apenas razoável e seu companheiro Giancarlo Serenelli é mais lento do que eu em meu Corsa 1.0.

RAPAX, A BÉLICA

20- RICARDO TEIXEIRA & 21- TOM DILLMANN

Nosso querido Tancredi Pagiaro, aquele que comanda a Venezuela GP Lazarus, também tem suas raízes fincadas aqui na Rapax, a equipe com o nome mais feio que eu já vi. Ele foi seu diretor esportivo entre 2008 e 2009, quando a estrutura se chamava Piquet GP. Piquet? Exatamente. A origem de tudo é a Piquet Sports, criada pelo tricampeão Nelson Piquet com o único propósito de ajudar a carreira de seu filho. A partir do momento em que Nelsinho Piquet conseguiu chegar à Fórmula 1, a Piquet Sports perdeu sua razão de existir. Então, ela passou pelas mãos de Giancarlo Minardi e de Tancredi Pagiaro até ser assumida pelos empresários italianos Gianfranco Sovernigo e Andrea Bergamini no início de 2010.

Não sei exatamente qual é a origem dos dois carcamanos, embora Sovernigo pareça ter ligações diretas com duas empresas financeiras. Podemos deixar estas questões obscuras de lado e dizer que foi com a Rapax que Pastor Maldonado venceu de maneira impecável a temporada 2010 da GP2. No ano passado, a equipe não conseguiu repetir os bons resultados e caiu para o meio do pelotão. Neste ano, com o estreante Tom Dillmann e o insólito Ricardo Teixeira, as coisas não melhorarão muito. Ah, ia me esquecendo: o nome Rapax tem um significado histórico. Em 31 a.C., o imperador romano César Augusto criou uma legião conhecida como Legio XXI Rapax. Ela durou 61 anos e ganhou um bocado de batalhas na Europa. Não ter Ricardo Teixeira no front ajudou.

ARDEN INTERNATIONAL, A ESQUECIDA

22- SIMON TRUMMER & 23- LUIZ RAZIA

Quem vê por fora nem imagina que a Arden International pertence a Christian Horner, o diretor da equipe Red Bull de Fórmula 1. Na categoria principal, só sorrisos e felicidades com os inúmeros trunfos de Sebastian Vettel. Enquanto isso, a vida segue bem difícil na GP2. Mas que ninguém duvide da seriedade ou da competência da Arden, fundada em 1998 por Christian e seu pai Garry Horner. O filho não só gerenciava como também pilotava o Lola-Zytek na Fórmula 3000 Internacional. Sabendo que não chegaria a lugar nenhum com sua falta de talento no volante, Christian Horner decidiu trabalhar apenas como chefe de equipe.

A Arden cresceu e venceu sem adversários as duas últimas temporadas da história da Fórmula 3000 com Bjorn Wirdheim e Vitantonio Liuzzi. Na GP2, ela até chegou a colocar Heikki Kovalainen na disputa pelo título da temporada de 2005, mas nunca conseguiu repetir os mesmos resultados da Fórmula 3000. O mérito maior foi ter revelado um bom número de pilotos que chegaram à Fórmula 1: além de Kovalainen, Bruno Senna, Sébastien Buemi, Sergio Pérez e Charles Pic passaram por lá. Neste ano, a Arden terá Simon Trummer e Luiz Razia como pilotos. O baiano está integrando o programa de desenvolvimento de pilotos da Red Bull e trabalhar diretamente com a família Horner pode ser algo ótimo para sua carreira.

OCEAN RACING TECHNOLOGY, A LUSITANA

24- JON LANCASTER & 25- NIGEL MELKER

Para quem estava cansado de ver equipes comandadas por empresários que nunca tiveram nada a ver com automobilismo, está aí uma boa alternativa para torcer. O dono da Ocean Racing Technology é ninguém menos do que Tiago Vagaroso Monteiro, o ex-piloto das equipes Jordan e MF1. O português comprou o espólio da antiga equipe BCN Competición no fim de 2008, mandou os muitos funcionários incompetentes para a rua da amargura, contratou gente nova e levou a sede de sua nova equipe para Baguim do Monte, sejá lá o que isso signifique. Estava formada a Ocean, uma equipe que prometia muito e não cumpriu quase nada.

Verdade seja dita, a temporada de estreia, 2009, foi bastante aceitável. Álvaro Parente ganhou uma corrida em Spa-Francorchamps e a equipe apareceu muito bem em algumas etapas, embora a pontuação final não tenha sido tão expressiva. Nos dois anos seguintes, a esquadra portuguesa preferiu apostar em novatos abastados e acabou se dando muito mal com isso, terminando ambas as temporadas em 12º. Neste ano, a equipe novamente emprega dois pilotos sem estofo e a tendência é permanecer lá atrás. A antiga BCN Competición poderia até ser uma tremenda bagunça, mas a Ocean Racing Technology prova que somente limpeza e organização não são suficientes.

CARLIN, A PROMESSA

26- MAX CHILTON & 27- RIO HARYANTO

Na minha visão, a última das moicanas não merecia estar nesta posição. Antes de estrear na GP2, a Carlin havia construído uma história riquíssima em sucessos nas categorias de base. Fundada em 1996, ela contabiliza sete títulos de pilotos na Fórmula 3 britânica e um na World Series by Renault. No certame britânico, para ser campeão, é quase obrigatório correr na esquadra de Trevor Carlin. Nas outras categorias, seus carros também metem medo. A Carlin virou praticamente uma grife no automobilismo europeu.

Sua tão aguardada estreia na GP2 se deu no ano passado. Mas a excelência apresentada nos outros campeonatos não foi vista por aqui. Os belos carros azulados não costumavam sair do meio do pelotão e apenas o excelente Álvaro Parente conseguiu algumas performances dignas de nota. No fim das contas, apenas quatro estúpidos pontos foram marcados, todos por Max Chilton. O piloto inglês, por sinal, é o filho de um dos donos da Carlin e tem costas quentes na equipe por tempo indeterminado. Ele segue por lá nesta temporada e agora terá um único companheiro de equipe, o indonésio Rio Haryanto. Espera-se um melhor desempenho da Carlin nesta temporada, ainda mais contando com o inédito apoio da Marussia. Uma equipe que coloca as outras no bolso em outras categorias não pode sofrer tanto na GP2.

Choremos juntos. Nesta semana, as duas últimas grandes operadoras de TV por assinatura no Brasil retiraram o canal Speed Channel de suas grades de programação. A Claro TV e a NET finalizaram as negociações com a Fox e puderam, enfim, estrear a reluzente filial da Fox Sports aqui no Brasil. Com isso, apenas algumas operadoras menores ainda contarão com o Speed Channel e suas inúmeras reprises. Por pouco tempo, pelo visto.

Choremos juntos. O praticamente consolidado fim das operações do Speed Channel aqui no Brasil deveria ser motivo de profundo pesar para quem gosta e dá importância ao automobilismo. Trazido para cá em 2006, o Speed tinha a nobre proposta de ser um canal totalmente dedicado às corridas. Seriam 24h diárias de corridas ao vivo ou reprisadas das principais categorias do planeta e programas comentando sobre as últimas notícias ou contando histórias do tempo da vovó.

A intenção era realmente ótima, mas a execução foi pífia. Nos últimos anos, o Speed se resumiu a exibir compactos de corridas da NASCAR e eventos completamente desligados do gosto brasileiro, como o Monster Jam e o Pinks All Out. Categorias importantes, como a World Series by Renault e a Fórmula 3 britânica, foram perdendo prestígio e terminaram sendo exibidas em VTs no meio da madrugada ou nem isso. Os intervalos demonstravam claramente a precariedade da filial brazuca: comerciais repetidos exaustivamente, esquetes falando sobre a sensacional temporada 2009 de Memo Rojas e clipezinhos da NASCAR. Quem não cansou de ouvir Juanes volando com el viento?

Mas apesar de tudo, era um espaço reservado para os fãs do automobilismo. Por mais pobrezinho e malfeito que fosse, o Speed brasileiro representava uma fortaleza para quem queria um canal esportivo sem os bombardeios do futebol. Eu fiquei aborrecido com seu passamento, embora nunca tenha sido lá um grande fã dos reclames da Colgate e da dicção esquisita do Sérgio Lago, que não conseguia falar três palavras consecutivamente. O fã das corridas ficou órfão.

É uma raça que sofre bastante aqui no Brasil, aquela que se dispõe a acompanhar carros andando em círculos. O Top Cinq de hoje relembrará outras cinco emissoras que dedicavam um importante espaço ao automobilismo e que acabaram fechando as portas ou simplesmente minguando.

5- PSN

Eu só tomei conhecimento de um troço chamado PSN quando identifiquei seu logotipo naquela lista telefônica que era o carro da Minardi da temporada de 2000. Esta sigla identificava uma emissora de TV de capital norte-americano cuja sede ficava na Argentina. Ela foi criada no início do novo milênio com uma estrutura de transmissões, jornalismo e marketing invejável. Uma das medidas para chamar a atenção foi patrocinar nosso querido Gastón Mazzacane em sua temporada de estréia na escuderia de Giancarlo Minardi.

A PSN iniciou suas transmissões em todos os países da América Latina em 2000. Seu negócio principal, obviamente, era o futebol. O fundo de investimentos que criou a emissora mantinha parcerias com o Corinthians e o Cruzeiro e tinha enormes interesses no mercado esportivo brasileiro. Seu grande trunfo foi ter conseguido a exclusividade na transmissão dos jogos do Corinthians e do Palmeiras na Copa Libertadores daquele ano. O objetivo era negociar os direitos diretamente com os times e fornecer a eles todo o espaço possível. Tudo isso dentro do sonho de ser a maior emissora esportiva da América Latina em poucos anos.

E o mais interessante é que a partir do momento em que a PSN já tivesse cumprido seus objetivos no futebol, o próximo passo seria tomar o automobilismo para si. A emissora tinha descoberto que as corridas eram o segundo esporte favorito do latino-americano e pretendia investir mundos e fundos para dominar suas transmissões. Na América do Sul, a PSN rapidamente adquiriu os direitos de transmissão da Fórmula 1 e da Fórmula 3000. Todos os países poderiam ver todos os treinos, a corrida e a entrevista após o pódio, além da categoria de base. Somente um país do continente ficou de fora da festa. Adivinhe qual.

Imagino que se o canal tivesse avançado, o automobilismo teria sido contemplado com um belo espaço. Mesmo com as limitações de direitos de transmissão do Brasil, acredito que nós poderíamos estar vendo corridas de TC2000 ou Carretera. Mas o canal não resistiu por dois anos. O fim da conversibilidade dólar-peso e a falta de retorno ante os investimentos acabaram mergulhando a PSN numa gravíssima crise financeira. O sonho panamericano acabou rapidinho.

4- REDETV!

Sim, você está certo, a RedeTV! ainda não faliu. Ainda. A situação lá pelos lados da emissora sediada em Osasco anda pra lá de preta. A trupe do Pânico na TV, responsável por cerca de 40% do faturamento da empresa segundo algumas fontes, se cansou de tantos atrasos salariais e bandeou para a Bandeirantes no início deste ano. Praticamente todos os funcionários do departamento de esportes foram demitidos. Vários programas estão deixando de ser gravados. Para piorar, ela poderá ter seus bens penhorados pela justiça. Cerca de 200 funcionários processaram a emissora por descumprimento do pagamento de um dissídio coletivo e a 2ª Vara de Trabalho de Barueri definiu que se os valores devidos não forem quitados, os ativos serão penhorados para sua quitação.

Se esta situação não for desesperadora, eu não sei mais o que é. E sendo bem honesto, se a RedeTV! realmente acabar, grande parte da sua programação não fará falta. Gostava de ver o Pânico de vez em quando e de tripudiar aqueles estudantes babões de classe média alta naquele programa do Mario Frias. O resto poderia ir para a lata de lixo da TV brasileira sem dor nem clamor. Mas não há como negar que a emissora de Amílcare Dallevo sempre deu algum espaço às corridas.

Em 2003, a RedeTV! tomou da Record os direitos de transmissão da ChampCar aqui no Brasil. Fernando Vanucci e Celso Itiberê transmitiram quase todas as corridas daquela temporada ao vivo e me lembro que as pessoas gostaram do trabalho da emissora naquele primeiro ano de contrato. Infelizmente, assim como tinha acontecido com SBT e Record, a RedeTV! passou a tratar a ChampCar com menos atenção no ano seguinte. Em 2005, ela transmitiu apenas a primeira corrida da temporada. Depois disso, os direitos caíram nas mãos da SporTV num acordo feito às pressas.

Outras categorias também passaram por lá. A Fórmula Truck chegou a ser transmitida pela RedeTV! durante um tempo. A A1GP também teve seu espaço lá pelos idos de 2007, assim como o Troféu Maserati. No ano passado, quem mereceu atenção especial foi a Fórmula 3 sul-americana, que teve nove de suas corridas transmitidas ao vivo. Além dela, todas as provas da Copa Montana foram mostradas na íntegra. Mas não sei se a RedeTV! voltará a transmitir as duas categorias neste ano. Não sei se a RedeTV! transmitirá alguma coisa neste ano.

3- CNT

Esta é outra que ainda existe, mas ninguém dá bola. A CNT já teve em seus quadros gente do calibre de Sérgio Mallandro, Ratinho e Galvão Bueno, só figura. Hoje em dia, nem faço idéia de quem esteja por lá. Talvez a Palmirinha, mas ela é da Gazeta e as duas empresas não estão mais juntas há um bom tempo. Mas acredite: até mesmo esta emissora paranaense, que provavelmente não pegava na sua casa, tem sua página na história do automobilismo no Brasil.

Em 1986, quando Nelson Piquet já era bicampeão e Ayrton Senna estava na boca do povo, a emissora, cujo nome naquela época era OM, começou a mostrar um programa sobre notícias e curiosidades da Fórmula 1, o Pole Position. Eram outros tempos, nos quais não havia tantas limitações contratuais e as demais emissoras pegavam carona no sucesso da Fórmula 1 com a Globo. Além do mais, o acesso às imagens oficiais era bem mais tranqüilo. Hoje em dia, ninguém imaginaria o SBT transmitindo um programa com as imagens das corridas atuais.

Mas a relação entre OM/CNT e o automobilismo começou a ficar mais forte nos anos 90. Em 1992, a então ambiciosíssima emissora quis empreender um enorme plano de expansão que incluía a contratação do narrador Galvão Bueno e a posse dos direitos de transmissão de alguns dos maiores eventos esportivos do planeta. Para não ficar para trás em relação à Globo, que tinha a Fórmula 1, e a Bandeirantes, que mostrava a Indy, a OM arranjou os direitos de transmissão da NASCAR Cup. Os compactos das corridas eram transmitidos com a narração do Edgard Mello Filho em um programa chamado Speed Show, que também exibia VTs de outras categorias. Infelizmente, este esquema durou apenas um ano.

Em 1993, a OM enfrentou problemas financeiros e políticos (um grande patrocinador da emissora era o famigerado PC Farias) e acabou tendo de unir seu espólio com a Gazeta, formando a CNT/Gazeta. Mesmo com todas estas mudanças, as ambições esportivas permanecem. Em 1994, a emissora se une à Manchete para formar a Rede Indy de Velocidade, um pool que compartilhava uma estrutura financeira, técnica e de pessoal para cobrir a temporada da Fórmula Indy. Naquele ano, era possível ver Téo José narrando as glórias e desventuras de Emerson Fittipaldi e Raul Boesel em dois canais diferentes.

A Rede Indy de Velocidade durou apenas um ano porque o SBT tomou para si os direitos de transmissão da Indy em 1995. A CNT, sem a Gazeta, só voltaria a atrair o fã do automobilismo na última década. O programa Esporte Motor era o único dedicado às corridas na TV aberta em sua época. Apresentado por João Mendes, ele cobria categorias nacionais e até se arriscava a falar sobre categorias ignoradas como a VW Beetle Cup e a Fórmula 3 alemã. Não durou muito, mas quem assistia sente falta.

2- REDE MANCHETE

Quando surgiu, em 1983, a Rede Manchete tinha a proposta de levar ao ar uma programação destinada às classes A e B. Enquanto a Globo se encarregava de entreter a senzala, a novíssima e modernosa emissora de Adolpho Bloch privilegiaria o bom gosto da casa grande. É óbvio que, com o passar do tempo, ficou difícil tentar manter a pompa, até porque as classes altas haviam perdido bastante força após sucessivos planos econômicos de merda. A Manchete acabou virando um canal como qualquer outro. Mas não para o fã de automobilismo.

Até a Fórmula 1 já teve espaço. No fim dos anos 80, a Manchete apresentava um programa sobre a categoria nos sábados à noite. O Primeira Fila comentava sobre os resultados dos treinos oficiais, os bastidores e como andavam as coisas em cada equipe. Foi transmitido pela emissora até 1989, quando passou a ser produzido por uma empresa independente e apresentado no SBT. Mas não havia problema, porque dava para se virar com outros certames.

Muitas categorias passaram pela telinha da Manchete. A Fórmula 2 Codasur foi, até onde sei, a primeira de monopostos apresentada por lá. Sua substituta, a Fórmula 3 sul-americana, recebeu atenção especial e serviu para revelar o narrador Luiz Carlos Largo. A Fórmula Ford também era exibida e todos puderam ver Rubens Barrichello pilotar um carro de verdade pela primeira vez no canal carioca. Corridas de moto também eram mostradas, assim o Campeonato de Marcas e Pilotos e algumas temporadas da Stock Car Brasil. Falando na dita cuja, ela era exibida em conjunto com a Fórmula Chevrolet em meados dos anos 90, na época em que as duas formavam o Chevrolet Challenge.

Mas não era só isso. O folcórico Edgard Mello Filho emprestou sua irreverência em várias transmissões da DTM e do ITC em meados dos anos 90. Até mesmo corridas de NASCAR Cup foram narradas por ele lá pelos idos de 1994. Resumindo: havia corridas para todos os gostos nos fins de semana da Manchete. Não é exagero dizer que Adolpho Bloch e sua turma judaica deram aquela força ao desenvolvimento do gosto pelo automobilismo e também à formação de novos talentos brasileiros.

E ela também mostrou a Indy. Em 1993, a Manchete negociou diretamente com a organização da categoria a compra dos direitos de transmissão, deixando a Bandeirantes chupando o dedo. Emerson Fittipaldi esteve envolvido nas negociações e acabou irritando profundamente Luciano do Valle, iniciando uma desavença que parece não ter se resolvido até hoje.

Em compensação, os espectadores saíram ganhando: com o trio formado pelo narrador Téo José, o comentarista Dedê Gomes e o repórter Luis Carlos Azenha, além da rotineira presença de um convidado especial (a Indy 500 de 1993, por exemplo, teve a participação de Rubens Barrichello), as transmissões ganharam em qualidade. Mas por pouco tempo: assim como a Manchete deu uma rasteira na Bandeirantes, o SBT passou a perna nos cariocas e passou a exibir a Indy em 1995.

1- TV JOVEM PAN

O primeiro lugar vai para uma emissora que surgiu com muita ambição, muita tecnologia e muita politicagem. A TV Jovem Pan foi inaugurada em 1990 com a proposta de ser uma emissora de âmbito nacional na frequência UHF, aquela que te obrigava a fazer uns rolos na antena para conseguir fazer pegar. Embora todos nós estivéssemos acostumados com o sistema VHF, muita gente estava curiosa para ver no que daria essa tal tevê baseada na famosa emissora de rádio.

A TV Jovem Pan era comandada por uma comissão que incluía o empresário Tutinha Andrade, o todo-poderoso da rádio brasileira, o também empresário João Carlos di Gênio, dono do colégio Objetivo, e o jornalista Fernando Vieira de Mello. Pouco tempo depois, Vieira de Mello deixou a diretoria e em seu lugar entrou o empresário Hamilton Lucas de Oliveira, dono da IBF, aquela que patrocinou o São Paulo Futebol Clube e o Christian Fittipaldi. Uma sociedade de respeito. Que conseguiu, com seus recursos, formar uma emissora moderna e dinâmica, que prometia ter o melhor jornalismo e a melhor cobertura esportiva do Brasil.

Em termos de corridas, a Jovem Pan conseguiu bastante coisa importante em pouco tempo: em 1991, ela obteve os direitos de transmissão da Stock Car Brasil. No ano seguinte, a emissora fez um acordo com a Rede Globo e pôde exibir VTs de corridas do Mundial de Motovelocidade, incluindo aí o GP do Brasil em Interlagos. Até mesmo a Fórmula 3000 Internacional ganhou espaço. Em 1992, Rubens Barrichello fez uma temporada na categoria e terminou o ano em terceiro. Os VTs de suas corridas eram exibidos na semana seguinte às suas realizações e eram patrocinados pela Arisco, que apoiava o piloto paulista desde os tempos do kart.

Infelizmente, a TV Jovem Pan começou a desmoronar a partir do momento em que as tramoias de Fernando Collor e PC Farias começaram a ser investigadas. Uma das empresas acusadas de envolvimento nas sujeiras era exatamente a IBF, que fazia parte da sociedade. Após isso, a emissora começou a ir ladeira abaixo, enfrentando problemas de atrasos salariais e dívidas crescentes. No fim das contas, apenas Di Gênio havia sobrado no comando da televisão, que nem podia mais usar o nome “Jovem Pan”. Acabava aí a história de um canal que poderia ter feito história – inclusive com os fãs de automobilismo.

JOSEF KRAL, O ECONOMISTA

A única coisa de relevante que tenho para falar sobre Josef Kral é a nossa semelhança acadêmica. Nós dois estamos estudando Economia, mas o piloto tcheco já está em um patamar mais avançado: enquanto não corre, faz seu mestrado em Praga. Ou fazia, não sei direito. Só sei que tenho de escrever algo sobre ele. Nas pistas, é difícil encontrar alguma coisa de interessante para falar deste sujeito de 21 anos que está na GP2 desde 2010.

Kral não tem grandes feitos em seu currículo. Foi vice-campeão da Fórmula BMW britânica em 2007 e terceiro colocado na Fórmula Master em 2009. Na GP2, chamou a atenção por um incrível acidente na segunda corrida da rodada de Valência em 2010, quando pilotava pela Super Nova. Após recuperar-se das fraturas em duas vértebras, ele voltou incrivelmente melhor. No ano passado, obteve dois pódios e terminou em 15º. Neste ano, Josef terá sua grande chance na boa equipe Addax. Mas não aposte muito nele. Não será dessa vez que a República Tcheca terá um campeão.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Baixas. Só conseguiria entrar porque é rico e bem patrocinado por empresas como a Ricoh. Fez um teste na HRT em 2010 pagando meio milhão de dólares.

FABIO ONIDI, JON LANCASTER E FABRIZIO CRESTANI, OS OUTSIDERS

Triste é quando você é um piloto jovem e com algum talento que não consegue engrenar uma carreira sólida e acaba pulando para lá e para cá tentando uma boa oportunidade. Os três cidadãos acima são mais velhos do que a média e estão fazendo sua primeira temporada completa na GP2 num momento um tanto tardio de suas vidas. Fabio Onidi é um italiano de 24 anos que passou um bom tempo no automobilismo italiano enquanto tentava subir para a GP2. Seu melhor resultado foi um vice-campeonato na Euroseries 3000 em 2008, uma espécie de Fórmula 3000 transalpina. Neste ano, finalmente conseguiu seu objetivo: corre na Coloni e espera progredir de vez. Não ganhará corridas, mas poderá marcar pontos sem grandes dificuldades se conseguir se adaptar.

Jon Lancaster é um inglês de 23 anos com alguns resultados bem interessantes na carreira. Foi vice-campeão da Fórmula Renault européia em 2007 e terceiro colocado no Masters de Fórmula 3 em Zandvoort no ano seguinte. Mesmo assim, nunca teve muito dinheiro e teve de pular de categoria a outra para não ficar parado. Apareceu um pouco por causa de alguns acidentes feios, como numa corrida de Fórmula 3 Euroseries em Hockenheim há quatro anos e na largada da etapa de Silverstone da World Series em 2010, quando fez Daniel Ricciardo capotar logo nos primeiros metros. Estréia na GP2 pela Ocean após ter assinado um contrato às pressas e não fará muita coisa nestes primeiros momentos.

Fabrizio Crestani é mais velho do que eles, mas ao menos já teve o gostinho de disputar algumas corridas de GP2 pela DPR em 2010. O italiano corre de monopostos desde 2005 e acumulou alguns resultados razoáveis, como o quinto lugar na Fórmula 3 italiana em 2007 e o quarto na Euroseries 3000 em 2009. Não é um gênio, mas pode fazer corridas honestas. Falta-lhe dinheiro também, verdade seja dita. Neste ano, compete pela Venezuela Lazarus e carrega a responsabilidade de desenvolver o carro, já que o companheiro de equipe…

CHANCES NA FÓRMULA 1: Baixíssimas. Na boa, esses três aí devem é agradecer por terem conseguido chegar à GP2.

RODOLFO GONZALEZ E GIANCARLO SERENELLI, OS REVOLUCIONÁRIOS

Mal comparando, os pilotos venezuelanos de hoje são os japoneses de vinte anos atrás: despreparados e cheios da grana. Só que ao contrário dos orientais, muito bem patrocinados por grandes empresas do país, pilotos como Rodolfo Gonzalez e Giancarlo Serenelli são financiados pelo histriônico Hugo Chávez, que utiliza o interminável dinheiro do petróleo da PDVSA para propósitos políticos. Ter pilotos competindo em alto nível é certamente um deles, até mesmo para mostrar aos imperialistas que o bolivarianismo funciona. Será?

Rodolfo Gonzalez, por incrível que pareça, é o melhor deles. O que não quer dizer nada: trata-se de um piloto lento, desastrado e sem futuro. Seu melhor resultado foi um título na National Class da Fórmula 3 britânica em 2006, algo como ser o campeão do interior num campeonato estadual. Está na GP2 desde 2009 torrando dinheiro público e causando acidentes e prejuízos às suas equipes. Neste ano, corre pela Caterham. Tenho medo desse cara conseguir resultados: seria um péssimo sinal de como as coisas estão indo na GP2.

Giancarlo Serenelli consegue ser ainda pior. Único piloto do grid com mais de trinta anos de idade, ele ganhou um bocado de títulos na sua carreira: dois de Fórmula Ford na Venezuela e três na LATAM Challenge Series, uma espécie de Fórmula Renault que corre em pistas assassinas na América do Sul. Se somar todas estas conquistas, não dá uma de Fórmula 3, mas isso não vem ao caso. Serenelli teve algumas passagens discretíssimas pelo automobilismo europeu há alguns anos e decidiu voltar ao continente para ver se ainda consegue algo de bom. Em Sepang, esteve simplesmente abaixo de qualquer nível de competitividade e ainda atrapalhou muita gente na primeira corrida. O cara que liberou uma superlicença para ele tem de ser empalado.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Baixas para Gonzalez, nulas para Serenelli. O dinheiro da PDVSA pode até encobrir a ruindade do primeiro, mas o tiozão aí não tem solução.

JULIAN LEAL, O BARBEIRO

Davide Rigon ama este cara, mas ao contrário. Colombiano que descolou uma cidadania italiana há alguns anos, Omar Julián Leal é um dos piores pilotos que eu já vi competir por aí. Velocidade não é exatamente sua maior deficiência, embora também não seja correto achar que se trata de um Takuma Sato piorado. O grande problema de Leal, 21, é a pura e simples inabilidade de manter um carro numa trajetória normal durante todo o tempo. O cara erra freadas, escorrega, roda e bate com uma freqüência alarmante. Se não prejudicasse ninguém, tudo bem, mas não foi o caso: um acidente causado por ele em Istambul no ano passado causou ferimentos sérios ao supracitado Rigon, que praticamente teve de interromper sua carreira.

Julián Leal está entrando em sua segunda temporada completa na GP2. Sua carreira, até aqui, tem sido lamentável. Seu único título, o da Fórmula 3000 italiana em 2008, foi obtido sem uma única vitória durante a temporada. Ele só conseguiu vencer sua primeira corrida na vida na AutoGP em 2010, e mesmo assim só conseguiu terminar a temporada em nono. Na GP2, fora destruir a perna de Davide Rigon, não fez nada de notável. Neste ano, competindo pela Trident, provavelmente ficará na mesma. Que nunca chegue perto de um carro de Fórmula 1. E que nunca esteja dividindo a mesma rua que eu.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Baixíssimas. Assim espero.

RICARDO TEIXEIRA, O CARA-DE-PAU

O que você acha de um esportista que nunca teve nada a ver com seu país, mas que se aproxima e mendiga dinheiro para a estatal sustentada pelos seus impostos? Foi o que fez o nosso querido português metido a angolano Ricardo Teixeira. Nascido em Lisboa, ele nunca havia sequer sonhado em pisar num país tão distante de sua realidade como era Angola. Até que, num belo dia, Ricardo percebeu que precisava de dinheiro para correr na Fórmula 3 britânica. Então, ele resolveu viajar ao país africano e pediu uma grana para a estatal petrolífera Sonangol alegando representar Angola no automobilismo. Como assim? Teixeira é filho de mãe angolana e tem a cidadania. Só por causa disso, a Sonangol liberou a grana e passou a vender a idéia do país estar sendo representado no automobilismo.

Mal representado, diga-se. Ricardo Teixeira nunca conseguiu nada além de um único pódio na categoria B da Fórmula 3 britânica em 2003. Por onde passou, nunca demonstrou ser nada além de mais um playboy barbeiro e vagaroso. Fez uma temporada completa na GP2 em 2009 e ficou famoso por sempre ficar distante do penúltimo colocado. Numa corrida em Hungaroring, rodou e jogou brita na pista ao tentar retornar, sujando toda a pista e atrapalhando todo mundo. Neste ano, volta à categoria pela Rapax e promete permanecer nas últimas posições. Ah, não me esqueci de dizer: sua idade real é incerta. Embora tenha nascido oficialmente em 1984, muitos dizem que ele é de 1982 e mente a data de nascimento para não parecer velho demais e comprometer sua carreira. Será que não existe um Ricardo Teixeira minimamente admirável?

CHANCES NA FÓRMULA 1: Baixas. É um cara que tem muito dinheiro angolano, mas não tem condição nenhuma para correr.

TOM DILLMANN, O MÉDICO

Vocês me perdoem, mas quando vi uma foto deste Tom Dillmann pela primeira vez, instantaneamente me veio à cabeça “caramba, é o Dr. James Wilson”. Para quem não assiste ao seriado House, trata-se do oncologista que é o melhor amigo do protagonista. Fora isso e a sonoridade de seu sobrenome, que lembra algo como “Dilmão”, não há muito mais o que dizer sobre este piloto francês de 22 anos. Então, vamos de metáforas bobas.

Dillmann parece finalmente ter remediado a irregularidade de sua carreira. Ele corre de monopostos desde 2004 e já passou por várias categorias diferentes. Em algumas delas, foi muito bem e até ganhou um título na Fórmula 3 alemã em 2010. Em outras, como a GP3, sofreu e ficou distante dos bons resultados. Há alguns anos, foi um dos integrantes do programa de pilotos da Red Bull, mas como bom médico que é, percebeu que taurina em excesso faz mal para os rins e acabou caindo fora do programa após um tempo. Neste ano, Dillmann testou por várias equipes da GP2 e até fez uma rodada em Abu Dhabi pela iSport, mas só conseguiu arranjar uma vaga na Rapax na prorrogação. É um bom piloto e merece atenção, mas já está um pouco passado, quase precisando de um geriatra.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Baixas. Não tem tanto dinheiro assim e também não está na crista da onda dos pilotos mais talentosos das categorias de base.

RIO HARYANTO, O ASIÁTICO

O continente asiático não tem lá muitas opções para torcer nesta temporada de GP2. Na verdade, apenas um único piloto do grid veio de lá. Pelo menos, ele é muito bom. O indonésio Rio Haryanto fará sua primeira temporada na GP2 após uma carreira meteórica e muito interessante. Ele debutou nos monopostos em 2008 e começou bem, terminando a temporada da Fórmula Asia em terceiro lugar. No ano seguinte, venceu nada menos que onze corridas e sagrou-se campeão da Fórmula BMW Pacífico. Impressionante.

Nos dois anos seguintes, Haryanto competiu na GP3. Mesmo em um continente estranho e sem conhecer as pistas, ele terminou 2010 em quinto e 2011 em sétimo, tendo vencido um total de três corridas. Ainda em 2010, Rio testou o carro de Fórmula 1 da Virgin em Abu Dhabi aos dezessete anos de idade. Nesta temporada, ele correrá pela Carlin e terá de se impor numa equipe que pertence ao pai de seu companheiro de equipe. Pelo menos, tempo para se adaptar Haryanto tem de sobra: nascido em 1993, o indonésio é o piloto mais jovem do grid. Aposto cegamente nele no futuro.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Médias. Apareceu muito bem na GP3, mas a vida na GP2 é bem mais difícil. Tem talento e só precisa de tempo e talvez um pouco mais de experiência.

NATHANAËL BERTHON, O POSTE

Outro piloto sobre o qual não há muito o que falar é o francês Nathanaël Berthon. Um fulano mais maldoso poderia supor que a alcunha de poste foi colocada porque o cara seria simplesmente inútil, uma analogia aos comentários infelizes feitos por Sebastian Vettel sobre Narain Karthikeyan no último fim de semana. Pode até ser, mas não o chamo de poste somente por isso. Berthon é um dos pilotos mais altos atualmente em atividade. Com 1m87, fica realmente difícil pensar em gente maior do que ele. Justin Wilson e Átila Abreu são os dois únicos casos que me vêm à mente.

Como acontece com todo sujeito alto, e isso certamente me inclui, a cara de tonto está presente. Nas pistas, Nathanaël (maldita trema!) não é dos sujeitos mais talentosos da França, embora também não seja um péssimo piloto. Nos dois últimos anos, competiu na World Series by Renault e venceu uma corrida, tendo ido bem melhor na temporada de estréia. No fim do ano passado, participou do teste de jovens pilotos da Fórmula 1 em HRT. Neste ano, fará sua primeira temporada completa na GP2 pela Racing Engineering. É piloto pra começar andando no meio do pelotão.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Baixíssimas. Não é extraordinariamente rico e não é o último talento do pedaço. É somente mais um no meio da multidão.

NIGEL MELKER, O EMERGENTE

Nigel Mansell? Quase. De fato, se houvesse um adesivo “Nigel M.” na lateral do carro da Ocean, muita gente ficaria erroneamente eufórica. Caramba, o Leão voltou. Ah, pena, não é ele, embora o cabelo se pareça com uma juba. Vindo da Holanda, Nigel Melker é mais um dos estreantes que subiram da GP3 para a GP2 nesta temporada. Faz sua estréia pela equipe de Tiago Monteiro, uma das mais humildes do campeonato. Por causa disso, não espere muito dele.

É difícil saber se Melker é realmente um piloto de talento. Até 2010, ele nunca tinha vencido uma única corrida na vida. O mais assustador é que ele era o único, dentre todos os trinta pilotos que iniciaram a temporada de GP3 daquele ano, a estar zerado em vitórias. Em 2011, a sorte finalmente sorriu para o holandês. Ele disputou simultaneamente uma segunda temporada na GP3 e também a temporada da Fórmula 3 Euroseries. Na primeira, ganhou uma corrida em Istambul e terminou o ano em terceiro. Na Fórmula 3, venceu quatro provas e finalizou a temporada em quarto. Do nada, Nigel virou um piloto de capacidade. Que ele continue assim, não é?

CHANCES NA FÓRMULA 1: Baixíssimas. Embora tenha melhorado demais de 2010 para cá, não consigo imaginá-lo na Fórmula 1.

MAX CHILTON, O FILHINHO DE PAPAI

A cara de moleque que comeu e não gostou é essa daí mesmo e quem acompanha o automobilismo é obrigado a engolir. Pelo visto, por muito mais tempo. Max Chilton, 20, é um dos pilotos mais ricos do automobilismo europeu atualmente. Na GP2, poucos tem a mesma capacidade financeira. O pai é Grahame Chilton, um dos grandes diretores da AON, a maior seguradora do planeta e patrocinadora do Manchester United. Desnecessário dizer que a carreira do filho é movida a combustível da AON.

Graças a isso, Chilton está conseguindo avançar lentamente no automobilismo de base. Estreou na Fórmula 3 britânica em 2007 aos 16 anos de idade, sendo um dos mais jovens pilotos da modalidade na história mundial. Ficou no mesmo certame até 2009 e ganhou apenas uma corrida em Brands Hatch, mesmo pilotando por boas equipes. Em 2010, subiu para a GP2 pela Ocean. Marcou três pontos. No ano passado, correu pela Carlin, que foi comprada pelo papai, e melhorou bastante: fez quatro pontos. Permanece na mesma Carlin neste ano e começou bem, subindo ao pódio na primeira corrida de Sepang. Até acho que Chilton possa virar um piloto de respeito, sabe? Daqui a vinte anos.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Médias. Não dá para desprezar a grana da AON.

Na última parte, as equipes.

Assistiu à GP2 Series neste fim de semana? Vibrou com a vitória de Luiz Razia no sábado? Brilhou os olhos com a bela estréia de Felipe Nasr? Ficou impressionado com o alto nível das disputas? Achou a categoria mais divertida do que a Fórmula 1? Se você respondeu “não” a todas estas perguntas, digo que está na hora de rever seus conceitos. A GP2 será bastante interessante nesta temporada. Muito. Portanto, se quiser um conselho gratuito meu, tente assistir ao menos às corridas de sábado.

Muitas pessoas deixam de acompanhar uma categoria por duas razões bem interessantes: desconhecimento e falta de contato com os participantes. Se você não tem muita idéia do que é a GP2 e alimenta alguns preconceitos sobre o fato da categoria ser mais barata e ter pilotos menos habilidosos que a exagerada Fórmula 1, não irá perder seu valioso tempo com uma estúpida corrida de quase uma hora de duração em um horário esquisito. É a mesma mentalidade de alguém que se recusa a ver um jogo da Série B, por exemplo. Deixe este elitismo tosco de lado.

A falta de contato com os participantes é uma coisa bem intrigante. Você assiste à NASCAR por causa da Danica Patrick ou do Kyle Busch. Na Fórmula 1, podemos torcer pela vilania de Fernando Alonso, pela jovialidade de Sebastian Vettel ou pelo alcoolismo de Kimi Räikkönen. Na Stock Car, todo cidadão de bem torce contra o Cacá Bueno. Mas e na GP2? O que significa um Fabrizio Crestani ou um Giedo van der Garde? É muito chato ver um esporte onde você não conhece ninguém. È vero.

Mas o Bandeira Verde serve para isso, tirar você das trevas da ignorância. Aqui, você conhecerá brevemente os 26 pilotos que participaram da rodada de Sepang e deverão aparecer ao menos nas próximas. Se alguém cair fora até Sakhir, paciência. Você ao menos poderá ter uma idéia de quem foram os adversários de Felipe Nasr e Luiz Razia na Malásia. E, quem sabe, poderá até mesmo arranjar algum piloto para acompanhar e torcer antes mesmo dele subir para a Fórmula 1 ou voltar para casa e cursar Administração de Empresas na Estácio de Sá. E você conhecerá também as treze equipes e suas pinturas.

Primeiro, os pilotos.

FELIPE NASR, A ESPERANÇA BRASILEIRA

Muita gente tomou conhecimento deste cara após aquela reportagem do Jornal Nacional que noticiou sua contratação pela DAMS para a temporada 2012 da GP2. Mas meus leitores já sabiam que Luiz Felipe de Oliveira Nasr, 19 anos, é o piloto brasileiro mais promissor no automobilismo internacional atualmente há uns dois anos.

Filho do chefe de equipe Samir Nasr, Felipe ostenta alguns títulos importantes nas categorias de base. Em 2009, deixou adversários mais experientes para trás e sagrou-se campeão da Fórmula BMW européia. No ano passado, não teve problemas para levar a taça da Fórmula 3 britânica. Neste ano, Nasr fez sua estréia na GP2 por uma equipe boa, mas sem estardalhaço, e apareceu muitíssimo bem em Sepang. É patrocinado pelo Banco do Brasil e pela OGX. Se continuar nesta curva de crescimento, vencerá corridas na GP2 e chegará logo à Fórmula 1.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Altas. Parece ter finalmente obtido bons patrocinadores e o talento está lá. Apostaria numa estréia em 2014.

LUIZ RAZIA, A ETERNA ESPERANÇA BRASILEIRA

Um dia, o baiano Luiz Razia teve tanta moral quanto Felipe Nasr teve hoje. Mais precisamente, uns dois ou três anos atrás. Campeão da Fórmula 3 sul-americana em 2006, Razia ganhou destaque na mídia quando conseguiu ser terceiro colocado em um teste de pré-temporada na GP2 no início de 2007. Ele só conseguiu o resultado porque pegou uma pista em condições melhores que as dos adversários, mas mesmo assim fez seu nome e conseguiu estrear na categoria em 2009.

Infelizmente, Razia nunca obteve nada além de uma vitória na segunda corrida de Monza, ainda no seu ano de estréia. Nos dois últimos anos, ele pilotou por boas equipes (Rapax e Air Asia), mas não conseguiu capitalizar bons resultados e terminou 2011 com o sonho da Fórmula 1 praticamente enterrado. Neste ano, está fazendo provavelmente sua última temporada na GP2. Começou muito bem, vencendo a primeira corrida de Sepang e saindo da Malásia como o líder do campeonato. Mas precisará de mais resultados positivos se quiser reverter sua até certo ponto injusta fama de piloto limitado.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Baixas. Embora esteja ligado ao programa de desenvolvimento de pilotos da Red Bull, já não é mais considerado um novo talento e sua imagem na GP2 está um pouco chamuscada. Precisará de uma grande reviravolta.

JOHNNY CECOTTO JR., JOLYON PALMER E STÉPHANE RICHELMI, OS FILHOS

Três sobrenomes de peso. Bom, mais ou menos. Johnny Cecotto Jr. é o filho daquele motociclista que ganhou um título nas 350cc e enfileirou uma série de bons resultados na segunda metade dos anos 70. No Brasil, Cecotto pai ficou famoso por ter sido o primeiro companheiro de Ayrton Senna na Fórmula 1. O filho não é tão bom e ainda tem cara de criança, mas ao menos faz uma grande corrida por ano: Mônaco/2010 e Spa/2011. Neste ano, corre pela poderosa Addax, mas não tem grandes expectativas.

Jolyon Palmer é filho do Dr. Jonathan, que pilotou alguns carros bem ruins nos anos 80. Hoje em dia, Jonathan Palmer é o promotor da Fórmula 2, categoria onde Jolyon fez seu nome e se sagrou vice-campeão em 2010. Mas o rebento não é tão talentoso quanto o pai. Estreou na GP2 no ano passado pela Arden e não fez nenhum ponto. Mesmo assim, tem muito dinheiro e conseguiu comprar a segunda vaga da competente iSport. Marcará alguns pontos, fará um ou outro pódio e só.

O monegasco Stéphane Richelmi também tem pai famoso. OK, nem tanto. Jean-Pierre Richelmi era um piloto de rali que havia obtido relativo sucesso na Europa e que chegou a fazer algumas corridas no WRC, chegando em quinto no Rali de Portugal de 1997. O jovem Stéphane preferiu a vida nos monopostos, mas nunca conseguiu nada de muito relevante. Seu melhor momento foi o vice-campeonato na Fórmula 3 italiana em 2010, tendo perdido o título para o brasileiro César Ramos. Na GP2, será apenas mais um participante do meio do pelotão.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Baixas. Cecotto Jr. é o melhor deles, mas nenhum tem cacife para vôos mais altos. Só o dinheiro não é suficiente.

DAVIDE VALSECCHI, A VACA-BRAVA

Primeiramente, ele não é um gênio. Sua carreira nas categorias anteriores à GP2 é risível, praticamente inexistente. Seu primeiro título foi na GP2 Asia há dois anos, nada muito animador. Na pista, seu estilo de pilotagem é nervoso e irregular. Erros na tangência das curvas, dificuldades para ultrapassar, ritmo irregular e enorme propensão a acidentes. Este é Davide Valsecchi, sujeito a quem talvez nem os italianos dêem crédito.

Infelizmente, Valsecchi é um dos grandes favoritos ao título. Ele é o piloto mais experiente do grid atualmente: estreou em 2008 e já fez 74 largadas. Dessas, só converteu três delas em vitórias. Na tabela final do campeonato, nunca conseguiu mais do que dois oitavos lugares em 2010 e 2011. Mesmo assim, sua experiência é um ativo importantíssimo. Na pré-temporada, Davide foi constantemente o cara mais rápido. No entanto, terminou o fim de semana em Sepang em cambalhotas. Davide Valsecchi tem tudo para ser campeão, mas tem em Davide Valsecchi seu maior adversário.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Médias. Mesmo se for campeão, não terá facilidade para achar uma vaga boa. Falta-lhe credibilidade.

GIEDO VAN DER GARDE, O GENRO

O holandês Giedo van der Garde, 27, é um sujeito obstinado. Somente isso poderia explicar como é que um sujeito que foi contemporâneo de Lewis Hamilton, Robert Kubica, Nico Rosberg e Sebastian Vettel na Fórmula 3 poderia estar insistindo nesse negócio de Fórmula 1 até hoje. Van der Garde não é um grande talento e nem tem um currículo tão brilhante, contabilizando apenas o troféu da World Series by Renault em 2008 como único trunfo. Mas ele tem dinheiro e paciência.

A carta na manga de Van der Garde é sua namorada, filha de um dos homens mais ricos da Holanda. Graças a isso, seu carro sempre está repleto de adesivos, todos ligados às empresas do sogrão Marcel Boekhoorn, dono de uma fortuna de 1,3 bilhão de dólares. As equipes de GP2 o adoram, tanto que Giedo está na categoria desde 2009. Seu ano de estréia foi o melhor: três vitórias e uma ótima impressão. Nos últimos dois anos, ele correu pela Addax e não ganhou uma corrida sequer. Nesse ano, terá sua última chance de ser campeão e atrair as atenções sérias de alguma equipe de Fórmula 1. Mas se depender de sua atuação na pré-temporada e em Sepang, fica difícil.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Altas. Mas só por causa do dinheiro.

ESTEBAN GUTIERREZ, O FAVORITO

Apesar dos pesares, o mexicano Esteban Gutierrez ainda é a minha grande aposta para o título da GP2 nesta temporada. Ele tem tudo aquilo que é necessário para o sujeito se dar bem no automobilismo: apoio de um cara importante, muito talento, uma equipe excepcional e tempo. Gutierrez é uma das apostas de Carlos Slim, homem mais rico das galáxias e dono de um monte de empresas. Graças a isso, ele não teve dificuldades para arranjar uma vaga na ART Grand Prix, que virou Lotus neste ano. Pilotar para a equipe de Fréderic Vasseur é meio caminho andado para um título na GP2.

O talento de Gutierrez também é um negócio à parte. O cidadão de apenas 20 anos foi vice-campeão da Fórmula BMW americana, campeão da Fórmula BMW européia e campeão da GP3. Sua adaptação à GP2, no entanto, tem sido árdua. No ano passado, Esteban ganhou apenas uma corrida e terminou o ano em 13º. Neste ano, ele ainda não engrenou e está sofrendo com a pressão do companheiro James Calado. Mesmo assim, é uma boa aposta para o futuro.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Altíssimas. Ele é o terceiro piloto da Sauber e tem grandes chances de começar sua vida por lá, ainda mais se Sergio Pérez bandear para a Ferrari.

JAMES CALADO, O BARULHENTO

O sobrenome é curioso. Ao que consta, é de origem portuguesa, o que poderia representar uma pequena ascendência lusitana nos genes deste piloto de 22 anos. Mas James Calado não tem absolutamente nada de silencioso. Na verdade, seu currículo é pra lá de expressivo. Com apenas cinco anos de carreira nos monopostos, ele conseguiu ganhar dois títulos de inverno da Fórmula Renault e foi vice-campeão da Fórmula Renault britânica, da Fórmula 3 britânica e da GP3.

Não o julgue mal pelo grande número de vice-campeonatos. Calado é uma das maiores esperanças inglesas nos dias atuais. A ponto da Racing Steps Foundation, programa de desenvolvimento de pilotos ingleses, ter deixado Oliver Turvey de lado para apostar suas fichas no jovem de Cropthorne. Pelo visto, o apoio renderá frutos. Mesmo com apenas quatro corridas de GP2, James já contabiliza duas vitórias. Embora ainda seja estreante, é um interessante candidato ao título. É bem típico de James Calado fazer barulho aonde chega.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Médias. É um grande talento, mas precisa de um suporte mais sólido do que o da Racing Steps Foundation. Caso contrário, pode virar um novo Oliver Turvey.

MARCUS ERICSSON, O ALAIN PROST SUECO

Num belo dia, um garotinho de nove anos quebrou o recorde de uma pista de kart na Suécia e impressionou o ex-piloto Fredrik Ekblom. A família do garoto não tinha qualquer pretensão e sequer dinheiro para financiar uma carreira no automobilismo, mas Ekblom insistiu que o pequeno Marcus Ericsson seguisse em frente. Não muito depois, o também ex-piloto Kenny Brack ficou entusiasmado com o talento do moleque. “Ele me lembra o Alain Prost dirigindo”, garantiu o ex-astro da Indy Racing League.

Ericsson estreou nos monopostos em 2007 e já começou ganhando o título da Fórmula BMW européia com folga. No ano seguinte, correu na Fórmula 3 britânica e terminou em quinto. Em 2009, sagrou-se campeão da Fórmula 3 japonesa e garantiu uma vaga na Super Nova para correr na GP2 e um teste na Brawn GP em Abu Dhabi. Até aqui, infelizmente, Ericsson não conseguiu nada além de uma vitória e uma série de aborrecimentos na GP2. Neste ano, ele entra como um dos favoritos. Seu início de temporada não foi bom, mas ainda podemos considerá-lo como candidato ao título.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Médias. Talvez se terminasse o ano entre os três primeiros. Não me parece ter tanto dinheiro para comprar um lugar na Fórmula 1.

FABIO LEIMER E SIMON TRUMMER, OS SUÍÇOS RIQUINHOS

Da Suíça, saíram alguns dos pilotos mais ricos que militam no automobilismo de base atualmente. O melhor deles, obviamente, é Fabio Leimer. Aos 22 anos, ele entra em sua terceira temporada na GP2 após ter sofrido bastante na Ocean e na Rapax. Fabio ficou conhecido há algum tempo quando alguém publicou que sua carreira, até aqui, custou a bagatela de 16 milhões de dólares. Este montante foi todo financiado por empresas como a Bautro e a Certina, aquela dos relógios. Mas não dá para dizer que Leimer é um mau piloto. Em 2009, ele ganhou com sobras a Fórmula Master. No fim do ano passado, liderou alguns testes de pré-temporada e ainda passeou em uma daquelas corridas extracampeonato de Abu Dhabi. É alguém que brigará por vitórias neste ano.

O outro suíço é Simon Trummer, egresso da GP3 Series. Este daqui não tem muita solução: em duas temporadas na GP3, andou sempre nas últimas posições e marcou um total de apenas treze pontos. Antes disso, Trummer não contabiliza nada além de um vice-campeonato na obscura Fórmula Renault suíça em 2008. Mas ele tem dinheiro e é por isso que conseguiu a vaga de companheiro de Luiz Razia na Arden. Agradeça à Allianz e à Castrol, que o apóiam. Não é curioso que um sujeito ruim como ele conte com parceiros tão fortes?

CHANCES NA FÓRMULA 1: Médias para Leimer, baixíssimas para Trummer. Os dois têm muito dinheiro, mas apenas um tem algum talento.

STEFANO COLETTI, O BASTARDO

Pouca gente sabe disso e você provavelmente não é um deles, mas o monegasco Stefano Coletti é um dos pilotos patrocinados pela Red Bull. É só reparar no seu capacete, que possui as cores azul e cinza e o touro vermelho adornado. Só que Coletti não é nem a primeira e nem a segunda prioridade dos rubrotaurinos. Na verdade, ele nem costuma ser lembrado quando se fala de uma vaga disponível na Toro Rosso. Stefano só recebe o dinheiro das latinhas e tenta se virar com ele.

Compreensível. Ele é um bom piloto, mas não um gênio. Teve passagens razoáveis pela Fórmula BMW americana, pela Fórmula Renault européia, pela Fórmula 3 Euroseries e pela World Series by Renault, mas nada de muito empolgante. Por incrível que pareça, sua melhor fase está sendo agora na GP2. No ano passado, Coletti venceu duas corridas, apareceu bem em outras e terminou em 13º com o fraco carro da Trident. Neste ano, corre pela Coloni, que é melhorzinha, e poderá surpreender. Precisa apenas aprender a não se suicidar em Spa-Francorchamps: dois acidentes gravíssimos nas corridas de 2009 e 2011 quase acabaram com sua carreira.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Baixas. Se depender da Red Bull, não chegará a lugar algum. Precisará de muito dinheiro e de uma temporada excepcional na GP2.

Amanhã, a segunda parte.

FERRARI8 – O mérito da equipe é contar com um piloto como Fernando Alonso. Somente alguém da categoria do espanhol poderia fazer uma corrida tão sensacional, partindo da oitava posição rumo à vitória e à liderança no campeonato. Largou bem, ultrapassou, empregou uma ótima estratégia e ainda conseguiu se livrar das investidas de Sergio Pérez. Vale dizer também que o trabalho nos boxes, ao contrário do que vinha sendo a regra, foi muito bom. Mas as coisas boas acabam aí. O carro continua indecente nos treinos. E Felipe Massa dispensa comentários. A Autosprint pode ser até meio grosseira, mas não falta com a verdade.

SAUBER9,5 – Desconsiderando os dias de BMW Sauber, nunca a equipe suíça esteve tão perto da vitória. E olha que ela está presente na Fórmula 1 desde 1993. Neste último domingo, Sergio Pérez provou que o carro é bom, a equipe é competente e a peça que vai entre o banco e o volante é da melhor qualidade. O mexicano largou em nono, parou antes de todo mundo para colocar pneus para chuva e arrematou um monte de posições. Depois da bandeira vermelha, seu carro se comportou muitíssimo bem tanto com pneus intermediários como com pneus slick. Pérez só não venceu por um erro estúpido, mas ainda conseguiu assegurar o melhor resultado da história da Sauber. Kamui Kobayashi ficou atrás o tempo todo e ainda teve problemas no câmbio. Dessa vez, o japa ficou à margem dos holofotes.

MCLAREN8,5 – Tinha o melhor carro do fim de semana com sobras e poderia ter feito uma tranqüila dobradinha. Mas acabou sucumbindo às doideiras da corrida e foi obrigada a se satisfazer com apenas um terceiro lugar de Lewis Hamilton. Não fosse alguns problemas em dois pit-stops e uma sorte maior de Alonso e Pérez, o campeão de 2008 não teria dificuldades para ter se sagrado o vencedor. Jenson Button também poderia ter ganhado, mas bateu em Narain Karthikeyan e afastou-se das primeiras posições. Foi apenas um grande prêmio de exceção. Hamilton e Button ainda são os caras desta temporada.

RED BULL6 – Mesmo em uma corrida que favorecia os menos favorecidos, não aproveitou a chance para obter um resultado melhor. Sebastian Vettel largou atrás de Mark Webber novamente e desperdiçou um quarto lugar sossegado enquanto colocava uma volta no coitado do Narain Karthikeyan. Terminou fora da zona de pontuação, desobedeceu a uma ordem da equipe e ainda chamou o piloto indiano de idiota ou algo assim. Um estado de espírito bem diferente daquele do ano passado, onde só havia vitórias, sorrisos e bajulação. Webber, ao menos, herdou a quarta posição e ficou por lá. Colocou pneus para pista seca antes dos três primeiros colocados e tentou um último pulo do gato, mas não conseguiu nada.

LOTUS7 – Nestas duas primeiras corridas, cumpriu um ritual até certo ponto desagradável: felicidades com Romain Grosjean apenas no sábado e com Kimi Räikkönen apenas no domingo. O franco-suíço largou da sexta posição e ganhou posições na primeira curva, mas afobou-se e bateu em Michael Schumacher. Poucas voltas depois, rodou sozinho e abandonou. Kimi teve de largar em décimo por causa de uma troca de caixa de câmbio, mas fez uma corrida silenciosamente excepcional e finalizou em quinto. Vem se notabilizando pelo oportunismo nestes primeiros momentos. O carro ainda não teve seu real potencial explorado.

WILLIAMS6,5 – É outra equipe que parece ter um carro melhor do que o que os resultados sugerem. Pelo menos, o então desprezado Bruno Senna conseguiu fazer a corrida de sua vida até aqui e finalizou em um ótimo sexto lugar. Mesmo perdendo muito tempo no começo, o brasileiro ultrapassou bastante gente e aproveitou-se da boa estratégia e do ótimo comportamento do FW34 para levar os oito pontos. Pastor Maldonado cometeu suas burradas de sempre, mas também demonstrou velocidade e fez uma corrida de recuperação boa o suficiente para um décimo lugar. Um motor Renault envolto em fumaça na última volta não estava nos planos. Somente com a pontuação de Bruno Senna na Malásia, a Williams já superou o resultado do ano passado inteiro.

FORCE INDIA7 – Mesmo em uma corrida tão sui generis, é intrigante o fato da Force India ter sido a única equipe a ter marcado pontos com os dois carros. Assim como Lotus e Williams, o potencial do bólido indiano ainda não é muito claro, mas aparenta ser inferior ao do ano passado. Paul di Resta e Nico Hülkenberg tiveram dificuldades nos treinos e ficaram estagnados no meio do grid. Na corrida, sabe-se lá como, os dois avançaram várias posições e terminaram em sétimo e nono. A escuderia precisa de uma corrida normal para chegar a alguma conclusão mais certeira.

TORO ROSSO6,5 – Resultados diametralmente opostos. Jean-Eric Vergne foi um dos destaques da corrida e marcou seus primeiros pontos na Fórmula 1. Poderia ter ido até melhor, pois foi o único maluco a seguir com pneus intermediários até a bandeira vermelha. Se não houvesse a obrigação de relargar com pneus para chuva forte, o francês teria economizado uma parada e poderia até mesmo ter assumido a liderança da prova. Mas o oitavo lugar já está de bom tamanho. Daniel Ricciardo não apareceu em momento algum e terminou fora da zona de pontuação. E a equipe é aquilo lá mesmo: uma sólida competidora do meio do pelotão.

MERCEDES2,5 – Ser a última das que pontuaram é uma tremenda vergonha para uma equipe que se diz grande. Michael Schumacher fez exatamente a mesma coisa que na Austrália: foi muito bem no treino oficial e se deu mal na corrida por causa de forças externas. Dessa vez, Romain Grosjean foi o culpado. Já Nico Rosberg terminou fora da zona de pontuação pela segunda vez seguida. O W03 continua sendo um cruel algoz dos pneus, levando os dois pilotos à aguda perda de rendimento no final. Difícil enxergar um bom futuro se algumas coisas não forem mudadas.

CATERHAM4 – Conseguiu terminar a prova com os dois carros, algo inédito neste início de temporada. De forma até surpreendente, Vitaly Petrov foi o líder da equipe no fim de semana, tendo largado e terminado à frente. Não podemos nos esquecer da punição que Heikki Kovalainen sofreu por causa de uma irregularidade em Melbourne, mas o fato é que o finlandês não fez mais do que ultrapassar os carros da Marussia e da HRT. O desempenho continua o mesmo dos dois anos anteriores: muito melhor que o das demais nanicas e muito pior do que o das equipes estabelecidas. Tédio.

MARUSSIA4,5 – Por que a nota maior em relação à Caterham? Confesso que fiquei impressionado com Timo Glock conseguindo finalizar à frente de Heikki Kovalainen mesmo com um carro, no mínimo, um segundo mais lento. Também me chamou a atenção o estreante Charles Pic, que chegou a andar em oitavo durante alguns micronésimos. Ambos chegaram ao final e a equipe russa é a única das pequenas que conseguiu completar as duas corridas com os dois carros, algo notável para quem era a menos confiável das novatas em 2010. E o carro é bonito demais quando visto de frente.

HRT4,5 – Chorem, corneteiros. A HRT conseguiu largar com os dois carros. E terminou com os dois. Veio contra tudo e contra todos, superou o ceticismo deste que escreve, e conseguiu sobreviver ao sábado e ao domingo. Melhor ainda, Pedro de la Rosa e Narain Karthikeyan conseguiram andar na zona de pontuação durante alguns instantes no início da corrida, fato inédito para a combalida escuderia espanhola. O indiano apareceu quando seu carro foi judiado por Jenson Button e Sebastian Vettel. Em ambos os incidentes, não teve culpa, embora o alemãozinho chorão tenha esperneado. Que as coisas melhorem daqui para frente. HRT campeã em 2013, eu acredito.

TRANSMISSÃOZORRA TOTAL – Nada como uma transmissão de quase três horas para pegar um monte de pérolas e comentários bizarros numa tarrafada só. Nesta madrugada, provavelmente almejando homenagear o falecido humorista Chico Anysio, o narrador brasileiro abusou do humor. Tudo era humor. Piada. Sarro. Um verdadeiro comediante stand-up, só que sentado e de pijamas. Sacaneou o repórter em duas ocasiões, contou uma história absurda envolvendo Luciano Huck e Peter Sauber em uma festa e, no momento mais engraçado do show, afirmou que a Stock Car Brasil tem o nível de pilotos mais alto do planeta. Em seu quadro “Proteste Já”, reclamou de Romain Grosjean e disse que sua batata estava assando na Lotus. Um gênio na arte do rir. E os velhos clichês não foram deixados de lado: a velha história do Mauricio Gugelmin na chuva, a participação de Keke Rosberg e FeRRRRRRRRnando Alonso estiveram lá para agradar a platéia. Quem precisa de Pânico e CQC quando se tem Fórmula 1 de madrugada?

CORRIDAZORRA TOTAL – Cansei de falar nos dias anteriores: Sepang é uma grande pista. Talvez uma das melhores do calendário. Lamentaria profundamente se este circuito fosse retirado do calendário. A prova deste domingo serve como álibi desta opinião. Só é de mandar todo mundo pro quinto dos infernos esse negócio de iniciar a corrida às cinco da tarde do horário local, algo em torno das três da manhã aqui, inaceitável para os filhos de Deus que só têm o fim de semana para dormir um pouco mais. Pior ainda foi a interrupção de 51 minutos por causa da chuva. A FIA precisa regulamentar melhor esse negócio de corrida sob temporal, pois fãs e emissoras de TV não podem continuar torrando tempo por nada. Fora isso, a prova foi excelente, com várias brigas e disputas. Mas a perseguição de Sergio Pérez a Fernando Alonso foi algo especial, de entrar para a história da categoria. Valeu a pena esperar por quase uma hora e jogar fora uma noite de sono.

GP2NÃO TEVE ZORRA – Primeiro fim de semana duplo da GP2 em 2012. Extrapolando meu ínfimo lado pacheco, foi uma rodada legal pra caramba para os torcedores brasileiros. Quem poderia imaginar que o baiano Luiz Razia, em sua quarta temporada e pilotando por uma equipe apenas média, largaria da primeira fila e ganharia com tanta facilidade a etapa de sábado? Na segunda corrida, ele deu um show ao induzir adversários ao erro (Stefano Coletti) e ao fazer ultrapassagens fenomenais (Fabio Leimer) para conseguir terminar em quinto e sair da Malásia com a liderança do campeonato. O outro brasileiro, Felipe Nasr, também foi muitíssimo bem. Na primeira corrida, terminou em sexto e não tomou o quinto lugar de Coletti por pouco. Na segunda corrida, sobreviveu bem à pressão do mesmo Coletti no início da corrida (coitado do monegasco) e rumou a um excelente terceiro lugar. Não me lembro de um fim de semana tão positivo assim para os brasileiros. Que continue assim, pois. Destaque também para o inglês James Calado, que foi bem pra caramba na primeira corrida e venceu a segunda, para deleite da Lotus GP e desespero do companheiro Esteban Gutierrez, de quem se esperava mais. Grande fim de semana de uma categoria que, apesar da presença de muito piloto picareta, promete.

FERNANDO ALONSO10 – Quem poderia imaginar que este filho da mãe deste espanhol rabudo ganharia o GP da Malásia com um carro tão ruim? Mas ganhou e ainda assumiu a liderança do campeonato, para deleite dos ferraristas mais pessimistas. Nem ele deve ter acreditado no resultado final, ainda mais após ter partido da oitava posição. Mas largou muito bem e enfiou seu carro na quinta posição antes da bandeira vermelha. Na relargada, foi aos boxes e ganhou todas as posições à sua frente sem esforço. Dali para frente, teve de segurar um Sergio Pérez em estado de graça e conseguiu impedir as ameaças do mexicano. Cruzou a linha de chegada em primeiro e me deu mais um motivo para acreditar que é o melhor piloto do grid atualmente.

SERGIO PÉREZ10 – Como é bom ver um piloto ainda novato levando um carro apenas mediano a uma posição tão boa. Com o resultado de ontem, o jovem Pérez pode ter garantido até mesmo uma vaga na Ferrari no ano que vem. Já começou o fim de semana muito bem ao ir para o Q3 da classificação e deixar o companheiro Kamui Kobayashi lá para trás. No começo da corrida, foi muito mais esperto que o resto ao colocar pneus para chuva forte e voltar para a pista muito mais rápido que qualquer outro, assumindo a terceira posição antes da bandeira vermelha. Na relargada, ainda conseguiu subir para segundo após os pit-stops. A partir dali, deu show ao pressionar Alonso tanto com pneus intermediários como com pneus slick. Poderia ter vencido, mas errou no final e teve de se contentar com a segunda posição. Contentar? O mexicano dificilmente terá um fim de semana mais feliz do que este.

LEWIS HAMILTON8 – Em tese, fracassar ao tentar converter uma pole-position em vitória pela segunda vez consecutiva deveria ser uma boa razão para dar uma nota bem menor. Mas não vejo justiça em fazê-lo, considerando a loucura que foi esta corrida. Ele poderia ter vencido a corrida sem maiores problemas, mas foi bastante prejudicado no segundo pit-stop e acabou perdendo a liderança para Fernando Alonso. No último pit-stop, também perdeu um pouco mais tempo. E ainda não contava com o desempenho inacreditável de Alonso e Sergio Pérez. Apesar de tudo, o terceiro lugar não lhe caiu mal.

MARK WEBBER7,5 – Não apareceu muito, mas obteve um resultado bastante razoável. Bateu Sebastian Vettel pela segunda vez consecutiva em treinos oficiais e apareceu muito bem nas primeiras voltas, mas sua participação perdeu bastante brilho após a relargada. Tomou ultrapassagens de Vettel e Fernando Alonso, mas conseguiu fazer uma sobre Rosberg. No final da prova, foi o primeiro dos ponteiros a apostar em pneus pra pista seca, mas não conseguiu mudar muito sua fortuna. De qualquer jeito, foi o único piloto da Red Bull a ter algum motivo para ficar satisfeito.

KIMI RÄIKKÖNEN7 – Não foi mal, mas deu a impressão de ter obtido a quinta posição mais pelo acaso do que por demonstração de talento. Largou atrás de Romain Grosjean novamente, mas graças a uma penalização por troca de câmbio. No primeiro pit-stop, perdeu bastante tempo e várias posições. Conseguiu recuperá-las logo após a relargada, quando foi um dos primeiros a apostar em pneus intermediários. Na verdade, ele até abocanhou alguns carros a mais e estabilizou-se em quinto. Fez sua 975ª volta mais rápida na vida.

BRUNO SENNA9 – Brilhante atuação, talvez a melhor de um piloto brasileiro nos últimos anos. Seu resultado apenas mediano nos treinos e seu azarado início foram compensados por um espetacular desenrolar de corrida. Na primeira volta, largou mal de novo, bateu no companheiro de equipe e teve de ir aos boxes na primeira volta. As coisas começaram a melhorar na relargada, quando Bruno foi um dos primeiros a colocar pneus intermediários. Decisão acertadíssima e ele pôde ultrapassar muitos que estavam à sua frente. No final, ainda foi um dos primeiros a colocar pneus slick. Sexta posição altamente merecida. Lá de cima, o tio gostou.

PAUL DI RESTA6,5 – Obteve um ótimo resultado, mas não sei como. Parece padecer de certa falta de ritmo em treinos – problema compartilhado com o companheiro Nico Hülkenberg neste fim de semana. Na corrida, entretanto, as coisas melhoram. No início, o primo de Dario Franchitti foi tocado por trás por Pastor Maldonado e perdeu algumas posições. Após a bandeira vermelha, ele colocou pneus intermediários e se deu bem, ganhando algumas posições. Não fez muito mais coisa, mas salvou pontos importantes.

JEAN-ERIC VERGNE7,5 – Foi um doido ao tentar insistir em correr com pneus intermediários naquelas voltas diluvianas que precederam a bandeira vermelha, mas acabou premiado pela ousadia. Muito mal no treino oficial, o francês preferiu partir para uma estratégia arriscada para recuperar posições. Conseguiu e se garantiu na décima posição após a segunda rodada de paradas. Com a queda brusca de desempenho de Felipe Massa e Nico Rosberg, deu para subir para a oitava posição. Primeiros pontos na Fórmula 1.

NICO HÜLKENBERG5,5 – Não foi bem nos treinos e não brilhou na corrida, mas salvou seus primeiros pontos no ano. Conservador, adotou estratégias parecidas com a de Paul di Resta, esteve à frente dele durante o safety-car, mas não conseguiu superá-lo no final. Após o segundo pit-stop, ainda ficou atrás de Jean-Eric Vergne. Nono lugar honesto, mas discreto.

MICHAEL SCHUMACHER7 – Está muito azarado, caramba. Foi um dos grandes destaques do treino oficial ao assinalar a terceira posição no grid, mas foi atingido por Romain Grosjean nas primeiras curvas e caiu para o meio do pelotão. Sem apostar em estratégias muito diferenciadas e sem ter um carro excepcional em uma pista que secava gradativamente, não deu para se recuperar muito. Mesmo assim, herdou um pontinho na última volta e saiu na frente na lamentável briga interna da Mercedes.

SEBASTIAN VETTEL3 – Fim de semana horrível como não era visto havia muito tempo. Teve dificuldades para ir para o Q3 do treino oficial e levou de Mark Webber pelo segundo GP consecutivo. Na corrida, pareceu vir melhor e pulou para as primeiras posições. Após a bandeira vermelha, parou nos boxes e tentou ganhar posições na parada, mas não conseguiu. Com o DRS, conseguiu passar Rosberg, assumindo a quarta posição. Vinha para terminar nesta posição, mas cometeu um erro idiota e bateu no HRT de Narain Karthikeyan, arrebentando o pneu traseiro esquerdo. Na última volta, foi lhe pedido para que abandonasse a corrida, mas um problema de rádio impediu que a ordem fosse cumprida. Terminar a corrida fora dos pontos não é o que costuma fazer um bicampeão mundial feliz.

DANIEL RICCIARDO3 – Não teve um fim de semana fácil. No treino oficial, superou Vergne, mas não deve ter ficado muito feliz com o 15º lugar. Na corrida, perdeu tempo na primeira volta e caiu para 17º. Não conseguiu subir para as dez primeiras posições em momento algum, mesmo tendo sido o primeiro a apostar em pneus slick no final da corrida, o que lhe rendeu a volta mais rápida da prova por alguns momentos. Ter feito quatro pit-stops definitivamente não ajudou. O problema maior é ter saído da prova atrás de Jean-Eric Vergne no campeonato.

NICO ROSBERG2,5 – Vive uma fase terrível. Largou bem atrás de Michael Schumacher novamente, o que poderia denotar uma melhor adaptação ao W03 por parte do heptacampeão. Ganhou posições na largada e parecia vir rumo a uma boa corrida, mas o destino mudou de humor após a bandeira vermelha. Ao ser um dos primeiros a apostar nos pneus intermediários, Nico esperava ganhar algumas posições por ser mais esperto. Mas aconteceu o contrário devido ao rápido desgaste dos pneus e ele foi ultrapassado várias vezes. No fim das contas, foi obrigado a fazer uma parada a mais que os outros e terminou bem longe da pontuação.

JENSON BUTTON4 – Contrariando o senso comum, cometeu um erro primário e desperdiçou o que poderia ter sido uma bela corrida. Mas não foi de todo mal. Embora não tenha superado Lewis Hamilton na briga pela pole-position, assegurou uma confortável primeira fila. Nas primeiras voltas da corrida, esteve sempre muito próximo do companheiro e chegou a ameaçar sua liderança em alguns momentos. Logo após a bandeira vermelha, foi o primeiro a entrar nos boxes para colocar pneus intermediários e estava em posição boa para ganhar a corrida. Mas um toque besta em Narain Karthikeyan (sem a menor culpa do indiano) acabou quebrando seu bico e estragando sua corrida. Preso no meio do pelotão, Button ficou por lá mesmo.

FELIPE MASSA1 – Pois é… No treino classificatório, só não ficou no Q1 porque teve de apelar ao pneu mais macio para poder se garantir. Mesmo assim, largou apenas em 12º. No início da corrida, até esboçou uma reação e chegou a estar em uma sólida oitava posição, mas seu gravíssimo problema com o desgaste de pneus voltou a se manifestar e o brasileiro perdeu posições como se estivesse dirigindo um Ford T. Em seu pior momento, teve dificuldades para acompanhar a Caterham de Vitaly Petrov. Definitivamente, precisará de um milagre para conseguir reverter sua imagem.

VITALY PETROV6 – Não esteve mal, não. Em dois dos treinos livres, superou o companheiro Heikki Kovalainen. No treino oficial, aproveitou-se da punição imposta ao finlandês para largar em 19º. O domingo foi bem interessante. Embora tenha sido superado por Kovalainen nas primeiras voltas, foi perspicaz o suficiente para colocar pneus intermediários logo no recomeço da corrida e ganhou várias posições com isso. O ponto alto do dia foi ter andado tranquilamente à frente de Felipe Massa por várias voltas. Não terminou muito atrás da Ferrari, uma proeza para um piloto da Caterham.

TIMO GLOCK5 – Não apareceu em momento algum, mas foi um tremendo felizardo ao ter conseguido terminar à frente do Caterham de Heikki Kovalainen. Andou no patamar de sempre tanto nos treinos como na corrida, mas teve alguns duelos com pilotos de equipes melhores, como Felipe Massa e Jenson Button. Trabalho honesto.

HEIKKI KOVALAINEN3 – Já teve fins de semana bem mais interessantes na equipe de Tony Fernandes. Começou perdendo cinco posições no grid de largada por uma punição referente à corrida australiana e acabou obrigado a largar da última posição. A primeira volta, ao menos, foi excelente e ele conseguiu subir para 15º. Foi seu melhor momento, já que sua primeira parada o fez retornar à sua dura realidade. Durante um bom tempo, andou atrás dos dois pilotos da Marussia, algo negativo para um piloto como ele. Pelo menos, chegou ao fim pela primeira vez no ano.

PASTOR MALDONADO5,5 – Além de não ser o piloto mais inteligente do grid, ainda é um tremendo azarado. Dessa vez, seu desempenho no treino oficial não foi tão espetacular como na Austrália, mas ele ainda foi mais veloz que Bruno Senna. Largou muito bem e chegou a andar em quinto, mas acabou cometendo um erro bizarro ao errar a entrada dos boxes durante um dos pit-stops. No final da corrida, estava recuperando algumas posições e vinha para marcar seu primeiro ponto no ano, mas o motor quebrou na última volta. Pela segunda vez seguida, o venezuelano perde um bom resultado nos últimos instantes.

CHARLES PIC3,5 – Fez o trabalho dele e terminou mais uma corrida. Chegou a ocupar a improvável oitava posição na volta 15, mas sua atuação foi bem mais discreta que isso. Como menção positiva, andou à frente de Heikki Kovalainen durante algum tempo. Não fez besteiras e também não sofreu demais. O problema é repetir a falta de brilho de seus antecessores Lucas di Grassi e Jerome D’Ambrosio.

NARAIN KARTHIKEYAN4,5 – Não só largou e chegou ao fim como também chamou a atenção em alguns momentos pontuais na corrida. Um dos poucos pilotos a terem largado com pneus para pista molhada, o indiano não precisou parar nas primeiras voltas e chegou a ocupar a nona posição, fazendo a HRT andar entre os dez primeiros pela primeira vez em sua história. Na volta 16, foi atingido por Jenson Button, mas seguiu em frente sem problemas. No final da prova, voltou a ser acertado por outro piloto lá da frente, Sebastian Vettel. Mais uma vez, não teve culpa e foi dirigindo até o fim.

PEDRO DE LA ROSA4 – Também largou e terminou a prova. Diz ele que chegou a andar entre os dez primeiros por alguns instantes, mas não consegui checar esta informação em lugar algum. Não duvidaria, no entanto, já que ele também foi um dos poucos que largaram com pneus de chuva. Cometeu um pequeno erro na curva 9 em uma volta qualquer aí, mas não cometeu mais nada de absurdo.

KAMUI KOBAYASHI3,5 – Deve ter sido duro para o nipônico ver o companheiro de equipe quase ganhando a corrida enquanto ele ficava nos boxes lamuriando sobre os freios que pararam de funcionar. Mas a verdade é que ele, que derrotou Sergio Pérez nos três treinos livres, apanhou feio no treino oficial e por pouco não ficou no Q1. O domingo prometia e Kamui fez uma bela largada, pulando para oitavo. As coisas boas acabaram aí. Ele caiu para o meio do grid após seu pit-stop e não conseguiu recuperar muito após a relargada. Quando abandonou, estava fora da zona de pontuação.

ROMAIN GROSJEAN5 – Não que ele mereça as críticas abobalhadas que o narrador brasileiro fez durante a transmissão, mas um pouco mais de voltas completadas faria muito bem a ele, certamente. O franco-suíço andou bem novamente nos treinos e conseguiu a sexta posição no grid após a punição ao seu companheiro de equipe Kimi Räikkönen. Na largada, ganhou algumas posições e pulou para uma excelente terceira posição. De repente, um erro permitiu que Mark Webber o ultrapassasse e Michael Schumacher viesse logo atrás. Mas Romain não quis saber e tentou dividir uma curva com o alemão, o que resultou num toque e em ambos rodopiando. Mas a corrida só terminou para o piloto da Lotus.