Choremos juntos. Nesta semana, as duas últimas grandes operadoras de TV por assinatura no Brasil retiraram o canal Speed Channel de suas grades de programação. A Claro TV e a NET finalizaram as negociações com a Fox e puderam, enfim, estrear a reluzente filial da Fox Sports aqui no Brasil. Com isso, apenas algumas operadoras menores ainda contarão com o Speed Channel e suas inúmeras reprises. Por pouco tempo, pelo visto.

Choremos juntos. O praticamente consolidado fim das operações do Speed Channel aqui no Brasil deveria ser motivo de profundo pesar para quem gosta e dá importância ao automobilismo. Trazido para cá em 2006, o Speed tinha a nobre proposta de ser um canal totalmente dedicado às corridas. Seriam 24h diárias de corridas ao vivo ou reprisadas das principais categorias do planeta e programas comentando sobre as últimas notícias ou contando histórias do tempo da vovó.

A intenção era realmente ótima, mas a execução foi pífia. Nos últimos anos, o Speed se resumiu a exibir compactos de corridas da NASCAR e eventos completamente desligados do gosto brasileiro, como o Monster Jam e o Pinks All Out. Categorias importantes, como a World Series by Renault e a Fórmula 3 britânica, foram perdendo prestígio e terminaram sendo exibidas em VTs no meio da madrugada ou nem isso. Os intervalos demonstravam claramente a precariedade da filial brazuca: comerciais repetidos exaustivamente, esquetes falando sobre a sensacional temporada 2009 de Memo Rojas e clipezinhos da NASCAR. Quem não cansou de ouvir Juanes volando com el viento?

Mas apesar de tudo, era um espaço reservado para os fãs do automobilismo. Por mais pobrezinho e malfeito que fosse, o Speed brasileiro representava uma fortaleza para quem queria um canal esportivo sem os bombardeios do futebol. Eu fiquei aborrecido com seu passamento, embora nunca tenha sido lá um grande fã dos reclames da Colgate e da dicção esquisita do Sérgio Lago, que não conseguia falar três palavras consecutivamente. O fã das corridas ficou órfão.

É uma raça que sofre bastante aqui no Brasil, aquela que se dispõe a acompanhar carros andando em círculos. O Top Cinq de hoje relembrará outras cinco emissoras que dedicavam um importante espaço ao automobilismo e que acabaram fechando as portas ou simplesmente minguando.

5- PSN

Eu só tomei conhecimento de um troço chamado PSN quando identifiquei seu logotipo naquela lista telefônica que era o carro da Minardi da temporada de 2000. Esta sigla identificava uma emissora de TV de capital norte-americano cuja sede ficava na Argentina. Ela foi criada no início do novo milênio com uma estrutura de transmissões, jornalismo e marketing invejável. Uma das medidas para chamar a atenção foi patrocinar nosso querido Gastón Mazzacane em sua temporada de estréia na escuderia de Giancarlo Minardi.

A PSN iniciou suas transmissões em todos os países da América Latina em 2000. Seu negócio principal, obviamente, era o futebol. O fundo de investimentos que criou a emissora mantinha parcerias com o Corinthians e o Cruzeiro e tinha enormes interesses no mercado esportivo brasileiro. Seu grande trunfo foi ter conseguido a exclusividade na transmissão dos jogos do Corinthians e do Palmeiras na Copa Libertadores daquele ano. O objetivo era negociar os direitos diretamente com os times e fornecer a eles todo o espaço possível. Tudo isso dentro do sonho de ser a maior emissora esportiva da América Latina em poucos anos.

E o mais interessante é que a partir do momento em que a PSN já tivesse cumprido seus objetivos no futebol, o próximo passo seria tomar o automobilismo para si. A emissora tinha descoberto que as corridas eram o segundo esporte favorito do latino-americano e pretendia investir mundos e fundos para dominar suas transmissões. Na América do Sul, a PSN rapidamente adquiriu os direitos de transmissão da Fórmula 1 e da Fórmula 3000. Todos os países poderiam ver todos os treinos, a corrida e a entrevista após o pódio, além da categoria de base. Somente um país do continente ficou de fora da festa. Adivinhe qual.

Imagino que se o canal tivesse avançado, o automobilismo teria sido contemplado com um belo espaço. Mesmo com as limitações de direitos de transmissão do Brasil, acredito que nós poderíamos estar vendo corridas de TC2000 ou Carretera. Mas o canal não resistiu por dois anos. O fim da conversibilidade dólar-peso e a falta de retorno ante os investimentos acabaram mergulhando a PSN numa gravíssima crise financeira. O sonho panamericano acabou rapidinho.

4- REDETV!

Sim, você está certo, a RedeTV! ainda não faliu. Ainda. A situação lá pelos lados da emissora sediada em Osasco anda pra lá de preta. A trupe do Pânico na TV, responsável por cerca de 40% do faturamento da empresa segundo algumas fontes, se cansou de tantos atrasos salariais e bandeou para a Bandeirantes no início deste ano. Praticamente todos os funcionários do departamento de esportes foram demitidos. Vários programas estão deixando de ser gravados. Para piorar, ela poderá ter seus bens penhorados pela justiça. Cerca de 200 funcionários processaram a emissora por descumprimento do pagamento de um dissídio coletivo e a 2ª Vara de Trabalho de Barueri definiu que se os valores devidos não forem quitados, os ativos serão penhorados para sua quitação.

Se esta situação não for desesperadora, eu não sei mais o que é. E sendo bem honesto, se a RedeTV! realmente acabar, grande parte da sua programação não fará falta. Gostava de ver o Pânico de vez em quando e de tripudiar aqueles estudantes babões de classe média alta naquele programa do Mario Frias. O resto poderia ir para a lata de lixo da TV brasileira sem dor nem clamor. Mas não há como negar que a emissora de Amílcare Dallevo sempre deu algum espaço às corridas.

Em 2003, a RedeTV! tomou da Record os direitos de transmissão da ChampCar aqui no Brasil. Fernando Vanucci e Celso Itiberê transmitiram quase todas as corridas daquela temporada ao vivo e me lembro que as pessoas gostaram do trabalho da emissora naquele primeiro ano de contrato. Infelizmente, assim como tinha acontecido com SBT e Record, a RedeTV! passou a tratar a ChampCar com menos atenção no ano seguinte. Em 2005, ela transmitiu apenas a primeira corrida da temporada. Depois disso, os direitos caíram nas mãos da SporTV num acordo feito às pressas.

Outras categorias também passaram por lá. A Fórmula Truck chegou a ser transmitida pela RedeTV! durante um tempo. A A1GP também teve seu espaço lá pelos idos de 2007, assim como o Troféu Maserati. No ano passado, quem mereceu atenção especial foi a Fórmula 3 sul-americana, que teve nove de suas corridas transmitidas ao vivo. Além dela, todas as provas da Copa Montana foram mostradas na íntegra. Mas não sei se a RedeTV! voltará a transmitir as duas categorias neste ano. Não sei se a RedeTV! transmitirá alguma coisa neste ano.

3- CNT

Esta é outra que ainda existe, mas ninguém dá bola. A CNT já teve em seus quadros gente do calibre de Sérgio Mallandro, Ratinho e Galvão Bueno, só figura. Hoje em dia, nem faço idéia de quem esteja por lá. Talvez a Palmirinha, mas ela é da Gazeta e as duas empresas não estão mais juntas há um bom tempo. Mas acredite: até mesmo esta emissora paranaense, que provavelmente não pegava na sua casa, tem sua página na história do automobilismo no Brasil.

Em 1986, quando Nelson Piquet já era bicampeão e Ayrton Senna estava na boca do povo, a emissora, cujo nome naquela época era OM, começou a mostrar um programa sobre notícias e curiosidades da Fórmula 1, o Pole Position. Eram outros tempos, nos quais não havia tantas limitações contratuais e as demais emissoras pegavam carona no sucesso da Fórmula 1 com a Globo. Além do mais, o acesso às imagens oficiais era bem mais tranqüilo. Hoje em dia, ninguém imaginaria o SBT transmitindo um programa com as imagens das corridas atuais.

Mas a relação entre OM/CNT e o automobilismo começou a ficar mais forte nos anos 90. Em 1992, a então ambiciosíssima emissora quis empreender um enorme plano de expansão que incluía a contratação do narrador Galvão Bueno e a posse dos direitos de transmissão de alguns dos maiores eventos esportivos do planeta. Para não ficar para trás em relação à Globo, que tinha a Fórmula 1, e a Bandeirantes, que mostrava a Indy, a OM arranjou os direitos de transmissão da NASCAR Cup. Os compactos das corridas eram transmitidos com a narração do Edgard Mello Filho em um programa chamado Speed Show, que também exibia VTs de outras categorias. Infelizmente, este esquema durou apenas um ano.

Em 1993, a OM enfrentou problemas financeiros e políticos (um grande patrocinador da emissora era o famigerado PC Farias) e acabou tendo de unir seu espólio com a Gazeta, formando a CNT/Gazeta. Mesmo com todas estas mudanças, as ambições esportivas permanecem. Em 1994, a emissora se une à Manchete para formar a Rede Indy de Velocidade, um pool que compartilhava uma estrutura financeira, técnica e de pessoal para cobrir a temporada da Fórmula Indy. Naquele ano, era possível ver Téo José narrando as glórias e desventuras de Emerson Fittipaldi e Raul Boesel em dois canais diferentes.

A Rede Indy de Velocidade durou apenas um ano porque o SBT tomou para si os direitos de transmissão da Indy em 1995. A CNT, sem a Gazeta, só voltaria a atrair o fã do automobilismo na última década. O programa Esporte Motor era o único dedicado às corridas na TV aberta em sua época. Apresentado por João Mendes, ele cobria categorias nacionais e até se arriscava a falar sobre categorias ignoradas como a VW Beetle Cup e a Fórmula 3 alemã. Não durou muito, mas quem assistia sente falta.

2- REDE MANCHETE

Quando surgiu, em 1983, a Rede Manchete tinha a proposta de levar ao ar uma programação destinada às classes A e B. Enquanto a Globo se encarregava de entreter a senzala, a novíssima e modernosa emissora de Adolpho Bloch privilegiaria o bom gosto da casa grande. É óbvio que, com o passar do tempo, ficou difícil tentar manter a pompa, até porque as classes altas haviam perdido bastante força após sucessivos planos econômicos de merda. A Manchete acabou virando um canal como qualquer outro. Mas não para o fã de automobilismo.

Até a Fórmula 1 já teve espaço. No fim dos anos 80, a Manchete apresentava um programa sobre a categoria nos sábados à noite. O Primeira Fila comentava sobre os resultados dos treinos oficiais, os bastidores e como andavam as coisas em cada equipe. Foi transmitido pela emissora até 1989, quando passou a ser produzido por uma empresa independente e apresentado no SBT. Mas não havia problema, porque dava para se virar com outros certames.

Muitas categorias passaram pela telinha da Manchete. A Fórmula 2 Codasur foi, até onde sei, a primeira de monopostos apresentada por lá. Sua substituta, a Fórmula 3 sul-americana, recebeu atenção especial e serviu para revelar o narrador Luiz Carlos Largo. A Fórmula Ford também era exibida e todos puderam ver Rubens Barrichello pilotar um carro de verdade pela primeira vez no canal carioca. Corridas de moto também eram mostradas, assim o Campeonato de Marcas e Pilotos e algumas temporadas da Stock Car Brasil. Falando na dita cuja, ela era exibida em conjunto com a Fórmula Chevrolet em meados dos anos 90, na época em que as duas formavam o Chevrolet Challenge.

Mas não era só isso. O folcórico Edgard Mello Filho emprestou sua irreverência em várias transmissões da DTM e do ITC em meados dos anos 90. Até mesmo corridas de NASCAR Cup foram narradas por ele lá pelos idos de 1994. Resumindo: havia corridas para todos os gostos nos fins de semana da Manchete. Não é exagero dizer que Adolpho Bloch e sua turma judaica deram aquela força ao desenvolvimento do gosto pelo automobilismo e também à formação de novos talentos brasileiros.

E ela também mostrou a Indy. Em 1993, a Manchete negociou diretamente com a organização da categoria a compra dos direitos de transmissão, deixando a Bandeirantes chupando o dedo. Emerson Fittipaldi esteve envolvido nas negociações e acabou irritando profundamente Luciano do Valle, iniciando uma desavença que parece não ter se resolvido até hoje.

Em compensação, os espectadores saíram ganhando: com o trio formado pelo narrador Téo José, o comentarista Dedê Gomes e o repórter Luis Carlos Azenha, além da rotineira presença de um convidado especial (a Indy 500 de 1993, por exemplo, teve a participação de Rubens Barrichello), as transmissões ganharam em qualidade. Mas por pouco tempo: assim como a Manchete deu uma rasteira na Bandeirantes, o SBT passou a perna nos cariocas e passou a exibir a Indy em 1995.

1- TV JOVEM PAN

O primeiro lugar vai para uma emissora que surgiu com muita ambição, muita tecnologia e muita politicagem. A TV Jovem Pan foi inaugurada em 1990 com a proposta de ser uma emissora de âmbito nacional na frequência UHF, aquela que te obrigava a fazer uns rolos na antena para conseguir fazer pegar. Embora todos nós estivéssemos acostumados com o sistema VHF, muita gente estava curiosa para ver no que daria essa tal tevê baseada na famosa emissora de rádio.

A TV Jovem Pan era comandada por uma comissão que incluía o empresário Tutinha Andrade, o todo-poderoso da rádio brasileira, o também empresário João Carlos di Gênio, dono do colégio Objetivo, e o jornalista Fernando Vieira de Mello. Pouco tempo depois, Vieira de Mello deixou a diretoria e em seu lugar entrou o empresário Hamilton Lucas de Oliveira, dono da IBF, aquela que patrocinou o São Paulo Futebol Clube e o Christian Fittipaldi. Uma sociedade de respeito. Que conseguiu, com seus recursos, formar uma emissora moderna e dinâmica, que prometia ter o melhor jornalismo e a melhor cobertura esportiva do Brasil.

Em termos de corridas, a Jovem Pan conseguiu bastante coisa importante em pouco tempo: em 1991, ela obteve os direitos de transmissão da Stock Car Brasil. No ano seguinte, a emissora fez um acordo com a Rede Globo e pôde exibir VTs de corridas do Mundial de Motovelocidade, incluindo aí o GP do Brasil em Interlagos. Até mesmo a Fórmula 3000 Internacional ganhou espaço. Em 1992, Rubens Barrichello fez uma temporada na categoria e terminou o ano em terceiro. Os VTs de suas corridas eram exibidos na semana seguinte às suas realizações e eram patrocinados pela Arisco, que apoiava o piloto paulista desde os tempos do kart.

Infelizmente, a TV Jovem Pan começou a desmoronar a partir do momento em que as tramoias de Fernando Collor e PC Farias começaram a ser investigadas. Uma das empresas acusadas de envolvimento nas sujeiras era exatamente a IBF, que fazia parte da sociedade. Após isso, a emissora começou a ir ladeira abaixo, enfrentando problemas de atrasos salariais e dívidas crescentes. No fim das contas, apenas Di Gênio havia sobrado no comando da televisão, que nem podia mais usar o nome “Jovem Pan”. Acabava aí a história de um canal que poderia ter feito história – inclusive com os fãs de automobilismo.

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