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O que é o Natal para você? Não, não estou me referindo ao lado espiritual da coisa. O negócio aqui é puramente telúrico. O que é o Natal para você?

Natal é a família rindo e fazendo barulho ao redor de uma mesa repleta de comida boa. Natal é a árvore de plástico lá na sala cujas luzinhas cintilantes fazem a alegria de fornecedores de energia elétrica. Natal é aquela decoração vermelha e verde que embeleza (ou enfeia) as casas ao redor do mundo. Natal é aquele amontoado de caixas de presentes revestidas com o embrulho esverdeado do Mappin. Natal é a festa que é sua, é nossa, é de quem quiser.

Esse é o meu Natal, e provavelmente o de muitos de vocês. Gosto disso. Época boa, aconchegante, meio hipócrita, mas quem liga? Por conta disso, não estou com vontade de falar sobre automobilismo ou o raio que o parta. Eu quero é contar história. Quatro histórias de quatro Natais de quatro pessoas completamente diferentes. Algumas mais próximas, outras completamente distantes do parágrafo aí em cima, tudo o que eu quero é mostrar exemplos de como cada um de nós celebra a data mais importante do Cristianismo e da rua 25 de Março.

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Atrás das verdejantes montanhas que repousam à margem do Reno, uma sequência linear de pequenas vilas torna colorida e vivaz aquele deslumbrante relevo virgem certamente pavimentado por alguma entidade divina em um dia bastante inspirado. Interessa-nos apenas uma dessas vilas, aquela cujo sonoro nome é Heppenheim.

Entre antigos casarões de telhados avermelhados e a Catedral de São Pedro, uma das casas mais ao sopé da montanha é a que mais nos chama a atenção. Certamente não pelo deslumbre, pois todas são grandes, imponentes, um tanto barrocas e razoavelmente apertadas, mas pelo burburinho. Pelas janelas altas e retangulares, percebem-se luzes e ruídos pouco germânicos. Do lado de fora, entre vários BMWs e Mercedes, um Infiniti Q60 azulado tenta encontrar uma vaga. Seu motorista, usualmente tão rápido, está ligeiramente atrasado.

Vamos chamá-lo de Sicrano. Mesmo tendo apenas 26 anos de idade, ele é o membro mais famoso e bem-sucedido da família. De uns anos para cá, em todas as reuniões familiares, o cara se tornou o definitivo centro das atenções, contador oficial de histórias e distribuidor dos presentes mais caros. Por conta ao ofício, Sicrano tem pouco tempo para visitar sua amada cidade-natal. O Natal é uma das raras épocas livres para tal.

Sem ver sua família há muito, Sicrano ansiosamente aperta a campainha. Ele está acompanhado de Hanna, sua bela namoradinha dos tempos da high school. Papai Norbert abre a porta, arregala os olhos e abraça o rebento com força titânica. “Demorou, hein, garoto?”.

Os parentes se aglutinam na porta. Um a um, eles abraçam Sicrano com força, distribuem beijos na bochecha de Hanna e afagam sua barriga, em estágio inicial de gestação. A família alemã, tão gélida e impessoal nos demais dias do ano, se italianiza no período natalino. Sicrano, sem tirar o enorme e irregular sorriso da cara, cumprimenta todos como se fosse um candidato à Presidência:

– Papai, como está?

– Mamãe, que saudade de sua salada de batatas!

– Fabian, moleque, aprendeu a fazer embaixadinha no Fifa 14?

– Melanie, cadê o namorado?

– Stefanie, como é difícil te ver por aqui!

– Vovô, que bom que o senhor está andando!

Entre saudações e manifestações calorosas, a pergunta que silenciou o casarão:

– E o Billy?

Billy é o melhor amigo de Sicrano, um Lulu da Pomerânia branquinho, peludinho, engraçadinho e burro como uma porta. Nascido em 1998, Billy sempre foi a alegria da casa, com sua cara de tonto, sua mania de roubar chinelos e seu bizarro hábito de latir para a máquina de lavar. Nos últimos tempos, coitado, não vinha enxergando bem e uma das patinhas já não apresentava mais as forças de outrora. Mas ele vinha resistindo bem aos obstáculos do tempo. Capenga, mas forte e resistente.

– E o Billy? – voltou a indagar Sicrano, apreensivo.

Soturnos, os familiares se entreolham. Mamãe se aproxima, suspira e anuncia a fatídica notícia:

– Morreu. Há dois meses.

Lágrimas vêm aos olhos de Sicrano:

– E por que vocês não me avisaram?

– Foi em um fim de semana em que você estava trabalhando, preferimos não contar nada para te poupar do sofrimento. Sabemos que você é o que mais gostava dele.

É verdade. Billy era o melhor amigo de Sicrano e vice-versa. Antigamente, os dois brincavam, corriam e pulavam o dia inteiro. Quando Sicrano saiu de casa para o mundo, a saudade derrubou ambos, mas ele sempre retornava a cada seis meses para rever seu mascote. Mesmo envelhecendo, Billy ainda era a mesma bola de pelos brincalhona e abobalhada que corria esbaforido rumo à porta a cada vez que seu dono apertava a campainha.

Pois não teve ninguém correndo à porta naquele Natal.

A feição sempre feliz e sorridente de Sicrano mudou na hora. Ele se sentou à mesa e passou a maior parte do tempo mudo, alternando entre lentas garfadas na salada de batatas e tímidos goles de refrigerante. Os familiares, que riam e bebiam abundante cerveja até sua chegada, reduziram suas celebrações a um quase-luto. Se o astro da família não estava feliz, então ninguém mais estava.

Sicrano havia tido um 2013 excepcional até então. Consagrou-se como um dos melhores que já existiram em sua área, embolsou mais alguns milhões de dólares e ainda recebeu a notícia de que se tornaria pai. Tudo o que ele queria era chegar à sua antiga casa e comemorar suas vitórias particulares com algumas lambidas de seu antigo companheiro. Sem Billy, tudo perdia um pouco da graça. E quem tem animal de estimação sabe que nem mesmo um quarto título mundial em um esporte pode compensar sua ausência.

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– ¡Hijoputa, gilipollas, cabrón, voy a matarte!

– ¡Cálmate, Fulano!

Fulano acorda com um rápido movimento. Suado e com os olhos arregalados, ele olha para os lados e vê que não há nada de errado. Absolutamente nada. Foi apenas um pesadelo. Mais um. A namorada, uma bela modelo de origem eslava, manifesta sua opinião:

– Fulano, você tem de voltar ao psiquiatra. Isso não é normal. É a sexta ou sétima vez que você acorda no meio da noite querendo matar alguém.

– Não é alguém. É apenas uma pessoa.

Mesmo na véspera de Natal, Fulano não deixa suas obsessões profissionais de lado. Típico espanhol do sangue quente, ele é um desses que não admitem não serem os maiores fodões do pedaço. Até alguns anos atrás, Fulano era considerado o melhor em sua profissão, um cara cuja perspicácia parecia não poder ser alcançada por ninguém nos próximos anos. Num belo dia, um moleque esquisito de nome Sicrano apareceu e botou fogo no cabaré, conseguindo resultados inacreditáveis logo de cara e conquistando a confiança e a admiração de todos. A verdade é que não demorou mais do que um ou dois anos para que surgisse alguém aparentemente superior a Fulano.

Lógico que isso lhe causou tremendo incômodo. Sempre cheio da soberba, Fulano não podia aceitar que um cidadão muito mais novo e razoavelmente mais simpático lhe roubaria o cinturão tão cedo. Não deu nem para gozar das benesses do reinado direito. Num primeiro instante, ele bem que tentou intimidar Sicrano psicologicamente. Não funcionou. Na verdade, foi o próprio Fulano que acabou com a mente destroçada.

Ele jamais admitia sua fraqueza às pessoas. Nas redes sociais, sempre falava sobre trabalho, esforço, perseverança e samurais. Muitos aplaudiam, quase ninguém conhecia a realidade. Nos últimos dois anos, Fulano frequentou psicólogos e psiquiatras para tentar reverter a depressão e a baixa autoestima. Se entupiu de remédios, tentou de tudo para confortar-se à dura realidade ou simplesmente esquecê-la, mas nada disso funcionou. A simples existência de Sicrano havia se tornado uma cruz para Fulano.

– Fica calmo, Fulano. Hoje, vamos à ceia de Natal de sua família. Relaxa um pouco.

OK, é Natal, vamos relaxar.

Fulano relaxou e deixou de lado suas angústias naquele dia. Viajou às Astúrias, chegou à casa de seus pais abarrotado de presentes, abraçou os familiares e apresentou a todos sua nova namorada, que deixou primos e agregados mordidos de inveja e o pai cheio de orgulho. Tudo indicava que seria uma noite muito agradável.

Minutos depois, quando Fulano já está à mesa com uma suculenta coxa de peru na boca, a campainha toca. É um primo distante, que quase nunca frequenta as festas. Ao seu lado, a esposa e um garoto de uns oito ou nove anos de idade. Gordinho, sardento, peralta, risonho, simpático e vestido com uma camisa diferente. Uma camisa azul e amarela ornamentada com um touro vermelho. Exatamente a mesma roupa que Sicrano utiliza para trabalhar de vez em quando.

Ao ver o garoto com a mesma indumentária de seu rival, Fulano fica branco como se tivesse visto uma horda de zumbis irrompendo sua casa. O suor frio escorre pelo rosto, as feições congelam, a respiração se torna pungente, um sentimento sincero de raiva selvagem toma conta de seu corpo.

– Fulano, o que foi? – pergunta, assustada, a namorada.

– A camisa… A camisa…

A namorada entendeu logo de cara.

– Por favor, é só um garoto. Deixa ele. Sicrano não tem nada a ver com isso.

– Não…

O pior é que o garoto realmente parecia ser uma graça. Atração maior da ceia, ele pulava, falava coisas engraçadas, corria atrás dos animais da casa, fazia sua festa particular naquela navidade. Todos, à exceção de Fulano, riam de suas macaquices.

– Ele é uma gracinha, vai – sussurrava a namorada.

– Por favor, me deixa quieto.

Fulano passou o resto da ceia com a cara de alguém que está vendo sua mulher e seu melhor amigo transando na sua cama. A coxa de peru descia pela garganta como um pedaço de concreto. Nada mais importava, apenas aquele garoto que se tornou o centro das atenções com o carisma transbordante e aquela maldita camisa azul e amarela. Assim como Sicrano. Talvez aquele garotinho ali fosse uma brincadeira do destino, uma versão miniaturizada de Sicrano que os deuses colocaram em seu caminho apenas para aborrecê-lo. A paranoia estava tomando conta de Fulano.

Ao voltar para a casa, Fulano tomou alguns calmantes e só acordou na tarde do dia seguinte. O samurai foi derrubado novamente. Por um garoto. Um Sicraninho.

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Centro de Convenções de Los Angeles, noite anterior ao Natal. Uma multidão de rappers, modelos e celebridades dos Estados Unidos e da Europa adentra aquele pavilhão todo geométrico e envidraçado para participar de uma das festas mais quentes daquele fim de ano. Champanhe francês, canapés de caviar e presunto cru, farinha colombiana e muita música eletrônica deram o tom daquela ceia pouco ortodoxa para os padrões mortais. Mas quem estava por trás de tudo aquilo?

Era exatamente ele, nosso querido Luisinho.

De origem relativamente humilde, Luisinho era um inglês que ganhou muito dinheiro com eventos esportivos ao redor do mundo. Funcionário muito bem conceituado de uma montadora alemã, ele se destacava por ser praticamente o primeiro negro em um meio absolutamente ariano, uma prova de que os tempos, felizmente, estavam mudando. Naturalmente talentoso, Luisinho era o tipo de cara que não precisava trabalhar muito para conseguir bons resultados. Isso significava que ele poderia ter mais tempo livre para se divertir. E aí residia o problema.

Luisinho era alguém, em tese, tinha tudo para ser feliz: dinheiro, respeito, liberdade e moral. Só que ele não era. Fora do seu trabalho, sua vida era uma verdadeira bagunça novelesca. De cabeça fraca, o cidadão é do tipo que se perde com festas, polêmicas idiotas e desavenças com antigos amigos. Dependendo da época, suas confusões pessoais acabam até mesmo influenciando sua vida profissional. Por conta disso, já faz algum tempo que ele não consegue satisfação nem em um aspecto e nem em outro.

Mas nenhum de seus dramas é maior do que o amoroso. A vida de Luisinho não anda para frente principalmente por causa de sua ex-namorada Nicoletta, popstar que trabalha como cantora e apresentadora de TV. Os dois se conheceram ainda antes do auge, tiveram um início de namoro maravilhoso, cresceram, foram ficando cada vez mais famosos e também cada vez mais ocupados e o relacionamento começou a se deteriorar. Como o tempo livre era muito curto, Luisinho e Nicoletta não encontravam nenhuma brecha na agenda para se curtir.

A torta começou a desandar quanto tanto Luisinho como Nicoletta foram flagrados pulando a cerca – coisas do distanciamento, né? A relação se estremeceu e os dois terminaram e voltaram várias vezes. Atualmente, estão separados. Mas Luisinho não aceita o rompimento. Ele ama Nicoletta, não consegue viver sem ela e até mesmo trabalhar está sendo uma penúria. Para a noite de Natal, uma tática será tentada.

Luisinho convidou sua meia dúzia de amigos verdadeiros e seus milhares de amigos falsos para uma festança inesquecível em Los Angeles. Nicoletta obviamente foi uma das convidadas “por questão de amizade”. Ele aproveitaria o burburinho para tentar uma reaproximação com sua amada. Plano besta, né? Só poderia ter saído da cabeça de alguém muito desesperado. E muito tapado.

Festa iniciada, os convidados chiques e famosos foram chegando aos montes e nada de Nicoletta. As horas passavam e Luisinho ia ficando cada vez mais ansioso. Enquanto seus pares se esbaldavam gratuitamente com ótima comida e bebida, nosso herói apaixonado estava encostado em um canto sem beber nada e com os braços cruzados. Se a Nicoletta não chegar, o que será de mim?

Madrugada adentro e nem sinal da Nicoletta. A angústia tomava conta de Luisinho, que tentava respondê-la com visitas frequentes ao lavabo, onde arremessava água em sua cara tentando despertar daquele pesadelo. Lá pelas três da manhã, uma lindíssima modelo dinamarquesa se aproxima daquele rapaz de coração quebrantado:

– Luisinho, está tudo bem? – indaga a moça em inglês perfeito, com leve sotaque britânico.

– Sim, tudo certo.

– O que está acontecendo? Você deu a festa, mas mal te vi se divertindo…

– Não se preocupe, estou bem.

– Quer dançar?

Um homem solteiro jamais responderia algo diferente de “com certeza” para uma moça daquelas, rosto de Angelina em corpo de Gisele, estudante de medicina em Londres, fluente em seis línguas, muito bem humorada, simpática como só ela e perfumada como um buquê fresco. Luisinho titubeou, mas aceitou. Por educação. Sua cabeça não estava ali.

O interesse da dinamarquesa era enorme, mas Luisinho nem deu bola. Sua resposta à música eletrônica, às luzes e àquela mulher era somente a mais sincera indiferença. Os movimentos eram automáticos, o olhar estava perdido, a solidão aumentava a cada batida, estava tudo um inferno. Mesmo sendo o dono da festa e o macho alfa da história, Luisinho era algo como o homem mais infeliz do planeta.

A festa acabou lá pelas oito da manhã e Nicoletta não apareceu. Luisinho se despediu de todos, não demonstrou qualquer forma de interesse posterior na modelo dinamarquesa e passou todo o dia de Natal dormindo. Milhões de pessoas dariam tudo para ter a vida que ele tem e Luisinho daria seus milhões apenas para ter Nicoletta de volta. Papai Noel que se vire para atender todos esses pedidos.

bebado

– Acorda, vagabundo.

O quê?

– Vamos, levante-se.

Não me enche o saco, porra.

– Levante-se!

De compleição gélida como um assassino serial, o policial finlandês apenas cutuca seu cassetete nas costas daquele cidadão debruçado na calçada em estado semiconsciente. Ao lado daquele corpo quase cataléptico, uma garrafa de vodca pela metade. Pelo estado do rapaz, é bem possível que ele já tenha virado umas três como aquela e não tenha aguentado a quarta.

O policial se abaixa, mexe no bolso do bebum, revira a carteira e encontra sua identidade. O nome dele é algo como Quico Matias, mas as pessoas só o chamam de Quico. Aí o policial, sempre sério e discreto, levanta uma sobrancelha espantada. Quico é um cara razoavelmente rico e famoso, uma dessas celebridades que vivem fazendo bobagens e alimentando revistas de fofoca. Seu comportamento errático e sua afeição por líquidos etílicos já se tornaram suas grandes marcas registradas.

Como estamos na Finlândia, o policial não surrupiou alguns euros da carteira do contraventor ou o subornou. Ao invés disso, ele o arrastou pelas pernas até o banco traseiro de um furgão “poliisi” preto e branco. Atordoado, Quico fez o traslado até a delegacia mais próxima em um estado físico próximo do apodrecimento, com a camisa do White Zombie toda amassada e alguns perdigotos de vômito espalhados pela perna.

Mesmo sendo uma celebridade, Quico não teve nenhum tratamento especial, muito pelo contrário. Enquanto algum familiar não aparecesse para pagar sua fiança, ele passaria a noite da véspera de Natal em uma cela junto de outros criminosos finlandeses, tão perigosos como tartarugas de ponta-cabeça. Duas horas depois, aparece a mãe de Quico.

Assustada e, ao mesmo tempo, resignada com a situação deplorável de seu filho, dona Paula limpou sua boca e o colocou dentro do carro. Tão logo as portas do Saab se fecharam, ela iniciou a típica bronca materna:

– Você não muda…

– …

– Não muda mesmo, né?

– …

– Todos em casa, preocupados com você, esperando você para começar a ceia…

– …

– E você caído no chão, sem um pingo de consideração pelas pessoas que te amam.

– …

– Olha, nada pior para uma mãe do que a ligação de um policial dizendo que seu filho está desmaiado na sarjeta…

– …

– Você não vai falar nada?

Quico não abriu a boca. Ele só adormeceu até chegar à casa de sua família, uma confortável mansão erguida nos arredores de Espoo. Ao chegar, desceu do carro, cambaleou até a porta, entrou de qualquer jeito, ignorou a presença de toda a família, conduziu-se até o quarto do irmão e desabou sobre a cama.

Quico só viria a acordar umas cinco da manhã, quando todos já tinham ido embora e as luzes estavam apagadas. A cabeça latejava, o fígado borbulhava, o corpo estava que só o bagaço. Ele não conseguia mais dormir. Aos poucos, alguns pensamentos começaram a tomar conta de sua mente:

“Putz, minha mãe foi me buscar lá na delegacia em plena véspera de Natal. Que mãe maravilhosa que eu tenho. Se fosse filho meu, não só não pagava a fiança como ainda o fazia dividir a cela com o Kid Bengala. Pensando bem, ela não merece o filho que tem. Eu sou um bosta, um irresponsável, um cara que só se preocupa com o próprio umbigo. Para mim, tudo se resume a beber e a dividir banheiras com meus amigos branquelos e nus. Eu sou um desperdício humano, um Neandertal que só faz a humanidade caminhar para trás, um troglodita. Ninguém me leva a sério, os jornalistas adoram debochar de meu vício, meus colegas de trabalho me tratam como um retardado. Até minha mulher, que era uma miss, me deixou. Sobraram apenas alguns colegas bêbados e um monte de dinheiro que, definitivamente, não compra a felicidade. A vida, para mim, não tem sentido algum, nem mesmo no Natal. Que diabos. Eu deveria é tomar vergonha na cara. É isso mesmo. Para acabar com todos esses pensamentos, com essa depressão, eu tenho de tomar uma atitude de homem”.

Quico se levantou rapidamente, foi até a adega da mansão, entornou meia garrafa de vinho, deu algumas risadas e caiu no sofá.

“Pronto, não estou pensando em mais merda alguma. Mais tarde vou pra sauna encher o cu de uísque com a galera do mal“.

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Moral das histórias? Sim, há. Seu Natal é uma merda? Dá tudo errado? Você odeia a data? Saiba que há gente muito mais rica em situação muito pior que a sua nessa época do ano. Então larga de choradeira, vá comer uma coxa de peru e aproveite a única época do ano em que, mesmo de forma hipócrita, as pessoas te tratam bem.

Feliz Natal a todos os cristãos, feliz Hanukkah aos judeus e feliz Especial do Roberto Carlos a quem não acredita em nada.

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