Primeiramente, reconheço que o título é um belo de um clichê. Já devo ter visto uns três ou quatro artigos, em português ou inglês, com essa referência ao filme do Benjamin Button. Eu até tentei evitar o assunto pra não ter de utilizar desse subterfúgio batido. Mas depois de assistir ao Grande Prêmio da China e de ver mais uma demonstração tão genial quanto minimalista do inglês, comecei a matutar “qual é a tua, Button?”. É realmente curioso, o caso de Jenson Button.

Mas qual é exatamente o caso de Jenson Button? Desde que ele estreou na Fórmula 1, o inglês nunca chamou a atenção por suas pirotecnias. Na verdade, eu mal consigo me lembrar de atuações mais agressivas dele. Porém, lá está Button andando muito rápido e superando seus companheiros de equipe, alguns de maneira humilhante. De Jarno Trulli a Lewis Hamilton, todos vem sofrendo ao lado de Jenson. Qual é o segredo?

Jenson e sua discrição 2 x 0 Lewis e sua pirotecnia

É uma pergunta retórica, é claro. Não tenho a resposta exata e nem sei se vou ter. O fato é que desde que ele estreou na Fórmula 1 em 2000, ele só foi visivelmente superado pelo seu companheiro em duas temporadas: em 2001, por Giancarlo Fisichella (na pontuação, 8 x 2 para o italiano) e em 2008, por Rubens Barrichello (11 a 3 para o brasileiro). Houve também o ano de 2000, no qual Button terminou atrás de Ralf Schumacher nas tabelas, mas vale dizer que o inglês estava em sua temporada de estréia e fez uma segunda metade de campeonato mais convincente. Nos outros anos, vitórias indiscutíveis do inglês.

Na pista, Jenson Button é um cara limpo na pilotagem. Vi uns vídeos onboard dele e de Rubens Barrichello para fazer a comparação com um piloto de ponta e, longe da minha análise ter algum tipo de precisão, a impressão é que Jenson utiliza o volante de maneira extremamente sutil, com golpes rápidos que buscam apenas manter o carro o mais preso possível ao traçado ideal. Nas saídas de curva, Button reacelera de maneira brusca. Já Barrichello faz movimentos progressivos tanto ao volante quanto nos pedais. E aí pode estar a primeira diferença: o minimalismo de Button ao volante leva o inglês a cometer menos erros. E a ser mais “exato”.

E na prática, é o que vemos. Jenson anda muito rápido, mas quase nunca erra. No ano passado, seu único abandono por acidente ocorreu em Spa, em um toque com Romain Grosjean na primeira volta. Além do mais, é um piloto cujos carros raramente quebram. Vimos Jarno Trulli (8 contra 5), Takuma Sato (9 contra 5), Jacques Villeneuve (6 contra 3) tendo mais carros quebrados do que Button. Quando temos três exemplos, é difícil argumentar apenas que “Button tem carros melhores”. Outra coisa interessante é que, nesses casos, a maioria dos problemas dos concorrentes eram relacionados a motor, enquanto que os de Button eram na sua maior parte problemas não-relacionados diretamente à pilotagem, como o sistema hidráulico. E mesmo contra Barrichello, durante os quatro anos em que correram juntos, a diferença a favor de Barrichello não foi tão grande, 6 quebras dele contra 9 de Button. Mas aí há de se considerar dois fatores subjetivos, sorte e estrela.

Olhando o que a Hortência disse, até que ela tem um pingo de razão ao dizer que falta estrela a Barrichello. Não só a ele como a outros pilotos de pilotagem similar a Button, como Nick Heidfeld e Giancarlo Fisichella. Mas a tal da estrela sobra ao inglês. Mesmo sem ter o melhor carro em vários anos de sua carreira, principalmente em 2007 e em 2008, Button sempre conseguiu chamar a atenção. Em 2007, fez 6 pontos com um carro péssimo, sendo que poderia até ter feito mais não fosse o acidente de Nurburgring. Em 2005, seu BAR não era páreo para as equipes de ponta. Mesmo assim, Jenson marcou pontos em todas as corridas do ano a partir de Magnycours.

Na mesma draga que era a Honda em 2007, Jenson 6 x 0 Barrichello

Falemos da sorte. Não há campeão sem sorte, já dizia o cidadão. E Button a teve aos montes em 2009. Nunca teve problemas em seu carro, enquanto que seu companheiro se perdia em atuações irregulares e problemas mecânicos no carro. Os demais concorrentes, também conhecidos como Red Bull Racing, também não conseguiam manter a regularidade nos resultados e também lamentavam problemas mecânicos. E olha que Button, até Fevereiro, estava desempregado. É aquela história de estar no lugar certo e na hora certa. A sorte e a estrela se manifestaram mais do que nunca em Jenson Button em 2000.

Citei tantos fatores externos que nem falei tanto de Jenson Button. E o cara, se não aparenta ser brilhante, o foi durante várias ocasiões. Em Barcelona, no ano passado, ele permaneceu atrás de Barrichello durante boa parte da corrida. Porém, antes de suas paradas nos boxes, deu uma de Schumacher e andou rápido o suficiente para tomar a ponta do brasileiro. Só nesse ano, venceu duas corridas na base da estratégia e da prudência. Seu companheiro Lewis Hamilton é o showman do ano, fez corridas de recuperação espetaculares e ultrapassou um monte de gente. Mas e daí? Quem lidera o campeonato é Button. Que é o segundo piloto da equipe.

Termino contando outra história. Em 1999, Jenson Button estrearia na Fórmula 3 inglesa pela poderosa Promatecme, equipe oficial da Renault na categoria. Sua credencial era um título na Fórmula Ford local no ano anterior. Seu companheiro de equipe seria o brasileiro Aluízio Coelho, piloto considerado até então muito promissor que havia feito até mesmo um teste na Williams um tempo antes. Todo mundo esperava que Coelho detonasse Button, mas o que aconteceu foi exatamente o contrário: o inglês, terceiro colocado nas tabelas, fez 123 pontos a mais que o brasileiro e impressionou até mais do que os dois primeiros no campeonato, Marc Hynes e Luciano Burti. Frank Williams gostou do que viu e contratou Button. E onde estão hoje Coelho e Hynes? Burti é coadjuvante na Stock Car e comenta as corridas da Globo aonde seu antigo rival brilha.

Essa sequência de fatos não explicou o curioso caso de Jenson Button. Mas deixou um fato maior no ar: Jenson Button é um cara diferenciado e está bem acima da média. Ninguém sabe o porquê. Mas cada vez menos gente contesta essa afirmativa.

Anúncios