Gregor Foitek: o Sergio Canamasas dos anos 80

Gregor Foitek: o Sergio Canamasas dos anos 80

Em 1988, a Fórmula 3000 Internacional, categoria de base criada apenas três anos antes, enfrentou seu primeiro grande teste de credibilidade. Até então, ela jamais tinha passado por alguma turbulência técnica, financeira, esportiva ou organizacional. Elogiada pela mídia e pelos bichos-papões da Fórmula 1, a F-3000 precisou de apenas três anos para se consolidar como uma excelente escola para jovens talentos do automobilismo internacional. O sapato apertou exatamente em sua quarta temporada.

O pivô dessa crise foi o piloto suíço Gregor Foitek. Vocês todos sabem quem é ele. No meu interminável especial sobre a história da Onyx, Foitek apareceu em vários capítulos por ter sido um dos pilotos da inesquecível equipe azulada na temporada de 1990. Naquele caldeirão de pilotos desconhecidos e sem perspectivas que era a Fórmula 1 daquela época, o jovem helvético se destacava pelo cabelão de Cauby Peixoto, pela cara de maluco e pelo assombroso histórico de acidentes e confusões.

Foitek desembarcou na Fórmula 3000 no fim de 1986 após ter se sagrado vencedor do inexpressivo campeonato suíço de Fórmula 3. Logo em sua primeira corrida, causou um acidente que tirou três carros da pista ainda na primeira volta. Em 1987, maneirou na agressividade e passou a temporada toda sem ter ocasionado nenhum grande problema. Foi em 1988 que o leite derramou de vez.

Em Vallelunga, Foitek e o britânico Johnny Herbert disputavam a vitória naquela fogosidade típica das categorias de base. O suíço era o líder e vinha sendo fortemente pressionado por Herbert, que pilotava um Reynard-Cosworth patrocinado pela Camel, ajustado pelos mecânicos de Eddie Jordan e empurrado por toda a opinião pública inglesa, ávida por novos talentos nacionais. O duelo perdurou até a volta 45.

Johnny saiu da curva Tornantino colocando o bico de seu Reynard à esquerda do Lola-Cosworth de Gregor Foitek. Tracionando melhor, ele certamente concretizaria a ultrapassagem no trecho seguinte. Sem ter muito que fazer dentro dos limites legais, Foitek simplesmente jogou seu carro sobre a roda dianteira direita do carro do adversário. Herbert acabou perdendo o controle sobre seu bólido e acertou uma quina de guard-rail desgraçadamente posicionada do lado esquerdo. Bateu a cabeça e desmaiou. No hospital, os médicos descobriram uma pequena hemorragia cerebral e deixaram Herbert de cama durante alguns bons dias. Essa foi apenas a primeira cachorrada perpetrada por Gregor Foitek.

Após ter sossegado o facho, o suíço voltou a aprontar das suas em Enna-Pergusa. Tentando passar o brasileiro Roberto Pupo Moreno de todo jeito na largada, Gregor Foitek ignorou o pedal do freio, rodopiou, saiu da pista e levou junto seu adversário. A batida assustou todo mundo que vinha atrás e o resultado foi um mundaréu de gente passando reto e escorregando na complicada primeira curva. Foitek ficou preso na caixa de brita e Moreno até tentou continuar na prova, mas teve de se retirar por conta de um acelerador travado.

Veja o resultado da obra-prima de Gregor Foitek

Veja o resultado da obra-prima de Gregor Foitek

Até aí, tudo bem. O negócio ficou feio, mesmo, na etapa seguinte, realizada em Brands Hatch.

Gregor Foitek largou em quarto e logo de cara se viu metido em disputas ferozes pelas primeiras posições. O mesmo Roberto Moreno de Enna-Pergusa estava atrás dele e queria de todo jeito tomar sua posição. Na volta 22, ao descerem rumo à Paddock Hill, Moreno tentou uma linha mais à esquerda visando sair mais forte no trecho seguinte. Ignorando seus retrovisores, Foitek enfiou seu carro também à esquerda e acabou esbarrando no adversário brasileiro. Roberto perdeu o rumo e se estatelou na barreira de pneus, destruindo seu Reynard amarelado. A direção de prova acionou a bandeira vermelha e o carequinha retornou aos pits possesso, louco de vontade de trucidar uns suíços por aí.

Na relargada, houve aquele famoso rebu que quase acabou com a carreira do pobre do Johnny Herbert. Ele e Gregor Foitek estavam disputando a terceira posição quando o desastrado helvético bateu na traseira do carro do inglês. O carro de Herbert escapou da trajetória e se enganchou com o de Foitek, ambos seguindo rumo à mureta de proteção. Depois, cada um foi para seu lado: Johnny ainda bateu do outro lado da pista e arrebentou as duas pernas; Foitek deu umas cambalhotas e quase saiu para fora do autódromo. Outros carros acabaram se envolvendo naquele que se tornou, talvez, o mais célebre acidente da história da Fórmula 3000.

O desastre mandou os dois pilotos para o hospital. Herbert arrebentou os dois tornozelos e por pouco não perdeu o pé esquerdo. Foitek bateu a cabeça no chão durante a capotagem e chegou a perder os sentidos durante alguns minutos, mas se recuperou e não contabilizou mais do que um pulso direito quebrado e um enorme olho roxo. No hospital, as famílias de Gregor e Johnny trocaram acusações e até alguns tabefes. Normal, pois o comportamento do piloto suíço havia passado dos limites.

Naquela altura, enquanto Foitek tomava sopinha de batatas e bolinava as enfermeiras, a FISA e os mandachuvas da Fórmula 3000 discutiam sobre o que poderia ser feito para diminuir o número de acidentes. Além do próprio Johnny Herbert, pilotos como Steve Kempton, Fabien Giroix e Michel Trollé também se feriram em graves acidentes ocorridos naquela temporada. Por trás de tantos incidentes, um dos fatores observados foi a total falta de noção por parte de alguns pilotos do grid. Todos os olhos acabaram se voltando a Gregor Foitek.

A mídia inglesa, enfurecida com o que havia acontecido com sua maior esperança no automobilismo, despejou inúmeras críticas sobre o piloto suíço. No paddock, houve quem se manifestasse contra seu retorno às corridas. O mais complicado é que, aparentemente, Gregor Foitek era uma das figuras das mais frágeis no paddock. Seu pai, Karl, costumava acompanha-lo nas corridas e comentava-se que a pressão e as cobranças que ele exercia em seu filho eram insuportáveis. Gregor também não falava um inglês muito bom e ainda não era dos mais sociáveis no grid. Seus antigos adversários, na adjetivação mais branda, diziam se tratar de uma figura estranha, solitária e reclusa. Um causador de acidentes com um perfil desses é um perfeito saco de pancadas dos maledicentes em geral.

Foitek foi para a Fórmula 1 e pagou todos os seus pecados correndo por dragas como a pré-falimentar Monteverdi e a natimorta Eurobrun. Para não perder o costume, arrebentou-se em alguns acidentes violentos e deixou seus chefes de cabelos em pé. Saiu da categoria com a reputação no chão, fez um par de corridas na Indy em 1992 e se aposentou antes das 500 Milhas de Indianápolis daquele ano porque sensatamente percebeu que poderia morrer ou matar alguém a bordo de um brinquedinho que chegava a 370km/h.

Sergio Canamasas, o Gregor Foitek do século XXI

Sergio Canamasas, o Gregor Foitek do século XXI

Gregor Foitek foi certamente um dos pilotos mais vilipendiados que eu já vi. Até hoje, seu nome remete a confusões, acidentes e verdadeiras baixarias em pista. Curiosamente, nos dias atuais, há quem, movido por um súbito sentimento de piedade, faça o papel de advogado do diabo e defenda o judiado piloto cabeludo. Alguns se indagam se Foitek realmente foi o real causador do acidente de Brands Hatch e se a campanha de difamação apoiada inclusive pelo próprio Johnny Herbert (que não perdoa o piloto suíço até hoje) não foi longe demais.

Opinião minha: exageros existiram, mas não injustiças. Dentro da pista, Gregor Foitek representava um perigo desnecessário aos demais concorrentes e as críticas foram necessárias. Taca pedra nele!

Vinte e seis anos depois, a GP2 Series passa por uma situação parecida.

Horas depois da segunda corrida da rodada dupla de Monza, realizada no último domingo, começou a correr pelo paddock da categoria um abaixo-assinado que visa a expulsão do piloto espanhol Sergio Canamasas, da Trident. Em atitude inédita no automobilismo recente, vários pilotos do certame, inclusive o próprio companheiro de equipe, o teuto-venezuelano Johnny Cecotto Jr., rabiscaram sua assinatura no papel com o intuito de tirar o desastrado hispânico da competição. A ameaça vai longe: caso Canamasas esteja na pista na próxima corrida, a ser realizada em Sochi (se a União Europeia deixar), os demais pilotos fariam uma greve no melhor estilo USP e não sentariam suas bundas nos seus respectivos cockpits. Ou ele ou nós.

Quando um grupo relativamente grande de pilotos chega ao ponto extremo de se juntar para eliminar alguém da competição, é porque esse alguém deve ter dado motivos pra lá de razoáveis para atrair tanto ódio. Na Fórmula 1, esse tipo de bullying corporativo já aconteceu no passado em mais de uma ocasião. Herdeiro da Opel, o liechtensteinense (!) Rikky von Opel também foi vítima de uma petição que alguns pilotos assinaram com a intenção de mandá-lo para o chuveiro. Apesar dos clamores populares, Von Opel não foi defenestrado e até chegou a melhorar seus resultados, obtendo dois nonos lugares em 1974. Alguns anos depois, o italiano Riccardo Patrese foi considerado o responsável pelo acidente que ceifou a vida do sueco Ronnie Peterson e passou a ser perseguido pelos seus colegas. Chegou a ser banido de uma corrida em Watkins Glen e não foi poupado de críticas e desaforos, sobretudo do sempre bocudo James Hunt.

Mas qual foi o grande pecado de Sergio Canamasas? Correndo na GP2 desde o segundo semestre de 2012, o espanhol ficou famoso pela absoluta falta de habilidade, pela enorme propensão a causar acidentes, pelo desrespeito à integridade física dos adversários e até pelo tom arrogante e irreal de suas declarações. O ocorrido no fim de semana em Monza foi apenas a cereja desse bolo que vinha fermentando há muito.

Na primeira corrida, até que Canamasas não fez tantas besteiras assim. Ao se aproximar de sua posição de largada, parou um pouco além da conta e posteriormente foi punido por isso. Ainda na primeira volta, passou reto pela Variante dela Roggia, não meteu o pé no freio e retornou para a pista de qualquer jeito, quase acertando quem vinha atrás. Mais para o final da prova, ainda tocou seu carro no do francês Pierre Gasly enquanto tentava conter uma tentativa de ultrapassagem na Parabolica. Não foi, logicamente, uma corrida 100% limpa, mas ainda foi tranquila perto de outros momentos de sua carreira.

Foi na segunda prova do fim de semana que o diabo encarnou em Canamasas. Também na primeira volta, passou como um foguete pela chicane da variante Ascari e nem fez questão de olhar para o espelho ao voltar para a pista. Meteu seu bólido na linha normal e acertou o carro de Adrian Quaife-Hobbs, quase causando um acidente de seríssimas proporções. Quem veio atrás teve de frear com tudo para não atingir Canamasas e um bolo de pilotos acabou se formando no fim do pelotão. Nesse agrupado, Gasly e Artem Markelov se tocaram na reta, bateram no guard-rail e abandonaram a prova.

Uma das várias pinturas de Canamasas em Monza

Uma das várias pinturas de Canamasas em Monza

Nas voltas seguintes, Sergio Canamasas voltou a aprontar. Em uma de suas passagens pela Variante dela Roggia, ignorou o pedal do freio novamente e passou reto pela chicane, ganhando um bocado de tempo pela malandragem. A sequência de horrores maior foi cometida na nona volta: ao tentar ultrapassar René Binder na mesma Variante della Roggia de sempre, Canamasas não conseguiu frear a tempo e acabou acertando o piloto austríaco, que rodou e teve de abandonar a prova. Não satisfeito com a cagada, Sergio ainda voltou para a pista, tentou evitar a ultrapassagem de Raffaele Marciello na Lesmo, resolveu dividir a curva com o italiano, fechou seu espaço e causou mais um acidente, com ambos saindo da pista.

Pela sequência absurda de incidentes, a organização de pista decidiu excluir Sergio Canamasas da corrida, dando-lhe bandeira preta na 15ª volta. Tal punição foi até bem leve diante da saraivada de críticas e insultos que o piloto espanhol merecidamente receberia nas horas seguintes.

“Uma sugestão ao meu amigo Canamasas: vá jogar golfe. Ou pare de acertar os outros pilotos”, postou de forma irônica Raffaele Marciello em sua conta no Twitter. “Bravo, Canamasas”, twittou o ex-GP2 James Calado. Os mais irritados na rede social eram justamente os integrantes da família Cecotto. O filhinho Johnny Amadeus lamuriou por Sergio ter “arruinado suas duas corridas em Monza” – ele considera que o espanhol foi o responsável indireto por seu acidente com Nathanael Berthon na Parabolica naquele momento em que o bolo de pilotos se formou, durante a primeira volta da segunda corrida. Não sei sinceramente o que Canamasas fez para Cecotto na primeira corrida, mas dou o benefício da dúvida ao venezuelano.

O post mais bizarro, no entanto, foi o do papai Johnny Cecotto, campeão de motovelocidade e ex-companheiro de Ayrton Senna na Toleman. Num inesperado acesso de fúria, o antigo motociclista venezuelano saiu em defesa de seu filho, que teria sido ameaçado por Canamasas antes mesmo da fatídica corrida do domingo. “Tenha cuidado. Na próxima vez, jogarão sua superlicença no lixo. Não se atreva a ameaçar novamente meu filho ou pagará caro por isso”, bradou Johnny pai em sua conta no Twitter. Posteriormente, o tweet foi apagado, mas o registro para a posteridade está aí.

Se até mesmo o endiabrado Cecotto e seu pai ficaram putos da vida com as atitudes de Canamasas, é porque o cara realmente passou dos limites. E para quem acha que suas atrocidades se resumiram apenas ao fim de semana italiano, segue abaixo um pequeno resumo de alguns dos feitos do piloto espanhol na GP2:

BÉLGICA/2012: Espremeu Nathanael Berthon contra o muro, quase causando um acidente entre os dois. Detalhe: ambos estavam descendo o ladeirão rumo à Eau Rouge a mais de 200km/h.

CINGAPURA/2012: Tomou um drive-through por ter recebido assistência dos seus mecânicos a menos de trinta segundos da volta de apresentação. Porém, não só não pagou a punição nas três voltas seguintes como também ignorou solenemente a bandeira preta de desclassificação que lhe foi apresentada. Só parou nos boxes por causa de um problema no carro. Tomou uma bronca inesquecível do chefe de equipe.

BAHREIN/2013: Julgando ter sido atrapalhado por Kevin Ceccon em uma volta rápida no treino classificatório, deu o troco fechando o caminho do piloto italiano. Não satisfeito, ainda esperou Ceccon passar novamente apenas para jogar seu carro sobre o dele pela segunda vez. Pela sequência de gracinhas, foi desclassificado da sessão e obrigado a largar do fim do grid.

INGLATERRA/2013: Em disputa de posição com Jolyon Palmer, jogou seu carro sobre o do piloto britânico para evitar a ultrapassagem. Danificando seu carro, Canamasas foi aos boxes para trocar o bico e acabou perdendo uma volta. Retornou à pista e, momentos depois, se viu logo à frente de Palmer novamente, dessa vez na condição de retardatário. Ao invés de facilitar a ultrapassagem, jogou seu carro novamente sobre o de Jolyon, causando seu abandono. Nos boxes, Palmer chamou Canamasas de “imbecil de merda” e acabou penalizado com uma multa de 12 mil euros e uma corrida de suspensão, com sursis. Sergio não foi punido.

ABU DHABI/2013: Fechou a porta de Mitch Evans na entrada dos boxes e causou um acidente que acabou tirando o neozelandês da corrida.

ALEMANHA/2014: Tentou uma improvável ultrapassagem sobre o coitado do René Binder e acabou batendo em sua lateral. Os dois rodaram, mas voltaram à pista.

Até quando ele continuará fazendo das suas?

Até quando ele continuará fazendo das suas?

Esses são apenas alguns exemplos de sua absoluta falta de habilidade e respeito ao próximo na pista. O pior é que, ao contrário do tímido Gregor Foitek, Sergio Canamasas é do tipo que não fica quieto e nem admite uma culpa. Ao contrário, ele realmente pensa que é um piloto bom, promissor e injustiçado sobre quem choveriam episódios de azar e acusações infundadas. Em suas declarações, é possível enxergar um misto de alienação, prepotência e indiferença ao adversário.

No ano passado, em entrevista ao jornal Marca, Canamasas teve a pachorra de dizer que “tem algo de Alonso, mas também de Hamilton“. Depois, ainda afirmou que “é agressivo com aquela pitada de inteligência que é necessária para fazer as coisas”. E completou dizendo que “é muito conciso, muito limpo em relação ao que faz na pista e bastante metódico”. Nem parece que os elogios se referem a Sergio Canamasas.

Quando criticado ou colocado na parede, ao invés de assumir a culpa, Sergio prefere fingir que não é com ele ou simplesmente se faz de vítima. Na presepada de Cingapura, disse que o rádio estava quebrado. No acidente com Palmer na Inglaterra, afirmou que não viu as bandeiras azuis. Por outro lado, após a sequência de burradas no último fim de semana, Canamasas desabafou no Twitter, bradando que ignoraria as críticas e insultos e confessando que estava triste porque seu pai havia ido assistir à sua corrida pessoalmente. O discurso meloso não colou.

Por outro lado, quando fazem algo contra ele, Sergio Canamasas ruge como leão. No treino classificatório da etapa de Monza, lamentou no Twitter que “para variar um pouco, me atrapalharam”. Em Spa-Francorchamps, reclamou que “Rio Haryanto me bateu pela terceira vez”. Em Hungaroring, perguntou ironicamente na rede social se “não era engraçado que o cara que te tirou da pista (Berthon) seja o pole-position para a corrida de domingo“. O mais bizarro, no entanto, foi ter feito uma campanha para tirar Johnny Cecotto da GP2 pelo empurrão que este lhe deu na etapa de Barcelona no ano passado. Quando dói no próprio pé, aí o negócio complica, né, Serginho?

Esse é exatamente o tipo de piloto que não pode chegar à Fórmula 1. Sergio Canamasas realmente é uma mistura de Alonso com Hamilton: é falastrão e egocêntrico como o primeiro e desastrado e irresponsável como o segundo foi em 2011. Sua presença na GP2 é uma mancha para a categoria, que há algum tempo tenta se livrar da imagem de pré-escola para moleques riquinhos e sem talento. Equipes como a Trident precisam de caras assim para sobreviver. O mais triste é saber que gente como ele tem o dinheiro que falta a caras como Conor Daly, Tom Dillmann e Jon Lancaster, três caras bons que não podem pagar por uma temporada completa. O automobilismo apenas lamenta.

Gregor Foitek foi bombardeado pela mídia e não durou muito tempo na Fórmula 1. Hoje, Sergio Canamasas é um sujeito desprestigiado até mesmo por Will Buxton, o sempre otimista jornalista inglês que virou meio que o porta-voz oficial da GP2. Em artigo publicado nessa semana, Buxton defendeu abertamente a saída de Canamasas da categoria. Por ser voz influente, é possível que consiga algo. Além dele, outros jornalistas também não poupam nas críticas. Os espectadores também estão vociferando contra o espanhol. No Twitter, as reclamações foram tantas que Sergio Canamasas chegou a estar nos Trending Topics do Reino Unido durante a corrida dominical da GP2. A vantagem de viver nos tempos de Foitek é que não havia Twitter para o povo te xingar.

Vez por outra, o automobilismo de base é presenteado com alguns caras desse naipe de Foitek e Canamasas. Por isso que torço por um automobilismo mais barato e menos sofisticado. No dia em que alguém como Roberto Moreno puder fazer uma boa carreira na GP2 e posteriormente na Fórmula 1 sem gastar muito ou até ganhando grana, será bem mais fácil se livrar de filhinhos de papai que tornam as corridas verdadeiras sessões de demolição.

P.S.: Agora, vamos à justiça, que sempre deve ser feita. Sergio Canamasas é um barbeiro dos infernos, mas não é o único de sua categoria. Seu companheiro Johnny Cecotto é tão pirado e irresponsável quanto. Apesar de ter sossegado um pouco nesse ano, o histórico de Cecotto é vergonhoso. No ano passado, ficou com a fama de mau caráter por ter jogado Sam Bird para fora em Sepang e repetido a manobra contra o próprio Sergio Canamasas na Espanha. Este também terá seu post qualquer dia. Outro que merece menção é Nathanael Berthon, frequente causador de manobras estúpidas e acidentes perigosos. No ano passado, tirou um piloto da prova em um acidente ridículo na Espanha. Nesse ano, voltou a tirar o mesmo piloto da pista em uma manobra igualmente ridícula na Hungria. E quem é o pobre coitado tão maltratado por Berthon? Ele mesmo, Sergio Canamasas. Aqui se faz, aqui se paga, mermão.

JOSEF KRAL, O ECONOMISTA

A única coisa de relevante que tenho para falar sobre Josef Kral é a nossa semelhança acadêmica. Nós dois estamos estudando Economia, mas o piloto tcheco já está em um patamar mais avançado: enquanto não corre, faz seu mestrado em Praga. Ou fazia, não sei direito. Só sei que tenho de escrever algo sobre ele. Nas pistas, é difícil encontrar alguma coisa de interessante para falar deste sujeito de 21 anos que está na GP2 desde 2010.

Kral não tem grandes feitos em seu currículo. Foi vice-campeão da Fórmula BMW britânica em 2007 e terceiro colocado na Fórmula Master em 2009. Na GP2, chamou a atenção por um incrível acidente na segunda corrida da rodada de Valência em 2010, quando pilotava pela Super Nova. Após recuperar-se das fraturas em duas vértebras, ele voltou incrivelmente melhor. No ano passado, obteve dois pódios e terminou em 15º. Neste ano, Josef terá sua grande chance na boa equipe Addax. Mas não aposte muito nele. Não será dessa vez que a República Tcheca terá um campeão.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Baixas. Só conseguiria entrar porque é rico e bem patrocinado por empresas como a Ricoh. Fez um teste na HRT em 2010 pagando meio milhão de dólares.

FABIO ONIDI, JON LANCASTER E FABRIZIO CRESTANI, OS OUTSIDERS

Triste é quando você é um piloto jovem e com algum talento que não consegue engrenar uma carreira sólida e acaba pulando para lá e para cá tentando uma boa oportunidade. Os três cidadãos acima são mais velhos do que a média e estão fazendo sua primeira temporada completa na GP2 num momento um tanto tardio de suas vidas. Fabio Onidi é um italiano de 24 anos que passou um bom tempo no automobilismo italiano enquanto tentava subir para a GP2. Seu melhor resultado foi um vice-campeonato na Euroseries 3000 em 2008, uma espécie de Fórmula 3000 transalpina. Neste ano, finalmente conseguiu seu objetivo: corre na Coloni e espera progredir de vez. Não ganhará corridas, mas poderá marcar pontos sem grandes dificuldades se conseguir se adaptar.

Jon Lancaster é um inglês de 23 anos com alguns resultados bem interessantes na carreira. Foi vice-campeão da Fórmula Renault européia em 2007 e terceiro colocado no Masters de Fórmula 3 em Zandvoort no ano seguinte. Mesmo assim, nunca teve muito dinheiro e teve de pular de categoria a outra para não ficar parado. Apareceu um pouco por causa de alguns acidentes feios, como numa corrida de Fórmula 3 Euroseries em Hockenheim há quatro anos e na largada da etapa de Silverstone da World Series em 2010, quando fez Daniel Ricciardo capotar logo nos primeiros metros. Estréia na GP2 pela Ocean após ter assinado um contrato às pressas e não fará muita coisa nestes primeiros momentos.

Fabrizio Crestani é mais velho do que eles, mas ao menos já teve o gostinho de disputar algumas corridas de GP2 pela DPR em 2010. O italiano corre de monopostos desde 2005 e acumulou alguns resultados razoáveis, como o quinto lugar na Fórmula 3 italiana em 2007 e o quarto na Euroseries 3000 em 2009. Não é um gênio, mas pode fazer corridas honestas. Falta-lhe dinheiro também, verdade seja dita. Neste ano, compete pela Venezuela Lazarus e carrega a responsabilidade de desenvolver o carro, já que o companheiro de equipe…

CHANCES NA FÓRMULA 1: Baixíssimas. Na boa, esses três aí devem é agradecer por terem conseguido chegar à GP2.

RODOLFO GONZALEZ E GIANCARLO SERENELLI, OS REVOLUCIONÁRIOS

Mal comparando, os pilotos venezuelanos de hoje são os japoneses de vinte anos atrás: despreparados e cheios da grana. Só que ao contrário dos orientais, muito bem patrocinados por grandes empresas do país, pilotos como Rodolfo Gonzalez e Giancarlo Serenelli são financiados pelo histriônico Hugo Chávez, que utiliza o interminável dinheiro do petróleo da PDVSA para propósitos políticos. Ter pilotos competindo em alto nível é certamente um deles, até mesmo para mostrar aos imperialistas que o bolivarianismo funciona. Será?

Rodolfo Gonzalez, por incrível que pareça, é o melhor deles. O que não quer dizer nada: trata-se de um piloto lento, desastrado e sem futuro. Seu melhor resultado foi um título na National Class da Fórmula 3 britânica em 2006, algo como ser o campeão do interior num campeonato estadual. Está na GP2 desde 2009 torrando dinheiro público e causando acidentes e prejuízos às suas equipes. Neste ano, corre pela Caterham. Tenho medo desse cara conseguir resultados: seria um péssimo sinal de como as coisas estão indo na GP2.

Giancarlo Serenelli consegue ser ainda pior. Único piloto do grid com mais de trinta anos de idade, ele ganhou um bocado de títulos na sua carreira: dois de Fórmula Ford na Venezuela e três na LATAM Challenge Series, uma espécie de Fórmula Renault que corre em pistas assassinas na América do Sul. Se somar todas estas conquistas, não dá uma de Fórmula 3, mas isso não vem ao caso. Serenelli teve algumas passagens discretíssimas pelo automobilismo europeu há alguns anos e decidiu voltar ao continente para ver se ainda consegue algo de bom. Em Sepang, esteve simplesmente abaixo de qualquer nível de competitividade e ainda atrapalhou muita gente na primeira corrida. O cara que liberou uma superlicença para ele tem de ser empalado.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Baixas para Gonzalez, nulas para Serenelli. O dinheiro da PDVSA pode até encobrir a ruindade do primeiro, mas o tiozão aí não tem solução.

JULIAN LEAL, O BARBEIRO

Davide Rigon ama este cara, mas ao contrário. Colombiano que descolou uma cidadania italiana há alguns anos, Omar Julián Leal é um dos piores pilotos que eu já vi competir por aí. Velocidade não é exatamente sua maior deficiência, embora também não seja correto achar que se trata de um Takuma Sato piorado. O grande problema de Leal, 21, é a pura e simples inabilidade de manter um carro numa trajetória normal durante todo o tempo. O cara erra freadas, escorrega, roda e bate com uma freqüência alarmante. Se não prejudicasse ninguém, tudo bem, mas não foi o caso: um acidente causado por ele em Istambul no ano passado causou ferimentos sérios ao supracitado Rigon, que praticamente teve de interromper sua carreira.

Julián Leal está entrando em sua segunda temporada completa na GP2. Sua carreira, até aqui, tem sido lamentável. Seu único título, o da Fórmula 3000 italiana em 2008, foi obtido sem uma única vitória durante a temporada. Ele só conseguiu vencer sua primeira corrida na vida na AutoGP em 2010, e mesmo assim só conseguiu terminar a temporada em nono. Na GP2, fora destruir a perna de Davide Rigon, não fez nada de notável. Neste ano, competindo pela Trident, provavelmente ficará na mesma. Que nunca chegue perto de um carro de Fórmula 1. E que nunca esteja dividindo a mesma rua que eu.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Baixíssimas. Assim espero.

RICARDO TEIXEIRA, O CARA-DE-PAU

O que você acha de um esportista que nunca teve nada a ver com seu país, mas que se aproxima e mendiga dinheiro para a estatal sustentada pelos seus impostos? Foi o que fez o nosso querido português metido a angolano Ricardo Teixeira. Nascido em Lisboa, ele nunca havia sequer sonhado em pisar num país tão distante de sua realidade como era Angola. Até que, num belo dia, Ricardo percebeu que precisava de dinheiro para correr na Fórmula 3 britânica. Então, ele resolveu viajar ao país africano e pediu uma grana para a estatal petrolífera Sonangol alegando representar Angola no automobilismo. Como assim? Teixeira é filho de mãe angolana e tem a cidadania. Só por causa disso, a Sonangol liberou a grana e passou a vender a idéia do país estar sendo representado no automobilismo.

Mal representado, diga-se. Ricardo Teixeira nunca conseguiu nada além de um único pódio na categoria B da Fórmula 3 britânica em 2003. Por onde passou, nunca demonstrou ser nada além de mais um playboy barbeiro e vagaroso. Fez uma temporada completa na GP2 em 2009 e ficou famoso por sempre ficar distante do penúltimo colocado. Numa corrida em Hungaroring, rodou e jogou brita na pista ao tentar retornar, sujando toda a pista e atrapalhando todo mundo. Neste ano, volta à categoria pela Rapax e promete permanecer nas últimas posições. Ah, não me esqueci de dizer: sua idade real é incerta. Embora tenha nascido oficialmente em 1984, muitos dizem que ele é de 1982 e mente a data de nascimento para não parecer velho demais e comprometer sua carreira. Será que não existe um Ricardo Teixeira minimamente admirável?

CHANCES NA FÓRMULA 1: Baixas. É um cara que tem muito dinheiro angolano, mas não tem condição nenhuma para correr.

TOM DILLMANN, O MÉDICO

Vocês me perdoem, mas quando vi uma foto deste Tom Dillmann pela primeira vez, instantaneamente me veio à cabeça “caramba, é o Dr. James Wilson”. Para quem não assiste ao seriado House, trata-se do oncologista que é o melhor amigo do protagonista. Fora isso e a sonoridade de seu sobrenome, que lembra algo como “Dilmão”, não há muito mais o que dizer sobre este piloto francês de 22 anos. Então, vamos de metáforas bobas.

Dillmann parece finalmente ter remediado a irregularidade de sua carreira. Ele corre de monopostos desde 2004 e já passou por várias categorias diferentes. Em algumas delas, foi muito bem e até ganhou um título na Fórmula 3 alemã em 2010. Em outras, como a GP3, sofreu e ficou distante dos bons resultados. Há alguns anos, foi um dos integrantes do programa de pilotos da Red Bull, mas como bom médico que é, percebeu que taurina em excesso faz mal para os rins e acabou caindo fora do programa após um tempo. Neste ano, Dillmann testou por várias equipes da GP2 e até fez uma rodada em Abu Dhabi pela iSport, mas só conseguiu arranjar uma vaga na Rapax na prorrogação. É um bom piloto e merece atenção, mas já está um pouco passado, quase precisando de um geriatra.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Baixas. Não tem tanto dinheiro assim e também não está na crista da onda dos pilotos mais talentosos das categorias de base.

RIO HARYANTO, O ASIÁTICO

O continente asiático não tem lá muitas opções para torcer nesta temporada de GP2. Na verdade, apenas um único piloto do grid veio de lá. Pelo menos, ele é muito bom. O indonésio Rio Haryanto fará sua primeira temporada na GP2 após uma carreira meteórica e muito interessante. Ele debutou nos monopostos em 2008 e começou bem, terminando a temporada da Fórmula Asia em terceiro lugar. No ano seguinte, venceu nada menos que onze corridas e sagrou-se campeão da Fórmula BMW Pacífico. Impressionante.

Nos dois anos seguintes, Haryanto competiu na GP3. Mesmo em um continente estranho e sem conhecer as pistas, ele terminou 2010 em quinto e 2011 em sétimo, tendo vencido um total de três corridas. Ainda em 2010, Rio testou o carro de Fórmula 1 da Virgin em Abu Dhabi aos dezessete anos de idade. Nesta temporada, ele correrá pela Carlin e terá de se impor numa equipe que pertence ao pai de seu companheiro de equipe. Pelo menos, tempo para se adaptar Haryanto tem de sobra: nascido em 1993, o indonésio é o piloto mais jovem do grid. Aposto cegamente nele no futuro.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Médias. Apareceu muito bem na GP3, mas a vida na GP2 é bem mais difícil. Tem talento e só precisa de tempo e talvez um pouco mais de experiência.

NATHANAËL BERTHON, O POSTE

Outro piloto sobre o qual não há muito o que falar é o francês Nathanaël Berthon. Um fulano mais maldoso poderia supor que a alcunha de poste foi colocada porque o cara seria simplesmente inútil, uma analogia aos comentários infelizes feitos por Sebastian Vettel sobre Narain Karthikeyan no último fim de semana. Pode até ser, mas não o chamo de poste somente por isso. Berthon é um dos pilotos mais altos atualmente em atividade. Com 1m87, fica realmente difícil pensar em gente maior do que ele. Justin Wilson e Átila Abreu são os dois únicos casos que me vêm à mente.

Como acontece com todo sujeito alto, e isso certamente me inclui, a cara de tonto está presente. Nas pistas, Nathanaël (maldita trema!) não é dos sujeitos mais talentosos da França, embora também não seja um péssimo piloto. Nos dois últimos anos, competiu na World Series by Renault e venceu uma corrida, tendo ido bem melhor na temporada de estréia. No fim do ano passado, participou do teste de jovens pilotos da Fórmula 1 em HRT. Neste ano, fará sua primeira temporada completa na GP2 pela Racing Engineering. É piloto pra começar andando no meio do pelotão.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Baixíssimas. Não é extraordinariamente rico e não é o último talento do pedaço. É somente mais um no meio da multidão.

NIGEL MELKER, O EMERGENTE

Nigel Mansell? Quase. De fato, se houvesse um adesivo “Nigel M.” na lateral do carro da Ocean, muita gente ficaria erroneamente eufórica. Caramba, o Leão voltou. Ah, pena, não é ele, embora o cabelo se pareça com uma juba. Vindo da Holanda, Nigel Melker é mais um dos estreantes que subiram da GP3 para a GP2 nesta temporada. Faz sua estréia pela equipe de Tiago Monteiro, uma das mais humildes do campeonato. Por causa disso, não espere muito dele.

É difícil saber se Melker é realmente um piloto de talento. Até 2010, ele nunca tinha vencido uma única corrida na vida. O mais assustador é que ele era o único, dentre todos os trinta pilotos que iniciaram a temporada de GP3 daquele ano, a estar zerado em vitórias. Em 2011, a sorte finalmente sorriu para o holandês. Ele disputou simultaneamente uma segunda temporada na GP3 e também a temporada da Fórmula 3 Euroseries. Na primeira, ganhou uma corrida em Istambul e terminou o ano em terceiro. Na Fórmula 3, venceu quatro provas e finalizou a temporada em quarto. Do nada, Nigel virou um piloto de capacidade. Que ele continue assim, não é?

CHANCES NA FÓRMULA 1: Baixíssimas. Embora tenha melhorado demais de 2010 para cá, não consigo imaginá-lo na Fórmula 1.

MAX CHILTON, O FILHINHO DE PAPAI

A cara de moleque que comeu e não gostou é essa daí mesmo e quem acompanha o automobilismo é obrigado a engolir. Pelo visto, por muito mais tempo. Max Chilton, 20, é um dos pilotos mais ricos do automobilismo europeu atualmente. Na GP2, poucos tem a mesma capacidade financeira. O pai é Grahame Chilton, um dos grandes diretores da AON, a maior seguradora do planeta e patrocinadora do Manchester United. Desnecessário dizer que a carreira do filho é movida a combustível da AON.

Graças a isso, Chilton está conseguindo avançar lentamente no automobilismo de base. Estreou na Fórmula 3 britânica em 2007 aos 16 anos de idade, sendo um dos mais jovens pilotos da modalidade na história mundial. Ficou no mesmo certame até 2009 e ganhou apenas uma corrida em Brands Hatch, mesmo pilotando por boas equipes. Em 2010, subiu para a GP2 pela Ocean. Marcou três pontos. No ano passado, correu pela Carlin, que foi comprada pelo papai, e melhorou bastante: fez quatro pontos. Permanece na mesma Carlin neste ano e começou bem, subindo ao pódio na primeira corrida de Sepang. Até acho que Chilton possa virar um piloto de respeito, sabe? Daqui a vinte anos.

CHANCES NA FÓRMULA 1: Médias. Não dá para desprezar a grana da AON.

Na última parte, as equipes.