As pessoas que estão por trás da Fórmula E, a primeira categoria feita para gente que não gosta de automobilismo

Que negócio é esse de Fórmula E? Você também nunca tinha ouvido falar? Pois é. Eu acabei de ler sobre a confirmação deste troço aí. Se o caro leitor ainda está perdido, dou uma canja.

Hoje, a Federação Internacional do Automóvel anunciou a criação de uma categoria de monopostos movidos apenas a eletricidade, a Fórmula E. O presidente da federação, o nanico Jean Todt, viajou ao Rio de Janeiro na semana passada e se encontrou com o governador Sérgio Cabral e o alcaide Eduardo Paes para discutir sobre amenidades. Os três aproveitaram e iniciaram algumas tratativas sobre a realização de uma corrida de carros elétricos nas ruas cariocas. Após as devidas negociações terem sido feitas, Todt aproveitou o climão de euforia e anunciou de uma só vez o surgimento da Fórmula E e a confirmação da etapa do Rio de Janeiro em 2014.

Hoje em dia, as novas categorias são sempre trazidas ao público com pompa e serpentinas. Além de Todt, Cabral e Paes, estavam presentes no anúncio o piloto brasileiro Lucas di Grassi e os empresários espanhóis Alejandro Agag e Enrique Bañuelos.  Di Grassi será o cara que testará os carrinhos eletrizados antes deles estarem prontos para desfilar. Agag, que é o dono da equipe Addax na GP2, será o CEO da holding promotora do certame. Bañuelos será um dos padrinhos do projeto. Este monte de gente de peso se reuniu para levar adiante o sonho de realizar o primeiro campeonato ecologicamente sustentável da história do automobilismo.

A Fórmula E terá um conceito totalmente diferente de qualquer outra categoria que existe hoje em dia. Seu objetivo é o de promover o uso de veículos que não agridem o meio ambiente e também funcionar como um laboratório para novas tecnologias que possam favorecer o desenvolvimento de carros de rua sustentáveis. É o mesmo papo de sempre. Vamos proteger a natureza! Troquemos nosso Hummer por um Chevy Volt! Deixar o carro em casa e andar a pé ou de bicicleta, ninguém quer. É a cultura sustentável do novo século.

Alguns detalhes sobre a Fórmula E já foram revelados. A FIA já divulgou um esboço de regulamento para a categoria. Um texto enorme que, sinceramente, não interessa a quem não está diretamente ligado ao esporte. Dá para compreender, no entanto, algumas informações preliminares sobre o carro que será utilizado. Ele será um monoposto não muito diferente de um Fórmula Atlantic que pesará 780kg (contando aí o peso do piloto e da bateria) e terá controle de tração. Aparentemente, a FIA estará disposta a dar asas à criatividade das manufatureiras: o desenvolvimento aerodinâmico e das baterias será livre. Isso é bom.

A Fórmula E terá sua primeira temporada em 2014. Para um primeiro instante, a organização espera poder contar com dez equipes e vinte carros. Nos dois anos seguintes, se for do agrado de todos, poderiam ser admitidos 22 ou até mesmo 24 carros. Assim como ocorre em quase todas as categorias europeias atualmente, as equipes aceitas teriam de cumprir contratos de três anos. Quem participasse da temporada de 2014 teria de disputar também as de 2015 e 2016.

O tal carro da Fórmula E

Complicado, para mim, foi entender a dinâmica das provas. Aparentemente, todas as corridas de uma etapa da Fórmula E seriam realizadas num único dia. Seriam quatro, cada uma com duração de quinze minutos. A bateria dos carros seria recarregada nos intervalos entre uma corrida e outra. Curioso, no entanto, é a palhinha que Alejandro Agag antecipou em entrevista a um site inglês. “No pit-stop, o piloto não trocará de pneus ou de bateria, mas de carro”, afirmou o empolgado empresário espanhol. Pit-stops em corridas de quinze minutos? Fico à espera de melhores explicações.

Neste momento, a FIA está aberta a inscrições. Você aí, que me lê e que é dono de uma grande fábrica que constrói monopostos: não perca seu tempo. Elabore um plano de negócios que comprove que seus carros são melhores, mais bonitos, cheirosos e agradáveis que os da concorrência, mande a papelada lá para o Palácio da Concórdia e espere até ser chamado. Uma coisa bacana da Fórmula E é que existe a possibilidade de liberar a entrada para vários fornecedores de carros. Poderíamos ter um campeonato com várias construtoras consagradas no automobilismo, como Rayovac e Duracell.

Outra ideia nova da Fórmula E seria realizar corridas apenas nos grandes centros das cidades grandes. O Rio de Janeiro faria companhia, portanto, a lugares como Los Angeles, Mumbai e Cidade do México. A intenção da categoria é realizar provas nos cinco continentes, mas é evidente que a atenção maior será destinada à Ásia, a dona do dinheiro neste exato instante. As corridas de carros ecologicamente corretos sendo realizadas nas maiores metrópoles do planeta trariam à tona inúmeras vantagens: excelente divulgação dos carros elétricos, estímulo sustentável a estas cidades, maior aproximação do público, fomento do turismo, grana rolando aqui e acolá. Tudo está lindo e você está babando.

Bobagem pura. Esta Fórmula E, assim como quase tudo que é relacionado a esse mercado de badulaques sustentáveis, é apenas um engodo politicamente incorreto que será promovido apenas para atrair gente boboca. A Fórmula E será a primeira categoria feita para pessoas que não gostam de corridas. Como é?

Faça um teste. Pergunte a algumas pessoas conhecidas se elas gostam de automobilismo ou não. Algumas delas responderão que sim. Outras dirão que não, pois ficou chato desde a morte do Senna, os brasileiros não ganham nada, é pura perda de tempo e mais um monte de abobrinhas. Repare em uma coisa. As pessoas mais idiotas, sem a menor dúvida, serão aquelas que responderão que “as corridas de carro poluem o ar”. Esta é a pior resposta que uma pessoa poderia dar. Uma réplica como “eu prefiro passar a manhã de domingo me masturbando com fotos de velhos mortos” soaria mais agradável aos ouvidos.

O Fórmula E lembra, muito de longe, o carro da Fórmula Atlantic

Um carro de Fórmula 1 emite, em média, algo em torno de 1,5 quilo de dióxido de carbono por quilômetro, cerca de nove vezes mais que um carro comum. Na pré-temporada deste ano, as doze equipes completaram exatos 49.987 quilômetros em quinze dias. Não consegui fazer a conta total para a quilometragem para a temporada, mas posso estimar tranquilamente que um piloto está fazendo cerca de 5 mil quilômetros por ano. Se multiplicarmos pelos 24 pilotos que fazem a temporada, chegamos ao total de 120 mil quilômetros percorridos.

120 mil quilômetros percorridos significam 180 mil quilos de dióxido de carbono emitidos pela Fórmula 1 durante um ano. Sabe quantos carros de rua andando os mesmos 5 mil quilômetros anuais de um bólido de Fórmula 1 seriam necessários para emitir os mesmos 180 mil quilos de dióxido de carbono? Sente-se na cadeira, pois o número é gigantesco! Duzentos e quinze.

Isso mesmo: a Fórmula 1 polui tanto quanto míseros 215 carros de rua. Note, porém, que é muito difícil para uma pessoa que usa o carro diariamente fazer apenas 5 mil quilômetros anuais. Eu, por exemplo, não completo menos que uns 10 mil quilômetros anuais. Ou seja: os mesmíssimos 180 mil quilos de dióxido de carbono da Fórmula 1 seriam emitidos por cerca de cem carros com motoristas como o dono deste blog.

Vamos moderar a burrice. A Fórmula 1 representa uma parcela ínfima, verdadeiramente mixuruca, do montante de poluição que é gerado pela humanidade. Podemos atribuir uma culpa muito maior, por exemplos, aos otários que adquirem carros 1.0 a torto e direito, como se estivessem na padaria comprando pão e cigarro. Só em São Paulo, nada menos que 328 novos carros são colocados às ruas diariamente. Segundo o DENATRAN, existiam no mês de julho 4.806.460 automóveis licenciados rodando pelas abarrotadas ruas e avenidas da capital paulista. Sei lá eu quanta poluição todos esses amontoados de aço geram anualmente. Um pouco mais que a Fórmula 1, eu imagino.

O argumento da sustentabilidade é típico das pessoas mais imbecilizadas e alienadas que podemos conhecer. Antes que alguém venha me aborrecer com acusações de ser contra a natureza e tal, eu gosto de árvores, de bicicletas, de animais, de mato, odeio o calor cada vez mais forte da bosta da minha cidade e, se fosse bilionário, faria de tudo para tentar reverter um pouco a poluição generalizada. Dito isto, as pedradas a quem merece.

Acabar com isso aqui…

Você tem medo do aquecimento global? Incomoda-se com aquelas manchas enormes de petróleo nos mares setentrionais? Gostaria de ver um mundo mais verde? Saiba que trocar a sacolinha de plástico por uma de algum material produzido por uma tribo isolada do norte do Mato Grosso não fará a menor diferença. Aliás, fará, sim. Fará diferença ao sujeito pra lá de perspicaz que decidiu vender sacolas biodegradáveis e, agora, ri da sua cara enquanto torra um baita dinheiro com um iate ou prostitutas em Gibraltar.

Governos, midiáticos e grandes empresas adoram esse negócio de assustar os outros para vender um pouco mais. Isso se chama criação de necessidades. A partir do momento em que alguém te conta que o mundo vai acabar porque o ar está irrespirável e o chão todo sujo, o desespero toma conta do indivíduo mais ingênuo. Ele acaba se sentindo responsabilizado e culpado pelo mau estado do planeta e se dispõe a mudar todo o seu consumo. Saem os alimentos enlatados, entram as alfaces orgânicas.

Não vejo nada contra o consumo ecologicamente correto em si. Se houver um produto que polui ou maltrata menos o ambiente, que seja lançado e utilizado por todos. O problema é vender este produto como a salvação do planeta sem comprovar seus benefícios a longo prazo, contrapondo um outro produto que é tido como ruim e maléfico igualmente sem comprovações. Então você compra alimentos orgânicos e demoniza aqueles cultivados com agrotóxicos, mas não tem a menor ideia sobre benefícios e malefícios de alimentos orgânicos e “inorgânicos” e também não imagina como sua compra mísera ajudará o mundo e os coelhinhos. A única coisa que você sabe é que o bonequinho do comercial, a atriz descolada da Zona Sul carioca e o Al Gore disseram que é pra você comprar porque é “sustentável”.

Aí ninguém chega ao ponto correto, que é o do consumo em si. Só idiotas acham que trocar A por A sustentável fará grande diferença, pois a maior parte das etapas da produção continuará poluidora, o processo logístico continuará poluidor e o filho da puta do consumidor ainda poderá acabar jogando a embalagem na rua. A única coisa que realmente reduz a poluição é a redução do consumo. Se você realmente quer reduzir a poluição e os supostos grandes problemas climáticos, então pare de comprar carros e celulares o tempo todo! Mas quem é que vai falar isso pra você? A redução do consumo não interessa a ninguém porque políticos e empresários não encheriam seus cofres. O bonequinho do comercial não existiria, a atriz descolada da Zona Sul carioca não faria seu merchandising na novela e o Al Gore ficaria lamentando a decadência da indústria automobilística de Detroit.

O que todo este compêndio tem a ver com o automobilismo? Simples. A ideia da Fórmula E parte do pressuposto de que as corridas de carro são um esporte altamente danoso para o meio ambiente. Da mesma maneira, parte-se do princípio que o perfil do povão mudou bastante de uns dez anos para cá e algumas coisas se tornaram inaceitáveis, como um esporte onde 180 mil quilos de dióxido de carbono são despejados no ar anualmente. O primeiro pressuposto é falso. O segundo, infelizmente, não é.

… não vai salvar este bichinho aqui.

Assim como o churrasco e o boxe, as corridas de carro se tornaram os grandes alvos daqueles politicamente chatos que militam por ideias que nem conseguem compreender. O sonho mais intrínseco desta gente é exterminar algumas coisas que não a agradam e substitui-las por outras, digamos, mais convenientes. São, em seu íntimo, tiranos. Olham torto a você por qualquer atitude considerada “incorreta”. Põem em xeque seu caráter devido a alguma preferência sua que não siga o mainstream. Nutrem o desejo de convencê-lo do quão equivocado você está por simplesmente gostar de algo, atropelando qualquer traço de individualidade e personalidade. Se alcançassem o poder, seriam os primeiros a proibir isso e aquilo. É o verdadeiro duplipensar do século XXI.

A FIA compreendeu esta mudança comportamental há muito tempo. Ela sabe que se o esporte a motor dependesse apenas de seus fãs antigos, ele já teria falido há algum tempo. É hora de deixar os velhotes para trás e conquistar a carteira dos novos personagens, aqueles que gastam mais e que são os capitães da nova economia: o homem moderno, consciente e fragilizado, a mulher que acha que vive em Sex and the City, o adolescente mimado, o chinês deslumbrado, o xeique exibicionista, a mocinha que vive eternamente na TPM. São eles que têm o dinheiro e o poder de consumo. Logo, o automobilismo pertence a eles.

Isso significa, é claro, que algumas mudanças deverão ser feitas e velhas características do automobilismo terão de ser extirpadas. Carros com motores grandes são poluidores e gastões. Acidentes fortes são inaceitáveis. Corridas na chuva são uma loucura. Circuitos muito velozes representam um enorme perigo e serão riscados dos calendários. Autódromos sem aquela infraestrutura faraônica de Yas Marina são anacrônicos e devem ser demolidos. Pilotos agressivos são sociopatas incapazes de saudável convívio com a humanidade e deverão ser corrigidos no melhor estilo Laranja Mecânica. Blogueiros fanfarrões como este aqui são apenas resmungões retrógrados que deveriam ter nascido no século III.

Não ache que uma corrida de carros elétricos é apenas uma corrida de carros elétricos. Se esta ideia agradar aos chefões do automobilismo, ela será utilizada em todas as demais categorias, assim como ocorre com o DRS hoje em dia. Lentamente, o esporte a motor como conhecemos está sendo dilacerado e o que restará lá na frente será somente um invólucro.

Um invólucro biodegradável.

Não era exatamente este o assunto de hoje, mas vamos lá. Nestes últimos dias, um bocado de gente ligada ao automobilismo está postando no Twitter a hashtag #ORionãopodeficarsemautódromo. A mensagem é clara. O Rio de Janeiro está em vias de perder seu único autódromo, o de Jacarepaguá. Sem autódromo, não há automobilismo. Imagino eu que não seja uma idéia muito difícil de ser concebida para um fã do esporte.

Tudo começou neste domingo, um pouco antes da largada da segunda etapa da Fórmula Truck, sediada exatamente no condenado Autódromo Nelson Piquet. Diante de transmissão televisiva ao vivo, algumas pessoas envolvidas com a categoria estenderam uma faixa branca com os dizeres “O RIO NÃO PODE FICAR SEM AUTÓDROMO – Automobilismo também é esporte!”. A intenção foi mostrar, em cadeia nacional, que aquele histórico circuito erguido no bairro carioca de Jacarepaguá estava à beira do desaparecimento. E que toda uma comunidade automobilística sairia em total prejuízo.

A mensagem virou hashtag de Twitter. O jornalista carioca Rodrigo Mattar, um dos maiores fanáticos por automobilismo que eu conheço no Brasil, comprou a briga e acabou meio que liderando a movimentação no site. Eu mesmo, ignorante que sou, só tomei conhecimento disto porque sigo seu perfil. Mesmo sabendo que sou peixe minúsculo, acabei aderindo. Se quiser fazer o mesmo, basta postar #ORionãopodeficarsemautódromo no seu Twitter e esperar que um milagre aconteça e a frase vá parar na lista de assuntos mais comentados, as Trending Topics. A partir daí, um secretário dos esportes de coração mole poderia até ficar comovido. Ou ao menos Jacarepaguá viraria assunto de boteco, ainda que por alguns instantes.

Se você é um bonobo que se interessa minimamente pelo automobilismo brasileiro, sabe o que está se passando no Rio de Janeiro. Em 2003, o Autódromo de Jacarepaguá foi escolhido como local para a construção de um complexo esportivo a ser utilizado nos Jogos Pan-Americanos de 2007. Dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo. A prefeitura do Rio de Janeiro, liderada por César Maia, decidiu simplesmente cortar fora metade do traçado e levantar as instalações no lugar onde ficava a antiga curva Norte. Resultado: o traçado acabou perdendo quase dois quilômetros de extensão em 2006 e se tornou uma coisa perneta, totalmente patética e lamentável.

Esta foi a gota d’água de um prefeito que nunca parece ter gostado muito de corridas. Embora a CART tenha desembarcado no oval de Jacarepaguá em sua primeira gestão, o democrata César Maia não titubeou em cancelar o contrato com a categoria norte-americana no início de 2001. Três anos depois, ele também não se esforçou para segurar a tradicional etapa brasileira do Mundial de Motovelocidade. O Rio de Janeiro, que vinha se consolidando como uma tradicional praça do esporte a motor, sumiu, desapareceu, virou história. Nem mesmo o Autódromo Nelson Piquet foi poupado.

Jacarepaguá em 1988. Em breve, esta foto se referirá a um circuito extinto

Como se não bastasse a mutilação inicial, um acordo selado em 2008 entre o governo federal, a prefeitura do Rio, o COB e a própria CBA definiu o destino definitivo do circuito de Jacarepaguá: a morte. Absolutamente tudo seria demolido para a construção de mais instalações a serem utilizadas nas Olimpíadas de 2016. Segundo este acordo, o automobilismo não sairia perdendo: seria construído um novo e moderníssimo autódromo no bairro de Deodoro.

Como estamos no Brasil, é evidente que quatro anos não são tempo o suficiente para iniciar uma obra pública. Já que ainda não estamos na fase do concreto e das vigas, vamos falar apenas de números e projeções. A mídia oficial é só elogios para Deodoro: traçado de 4,7 quilômetros com desvio de nível, estacionamento para 10 mil carros, arquibancadas para 30 mil pessoas, kartódromo e espaço para escritórios e restaurantes. Nada foi falado sobre o orçamento, mas o blog SOS Autódromo do Rio de Janeiro apurou que poderiam ser gastos até 400 milhões de reais nas obras.

Como é? 400 milhões de reais? Para comparação, o autódromo barenita de Sakhir custou 273 milhões de reais e comporta 45 mil pessoas. O de Buddh, que estreou na Fórmula 1 no ano passado, custou só um pouquinho mais: 392 milhões de reais. Imagino eu que, com tanta grana investida, a pista de Deodoro não terá problemas para receber corridas de Fórmula 1, F-Zero e foguetes da NASA. A não ser que os 400 milhões revertidos para as obras não sejam exatos 400 milhões, se é que vocês me entendem.

Só que não é este o ponto principal. A destruição do autódromo de Jacarepaguá é ofensiva à história do esporte. Sou do tipo que acha que coisas antigas e boas devem ser tombadas. Evito colocar questões econômicas neste tipo de assunto, pois são elas que justificam a destruição de um belo casarão, uma praça ou um monumento – ou alguém aqui acha que não é rentável trocar um lugar histórico por um condomínio comercial devidamente posicionado em uma região estratégica? Como fã das corridas, não consigo banalizar a existência de um circuito com tanta história. Ainda mais quando este circuito desaparece por algum motivo inaceitável, como um shopping (procurem saber sobre a história de Riverside) ou um punhado de instalações poliesportivas que serão simplesmente abandonadas após os jogos olímpicos de 2016.

A questão aqui é mais de respeito à história do esporte do que qualquer outra coisa. Não sou fã do antigo traçado de Jacarepaguá. Para mim, ele se parecia com um kartódromo crescido, com seu terreno impecavelmente plano e suas curvas arredondadas. As corridas de Fórmula 1 realizadas por lá eram abaixo da média. Só que o que eu acho ou deixo de achar não tem a menor relevância agora. Este é um momento que os fãs de automobilismo deveriam se unir para provar que, sim, as corridas de carro não são apenas uma estúpida diversão de gente rica, boa parte do orgulho que o brasileiro sentia de si mesmo nos anos 80 vinha das pistas e, acima de tudo, muita gente depende das corridas para sobreviver. Como eu disse lá em cima, se não há autódromo, não há automobilismo.

O extinto Teatro Municipal de Campinas: a prefeitura derrubou e ninguém moveu uma palha para impedir a tragédia. A cultura campineira começou a decair a partir daí. Um bom exemplo para quem não liga para o fim de Jacarepaguá

Um protesto no Twitter realmente pode não servir para muita coisa, ainda mais em se tratando de um assunto que, aparentemente, não tem tanta utilidade pública. Que ninguém ache que uma simples hashtag vai mudar o planeta e salvar as baleias. Nem mesmo um carrapato acredita nisto. A intenção do #ORionãopodeficarsemautódromo é tão somente colocar este assunto à discussão pública. Levar aos políticos e às pessoas de fora do meio que existe um grupo contrário à demolição do Autódromo Nelson Piquet e que ele deve ser escutado. Mostrar que o automobilismo, aquele esporte que todo mundo aprendeu a gostar “nos tempos do Senna”, não vai bem no Brasil.

Alguns ainda achariam que defender um circuito é coisa de gente xiita e fútil que não tem outras preocupações na vida. Pois qual seria a utilidade de defender um autódromo ou, sei lá, um cinema antigo? Em São Paulo, um enorme grupo de manifestantes exigiu a reabertura do Cine Belas Artes, fechado no ano passado. Embora o grupo ainda não tenha conseguido reabrir o cinema, ele conseguiu forçar a reabertura do processo de tombamento do seu prédio, que corria o risco de ser demolido. Toda esta celeuma por um cinema. Mas o fato é que, sem o Belas Artes, São Paulo certamente ficou mais pobre. A reclamação geral é válida.

Dou um exemplo contrário. Falo com conhecimento de causa, pois ele aconteceu aqui na merda de cidade onde moro, Campinas. Em 1952, o então prefeito Ruy Novaes, com amplo apoio dos vereadores, pôs abaixo o majestoso prédio do Teatro Municipal alegando problemas estruturais. Esta explicação não colou e até hoje se discute quais foram as reais motivações para a derrubada de um belíssimo casarão que comportava 1.300 pessoas.

A elite campineira ficou incomodada com o fim do Teatro Municipal, mas também não se mobilizou para evitá-lo, assim como também nunca fez questão de brigar por um novo teatro da mesma magnitude. Resultado: sem seu grande pólo artístico, Campinas perdeu relevância cultural. Hoje, as pessoas de fora só conhecem a cidade por causa da enorme quantidade de nerds barrigudos que se orgulham de trabalhar como escravos nas empresas estrangeiras de tecnologia. Os poucos que se interessam por cultura por aqui são obrigados a se satisfazer em São Paulo ou até mesmo em Paulínia, uma cidade consideravelmente menor. Quanto ao espaço do antigo Teatro, ele deu lugar a um estacionamento e a uma loja da C&A…

Há quem veja tudo pela ótica economicista, aquela que diz que tudo se resume às relações de oferta e procura. Há quem empunhe uma lupa tecnocrata e diga que esporte, cultura, história, arte, diversão e qualquer coisa não-produtiva são inúteis e não merecem nossa indignação. Nem diria que são visões erradas, mas apenas tristes e cinzentas das coisas. O autódromo de Jacarepaguá faz parte da história de muita gente. Derrubá-lo do nada seria como jogar fogo em uma parte das memórias dessa gente. Faz parte do ser humano se apegar às coisas. Mesmo que elas aparentemente não sirvam para nada.

Por isso que apoio o movimento “O Rio não pode ficar sem autódromo”. #ORionãopodeficarsemautódromo