Não era exatamente este o assunto de hoje, mas vamos lá. Nestes últimos dias, um bocado de gente ligada ao automobilismo está postando no Twitter a hashtag #ORionãopodeficarsemautódromo. A mensagem é clara. O Rio de Janeiro está em vias de perder seu único autódromo, o de Jacarepaguá. Sem autódromo, não há automobilismo. Imagino eu que não seja uma idéia muito difícil de ser concebida para um fã do esporte.

Tudo começou neste domingo, um pouco antes da largada da segunda etapa da Fórmula Truck, sediada exatamente no condenado Autódromo Nelson Piquet. Diante de transmissão televisiva ao vivo, algumas pessoas envolvidas com a categoria estenderam uma faixa branca com os dizeres “O RIO NÃO PODE FICAR SEM AUTÓDROMO – Automobilismo também é esporte!”. A intenção foi mostrar, em cadeia nacional, que aquele histórico circuito erguido no bairro carioca de Jacarepaguá estava à beira do desaparecimento. E que toda uma comunidade automobilística sairia em total prejuízo.

A mensagem virou hashtag de Twitter. O jornalista carioca Rodrigo Mattar, um dos maiores fanáticos por automobilismo que eu conheço no Brasil, comprou a briga e acabou meio que liderando a movimentação no site. Eu mesmo, ignorante que sou, só tomei conhecimento disto porque sigo seu perfil. Mesmo sabendo que sou peixe minúsculo, acabei aderindo. Se quiser fazer o mesmo, basta postar #ORionãopodeficarsemautódromo no seu Twitter e esperar que um milagre aconteça e a frase vá parar na lista de assuntos mais comentados, as Trending Topics. A partir daí, um secretário dos esportes de coração mole poderia até ficar comovido. Ou ao menos Jacarepaguá viraria assunto de boteco, ainda que por alguns instantes.

Se você é um bonobo que se interessa minimamente pelo automobilismo brasileiro, sabe o que está se passando no Rio de Janeiro. Em 2003, o Autódromo de Jacarepaguá foi escolhido como local para a construção de um complexo esportivo a ser utilizado nos Jogos Pan-Americanos de 2007. Dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo. A prefeitura do Rio de Janeiro, liderada por César Maia, decidiu simplesmente cortar fora metade do traçado e levantar as instalações no lugar onde ficava a antiga curva Norte. Resultado: o traçado acabou perdendo quase dois quilômetros de extensão em 2006 e se tornou uma coisa perneta, totalmente patética e lamentável.

Esta foi a gota d’água de um prefeito que nunca parece ter gostado muito de corridas. Embora a CART tenha desembarcado no oval de Jacarepaguá em sua primeira gestão, o democrata César Maia não titubeou em cancelar o contrato com a categoria norte-americana no início de 2001. Três anos depois, ele também não se esforçou para segurar a tradicional etapa brasileira do Mundial de Motovelocidade. O Rio de Janeiro, que vinha se consolidando como uma tradicional praça do esporte a motor, sumiu, desapareceu, virou história. Nem mesmo o Autódromo Nelson Piquet foi poupado.

Jacarepaguá em 1988. Em breve, esta foto se referirá a um circuito extinto

Como se não bastasse a mutilação inicial, um acordo selado em 2008 entre o governo federal, a prefeitura do Rio, o COB e a própria CBA definiu o destino definitivo do circuito de Jacarepaguá: a morte. Absolutamente tudo seria demolido para a construção de mais instalações a serem utilizadas nas Olimpíadas de 2016. Segundo este acordo, o automobilismo não sairia perdendo: seria construído um novo e moderníssimo autódromo no bairro de Deodoro.

Como estamos no Brasil, é evidente que quatro anos não são tempo o suficiente para iniciar uma obra pública. Já que ainda não estamos na fase do concreto e das vigas, vamos falar apenas de números e projeções. A mídia oficial é só elogios para Deodoro: traçado de 4,7 quilômetros com desvio de nível, estacionamento para 10 mil carros, arquibancadas para 30 mil pessoas, kartódromo e espaço para escritórios e restaurantes. Nada foi falado sobre o orçamento, mas o blog SOS Autódromo do Rio de Janeiro apurou que poderiam ser gastos até 400 milhões de reais nas obras.

Como é? 400 milhões de reais? Para comparação, o autódromo barenita de Sakhir custou 273 milhões de reais e comporta 45 mil pessoas. O de Buddh, que estreou na Fórmula 1 no ano passado, custou só um pouquinho mais: 392 milhões de reais. Imagino eu que, com tanta grana investida, a pista de Deodoro não terá problemas para receber corridas de Fórmula 1, F-Zero e foguetes da NASA. A não ser que os 400 milhões revertidos para as obras não sejam exatos 400 milhões, se é que vocês me entendem.

Só que não é este o ponto principal. A destruição do autódromo de Jacarepaguá é ofensiva à história do esporte. Sou do tipo que acha que coisas antigas e boas devem ser tombadas. Evito colocar questões econômicas neste tipo de assunto, pois são elas que justificam a destruição de um belo casarão, uma praça ou um monumento – ou alguém aqui acha que não é rentável trocar um lugar histórico por um condomínio comercial devidamente posicionado em uma região estratégica? Como fã das corridas, não consigo banalizar a existência de um circuito com tanta história. Ainda mais quando este circuito desaparece por algum motivo inaceitável, como um shopping (procurem saber sobre a história de Riverside) ou um punhado de instalações poliesportivas que serão simplesmente abandonadas após os jogos olímpicos de 2016.

A questão aqui é mais de respeito à história do esporte do que qualquer outra coisa. Não sou fã do antigo traçado de Jacarepaguá. Para mim, ele se parecia com um kartódromo crescido, com seu terreno impecavelmente plano e suas curvas arredondadas. As corridas de Fórmula 1 realizadas por lá eram abaixo da média. Só que o que eu acho ou deixo de achar não tem a menor relevância agora. Este é um momento que os fãs de automobilismo deveriam se unir para provar que, sim, as corridas de carro não são apenas uma estúpida diversão de gente rica, boa parte do orgulho que o brasileiro sentia de si mesmo nos anos 80 vinha das pistas e, acima de tudo, muita gente depende das corridas para sobreviver. Como eu disse lá em cima, se não há autódromo, não há automobilismo.

O extinto Teatro Municipal de Campinas: a prefeitura derrubou e ninguém moveu uma palha para impedir a tragédia. A cultura campineira começou a decair a partir daí. Um bom exemplo para quem não liga para o fim de Jacarepaguá

Um protesto no Twitter realmente pode não servir para muita coisa, ainda mais em se tratando de um assunto que, aparentemente, não tem tanta utilidade pública. Que ninguém ache que uma simples hashtag vai mudar o planeta e salvar as baleias. Nem mesmo um carrapato acredita nisto. A intenção do #ORionãopodeficarsemautódromo é tão somente colocar este assunto à discussão pública. Levar aos políticos e às pessoas de fora do meio que existe um grupo contrário à demolição do Autódromo Nelson Piquet e que ele deve ser escutado. Mostrar que o automobilismo, aquele esporte que todo mundo aprendeu a gostar “nos tempos do Senna”, não vai bem no Brasil.

Alguns ainda achariam que defender um circuito é coisa de gente xiita e fútil que não tem outras preocupações na vida. Pois qual seria a utilidade de defender um autódromo ou, sei lá, um cinema antigo? Em São Paulo, um enorme grupo de manifestantes exigiu a reabertura do Cine Belas Artes, fechado no ano passado. Embora o grupo ainda não tenha conseguido reabrir o cinema, ele conseguiu forçar a reabertura do processo de tombamento do seu prédio, que corria o risco de ser demolido. Toda esta celeuma por um cinema. Mas o fato é que, sem o Belas Artes, São Paulo certamente ficou mais pobre. A reclamação geral é válida.

Dou um exemplo contrário. Falo com conhecimento de causa, pois ele aconteceu aqui na merda de cidade onde moro, Campinas. Em 1952, o então prefeito Ruy Novaes, com amplo apoio dos vereadores, pôs abaixo o majestoso prédio do Teatro Municipal alegando problemas estruturais. Esta explicação não colou e até hoje se discute quais foram as reais motivações para a derrubada de um belíssimo casarão que comportava 1.300 pessoas.

A elite campineira ficou incomodada com o fim do Teatro Municipal, mas também não se mobilizou para evitá-lo, assim como também nunca fez questão de brigar por um novo teatro da mesma magnitude. Resultado: sem seu grande pólo artístico, Campinas perdeu relevância cultural. Hoje, as pessoas de fora só conhecem a cidade por causa da enorme quantidade de nerds barrigudos que se orgulham de trabalhar como escravos nas empresas estrangeiras de tecnologia. Os poucos que se interessam por cultura por aqui são obrigados a se satisfazer em São Paulo ou até mesmo em Paulínia, uma cidade consideravelmente menor. Quanto ao espaço do antigo Teatro, ele deu lugar a um estacionamento e a uma loja da C&A…

Há quem veja tudo pela ótica economicista, aquela que diz que tudo se resume às relações de oferta e procura. Há quem empunhe uma lupa tecnocrata e diga que esporte, cultura, história, arte, diversão e qualquer coisa não-produtiva são inúteis e não merecem nossa indignação. Nem diria que são visões erradas, mas apenas tristes e cinzentas das coisas. O autódromo de Jacarepaguá faz parte da história de muita gente. Derrubá-lo do nada seria como jogar fogo em uma parte das memórias dessa gente. Faz parte do ser humano se apegar às coisas. Mesmo que elas aparentemente não sirvam para nada.

Por isso que apoio o movimento “O Rio não pode ficar sem autódromo”. #ORionãopodeficarsemautódromo

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