O Bandeira Verde não poderia voltar com um post mais oportuno, um texto mais condizente com a realidade atual, um escrito que melhor explica o porquê das coisas serem do jeito que elas são. Não poderia retornar, afinal de contas, falando sobre uma irrelevância qualquer. Para cortar a faixa de reinauguração de um dos espaços mais sóbrios e antenados com o zeitgeist, tive de caprichar e trazer à discussão um assunto que certamente estará na boca de toda a comunidade automobilística nos próximos dias.

Lógico que estou falando de um obscuro piloto italiano que disputou a Fórmula 3000 Internacional no início dos anos 90.

"Ó eu aqui!" - Giovanni Bonanno.

“Ó eu aqui!” – Giovanni Bonanno.

A Fórmula 3000, como já cansei de falar para vocês, foi indiscutivelmente a melhor categoria que já existiu no automobilismo internacional. Além das ótimas corridas, ela proporcionava aquele toque de humanidade que já não se via mais na Fórmula 1 desde os anos 80. Enquanto a categoria maior havia se tornado um antro de insuportáveis pilotos robotizados, multimilionários e egocêntricos, nossa querida “três mil” ainda congregava vários tipos distintos da raça humana, desde a mesma molecada de nariz empinado que fatalmente subiria para as categorias maiores até gente cujos propósitos nem sempre eram totalmente esportivos.

Como ninguém aqui nasceu ontem, imagino que as surpresas não são muitas quando eu digo que o esporte a motor é um bom esconderijo para o crime. Imagine-se na pele de um lavador de dinheiro dos mais cascas-grossas. Você ganha um bocado de dinheiro com narcotráfico, prostituição, fraudes financeiras e precisa, de alguma forma, torná-lo invisível para investigadores e policiais. Não parece sedutor despejar uma parte desse dinheiro em patrocínio esportivo? Então você inventa uma marca bonita (Leyton House, por exemplo) e associa sua marca bonita a pilotos e equipes de grandes categorias do automobilismo mundial. E voilà!: ao mesmo tempo em que seus trambiques estão devidamente resguardados, você ainda estará ajudando pilotos talentosos e poderá até ir para o Céu por causa disso.

A Fórmula 3000 tinha algumas histórias interessantes de patrocínios tão polpudos quanto obscuros. Mas a história que conto aqui não é tão obscura assim. Na verdade, ela bombou na mídia italiana em meados dos anos 90. Uma trama que envolve mafiosos, extorsões milionárias, políticos e negócios escusos internacionais. No centro disso tudo, um piloto de nome Giovanni Bonanno.

Nascido em Roma no dia 09 de setembro de 1968, quase trinta anos antes deste proseador da correia dentada que escreve, Giovanni Bonanno era mais um daqueles trilhões de jovens pilotos nascidos na Bota nos anos 50 e 60 que sonhavam em correr na Ferrari um dia para ganhar aquele título de Fórmula 1 que somente Giuseppe Farina e Alberto Ascari, entre os carcamanos, haviam copado.

No meio deste monte de garotos animados e falantes, Bonanno se destacava por ter algo que nem sempre abundou em terras italianas: dinheiro. Vindo de onde? Falo disso depois.

Giovanni estreou no esporte a motor em 1980, quando ainda era apenas um garoto extremamente branquelo e extremamente ruivo. Com bons resultados, ele consegue provar a todos que, mesmo que não fosse o novo Tazio Nuvolari, podia ser perfeitamente capaz de alcançar patamares mais altos.

Não se assuste com o Copyright. Não há muitas fotos de Bonanno por aí. A dona do Flickr é essa daqui: https://plus.google.com/108200492144965852312/posts

Não se assuste com o Copyright. Não há muitas fotos de Bonanno por aí. A dona do Flickr é essa daqui: https://plus.google.com/108200492144965852312/posts

No início de 1987, após quase uma década inteira andando naqueles simpáticos carrinhos de carroceria aberta, Giovanni Bonanno assinou contrato com a equipe SC Lazio Oil para disputar a Fórmula 3 italiana no ano seguinte. Não confunda a escuderia com a SS Lazio, o time de futebol. Sediada em Roma, a SC Lazio era uma distribuidora oficial de óleo Syneco Spa comandada por Luigi Romano. Fundada em 1981, a empresa cresceu bastante no decorrer da década e em 1987 decidiu iniciar um programa de apoio a jovens talentos do automobilismo. O primeiro contemplado foi justamente Bonanno.

A estreia nos monopostos não foi fácil. Pilotando um Reynard 873 equipado com motor Alfa Romeo, Bonanno teve dificuldades em um grid tão competitivo. Imagine você que a Fórmula 3 italiana de 1987 foi disputada por nomes como Gianni Morbidelli, Enrico Bertaggia, Andrea Chiesa, Rinaldo Capello, Emanuele Naspetti, Mauro Martini e Fabrizio Giovanardi. Para se ter uma ideia, a grande maioria do grid daquele ano encontrou vagas em categorias top sem grandes dificuldades. Sem experiência no meio de um monte de tubarões e utilizando um chassi claramente inferior ao Dallara F387, Giovanni apareceu em apenas seis corridas, obteve somente um pódio, marcou quatro pontos e terminou o ano em 15º.

Em 1988, Bonanno permaneceu na Fórmula 3 italiana. Ainda com o apoio da SC Lazio Oil, ele disputou quatro corridas com um Ralt-Alfa e não conseguiu um pontinho sequer. 1989 foi um ano melhor. Participando de onze corridas, o cidadão marcou dezoito pontos, subiu ao pódio duas vezes e finalizou a temporada na sexta posição. De quebra, obteve resultados razoáveis nas corridas internacionais de Fórmula 3 em Mônaco e em Misano.

Após três anos na Fórmula 3 italiana, Bonanno percebeu que não tinha outra escolha a não ser subir um degrau em 1990. O destino óbvio era a Fórmula 3000 internacional.

Sem problemas financeiros, Giovanni conseguiu encontrar facilmente um lugar na Pacific Racing, aquela mesma. O interessante da história é que o italiano não representaria a Pacific em si, mas uma subsidiária comandada por Andy Roche, a Becsport. Dessa forma, enquanto a “matriz” disputaria a Fórmula 3000 com Stéphane Proulx (que também já teve sua história contada aqui) e Marco Greco (que também poderá aparecer nestas bandas qualquer dia desses), a priminha menor Becsport teria seu único bólido conduzido por Bonanno.

Se a Fórmula 3 italiana já não era um campeonato fácil, a Fórmula 3000 era uma verdadeira pedreira. Entre os 32 inscritos para a primeira etapa de 1990, havia nomes como Damon Hill, Eddie Irvine, Heinz-Harald Frentzen, Erik Comas, Allan McNish, Gianni Morbidelli, Karl Wendlinger, Eric van de Poele e Fabrizio Barbazza. Para um cara como Giovanni Bonanno, que não foi exatamente espetacular na Fórmula 3, marcar meia dúzia de pontos em seu ano de estreia já seria o máximo.

giovannibonanno1990donington

Bonanno em sua corrida de estreia na Fórmula 3000, em Donington.

Para sua sorte, seu Lola-Mugen branco, amarelo e verde não era exatamente um carro fraco –com esse pacote, Erik Comas foi o campeão da temporada com um pé nas costas. Em Donington, Bonanno estreou obtendo o 22º lugar no grid de largada, deixando para trás gente como Hill (!) e Wendlinger. Na corrida, disputada em pista úmida, Giovanni não se meteu em enrascadas e terminou numa boa décima posição.

Sua atuação em Silverstone, palco da segunda etapa, foi melhor ainda. Bonanno obteve uma excelente 15ª posição o grid e não marcou pontos por muito pouco, finalizando na oitava posição. Infelizmente para ele, disputar o tradicional Grand Prix du Pau não foi possível: sem experiência em pistas de rua, o italiano fez apenas o 27º tempo na qualificação e não passou nem perto de conseguiu um dos 22 lugares no grid. Mas tudo bem, acontece nas melhores famílias.

O que não deveria acontecer era um acidente. E ele, desafortunadamente, aconteceu. Em Jerez, Bonanno surpreendeu a todos ao marcar um excepcional sétimo tempo no treino oficial, a apenas 1s4 do pole-position Erik Comas. Mas o dia da corrida não foi fácil para ele. Logo nos primeiros metros, um irresponsável Andrea Chiesa quase o colocou para fora da pista numa fechada digna de velha dirigindo um SUV. Graças à barbeiragem do rival helvético, Bonanno despencou várias posições ainda antes da primeira curva.

Tentando se recuperar, Bonanno acabou sofrendo ainda na nona volta um violentíssimo acidente que resultou em dois tornozelos destroçados. O negócio ficou tão feio que não lhe restou outra solução a não ser ficar de fora de algumas etapas da temporada de 1990.

Após dois meses de fisioterapia, remédios e encheção de saco, os tornozelos voltaram a ficar razoavelmente bons e Giovanni Bonanno decidiu disputar as etapas de Brands Hatch e Birmingham. Mas as coisas já não eram mais as mesmas. O preparo físico e a segurança mental haviam esvaído. E isso se refletiu no desempenho nas pistas. Em Brands Hatch, ele ainda conseguiu largar em 21º e terminar em nono. Nas ruas de Birmingham, nem a classificação para a prova ele obteve. O ideal era desistir do restante da temporada e descansar um pouco.

Bonanno em Brands Hatch, 1990

Bonanno em Brands Hatch, 1990

Após alguns meses em casa jogando Mega Drive, Giovanni Bonanno se viu livre de suas dores, seus hematomas e seus ossos trincados e considerou que estava pronto para voltar à ação. Em 1991, ele assinou um contrato com a equipe First Racing para tentar disputar, enfim, sua primeira temporada completa de Fórmula 3000. Abro um parêntese.

Muitos de vocês já ouviram falar da First Racing, aquela que arregou da disputa da Fórmula 1 em 1989 a apenas poucas semanas do início da temporada. As razões para a deserção são incertas e provavelmente nunc a saberemos a verdade: falam em simples insolvência financeira, em incapacidade de construir um carro seguro o suficiente e até em uma obscura picuinha entre o chefe Lamberto Leoni e o onipotente Bernie Ecclestone. No início dos anos 90, já conformada em ser apenas uma das melhores equipes da Fórmula 3000, a First foi vendida ao piloto suíço Jean-Dénis Délétraz, aquele mesmo. Inepto tanto na pilotagem como na administração, Délétraz conseguiu transformar a outrora duvidosa, porém sólida, escuderia em uma verdadeira piada de péssimo gosto.

O relacionamento entre Bonanno e a First não durou muito. Em Vallelunga, sede da primeira etapa, Giovanni obteve apenas a 22ª posição no grid de largada, um bocado atrás de seus companheiros de equipe Délétraz e Eric Hélary. E quase que ele nem conseguiu participar da corrida.

No warm-up (sim, até a Fórmula 3000 tinha isso lá no passado), o Reynard-Ford de Bonanno se descontrolou de forma brusca em uma das curvas mais rápidas de Vallelunga e atingiu a barreira de pneus em altíssima velocidade. O bólido ficou totalmente destruído, mas o piloto não quebrou nenhuma unha. Como Giovanni era o cara que pagava as contas da First, o patrão Délétraz decidiu emprestar seu próprio carro ao italiano e acabou não largando na corrida. Ainda baqueado por causa da pancada, Bonanno passou 25 voltas se arrastando no fim do pelotão até abandonar voluntariamente por não estar se sentindo bem.

Irritado, o piloto veio à imprensa da Itália e falou poucas e boas sobre a First Racing, reclamando da segurança do carro, da incompetência dos mecânicos, do motorhome e da comida. Jean-Dénis Délétraz não deixou barato e demitiu de forma imediata o piloto italiano, alegando que as críticas públicas mancharam a imagem de sua bela equipe e representaram, dessa forma, uma quebra de contrato. Começou aí a extenuante guerra entre Giovanni Bonanno e First Racing.

Em maio, ainda inconformado com as críticas, Délétraz entrou na justiça italiana exigindo algum ressarcimento por parte de Giovanni Bonanno. O piloto italiano, por outro lado, não só não estava disposto a ressarcir porcaria alguma como também exigia ele próprio uma compensação por ter sido demitido injustamente, o que poderia atrasar sua carreira no automobilismo. Um litígio daqueles, em resumo. E o quebra-pau obviamente acabou prejudicando os dois lados nas pistas.

O carro que Giovanni Bonanno destruiu em Vallelunga, primeira etapa da temporada de 1991 da Fórmula 3000

O carro que Giovanni Bonanno destruiu em Vallelunga, primeira etapa da temporada de 1991 da Fórmula 3000

No mês de junho, para evitar que os problemas legais afetassem a vida profissional de Giovanni, o papai Angelo Bonanno decidiu tirar o escorpião do bolso e torrou alguns bons milhões de liras para fundar sua própria equipe de Fórmula 3000, a BG F3000. Criada às pressas, a BG F3000 tinha uma estrutura pra lá de modesta: um único Reynard-Mugen, três mecânicos, o chefe de equipe Mario D’Ayala (ligado à turma da SC Lazio Oil) e o engenheiro Claude Rouelle (que chegaria a trabalhar na Fórmula 1 e na CART). Tudo ali obviamente giraria em torno de Giovanni Bonanno.

Enquanto isso, a First Racing sobrevivia aos trancos e barrancos. Em Mugello, a equipe quase não correu devido a uma ordem judicial que interditou todos os seus bens, incluindo o caminhão e os carros de corrida. Após alguns acordos meio desesperados, a First ainda conseguiu no último instante a liberação de dois bólidos para os pilotos Michael Bartels (que substituiu Bonanno a partir da segunda corrida) e Eric Hélary. O piloto-patrão Jean-Dénis Délétraz, no entanto, acabou não participando da corrida, pois teve de se encontrar com seus procuradores na Suíça.

A justiça italiana foi bacana com a First em Mugello, mas a caridade terminou ali. Em Enna-Pergusa, não houve telefonema que convencesse o juiz a liberar os equipamentos da escuderia. Dessa forma, Délétraz e amigos ficariam de fora das competições enquanto o problema com Giovanni Bonanno não estivesse encerrado, algo que ainda demoraria mais alguns bons meses.

Falando em Bonanno, e como estava a BG F3000? Não dava para dizer que ela se encontrava em situação tão melhor que a First Racing. Jerez foi a primeira corrida da pequena escuderia familiar. O filho de Angelo Bonanno largou em 23º e concluiu a corrida em 13º, uma volta atrás. A sequência de resultados, a partir daí, não foi muito encorajadora: abandono por problemas de dirigibilidade em Mugello, não-qualificação em Enna-Pergusa e abandono em Hockenheim por problemas de freios.

Bonanno só voltou a terminar uma corrida em Brands Hatch, onde foi 17º colocado após ter largado na última posição. Spa-Francorchamps foi o ponto alto da curta história da BG F3000, com Giovanni conseguindo largar numa ótima 14ª posição. A participação na corrida acabou na sétima volta devido a um problema no assoalho.

Depois de nova não-qualificação em Le Mans, a BG F3000 preferiu não competir em Nogaro, palco da etapa derradeira da Fórmula 3000 em 1991. Mas a guerra contra a First Racing ainda não tinha acabado. Já fora das pistas, tanto a First como a BG F3000 preferiram continuar competindo nos tribunais italianos. E lá, como cá, os trâmites não são tão rápidos assim.

Amanhã, a segunda parte da história.

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