Giovanni Bonanno e sua equipe familiar, a BG F3000

Giovanni Bonanno e sua equipe familiar, a BG F3000

Segunda parte da pequena biografia do piloto italiano Giovanni Bonanno. Onde eu parei? Ah, sim, na disputa judicial contra seu ex-patrão, o também piloto Jean-Denis Délétraz.

Em fevereiro de 1992, o juiz Piero Calabrò, do Tribunal Civil de Monza, deu seu veredito final acerca do caso: a protestante First Racing efetivamente prejudicou a carreira de Giovanni Bonanno, que não pôde disputar a temporada de 1991 da maneira que desejava e perdeu a oportunidade de mostrar seu talento de forma adequada às equipes de Fórmula 1. Calabrò ainda aproveitou o ensejo para confirmar aquilo que todos nós sabemos, a importância sociológica, econômica e cultural da Fórmula 3000:

Como é notório, o campeonato automobilístico internacional de Fórmula 3000 é considerado uma passagem quase obrigatória a qualquer piloto que almeja correr na Fórmula máxima. Dessa forma, além de se tratar de um grande evento de importância mundial, o campeonato em questão é fundamental para o desenvolvimento profissional e esportivo daqueles que tomam parte dele”.

Condenada, a First Racing foi obrigada a devolver o 1,2 milhão de liras que Giovanni Bonanno havia depositado em sua conta no início de 1991 e também teve de pagar a ele 400 milhões de liras como forma de reparação dos possíveis danos que o piloto teve em sua trajetória profissional, 17 milhões de liras como compensação referente à caução contratual depositada no início de 1991 e mais alguns milhares de libras para cobrir os honorários advocatícios de Bonanno. Em poucas palavras, o patrão Jean-Dénis Délétraz se ferrou gostoso. Ainda bem que ele é suíço e suíços são ricos de dar inveja.

A grana ajudou Giovanni Bonanno a voltar à Fórmula 3000 numa boa. Em 1992, o piloto e seu ex-chefe de equipe Mario D’Ayala se juntaram novamente e trouxeram a equipe SC Lazio Oil à categoria. A estreia da escuderia ocorreu somente na quarta etapa da temporada, em Enna-Pergusa. E este foi, talvez, o melhor momento de Giovanni Bonanno em sua carreira na Fórmula 3000.

Giovanni Bonanno em 1992

Giovanni Bonanno em 1992

Mesmo sem ter feito muitos testes, Bonanno surpreendeu a todos obtendo a quarta posição no grid de largada, batendo pilotos como Rubens Barrichello, David Coulthard e Olivier Panis. É verdade que seu carro, um Reynard-Ford, não era propriamente ruim. É verdade que o italiano era um dos pilotos mais experientes do grid. É verdade que Enna-Pergusa era uma pista que ele conhecia como a palma suada de sua mão. Mas o resultado foi legal de qualquer jeito.

É uma pena que a ótima qualificação não significou uma ótima corrida. Giovanni fez apenas cinco voltas antes de abandonar com problemas elétricos. Nas etapas seguintes, Bonanno notabilizou-se por fazer um trabalho razoável em treinos oficiais e provas muito ruins. Ele só conseguiu enxergar a bandeira quadriculada em duas ocasiões, Hockenheim (15º) e Spa-Francorchamps (8º). Em Nürburgring, a suspensão quebrou. Em Nogaro, o carro estava absolutamente inguiável. Em Magny-Cours, Alessandro Zampedri lhe fez o favor de tirá-lo da corrida na primeira volta. Em Albacete, não deu nem para largar.

Os números finais de Giovanni Bonanno na Fórmula 3000 não foram tão animadores. Em 21 corridas disputadas durante três anos, Giovanni conseguiu apenas um quarto lugar como melhor posição de largada e dois oitavos lugares como melhores resultados de chegada. Numa época em que nem mesmo vencedores como Andrea Montermini, Jean-Marc Gounon e Jordi Gené conseguiam subir para a Fórmula 1, não seria um cara que não marcou um pontinho sequer em três temporadas que encontraria portas abertas e tapetes vermelhos.

Mas o dinheiro e os bons contatos, estes sim, resolvem qualquer parada. Em dezembro de 1992, ninguém menos que Flavio Briatore, chefão da Benetton e um dos caras mais temidos de todo o automobilismo mundial, decidiu proporcionar a Giovanni Bonanno a possibilidade de experimentar um carro de Fórmula 1. Qual foi o elo de ligação entre Briatore e Bonanno? Grana é sempre uma boa resposta, mas a Benetton não era exatamente a equipe mais pobre do grid. Contatos? Hum…

O teste foi realizado em Silverstone. Chovia um bocadinho, aquela típica garoa britânica. O Benetton B192 era um carro bastante refinado, dotado de nariz-tubarão e motor de 615cv – uma verdadeira nave espacial perto de qualquer bólido de Fórmula 3000 que Giovanni Bonanno tenha pilotado. Com um brinquedinho tão rápido e uma pista tão traiçoeira, o piloto italiano teria o dever de não querer inventar demais para não fazer bobagens.

O famoso teste frustrado de Bonanno com a Benetton

O famoso teste frustrado de Bonanno com a Benetton

Só que não dá para esperar muito de um sujeito que nunca mostrou nada de espetacular em monopostos. Na sexta volta, Bonanno escorregou em uma curva, perdeu o controle de seu B192 e se espatifou com tudo nos pneus, destruindo por completo o carro. O italiano saiu ileso, mas a Benetton teve de reconstruir a máquina e se viu obrigada a adiar em vários dias o teste de outro jovem piloto que também experimentaria um carro de Fórmula 1 pela primeira vez, um tal de David Coulthard…

Após tantas desilusões e tantos acidentes, Giovanni Bonanno decidiu largar a mão de ficar torrando dinheiro para correr na Fórmula 1. Já em 1993, o cara não quis saber de correr de monopostos e preferiu se aventurar nas competições de carros de turismo na Itália.

Até aqui, não há nada de novo. Pilotos italianos existem aos montes. Pilotos que não repetiram nos monopostos o sucesso alcançado no kart também são numerosos. Pilotos que arranjam problemas com seus chefes de equipe também abundam por aí. Mas quantos pilotos comprovadamente ligados à máfia você conhece?

É bem possível que existam vários, talvez alguns até tenham conseguido chegar à Fórmula 1, nunca saberemos. O que é público e real é a tenebrosa conexão entre a família Bonanno e a máfia de Catania, uma das mais poderosas da região da Sicília Oriental.

O pai de Giovanni, Angelo, é um conhecido joalheiro romano que tinha alguns amigos de índole, no mínimo, altamente duvidosa. Um deles era Felice Cultrera, um catanense que enriqueceu gerenciando cassinos ao redor do mundo e traficando pedras preciosas extraídas de minas sul-africanas. Outro amigo importante era Jimmy Miano, chefão da máfia Cursoti, aliada da máfia de Catania. Contudo, o contato mais importante de Angelo Bonanno era Benedetto Santapaola, ninguém menos que o chefão da máfia de Catania até o final dos anos 90, considerado um dos homens mais perigosos da Itália em seu auge. Diga-me com quem andas e te direi quem és.

Benedetto Santapaola, chefão da máfia de Catania e um dos homens mais perigosos da Itália. E amigo do pai de Giovanni Bonanno.

Benedetto Santapaola, chefão da máfia de Catania e um dos homens mais perigosos da Itália. E amigo do pai de Giovanni Bonanno.

Angelo Bonanno, Felice Cultrera e Jimmy Miano fizeram um bem bolado que permitiu o financiamento de parte da carreira de Giovanni Bonanno na Fórmula 3000. Tudo começou no verão de 1992, quando Angelo convidou Francesco Finocchiaro, um grande empreiteiro de Catania, para almoçar na cidade espanhola de Marbella. O assunto do almoço? Negócios, obviamente.

Marbella é uma belíssima cidade praiana localizada no sul da Espanha. Seu prefeito entre os anos de 1991 e 2002 foi o folclórico Jesus Gil y Gil, uma espécie de Silvio Berlusconi ibérico. Populista, polêmico, politicamente incorreto, fanfarrão, egocêntrico, molecão, dono do Atlético de Madrid e de um monte de empresas, Gil y Gil não era exatamente uma unanimidade em seu país. Ainda assim, sua boca e sua personalidade não causavam tantos arrepios quanto seu círculo social. Diziam as más línguas que o sujeito costumava manter razoáveis contatos com mafiosos e até mesmo com velhotes nazistas…

Além de prefeito, Jesus Gil y Gil era um magnata dos mais abastados na Espanha. Em seu nome, havia uns bons milhares de metros quadrados em terrenos virgens em Marbella. Ao convidar o empresário Finocchiaro para um almoço de negócios lá no sul espanhol, Angelo Bonanno almejava propor a ele uma parceria que resultaria na construção de edifícios em parte desses valiosos terrenos pertencentes a Gil y Gil. O almoço foi realizado numa propriedade de Felice Cultrera.

O acordo era simples. Pelo direito de construir nos terrenos espanhóis, Francesco Finocchiaro deveria pagar 1,2 bilhão de liras a Angelo Bonanno e a Jimmy Miano. Esse tipo de pagamento é conhecido no linguajar das máfias italianas como pizzo: o empresário paga aos mafiosos uma grande quantidade de dinheiro e, em troca, os mafiosos oferecem “proteção”, um pleonasmo que apenas indicava que a máfia não atrapalharia os negócios e nem assassinaria o empresário ou qualquer um dos seus próximos. Em resumo, artigo 158 do Código Penal Brasileiro: extorsão.

Os mafiosos não são burros. Não dá para simplesmente movimentar 1,2 bilhão de liras de uma conta à outra, pois isso chamaria demais a atenção das autoridades. Angelo Bonanno e Jimmy Miano haviam pensado em tudo. Uma forma bastante sutil e interessante de maquiar este dinheiro é o patrocínio esportivo. E o beneficiado deste patrocínio seria exatamente Giovanni Bonanno. Dessa maneira, essa quantia de 1,2 bilhão de liras pingaria diretamente na conta do piloto italiano e ninguém jamais desconfiaria de nada. No caso de alguém perguntar, bastaria apenas responder que o generoso Francesco Finocchiaro quis ajudar um jovem talento do automobilismo italiano.

Marbella, a cidade espanhola onde o esquema da família Bonanno foi montado

Marbella, a cidade espanhola onde o esquema da família Bonanno foi montado

Não pensem que Giovanni Bonanno era apenas o garoto inocente e sonhador que recebia o dinheiro sujo sem se envolver diretamente no esquema. Para abrigar esse dinheiro, o próprio piloto criou duas empresas offshore, a Transmed Financial and Investment Holdings LTD, sediada na Irlanda, e a Urban Promotion, sediada em Mônaco. Ambas as empresas foram o destino da transferência que Francesco Finocchiaro efetuou a partir de uma conta do banco Credito Italiano.

O esquema parecia muito sofisticado e inteligente, mas logo foi detectado pela polícia italiana. Em janeiro de 1995, Francesco Finocchiaro foi convocado pela justiça para prestar depoimento sobre qual era a dele e de seus amigos. Para tirar o seu da reta, o empresário afirmou que havia sido obrigado a entrar no esquema, desculpa clássica. E também tentou não detalhar muito sobre o que estava se passando. A tática não funcionou. As autoridades começaram a emitir ordens de prisão para toda a galerinha do mal que estava chafurdada na tramoia.

Giovanni Bonanno não escapou do rigor da lei. Residente em Mônaco, o ex-piloto foi acusado de receptação e lavagem de dinheiro e acabou trancafiado numa cadeia na Itália. Angelo Bonanno, Jimmy Miano e Francesco Finocchiaro também foram presos por acusação de lavagem de dinheiro e, nos casos de Angelo e Miano, extorsão.

Mas não termina por aí. Angelo Bonanno, Jimmy Miano e Francesco Finocchiaro também respondiam por outra acusação. Muito mais grave, eu diria. Segundo o que consta, Angelo e Miano cobraram de Finocchiaro nada menos que 1 bilhão de liras para que a máfia não efetuasse ataques contra um centro de convenções construído pelo empreiteiro na Avenida África. Imagine o pai de um piloto de corridas por trás da possível destruição de uma das maiores construções de Catania. E você aí reclamando do Anthony Hamilton…

Pelo que consta, Giovanni Bonanno e amigos não ficaram muito tempo na cadeia. Atualmente, ele disputa corridas de rali e promove eventos relacionados ao motociclismo em seu país. Uma vida bem low profile. Não sei se ele ainda se envolve com coisas obscuras. A própria máfia italiana anda bem enfraquecida. Lavar dinheiro já não é tão fácil como outrora. Isso pode, talvez, explicar o porquê do automobilismo estar afundado na pindaíba.

P.S.: Antes de fechar o texto, encontrei por acaso um texto em italiano descrevendo o ótimo relacionamento entre Angelo Bonanno e um importantíssimo personagem da Fórmula 1. Isso daqui valeria outro post, mas não quero ficar mexendo em vespeiro… Então, adivinhem quem é o personagem (não é difícil) e procurem o texto!

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