Depois de Bathurst e de Sepang, a viagem dessa série segue para a China. Mas é um local um pouco diferente daquilo que estamos acostumados com relação à China. Vamos para Macau, província localizada no sul da ilha de Zhongshan que pertenceu ao território português por mais de 400 anos.

Apesar da península fazer parte da China desde 1999, a herança lusa permaneceu: embora quase ninguém fale português, e quem fala utiliza um dialeto completamente indecifrável para os ocidentais, a língua de Camões é uma das línguas oficiais de Macau. Ruas, igrejas e localizações em geral utilizam nomes portugueses e são escritas em alfabeto latino. Não por acaso, Macau é dividida em quatro “freguesias”: Sé, Nossa Senhora de Fátima, São Lázaro, Santo Antônio e São Lourenço. Lendo esses nomes, a impressão é de estar em Minas Gerais e não na Ásia Oriental.

Voltemos ao automobilismo, pois. Esta peculiar península possui o circuito mais tradicional da Fórmula 3 mundial, o Circuito da Guia, localizado na região sul. Desde 1954, Macau promove corridas de carro e moto como forma de promover a região e turbinar o turismo local. De certa forma, funciona: eu mesmo só conheço Macau por causa disso. Idem para muitos fãs de automobilismo.

Macau já sediou um bocado de corridas. Entre 1954 e 1966, apenas corridas de carros-esporte eram disputadas por lá. O negócio era meramente amador e atraía apenas aventureiros locais. A partir de 1967, o Circuito da Guia passou a receber maiores atenções: o piloto belga Mauro Bianchi inscreveu um Renault pela equipe oficial de fábrica e essa empreitada despertou interesses em outros pilotos e equipes europeus. Naquele ano, houve também a primeira corrida de motos.

De lá para cá, pouco mudou. O traçado literalmente é o mesmo, e apenas algumas atualizações na infra-estrutura são feitas de vez em quando. Não por acaso, os europeus sempre criticam a existência de um circuito tão perigoso e obsoleto. Criticam, mas correm lá todo ano, o que é curioso.

Entre 1961 e 1973, o evento principal era a Fórmula Libre. Entre 1974 e 1982, a Fórmula Pacific. Como estas categorias eram defasadas, o governo macauense decidiu trazer algo mais moderno. Pensou-se em Fórmula 2, mas acabaram por trazer a Fórmula 3. E desde então, é a principal categoria a competir no circuito. Os carros de turismo competem em Macau desde 1964 e, a partir de 2005, esta corrida passou a ser sancionada pela FIA ao ser integrada no calendário do WTCC.

Pra terminar o belo e extenso background histórico do circuito, o último vencedor da F-Pacific foi Roberto Moreno. O primeiro da F3 foi Ayrton Senna. Outros vencedores da corrida de F3 se consagraram no automobilismo: Michael Schumacher, David Coulthard, Jörg Müller, Ralf Schumacher, Takuma Sato, Lucas di Grassi e por aí vai.

TRAÇADO E ETC.

Ô circuito filho da puta, este de Macau. Perigoso, extremamente ondulado, estreitíssimo, completamente obsoleto… e fascinante! São 6,2 km de extensão e 19 curvas, algumas muito rápidas e algumas ridiculamente lentas.

Qual é o segredo dessa pista? Não há segredo, o negócio é sobreviver. E a graça da corrida de Fórmula 3 é essa: como os pilotos são completos cabaços narcisistas ávidos pelo sucesso, os acidentes e as presepadas são inúmeros. Há retas enormes que demandam pouquíssima asa, mas vá se meter a transformar seu F3 em um dragster para curvas como a Melco para ver o que acontece…

Outra graça do circuito: a diferença de relevo. São cerca de 30m entre o ponto mais alto e o mais baixo, o que pede um motor muito bem acertado para não perder o fôlego nas subidas. Ou seja, com retões, curvas variadas e alterações de relevo, o que mais pedir?

Trechos a serem destacados:

RETA DOS BOXES: Juro que tentei encontrar um nome melhor, mas não consegui. Essa reta, na verdade, é uma sequência de três retas separadas pelas curvas R, Hotel Mandarim e Hotel Lisboa. É a parte de alta velocidade, aonde os carros buscam o vácuo para a ultrapassagem na Hotel Lisboa. É também o trecho mais largo, chegando a 14m na segunda reta.

HOTEL LISBOA: Quem assiste ao GP de Macau espera o famoso engavetamento da curva Hotel Lisboa. É uma curva de 90º feita em velocidade relativamente alta aonde cabe apenas um carro mas que até três insistem em passar juntos, resultando nas confusões. 

SUBIDA DA SÃO FRANCISCO: É outro trecho ótimo para acidentes. Curva mais aberta e veloz que a Hotel Lisboa, possui uma estúpida barreira de pneus em seu ponto de tangência que leva a acidentes como os engavetamentos de 1996 e 2004. A partir daí, como o nome diz, inicia-se um trecho de subida.

CURVA MELCO: É a Loews macauense. Estou sendo bonzinho: é pior que a Loews. Curva lentíssima de largura de apenas 7m feita em primeira marcha aonde tocar o guard-rail é inevitável. 

Estou sendo injusto em não citar os esses de alta velocidade e a curva da Maternidade. Mas aí eu teria citado o circuito inteiro. O que não seria absurdo: Macau é um desafio por completo.

Rodolfo Ávila em 2006.

O ano está errado. Isso daí aconteceu em 1996. Legal, né?

Chega a ser irônico que, depois de Bathurst, a segunda pista a ser elogiada por mim tenha realizado sua última corrida importante no domingo passado. Para alguns, chega a ser provocação também, um tremendo de um anticlímax. Afinal de contas, como pode a imponente e histórica Bathurst ser sucedida por uma pista tão artificial, tão pós- moderna, tão… asiática?! Mas o Calendário do Verde deve continuar e vamos falar um pouco do Sepang International Circuit.

Pode-se dizer que Sepang é um marco na história dos circuitos. Até então, os autódromos eram pensados para a competição na pista e vários deles tinham enormes deficiências nos boxes, nas arquibancadas, na segurança ou na infra-estrutura como um todo. O autódromo malaio, construído em tempo recorde de 14 meses e inaugurado em Março de 1999, chamou a atenção de todos por sua infra-estrutura impecável: 33 boxes amplos, excelente infra-estrutura de acesso, arquibancadas suntuosas para 130 mil pessoas, asfalto de primeira e por aí vai. Infelizmente, a partir daí, surge uma tendência de autódromos caríssimos e impecáveis que realizam corridas monótonas. E Sepang acabou ganhando uma injusta fama de “pista para inglês ver”.

Outra novidade era a assinatura de Hermann Tilke, o arquiteto alemão que passaria a ser responsável pelo desenvolvimento da grande maioria dos grandes autódromos ao redor do mundo a partir daquele momento. A única credencial prévia de Tilke era a remodelação do antigo Österreichring, transformado no interessante porém morno A1 -Ring. Dessa vez, Tilke não seria o algoz e sim o criador.

O circuito, localizado a 85 quilômetros do centro de Kuala Lumpur, recebe corridas de Fórmula 1 desde 1999. Porém, várias outras categorias já competiram por lá: GP2 Asia, MotoGP, A1GP, Speedcar, F-Nippon, Super GT e por aí vai.

TRAÇADO E ETC.

Mas o que essa porra tem de especial?

Pra começar, destaco a largura do traçado. No seu trecho mais estreito, são 16 metros. No mais largo, 22 metros. Na teoria, dá pra ter até seis carros emparelhados nas retas com certa distância. A largura extra possibilita também uma flexibilidade maior no traçado contornado pelo piloto: ele não precisa manter uma linha única para segurar uma posição, por exemplo. Por outro lado, o piloto que vem atrás dispõe de vários caminhos para tentar uma ultrapassagem. Não por acaso, o circuito de Sepang é um dos circuitos que mais permitem ultrapassagens na hermética Fórmula 1.

Outro destaque que costuma passar desapercebido: o número de curvas cegas. Mais abaixo, você pode ver a câmera onboard no carro do Felipe Massa em 2008. Repare que as curvas não aparecem de maneira tão explícita, mesmo em relevo plano. Até enumero as quatro curvas com menor campo de visão: segunda perna à esquerda da Pangkor Laut, Langkawi, Kenyir Lake e Sunway Lagoon. E mesmo alguns outros trechos, como a KLIA, não possuem 100% de visibilidade. Ou seja, o piloto tem de ter visão apurada para não errar o traçado.

No mais, é um circuito de alta velocidade no qual os carros chegam a ultrapassar os 210km/h de média. São oito retas e quinze curvas, a maior parte delas de raio médio ou longo e de média ou alta velocidade. Enfim, é algo completamente diferente do estereótipo reta-cotovelo-reta-miolo das pistas mais modernas do Tilke.

Trechos mais importantes:

KUALA LUMPUR STRAIGHT: Retão de 927m aonde ocorre a largada. Com 22 metros de largura, é local para pegar o vácuo, emparelhar e ultrapassar na primeira curva.

PANGKOR LAUT: A primeira curva do circuito malaio, na verdade, é um complexo de duas curvas. A primeira é relativamente plana e feita à direita. A segunda perna, em descida, é feita à esquerda. Nessa parte, o piloto deve frear forte e buscar o traçado mais colado à zebra no lado interno. Há uma pequena depressão nessa segunda perna que faz as rodas esquerdas saírem um pouco do chão.

LANGKAWI: A curva mais fechada do circuito. Feita à direita, ela é localizada em um aclive e por isso, nem sempre é possível acertar o traçado a ser feito, especialmente se o carro não tiver freios bons ou sair demais de frente. Ponto de ultrapassagem.

KENYIR LAKE e SUNWAY LAGOON: Ao meu ver, são os pontos mais interessantes do circuito. Ambas são sequências de duas curvas feitas à direita. Nos dois casos, a primeira curva é de desaceleração e a segunda, mais fechada, requer uma boa freada. Mesmo planas, ambas são cegas.

PENANG STRAIGHT: O outro retão, oposto à reta dos boxes. É onde se inicia a tentativa de ultrapassagem que deverá ser completada na curva dos boxes. Quem tem um carro desequilibrado sofre para completar essa curva.

Um campeão de qualquer coisa esportiva é um indivíduo notável. Um bicampeão é mais notável ainda. E um multicampeão? Na teoria, deveria ser um indivíduo lembrado por várias gerações como alguém que estabeleceu um domínio massacrante sobre seus concorrentes, que tentavam, sem sucesso, acabar com seu império. Vários são assim: Michael Schumacher, Valentino Rossi, Sebastien Loeb… porém, no automobilismo, nem todos obtém a fama e o reconhecimento pelo seu domínio avassalador, seja por correrem, ou terem corrido, em categorias de reconhecimento limitado ou em categorias não tão altas ou midiáticas do automobilismo. Mas o Bandeira Verde é um lugar onde todos tem espaço! Cinco multicampeões que não recebem o reconhecimento que merecem.

5- SATOSHI MOTOYAMA – Fórmula Nippon

Motoyama em 2002

Um japonês na lista pode parecer um tanto curioso para mentes mais fechadas. O caso é que na Terra do Sol Nascente os pilotos são ídolos, não importando se é o campeão ou o último colocado. O fanatismo explode quando falamos de um piloto japonês multicampeão.

Satoshi Motoyama é o maior campeão da F-Nippon, a categoria de monopostos mais importante do automobilismo japonês, tendo obtido trunfos em 1998, 2001, 2003 e 2005. Entre 1998 e 2007, ele nunca ficou abaixo do 6º lugar no campeonato. E ao contrário do que você poderia pensar, a F-Nippon é uma categoria altamente competitiva na qual muitos pilotos fazem carreira profissional por lá. Os quatro títulos de Motoyama são bastante notáveis.

Até mesmo a Fórmula 1 deu uma colher de chá a ele. A Jordan o chamou para ser o terceiro piloto nos treinos livres de sexta-feira da corrida japonesa de 2003. Meses depois, a Renault o chamou para fazer um teste na Europa. Sinal de que o cara era minimamente respeitado.

4- GABRIEL FURLAN – Fórmula 3 Sul-americana

Furlan em 1994, ano de seu segundo título

Baixinho e bastante marrento, Nestor Gabriel Furlan é o piloto argentino de mais sucesso desde Carlos Reutemann. Exagero? A conferir.

Furlan foi o terror da F3 Sul-americana no final da década de 80, durante toda a década de 90 e mais o início da década. Na categoria, foi campeão quatro vezes: 1989, 1994, 1996 e 1998. As pessoas podem estranhar o fato de um indivíduo competir por tanto tempo na Fórmula 3. Explico.

Gabriel era considerado um piloto de muito futuro na Argentina. Antes da F3, ele tinha sido campeão da Fórmula Renault local em 1986. Depois do primeiro título na F3, Furlan se mandou para a Europa para fazer a Fórmula 3 Italiana e, depois, a Fórmula 3000 Internacional. Mas faltou dinheiro e ele teve de voltar para a América do Sul. E acabou fazendo sua carreira aqui.

Não torça o nariz. O cara não ganhou um monte de títulos apenas por ter corrido mais de dez temporadas na categoria. Furlan era inteligente, extremamente técnico e muito agressivo. Os jovens pilotos brasileiros morriam de medo de enfrentá-lo. Alguns deles viraram verdadeiros desafetos do argentino, como Hélio Castroneves e Leonel Friedrich. Hoje em dia, é piloto do TC2000, mas sem tanto sucesso.

3- INGO HOFFMANN – Stock Car V8

Ingo em... não tenho certeza do ano. 2008?

Ingo Hoffmann? Como assim? Qualquer imbecil que acompanha corridas de carro com um certo afinco sabe da existência dele!

Argumento que Ingo pode ser muito conhecido aqui no Brasil, mas é ignorado em outros países, o que é natural devido ao âmbito local da Stock Car V8. Na Europa, berço dos jornalistas mais especializados em automobilismo do mundo, ele é lembrado no máximo como um dos muitos backmarkers da F1 nos anos 70. E mesmo aqui no Brasil, ele não é tão conhecido como deveria. Por fim, eu precisava completar o Top Cinq e Ingo era a escolha natural!

Não me lembro de nenhum indivíduo que tenha vencido mais títulos do que Ingo Hoffmann em categoria nenhum do mundo. Se algum leitor souber, manda um aviso. O paulista descendente de alemães venceu nada menos que 12 vezes a categoria mais tradicional do automobilismo brasileiro. Conte comigo: 1980, 1985, 1989, 1990, 1991, 1992, 1993, 1994, 1996, 1997, 1998 e 2002. São 76 vitórias na categoria e outras 26 em outras categorias nacionais.

Sim, era pro cara ser mais conhecido. Tanto fora como dentro do Brasil.

2- MARK SKAIFE – Australian V8

A indefectível dupla Mark Skaife e Holden

Esse poucos conhecem aqui no Brasil. Mas é um monstro na Austrália, de ter fã-clube e tudo.

Mark Skaife é talvez o piloto de maior sucesso da história do automobilismo dos cangurus. O destaque vai para seus cinco títulos no Campeonato Australiano de Turismo, renomeado V8 Supercar em 1999. O primeiro foi obtido em 1992, quando ele ainda corria na Fórmula 3 local. Depois disso, vieram outros quatro em 1994, 2000, 2001 e 2002. A parceria entre Skaife e a Holden Racing Team, iniciada em 1998 e terminada dez anos depois, foi célebre.

Mas não foi só isso. Skaife foi campeão da F3 local por três anos, entre 1991 e 1993. Em 1992, ele fez sua única incursão à Europa quando foi fazer as duas últimas corridas do Internacional de Fórmula 3000 substituindo Allan McNish. Ninguém deu muita bola a ele. Não sabem o que perderam.

1- STÉPHANE PETERHANSEL – Rali Dakar

Peterhansel e sua Yamaha na edição de 1989

Um cara que ganha um Rali Dakar merece total respeito. Um cara que ganha NOVE vezes o Rali Dakar merece uma estátua na frente de casa. Esse é Stéphane Peterhansel.

Li uma entrevista do Stéphane em uma Veja de 1989. O cara é aventureiro nato, não suporta a vida pacata e rotineira de um cidadão comum. Seu negócio é arriscar sua vida e, de preferência, fazer um trajeto perigoso e inóspito em um tempo menor que o resto. E ele faz isso com perfeição. Só andando com uma moto Yamaha YZE850T, ele foi campeão seis vezes: 1991, 1992, 1993, 1995, 1997 e 1998. Enjoado das motos, pulou para um Mitsubishi Pajero e venceu três vezes: 2004, 2005 e 2007.

Estamos falando do Rali Dakar, cara. Um rali que dura quase um mês e que passa por um monte de perigos, matando ou ferindo vários pilotos a cada edição. Eu olho pra isso e vejo que F1 e coisas do tipo são para mocinhas. Cabra macho mesmo é o Peterhansel.

Fiscais de pista cuidadosos, os de Paul Ricard. Simplesmente se uniram e viraram o March capotado sem o menor cuidado com o pobre Mauricio Gugelmin. Com um pouco mais de azar e o pescoço do cara vai pro espaço. Mas pra um autódromo que deixou Elio de Angelis morrer da maneira que morreu…

Quanto ao Gugelmin, ele saiu do carro, voltou correndo aos pits, trocou meia dúzia de palavras com Srta. Stella Gugelmin, outra meia dúzia de palavras com Ian Philips, entrou em um GC891 reserva novinho em folha, veio para a segunda largada e ainda marcou a melhor volta da corrida, a única de sua carreira!

Vídeo do acidente e do primoroso e exemplar procedimento dos fiscais de pista:

Hoje, começa a nova série do Bandeira Verde: a cada dia, serão apresentadas 22 pistas que este escriba considera sine qua non para o automobilismo. De alguma maneira, seja pelas corridas proporcionadas, seja pelos desafios de pilotagem, seja pelo visual ou por alguma outra coisa, elas são únicas. A lista de pistas apresentadas está aqui e é óbvio que todo mundo discordará de alguma coisa. Mas eu não ligo para democracia e serão essas daí mesmo.

O primeiro circuito é australiano. Começo com o Mount Panorama Circuit, conhecido simplesmente como Bathurst. Bathurst? Sim, é o nome da montanhosa cidade de 29 mil habitantes localizada no estado de New South Wales aonde é localizado o circuito. O Mount Panorama é um morro de dimensões relativamente consideráveis que era utilizado pela tribo Wiradjuri para observar os viajantes que atravessavam a região séculos atrás, e não por acaso seu nome tribal é “Waluu”, que significa “observar”.

Em meados dos anos 30, Bathurst era comandada por um prefeito, Martin Griffin, que adorava corridas e que vislumbrava a possibilidade de utilizar as ruelas que subiam o morro para fazer corridas. Faltava dinheiro, graças à Grande Depressão, mas sobrava disposição. Em Março de 1938, o prefeito inaugurou o Mount Panorama Circuit, um circuito de rua que completava um percurso de subida e descida de montanha. O traçado utilizaria ruas normais de bairros residenciais e estradas de bairros rurais e, em dias normais, os pacatos bathurstianos saiam e voltavam para casa utilizando aquilo que seria um dos circuitos mais lendários do automobilismo. A primeira corrida, o Australian Tourism Trophy, reuniu 20.000 pessoas.
 
O circuito foi um sucesso e, desde 1963, ele realiza a Bathurst 1000, a corrida mais tradicional na Austrália. É uma competição de 1.000 km realizada durante todo o mês de Outubro que durante esses mais de 40 anos era disputada por carros de produção, grupo A, grupo C e, hoje em dia, carros do campeonato australiano de Turismo V8. São as 24 Horas de Le Mans locais e o piloto que vence em Bathurst entra para a história local e até mundial.

TRAÇADO E ETC.

Vamos à realidade nua e crua: Bathurst é um circuito muito melhor para pilotar do que para ver corridas. O circuito, de 6,213 km, é estreito e tem muros colados à pista separados apenas por finas faixas de grama. As ultrapassagens por lá são muito difíceis, ocorrendo mais no final dos dois retões. Em termos, Abu Dhabi é melhor para isso do que Bathurst. A graça do circuito existe, definitivamente, para quem dirige. E para quem aprecia o automobilismo além das ultrapassagens.

O traçado é veloz, composto por retas e curvas estreitas, porém de raio longo. Nestas curvas, como são bastante estreitas e com muros colados à pista, é difícil utilizar um traçado que não o ideal. O diferencial de Bathurst é ser um circuito montanhoso, com desnível de 174 metros entre o ponto mais baixo (reta dos boxes) e o mais alto (Frog Hollow). Como há subidas, motor é importante, mas é impossível fazer um carro que ande apenas em reta sabendo da existência de trechos como os Esses e a The Cutting.

Os pontos a serem destacados:

MOUNTAIN STRAIGHT: É um ladeirão, falando em termos literais.

THE CUTTING: Todo mundo fala da curva 8 da Turquia, mas acho isso daqui mais legal. É uma sequência de duas curvas à esquerda, sendo que a segunda é bem mais lenta que a primeira. Você sai de uma pequena reta e começa desacelerando na primeira curva. Na segunda, é uma freada forte de fato. Quer mais? Lembre-se que o muro é colado à pista, então qualquer erro no tangenciamento é batida na certa. Quer mais? Tudo isso em subida.

FROG HOLLOW: O ponto mais alto do circuito. A partir daí, uma descida bem rápida.

THE ESSES: Um dos trechos mais bonitos do mundo, ao meu ver. Uma sequência impressionante de seis zigue-zagues em descida de fazer corar um Lewis Hamilton. Os pilotos tendem a tentar contorná-los com o traçado mais reto possível, mas sempre é necessário fazer movimentos ao volante para corrigir a direção do carro. Se dá melhor quem consegue completar as seis curvas sem desacelerar e sem movimentar tanto o volante. Não dá pra errar, pois o muro está sempre ali.

THE DIPPER: É a curva preferida de muitos. Logo depois dos Esses, é uma curva fechada de média velocidade à esquerda com um desnível que faz o carro sair do chão por alguns momentos. O piloto não pode andar muito devagar, mas também não pode ir muito rápido, pois o desnível pode mandá-lo para o muro. O nome “dipper” vem de uma espécie de depressão que existia na curva desde os primórdios antes de reformas feitas no circuito há algum tempo.

THE CHASE: Curva criada recentemente para cortar a velocidade da reta Conrod. Um ótimo teste para freios.

Alguns caras fizeram fama em Bathurst. Um deles é Mark Skaife, uma espécie de Ingo Hoffmann australiano, multicampeão do Australian V8 que venceu por cinco vezes em Bathurst. Mas nada se compara a Greg Murphy, dono do recorde do circuito, 2m06s8594, feito no Top Ten Shootout de 2003. Fiquem com o vídeo da volta:

É isso mesmo. Pequena equipe que disputou a GP2 até o ano passado, a italiana Durango Corse será uma das candidatas à 13ªvaga da Fórmula 1 em 2010. É o Autosport que está dizendo.

O projeto da Durango é antigo. Ela existe desde 1980 e compete em monopostos de alto nível desde 1993, quando estreou na Fórmula 3000. Lá pelos idos de 1995, quando ainda não passava de uma equipe mixuruca na F3000, ela contratou Enrique Scalabroni (o projetista oficial das equipes natimortas) para fazer um projeto para a Fórmula 1. Faltou dinheiro e a idéia foi arquivada. Quinze anos depois, a Durango volta a sonhar com a categoria máxima.

Se a Campos, que era uma das grandonas da GP2, sofreu um bocado, o que garante que a Durango obteria mais sucesso?

Para 1995, Flavio Briatore, querendo colocar seu pupilo na recuperação, arranjou uma vaga na pequena Simtek. Não parecia ser a melhor coisa do mundo, mas o S951 representava uma notável evolução com relação ao fraco e destrutivo carro anterior. Ele tinha um calcanhar de aquiles: o câmbio, que quebrou nas primeiras etapas. Uma delas, o GP da Argentina, foi sensacional.

Verstappen largou em um milagroso 14º, fez um excelente arranque e saiu por aí a ganhar posições como um doido, principalmente em cima da Ferrari de Gerhard Berger. Ainda no começo da corrida, chegou a estar em uma absurda 6ª posição, algo impensável para a Simtek até pouco tempo antes. Mas infelizmente, a merda do sistema de transmissão falhou justamente quando ele estava nessa posição. Nas corridas seguintes, a Simtek se portou relativamente bem nos treinos, mas sempre falhou em corrida. Além disso, as finanças da equipe iam muito mal. Após a corrida de Mônaco, a equipe disse que não ia para o Canadá e para mais lugar algum. E Jos, novamente, ficava a pé.

O holandês se desvencilhou de vez da Benetton e foi encontrar um lugar na Arrows para 1996. A equipe era pequena e pobre, mas teria um bom reforço de caixa com os patrocinadores de Verstappen, como a Philips Car Stereo. Com a diminuição do grid e com a melhora do carro de um ano para outro, Jos até que conseguiu se destacar em 1996, fazendo bons treinos (superou seu companheiro Ricardo Rosset em todos eles) e novamente uma corrida milagrosa na Argentina: sétimo no grid e sexto na corrida. O único grande revés foi um acidente espetacular em Spa-Francorchamps, no qual seu carro bateu em altíssima velocidade na Stavelot e Verstappen saiu vendo estrelas de dentro do carro.

O problema era que ele vinha se estabelecendo como um piloto de equipes pequenas, e ninguém mais dava importância ao seu talento. Em 1997, ele foi contratado pela Tyrrell para ser companheiro de Mika Salo, parada dura para o holandês. O Tyrrell 025 era uma bosta, lento e muito feio. No fim do campeonato, o finlandês se saiu ligeiramente melhor e ainda marcou dois pontos. Porém, Verstappen teve algumas atuações excelentes, como na Argentina (de novo!). Para 1998, era esperado que ele seguisse na equipe, mas a grana de Tora Takagi e Ricardo Rosset falaram mais alto e Jos sobrou. De novo!

Verstappen ficou de fora do começo da temporada de 1998. Enquanto ele voltava à Benetton para fazer uns bicos como test-driver, a Stewart demitia Jan Magnussen por sua falta de performance e pelo seu péssimo hábito de fumar e comer Big Mac (sério!), chamando Jos para entrar no seu lugar. Foi um ano virtualmente nulo: o carro era muito lento, pouco confiável e Verstappen, que sempre se saía melhor em treinos, não pode fazer nada a não ser terminar três corridas.

Para 1999, novamente, ele não encontrou uma vaga de titular. Sua condição de “supersub” da Fórmula 1 já começava a incomodá-lo. Mas tudo indicava que isso acabaria: a Honda, com toda a sua história e seu dinheiro, pretendia retornar à Fórmula 1 em 2000 com equipe própria. E Jos Verstappen acabou sendo chamado para ser o piloto que desenvolveria o projeto. Como prêmio, na temporada de estréia da equipe, ele seria o primeiro piloto. Tudo muito bonito.

E a Honda, de fato, colocou um carro, o RC99, para testes no primeiro semestre de 1999. Verstappen participou de várias sessões ao lado de pilotos de outras equipes em circuitos como Jerez e Barcelona e os tempos foram bastante razoáveis. Tudo parecia bastante promissor, mas o projetista Harvey Postlethwaite morreu vítima de ataqe cardíaco fulminante e a Honda, diante disso, decidiu de súbito abortar o projeto. E o sonho de Verstappen ser titular de uma boa equipe acabou mais uma vez. Voltando à sua enfadonha rotina de test-driver, ele foi fazer testes na Jordan.

Sem grandes escolhas, Verstappen acabou aceitando um segundo convite da Arrows para ser segundo piloto de Pedro de la Rosa na temporada 2000. A equipe, porém, tinha dois interessantes trunfos: o motor Supertec e um chassi, o A21, que calhou de ser muito eficiente em pistas velozes. O holandês teve performances fantásticas, a destacar por Nurburgring (andou lá na frente e brigou com a Ferrari de Barrichello antes de bater forte), Montreal (quinto lugar) e Monza (quarto lugar após ultrapassar vários concorrentes e andar em terceiro). Infelizmente, o A21 era muito pouco confiável e Jos não fez mais do que cinco pontos. Porém, ele conseguiu convencer mais do que seu companheiro De La Rosa. E pela primeira vez em sua carreira, ele renovaria o contrato com uma equipe, seguindo na Arrows em 2001.

Infelizmente, o motor Supertec foi embora e no lugar, a equipe teve de utilizar o Asiatech, que nada mais era do que um fraco, explosivo e beberrão Peugeot recondicionado mas que custava barato. Evolução do A21, o A22 era um chassi que até aguentava o tranco, mas a temporada foi difícil. Verstappen teve ótimas atuações e vou destacar algumas, que merecem citações à parte.

Na Malásia, Verstappen fez aquilo que eu considero “a melhor largada de um piloto na história da categoria”. Com um motor bem fraco, o holandês arriscou tirar toda a asa do carro para ter um foguete na reta. E deu certo: largando em 18º, ele completou as duas curvas utilizando o traçado mais retilíneo possível, ganhando dez posições. Some-se isso com as rodadas de Ralf Schumacher e Irvine e Verstappen se achou na 6ª posição após duas curvas! Depois disso, ele mostrou personalidade ao andar boa parte da corrida em segundo e ao reagir a ataques de pilotos como Heinz-Harald Frentzen e Mika Hakkinen. Com uma parada a mais para fazer, ele terminou em sétimo e não marcou pontos devido ao regulamento da época. Injusto.

Na Áustria, ele voltou a andar lá na frente e brigou com as Ferrari e Coulthard no começo da corrida. Em determinado momento, chegou a ocupar a segunda posição. Dessa vez, ele terminou em sexto e marcou o único ponto da equipe na temporada. No Canadá, ele voltou a andar muito bem e estava em sexto a duas voltas do fim da corrida quando seu carro teve problemas de freios e Verstappen foi com tudo aos pneus. O restante do ano foi discreto, com um carro que só se tornava defasado com relação aos outros. De quebra, Verstappen ainda causou mal-estar na equipe ao criticar seu companheiro Enrique Bernoldi. Como Bernoldi era “broda” de Tom Walkinshaw, o capo da Arrows decidiu, à sua maneira, quebrar o contrato que tinha com o holandês para 2002 e mandá-lo para o olho da rua. E novamente, ele ficou desempregado.

Jos Verstappen ficou procurando emprego durante o ano de 2002 e depois de rápidos flertes com a Toyota e com a Jordan, acabou se acertando com a Minardi. Não era o que ele queria, mas fazer o quê? Com um carro defasado, mal-testado e finanças apertadas, o holandês não fez absolutamente nada naquele ano. Só chamou a atenção por bater nos treinos oficiais de Imola e por andar relativamente bem em Montreal, ao largar em 15º e terminar em 9º depois de mostrar arrojo com um carro que mal fazia uma curva. E Verstappen, irritado, criticou a equipe no fim do ano, dizendo que todos eram incompetentes. Não dava pra continuar, era melhor ficar desempregado.

Para 2004, Verstappen bateu à porta da Jaguar pedindo um emprego e recebeu um “não”. Na Jordan, ele quase conseguiu um acordo para ser segundo piloto e chegou até a moldar um banco. Mas o dinheiro de Giorgio Pantano tirou seu lugar aos 44 do segundo tempo e, assim, acabou a saga do holandês na Fórmula 1. Ele, um piloto agressivo e pirotécnico, saía pela porta dos fundos sem ser notado.

É óbvio que sempre aparecia um boato com o seu nome, como sua participação no GP da Bélgica de 2007 com a Spyker ou sua contratação pela Lotus para 2010, mas ele preferiu se dedicar a outros afazeres. Entre 2005 e 2006, fez a A1GP pela equipe da Holanda e conseguiu uma vitória histórica em Durban após largar de 16º. Era sua primeira vitória em 12 anos, o que tornava o feito ainda mais impressionante. Porém, mais uma vez, ele se desentendeu com sua equipe devido a problemas salariais e acabou desistindo da A1. Desde 2008, ele vem correndo na Le Mans Series e até foi campeão da categoria LMP2 no seu primeiro ano!

Verstappen vem mantendo nos últimos anos um perfil low-profile, mas continua mercurial tanto dentro como fora as pistas. Recentemente, o holandês quase foi preso pela acusação de ter agredido sua esposa Sophie, uma baixinha que pilota karts muito bem. Além do mais, sua fama na própria Holanda é muito ruim: as pessoas o têm como um indivíduo extremamente arrogante. Digo o seguinte: deve ser uma merda você ter talento, saber que tem talento mas nunca ter uma oportunidade decente e ainda ter de sorrir para os outros.

Potrero de los Funes, que beleza...

Bernie Ecclestone disse que algumas corridas do atual calendário vão acabar. Está aqui. O capo da Fórmula 1 quer corridas de rua em Nova York e na Rússia. Somem-se a elas as já confirmadas corridas na Índia e em um circuito citadino em Roma, consideremos o limite de 20 corridas por ano e temos uma simples constatação matemática: há mais corridas do que o calendário permite. Isso porque até daqui a dois anos, alguma outra pista de rua surgida no meio do Azerbaijão ou da cidade de Praga pode aparecer.

Logo, alguém sobra. Quem? Sepang, a outrora moderníssima Sepang, vem precisando de reformas. Istambul tem sérios problemas de logística. Silverstone idem, e ainda tem a velha briga do Bernie com o BRDC. Outras pistas que já foram colocadas em cheque nos últimos anos, por algum motivo, são Spa-Francorchamps, Valência, Sakhir, Shanghai, Monza e por aí vai.

Desse modo, o calendário tende a se tornar um pacote de pistas de rua em cidades turísticas ou de megaautódromos localizados em economias emergentes. A Fórmula 1, que tendia ao ecletismo ao abrir-se para a Ásia e a Oceania, tende a renegar rincões tradicionais e o que era considerado “eclético” passa a não ser mais, só que dessa vez com a polarização na Ásia.

Vou exercitar meu lado Bernie Ecclestone e fazer o que eu chamaria de “meu calendário dos sonhos”. Se Bernie quer 20 corridas, eu quero 22, ignorando o descanso dos convivas do paddock. Durante os próximos dias (meses? anos?), vou explicar o porquê dessas pistas, uma a uma. Cada uma está no calendário por alguma peculiaridade e acho todas elas indispensáveis, mesmo que algumas delas só ofereçam corridas chatíssimas.

A ordem das pistas segue uma lógica geográfica. Inicia-se na Oceania, depois segue para a Ásia, Oriente Médio, Europa, América do Norte, América do Sul e termina na África. Em parênteses, a versão da pista que mais me agrada.

Bathurst (atual)
Sepang (atual)
Macau (atual)
Suzuka (1983)
Istambul (atual)
Hungaroring (1989)
Nürburgring Nordschleife (1967)
Österreichring (1977)
Enna-Pergusa (1975)
Le Mans Sarthe (1987)
Valência Street Circuit (atual)
– Spa-Francorchamps (1947)
– Brands Hatch (1976)
– Knockhill (atual)
– Montreal (1995)
– Watkins Glen (1975)
– Daytona oval
– Laguna Seca (atual)
– Hermanos Rodriguez (1986)
– Interlagos (1940)
– Potrero de los Funes (atual)
– Kyalami (1967)


Eu sei que vocês podem se assustar com a ausência de circuitos como Mônaco, Monza e Silverstone. Mas fazer o quê? Gosto é gosto e o do escriba é excêntrico. Amanhã, começo com Bathurst.

Nos anos 90, havia um cara lá no meio do grid que costumava animar as corridas. Umas duas vezes por ano, ele aparecia nas transmissões televisivas como aquele showman que carregava um carro precário nas costas lá para as primeiras posições ou como aquele showman que se safava dos acidentes mais impressionantes. Muitos gostavam dele e muitos o achavam um tremendo de um picareta. Eu estou no grupo do meio, mas reconheço que Johannes Franciscus Verstappen, ou simplesmente Jos Verstappen, era um dos meus pilotos preferidos. É a primeira vez que faço uma homenagem a um piloto nesse blog, e escolho Jos The Boss, o piloto holandês mais expressivo da história da Fórmula 1.

Verstappen nasceu na minúscula cidade de Montfort no dia 4 de Março de 1972. Estimulado pelo seu pai Frans, Jos começou a correr de kart aos 8 anos. E sua trajetória foi simplesmente impecável: campeão holandês em 1984 e 1986, campeão europeu em 1989 em duas categorias (Formula K e Intercontinental A) e campeão belga em 1991. Até aí, tudo bem, muitos kartistas são verdadeiros amontoados de títulos. No final de 1991, o cara foi chamado para testar um Fórmula Ford datado de 1985 no circuito de Zandvoort. Lá estavam seu pai e Huub Rothengatter, ex-piloto de Fórmula 1 que empresaria pilotos. Os tempos são impressionantes e Verstappen deixa o autódromo com um contrato com Rothengatter e o patrocínio da Marlboro.

Para 1992, Jos estrearia nos monopostos lá na Fórmula Opel Lotus realizada no Benelux (Bélgica, Holanda e Luxemburgo). E logo em sua temporada de estréia, Jos venceu 5 das 6 corridas e levou seu primeiro título para casa. De quebra, ele deu um pulo em Zolder para disputar a etapa dupla da Opel Lotus européia. O saldo: duas largadas e duas vitórias. No começo de 1993, ele ainda faz algumas etapas na Fórmula Atlantic neozelandesa e, sem conhecer o carro, venceu três corridas. O cara era um fenômeno.

Verstappen na F-Opel Lotus Benelux

Em 1993, Verstappen é chamado para correr na Fórmula 3 alemã pela WTS, ex-equipe de Michael Schumacher e a melhor da categoria. Depois de um começo discreto, o alemão vence oito etapas, termina outras cinco em segundo e se sagra campeão com extrema facilidade. Para completar o bolo com a cereja, Jos ainda venceu o Masters de Zandvoort, a corrida de Fórmula 3 mais importante da Europa.

Passeando na F3 alemã

A FÓRMULA 1 DESCOBRE VERSTAPPEN

O cara era tão sensacional que as equipes de Fórmula 1 começaram a disputá-lo a tapa! A Tyrrell prometeu a ele um teste, mas a Footwork saiu do campo da promessa e o colocou dentro de um carro no circuito do Estoril em Setembro ao lado de Gil de Ferran, mais experiente. E Verstappen foi 1,5 mais rápido que Gil de Ferran, e de quebra ainda fez um tempo melhor que o feito por Aguri Suzuki em fim de semana de corrida, um dos titulares da equipe! O cara era REALMENTE um fenômeno!

As grandonas McLaren e Benetton foram atrás do holandês para uma vaga de test-driver em 1994. Inicialmente, graças ao apoio da Marlboro, Verstappen se aproximou da McLaren e até testou pela equipe de Woking. Porém, em um movimento rápido e surpreendente, a Benetton acabou anunciando sua contratação em Janeiro. Uma semana depois do anúncio, o piloto oficial J. J. Lehto sofreu um acidente violento em testes em Silverstone e, com uma vértebra quebrada, teve de anunciar sua ausência das primeiras etapas da temporada. A Benetton não teve outra escolha senão promover Verstappen a titular. E assim, aos 22 anos e com apenas 52 corridas de monoposto no currículo, Jos Verstappen estrearia na Fórmula 1 no GP do Brasil de 1994.

A McLaren quis, mas ele preferiu a Benetton

O Benetton B194 era um carro caracterizado pela tendência ao sobreesterço, característica que agradava demais Michael Schumacher. Os outros pilotos, porém, tinham enormes dificuldades para dirigir um carro que saísse tanto de traseira. Sem muitos testes, Verstappen sofreria muito nesse carro.

E foi exatamente assim em Interlagos. Na classificação, Verstappen mostrou sua falta de preparo ao rodar na Junção. Ele largou em nono, nada muito ruim, mas a sua primeira corrida terminou de maneira assustadora: ao tentar ultrapassar Eddie Irvine, o irlandês o fechou na Reta Oposta e ambos se envolveram em uma carambola bizarra com mais dois carros. A Benetton deu uma pirueta no ar e caiu com tudo no chão. Fim de corrida. Em Aida, Verstappen cometeu um erro primário: ao sair dos boxes, o holandês ignorou os pneus frios e acelerou tudo na primeira curva. Rodou e terminou na caixa de brita. Começava a surgir a fama de barbeiro.

O belo B194

Lehto voltou à ativa em Imola e Verstappen só fazia testes. O finlandês, porém, voltou em péssimas condições e a Benetton não tardou em colocar o holandês de volta no Benetton nº 6 a partir de Magnycours. Sua reestréia foi complicada e Verstappen bateu forte no muro dos boxes na classificação, destruindo uma câmera de TV da FOCA. Mas legal mesmo foi o “inferno” de Hockenheim.

VERÃO QUENTE NA ALEMANHA

O GP da Alemanha de 1994 estava virado de cabeça para baixo. Na largada, dez carros se envolveram em acidentes múltiplos. Quem não batia, quebrava. Um dos que vinham sobrevivendo era exatamente Verstappen, o quinto colocado.

Na volta 15, o holandês foi para os pits fazer reabastecimento e troca de pneus. 1994 marcava o retorno do reabastecimento à Fórmula 1 e a Benetton, para ganhar tempo nas paradas, retirou da mangueira de combustível o “lacre” que controlava o fluxo de gasolina. O resultado foi que, quando o mecânico retirou a mangueira, um monte de combustível vazou sobre mecânicos e carro. A gasolina entrou em contato com as partes quentes e o resultado foi um incêndio de proporções seríssimas.

Benetton frita

Pânico no paddock. Os mecânicos de várias equipes se unem para conter o fogo. Jos Verstappen pula do carro em chamas. Depois de muitos baldes de água e montes de espuma de incêndio, o pandemônio foi controlado. O holandês saiu com algumas queimaduras na cara, mas nada que um Gelol não resolvesse. Depois desse episódio, a Benetton passou a ser investigada com relação ao equipamento de reabastecimento.

Verstappen frito

O FINAL DE 1994

O pior é que, após as chamas, o desempenho de Verstappen melhorou sensivelmente. Na Hungria, ele fez uma ótima corrida e garantiu seu primeiro pódio. Sua última volta, porém, foi curiosa: o McLaren de Martin Brundle, que vinha em terceiro, parou com problemas. Schumacher, o líder da corrida, diminuiu sensivelmente seu ritmo para permitir que Verstappen, retardatário, recuperasse uma volta e ultrapassasse o carro de Brundle. E assim fez-se seu primeiro pódio. Um detalhe: foi a única vez que, de fato, ele foi à cerimônia do pódio.

15 dias depois, em Spa-Francorchamps, ele também obteve um terceiro lugar às custas da desclassificação de Schumacher. Verstappen ainda marcaria mais dois pontos em Portugal. Mas o desempenho não vinha agradando a Benetton, que queria um piloto que pudesse ajudar Michael Schumacher na briga pelo título. Assim, após o GP da Europa, Johnny Herbert entrou em seu lugar. Acabou aí o primeiro ano de Verstappen na F1. E apesar de não ter sido uma boa temporada, seria a de maior número de pontos de sua carreira.
 
Amanhã, a segunda parte.

RED BULL10 – Dessa vez, tudo funcionou bem para os taurinos. Pole-position e dobradinha com austeridade. O carro foi rápido e funcionou por completo, o que é uma novidade nessa temporada. Se repetir o que fez em Kuala Lumpur, leva o caneco com facilidade.

MERCEDES7 – Ainda com o pior carro entre as grandes, levou seu primeiro pódio para casa com Rosberg. Schumacher teve um prosaico problema com uma porca de roda, mas enquanto teve as quatro rodas em bom estado, nunca chegou perto do companheiro.

RENAULT 7,5 – O carro não é tão ruim como a gente pensava. Kubica e Petrov conseguiram novamente ótimas largadas e o polonês terminou em um bom quarto lugar. O russo abandonou novamente, e pela segunda vez por problemas. Se acertar essa questão, consegue ser a quinta equipe com facilidade, e até beliscar a Mercedes de vez em quando.

FORCE INDIA8 – Vem evoluindo a cada dia, e Adrian Sutil fez um quinto lugar sem precisar de abandonos ou excepcionalidades. Liuzzi poderia ter pontuado também, mas o motor Mercedes falhou.

MCLAREN 2 – Como é que uma equipe de ponta comete aquela imbecilidade de deixar seus dois pilotos nos boxes quando a pista não estava tão ruim durante o Q1 da classificação? Os pontos só vieram porque o carro é naturalmente bom e os dois pilotos, principalmente Hamilton, estiveram muito bem.

FERRARI1,5 – O que eu escrevi sobre a McLaren vale para a Ferrari. Há ainda um adendo, porém: a embreagem e o motor de Alonso foram para o espaço na corrida.

TORO ROSSO7 – Marcou seus primeiros pontos com Alguersuari nesse ano. O carro funcionou bem para ele e nem tanto para Buemi, que teve problemas aerodinâmicos em decorrência de um toque.

WILLIAMS2,5 – O carro estava terrível em Sepang e tanto Rubens quanto Nico ficaram no fim das tabelas nos treinos livres. Os dois pilotos só foram para o Q3 na classificação devido à chuva. Na corrida, a realidade voltou à tona e Hülkenberg só pontuou por causa de problemas alheios.

VIRGIN3,5 – Teve seu melhor fim de semana, se é que dá pra considerá-lo assim. Glock foi para o Q2 pela primeira vez e Di Grassi levou seu carro vermelho e preto, também pela primeira vez, à linha de chegada. O carro continua lento e resistente como porcelana.

HRT6 – A evolução dos espanhóis é incrível. Dessa vez, tanto Chandhok quanto Senna levaram o carro até o fim, sendo a única estreante a ter conseguido isso na corrida. A performance do carro também evolui, ao contrário das outras estreantes.

LOTUS 3 – Terminou mais uma, dessa vez com Trulli. Kovalainen teve um toque com Di Grassi e abandonou depois. A novidade é ter ido ao Q2 com o finlandês. Levar ultrapassagem dos carros da HRT não deve ter sido bom para o orgulho da equipe, tida como a mais sólida entre as estreantes.

SAUBER 1 – Do que adianta ir bem nos treinos se o carro não faz sequer metade da corrida? De La Rosa nem largou e Kobayashi, que vinha bem, teve um motor estourado. É compreensível que os motores Ferrari não aparentam ser os mais confiáveis, mas ter dois quebrados com menos de dez voltas é demais.

CORRIDACINCO DA MATINA? – Pra uma corrida normal (sem chuva, terremotos e padres irlandeses), foi excelente, uma das melhores dos últimos anos. “Ah, mas os cinco primeiros não mudaram durante a corrida”. É verdade, mas a corrida não se resume apenas aos vencedores. E se querem saber de uma coisa, as disputas do sexto para trás foram excelentes. Sepang permite ultrapassagens em vários pontos, não entendo o porquê do povo falar mal da pista. O problema é esse horário. Chega um horário em que ver corrida de madrugada cansa, fora a possibilidade de você dar uma cochilada que vale por umas 40 voltas perdidas.

TRANSMISSÃO – UMA VEZ O MAURICIO GUGELMIN ME CONTOU… – Dessa vez, o Burti estava lá. Galvão e sua trupe falou o de sempre. De notável, apenas ter “celebrado” a ultrapassagem de Senna sobre Trulli no final da corrida e sequer ter mencionado a do Chandhok, que ocorreu voltas antes. Foi-se o tempo em que a geração de imagens na Malásia era uma merda.