Hoje, começa a nova série do Bandeira Verde: a cada dia, serão apresentadas 22 pistas que este escriba considera sine qua non para o automobilismo. De alguma maneira, seja pelas corridas proporcionadas, seja pelos desafios de pilotagem, seja pelo visual ou por alguma outra coisa, elas são únicas. A lista de pistas apresentadas está aqui e é óbvio que todo mundo discordará de alguma coisa. Mas eu não ligo para democracia e serão essas daí mesmo.

O primeiro circuito é australiano. Começo com o Mount Panorama Circuit, conhecido simplesmente como Bathurst. Bathurst? Sim, é o nome da montanhosa cidade de 29 mil habitantes localizada no estado de New South Wales aonde é localizado o circuito. O Mount Panorama é um morro de dimensões relativamente consideráveis que era utilizado pela tribo Wiradjuri para observar os viajantes que atravessavam a região séculos atrás, e não por acaso seu nome tribal é “Waluu”, que significa “observar”.

Em meados dos anos 30, Bathurst era comandada por um prefeito, Martin Griffin, que adorava corridas e que vislumbrava a possibilidade de utilizar as ruelas que subiam o morro para fazer corridas. Faltava dinheiro, graças à Grande Depressão, mas sobrava disposição. Em Março de 1938, o prefeito inaugurou o Mount Panorama Circuit, um circuito de rua que completava um percurso de subida e descida de montanha. O traçado utilizaria ruas normais de bairros residenciais e estradas de bairros rurais e, em dias normais, os pacatos bathurstianos saiam e voltavam para casa utilizando aquilo que seria um dos circuitos mais lendários do automobilismo. A primeira corrida, o Australian Tourism Trophy, reuniu 20.000 pessoas.
 
O circuito foi um sucesso e, desde 1963, ele realiza a Bathurst 1000, a corrida mais tradicional na Austrália. É uma competição de 1.000 km realizada durante todo o mês de Outubro que durante esses mais de 40 anos era disputada por carros de produção, grupo A, grupo C e, hoje em dia, carros do campeonato australiano de Turismo V8. São as 24 Horas de Le Mans locais e o piloto que vence em Bathurst entra para a história local e até mundial.

TRAÇADO E ETC.

Vamos à realidade nua e crua: Bathurst é um circuito muito melhor para pilotar do que para ver corridas. O circuito, de 6,213 km, é estreito e tem muros colados à pista separados apenas por finas faixas de grama. As ultrapassagens por lá são muito difíceis, ocorrendo mais no final dos dois retões. Em termos, Abu Dhabi é melhor para isso do que Bathurst. A graça do circuito existe, definitivamente, para quem dirige. E para quem aprecia o automobilismo além das ultrapassagens.

O traçado é veloz, composto por retas e curvas estreitas, porém de raio longo. Nestas curvas, como são bastante estreitas e com muros colados à pista, é difícil utilizar um traçado que não o ideal. O diferencial de Bathurst é ser um circuito montanhoso, com desnível de 174 metros entre o ponto mais baixo (reta dos boxes) e o mais alto (Frog Hollow). Como há subidas, motor é importante, mas é impossível fazer um carro que ande apenas em reta sabendo da existência de trechos como os Esses e a The Cutting.

Os pontos a serem destacados:

MOUNTAIN STRAIGHT: É um ladeirão, falando em termos literais.

THE CUTTING: Todo mundo fala da curva 8 da Turquia, mas acho isso daqui mais legal. É uma sequência de duas curvas à esquerda, sendo que a segunda é bem mais lenta que a primeira. Você sai de uma pequena reta e começa desacelerando na primeira curva. Na segunda, é uma freada forte de fato. Quer mais? Lembre-se que o muro é colado à pista, então qualquer erro no tangenciamento é batida na certa. Quer mais? Tudo isso em subida.

FROG HOLLOW: O ponto mais alto do circuito. A partir daí, uma descida bem rápida.

THE ESSES: Um dos trechos mais bonitos do mundo, ao meu ver. Uma sequência impressionante de seis zigue-zagues em descida de fazer corar um Lewis Hamilton. Os pilotos tendem a tentar contorná-los com o traçado mais reto possível, mas sempre é necessário fazer movimentos ao volante para corrigir a direção do carro. Se dá melhor quem consegue completar as seis curvas sem desacelerar e sem movimentar tanto o volante. Não dá pra errar, pois o muro está sempre ali.

THE DIPPER: É a curva preferida de muitos. Logo depois dos Esses, é uma curva fechada de média velocidade à esquerda com um desnível que faz o carro sair do chão por alguns momentos. O piloto não pode andar muito devagar, mas também não pode ir muito rápido, pois o desnível pode mandá-lo para o muro. O nome “dipper” vem de uma espécie de depressão que existia na curva desde os primórdios antes de reformas feitas no circuito há algum tempo.

THE CHASE: Curva criada recentemente para cortar a velocidade da reta Conrod. Um ótimo teste para freios.

Alguns caras fizeram fama em Bathurst. Um deles é Mark Skaife, uma espécie de Ingo Hoffmann australiano, multicampeão do Australian V8 que venceu por cinco vezes em Bathurst. Mas nada se compara a Greg Murphy, dono do recorde do circuito, 2m06s8594, feito no Top Ten Shootout de 2003. Fiquem com o vídeo da volta:

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