Tudo começou quando a Caterham, que era Lotus até meia hora atrás, entregou de presente à revista F1 Racing algumas fotos do seu carro novo. Logo em seguida, Luca di Montezemolo afirmou que o F2012 que a Ferrari utilizaria neste ano seria simplesmente feio. Feio como um garoto desdentado fazendo careta. Feio como uma velha peidando em uma missa. Feio como um pequinês acasalando. Estava coberto de razão. O F2012 é horrível.

A McLaren, que é estilosa a ponto de colocar as Spíce Girls para comandarem um show de apresentação de carro novo, preferiu não abraçar a solução. Era melhor seguir seu caminho solitária e crente de sua decisão corajosa. As demais equipes não necessariamente pensaram da mesma forma. Red Bull, Toro Rosso, Sauber, Williams, Force India e Lotus decidiram seguir o mesmo caminho horrível em uníssono. A nanica HRT ainda não sabe nem se tem dinheiro para a marmita de amanhã, mas seu velho piloto Pedro de la Rosa recomendou que ela fizesse o mesmo que as outras. Afinal, se está todo mundo escolhendo maçãs, por que nós temos de comprar bananas?

Vocês sabem do que estou falando. A Fórmula 1 deste ano será profundamente marcada por aquele hediondo degrau que é formado no bico dos carros. Como não sou engenheiro e não entendo patavinas de aerodinâmica, dou minha explicação de bebedor de botequim. Como a FIA limitou a altura dos bicos dos carros deste ano em 55 centímetros, as equipes que decidiram utilizar um carro mais alto tiveram de desenvolver um degrau que conectasse o chassi ao bico baixo. É isso? Se não for, paciência. Falem com Nico Rosberg, que quase cursou Aerodinâmica na Imperial College of London.

Eu verdadeiramente cago e ando para a eficácia de bico assim ou asa acolá. Sou superficial pra caramba. Não que eu me orgulhe disso, mas a natureza me fez um sujeito apto a filosofar de maneira banal e a escrever alguns resmungos. Por isso, só sei falar sobre o que é bonito ou feio. E cá entre nós, os bicos desta temporada estão entre as coisas mais horríveis que a Fórmula 1 já viu.

E olha que concorrentes não faltam. O Top Cinq de hoje apresenta cinco bicos horríveis, destes que não só não serviam para nada como também assustavam criancinhas e velhinhas. Detalhe: só falo de bicos que não são tão conhecidos. Se você quer aquela Williams horrorosa de 2004 ou a March 711, sinto te desapontar. Hoje, você vai conhecer bicos tão feios quanto.

5- LIFE L190

No fim dos anos 80, havia um sujeito trintão de calvície precoce e genialidade latente que tinha desenvolvido um interessante conceito de bico curvilíneo combinado a uma asa dianteira alta, combinação que daria um enorme ganho aerodinâmico a um carro. Este cara é o mesmo Adrian Newey que reina na categoria atualmente. Entre 1988 e 1990, todas as grandes equipes prestavam atenção na March, que era a equipe para quem Newey trabalhava. Todo mundo queria copiar aquele conceito. Mas é óbvio que sempre haveria quem quisesse fazer diferente. Não é, Life?

O Life L190 foi o pior carro da história da categoria. Embora ele compartilhasse a pintura, alguns patrocinadores e até mesmo a aparência do logotipo com a Ferrari, as semelhanças não eram traduzidas em resultados na pista. Seja com o promissor Gary Brabham ou com o experiente Bruno Giacomelli, o carro raramente completava mais do que duas ou três voltas por fim de semana e quase nunca ficava a menos de vinte segundos de diferença de qualquer outro. Ele foi inicialmente desenvolvido pelo engenheiro brasileiro Ricardo Divila para ser utilizado pela First Racing em 1989. Como esta equipe não conseguiu participar da categoria, o chassi foi repassado à Life, que instalou nele um monstruoso e obscuro motor W12.

Que ninguém desconfie da capacidade de Divila, que já teve passagens relevantes por várias equipes de Fórmula 1 e Fórmula 3000 e que milita atualmente no automobilismo japonês. O caso é que a First era pobre, desorganizada e certamente não fornecia lá grandes condições de trabalho aos seus funcionários. Embora tivesse algum sucesso na Fórmula 3000, ela não teve condições sequer para participar de uma única corrida da categoria maior. O carro, o F189, não passou no crash-test obrigatório da FISA. Sabe-se lá em quais condições, a Life conseguiu fazer com que ele fosse aprovado em 1990.

O L190 é um carro esquisitão, de aparência totalmente desarmônica. O cockpit é demasiado aberto, o que denota total falta de segurança em um acidente mais forte. A cobertura do motor é bojuda e grandalhona, consequência do uso do motor W12. Os sidepods são ridiculamente baixos. E o bico?

O bico é um negócio pra lá de bizarro. Visto de frente, ele é totalmente fino e dá ao carro vermelho uma tenebrosa aparência de tamanduá. Olhando de lado, você percebe que, na verdade, o bico é largo e desengonçado. Sua altura e o início em uma carroceria toda gordona só tornam o negócio ainda mais feio. Resumindo: trata-se de um tamanduá obeso e avermelhado. A Ferrari, que desenvolveu carros tão bonitos como o 640 e o 641, se ofenderia ao ser comparada com isso.

4- WILLIAMS FW06

Os anos 70 são absolutamente frutíferos quando temos de montar uma lista com os bicos mais horríveis da história da Fórmula 1. Sem túneis de vento, CFDs e aerodinamicistas geniais, as equipes de Fórmula 1 acabavam buscando o progresso via distribuição eficiente de peso, uso de novos materiais e desenvolvimento de novas tendências, como o carro-ventilador da Brabham ou o carro de seis rodas da Tyrrell. A aerodinâmica já era importante, mas ainda estava em um estágio demasiado primário no automobilismo.

Em 1978, Sir Frank Williams iniciou uma nova fase de sua vida. Após ter sido mandado para o vestiário por Walter Wolf, que havia comprado sua Frank Williams Racing Cars, Frank decidiu criar uma equipe do zero. Chamou um bocado de gente de sua equipe antiga e decidiu chamar para a sociedade Patrick Head, um jovem e turrão engenheiro inglês que acabou assumindo 30% desta nova estrutura, de nome Williams Grand Prix Engineering. Com dinheiro saudita e uma estrutura bem melhor do que em outros tempos, Frank Williams começava a rumar ao sucesso.

Durante o primeiro ano da nova equipe, 1977, um único e empoeirado March 761 foi utilizado por Patrick Nève, que levava patrocínio cervejeiro. Mas os planos da Williams eram mais ambiciosos. Frank Williams e Patrick Head queiram construir seu próprio carro. Portanto, enquanto Nève sofria com um carro antigo, Head pôs a cabeça para funcionar e, em dezembro, anunciou o primeiro carro construído pela Williams Grand Prix Engineering, o FW06, que ser utilizado na temporada de 1978.

Equipado com um convencional motor Cosworth V8, o FW06 era tão simples quanto eficiente. Único piloto da Williams em 1978, Alan Jones conseguiu onze pontos e até obteve um pódio em Watkins Glen. O problema maior é que o carro era feio pra caramba. E o bico era um espetáculo à parte. Para começar, a pouco estilosa entrada de ar bem no meio não era o melhor dos cartões de visitas. De cada lado do bico, havia uma espécie de orelha imediatamente posterior à suspensão. O formato do bico também era todo esquisito: iniciava-se com uma descida convexa, prosseguia com uma parte lisa e alargada onde se localizava a entrada de ar e terminava com uma medonha asa dianteira mais setentista do que os Embalos de Sábado à Noite.

3- FORTI-CORSE FG01B

A primeira equipe brasileira desde a Fittipaldi. Uma das grandes mentiras contadas em meados dos anos 90 era a Forti-Corse ser considerada uma equipe tupiniquim. Vamos com calma ao pote. A equipe sempre pertenceu ao gorducho Guido Forti, um especialista em automobilismo italiano. Em 1993, Forti chamou Pedro Paulo Diniz para correr em um de seus carros na Fórmula 3000. É evidente que ele não estava interessado no irrelevante currículo do brasileiro, mas no dinheiro da família Diniz e sua Companhia Brasileira de Distribuição.

Em 1994, visando dar o salto da Fórmula 3000 para a Fórmula 1, Guido Forti foi atrás de mais parcerias no Brasil. Acabou encontrando Carlos Gancia, empresário formado em Economia. Gancia e a família Diniz acabaram adquirindo 50% das ações da Forti-Corse no fim daquele ano. Ou seja, a equipe era tão brasileira quanto italiana. Capisci?

O fato é que a escuderia de Guido Forti foi lançada com grande alarde no Brasil. Imagine só: um carro amarelo e azul com uma pitadinha de verde, uma lista de patrocinadores que mais parecia um fôlder do Pão de Açúcar, dois pilotos brasileiros e razoável apoio da grande mídia daqui. O orçamento era baixo, 17 milhões de dólares para toda a temporada, mas a Benetton foi campeã de pilotos do ano anterior com até menos dinheiro. Aparentemente, a Forti-Corse esbanjava organização e ambição.

Faltou só fazer um carro bom. O FG01 foi definido como “conservador e refinado” por Guido Forti. Vamos à realidade: um dos projetistas do carro era o argentino Sergio Rinland, que achava que seu Fondmetal GR02 de 1992 era uma maravilha injustiçada do mundo e decidiu implantar conceitos aerodinâmicos deste carro no primeiro Forti. O resultado foi um bólido realmente conservador, praticamente defasado. E nem um pouco refinado, devo dizer. O excesso de peso, a falta de qualidade na construção e a complicação logística de se desenvolver as partes do projeto em diferentes países pouco me sugerem algo sobre refinamento.

O carro não fez nada em 1995, os sócios brasileiros caíram fora e Pedro Paulo Diniz levou seus tostões à Ligier. Sem dinheiro e moral, a Forti-Corse teve de utilizar um FG01 atualizado para as primeiras etapas da temporada de 1996. Os defeitos permaneciam os mesmos. E o bico? Bem, quando olho para ele, penso em alguém que comeu dez limões, murchou a boca e fez biquinho com os lábios. Um troço que começa largo lá na parte do cockpit e termina em algo com meio pixel de largura. A numeração sequer consegue ficar visível. Feio. E aí, Brasil, continua orgulhoso?

2- MERZARIO A1

Arturo Merzario, vocês conhecem? É aquele italiano bigodudo (não sei de onde tirei isso) que vivia ostentando um chapéu de caubói e sempre fumava alguns maços de Marlboro. Fez algumas corridas razoáveis pela Ferrari e pela Iso-Marlboro, mas nunca passou de um simpático participante do meio do pelotão. O que o segurava na Fórmula 1 era exatamente o patrocínio da tabaqueira vermelha e branca, que chamava a atenção de várias equipes menores. Mas nem elas estavam dispostas a acolher Merzario após o fim de 1976.

O que fazer nesta situação? Ir para a Indy? Ir para o WRC? Ir para o Desafio das Estrelas do Felipe Massa? Ir para a Stock Car Brasil? Como Merzario não vivia em uma época tão favorável para estes devaneios, ele preferiu fundar sua própria equipe, cujo criativo nome seria Team Merzario. Arranjou um March 761B, pintou-o de vermelho à la Marlboro e o colocou para disputar algumas corridas em 1977. Resultado: não se classificou para três etapas e só terminou uma, na Bélgica. Um desastre.

O que fazer, então? Criar seu próprio carro, oras bolas. Arturo Merzario decidiu pegar seu March 761B como base, chamou o desenhista Giorgio Piola para dar uns palpites e acabou construindo o A1, o primeiro carro nascido no berço gáudio da Team Merzario. Quem estava custeando tudo era a Marlboro e, veja só, uma funerária italiana, que estava morta de vontade de aparecer para todo o mundo. O resultado foi um carro vermelho, levemente parecido com a Ferrari 312T2 e… feio.

Dizia-se que o projeto original de Giorgio Piola era bonito, mas o resultado foi esse filhote de cruz-credo aí da foto. O destaque, é claro, vai para o bico. Até a foto parece estranha – parece até que foi colada sobre o carro a imagem em zoom de um bico de um Fórmula 3 antigo. Toda a parte dianteira parece estar completamente desproporcional em relação às rodas, ao cockpit e à parte traseira. Imagine o pequeno trabalho que os mecânicos não tinham no caso de Merzario estragar o bico. Seriam necessários uns cinco abençoados para segurá-lo e efetuar a árdua troca.

Carro bonito é aquele que ganha corridas, já dizia Enzo Ferrari. Pois o Merzario A1 abusava da feiura. Logo, não ganhava porcaria alguma. Na verdade, ele não se classificou para a maioria das corridas em que foi inscrito. Nas que largou, não chegou ao fim em nenhuma. Ainda bem. Se chegasse, assustaria o pobre do cara que desse a bandeirada.

1- TOLEMAN TG183B

Ah, que lindo, estou falando do primeiro carro de Ayrton Senna. Muita gente associa o tricampeão brasileiro a bólidos inegavelmente belos, como o Lotus 98T, o McLaren MP4/6 e o McLaren MP4/8. Poucos se lembram deste troço azul, branco e vermelho que é mais horrível do que bater em freira. Foi nele que Ayrton fez suas primeiras corridinhas neste negócio bárbaro e sacana que é a Fórmula 1.

O Toleman TG183 foi um carro desenvolvido pelo sul-africano Rory Byrne em 1982. Este nome nos é familiar. Byrne era um dos grandes nomes da Ferrari do início do novo milênio, aquela que cansou de ganhar corridas e títulos com Michael Schumacher. O projetista tem em seu currículo carros realmente bonitos, como o Benetton B188, o Benetton B194, a Ferrari F2000 e a Ferrari F2002, mas também contabiliza esta mancha na carreira. E o pior é que o TG183 tinha algumas ideias bacanas, como os dois radiadores localizados no spoiler dianteiro e o aerofólio traseiro duplo, que aumentavam a eficiência às custas da estética.

O TG183 original fez apenas as duas últimas corridas de 1982 e não trouxe grandes resultados, mas a versão B estreou logo no início do ano seguinte e conseguiu dez belos pontos nas quatro últimas corridas da temporada. De cabo a rabo, o carro era horrível. Nem mesmo os patrocinadores ajudavam. Os logotipos da Segafredo e da Magirus só ajudavam a piorar as coisas.

O TG183B ainda foi utilizado nas primeiras etapas da temporada de 1984. Ayrton Senna fez três corridas com ele e marcou pontos em duas, na África do Sul e na Bélgica. Após a etapa de Imola, na qual Senna não conseguiu se classificar para a largada, a Toleman estreou o TG184, um chassi bem mais eficiente e harmônico. A Fórmula 1, enfim, se livrava de um dos carros mais feios já surgidos em sua história.

O bico é um capítulo à parte. Na verdade, praticamente não há bico. O que parece existir é um cockpit alongado e achatado que termina em uma asa gigantesca e horrenda. As formas completamente geométricas e avantajadas combinadas à disposição aleatórias das três cores e aos adesivos posicionados de maneira bagunçada compõem aquela que é uma das estruturas dianteiras mais horripilantes jamais vistas no automobilismo. Vale citar também alguns detalhes adicionais, como os radiadores sob a asa dianteira e as desastrosas bandejas posicionadas sob a suspensão dianteira. É tanta coisa feia em uma única foto que até o degradado asfalto de Jacarepaguá parece simpático e agradável.

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