Pessoas, acaba por aqui o Calendário do Verde deste ano. Mas não pense que acabou de vez. Ele volta em 2011. E quer sugestões dos leitores. Você quer que eu fale sobre qual circuito que não apareceu nesse ano? Monza? Silverstone? Mônaco? É só sugerir.

Enfim, fim. O Calendário do Verde termina sua longa e construtiva viagem ao redor do mundo no continente mais feliz, saudável e propício para a prática do automobilismo: a África. Depois de 21 pistas e quatro continentes, faremos nossa última parada antes de voltarmos para nossas respectivas casas e desfrutarmos de perus de natal, champanhes e especiais do Roberto Carlos.

O circuito a ser tratado, aqui, é a versão antiga do autódromo de Kyalami, o mais conhecido e badalado da África do Sul. Seu nome, pronunciado como caialamí , significa basicamente “minha casa” em zulu, uma das línguas oficiais do país. Mas apesar da simpática referência a um dos povos mais tradicionais da África do Sul, Kyalami carrega em seu DNA as tristes idiossincrasias de um país etnicamente contraditório. O autódromo era o palco principal de um esporte praticado unicamente por brancos e absolutamente inacessível para os negros, que representam cerca de 70% da população.

Kyalami surgiu em um período particularmente complicado para a questão étnica da África do Sul, completamente distorcida com a implantação do regime da apartheid em 1948. Em 1958, os negros perderam seus direitos de cidadãos e foram forçados a se integrar em um dos dez bantustões estabelecidos pelo governo. Um bantustão nada mais era do que um território autônomo que deveria concentrar uma determinada tribo ou população nativa local. Em outras palavras, um explícito processo de limpeza étnica.

Ao mesmo tempo, o governo central destinava diferentes serviços de saúde e educação a brancos e negros e havia até mesmo a restrição do acesso de negros a certos lugares. E a repressão policial era intensa. No ano em que Kyalami foi inaugurado, 69 negros morreram e 140 ficaram feridos em um protesto em Sharperville. No ano seguinte, o Congresso Nacional Africano, um movimento negro independente e até então adepto de práticas pacíficas, foi declarado clandestino e passou a utilizar a violência como ferramenta. Em se tratando de um país africano, a guerra étnica representava um absurdo sem precedentes.

Enquanto os negros pobres levavam no rabo, a elite africâner tinha lá alguns costumes remetentes às boas práticas culturais e sociais europeias. Desde os anos 30, a África do Sul tinha uma boa comunidade automobilística e várias corridas independentes eram realizadas com sucesso. Uma das pistas mais conhecidas era o circuito Grand Central, localizado em Johannesburg. Pode-se dizer que Grand Central é uma espécie de embrião representativo de Kyalami.

No finalzinho dos anos 50, o país conseguiu negociar com os europeus a realização de corridas extracampeonato de Fórmula 1 no circuito de East London, localizado na costa sudeste. Em 1962, o Grande Prêmio da África do Sul foi incluído, pela primeira vez, no calendário oficial da Fórmula 1. Um ano antes, a comunidade automobilística sul-africana se mostrou disposta a substituir Grand Central por um circuito moderníssimo, que pudesse fazer frente a East London e pleitear corridas internacionais.

Em janeiro de 1961, um grupo de pessoas envolvidas com as corridas realizou um encontro no Hotel Kelvin, em Johannesburg, visando a criação de um órgão que pudesse sancionar as corridas no país. Foi criado, assim, o South African Motor Racing Club. Esse órgão se encarregou de construir, em poucos meses, um autódromo a ser utilizado pela comunidade de Johannesburg. Para isso, foi adquirido um terreno de 15 milhas localizado no distrito de Midrand. Esse terreno chamava a atenção por estar 1600m acima do nível do mar, o que faria diminuir o rendimento dos motores dos carros em até 10%.

Muito rapidamente, e com a maciça participação de negros nas obras, o circuito de Kyalami foi concluído. Sua inauguração aconteceu no dia 4 de novembro de 1961 com o Rand Grand Prix, corrida de monopostos vencida por um certo Jim Clark. Moderno, o autódromo recebia principalmente corridas de carros-esporte e representava um enorme orgulho para a comunidade branca do país. Conforme os anos passavam, e o dinheiro aumentava, a infraestrutura de Kyalami era aprimorada. Era hora de receber uma corrida de Fórmula 1.

Em 1966, os sul-africanos empreenderam uma grande reforma que remodelou praticamente tudo. Na verdade, apenas o traçado se manteve o mesmo. Novas arquibancadas foram construídas nas principais curvas do circuito, o que garantiu conforto a 10.000 espectadores, além de uma visão praticamente total da pista. Banheiros e boxes também foram aperfeiçoados pela reforma, que custou 35.000 rands. O resultado da reforma ficou muito bom e Kyalami pôde receber, enfim, sua primeira corrida oficial de Fórmula 1 no dia 2 de janeiro de 1967. Sim, exatamente um dia depois da virada do ano!

A corrida foi um sucesso, com uma vitória excepcional de Pedro Rodriguez e uma atuação histórica de John Love, piloto da Rodésia que utilizava um Cooper Climax de quatro cilindros. Sendo aprovada por todos, Kyalami permaneceu no calendário ininterruptamente até 1985.

Se dependesse da FISA e dos cartolas da Fórmula 1, ela teria permanecido por até mais tempo. Mas havia um fortíssimo componente político. Conforme os anos passavam, a apartheid se tornava cada vez mais inaceitável perante os olhos do mundo e as federações esportivas demonstravam sua insatisfação banindo a participação da África do Sul em qualquer evento internacional. A FIFA e o COI tomaram essa medida em 1961. Para incômodo de muitos, apenas a FISA se mantinha neutra. É o autismo político, doença que acomete a muitos que acham que o automobilismo é um Éden no qual se pode fechar os olhos, o nariz e os ouvidos para o que acontece lá fora.

Em 1985, a permanência da África do Sul se tornou insustentável na Fórmula 1. A pressão vinda da opinião pública era imensa e até mesmo a ONU recomendou à categoria suspender a realização de corridas no país. E em alguns casos, a represália vinha lá de dentro da categoria. Poucas equipes de TV se dispuseram a viajar para cobrir a corrida e o governo francês instruiu as suas equipes, Renault e Ligier, para que a boicotassem. Com poucos carros no grid, audiência baixa e lucros risíveis, a FISA finalmente se rendeu e retirou a África do Sul do calendário da Fórmula 1 a partir do ano seguinte.

A pressão internacional foi eficaz e acabou enfraquecendo a apartheid. Em 1994, o regime foi oficialmente banido, os negros voltaram a dispor de direitos básicos de cidadania e puderam até mesmo participar de eleições. E ganhou Nelson Mandela, um descendente de khoisans que liderou o supracitado movimento rebelde CNA e que passou quase 27 anos preso, tornando-se símbolo da oposição daquele triste regime.

Enquanto isso, Kyalami ficou de fora do mainstream do automobilismo mundial por alguns anos. Retornou no início dos anos 90, recebendo testes de algumas equipes de Fórmula 1. Em 1992, já no fim da apartheid, a categoria retornou para lá. O traçado havia sido consideravelmente modificado e perdeu boa parte da velocidade e da magnificência que o caracterizavam. Permaneceu no calendário por apenas dois anos e nunca mais retornou à categoria. Hoje, sua principal atração é o campeonato mundial de Superbikes.

É triste constatar que uma das pistas mais interessantes do mundo foi simplesmente ofuscada pelo lamentável período político pelo qual seu país passava.

TRAÇADO E ETC.

O antigo Kyalami era um circuito sem frescuras. Simples, curto e veloz, muito veloz.

Ele tinha 4,104 quilômetros de extensão e não mais que oito curvas. E elas, diga-se de passagem, eram quase todas de média ou alta velocidade. O trecho mais lento é o dos esses, que foi uma das poucas partes que permaneceram no traçado novo. Como a pista era bastante larga em vários locais, o piloto tinha total liberdade para acelerar o quanto quisesse e fazer o traçado que lhe fosse conveniente. Era um circuito que dava uma liberdade acima do normal para o piloto exibir sua capacidade na direção e se divertir.

O que a pista tinha de veloz, no entanto, ela não tinha de segura. Os muros e guard-rails estavam sempre próximos. Havia boas caixas de brita, mas elas não apareciam em todas as curvas. E a inépcia dos fiscais de pista era um espetáculo à parte. O piloto galês Tom Pryce e o fiscal Jansen van Vuuren que o digam.

O piloto deve ter a noção de que a enorme altitude de Kyalami fará o motor perder até cerca de 10% de sua potência. Sendo assim, e tendo de enfrentar um terreno acidentado, cheio de subidas e descidas, o carro deve compensar a falta de potência do motor de alguma maneira. Para a felicidade de todos, com uma pista larga, veloz e cheia de curvas de raio longo, é possível utilizar pouco downforce e relações de marcha mais longas. Eu só não recomendaria um acerto ainda mais propício à velocidade devido à existência de alguns poucos trechos mais lentos. Mas, no geral, é uma pista para largar o pé no acelerador. Para se ter uma idéia, Nigel Mansell fez a pole-position da corrida de 1985 com a absurda velocidade média de 236,898 km/h. Nada mal.

Conheça os trechos:

RETÃO DOS BOXES: Um tobogã de sei lá quantos metros que o piloto acelera ao máximo e sente a brisa na cara. A velocidade final ultrapassava com facilidade a barreira dos 330 km/h.

CROWTHORNE: Você olha para o traçado e conclui equivocadamente que se trata de uma curva dupla. Na verdade, é só um curvão feito a 190 km/h à direita em leve descida. Como o raio é longo e a largura é considerável, o piloto não precisa frear absurdamente após o retão para completa-la. Se bobear, dá até para ultrapassar.

BARBECUE: Um curvão de raio longo feito à direita em descida à 250 km/h. Termina aí o trecho inicial em declive.

JUKSKEI SWEEP: Iuquiscai. Um dos nomes mais legais de curva que há. Mas o trecho, em si, não é tão melhor assim que os outros. É basicamente uma perna de raio longo feita à esquerda em subida cega. Ainda assim, não é difícil completá-la, já que a largura da pista evitar que o piloto cometa algum erro de julgamento.

SUNSET: Curvão de 90° e raio longo feito à direita e a 240km/h em leve subida. É talvez a maior curva do circuito.

CLUBHOUSE: Esta curva inicia o trecho de baixa velocidade do circuito. Feita em segunda marcha, se trava de uma curva de raio curto feita à esquerda. Um dos bons pontos de ultrapassagem em Kyalami.

ESSES: Um dos trechos mais famosos do circuito sul-africano, ligeiramente parecido com os esses vistos em Interlagos, Laguna Seca e Buenos Aires. O piloto tira o pé para completar a primeira curva, feita à esquerda em descida. Ela é ligeiramente cega no início, mas após alguns metros, é possível avistar toda a extensão da segunda perna, feita à direita. Esta segunda curva tem raio longo e é feita em velocidade crescente. Ao contrário da primeira, a segunda parte é uma subida considerável. O guard-rail próximo me faz lembrar um pouco de Österreichring.

LEEUKOP: É a última curva “verdadeira” do circuito. Ela tem quase 180° de angulação, raio médio e, por ser feita em subida quase cega, permite que o piloto reacelere mais cedo que o normal.

THE KINK: Uma perna à esquerda que só serve para mudar a direção da reta. Por ser curta e de raio muito longo, o piloto nem precisa tirar o pé: ele continua acelerando como se o trecho fosse uma reta propriamente dita.

Onboard de Alain Prost e seu Renault em 1983.

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