Para infelicidade de muitos brasileiros que, de maneira quase pueril, levam a rivalidade com a Argentina a sério, o Calendário deste aqui que escreve passa por lá também. Alguém de longe pode ficar curioso sobre o motivo de brasileiros e argentinos não se bicarem. Motivos históricos, políticos, bélicos, territoriais, religiosos ou econômicos? Nada disso. O ódio existe por causa de futebol, caso único no mundo. Não é exagero meu: conheço gente que odeia a Argentina de verdade por causa disso. Dizem que os argentinos nem são tão encanados assim com o Brasil, já que o problema real é com a Inglaterra, rivalidade que vem lá dos tempos da Guerra das Malvinas.

A rivalidade é uma bobagem, é claro. Os argentinos têm muita coisa para oferecer, como a belíssima Buenos Aires, o churrasco, o alfajor e uma presidenta boa como Cristina Kirchner.  E o circuito de Potrero de los Funes, localizado na cidade de San Luis, capital da província homônima. Potrero é a penúltima pista do Calendário do Verde. E, na minha modesta opinião, é simplesmente a melhor pista construída na atual década no mundo.

Os argentinos, ao contrário dos brasileiros, adoram corridas. Mesmo tendo uma economia bem mais combalida e instável que a nossa, com um parque automobilístico que nem chega perto do que existe hoje em dia no Brasil, nossos vizinhos desfrutam de ótimos campeonatos internos, com bons pilotos, patrocinadores e carros. Não por acaso, enquanto as corridas por aqui são jogadas às moscas, as provas argentinas atraem um ótimo e fiel público. Se eu tenho um palpite sobre o porquê disso acontecer? O meu mais polêmico diz respeito ao clima e à influência europeia maior nas mentes de lá.

O circuito de Potrero de los Funes foi oficialmente inaugurado em 2008, mas já houve provas realizadas na região em tempos remotos. Em 15 de agosto de 1987, um grupo de gatos pingados das corridas de Turismo Carretera decidiu realizar uma rodada dupla em um traçado que utilizava as ruas do pequeno povoado que circundava a represa Potrero de los Funes. O objetivo era reproduzir um circuito longo e desafiador como Nürburgring Nordschleife ao redor de um lago, no melhor estilo Enna-Pergusa. De fato, ele não só reproduziu os desafios como também as tragédias: na primeira corrida, um acidente causou a morte de dois espectadores. Na segunda, um outro acidente deixou um piloto gravemente ferido. Acabou a brincadeira. Esqueçam essa loucura.

Durante 20 anos, a ideia realmente ficou esquecida. No entanto, em um ato que nunca seria visto no Brasil, a província de San Luis se uniu à comunidade automobilística local e decidiu construir na região de Potrero de los Funes um autódromo semipermanente que utilizaria um traçado muito parecido com aquele de 1987. A construção foi feita em apenas alguns meses e custou 18 milhões de dólares, troco de pinga perto de alguns circuitos muçulmanos que temos por aí. O objetivo dos argentinos não era ter o circuito mais luxuoso ou coisa do tipo, mas um que pudesse entrar no rol dos “grandes circuitos do mundo”, como Spa-Francorchamps, Le Mans e Bathurst. Ambiciosos e pretensiosos, sem dúvida. Mas bem-intencionados. E competentíssimos.

A inauguração do autódromo, que comporta 52 mil pessoas e possui graduação B da FIA, ocorreu no dia 23 de novembro com um verdadeiro festival de corridas: TC2000, Fórmula Renault 1.6, Campeonato Histórico de Carros de Turismo e, como cereja do bolo, o FIA GT. O campeonato mundial de carros GT da FIA seria o teste definitivo para comprovar se os latinos conseguiram fazer o serviço direito.

Conseguiu, e com louvor. Pilotos, equipes, jornalistas e espectadores adoraram a pista, bastante veloz, técnica e seletiva.  Infelizmente, o FIA GT não voltou à Argentina em 2009, mas a turma europeia consertou o erro e a última etapa do FIA GT1 está marcada para o dia 5 de dezembro. Após uma corrida em Interlagos, Potrero de los Funes definirá o campeão pela segunda vez. Um final sensacional em uma pista sensacional. Aprende, Fórmula 1!

E falando em Fórmula 1, será que ela pisaria por lá? Bom, a licença B dá direito à realização de corridas de GP2 e, na mais otimista das hipóteses, de testes com carros da categoria máxima. Como a possibilidade de uma equipe se dispor a testar na Argentina é basicamente nula e a possibilidade de ter uma corrida da GP2 europeia ou asiática na América do Sul é negativa, fiquemos com as corridas locais e o FIA GT. Até porque, se a Fórmula 1 viesse, muitas coisas teriam de ser modificadas. E todos nós sabemos como isso pode ser prejudicial.

TRAÇADO E ETC.

Não sei quanto a vocês, mas acho o traçado um dos mais bonitos do mundo. À primeira vista, Potrero de los Funes parece bicar em Nürburgring Nordschleife, Enna-Pergusa, Thruxton, Bathurst e Silverstone antigo, só pista legal. Mas o circuito é muito melhor do que um mero desenho engraçadinho. Além do traçado atraente, ele também possui uma vista deslumbrante e um relevo acidentado. Não precisa de mais nada.

Potrero de los Funes é uma pista mista de alta velocidade. Com 6,27 quilômetros de extensão, 14 metros de largura e 22 curvas, o recorde do FIA GT foi obtido em 2008 por Marcel Fässler e seu Chevrolet: 2min13s236, média de quase 170 km/h. Pode parecer pouco, mas é uma média alcançada, com os mesmos carros, em Spa-Francorchamps, por exemplo. O traçado é bastante variado, contemplando curvas velozes, algumas falsas retas, chicanes e ziguezagues. Por ser uma pista semipermanente, o muro está presente durante todo o tempo. De um lado, morros e casinhas. Do outro, a represa.

O que mais chama a atenção, no entanto, é a variação de relevo. As subidas e descidas são tantas que faz até lembrar o circuito de Bathurst, localizado em um morro. Porém, ao contrário da pista australiana, Potrero é larga o suficiente para permitir boas brigas. Para se dar bem aqui, o carro deve ter um equilíbrio de downforce que permita ter boa aderência nas curvas lentas sem perder tempo nos trechos velozes. Na verdade, assim como em Nordschleife, o ideal é ter um carro absolutamente versátil.

Veloz, bonita, moderna, desafiadora e passível de ultrapassagens. Não há nada de ruim a falar sobre Potrero de los Funes. Há aqueles que só acham que ela seria perfeita se não ficasse na Argentina…

Conheça as curvas:

1: É aqui onde os carros largam. Potrero é uma daquelas pistas em que a largada não é feita em linha reta. Para ser bem exato, os carros que largam mais à frente saem exatamente no ápice da curva. Veloz e de raio largo.

2 e 3: Os desafios começam logo aqui. Tão logo o carro completa a linha de chegada na curva 1, ele defronta com a curva 2, feita à esquerda em descida.  Como ela é larga, o piloto deixa o carro escorregar um pouco ao completá-la, de modo a reduzir menos a velocidade. Logo em seguida, há a curva 3, feita à direita em baixa velocidade. A redução de velocidade da curva 2 é intensificada aqui, já que o trecho é bem mais lento.

4: Bathurst tem um trecho parecidíssimo. O piloto atravessa uma reta que mais lembra um tobogã, iniciando-se em descida íngreme para depois subir e se aproximar desta curva de 90° feita à direita. Para completá-la na maior velocidade possível, o carro deve pular por sobre a zebra.

5 e 6: É uma das chicanes do circuito. A 5 é uma perna feita à direita e a 6 é feita à esquerda. A zebra é baixa, o que indica que dá pra passar por cima dela numa boa. Ainda assim, por ser um trecho muito pequeno e estreito, não dá pra ir com muita sede ao pote, até porque há um muro sempre à espreita.

7 e 8: Seria um esse? Mais ou menos. É um dos trechos mais velozes do circuito, se não o mais veloz. A 7 é uma curva feita em descida à esquerda. Por ser de raio longo, é de altíssima velocidade e o piloto nem precisa frear para mergulhar por ela. Logo em seguida, há a curva 8, feita em subida à direita. Também é uma curva de alta, e o piloto só precisa acelerar o máximo que puder. Nessas duas curvas, apesar da alta velocidade, não dá pra ter um carro com pouco downforce.

10: Diria que é o início do trecho misto do circuito. O piloto sai da curva 9, uma curva normal feita à direita, e começa a contornar a curva 10, uma curva de raio considerável que segue continuamente à esquerda, como se completasse um balão. Ele precisará dosar acelerador e freio, pois é um trecho de média velocidade e não há como “folgar” na movimentação do volante. É um dos trechos mais bonitos do circuito.

11, 12 e 13: É talvez o trecho mais lento do circuito. Quando o piloto termina de completar a curva 10, ele é obrigado a esterçar ainda mais para esquerda para completar a curva 11. Logo em seguida, ele vira para a direita para completar a 12, feita à direita. A partir daí, ele começa a reacelerar e imediatamente vira à esquerda para atravessar pela curva 13. É um ziguezague daqueles.

14: Em Long Beach, tem, ou tinha, um trecho muito parecido, só que invertido. O piloto vem de um descidão e é obrigado a frear forte para completar a curva 14, feita à direita. Apesar da curva em si não ser tão fechada, o ladeirão faz com que o carro venha muito rapidamente.

15: Aqui, respira-se um pouco de Bathurst. É uma curva feita em descida à direita. Por ser de alta velocidade, estreita e com o muro bem próximo, lembra demais a The Dipper do circuito australiano. Nada de tirar o pé.

16, 17 e 18: É, mas se o piloto também não aliviar um pouco na 15, ele terá problemas para completar esse completo de curvas de baixa velocidade. O piloto inicia na 16, curva feita à direita em baixíssima velocidade. Logo depois, ele esterça tudo para a esquerda para completar a curva 17. Como o raio dessa daqui é maior, é possível reiniciar a aceleração. Mas não dá pra acelerar demais porque há a curva 18, feita em 180° à esquerda. O piloto deve esperar até mais ou menos o fim dessa curva para reacelerar. É um ziguezague dos mais complicados, talvez o trecho mais difícil de toda a pista.

19: Após o complexo 16, 17 e 18, o piloto enfrenta a curva 19, feita à esquerda. É uma curva de difícil tangenciamento, pois não é possível determinar seu ápice. O piloto entra nela freando até mais ou menos à metade, quando ele começa a ver o restante da pista. A partir daí, ele segue reacelerando e virando levemente para a esquerda.

20 e 21: Mais uma vez, Bathurst na veia. A curva 20 é feita em descida e em alta velocidade. Ela também se assemelha à The Dipper devido à aparência de ziguezague e aos muros próximos. A longa curva 21 que vem logo à seguir é feita à direita e em aceleração.

Anúncios