Acabou Nürburgring. Nessa semana, o governo do estado alemão da Renânia-Palatinado (que nome é esse?) anunciou que o tradicional circuito estava em situação de insolvência e fecharia as portas caso as dívidas de 413 milhões de euros não desaparecessem em um passe de mágica. Dinheiro assim não aparece do nada, todos nós sabemos disso. Por isso, o que sobra para os fãs é abrir o Youtube e se deliciar com algumas das muitas corridas já realizadas por lá. Suspirar e lamentar.

Todos nós ficamos tristes porque Nürburgring é um circuito de cronologia das mais impressionantes na Fórmula 1. Sua primeira aparição no calendário da categoria ocorreu em 1951, mas as corridas de Grand Prix já eram realizadas por lá desde o final dos anos 20, quando a Alemanha ainda era uma república que engatinhava e Adolf Hitler era apenas um pintor frustrado. É evidente que nós salivamos por causa de Nordschleife, que tinha 23 quilômetros de extensão e 160 curvas de puro desafio e perigo. A versão atual, que tem pouco mais de cinco quilômetros, é apenas mediana, mas ao menos conservava a história ali do lado.

A falência de um circuito é sempre uma situação tristíssima para o esporte. Muitos nem ligam, pois são apenas pessoas vazias que não se apegam a nada e não enxergam problema no fim de um registro histórico. Outros com um pouco mais de noção sabem que qualquer coisa que alcança o centenário não poderia simplesmente sumir abruptamente. Não, não acho que o governo deva financiar alguma coisa. Onde estão os grandes empresários do automobilismo, gente como Bernie Ecclestone, Tony Fernandes, Flavio Briatore e Eric Boullier? Impossível que não haja ninguém interessado em Nürburgring. Impossível que um dos circuitos que mais recebem corridas no planeta não consiga ser rentável e interessante a alguém. Se for isso mesmo, seria melhor nos conformarmos, pois é um sinal de que o automobilismo como conhecemos lá na frente estará acabando.

Nürburgring tem histórias para dar e vender. Alguns homens, de Jacky Ickx a Johnny Herbert, tiveram dias muito felizes na pista alemã. Outros, nem tanto. Este blog vê mais beleza no choro e na frustração do que no champanhe e na felicidade abobalhada, veja só. Falo hoje sobre cinco pilotos que tiveram momentos bem infelizes por lá. Para uma situação triste, histórias tristes. Vamos de lenço.

5- TAKUMA SATO

Responda rápido: quando foi que um piloto japonês passou mais perto de uma vitória? Uns citariam o GP do Japão em que Aguri Suzuki chegou ao pódio, outros falariam do GP de Mônaco em que Kamui Kobayashi era o primeiro piloto logo atrás do bolo que envolvia Vetttel, Button e Alonso e ainda haveria quem mencionasse aquele GP dos Estados Unidos onde Takuma Sato obteve seu único pódio na Fórmula 1. Eu não citaria nenhuma dessas ocasiões. Ao invés disso, relembraria o GP da Europa de 2004.

Takuma Sato, que nunca foi um gênio da lâmpada, estava em uma temporada inspirada em 2004. É óbvio que, em seu caso, estar inspirado significa bater apenas de vez em quando e terminar a maior parte das corridas em sexto ou sétimo enquanto seu companheiro Jenson Button brigava por pódios. Mas era o suficiente para ele. O melhor resultado obtido foi exatamente aquele nos Estados Unidos, onde Sato finalizou em terceiro. Mas seu melhor fim de semana foi o de Nürburgring.

Sato chegou à Alemanha devendo uma boa atuação. Ele até conseguiu boas posições de grid em grandes prêmios anteriores, mas colocava tudo a perder durante as corridas. O mau desempenho na sexta-feira indicava que não seria em Nürburgring que as coisas melhorariam. Mas elas melhoraram, e de um dia para outro.

Naquela época, o treino classificatório era realizado naquele hediondo sistema de apenas uma volta rápida por piloto. Sato fez a sua direitinho e conseguiu um inacreditável segundo lugar no grid, atrás apenas do imbatível Michael Schumacher. Aquela havia sido a melhor posição obtida por um japonês na história da Fórmula 1. Como não ficar empolgado?

Pois é, só que empolgação demais faz você tropeçar. Na largada, todo ansioso, Takuma não tracionou legal e foi ultrapassado por Jarno Trulli ainda nos primeiros metros. Logo na apertada primeira curva, ele tentou dar o troco e tudo o que conseguiu foi sair da pista e perder algumas posições. O mau domingo só estava começando.

A briga de Sato era contra Rubens Barrichello pelo segundo lugar. Os dois se perseguiram como gato e rato até depois da última rodada de pit-stops. O japa colou em Barrichello e tentou ultrapassá-lo de maneira arriscada, mas acabou batendo na Ferrari e danificando o bico de seu carro. Foi para os boxes, colocou um novo, voltou à pista e estourou o motor. Fim. Acabou aí o sonho da primeira vitória nipônica na Fórmula 1.

4- MIKA HÄKKINEN

Como pode um bicampeão do mundo ter demorado tanto para ganhar sua primeira corrida na Fórmula 1? Perguntem a Mika Häkkinen, talvez o campeão mais sossegado e preguiçoso da história da categoria. Não o critiquem por isso. Häkkinen é apenas um raríssimo exemplar de piloto humilde, comedido, avesso a badalações e apegado apenas a uma garrafa de vodka e a uma vida tranquila coberta sob a neve finlandesa. Na pista, no entanto, o cara virava um demônio.

Entre 1991 e 1996, Häkkinen teve vários bons resultados, mas ainda lhe faltava talvez certa consistência nos resultados. O amadurecimento veio em 1997, quando a McLaren trocou o vermelho pelo prata e criou o MP4/12, um carro bom o suficiente para vencer de vez em quando. Mika liderou as últimas voltas do GP da Inglaterra, mas teve problemas de motor e acabou indo para casa enquanto Jacques Villeneuve celebrava no pódio. Mas o indivíduo nunca esteve tão próximo da vitória como em Nürburgring, 15ª etapa da temporada.

Não sei que destilado Mika andou bebendo naqueles dias, mas o fato é que ninguém o alcançava naquele fim de semana. Primeiro colocado na primeira sessão livre de sexta-feira. Segundo colocado na segunda sessão. Pole-position com menos de um décimo de vantagem sobre Jacques Villeneuve. “Fiquei nervoso no fim do treino e só fiquei aliviado quando o cronômetro parou”. Primeiro colocado no warm up. Ah, dessa vez, a vitória não lhe escapa.

Häkkinen era o intruso da briga entre Villeneuve e Michael Schumacher, que corria em casa e liderava o campeonato com apenas um ponto de vantagem. Ambos tinham certeza que Mika ganharia facilmente e pensavam estar brigando apenas pelo segundo lugar. Enquanto isso, o finlandês esperava não só ganhar a primeira corrida de sua vida como também dar ao seu país a primeira vitória na Fórmula 1 desde o GP da Austrália de 1985, vencido por Keke Rosberg.

Mika largou bem e se livrou da confusão da primeira curva, que limou Schumacher da disputa e quase colocou os dois carros da Williams na caixa de brita. O companheiro David Coulthard se aproveitou do fuzuê e subiu para a segunda posição, deixando Ron Dennis e a McLaren em êxtase. O futuro bicampeão disparou e só perdeu a liderança no pit-stop. Retornou à pista e parecia vir tranquilo rumo ao seu primeiro trunfo na Fórmula 1. Mas…

Na volta 42, Coulthard teve um problema de motor e abandonou a disputa. O sinal amarelo acendeu na McLaren. Por incrível que pareça, Häkkinen foi vítima do mesmíssimo problema na volta seguinte, quando tinha 17 segundos de vantagem para Villeneuve. Seu motor Mercedes, construído ali perto, explodiu e deixou Mika na mão. O sonho da primeira vitória acabou ali, mas não demorou muito para ser alcançado. O dos dois títulos também não.

3- JEAN ALESI

De todos os anos de serviços prestados à Ferrari, com certa folga, 1995 foi o melhor para Jean Alesi. O francês ganhou sua primeira corrida no GP do Canadá e estava com a moral altíssima na Itália, onde havia muita gente revoltadíssima com a contratação do gélido Michael Schumacher. Faz sentido. Alesi é emoção, é coração. De família nascida na Sicília mafiosa, o piloto francês combinava bastante com aquele climão de festa de família no domingo que permeava a torcida italiana.

O que chateava bastante era o azar crônico de Alesi, que já perdeu muito resultado bom por problemas que escapavam do seu controle. Em mais de uma ocasião somente 1995, Jean viu uma vitória certa escapar por entre os dedos. Situação chata para aquele que considero, sem pestanejar, o segundo maior talento surgido nos anos 90. O caso mais desagradável foi o de Nürburgring.

Alesi não tinha lá grandes esperanças para a corrida alemã. Na sexta-feira, ele não conseguiu fazer muitas voltas. No sábado, quando a pista já havia piorado, seu tempo melhorou apenas um pouco e restou ao francês largar apenas em sexto. O bom é que havia boas possibilidades de chuva para a corrida. E dia de chuva é dia de Jean Alesi.

Pouco antes da largada, a Ferrari decidiu arriscar para ver se conseguia tirar a sorte grande. Pegou os carros de Alesi e de Gerhard Berger, colocou pneus slicks e mudou configurações de asas e suspensão para obter mais downforce. Chovia um pouco e as outras equipes, com exceção da McLaren, estavam com pneus para chuva. Os italianos esperavam que tanto Alesi como Berger tracionassem mal e tivessem problemas nas primeiras voltas enquanto esperariam pela melhora nas condições da pista.

Berger realmente sofreu um bocado, mas Alesi não. Excelente largador, ele manteve sua sexta-posição na largada, passou Johnny Herbert na volta 6 e Eddie Irvine na volta 9. Durante a primeira rodada de pit-stops, Schumacher e os dois pilotos da Williams entraram nos boxes para colocar pneus slicks. Nisso, Jean acabou assumindo a liderança. Com enorme vantagem.  E apenas um pit-stop previsto. Num primeiro momento, a Ferrari acertou em cheio na aposta.

Alesi liderou durante quase todo o tempo e não perdeu a ponta nem sequer quando entrou nos boxes. Tudo vinha muitíssimo bem até o terceiro pit-stop de Schumacher, que voltou como um foguete para a pista. O maldoso alemão começou a tirar cerca de dois segundos por volta e se aproximou perigosamente em um intervalo de vinte voltas. Enquanto isso, o ferrarista francês se embananava com retardatários e pequenos erros.

Na volta 65, impotente, Alesi tomou uma covarde ultrapassagem por fora de Schumacher na última curva. O sonho da vitória acabou ali. Restou a ele se contentar com o segundo lugar. Como sempre.

2- TEO FABI

O carequinha Teo Fabi é dono de uma das estatísticas mais estranhas que eu já vi. Ele foi o piloto que mais fez poles sem ter conseguido liderar uma única volta. Em três ocasiões, ele largou na primeira posição e não manteve a liderança nem sequer durante o primeiro giro. Como isso aconteceu? Peguemos um exemplo, o GP da Alemanha de 1985, onde Fabi registrou sua primeira pole.

Naquela temporada, o italiano era piloto da Toleman, ex-equipe de Ayrton Senna. Financiada por um empresário do ramo de transportes, a Toleman era uma boa escuderia, mas havia tido um início de ano extremamente conturbado. Sem ter um contrato de pneus, ela não conseguiu participar das três primeiras etapas. A partir do GP de Mônaco, um acordo com a Pirelli foi assinado às pressas e o carrinho branco adornado com bandeiras de vários países pôde, enfim, entrar na pista.

Para a etapa de Nürburgring, a nona de 1985, a Toleman contava com uma pequena mas significativa novidade. Um novo sistema eletrônico instalado no motor Hart aprimorou a injeção de combustível no turbocompressor e aumentou significativamente a potência. Como o pneu Pirelli fazia seu trabalho direito e o chassi era, segundo o próprio Teo Fabi, o melhor da Fórmula 1, não seria difícil esperar um bom resultado do italiano.

Mas não era pra tanto, né? A sexta-feira simplesmente pertenceu a Fabi, que liderou o treino livre e ainda ponteou o primeiro treino oficial, marcando um tempo 1s2 mais veloz que o do segundo colocado Stefan Johansson e 1s5 melhor que o recorde estabelecido por Nelson Piquet em 1984. Um papa-léguas, por assim dizer. Após o treino, Teo comentou apenas uma coisa: “espero que chova”.

E choveu! Como a pista ficou muito ruim, ninguém conseguiu melhorar sua marca no segundo treino oficial e Teo Fabi acabou ficando com sua primeira pole-position na temporada. Só que a felicidade durou muito pouco no domingo.

Fabi tracionou pessimamente e perdeu um monte de posições logo antes da primeira curva, fechando a primeira volta em oitavo. Ficou por lá durante algum tempo até as quebras de Nelson Piquet e Ayrton Senna, que fizeram com que o italiano subisse para a sexta posição. Só que seu carro também não durou muito mais. A embreagem foi para o saco e Teo abandonou na volta 29. As bandeirinhas do Toleman não viram a bandeira quadriculada.

1- LUCA BADOER

Essa história aqui é conhecida por todos. Quem não se comoveu é psicopata e precisa de tratamento psicológico. Um dos momentos mais tocantes da história da Fórmula 1, sem dúvida alguma.

Vocês conhecem Luca Badoer, eterno piloto de testes da Ferrari que só pegou lasqueira nos dias em que foi nomeado como titular: Scuderia Italia, Minardi, Forti-Corse e aquela F60 zicada de 2009. Campeão da Fórmula 3000 Internacional em 1992, Badoer foi mais um desses muitos milhões de pilotos italianos que até tinham talento, mas não contavam com o timing ou a ajuda do destino. Graças a tudo isso, ele encerrou a carreira com um recorde bastante infeliz, o de grandes prêmios disputados sem ter marcado um único ponto. Luca esteve inscrito para 58 GPs e largou em 50 deles. Obteve um sétimo lugar como melhor resultado, mas numa época em que apenas os seis primeiros pontuavam. É o tal do timing.

Por muito pouco, ele não quebrou este estigma. No GP da Europa de 1999, Luca faria sua antepenúltima corrida pela Minardi na temporada. Ele havia sido contratado meio que na falta de opção, pois ninguém mais queria pagar uma fortuna para pilotar um carro tão desgraçado. Badoer também não tinha lá muitas ambições na pequena equipe italiana. O máximo que dava para fazer era tentar largar em 19º e chegar ao fim com o carro inteiro. A primeira parte foi concluída: ele superou os rivais diretos Marc Gené, Pedro de la Rosa e Toranosuke Takagi e conseguiu o 19º lugar no grid, a pole-position entre a turma do fundão.

Embora houvesse previsão de chuva, Luca Badoer não estava esperando muito, pois havia dezoito carros melhores que o seu. Mas aquele GP da Europa foi diferente. Logo de cara, houve um acidente que quase arrancou fora a cabeça de Pedro Paulo Diniz. O brasileiro continuou com tudo no lugar, mas ele e mais dois pilotos saíram da corrida logo de cara. Era um sinal de que absolutamente tudo aconteceria nesta corrida.

A chuva vinha e voltava, enlouquecendo pilotos e estrategistas. Nos boxes, mecânicos bem nutridos, razoavelmente pagos e muito bem treinados cometiam cagadas absurdas e prejudicavam gente como Mika Häkkinen e Eddie Irvine. O corno Heinz-Harald Frentzen liderou as 32 primeiras voltas, mas teve problemas elétricos e abandonou. Outros pilotos que assumiram a liderança também se deram mal. O primeiro lugar se tornou uma posição amaldiçoada. Estava tudo enlouquecido em Nürburgring.

No meio disso, o humilde Luca Badoer fez apenas um pit-stop, fugiu de todas as adversidades e assumiu uma inacreditável quarta posição na volta 51. Todo mundo foi pego de surpresa. Após 54 GPs, Luca finalmente faria seus primeiros pontos na Fórmula 1. Era só uma questão de levar o modesto Minardi M01 para casa.

Mas aquela corrida estava louca demais até mesmo para um underdog. A alegria não durou mais do que três voltas. No giro 54, o demônio do câmbio de seis marchas quebrou. Não deu para fazer mais do que alguns metros com a transmissão destroçada. Foi o fim do sonho.

Badoer parou o carro na grama, colocou o volante na barra de direção e não conseguiu se segurar. Agachou, debruçou-se sobre o cockpit e começou a chorar feito uma criança. Até mesmo o calculista fiscal alemão ao lado se comoveu e lhe deu uns tapinhas nas costas. Ao redor do mundo, milhares de pessoas devem ter ficado com o coração partido. Luca não merecia isso, mas a vida é realmente amarga com algumas pessoas.

GP DA ALEMANHA: Hockenheim bom vocês sabem qual que é. Aquele imponente, majestoso, extremamente veloz, erguido em plena Floresta Negra alemã, constituído por retas intermináveis interrompidas por chicanes apertadas. Morto. Entre 2001 e 2002, Hermann Tilke e alguns peões de obra operaram um dos maiores crimes já cometidos contra um autódromo. Graças às pressões de alguns ecologistas desocupados e maconheiros e de Bernie Ecclestone, que queria economizar no gasto com infraestrutura, Tilke e amigos deceparam metade do circuito e construíram isso aí que temos hoje. O atual Hockenheim é limpo, lustroso, geométrico, não tem uma ondulaçãozinha sequer, permite boas ultrapassagens e tem banheiros limpos, mas é um lugar frustrante para quem aprendeu a gostar daquele traçado que quase se assemelhava a um oval. Mas fazer o quê? Como 2012 é ano par, Hockenheim está de volta. Ninguém está muito animado. Felipe Massa, então… Esse daí deve ter calafrios toda vez que pensa nesta pista. Você pode confirmar isso?

NÜRBURGRING: Hockenheim não é mais aquelas coisas, mas ao menos anda pagando suas contas em dia. O mesmo não pode ser dito de seu primo Nürburgring, um dos circuitos de maior história no automobilismo mundial. A versão atual também não faz jus ao antigo traçado de vinte e poucos quilômetros, mas ao menos não precisou destruir nada para existir. Também se tratava de uma pista insossa e sem grandes atrativos, mas ao menos divertia um pouco quando chovia. Porém, para a infelicidade de todos, os passivos da administração estavam gigantescos. Em maio, a sociedade que gerencia o autódromo estava esperando abocanhar um empréstimo de 13 milhões de euros que a União Europeia havia prometido para a Alemanha. O tal empréstimo não foi aprovado ainda e a resposta só será dada no dia 31 de julho. O problema maior é que os débitos alcançam 413 milhões de euros, 330 milhões dos quais aplicados na construção de um parque de diversões, e seus prazos estavam estourando. Sem saída, o ministro do estado da Renânia-Palatinado anunciou que a única saída para o insolvente Nürburgring era a falência. Caso nenhum milagre aconteça, o circuito alemão desaparecerá para todo sempre e seu terreno acabará sendo comprado por uma igreja neopentecostal ou uma empreiteira brasileira que constrói apartamentos de gesso de 38m². Mesmo que a pista atual esteja longe de ser a minha favorita, simplesmente não há como não lamentar profundamente o ocorrido. A história prova que não é mais forte do que a contabilidade. Bateu no vermelho, encerrou as atividades. Mesmo contra os corações de milhares de fãs.

WEBBER: O Mark Webber do ano passado era praticamente um funcionário público em vias de se aposentar: velho, desanimado e burocrático. Aquela vitória dada de presente em Interlagos parecia ser o prego que faltava no caixão da carreira do australiano. De repente, entramos em 2012 e todo mundo voltou à briga pela vitória. Surpreendentemente, aquele mesmo Webber borocoxô do ano passado foi um dos dois únicos pilotos a terem vencido mais de uma corrida até agora. Em Silverstone, ele teve uma grande atuação e ganhou, se aproximando bastante do líder Fernando Alonso na tabela de pontuação. Dois dias depois, a Red Bull anunciou a renovação de seu contrato para a próxima temporada, finalizando uma série de boatos que colocavam o australiano numa Ferrari vermelha como suco industrializado de morango. Aos 35 anos, Mark fará em 2013 sua sétima temporada pelo time toureiro, o que comprova que Christian Horner e Dietrich Mateschitz o adoram e as opiniões negativas do impreciso Helmut Marko não valem muita coisa. Turbinado pela vitória e pela renovação de contrato, Webber até se deu ao luxo de voltar a fazer o que sabe mais, falar o que pensa. Sua última declaração se referia a Hockenheim, uma pista que “não é emocionante de pilotar e nem técnica”. Mark ainda completou dizendo que “preferia muito mais Nürburgring”. O australiano pode não ser o piloto favorito de ninguém, mas ganha pontos por ser um dos poucos que não proferem bobagens politiqueiras com um sorriso amarelo no rosto.

GROSJEAN: Ei, cara, se você precisa dos serviços de um consultor, um conselheiro, um aspone, pega aí meu cartão de visitas e dá uma ligada, OK? Foi exatamente isso que Romain Grosjean ouviu da boca sacra do tricampeão Jackie Stewart num dia desses. Stewart, piloto histórico e dono de equipe digno, afirmou que estava impressionado com a velocidade do piloto franco-suíço, mas que ele não deveria estar sofrendo tantos acidentes como teve até aqui. Bem intencionado e pensando também em fazer uma grana extra, Jackie se ofereceu para oferecer algumas dicas a Grosjean com o objetivo de domar um pouco seus instintos selvagens. O convite pode soar como um acinte para uma personalidade mais agressiva, mas as estatísticas não mentem. Romain é, ao lado do folclórico Pastor Maldonado, o maior causador de acidentes desta temporada segundo uma pesquisa inútil feita pela Auto Motor und Sport. O próprio se manifestou e culpou sua inexperiência dentro da Lotus. Para ele, as demais equipes grandes têm a vantagem de estarem com a mesma dupla de pilotos há muito tempo. É uma boa desculpa, mas não justifica tudo. Calma, Sideshow, calma.

KOBAYASHI: Passado o culto, vieram as cobranças. Hoje, Kamui Kobayashi é apenas um participante do meio do pelotão que atrai antipatias pelos seus acidentes bobos e pela sua cara de bobo. O mais foda é que seu companheiro é mais novo, mais eficiente e infinitamente mais midiático, pois bajula humoristas de seu país e ainda é apadrinhado pelo homem mais rico do planeta. Falta apenas ter o carisma, o descompromisso e talvez a picardia do japa, que conquistou uma torcida enorme após duas corridas em 2009. Na época, todos ficamos sabendo que sua carreira corria risco e que ele teria de enrolar bolinhos de arroz no restaurante do papai se não arranjasse emprego em 2010. Infelizmente, o tempo voou e hoje Koba é talvez um dos maiores candidatos ao desemprego no ano que vem. Diz a lenda que a Sauber não estaria nem um pouco satisfeita com seu desempenho e que poderia colocar Heikki Kovalainen em seu lugar. Outros candidatos à sua vaga seriam o cucaracho Esteban Gutiérrez, da GP2, e o espanhol Jaime Alguersuari, atualmente DJ e comentarista da BBC. Que me perdoe o ótimo Kovalainen, mas nenhum deles é mais interessante do que Kobayashi. O que pega é que o japa não está em uma grande fase na pista e ainda é um dos poucos do grid atual que estão totalmente vulneráveis. Qualquer cara mais intere$$ante toma sua vaga sem grandes problemas. Lamentável, ainda mais quando temos sobrinhos e indianos loteando o grid.

RED BULL9,5 – Voltou a ser a melhor equipe da Fórmula 1. Perdeu a pole-position para o iluminado Fernando Alonso, mas loteou o pódio com seus dois carros azulados e lotados de fotografias. E nada como um bom trabalho em equipe para fazer tudo funcionar. Mark Webber ganhou a corrida porque andou rápido e também porque foi beneficiado por uma estratégia que lhe permitiu ter pneus bons o suficiente para ultrapassar Alonso no final. Sebastian Vettel não foi tão bem no treino oficial, mas pisou fundo e foi amplamente ajudado pelos mecânicos nos pit-stops. Graças a tudo isso, um bom terceiro lugar. Alain Prost disse que a equipe rubrotaurina será campeã de novo. Se Alonso não tomar cuidado e a McLaren não reagir, o narigudo não estará errado.

FERRARI8,5 – Aquele negócio do F2012 ser um tanque de guerra equipado com motor de mobilete definitivamente virou lenda. O carro está funcionando bem e, desta vez, os dois pilotos andaram muito. A grande novidade foi ver Felipe Massa fazendo um fim de semana bastante satisfatório. Ele largou em quinto, esteve sempre combativo e só não terminou no pódio porque a Red Bull foi mais esperta no pit-stop de Sebastian Vettel. Já Fernando Alonso das Astúrias marcou uma pole-position inesquecível, mas perdeu a vitória porque estava com pneus remold nas últimas voltas. Enfim, dava para ter sido melhor, mas não foi ruim, não.

LOTUS8 – Começo a acreditar que, por incrível que pareça, o problema da equipe é a dupla de pilotos. Romain Grosjean é muito veloz e está altamente motivado, mas não acerta duas seguidas. E Kimi Räikkönen é o personagem preguiçoso e indolente de sempre. O carro estava muito bom no seco e poderia ter facilmente obtido um pódio, mas os pilotos não fizeram sua parte. Grosjean rodou sozinho no sábado e bateu na largada, mas recuperou-se e terminou em sexto. Räikkönen esteve sempre ali, entre os primeiros, e terminou grudado atrás de Felipe Massa, mas me deu a incômoda impressão de não ter feito tudo aquilo que poderia. Tudo muito bom, tudo muito bem, mas cadê a porra da primeira vitória?

MERCEDES5 – Só não passou o fim de semana em branco porque Michael Schumacher teve um fim de semana digno. O velho largou lá da terceira posição e permaneceu por lá até ser ultrapassado por Felipe Massa. Sem pneus, despencou e terminou apenas em sétimo. Pelo menos, pontuou, algo que não aconteceu com seu companheiro Nico Rosberg. O infeliz largou lá atrás, perdeu posições na largada, teve problemas em um dos pit-stops e terminou numa posição completamente miserável. E o carro segue totalmente imprevisível.

MCLAREN4 – É verdade, seus mecânicos não cometeram nenhum erro absurdamente bisonho no grande prêmio. Bem que tal feito poderia ter sido alcançado num fim de semana melhorzinho. Lewis Hamilton e Jenson Button até pontuaram, mas suas participações foram quase constrangedoras. Lewis ainda foi mais feliz e andou sempre entre os dez primeiros, mas uma estratégia estranha pra caramba acabou com seu dia. Jenson Button teve um bom revival de seus tristes dias de Honda em 2008 e andou do meio para trás durante quase todo o tempo. Marcou um ponto na pura boa vontade do destino.

WILLIAMS3 – Com esses dois pilotos aí, não há FW34 que ajude. Bruno Senna e Pastor Maldonado, em momentos distintos, deram bons prejuízos à equipe de Grove em Silverstone. O brasileiro bateu feio na sexta-feira, mas ao menos se redimiu e marcou dois pontinhos no domingo após duelar com Nico Hülkenberg. Sempre mais alucinado, Maldonado tinha totais chances de pontos após obter um sétimo lugar no grid. O sonho acabou após ele bater de maneira beócia no carro de Sergio Pérez. Se não fosse a estupidez do venezuelano e o conservadorismo do sobrinho, a Williams estaria nadando em pontos neste momento.

SAUBER4,5 – Saiu da Inglaterra sem um pontinho sequer, o que me soa injusto. Tanto Sergio Pérez quanto Kamui Kobayashi poderiam ter pontuado normalmente, mas as vicissitudes da vida não deixaram. O mexicano vinha muitíssimo bem, mas foi atropelado por Pastor Maldonado e teve de sair da corrida. Kobayashi poderia ter salvado o dia, mas atropelar seus mecânicos em um dos pit-stops não é o caminho mais seguro para o sucesso. O resultado final foi uma pena, já que o carro estava bom e os dois pilotos fizeram um trabalho bacana nos treinos livres. Mas como treino não conta nada, só resta o choro.

FORCE INDIA3,5 – Esperava muito de Paul di Resta, que corria diante de seus conterrâneos de saia, mas o cara pouco produziu. Esteve discreto nos treinamentos e acabou atingido por Romain Grosjean na largada, abandonando logo de cara. Quem apareceu melhor foi Nico Hülkenberg, que voou baixo no treino oficial. Infelizmente, a sorte não esteve ao seu lado. A punição causada pela troca de câmbio e a má estratégia fizeram com que ele não marcasse pontos. O carro vinha melhorando nas últimas etapas, mas Silverstone veio apenas para cumprir tabela.

TORO ROSSO3 – Deus que me perdoe, hein? Tenho dó de Daniel Ricciardo e Jean-Eric Vergne, dois jovens talentosos que estão apenas manchando sua imagem com um carro tão ruim. O australiano até que fez um trabalho razoável no treino oficial, mas voltou a se embananar na largada e terminou em posição pior do que largou. Vergne largou lá da última fila e só ganhou boas posições na largada. Os dois, mesmo tendo tomado caminhos diferentes durante o fim de semana, terminaram mais ou menos próximos. Ambos chafurdados na lama.

CATERHAM3 – Dessa vez, não fez nenhum brilhareco, não ameaçou a Toro Rosso e ficou ali, sendo aborrecida por Marussia e HRT em momentos pontuais. Vitaly Petrov não largou por causa de um problema no motor Renault, que engripou antes mesmo da largada – a montadora francesa está de sacanagem, pois esse tipo de coisa nunca acontece na Red Bull. Quanto a Heikki Kovalainen, este aqui largou mal, caiu para a lanterna, recuperou algumas posições e chegou ao fim, naquele mesmo patamar de sempre.

MARUSSIA3 – Não trouxe grandes novidades. Timo Glock e Charles Pic terminaram a corrida sem grandes encrencas. O alemão fez o seu trabalho de sempre, mas o francês teve inúmeros problemas nos treinos e não conseguiu sequer largar à frente dos carros da HRT. Na corrida, contudo, a ordem natural das coisas foi restabelecida. Em se tratando de uma equipe que não chorou a morte de Maria de Villota por pouco, não deixa de ser algo bom.

HRT3 – Como estou com preguiça para ficar inventando notas para as equipes pequenas, emplaco mais um 3 para uma equipe que não brilhou e também não comprometeu. Pedro de la Rosa merece uma medalha Pierre de Coubertin pela inglória tarefa de pilotar o F112 tendo feito apenas uma troca de pneus. Não é das coisas mais fáceis dirigir um troço daqueles com pneus extremamente desgastados. Narain Karthikeyan não teve de passar por um sufoco tão grande. Largou, se divertiu um pouco e chegou ao fim.

TRANSMISSÃOLIMITE DAS LIMITAÇÕES – Eu fiquei, como posso dizer, IMPRESSIONADO. O narrador principal da transmissão brasileira foi sacado para narrar rinha de galo e, em seu lugar, foi escalado ninguém menos que seu empolgado e IMPRESSIONANTE substituto. Como já faz mais de uma semana que a corrida foi realizada, meu precário sistema nervoso não me permite lembrar de muita coisa. Mas não poderia deixar de me esquecer desta bela tautologia proferida em um mágico momento filosófico, quando era debatida a fascinação gerada pelo automobilismo, que “desafia o limite imposto por certas limitações a mais de 300km/h”. Devem ser limitações impressionantes, estas. Menção honrosa para a presença do ex-tenista Sebastien Grosjean, que o narrador enxergou no carro preto da Lotus. É muito Sebastien e muito Grosjean para uma única e limitada cabeça.

CORRIDAO SALTO DE WEBBER – Eu o vejo pular no pódio como uma rã assanhada desde os tempos da Fórmula 3000. Em Silverstone, os saltos são mais comuns do que em outras pistas. Pelo visto, Mark Webber adora o veloz circuito inglês, conhecido seu desde os remotos tempos de Fórmula Ford. O australiano largou na segunda posição e tomou a vitória de Fernando Alonso no final, obtendo sua segunda vitória no ano. Aliás, Don Alonso das Astúrias também merece menção. Aquela pole-position em uma pista que secava foi sensacional. E sua corrida, até a ultrapassagem de Webber, foi impecável. Pena que Silverstone não proporcionou tanta diversão assim lá atrás. Infelizmente, a nova Fórmula 1 conseguiu a proeza de transformar os circuitos mais velozes do ano nos menos emocionantes. Quem poderia imaginar que Silverstone, Spa-Francorchamps e Suzuka renderiam corridas piores do que Barcelona?

GP2VITÓRIA DA BAHIA – Falar em Vitória e Bahia na mesma frase soa engraçado. Luiz Razia ganhou mais uma, sua quarta vitória no ano. Foi no domingo, mas e daí? Sentou a bota no acelerador, peitou Davide Valsecchi no início da corrida, assumiu a liderança logo na segunda volta, conteve os ataques do italiano e de Felipe Nasr e ganhou. Nesse momento, ocupa a liderança da temporada e alimenta a esperança de muita gente aqui no Brasil. Nasr, aliás, também mandou bem pra caramba e terminou numa ótima terceira posição. Que beleza. A corrida do dia anterior foi vencida por Esteban Gutiérrez, que herdou a vitória após o pobre Fabio Leimer não ter entrado nos boxes para fazer seu pit-stop durante o safety-car. Bobeou, dançou. E Gutiérrez, que vem crescendo na temporada, levou.

GP3BULLYING – A desinteressante GP3 teve um fim de semana bom, até. As corridas não foram estritamente divertidas, mas os poucos bons pilotos que competem por lá deram um belo show. O vencedor da primeira corrida de sábado foi Antônio Félix da Costa, que não tem nada a ver com o peixe Gomes da Costa. O luso ultrapassou Mitch Evans e Aaro Vainio e sumiu na liderança, finalizando a prova sete segundos à frente do neozelandês. Mas inacreditável mesmo foi a atuação de Will Buller na corrida do domingo. O inglês foi um dos poucos que largaram com pneus slicks, tomou cuidado nas primeiras voltas e sentou o pé quando a pista começou a secar. Graças a isso, ele conseguiu sair da 25ª para a primeira posição em apenas dez voltas. Sim, é isso mesmo que você leu: 24 posições ganhas em dez voltas, caralho! Chupa, “Jô” Watson. O bullying do Will não será repetido por ninguém tão cedo.

MARK WEBBER9,5 – Não fez uma corrida totalmente genial, mas sua fria eficiência foi o suficiente para lhe garantir a segunda vitória na temporada. Passou apuros nos treinos livres, mas deu-se muito bem no Q3 da classificação e pegou um segundo lugar no grid após ter sido um dos espertões a terem utilizado pneus intermediários nos últimos minutos. Na corrida, não deixou Fernando Alonso escapar e optou pela melhor das estratégias, a de fazer as primeiras voltas com pneus macios e o restante com compostos duros. No final da prova, tinha muito mais carro que o asturiano rabudo e o ultrapassou sem dificuldades. Depois, partiu apenas para a bandeirada de chegada. É um mestre em Silverstone e se continuar assim daqui em diante, poderá tentar brigar pelo título que não veio em 2010.

FERNANDO ALONSO9 – Ah, aquele rabudo do caralho. Quem não pensou isso após ver o ferrarista espanhol sacanear o cronômetro e marcar uma bela pole-position na pista que secava? Após o sábado, não adiantava espernear, Alonso era o fodão e ponto final. Para felicidade dos detratores, o domingo não foi perfeito. Quer dizer, tudo deu certo até a volta 48. Fernando largou bem de novo e tentou abrir vantagem logo no começo. Fez seus pit-stops normalmente e parecia vir rumo à terceira vitória no ano. Seu grande problema residia nos pneus macios que ele teve de utilizar no último stint. Com um carro lento e sambador, o asturiano não resistiu à ultrapassagem fácil de Webber e teve de se contentar com um segundo lugar. Mas não tem problema. Alonso sabe pegar um segundo lugar e fazer dela uma boa limonada lá no final do ano.

SEBASTIAN VETTEL8 – É piloto de ponta porque sabe fazer uma corrida correta e eficiente quando as condições não parecem as melhores. Sofreu um pouco nos treinos e não passou do quarto lugar no grid. Na primeira volta da corrida, largou mal e perdeu o duelo contra Felipe Massa. Recuperou algumas posições no primeiro pit-stop e conseguiu reduzir bastante a diferença para Fernando Alonso nas últimas voltas da corrida. Não o ultrapassou, mas ao menos assegurou um lugar no pódio. Para alguém que não venceu em Silverstone nos últimos dois anos, não foi um domingo no parque tão aborrecido assim.

FELIPE MASSA8,5 – Até que enfim. Até que enfim! Como é bom ver um Felipe Massa agressivo, combativo e que não roda pra lá e pra cá no asfalto de Silverstone. Liderou o Q3 durante algum tempo e conseguiu um quinto lugar legal no grid. Largou bem, deixou Vettel falando sozinho e passou as dez primeiras voltas atacando Michael Schumacher, o terceiro colocado. Após muito tentar, logrou ultrapassar o heptacampeão e chegou a sonhar com um pódio que não acontece desde o GP da Coréia de 2010. Infelizmente para ele, a Red Bull fez um ótimo trabalho no primeiro pit-stop de Sebastian Vettel e o alemão subiu facilmente para o terceiro lugar. Mesmo assim, Massa não desanimou e conteve os ataques do autista Kimi Räikkönen. Terminou num bom quarto lugar e deve o resultado ao seu psicólogo.

KIMI RÄIKKÖNEN8 – Corrida boa e combativa, digna do Batman, mas nada de excepcional, digna de alguns filmes do super-herói. Teve problemas com o KERS e com a estratégia na qualificação, mas ainda conseguiu um sexto lugar na grelha. Nos primeiros metros, não largou mal, mas se embananou e acabou fechando a primeira volta em sétimo. A partir daí, destacou-se por fazer uma ultrapassagem sobre Michael Schumacher e por pressionar Felipe Massa nas últimas voltas. Terminou em quinto e novamente se deu melhor que Romain Grosjean, que ainda late mais do que morde. Ah, e fez sua milionésima volta mais rápida na carreira.

ROMAIN GROSJEAN7,5 – Difícil avaliar, pois teve altos e baixos neste fim de semana anglo-saxão. No primeiro treino livre de sexta-feira, foi o mais rápido. No sábado, poderia ter feito algum milagre no Q3, mas não se ajudou muito ao rodar na chuva no final do Q2. A maré de revezes continuou na primeira volta da corrida, quando ele e Paul di Resta bateram. Parecia que o fim de semana do suíço havia acabado, mas ele e sua equipe fizeram um trabalho muito bom a partir daí. Com uma boa estratégia de usar pneus duros nos dois últimos stints, Romain conseguiu recuperar milhões de posições e terminou numa brilhante sexta posição. Se o rapaz se envolvesse em um pouco menos de problemas, estaria muito à frente de Kimi Räikkönen na temporada.

MICHAEL SCHUMACHER6,5 – Com um ótimo terceiro lugar no grid, poderia ter tentado obter um resultado tão bom como o obtido em Valência. Só que, dessa vez, não deu. O heptacampeão largou bem e se manteve firme na terceira posição nas primeiras voltas, não abrindo espaço para um faminto Felipe Massa. Com o passar das voltas, o carro prateado começou a perder desempenho e Michael não só perdeu a posição para o brasileiro como começou a ter problemas com os demais pilotos. No final da corrida, estava em oitavo e só conseguiu o sétimo lugar porque Lewis Hamilton havia torrado seus pneus nos últimos instantes.

LEWIS HAMILTON4,5 – Teve mais um desses fins de semana esquisitos que vêm marcando sua temporada. Liderou um treino de sexta-feira e parecia ter um carro para brigar pelos primeiros lugares, mas dançou no amalucado Q3 da classificação e partiu apenas da oitava posição. Sem grandes chances na pista, ele e a McLaren decidiram arriscar tudo na estratégia. Adiou ao máximo seu primeiro pit-stop, mas não se recuperou como esperava. Então, decidiu fazer seu segundo pit-stop apenas sete voltas depois para ver no que dava. Não deu em nada e Lewis ainda terminou a corrida quase sem borracha. Frustrado, a ele restou apenas levar umas dez moças da vida para um hotel para chorar as pitangas.

BRUNO SENNA6,5 – Para quem nunca tinha feito um fim de semana em Silverstone como piloto de Fórmula 1, concedido o carro a Valtteri Bottas no primeiro treino livre e batido muito forte no segundo treino livre, o resultado final foi é bom demais da conta. Bruno voltou a andar mal na qualificação, mas ao menos continuou provando que é o único piloto com neurônios na Williams. Largou muito bem, andou direito e levou a melhor em um belo pega com Nico Hülkenberg nas últimas voltas. Marcou mais dois pontos e segue fazendo seu trabalho de formiguinha: humilde, discreto e eficiente. Só não pode exagerar na humildade.

JENSON BUTTON1,5 – O buraco não tem limite. O negócio está tão feio que Jenson chegou a demonstrar satisfação por ter levado um ponto para casa. Compreensível, mesmo que o solitário pontinho só tenha vindo por lobby dos deuses ingleses. Button não merecia nada, essa era a verdade. Teve um horrendo treino qualificatório, no qual não passou pelo Q1 e só conseguiu a 16ª posição no grid graças a punições de outros caras. Até largou bem, mas errou na estratégia e acabou tendo de usar os insuficientes pneus macios no segundo stint. Nas últimas voltas, estava em 11º e deve agradecer a Nico Hülkenberg por ter terminado em décimo.

KAMUI KOBAYASHI3 – Fim de semana infelicíssimo, com direito a um strike. Ao entrar nos boxes para fazer seu primeiro pit-stop, os freios do Sauber do piloto japonês falharam e ele acertou uns 200 mil mecânicos que estavam ali, prontos para fazer alinhamento, balanceamento e polimento. Um dos coitados cortou a perna, mas felizmente não houve nada de mais grave. Se não fosse por este infortúnio, o fim de semana do nipônico teria sido apenas apagado. Ele andou muito bem nos treinos livres, mas largou lá atrás por causa da punição recebida pelo acidente em Valência. No domingo, tentou uma dessas estratégias doidonas típicas da Sauber e não conseguiu pontuar.

NICO HÜLKENBERG4 – O resultado não faz jus ao que o alemão fez no fim de semana. Não que o espírito de Jim Clark tenha baixado nele, mas o cara, sempre tão discreto, teve bons momentos e merecia alguns pontinhos. Foi uma das atrações do treino classificatório, quando ocupou a segunda posição no Q1 e no Q2. Na última sessão, ficou em nono, mas teve de largar em 14º por causa de uma troca de câmbio. A corrida também não foi boa, graças à estratégia porca escolhida pela Force India. Nico teve de usar pneus macios no final da corrida e acabou se ferrando, caindo da nona para a 12ª posição nas voltas derradeiras.

DANIEL RICCIARDO4 – Completou um ano como piloto titular de Fórmula 1 com um fim de semana razoável, ou ao menos ligeiramente melhor do que os anteriores. Começou bem, fazendo um surpreendente segundo tempo debaixo do temporal do primeiro treino de sexta-feira. No sábado, obteve o 12º lugar no grid, bom resultado se considerarmos a ruindade de seu carro. O domingo é que foi ruim pra caramba. Ricciardo teve uma primeira volta problemática e caiu para 17º. Dali para frente, não fez nada de muito extraordinário e terminou lá no meio do bolo, como sempre.

JEAN-ERIC VERGNE3 – Pelo visto, sua sina é a de ter de largar lá atrás, aconteça o que acontecer. Dessa vez, ele até conseguiu avançar para o Q2, mas sua posição de largada ficou comprometida pela punição resultante do acidente com Heikki Kovalainen em Valência. Na corrida, ao contrário do companheiro Ricciardo, largou bem e pulou para 16º na primeira volta. Contudo, a falta de velocidade de seu carro não lhe permitiu melhorar muito. Terminou mais ou menos na mesma.

NICO ROSBERG1 – Fim de semana tenebroso, digno daqueles do início do campeonato. A loirinha só conseguiu um quarto lugar no encharcado primeiro treino de sexta-feira. Depois disso, só tristeza. No treino qualificatório de sábado, passou pelo Q1 no sufoco e ficou apenas em 13º no grid de largada. O domingo não começou melhor: uma péssima largada empurrou Rosberg para a 15ª posição na primeira volta. A equipe também não colaborou muito ao errar na estratégia e ainda perder um bocado de tempo no segundo pit-stop. Enfim, tudo o que poderia ter dado errado aconteceu e com gosto.

PASTOR MALDONADO2 – Uma besta. Do que adianta ser tão rápido se põe tudo a perder em um único instante e joga fora uma bolada de pontos? Em Silverstone, Pastor voltou a acelerar como poucos, andou muito bem na qualificação e obteve uma ótima sétima posição no grid. Vinha andando entre os primeiros até fazer seu primeiro pit-stop. Ao retornar para a pista, se engalfinhou com Sergio Pérez durante alguns instantes e acabou enfiando um tiro de meta no carro do mexicano. Os dois rodaram e o venezuelano despencou para as últimas posições, não saindo mais de lá. Uma besta, repito.

HEIKKI KOVALAINEN4 – De brilhante, um sétimo lugar no segundo treino livre de sexta-feira, graças à pista encharcada. No restante do fim de semana, o bom trabalho de sempre. Não conseguiu superar Vitaly Petrov no grid de largada e também não largou bem, mas recuperou-se rapidamente em relação aos carros de Marussia e HRT e chegou ao final da prova. Dessa vez, não há muito o que falar.

TIMO GLOCK4 – Apareceu razoavelmente bem nos treinos de sexta-feira e disse que não passou para o Q2 unicamente por causa da chuva, algo que não dá para acreditar muito. Na corrida, fez mais ou menos o de sempre e conseguiu chegar ao fim. Também não há muito o que dizer.

CHARLES PIC2,5 – Chegou ao fim, mas sofreu um bocado com o carro e com os rivais da HRT. Teve uma série de problemas nos treinos e foi obrigado a trocar o câmbio, o que lhe renderia cinco posições a menos no grid de largada. Como o cara ficou em último de qualquer jeito no Q1, os infortúnios pouco pioraram. No domingo, andou atrás de Pedro de la Rosa até o segundo pit-stop, quando sua equipe finalmente fez um trabalho digno nos boxes e o devolveu à frente.

PEDRO DE LA ROSA3,5 – Foi o único dos moicanos a tentar uma estratégia de um único pit-stop, feito na volta 27. Isso significou que o espanhol teve de pilotar uma tartaruga motorizada com pneus macios durante 23 intermináveis voltas. Pelo menos, ele conseguiu chegar ao fim. Dessa vez, a Marussia teve um carro claramente mais rápido. Com um ou cem pit-stops, não dá para fazer milagres.

NARAIN KARTHIKEYAN3 – Não fez nada de novo, nosso amigo indiano. Ele não teve problemas para superar Charles Pic na classificação, mas também não conseguiu segurar o francês durante a corrida. Andou lá na cauda do pelotão como sempre e chegou ao fim, silenciosamente.

SERGIO PÉREZ6,5 – Teve um grande fim de semana, mas foi obrigado a abandonar a prova graças ao seu estúpido colega de América Latina. Andou bem pra caramba nos treinos de sexta-feira e só não conseguiu uma boa posição no grid porque errou na escolha de pneus no Q2. Partindo de 15º, o pequeno chapolim largou muito bem e já ocupava a décima posição na primeira volta. Ele tinha tudo para marcar bons pontos para a Sauber, mas não contava com a falta de astúcia de Pastor Maldonado, que o atropelou e o tirou da corrida. Pérez ficou inconformado e bateu na porta de Hugo Chávez pedindo a cabeça oca do seu pupilo.

PAUL DI RESTA2,5 – Em casa, não conseguiu andar nada mais do que alguns metros na corrida. Discreto nos treinos, ele só conseguiu largar à frente do companheiro Nico Hülkenberg graças a uma punição sofrida pelo alemão. No domingo, foi esmurrado por alguém nas primeiras curvas, seu pneu traseiro explodiu e Di Resta foi obrigado a se arrastar aos boxes. Por lá, decidiu que seria mais feliz abandonando a corrida.

VITALY PETROV2 – Na sexta e no sábado, apareceu razoavelmente bem e até conseguiu deixar o companheiro Heikki Kovalainen para trás na qualificação. No dia seguinte, ao acordar e sentir na pele o típico frio cortante da Inglaterra, Vitaly preferiu dormir por mais uns quinze minutinhos e deixou o celular para despertar. Como o alarme não tocou, ele acabou ficando na cama até as três da tarde e perdeu a largada. Esta é a versão real da história. Para consumo externo, a Caterham disse que o motor Renault falhou antes mesmo da largada.

Os mais velhos, quase centenários, reconhecerão este slogan. Ele foi utilizado pela Pepsi no final dos anos 80 no Brasil. Pepsi, aquele mesmo refrigerante que muitos amantes fiéis da Coca-Cola não utilizam sequer para desentupir a pia. Na verdade, conheço pouca gente que realmente gosta da marca azul. Quando era criança, eu estava neste grupo meio obscuro. Amadureci e vi que a Coca-Cola, com seus altíssimos níveis de sódio e açúcar, é um elixir melhor. Mas por que estou falando sobre refrigerantes, que tanto aterrorizam nutricionistas e patricinhas encanadas com celulite?

Nesta semana, surgiu na Europa um boato afirmando que a equipe McLaren poderia perder o polpudo patrocínio da Vodafone, gigante britânica da telefonia, após o fim de 2013. Os senhores sabem que a Vodafone é a principal fonte dos dinheiros da McLaren desde 2007 e, graças a isso, dispõe até mesmo do direito de aparecer no nome oficial da escuderia, “Vodafone McLaren Mercedes”. Pois este romance está prestes a acabar devido à crise mundial, ela mesma. Os engravatados da empresa perceberam que gastar 60 milhões de euros anuais para financiar uma equipe de Fórmula 1 não estava valendo a pena. Cair fora aliviará um pouco o cofrinho da Vodafone, empresa que já esteve em condições financeiras bem melhores.

Quem a substituiria no papel de patrocinadora principal da McLaren a partir de 2014 seria justamente a Coca-Cola, fabricante do “líquido negro do capitalismo”. Se esta associação entre McLaren e Coca acontecer, será a primeira grande incursão da marca na Fórmula 1. Vale notar que um pequeno logotipo vermelho e branco da marca surgiu estampado no carro da Tyrrell no GP do Brasil de 1981, cortesia da filial brasileira. Foi a única aparição da Coca-Cola na história da categoria.

Por incrível que pareça, a categoria europeia onde a empresa mais investiu foi a Fórmula 3000 Internacional. Em 1987, o francês Gilles Lempereur disputou duas corridas da categoria apoiado pela marca. No ano 2000, a Coca-Cola decidiu injetar uma tonelada de dinheiro na equipe Nordic, que passou a pintar seus carros de vermelho. Com este layout, Justin Wilson foi o campeão do certame em 2001. Os marqueteiros da Coca tratavam a Nordic como uma espécie de laboratório. Se os resultados comerciais fossem interessantes, a companhia passaria a apoiar uma equipe de Fórmula 1, talvez a Jordan ou a Benetton. Não deu em nada.

Bem que a Coca-Cola poderia despejar um pouco de seus zilhões de dólares no automobilismo. O Top Cinq de hoje apresenta cinco marcas de refrigerante, algumas delas oficialmente inexistentes no Brasil, que estamparam bólidos ao redor do mundo e fizeram muita gente sentir sede enquanto prestavam atenção nas corridas.

5- 7UP

 

Seven Up. Gosto da marca. Coleciono latinhas de cerveja e refrigerante. Acabei de colocar mais uma na coleção, uma 86 Red holandesa. E tenho uma 7UP brasileira, fabricada há cerca de dez anos. O logotipo, com direito à bolinha vermelha sobre fundo verde, é mítico. Como não se simpatizar?

Para os que não conhecem, a 7UP é uma antiga marca de limonadas gaseificadas que chegaram a ser produzidas no Brasil até um tempo atrás. Ela surgiu em 1929 com o estrambólico nome de Bib-Label Lithiated Lemon-Lime Soda, mas ganhou seu nome mais famoso e prático algum tempo depois. Durante algum tempo, a 7UP chegou a pertencer à Philip Morris, aquela que produz os cigarros Marlboro, mas acabou indo parar nas garras da Pepsico. Está aí no mercado até hoje. Não é para o nosso bico, infelizmente.

Aparentemente, a 7UP sempre fez questão de alimentar uma imagem moderna e jovial. Nos anos 90, ela se associou à Virgin e produziu um jogo de videogame muito legal, onde o personagem principal era ninguém menos que seu logotipo! Cool Spot era exatamente a bolinha vermelha da logomarca acrescida de óculos escuros, braços, pernas e cara de malandro. Eu tinha a versão do jogo para Super Nintendo. Passei boas tardes me divertindo com aquele logo ambulante.

No automobilismo, a 7UP não apareceu em tantos carros. No entanto, quando se empenhou em se destacar, causou furor. Em 1991, a Pepsico foi a primeira empresa maluca o suficiente para dar aquela força à equipe de Fórmula 1 do quatro-olhos Eddie Jordan. Só que ela resolveu emprestar justamente sua marca mais esverdeada. A 7UP estampou o bico e as laterais do 191 e chamou bastante a atenção naquela temporada. O carro não só era bastante veloz como também era muito bonito, talvez um dos mais belos da história da categoria. Cool Spot não poderia ter ficado mais orgulhoso.

4- MOUNTAIN DEW

 

Do the Dew with Mountain Dew. No Brasil, não deu muito certo. Não foi por falta de tentativa. Bem que a Pepsico, dona da marca, se esforçou. Botou um bocado de propagandas na televisão com esse slogan aí, em inglês. Eu nem me lembro se cheguei a experimentar a bebida, mas ao menos consegui uma latinha para minha coleção. Esse tal de Mountain Dew é um refrigerante que misturava um monte de sabores cítricos, algo próximo do Schweppes, só que com uma imagem um pouco mais ousada.

Criado em 1948, o Mountain Dew é quase uma instituição americana. Ele era produzido de maneira artesanal numa fabriqueta lá no interior do Tennessee até 1964, quando a Pepsico, sempre ela, decidir adquirir sua marca e fabricar o refrigerante em escala industrial. De lá para ca, ele se tornou famoso e ganhou outros sabores além da tradicional mistureba citrus.

Sendo uma bebida feita por americanos típicos para americanos típicos, o Mountain Dew só poderia aparecer como patrocinador nos gigantescos e potentes carros da NASCAR. Atualmente, quem carrega a marca no carro e no macacão é ninguém menos do que Dale Earnhardt Jr, o filho do homem. A Pepsico assinou um acordo com o piloto e garantiu que sua marca radical se tornasse a principal patrocinadora do Chevrolet nº 88 em 16 corridas dessa temporada. Sendo Dale Jr. o cara mais badalado da NASCAR, é impossível negar que a Mountain Dew se deu bem.

Mas a associação entre NASCAR e Mountain Dew não é de hoje. Em 1981 e 1982, o refrigerante esteve ao lado de Darrell Waltrip, que foi o campeão da Winston Cup nestes dois anos. Mais recentemente, Brian Vickers estampou a marca em seu carro em algumas corridas da temporada da NASCAR Busch Series de 2006. A pintura utilizada por Vickers homenageava exatamente o tricampeão Waltrip, uma prova de que a Mountain Dew conseguiu eternizar-se na memória de todos os fãs obesos do automobilismo americano.

3- DR. PEPPER

 

Do alto da minha ignorância, posso assumir que faz pouco tempo que tomei conhecimento da Dr. Pepper. E ainda assim, demorei um pouco para perceber que representava uma marca de refrigerante. Burro como sou, acreditava se tratar de algum tempero feito à base de pimenta jalapeño. Somente após xeretar a internet é que descobri que o apimentado Dr. Pepper era, na verdade, um negócio de beber. Famoso, até.

A fórmula do Doutor Pimentinha foi criada lá por volta de 1880 no Texas. Nosso querido amigo Charles Alderton juntou um monte de ingredientes aleatórios e criou um refrigerante diferente, cujo sabor não encontra similaridade em qualquer outra bebida disponível no mercado. Muita gente achou o máximo e Mr. Alderson ficou podre de rico vendendo seu elixir. Não demorou muito e qualquer um passou a poder encontrar Dr. Pepper nos melhores e piores supermercados dos quatro cantos do planeta. Só não se lembraram de mandar um pouco do refrigerante para os pobres brasileiros, mas a empresa deve erroneamente acreditar que macacos e jacarés não bebem nada.

Confessei lá em cima que foi o automobilismo que me fez conhecer a marca Dr. Pepper. Em 2007, ela passou a patrocinar a equipe Andretti-Green na Indy Racing League. A parceria evoluiu e está aí até hoje, firme e forte. No ano passado, o filhote Marco Andretti levou o logotipo grená em seu carro durante algumas corridas. Em outras corridas, Andrettinho vestiu as cores de outros produtos do grupo Dr. Pepper Snapple, como o energético Venom e o refrigerante de cola RC Cola.

Na NASCAR, a Dr. Pepper também estabeleceu seu espaço. Ela é uma das patrocinadoras de Travis Kvapil, que disputa a Sprint Cup sem grande destaque. No passado, a marca chegou a apoiar outros pilotos tanto Winston Cup como na Busch Series. Muito bom, muito bacana, mas cadê a porcaria do refrigerante aqui no Brasil? Minha coleção ainda está incompleta!

2- SCHWEPPES

Antes de tudo, um chute na bunda de cada um que pronuncia “Schuépes”. Assim como todo mundo fala “Volksvagen”, o correto é “Schvépes”. Portanto, a partir de hoje, dê uma de chato implicante, irrite seus amigos e somente peça “Schvépes”. Voltamos à programação normal. Schweppes é um dos melhores refrigerantes que existem atualmente. Ele é cítrico pra caramba e doce pra caramba, um pesadelo para os diabéticos e um enorme prazer para os que têm bom gosto.

Ao contrário das marcas acima, a Schweppes não surgiu nos Estados Unidos. No final do século XVIII, um relojoeiro que gostava de brincar de cientista doido desenvolveu meio que por acaso um processo para fabricar água mineral gaseificada. Percebendo que ele poderia faturar horrores com sua criatividade, ele decidiu fundar uma empresa de bebidas na Suíça. Pouco depois, o ex-relojoeiro se mudou para a Inglaterra e levou seu império para lá. Após alguns anos, a Schweppes se tornou uma das bebidas mais conhecidas da galáxia.

Hoje em dia, a marca Schweppes pertence ao grupo Dr. Pepper Snapple e está espalhada por todo o mundo. Aqui no Brasil, tomamos seu famoso refrigerante de frutas cítricas há tempos. Há também a água tônica e a água gaseificada, mas elas não servem pra nada. O negócio é consumir unicamente aquela latinha verde limão que se destaca nas prateleiras dos supermercados.

No automobilismo, a Schweppes se associou com dois dos nomes mais ilustres da história. Em 1998, ela passou a patrocinar a poderosa McLaren na Fórmula 1. A marca aparecia principalmente nos visores dos capacetes de Mika Häkkinen e David Coulthard. A parceria durou três temporadas, rendeu um milhão de libras por ano para a McLaren e um enorme prestígio para o refrigerante cítrico. Mas a coisa mais legal que a Schweppes fez foi ter apoiado Gilles Villeneuve em sua primeira temporada na Fórmula Atlantic canadense em 1974. O pai de Jacques pilotou um carro todo pintado de amarelo e com adesivos da fabricante de bebidas grudados em várias partes. Uma bom casamento, o de um piloto e um refrigerante geniais.

1- PEPSI

Para desagrado total da Coca-Cola, quem aparece liderando o Top Cinq de hoje é justamente sua arquirrival Pepsi. O refrigerante de cola envolto em lata azul é uma das bebidas mais vendidas no planeta, chegando a bater a Coca em rincões obscuros ou fictícios como o Canadá. No Brasil, contudo, são poucos os que realmente gostam dela. Diz a lenda que a Pepsi lá fora é outra coisa, bem melhor. Como sou pobre e não tenho dinheiro para viajar por aí, fico apenas com a minha impressão inicial de refrigerante que leva uma tremenda surra da Coca.

Mas a Pepsi enfia um chocolate no rabo da concorrente quando se trata em publicidade no automobilismo. Comecemos pela Fórmula 1, a maior e mais nojenta de todas as categorias. Em 1991, como falei lá em cima, a Pepsico deu todo o apoio possível à equipe Jordan, que estava em seu ano de estreia. Ela estampou o logotipo da 7UP nas catorze primeiras corridas, mas preferiu usar a marca Pepsi nos GPs do Japão e da Austrália, mercados que não significavam nada para a 7UP. Alguns anos depois, Jordan e Pepsi se reencontraram por meio de Rubens Barrichello, que era patrocinado pelo refrigerante. O suporte a Rubinho, diga-se de passagem, quase lhe rendeu uma vaga na Benetton em 1996. Pena que Flavio Briatore, um possível fã de Coca-Cola se considerarmos o diâmetro de sua barriga, não quis nem saber.

Na Indy, a Pepsi tem uma história bem maior. Ela apoiou um bocado de equipes entre o início dos anos 80 e o início do novo milênio, desde as pequenas Machinists Union e Andale até as poderosas Chip Ganassi, Walker e Patrick. Pilotos como Scott Pruett e Roberto Moreno levaram a marca, mesmo discreta em seus carros e macacões, à vitória.

Em outras categorias, a Pepsi também apareceu bastante. Destaco dois casos. Na Fórmula 3000 Internacional, um dos patrocinadores do manauara Antonio Pizzonia na Petrobras Junior em 2001 e 2002 era exatamente a inimiga nº 1 da Coca-Cola. Mas nada supera este carro aí da foto, um Holden pilotado por Greg Murphy na V8 Supercar australiana, um dos melhores campeonatos de turismo do mundo. Mesmo que não sejam muitos os que acompanhem a V8 fora da grande ilha, não há como ignorar a belíssima pintura verde em grafismos. Gostaria de ver o que a Coca tem para oferecer em troca.

Carl Edwards, NASCAR Nationwide Series, Texas, 2011

Dean Hall, Fórmula Indy, Indianápolis, 1990

Russell Spence, Fórmula 3000 Internacional, Jarama, 1987

Boa tarde aos senhores.

Hoje é dia de post à la F1 Corradi. Ando sem tempo algum, não consegui sequer escrever para o Tazio e as perspectivas não são tão melhores até o final da semana que vem. Acontece.

Vamos de post pequenos, então. E com imagens, que valem mais do que mil palavras deste que escreve.

Três carros que eu acho particularmente bonitos, mas que não teriam motivo algum para aparecer em qualquer outro post. Precisava compartilhar estas fotos. Só isso.

O resto fica para os leitores. Poste aí três dos carros de corrida que você mais gosta. Pode ser Fórmula 1, NASCAR, Indy, Stock Car, GP2, WRC, protótipo, carrinho de rolimã, qualquer coisa. Poste também links para fotos desses carros, de preferência. Quero ver se vocês têm bom gosto.

GP DA INGLATERRA: O melhor automobilismo do mundo está lá. Os melhores chás do mundo estão lá. Alguns dos maiores economistas e cientistas políticos nasceram lá. Alguns dos melhores escritores do mundo também nasceram lá. O melhor rock do planeta é de lá. O melhor clima do mundo está lá. Alguns dos melhores carros do mundo são fabricados lá. A vida mais interessante do mundo também está lá, pois você vai ao pub, bebe cerveja escura em temperatura ambiente até o fígado apodrecer e torce para o Newcastle. Num paraíso desses, é óbvio que o automobilismo também prosperaria mais do que nos demais países. A Inglaterra tem tanto circuito legal que daria para fazer uma Fórmula 1 lá dentro numa boa. Infelizmente, a categoria de Bernie Ecclestone desfigurou aquele que era um dos mais velozes traçados do automobilismo mundial. Localizado no terreno de um antigo aeródromo, Silverstone em seus primórdios não era nada além de um punhado de retas ligadas por curvas muito rápidas majoritariamente feitas à direita. Com o passar do tempo, o mundo se tornou mais babaca e os gênios que desmandam no automobilismo decidiram mutilá-lo pouco a pouco até transformá-lo na pista insípida dos dias atuais. Ah, mas o Bernie Ecclestone acha ótimo. Para quem, ao invés de sentar para ver as corridas, fica circulando pelo paddock no domingo à tarde para puxar o saco de políticos e magnatas, talvez o feérico Silverstone contemporâneo seja bom, mesmo.

CHUVINHA: Sabe a chuva londrina? Ela cairá em quantidades monçônicas no fim de semana de Silverstone. Duvida? O The Weather Channel afirma que as chances de precipitação são de 70% na sexta-feira, 50% no sábado e 40% no domingo. Eu diria que, pelo que se comenta por aí, os números não são capazes de descrever o verdadeiro pandemônio que os céus parecem anunciar. Rolou até mesmo um boato de possível adiamento do primeiro treino livre, que estaria previsto para ser realizado justamente num horário crítico. Quem acompanha a Fórmula 1 há alguns verões sabe que Silverstone não é lugar de água pouca: as nuvens ameaçadoras encobrem tudo e chove até alagar os boxes. Até pouco tempo atrás, apenas algumas estradas vicinais ligavam o autódromo ao restante do planeta e as chuvas eram muito competentes na arte de causar congestionamentos imensos e enlamear todos os sapatos. Tudo isso era compensado, em dias mais interessantes, com corridas espetaculares nas quais os destemidos pilotos cortavam as longas retas com uma cortina de água na cara. Com o passar do tempo, o mundo se tornou mais babaca e os gênios que desmandam no automobilismo decidiram tornar as corridas chuvosas um tabu. Ou seja, prepare-se para longos períodos de safety-car e bandeira vermelha.

DI RESTA: Mesmo não sendo o sujeito mais pirotécnico do grid atual, o escocês é um dos nomes mais falados nesta gênese de silly season. Seu nome já citado dentre os candidatos sérios de Mercedes, McLaren e até mesmo Ferrari. Como pode um cara tão silencioso ser lembrado por tanta gente? O empresário dele deve ser muito bom, não acha? Pois é, e este empresário era ninguém menos que Anthony Hamilton, pai de Lewis Hamilton. Era. Na entrevista coletiva concedida hoje, Paul di Resta confirmou que sua carreira não é mais gerenciada por Mr. Hamilton. Sem dar maiores explicações, Paul apenas afirmou que “não foi uma separação amigável”. Interessante… A impressão que tenho sobre Di Resta é a de um cara quieto, centrado apenas em seu trabalho e avesso a polêmicas. Deixá-lo realmente irritado não me parece a tarefa mais fácil do mundo, mas Anthony Hamilton parece ter conseguido. É o segundo piloto agenciado com o qual ele rompe. O primeiro foi justamente seu filho. Deve ser uma beleza trabalhar com seu Tonhão.

DE VILLOTA: Num fim de semana sem grandes polêmicas ou novidades, paira uma certa tristeza no paddock. O acidente de María de Villota na terça-feira deixou todo mundo ligado ao automobilismo devastado. A notícia da perda do olho direito foi provavelmente a pior que a categoria recebeu desde a morte de Ayrton Senna. Neste exato momento, María está sedada em um hospital londrino. Estado grave, mas estável. Não muito longe dali, os pilotos acompanham com apreensão a situação da colega. Alguns, como Heikki Kovalainen e Sergio Pérez, desejaram força, pronta recuperação e tudo o que está no script. Outros, como Kimi Räikkönen, nem sabem que havia uma mulher na Fórmula 1. Destaco as declarações dos compatriotas. Fernando Alonso disse estar preocupadíssimo com a situação, contou que já conversou com a família dela e afirmou não ter muito mais informações do que eu e você. Pedro de la Rosa, presidente da GPDA, anunciou que irá sentar com representantes da FIA e das equipes para ver o que poderá ser feito para evitar acidentes como este no futuro. Mas a declaração que mais me chamou a atenção foi a do tenista Rafael Nadal, que desejou em sua conta no Twitter “vê-la de volta às pistas o mais rápido possível”. Não, Nadal, isso provavelmente não acontecerá. Infelizmente.

CORINTHIANS: Rumo ao Japão!

Maria de Villota, sobrevivente de um acidente gravíssimo ocorrido ontem

É fantástico poder trabalhar em uma equipe de Fórmula 1 e acumular experiência que será muito útil para minha carreira, incluindo aí a oportunidade de poder pilotar o carro no teste de novatos em Abu Dhabi no fim do ano. Com estas palavras, a pilota espanhola María de Villota, 32, demonstrava o quão feliz estava por ser a primeira mulher contratada por uma equipe de Fórmula 1 desde Giovanna Amati em 1992.

No dia 7 de março deste ano, a sorridente e simpática De Villota foi anunciada pela Marussia como pilota reserva da equipe nesta temporada. Um cargo teórico, eu diria. De pouquíssimas credenciais anteriores no automobilismo, María não tinha direito à superlicença e, portanto, não poderia participar dos grandes prêmios de Fórmula 1. Ela só poderia obter o documento se fizesse uma distância mínima de 300 quilômetros num carro da categoria, coisa impossível nos dias atuais de testes limitados. Ou se implorasse por uma permissão excepcional da FIA, o que também não seria tão provável.

Mas não havia problema. Os dois lados estavam ganhando, de qualquer jeito. A Marussia queria literalmente apenas um rostinho bonito, uma mulher que atraísse as atenções para a equipe pelas razões mais pedreiras possíveis. Só para dizer que ela era uma pilota profissional, os russos permitiriam que ela desse algumas voltinhas qualquer dia desses. De Villota, por outro lado, sabia que sua carreira na Fórmula 1 não seria longa e muito menos bem-sucedida. Mas ela estava lá, no paddock da categoria mais importante do planeta, dando risada, tirando fotos e sendo feliz. Você, que fala mal, acharia ruim ter um emprego desses?

Cabe aí pequena reflexão. A limitação de testes é uma das coisas mais hediondas da Fórmula 1 atual, pois simplesmente coíbe o desenvolvimento de pilotos e carros. Não por acaso, a categoria está tecnicamente estagnada desde 2009 – um absurdo, em se tratando da “mais tecnológica e sofisticada do planeta”. Eu sou totalmente favorável ao corte de custos via racionalização do calendário, limitação ao uso dos motorhomes, diminuição drástica nas taxas cobradas pela FIA ou mesmo a implantação do tal teto orçamentário. Contudo, esse negócio de permitir apenas alguns testes em linha reta no meio de lugares inóspitos é ridículo, quase que anacrônico. Dei minha opinião. A propósito, não vejo relação disso com o infortúnio de Maria de Villota. O que aconteceu com ela foi pura fatalidade.

Voltemos. Como funcionária da Marussia, María de Villota teria obrigações banais como acompanhar a equipe em todas as suas ações de marketing, pilotar no simulador de vez em quando e ficar lá nos boxes escutando os diálogos entre engenheiros e pilotos. Nada que empolgaria muito um piloto jovem e competitivo, convenhamos. Para María, no entanto, estava tudo muito bem. Sua imagem estava sendo usada pela Marussia, mas a moça também estava se divertindo bastante e ainda era paga por isso. Estando os dois lados felizes, não há problema.

De Villota minutos antes de sofrer o acidente

Ontem, 03 de julho, ela finalmente teve uma oportunidade de pilotar o MR01 vermelho e preto de Timo Glock e Charles Pic. Não foi a primeira vez que De Villota pôde dirigir um carro de Fórmula 1, pois ela já havia tido uma breve experiência com um carro da Renault em Paul Ricard no ano passado. Só que, dessa vez, María faria seu primeiro teste como contratada de uma equipe. Tudo bem, eram apenas alguns quilômetros em linha reta num precário aeródromo do interior da Inglaterra, mas já era alguma coisa.

O resto vocês já se cansaram de ler. Uma estúpida rampa de caminhão e um carro desgovernado a cerca de 60km/h foram suficientes para arrebentar um capacete e causar profundos ferimentos na cabeça de María de Villota. Ela foi levada ao hospital às pressas e, embora já consciente, chegou à UTI correndo risco de morte. Ontem à noite, a pilota foi transportada para um hospital em Londres e passou por algumas cirurgias para solucionar o traumatismo craniano e tentar salvar o olho direito, bastante danificado no acidente. Há poucas horas, o anúncio triste: o olho direito realmente está irrecuperável. Ninguém discute que sua carreira no automobilismo chegou ao fim, o que não tem relevância alguma. A luta agora é por uma vida normal.

O acidente pegou todos de surpresa ontem. Numa Fórmula 1 tão perfeccionista, tão avessa ao risco, ninguém poderia esperar que um acidente estúpido a 60km/h num teste em linha reta poderia cegar uma pilota e ainda deixá-la em estado grave no hospital. Pois é. Organizadores, fiscais de pista, midiáticos desinformados e torcedores escandalizáveis falam tanto em segurança, em limitar os riscos e a diversão em prol da integridade dos pilotos que acabam se esquecendo que a morte prega peças. Quando ela tem de acontecer, acontece. Ou alguém aqui acha que o que se passou com Marco Campos em 1995 poderia ser evitado?

Felizmente, María sobreviveu. Graças a Deus. A única coisa que poderia ter sido feita neste caso seria a implantação de uma cobertura acrílica no cockpit. Se a cabeça dos pilotos estivesse totalmente protegida, Maria de Villota e Felipe Massa teriam sido poupados de seus ferimentos e Henry Surtees ainda estaria conosco. Eu realmente não entendo isso. A intelligentsia automobilística não vê problemas em desfigurar circuitos lendários e limitar as ultrapassagens, mas se mostra totalmente contrária ao cockpit coberto. Tudo bem. Eu aposto tranquilamente que a próxima morte na Fórmula 1 ocorrerá quando um piloto receber um golpe direto em sua cabeça – uma mola, uma roda, uma rampa de caminhão, uma bola de capotão, uma garrafa de cerveja ruim, o que você quiser.

Mas ao invés de olhar para os amantes, as pessoas continuarão culpando a cama pela traição. Li textos que criticavam o aeroporto e até mesmo a equipe pelo ocorrido. Espera aí. Testes em lugares bizarros podem não ser aquilo que todos esperam para um esporte como a Fórmula 1, mas eles sempre aconteceram. Quanto à equipe, a única culpa cabível seria relacionada a um possível problema no carro, que teria engatado a primeira marcha do nada.

Li em algum lugar que o motor Cosworth poderia ter sido o responsável por isso, já que ele possui um dispositivo que envia sinais ordenando o acionamento automático da primeira marcha numa situação de marcha neutra e rotações baixas, como era o caso na hora do acidente. Li também que a centralina, que coordena toda a parte eletrônica do carro, pode ter enlouquecido e levado ao engate involuntário da primeira marcha. Tudo isso aí e especulação e somente uma boa averiguação na telemetria do carro poderá mostrar o que aconteceu. Mas o que importa?

A pilota espanhola já tinha feito um teste com um carro da Renault no ano passado

Hoje em dia, tudo deve ter um culpado. Esta mania de se preocupar mais em responsabilizar alguém do que com o acidente em si começou lá com Ayrton Senna, que morreu e muita gente até hoje quer encontrar um Judas para comer seu rabo com sal e pimenta. Nos acidentes do Rafael Sperafico e do Gustavo Sondermann, sobrou para a belíssima Curva do Café em Interlagos. Na morte de Dan Wheldon, ah, é óbvio que a Indy é amadora e os ovais são assassinos per si. Alguém já parou pra pensar que, em se tratando de automobilismo, tragédias acontecem? Até onde eu sei, ninguém tem intentos homicidas no esporte. Se há alguém a culpar, que sejamos adultos e culpemos a todos nós, entusiastas ou participantes do automobilismo. Não fosse por nós, as corridas sequer existiriam e vários olhos e vidas teriam sido poupados.

Como eu disse, a única coisa que poderia ser discutida é a colocação de uma cobertura no cockpit. O resto é circunstancial. De Villota quase morreu porque o carro simplesmente ligou sozinho no lugar mais inadequado possível. Inadequado porque havia um caminhão no meio do caminho. Culpa do motorista do caminhão? Culpa dos mecânicos que cuidam do carro? Culpa da própria De Villota? Culpa da crise espanhola? Os erros humanos acontecem e a falta de sorte também. Controlá-los é uma coisa muito difícil, praticamente inócua. Por via das dúvidas, o melhor é seguir em frente. E que aqueles que se preocupam em cortar cabeças alheias direcionem suas energias em palavras um pouco menos sensacionalistas. E oportunistas.

Há outra coisa que gostaria de colocar aqui. Um pouco mais desagradável. Logo na primeira vez que li um título sobre o acidente de María de Villota, sem saber de sua gravidade real, é óbvio que pensei algo como “ih, mulher no volante, perigo constante”. Óbvio. Vivo fazendo esta brincadeira entre os íntimos. Já vi muita perua com cara de nojinho fazendo horrores no trânsito no alto de seu SUV preto. A grande maioria das pessoas faz esta brincadeira. Do mesmo jeito que damos risada do judeu pão-duro, do japonês nerd, do francês afrescalhado e do texano caipira.

Mas a brincadeira acabou tão logo li sobre a situação da pilota e as circunstâncias nas quais elas aconteceram. Prosseguir associando o acidente de María com uma suposta inabilidade inerente ao gênero feminino num momento desses, como eu vi em vários comentários em sites grandes por aí, é de uma leviandade tremenda, para dizer o mínimo. Enquanto não soubermos a real motivação do acidente, não podemos atribuir responsabilidade alguma à espanhola. E mesmo que ela não tenha causado tudo, e daí? María sempre foi uma pilota de talento limitado, assim como milhares de pilotos do sexo masculino. Gente que realmente acredita que De Villota merece alguma crítica pelo fato de ser mulher definitivamente não nasceu com cérebro.

Por fim, um detalhe não muito relevante me veio à cabeça. María de Villota aparenta ser uma mulher bastante vaidosa, ao contrário do que acontece com várias de suas colegas de profissão. Para nós, que portamos um saco escrotal entre as pernas, ficar sem um olho significa tão somente perder grande parte da capacidade de visão. Para uma moça dessas, haveria também toda uma questão estética maior por trás. Ao perceber que está sem uma parte fundamental de seu corpo, María sofrerá um choque: o que será da minha beleza a partir de agora? Ela terá de ser bem forte para conseguir lidar com esse tipo de questão sem grandes traumas. Que seja muito forte, então.

Não há muito mais o que dizer sobre isso. Neste momento, María de Villota está em coma induzido, sem saber que sua vida nunca mais será a mesma. Ao acordar, que tenha ao seu lado todas as pessoas que a amam e que consiga seguir adiante. Aliás, esse negócio de seguir adiante vale para todos os envolvidos no automobilismo. Sem sensacionalismos ou clamores, que o esporte a motor siga tão fascinante e perigoso como sempre foi.

Fernando Alonso e o choro incontido no pódio do GP da Europa. Estaria o esporte preenchendo uma lacuna na felicidade do povo espanhol?

Eurocopa. Assisti ao jogo da final, entre a antipática Espanha e a barulhenta Itália. Foi difícil escolher para quem torcer. Acabei escolhendo a Itália por maior afinidade genética e étnica, vide Mario Balotelli. Para mim, um jogo humilhante e frustrante. Os italianos mal conseguiram avançar ao campo espanhol, deixaram passar umas bolas patéticas da armada hispânica e acabaram tomando quatro gols. Se bem conheço o comportamento italiano, os jogadores devem estar chorando até agora.

Mas o jogo foi histórico para os vencedores, os espanhóis. A seleção que conta com nomes como Iniesta, Fàbregas, Busquets, Juan Alba, Casillas, Fernando Alonso e Nelsinho Piquet ganhou o terceiro título da história do país na Eurocopa. Como desmerecer? Não entendo porcaria alguma de futebol, mas fiquei maravilhado especialmente com a precisão e a velocidade dos passes, que desconcertavam os pobres italianos azulados.

Os espanhóis ficaram malucos de felicidade, é óbvio. Assim como, há uma semana, pularam de alegria quando Fernando Alonso venceu o GP da Europa em casa e chorou copiosamente no pódio. Assim como costumam celebrar quando Rafael Nadal, o atual número 2 no ranking da ATP, vence uma partida de tênis. Assim como aplaudem Jorge Lorenzo, campeão da MotoGP em 2010 e atual líder do campeonato, quando este vence uma corrida. Dios es español.

Seja no futebol, no esporte a motor, no tênis ou no campeonato mundial de arremesso de abacates patrocinado pela Red Bull, a Espanha comanda quando se trata de competição esportiva. De algum tempo para cá, o país começou a vencer em praticamente todos os esportes importantes do planeta. Vai lá entender o motivo. É fato que o esporte espanhol ganhou um fôlego novo após as Olimpíadas de Barcelona. É fato também que dois dos clubes de futebol mais poderosos do planeta estão lá. Da mesma forma, suas empresas costumam despejar uma cachoeira de euros em seus esportistas e times. É, deve ser tudo isso. O que importa é que deu certo e o hino espanhol, que não tem letra desde o fim do governo Franco, está sendo tocado nos alto-falantes da vida por aí.

Nunca fui muito fã da Espanha. Questão de gosto. Mas é impossível não se solidarizar minimamente com o povo hispânico neste momento de débâcle econômico. Hoje, a o governo espanhol anunciou que 100 mil pessoas saíram do desemprego em junho. Um número incrível, mas que não ajuda muito quando sabemos que o país é o que mais tem desempregados na União Européia, com 4,6 milhões de pessoas economicamente ativas que não estão fazendo rigorosamente nada, a exemplo do ex-piloto Andy Soucek.

A comemoração da seleção espanhola, campeã da Eurocopa.

A dívida pública espanhola, que despencou durante dez anos, explodiu desde 2008 e hoje ultrapassa 70% do PIB nacional. A arrecadação dos impostos de renda e patrimônio, que chegou à casa dos 100 bilhões de euros em 2008, não alcançará sequer a metade disso neste ano. Em junho, a capacidade de solvência dos bancos privados espanhóis e do próprio governo estava tão baixa que o Banco Central Europeu e o FMI tiveram de injetar 100 bilhões de euros para evitar que o sistema bancário da Espanha quebrasse. A inflação ao menos está controlada, mas do que isso adianta se ninguém tem dinheiro para comprar?

Sobrou para o automobilismo, é claro. Você se lembra daquele monte de pilotos espanhóis que apareceram ao mundo até alguns anos atrás? A maioria deles está em casa, lendo a sessão de empregos do jornal, ou deu a sorte enorme de encontrar emprego em qualquer outra coisa. Na Fórmula 1, só Fernando Alonso está sorrindo à toa. A HRT vive na corda bamba, Pedro de la Rosa vai na garupa, Jaime Alguersuari faz bicos aqui e acolá, Dani Clos tomou um pé na bunda da filha do Hristo Stoichkov e está sem padrinho e até mesmo o Santander, cuja avaliação de risco foi rebaixada em dois pontos pela Standard & Poor’s em abril, já teve dias mais sossegados.

A dureza espanhola tem sua face mais visível nas suas duas corridas, o GP da Espanha e o GP da Europa. Tanto os organizadores da etapa de Barcelona como os de Valência estão quebrados e foram obrigados a se unir para que não morressem à míngua. A partir do ano que vem, as duas pistas se revezarão na realização do GP da Espanha. Num ano, os fãs se aborrecerão em Barcelona. No outro, dormirão à sombra do porto de Valência. Tudo para conter custos e minimizar prejuízos.

A etapa de Valência, realizada na semana passada, não escondeu de ninguém suas enormes dificuldades. A organização disponibilizou apenas 45 mil ingressos para a corrida deste ano. Em 2008, primeiro ano do GP valenciano, foram vendidos 100 mil ingressos. Quatro anos depois, nem sequer os parcos 45 mil ingressos foram esgotados: no domingo, ainda havia sete mil deles mofando nas bilheterias. O problema nem é relacionado à histórica chatice das corridas do circuito portuário. Ninguém tem dinheiro, mesmo.

Por isso que o resultado final foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. Mesmo havendo apenas 38 mil testemunhas, a maior parte delas vindo do estrangeiro, a festa nas arquibancadas após Fernando Alonso ter cruzado a linha de chegada à frente do resto foi legal demais da conta. Depois, no pódio, enquanto escutava o hino nacional de seu país destroçado, a emoção não pôde ser contida. O mesmo Alonso que desembestou a gritar após ganhar seu primeiro título mundial no chuvoso GP do Brasil de 2005 desabou em lágrimas no pódio valenciano. Quem viu, aplaudiu.

Alonso vencendo em Valência.

Sei lá eu o que ele estava pensando na hora. Tanto poderia ser a grave situação de sua pátria como uma vaga lembrança de seu chinchila que morreu em 1988. Para não perder o fio da meada desse texto, dou um pouco de crédito à primeira possibilidade. Alonso deve ter percebido ali, enquanto escutava emotivamente aquele arquivo MIDI entoando los yunques y las ruedas, que sua vitória não era apenas mais um triunfo em sua carreira. Naquele exato instante, mesmo com tanta gente desempregada e tantas complicações, o espanhol poderia sentir orgulho de seu país. Demos certo em algo.

O esporte tem dessas coisas. Às vezes, quando tudo parece estar dando errado, um esportista ou um time pode se aproximar, ganhar alguma coisa de importante e aplacar um pouco o sofrimento de um bocado de gente. Eu sempre critiquei pra caramba esta postura de nego que acompanha o esporte pra se esquecer dos problemas, como se estivesse entornando uma garrafa de cachaça da bobônica. Baita insensibilidade a minha. Às vezes, qualquer coisa, por mais banal ou despropositada que seja, serve para diminuir um pouco o sofrimento e a falta de esperança generalizada.

Nós sabemos mais ou menos o que é isso. Do mesmo jeito que a seleção espanhola está tendo sua melhor fase justamente no pior momento de sua história econômica, o escrete brasiliano ganhou algumas de suas cinco Copas em períodos altamente conturbados. Em 1970, Pelé, Rivellino, Tostão e companhia venceram a primeira Copa colorida da história enquanto noventa milhões em ação celebravam o auge do “milagre econômico” ao mesmo tempo em que choravam seus filhos barbudos e subversivos nas dependências da Oban.

Vinte e quatro anos depois, a seleção comandada por Bebeto, que havia virado pai, e Romário, que havia recuperado seu pai, se sagrou a primeira tetracampeã mundial nos Estados Unidos. Quem não teve a oportunidade de ver esta Copa ao vivo deve se arrepender de não ter nascido antes. No Brasil, o título foi um sopro de felicidade no meio de uma época em que todos ainda lamentavam o passamento de Ayrton Senna, temiam a chegada de mais um plano econômico e se viam obrigados a escolher entre um sociólogo e um sindicalista para liderar a barca. Dias conturbados. Ainda bem que sempre há uma bola, um campo e alguns peladeiros para acalmar os ânimos.

Em 2002, as coisas estavam mais tranquilas. Havia regime democrático e moeda estável. Ou não? O sociólogo ganhou a peleja acima e teve um governo com um bocado de acertos e outro bocado de erros. Ele estava no fim de seu mandato. Quem iria substituí-lo? Muita gente estava com medo do sindicalista acima, que liderava as pesquisas e tinha uns amigos meio comunas. O Risco Lula afastou um monte de capitais externos e o resultado foi um dólar que bateu na casa dos quatro reais. No meio desta cerração, um revigorado Ronaldo de cabelo bizarro celebrava com seus colegas o quinto título mundial.

Ayrton Senna, que foi o único grande motivo de felicidade do brasileiro no final dos anos 80 e início dos anos 90

Mas futebol nenhum causou a comoção de Ayrton Senna. Este cara aqui, além de um puta piloto, deu a sorte de ser o maior ídolo brasileiro justamente na época em que o país mais procurava um ídolo. Enquanto Ayrton ganhava suas corridas, o Brasil afundava em inflação acachapante, moratória, planos econômicos criados por economistas campineiros com merda na cabeça, overnight, SUNAB, imperadores maranhenses, caçadores de marajás, Elba, Chevette Junior, lambada, mullet e cabelos volumosos. Os dez anos de Senna na Fórmula 1 foram a verdadeira década perdida para quem não respirava automobilismo.

Impossível não estabelecer um paralelo entre Alonso hoje em dia e Senna em, sei lá, 1988. Na verdade, as coisas eram sempre um pouco mais dramáticas aqui. O Brasil era uma coisa ainda mais subdesenvolvida naqueles dias, abarrotado de gente totalmente empobrecida e iletrada. Tentemos nos colocar no lugar dos desafortunados da época. Deve ser uma desgraça você ter de trabalhar feito um filho da puta para ganhar uns bilhões de cruzeiros que não valerão meia pataca no final do mês. Deve ser triste você ir ao supermercado para comprar carne e ver que não há mais porra alguma no estoque. Deve ser uma merda inominável ser casado com uma mulher com o cabelo da Cindy Lauper.

Você, obviamente, quer que tudo isso mude, só que simplesmente não sabe como. Confiar em político não dá. Sair do país também está difícil. Quem vai querer emitir visto pra brasileiro cucaracha? Não queria ter nascido aqui, você pensa. Pois é, a depressão está te consumindo. Sua auto-estima foi para o brejo.

De repente, surge um brasileiro orelhudo, magrelo e com o mesmo sobrenome que o seu lá na Fórmula 1. Veni, vidi, vici. Muito rapidamente, ele chega à Fórmula 1, marca pontos, ganha corridas, leva para casa três títulos mundiais. Nas glórias, desfila com a bandeira brasileira. O mundo percebe que alguém tem, ou aparenta ter, orgulho de ter nascido no Brasil. Milhões de pessoas aqui olham para a imagem da flâmula tremulante associada a um legítimo vencedor e passam a pensar que o país onde deram o azar de nascer não é tão ordinário assim. Surge uma esperança no fim do túnel. Ayrton Senna passa a ser o único motivo de orgulho de uma nação de 150 milhões de pessoas entre o fim dos anos 80 e o início dos anos 90.

Como contestar isso? Eu e mais muita gente assumimos, do alto de nosso elitismo orgulhoso de quem nunca viveu aquela época, não gostar de toda essa teatralidade com ares de épico, esse roteiro maniqueísta que só serviria para exaltar um sujeito coxinha. Não me furto em torcer o nariz para o fanatismo tacanho e cego que circunda o nome de Ayrton Senna. Posso até estar certo, e acho que realmente estou. Mas o que significa “estar certo” diante de uma situação onde falamos de auto-estima, desespero e esperança? O racional não simplesmente cabe nestas horas, devo admitir.

O fato é que todos precisamos de um motivo para sorrir nos piores momentos, qualquer que ele seja. Sorte de quem pode contar com um Fernando Alonso ou um Ayrton Senna.

Discurso pronto de jovem piloto: meu sonho é ir para a Ferrari. Grife mais importante do automobilismo mundial, a escuderia italiana é o objeto de desejo de todo mundo que se mete a pilotar carros de corrida. O destino é traçado desde cedo. Papai rico compra um kart, eu me divirto durante uns seis anos, vou para a Europa, corro na Fórmula Abarth, tento ser campeão, arranjo uns telefones do pessoal de Maranello, cortejo, faço uma graça na Fórmula 3, mantenho meus contatos, vou para a GP2, chego à Fórmula 1, aprendo italiano, sono molto felice di stare qui e um dia chego lá.

A Ferrari tem seus encantos, isso é inegável. A história de Enzo Ferrari, os lendários carros de rua que são adquiridos por jogadores de futebol e estelionatários russos, o sucesso no automobilismo, o cavalo rampante, os mecânicos rechonchudos que cantarolam o Inno di Mameli sob o púlpito de Monza, a macarronada al sugo das reuniões de Maranello. Tudo é lindo, tudo é perfeito, o piloto vira um ídolo italiano não importando de qual planeta ele vem. Não erra quem diz que a Ferrari encanta mais do que a própria Fórmula 1. Mas se engana quem acha que terá feito uma escolha segura e definitiva ao ir para lá.

Nessa semana, surgiu um boato na fogosa imprensa italiana que o bicampeão Sebastian Vettel teria assinado um contrato com a escuderia italiana válido a partir de 2014. Atual astro da Red Bull Racing, Vettel deixaria para trás toda sua história com as latinhas e partiria para sua vida de novo embaixador da Itália na Fórmula 1. Problema maior seria a convivência com Fernando Alonso, praticamente o presidente da Ferrari nos dias atuais. Alonso não achará legal ter de dividir seu império com um campeão do mundo que fará de tudo para obter seu espaço – e mais um pouco.

Vettel e sua Red Bull logo se preocuparam em desmentir o boato. O casamento anda excelente lá pelos lados de Milton Keynes e um divórcio poderia ruir até mesmo o futuro de ambos os lados. Se Sebastian fosse para a Ferrari, seria apenas mais uma engrenagem do sonho ferrarista. E ter Alonso como companheiro não é como ter Mark Webber. Não valeria a pena, a princípio. Além disso, outros bons pilotos já tiveram problemas quando adentraram a Scuderia. O Top Cinq de hoje relembra cinco história nem tão antigas:

5- JEAN ALESI

A passagem de Jean Alesi pela Ferrari realmente estava destinada ao fracasso. Desde muito antes de sua estreia na equipe, ocorrida no GP dos EUA de 1991, isso ficava claro. Vamos às historinhas. Ao ser contratado como titular na Tyrrell a partir da temporada de 1990, ficou sacramentado que o francês ficaria na equipe do madeireiro até o fim de 1991. Contudo, .suas performances espetaculares no início da temporada atraíram as atenções das equipes maiores. Pressionada pela Renault, a Williams acabou oferecendo uma proposta para Jean romper o contrato com a Tyrrell e vestir azul e amarelo já a partir de 1991. O jovem piloto aceitou.

No GP da Inglaterra, Nigel Mansell anunciou que se aposentadoria da Fórmula 1 no final do ano. Esse anúncio agitou o mercado de pilotos e a Ferrari foi atrás do mesmo Jean Alesi oferecendo-lhe uma vaga em 1991. Jean ficou babando com a possibilidade de correr na equipe mais tradicional do mundo ao lado de seu ídolo Alain Prost. Além disso, naquele ano em especial, a Williams não parecia um negócio tão promissor. Jean conversou com Frank Williams e disse que preferia ir à Ferrari. O cadeirante aceitou, mas exigiu da Ferrari um carro de Fórmula 1 novinho em folha em troca. Os italianos aceitaram e lhe deram um 641 que está em seu museu até hoje. Alesi conseguiu se desvencilhar de Tyrrell e Williams e conseguiu realizar seu sonho logo no início da carreira.

A história provou que a decisão de Alesi trocar a Williams pela Ferrari foi uma das maiores cagadas vistas nos últimos 25 anos. Azarado, o francês dispensou um dos melhores carros que Frank Williams e Patrick Head construíram na vida em prol de uma desgraça pintada de vermelho, o 643. Muito inferior à concorrência, o carro ferrarista foi carinhosamente apelidado de “caminhão” por Alain Prost e não venceu nenhuma corrida em 1991. Alesi obteve apenas três terceiros lugares e ficou numa discreta sétima posição no campeonato.

As coisas pioraram absurdamente nos dois anos seguintes. Em 1992, o carro de Alesi era o F92A, conhecido como “caça”. Sem confiabilidade, potência e dirigibilidade, ele só permitiu que o francês marcasse 18 pontos. Em 1993, apenas 16 pontos foram marcados em um bólido que não era muito melhor. Os dois últimos anos de Jean na Ferrari foram mais róseos, mas ele só conseguiu vencer uma corrida, a de Montreal em 1995. Deixou a equipe no final deste ano, desprestigiado e sem o culto ao seu nome que tanto ocorria nos dias de Tyrrell.

4- RENÉ ARNOUX

Para quem acha que somente hoje em dia que um piloto é massacrado após apenas uma única temporada, saiba que 1984 foi o suficiente para derrubar a carreira do francês René Arnoux, conhecido pela inabilidade em utilizar retrovisores. Após este ano, Arnoux deixou de ser o queridinho da Ferrari para se tornar o inimigo público número 1 da Itália. E pensar que o cara foi para a equipe de Maranello após se encontrar em posição insustentável na Renault.

Arnoux foi anunciado pela Ferrari no fim de semana do GP da Itália de 1982, época em que a equipe italiana precisava urgentemente de um piloto de ponta para tentar manter de pé o ânimo geral, destroçado com a morte de Gilles Villeneuve e o acidente de Didier Pironi. Na Ferrari, René teria a primazia que já não lhe cabia mais numa Renault fagocitada por Alain Prost.

Em 1983, a Ferrari voltou a acertar a mão com um 126C com fundo plano e o motor mais potente de toda a categoria. Arnoux começou mal o ano, obtendo apenas dois pódios nas sete primeiras corridas. As coisas começaram a melhorar em Detroit, quando ele largou na pole e liderou até abandonar. Nas seis corridas seguintes, o francês obteve três vitórias e dois segundos lugares. Arnoux saiu de Monza como vice-líder do campeonato, apenas dois pontos atrás do inimigo Alain Prost.

Foi o mais próximo de um título mundial que René Arnoux chegou na vida. Nas últimas duas etapas, só problemas. Em Brands Hatch, ele saiu da pista enquanto atacava Eddie Cheever, despencou para as últimas posições e terminou apenas em nono. Na África do Sul, o motor Ferrari quebrou e Arnoux não pôde terminar a prova. Mesmo assim, finalizou a temporada na terceira posição e foi coroado como rei da Ferrari. No ano seguinte, teria o companheiro Michele Alboreto, um novato que havia feito alguns brilharecos na Tyrrell. O que poderia dar errado?

Bastante coisa. O 126C, já bastante defasado, não funcionou a contento e a Ferrari passou longe dos bons desempenhos dos dois anos anteriores. Para piorar a situação de Arnoux, Michele Alboreto foi o melhor piloto da equipe na grande maioria dos treinos oficiais e obteve a única vitória ferrarista em 1984, no circuito de Zolder. Arnoux conseguiu apenas alguns pódios e terminou a temporada na sexta posição, duas atrás do companheiro italiano. Pegou mal.

Arnoux terminou o ano de 1984 em pé de guerra com a Ferrari. Durante a pré-temporada, ele fez uma cirurgia para aplacar com as cãibras que afligiam suas pernas e não avisou ninguém lá na Itália, o que irritou profundamente comendador Enzo e seus asseclas. René renovou seu contrato para a temporada de 1985, mas só disputou o GP do Brasil. Ele foi demitido após ter faltado a uma sessão de testes em Fiorano, realizada dias após a corrida brasileira. Mas o maldoso submundo da Fórmula 1 ventilou algumas histórias bizarras que nunca poderão ser provadas. Dos boatos mais absurdos que eu li por aí, envolvimento com drogas e até mesmo um romance com a neta de 15 anos do comendador! Ah, os fofoqueiros.

3- NIGEL MANSELL

Em julho de 1988, de maneira até surpreendente, a Ferrari anunciou ao mundo que estava mandando para o olho da rua o italiano Michele Alboreto, de cinco anos de bons serviços, para colocar em seu lugar ninguém menos que Nigel Mansell, o vice-campeão de 1987. Mansell era talvez a peça principal do processo de reestruturação de uma equipe que precisava melhorar urgentemente após uma série de temporadas tristonhas.

Não foi a primeira vez que Mansell e Ferrari se aproximaram. Em 1986, o inglês chegou a assinar um contrato com os italianos, mas deu para trás nos 45 do segundo tempo e quase tomou um processo dos ferraristas. Sabe-se lá como, talvez num par ou ímpar, a situação foi resolvida numa boa. E os dois lados se reaproximaram em 1989.

Naquele ano, além da contratação de peso, a Ferrari apostava tudo no câmbio semiautomático, aquele comandado por borboletas atrás do volante. O sistema criado por John Barnard prometia mundos e fundos, mas só trouxe dores de cabeça para a equipe durante a temporada e mais aborrecimentos ainda para Nigel Mansell, um sujeito que não se entendia com conceitos de alta complexidade do tipo “mão direita sobe marcha, mão esquerda desce marcha”. Os problemas na transmissão foram inúmeros e Mansell ganhou apenas duas corridas, em Jacarepaguá e em Hungaroring. Além disso, ele obteve somente dois segundos e dois terceiros lugares. O título ficou muito longe.

Para 1990, as coisas ficaram ainda mais complicadas para o Leão. A Ferrari conseguiu arrancar Alain Prost da McLaren e montou talvez a dupla mais perigosa do campeonato com o único objetivo de derrotar Ayrton Senna e Ron Dennis. Mesmo tendo um ano a mais de tarantela do que Prost, Mansell teve um ano dificílimo. Venceu uma corrida em Portugal e teve outros pódios, mas também abandonou várias corridas e não se deu bem com o centralizador Alain Prost. Ficou tão deprimido que, no fim de semana do GP da Inglaterra, anunciou a aposentadoria para o final do ano. Após apenas um ano e meio na Ferrari, Mansell percebeu que tinha perdido gosto pela coisa.

Mas nada como um convite milionário da Williams, sua casa original, para que Our Nige mudasse de ideia. Na equipe de Frank Williams, Nigel Mansell reencontrou a felicidade. Com um carro excepcional e uma cultura muito mais adequada à sua personalidade típica de um working class britânico.

2- ALAIN PROST

Durante alguns meses de 1989, a pergunta que não queria calar no paddock era “pra onde Alain Prost vai no ano que vem?”. No fim de semana do GP da França, Le Professeur anunciou a todos os presentes, passados e futuros que não seguiria mais na McLaren dominada por Ayrton Senna. Estava puto da vida com o brasileiro, que quebrou um acordo entre os dois no GP de San Marino a respeito da proibição de um ultrapassar o outro após a primeira curva. Senna passou uma rasteira em Prost e o francês viu que o ambiente não estava ao seu favor.

Após considerar ir para Williams, fundar sua própria equipe e até mesmo ir para um asilo, Alain Prost assinou com a Ferrari no fim de semana do GP da Itália, perante milhares de italianos alucinados. Depois da assinatura, o narigudo virou ídolo dos tifosi. Quando Ayrton Senna rodou na Parabólica e abandonou a prova, a multidão nas arquibancadas foi à loucura. Prost seria o herdeiro da vitória e se aproximaria do título que faria a Ferrari ter o número 1 em 1990.

Só que o casamento não começou da maneira que se esperava. O Ferrari 641 era um bólido totalmente inspirado no 640 do ano anterior, mas sem os problemas no câmbio e projetado para se adequar ao estilo suave de pilotagem de Prost. Mesmo assim, o carro não se comportou tão bem nas primeiras etapas e Alain ficou tão surpreso com a vitória em Interlagos que desabou em lágrimas após o pódio. O paciente piloto trabalhou duro para acertar o bólido durante o ano, congregou a equipe no melhor estilo Alonso e colheu os frutos ainda em 1990. Ganhou cinco corridas e peitou Ayrton Senna até o fim. Não levou o título, mas provou a todos que Monsieur Alain Prost ainda era um tremendo pica grossa.

Quem diria que a euforia de 1990 acabaria tão depressa. Steve Nichols e Jean-Claude Migeot desenvolveram aquilo que Prost não tão carinhosamente assim chamou de “caminhão” no fim de semana do GP do Japão. Embora ele não tenha sido tão gentil, a irritação tem lá sua motivação. O carro era muito ruim e a equipe se viu toda desorganizada em 1991. Ainda antes do início da temporada, Prost culpou o diretor esportivo Cesare Fiorio pelos problemas do novo carro, o 642. Para satisfazê-lo, a Ferrari demitiu o italiano sem grande dó.

Mas o carro não melhorou, os ânimos dos pilotos também não e os resultados acabaram não vindo. Em julho, o vice-presidente da Fiat Umberto Agnelli afirmou que “Prost e Jean Alesi não davam o melhor de si”. Alain retrucou dizendo que “meu lugar na equipe está à disposição”. Foi o início do fim. Prost passou o restante do ano discutindo com a Ligier sobre a possibilidade de formar uma equipe 100% francesa em 1992. A demissão após o GP do Japão foi tão somente a gota d’água.

1- IVAN CAPELLI

Após Alain Prost cair fora, no fim de 1991, a Ferrari se viu com um problemão para resolver. De onde que a equipe arranjaria um piloto com cancha o suficiente para substituir o francês à altura? Sem poder ter Ayrton Senna a curto prazo e tendo perdido Nigel Mansell num clima ruim, a única grande solução parecia ser o decadente tricampeão Nelson Piquet. Os dois lados negociaram durante cerca de quatro meses e gentes do calibre de Niki Lauda e Luca di Montezemolo realmente forçaram a barra para colocar o brasileiro no lugar de Jean Alesi em 1992. Mas não deu certo.

Dizem que a questão dos salários pegou, já que Nelsão não é piloto pra ganhar merreca. Então, a Ferrari se viu obrigada a correr atrás de uma alternativa. Havia Ivan Capelli, o talentoso italiano que vinha de temporadas tristonhas na Leyton House. Italiano, barato, promissor e disponível, combinação perfeita. Em janeiro, Capelli foi anunciado ao lado de Jean Alesi. Finalmente, uma boa oportunidade para o cara, que havia feito alguns pequenos milagres com a March nos anos 80.

Será mesmo? Ivan, o Terrível, desembarcou numa Ferrari sem comando, ânimo ou carro. A saída de John Barnard em 1989 deixou lacunas e os engenheiros Nichols e Migeot enfrentavam dificuldades para desenvolver seus projetos. Tentando ajeitar a bagunça, o engenheiro Claudio Lombardi foi efetivado como substituto de Cesare Fiorio na direção esportiva. No meio de tudo isso, só poderia ter surgido uma coisa infeliz como o F92A, o tal “caça”. Ele foi o primeiro monoposto do planeta a ter um fundo plano e duplo. No túnel de vento, até que não funcionou mal. O problema foi quando tiveram de colocar o carro para andar de verdade.

O F92A foi um desastre. Confiabilidade, ele não tinha. Potência e torque eram tabu: no México, Jean Alesi conseguiu velocidade em reta maior apenas do que o Jordan de Stefano Modena e a Brabham de Giovanna Amati! Estabilidade, vixe maria, era agulha no palheiro. O carro era totalmente imprevisível e só funcionava bem numa situação específica, pistas lentas com asfalto molhado. O que não costuma acontecer todo dia.

Quem sofreu mais aí no meio foi exatamente nosso Ivan Capelli, que passou por quase tudo aquilo que um piloto tenta evitar. Ele sofreu acidentes fortes no México e no Canadá, teve quebras de motor na maioria das corridas, rodou sozinho em Monza, largou do meio para trás na maior parte do tempo, chegou a tomar tempo do Fondmetal de Gabriele Tarquini em duas ocasiões e marcou apenas ridículos três pontos, terminando o ano numa absurda 13ª posição.

Mas o que pegou mais foi o lado emocional. Capelli era um filhote da March/Leyton House, uma equipe de atmosfera feliz e tranquila. Na Ferrari, ele encontrou um bocado de italianos desesperados e deprimidos. No segundo semestre, a motivação de Ivan já tinha ido para o ralo. No fim das contas, ser demitido após o GP de Portugal não foi uma coisa tão ruim assim. Mas a carreira dele sofreu um baque gigantesco durante a passagem pela Scuderia, ainda um sonho de consumo de nove em cada dez pilotos.