Os mais velhos, quase centenários, reconhecerão este slogan. Ele foi utilizado pela Pepsi no final dos anos 80 no Brasil. Pepsi, aquele mesmo refrigerante que muitos amantes fiéis da Coca-Cola não utilizam sequer para desentupir a pia. Na verdade, conheço pouca gente que realmente gosta da marca azul. Quando era criança, eu estava neste grupo meio obscuro. Amadureci e vi que a Coca-Cola, com seus altíssimos níveis de sódio e açúcar, é um elixir melhor. Mas por que estou falando sobre refrigerantes, que tanto aterrorizam nutricionistas e patricinhas encanadas com celulite?

Nesta semana, surgiu na Europa um boato afirmando que a equipe McLaren poderia perder o polpudo patrocínio da Vodafone, gigante britânica da telefonia, após o fim de 2013. Os senhores sabem que a Vodafone é a principal fonte dos dinheiros da McLaren desde 2007 e, graças a isso, dispõe até mesmo do direito de aparecer no nome oficial da escuderia, “Vodafone McLaren Mercedes”. Pois este romance está prestes a acabar devido à crise mundial, ela mesma. Os engravatados da empresa perceberam que gastar 60 milhões de euros anuais para financiar uma equipe de Fórmula 1 não estava valendo a pena. Cair fora aliviará um pouco o cofrinho da Vodafone, empresa que já esteve em condições financeiras bem melhores.

Quem a substituiria no papel de patrocinadora principal da McLaren a partir de 2014 seria justamente a Coca-Cola, fabricante do “líquido negro do capitalismo”. Se esta associação entre McLaren e Coca acontecer, será a primeira grande incursão da marca na Fórmula 1. Vale notar que um pequeno logotipo vermelho e branco da marca surgiu estampado no carro da Tyrrell no GP do Brasil de 1981, cortesia da filial brasileira. Foi a única aparição da Coca-Cola na história da categoria.

Por incrível que pareça, a categoria europeia onde a empresa mais investiu foi a Fórmula 3000 Internacional. Em 1987, o francês Gilles Lempereur disputou duas corridas da categoria apoiado pela marca. No ano 2000, a Coca-Cola decidiu injetar uma tonelada de dinheiro na equipe Nordic, que passou a pintar seus carros de vermelho. Com este layout, Justin Wilson foi o campeão do certame em 2001. Os marqueteiros da Coca tratavam a Nordic como uma espécie de laboratório. Se os resultados comerciais fossem interessantes, a companhia passaria a apoiar uma equipe de Fórmula 1, talvez a Jordan ou a Benetton. Não deu em nada.

Bem que a Coca-Cola poderia despejar um pouco de seus zilhões de dólares no automobilismo. O Top Cinq de hoje apresenta cinco marcas de refrigerante, algumas delas oficialmente inexistentes no Brasil, que estamparam bólidos ao redor do mundo e fizeram muita gente sentir sede enquanto prestavam atenção nas corridas.

5- 7UP

 

Seven Up. Gosto da marca. Coleciono latinhas de cerveja e refrigerante. Acabei de colocar mais uma na coleção, uma 86 Red holandesa. E tenho uma 7UP brasileira, fabricada há cerca de dez anos. O logotipo, com direito à bolinha vermelha sobre fundo verde, é mítico. Como não se simpatizar?

Para os que não conhecem, a 7UP é uma antiga marca de limonadas gaseificadas que chegaram a ser produzidas no Brasil até um tempo atrás. Ela surgiu em 1929 com o estrambólico nome de Bib-Label Lithiated Lemon-Lime Soda, mas ganhou seu nome mais famoso e prático algum tempo depois. Durante algum tempo, a 7UP chegou a pertencer à Philip Morris, aquela que produz os cigarros Marlboro, mas acabou indo parar nas garras da Pepsico. Está aí no mercado até hoje. Não é para o nosso bico, infelizmente.

Aparentemente, a 7UP sempre fez questão de alimentar uma imagem moderna e jovial. Nos anos 90, ela se associou à Virgin e produziu um jogo de videogame muito legal, onde o personagem principal era ninguém menos que seu logotipo! Cool Spot era exatamente a bolinha vermelha da logomarca acrescida de óculos escuros, braços, pernas e cara de malandro. Eu tinha a versão do jogo para Super Nintendo. Passei boas tardes me divertindo com aquele logo ambulante.

No automobilismo, a 7UP não apareceu em tantos carros. No entanto, quando se empenhou em se destacar, causou furor. Em 1991, a Pepsico foi a primeira empresa maluca o suficiente para dar aquela força à equipe de Fórmula 1 do quatro-olhos Eddie Jordan. Só que ela resolveu emprestar justamente sua marca mais esverdeada. A 7UP estampou o bico e as laterais do 191 e chamou bastante a atenção naquela temporada. O carro não só era bastante veloz como também era muito bonito, talvez um dos mais belos da história da categoria. Cool Spot não poderia ter ficado mais orgulhoso.

4- MOUNTAIN DEW

 

Do the Dew with Mountain Dew. No Brasil, não deu muito certo. Não foi por falta de tentativa. Bem que a Pepsico, dona da marca, se esforçou. Botou um bocado de propagandas na televisão com esse slogan aí, em inglês. Eu nem me lembro se cheguei a experimentar a bebida, mas ao menos consegui uma latinha para minha coleção. Esse tal de Mountain Dew é um refrigerante que misturava um monte de sabores cítricos, algo próximo do Schweppes, só que com uma imagem um pouco mais ousada.

Criado em 1948, o Mountain Dew é quase uma instituição americana. Ele era produzido de maneira artesanal numa fabriqueta lá no interior do Tennessee até 1964, quando a Pepsico, sempre ela, decidir adquirir sua marca e fabricar o refrigerante em escala industrial. De lá para ca, ele se tornou famoso e ganhou outros sabores além da tradicional mistureba citrus.

Sendo uma bebida feita por americanos típicos para americanos típicos, o Mountain Dew só poderia aparecer como patrocinador nos gigantescos e potentes carros da NASCAR. Atualmente, quem carrega a marca no carro e no macacão é ninguém menos do que Dale Earnhardt Jr, o filho do homem. A Pepsico assinou um acordo com o piloto e garantiu que sua marca radical se tornasse a principal patrocinadora do Chevrolet nº 88 em 16 corridas dessa temporada. Sendo Dale Jr. o cara mais badalado da NASCAR, é impossível negar que a Mountain Dew se deu bem.

Mas a associação entre NASCAR e Mountain Dew não é de hoje. Em 1981 e 1982, o refrigerante esteve ao lado de Darrell Waltrip, que foi o campeão da Winston Cup nestes dois anos. Mais recentemente, Brian Vickers estampou a marca em seu carro em algumas corridas da temporada da NASCAR Busch Series de 2006. A pintura utilizada por Vickers homenageava exatamente o tricampeão Waltrip, uma prova de que a Mountain Dew conseguiu eternizar-se na memória de todos os fãs obesos do automobilismo americano.

3- DR. PEPPER

 

Do alto da minha ignorância, posso assumir que faz pouco tempo que tomei conhecimento da Dr. Pepper. E ainda assim, demorei um pouco para perceber que representava uma marca de refrigerante. Burro como sou, acreditava se tratar de algum tempero feito à base de pimenta jalapeño. Somente após xeretar a internet é que descobri que o apimentado Dr. Pepper era, na verdade, um negócio de beber. Famoso, até.

A fórmula do Doutor Pimentinha foi criada lá por volta de 1880 no Texas. Nosso querido amigo Charles Alderton juntou um monte de ingredientes aleatórios e criou um refrigerante diferente, cujo sabor não encontra similaridade em qualquer outra bebida disponível no mercado. Muita gente achou o máximo e Mr. Alderson ficou podre de rico vendendo seu elixir. Não demorou muito e qualquer um passou a poder encontrar Dr. Pepper nos melhores e piores supermercados dos quatro cantos do planeta. Só não se lembraram de mandar um pouco do refrigerante para os pobres brasileiros, mas a empresa deve erroneamente acreditar que macacos e jacarés não bebem nada.

Confessei lá em cima que foi o automobilismo que me fez conhecer a marca Dr. Pepper. Em 2007, ela passou a patrocinar a equipe Andretti-Green na Indy Racing League. A parceria evoluiu e está aí até hoje, firme e forte. No ano passado, o filhote Marco Andretti levou o logotipo grená em seu carro durante algumas corridas. Em outras corridas, Andrettinho vestiu as cores de outros produtos do grupo Dr. Pepper Snapple, como o energético Venom e o refrigerante de cola RC Cola.

Na NASCAR, a Dr. Pepper também estabeleceu seu espaço. Ela é uma das patrocinadoras de Travis Kvapil, que disputa a Sprint Cup sem grande destaque. No passado, a marca chegou a apoiar outros pilotos tanto Winston Cup como na Busch Series. Muito bom, muito bacana, mas cadê a porcaria do refrigerante aqui no Brasil? Minha coleção ainda está incompleta!

2- SCHWEPPES

Antes de tudo, um chute na bunda de cada um que pronuncia “Schuépes”. Assim como todo mundo fala “Volksvagen”, o correto é “Schvépes”. Portanto, a partir de hoje, dê uma de chato implicante, irrite seus amigos e somente peça “Schvépes”. Voltamos à programação normal. Schweppes é um dos melhores refrigerantes que existem atualmente. Ele é cítrico pra caramba e doce pra caramba, um pesadelo para os diabéticos e um enorme prazer para os que têm bom gosto.

Ao contrário das marcas acima, a Schweppes não surgiu nos Estados Unidos. No final do século XVIII, um relojoeiro que gostava de brincar de cientista doido desenvolveu meio que por acaso um processo para fabricar água mineral gaseificada. Percebendo que ele poderia faturar horrores com sua criatividade, ele decidiu fundar uma empresa de bebidas na Suíça. Pouco depois, o ex-relojoeiro se mudou para a Inglaterra e levou seu império para lá. Após alguns anos, a Schweppes se tornou uma das bebidas mais conhecidas da galáxia.

Hoje em dia, a marca Schweppes pertence ao grupo Dr. Pepper Snapple e está espalhada por todo o mundo. Aqui no Brasil, tomamos seu famoso refrigerante de frutas cítricas há tempos. Há também a água tônica e a água gaseificada, mas elas não servem pra nada. O negócio é consumir unicamente aquela latinha verde limão que se destaca nas prateleiras dos supermercados.

No automobilismo, a Schweppes se associou com dois dos nomes mais ilustres da história. Em 1998, ela passou a patrocinar a poderosa McLaren na Fórmula 1. A marca aparecia principalmente nos visores dos capacetes de Mika Häkkinen e David Coulthard. A parceria durou três temporadas, rendeu um milhão de libras por ano para a McLaren e um enorme prestígio para o refrigerante cítrico. Mas a coisa mais legal que a Schweppes fez foi ter apoiado Gilles Villeneuve em sua primeira temporada na Fórmula Atlantic canadense em 1974. O pai de Jacques pilotou um carro todo pintado de amarelo e com adesivos da fabricante de bebidas grudados em várias partes. Uma bom casamento, o de um piloto e um refrigerante geniais.

1- PEPSI

Para desagrado total da Coca-Cola, quem aparece liderando o Top Cinq de hoje é justamente sua arquirrival Pepsi. O refrigerante de cola envolto em lata azul é uma das bebidas mais vendidas no planeta, chegando a bater a Coca em rincões obscuros ou fictícios como o Canadá. No Brasil, contudo, são poucos os que realmente gostam dela. Diz a lenda que a Pepsi lá fora é outra coisa, bem melhor. Como sou pobre e não tenho dinheiro para viajar por aí, fico apenas com a minha impressão inicial de refrigerante que leva uma tremenda surra da Coca.

Mas a Pepsi enfia um chocolate no rabo da concorrente quando se trata em publicidade no automobilismo. Comecemos pela Fórmula 1, a maior e mais nojenta de todas as categorias. Em 1991, como falei lá em cima, a Pepsico deu todo o apoio possível à equipe Jordan, que estava em seu ano de estreia. Ela estampou o logotipo da 7UP nas catorze primeiras corridas, mas preferiu usar a marca Pepsi nos GPs do Japão e da Austrália, mercados que não significavam nada para a 7UP. Alguns anos depois, Jordan e Pepsi se reencontraram por meio de Rubens Barrichello, que era patrocinado pelo refrigerante. O suporte a Rubinho, diga-se de passagem, quase lhe rendeu uma vaga na Benetton em 1996. Pena que Flavio Briatore, um possível fã de Coca-Cola se considerarmos o diâmetro de sua barriga, não quis nem saber.

Na Indy, a Pepsi tem uma história bem maior. Ela apoiou um bocado de equipes entre o início dos anos 80 e o início do novo milênio, desde as pequenas Machinists Union e Andale até as poderosas Chip Ganassi, Walker e Patrick. Pilotos como Scott Pruett e Roberto Moreno levaram a marca, mesmo discreta em seus carros e macacões, à vitória.

Em outras categorias, a Pepsi também apareceu bastante. Destaco dois casos. Na Fórmula 3000 Internacional, um dos patrocinadores do manauara Antonio Pizzonia na Petrobras Junior em 2001 e 2002 era exatamente a inimiga nº 1 da Coca-Cola. Mas nada supera este carro aí da foto, um Holden pilotado por Greg Murphy na V8 Supercar australiana, um dos melhores campeonatos de turismo do mundo. Mesmo que não sejam muitos os que acompanhem a V8 fora da grande ilha, não há como ignorar a belíssima pintura verde em grafismos. Gostaria de ver o que a Coca tem para oferecer em troca.

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Gilles Villeneuve, o do carro branco à direita, na corrida de Mont-Tremblant

Segunda parte do especial sobre Gilles Villeneuve na Fórmula Atlantic em 1976. Ele estava disputando as duas versões da categoria, a americana e a canadense, pela equipe Ecurie Canada. Nos Estados Unidos, venceu as três primeiras corridas. Como a etapa seguinte só seria disputada no fim de agosto, o pai de Jacques Villeneuve voltou ao Canadá para disputar as duas primeiras corridas do campeonato local. Venceu a primeira e abandonou a segunda. Será que a Fórmula Atlantic canadense lhe traria mais dificuldades?

Não. No pequeno circuito de Gimli, palco da terceira etapa da Fórmula Atlantic canadense, Villeneuve fez mais uma pole-position e ganhou a corrida com uma vantagem de oito segundos. Ah, agora, sim.

Mas quase que sua temporada acabou aí. Dias após esta corrida em Gimli, alguns cheques da Skiroule acabaram retornando por não terem fundo. A empresa passava por sérias dificuldades financeiras. Sem a grana da Skiroule, Villeneuve não teria como seguir em frente. Uma pena, pois faltavam apenas três corridas da Fórmula Atlantic canadense e outras três do certame americano.

Para sorte de Villeneuve, ele tinha um admirador à distância, o empresário americano John Lane, um antigo amigo do piloto canadense que havia feito fortuna no mercado financeiro. Lane se comoveu com a situação de Villeneuve e decidiu ajudá-lo comprando os dois carros da equipe Ecurie Canada por 25 mil dólares. No entanto, o americano só tinha dinheiro para financiar a próxima corrida do piloto canadense, em Mont-Tremblant, realizada no dia 11 de julho. Seria a quarta corrida da Fórmula Atlantic canadense naquela temporada.

Mas as desventuras não acabaram por aí. Villeneuve e a Ecurie Canada chegaram a Mont-Tremblant, circuito que já havia até mesmo recebido a Fórmula 1 durante alguns anos, antes dos concorrentes. Com a pista livre, decidiram fazer algumas voltas de reconhecimento. Gilles entrou em seu March e partiu com tudo logo de cara. De repente, ele não passou mais pela reta dos boxes. Alguns minutos se passaram e o pessoal da equipe começou a ficar realmente preocupado. Será que aconteceu alguma coisa com o doido?

O engenheiro Ray Wardell deixou os boxes e foi atrás de uma ambulância. Ao encontrar uma, começou a circular pelo autódromo procurando por Villeneuve. Encontrou um carro destruído e um piloto irritado e ansioso. Gilles estava muito bem, mas o carro poderia sair dali diretamente para o ferro velho. Tudo o que ele queria era voltar aos boxes e pegar um reserva.

O acidente realmente não o afetou. Mesmo pilotando o bólido reserva, Villeneuve enfiou cinco décimos no segundo colocado no treino oficial. Na corrida, partiu para mais um desfile. Venceu com nove segundos de vantagem para quem vinha imediatamente atrás. Já contabilizava três vitórias em quatro corridas canadenses. Mas não sabia se correria na próxima, pois o dinheiro de John Lane havia acabado.

“Já antes do início do campeonato, estava seguro de uma coisa: não me contentaria em ser campeão chegando em segundo ou terceiro. Sempre acreditei que a melhor maneira de vencer um campeonato é tentando ganhar todas as corridas.”.

Poucos dias após Mont-Tremblant, a Skiroule decretou falência. A equipe Ecurie Canada se viu definitivamente sem patrocinadores e acabou desistindo de viajar para a próxima corrida da Fórmula Atlantic canadense, a ser realizada em Halifax. Ela não tinha sequer os cinco mil dólares canadenses necessários para completar a temporada.

Road Atlanta, última etapa que Gilles disputou na Fórmula Atlantic americana

Para tentar não ficar a pé, Villeneuve teve de correr atrás de recursos. Faltando dez dias para a corrida de Halifax, ele se encontrou com um amigo que trabalhava para um afortunado executivo cinquentão de Montreal. O amigo se sensibilizou com a situação de Gilles e decidiu ver o que poderia conseguir com o patrão. O nome do pica grossa em questão é Gaston Parent.

Gilles Villeneuve marcou uma reunião com Gaston Parent. Sujeito acostumado a lidar com cifras milionárias no mercado financeiro, Parent se assustou quando aquele franzino canadense de camisa e calça jeans lhe pediu apenas cinco mil dólares canadenses. Mas ficou maravilhado com o carisma e a empolgação de Villeneuve, que lhe havia prometido vencer os campeonatos americano e canadense da Fórmula Atlantic, além do tradicional GP de Trois-Rivières.

Apenas 45 minutos após a reunião, o telefone de Villeneuve tocou. Era Parent, dizendo que já havia feito a transferência do dinheiro para a conta-corrente do piloto. Extasiado, Gilles não parava de agradecer:

– Caramba, muito obrigado! Você, agora, é meu patrocinador! Como devo pintar o meu carro?

– Não pretendo entrar como patrocinador. Faça o seguinte: pinte o carro de branco e estampe um lírio – pediu Parent. O lírio em questão é um logotipo que uma de suas empresas havia criado para as comemorações do centenário de Québec em 1967.

Dito e feito: Gilles deu fim à pintura verde da Skiroule e deixou seu March 76B totalmente branco, apenas com um pequeno patrocínio da Direct Film e o tal lírio de Parent. Com esta nova roupagem, ele e a Ecurie Canada puderam viajar a Halifax, onde disputariam a penúltima etapa da Fórmula Atlantic canadense no dia 8 de agosto.

Em Halifax, Gilles Villeneuve fez o de sempre. Marcou a pole-position, largou maravilhosamente bem, desapareceu na liderança e venceu com dezesseis segundos de vantagem para o segundo colocado. Com os 120 pontos marcados em quatro vitórias, Gilles assegurou o título da Fórmula Atlantic canadense com antecedência. Sequer precisaria disputar a última corrida, que seria realizada em Mosport Park.

No dia seguinte, o mecenas Gaston Parent abriu o jornal e deu de cara com uma grande foto que mostrava o carro de Villeneuve todo branco, estampado com o lírio de Québec e vencendo a corrida de Halifax. Parent ficou muito feliz, pois uma ideia sua estava associada ao mais novo campeão de Fórmula Atlantic do país.

Villeneuve embolsou dez mil dólares canadenses com o título. Entregou três mil à Ecurie Canada e separou o resto para Gaston Parent. O executivo ficou impressionado quando viu o piloto ali, no seu escritório, com os sete mil dólares canadenses em suas mãos. Gilles fez questão de pagar até mais do que o que havia sido emprestado.

Sabendo da difícil situação financeira de Villeneuve, Parent disse que os cinco mil dólares canadenses representavam um empréstimo de longo prazo e eles seriam mais bem utilizados na quitação de outras dívidas. Na prática, ele simplesmente deu a grana de presente a Gilles Villeneuve. Sem reação, o piloto disse apenas “obrigado” e foi-se. Foi o início de uma grande amizade.

Trois-Rivières, uma das corridas mais importantes da vida de Gilles Villeneuve

Só um adendo: Gaston Parent estava lá em Zolder quando Gilles Villeneuve faleceu. Não só como um grande amigo, mas também como seu empresário.

Como o dinheiro era contado, Villeneuve preferiu deixar de disputar a última corrida da Fórmula Atlantic canadense, em Mosport Park. Ele havia decidido que faria apenas as corridas que fossem necessárias para ganhar a Fórmula Atlantic americana e o GP de Trois-Rivières, que era o evento que ele mais esperava.

Por razões as quais eu não faço a menor ideia, ele também não disputou a quarta etapa da Fórmula Atlantic americana, realizada em Mid-Ohio no dia 29 de agosto. Gilles só reapareceu na quinta corrida, sediada em Road Atlanta no dia 19 de setembro. Fez a pole-position e ganhou tranquilamente. Com este resultado, Gilles Villeneuve obteve o título da Fórmula Atlantic americana com uma corrida de antecedência. Duas taças em apenas um mês. Gaston Parent não poderia estar mais feliz.

Com o título garantido nos dois campeonatos, Gilles Villeneuve sequer fez questão de participar da última etapa americana, a ser realizada em Laguna Seca. Mas o que realmente impressionou a turma da Fórmula 1 não foram as conquistas nas corridas de Fórmula Atlantic.

Quando Gilles Villeneuve foi atrás de Gaston Parent, seu objetivo era conseguir dinheiro não só para terminar as corridas que lhe faltavam para os dois títulos, mas principalmente para disputar o Grande Prêmio de Trois-Rivières, que seria realizado no dia 5 de setembro. Naquela altura, Gilles já era o campeão canadense e lhe faltava apenas uma corrida para ganhar o campeonato americano. Exatamente por isso, suas atenções estavam voltadas para a corrida mais importante do automobilismo de base norte-americano.

Naqueles bons dias, os pilotos de Fórmula 1 não tinham trocentos impedimentos contratuais que os impediam de andar de carrinho de golfe ou jogar Top Gear. Se Fulano da Silva, piloto da Lotus, quisesse correr de rali no raio que o parta, que fosse. Exatamente por isso, muito piloto consagrado viajou ao Canadá apenas para disputar esta corrida. Alguém imagina Lewis Hamilton ou Sebastian Vettel indo a Macau para participar do próximo GP de Fórmula 3? Jamais.

A lista de 36 inscritos tinha pilotos como Alan Jones, Vittorio Brambilla, Patrick Tambay, Hector Rebaque, José Dolhem e até mesmo o inglês James Hunt, que vinha disputando o título da Fórmula 1 com Niki Lauda. Sabe-se lá como, a Ecurie Canada conseguiu colocar James Hunt para correr num segundo March ao lado de Villeneuve. Imagine o que significava para Gilles dividir a equipe com o provável campeão de Fórmula 1 daquele ano.

“Trocaria numa boa todas as minhas conquistas obtidas até aqui por uma vitória aqui em Trois-Rivières. Para mim, é a corrida mais importante da temporada porque atrai as atenções de um monte de gente europeia e de vários jornalistas estrangeiros. Será muito importante vencer aqui”.

Na qualificação, os pilotos de Fórmula 1 bem que tentaram assumir as primeiras posições, mas não conseguiram. Sem surpresas para os canadenses, Gilles Villeneuve foi o pole-position. Na curtíssima e tradicional pista de rua localizada em Québec, ele marcou 1m04s436 e foi três décimos mais rápido do que Tom Klauser, o segundo colocado. Bobby Rahal foi o terceiro e o primeiro europeu, Brambilla, só apareceu na quarta posição.

Mesmo com a pole-position, Villeneuve não estava satisfeito com o carro, que subesterçava demais. Ainda no treino oficial, logo na sua primeira volta rápida, ele deu uma rodada com seu March graças aos problemas de dirigibilidade. Outros erros aconteceram durante os treinamentos. Poderia residir aí alguma chance para qualquer um dos outros 28 pilotos que largariam. Pensando nisso, o companheiro Hunt pediu para que o mesmo acerto do carro do canadense fosse utilizado no seu, acreditando que dava para brigar pela vitória.

O comedido Villeneuve no pódio de Trois-Rivières

Nada disso. Gilles largou como sempre fez e foi embora, não deixando chance para nenhum outro competidor. Em sessenta voltas e quase uma hora de prova, ele abriu dez segundos de vantagem para o segundo colocado, o conhecido Alan Jones. Ainda que Trois-Rivières fosse a corrida mais importante do ano e o circuito fosse estreito e perigoso, Villeneuve pilotou como se estivesse em um treino oficial, andando torto e escorregando nas curvas. Quem estava lá se maravilhou com o que viu.

Assim que cruzou a linha de chegada como vencedor, a torcida canadense veio à loucura. Um jovem québécois havia acabado de derrotar uma série de pilotos estrangeiros em casa. Tímido como sempre, Villeneuve não se extasiou demais. Fora das pistas, era um sujeito comportado e introvertido.

Alan Jones e James Hunt completaram o pódio. O inglês ficou simplesmente assombrado com o que havia acabado de presenciar. Ao retornar à Europa, Hunt não deixou de comentar sobre o então desconhecido piloto canadense com John Hogan, diretor esportivo da Marlboro, que patrocinava a McLaren naquela época. “Eu fui massacrado por aquele tal de Villeneuve. O cara é realmente sensacional. Vocês deveriam contratá-lo”.

A recomendação chegou aos ouvidos certos. O diretor da McLaren naqueles dias, Teddy Meyer, tomou conhecimento de Gilles Villeneuve pela declaração de Hunt e também pela mídia europeia, que ficou maravilhada com a atuação do cara em Trois-Rivières. Era de conhecimento público, da mesma forma, que as equipes Brabham e Wolf estavam muito interessadas em trazê-lo para a Fórmula 1. Meyer não poderia perder tempo se ele desejasse contratar Villeneuve antes dos concorrentes.

No início de outubro, haveria dois GPs de Fórmula 1 na América do Norte. Se a McLaren quisesse entrar em contato com Gilles Villeneuve, aquele era o momento certo. Então, Teddy Meyer convidou o piloto para um cafezinho com biscoitos no fim de semana do GP dos Estados Unidos, realizado em Watkins Glen. Mas por que não no GP do Canadá? Imagino eu que o circuito de Watkins Glen, sediado no estado de Nova York, seja mais próximo da pequena Richelieu de Gilles Villeneuve do que Mosport, localizado no sul de Ontario. Só isso me vem à mente.

Na reunião, Villeneuve mais escutou do que ouviu. Sua personalidade era assim mesmo, completamente avessa a discussões e polêmicas desnecessárias. A proposta de Teddy Meyer era a seguinte: Gilles faria cinco corridas com a McLaren na temporada de Fórmula 1 de 1977, incluindo aí Silverstone, Watkins Glen e Mosport. Além disso, ele seria convocado para fazer mais algumas corridas de Fórmula 2. Tudo isso por 25 mil dólares. Parece pouco hoje em dia, mas o pai de Jacques Villeneuve ficou animadíssimo e topou no ato.

Em dezembro, a contratação de Gilles Villeneuve pela McLaren foi oficializada. A partir de 1977, ele seria um piloto profissional de primeira grandeza e faria suas primeiras corridas na Fórmula 1. Os tempos de dureza haviam finalmente chegado ao fim.

No fim das contas, Villeneuve sequer precisou da McLaren. Fez apenas uma corrida em Silverstone e mostrou talento o suficiente para ser chamado pela Ferrari no final do ano. Também não precisou disputar nenhuma corrida de Fórmula 2. Ao invés disso, permaneceu na Fórmula Atlantic canadense apenas para ganhar três corridas e abocanhar o bicampeonato. A partir de 1978, Gilles concentrou-se apenas na Fórmula 1.

O resto? O resto você já sabe. A Ferrari também. O automobilismo, idem.

Trinta anos, não é? Um bocado de tempo. Hoje, o mundo do automobilismo celebra o aniversário de passamento (nunca vou entender como se celebra uma morte, mas tudo bem) de um dos pilotos mais emocionantes que a Fórmula 1 já viu. Em uma equivocada tentativa de ultrapassagem sobre Jochen Mass durante os últimos minutos de um treino oficial, Gilles Villeneuve passou desta para melhor. Diz a lenda que o canadense estava desesperado porque seu companheiro, o arquirrival Didier Pironi, havia feito um tempo 0,1 segundo melhor. Estava alucinado naquele dia, o sábado anterior ao GP da Bélgica de 1982. Acabou pagando com a vida.

Villeneuve pai não está no rol de meus pilotos preferidos. Muito pelo contrário. Tenho para mim que um piloto que chega à Fórmula 1, onde os carros são muito velozes e a pressão é máxima, deve aprender a tomar juízo. Ultrapassar por fora, escorregar, se esquecer de frear, fazer malabarismo, tudo isso daí deve ser feito nas categorias menores, onde o tempo de corrida é mais curto, as velocidades são mais baixas e se dá melhor quem chama mais a atenção. Na Fórmula 1, a coisa é diferente. Era bonito ver Villeneuve correr. Mas os resultados não correspondiam às façanhas.

Se me perguntarem qual é o melhor ano da carreira automobilística de Gilles Villeneuve, nem paro para responder: 1976. Naqueles dias, ele era apenas um piloto de Fórmula Atlantic na América do Norte. Mas que piloto!

Gilles sempre foi um cara com óleo de motor correndo pelas veias. Do tipo que faz uma cópia da chave do carro do pai, espera uma noite chuvosa para dirigir, pilota feito um maluco pelas ruas, bate e destrói o único carro da família, tudo isso aos 15 anos de idade. Do tipo que se envolve em um racha numa rodovia, acelera ao máximo, dá de cara com um comboio de vacas abobalhadas e termina no hospital necessitando de oitenta pontos na testa. Do tipo que precisou ganhar um snowmobile para acalmar um pouco. Do tipo que venceu quase tudo o que poderia nas corridas na neve.

Mas a verdade é que Villeneuve só trocou os snowmobiles pelos carros por razões puramente pragmáticas. No início dos anos 70, mesmo mal tendo ultrapassado a casa dos vinte anos de idade, já era homem casado e pai de dois filhos. Precisava de uma profissão um pouco mais sólida e rentável do que a de corredor das neves. Alguém lhe sugeriu pilotar monopostos. Formidável, não?

Villeneuve já havia feito algumas corridas de turismo no Canadá, mas não havia ficado tão empolgado. Os monopostos e suas reações rápidas lhe pareciam mais interessantes. Em 1973, Gilles entrou no famoso curso de pilotagem de Jim Russell. Saiu de lá aprovado com louvor e foi direto para a Fórmula Ford 1600 do Canadá. Num velho Magnum, ele chegou, viu e venceu o campeonato. Da maneira que ele sabia fazer: rodas na grama, rodas no ar, deslizadas, ultrapassagens assustadoras.

Em 1974, Villeneuve decidiu subir para a Fórmula Atlantic, a principal categoria de base da América do Norte. Havia uma equipe nova que estava precisando de piloto. Sediada no Canadá, ela era comandada por um ex-piloto e empresário chamado Kris Harrison. Gilles se encontrou com Harrison, apresentou-se e disse que queria correr.

Gilles Villeneuve em 1974

– Não, eu não estou interessado em pilotos sem experiência.

– OK. Então fale com este cara aqui.

E entregou um papel a Harrison. Jacques Couture era o nome que estava no papel. Era instrutor da escola de pilotagem de Jim Russell e acompanhava a Fórmula Ford canadense de perto. Sem nada a perder, Harrison ligou a Couture e ouviu maravilhas sobre o garoto franco-canadense: ele é campeão de snowmobiles e também manda muito bem nos carros. Seria uma tremenda idiotice se você não o contratasse, falou Couture.

Kris Harrison decidiu empregar Gilles Villeneuve em sua nova equipe, a Ecurie Canada. Mas não o faria de graça: o piloto teria de levar algo em torno de 70 mil dólares. Só que Gilles não tinha esta grana. Havia algumas soluções razoáveis para obtê-lo: assaltar um banco, vender drogas ou simplesmente trabalhar. Nosso herói preferiu outra saída: vendeu o motorhome onde a família morava. E ainda avisou sua esposa, Joanne, somente após a transação ter sido concluída. “Querida, vendi o motorhome. Beleza?”. Todos teriam de dormir no trailer da Ecurie Canada. Joanne poderia ter dado escândalo, mas não o fez porque sabia que o automobilismo era a coisa mais importante do mundo para seu lunático marido.

E lá foi Gilles Villeneuve na Fórmula Atlantic em 1974. Seu primeiro ano foi difícil e ele só conseguiu um único pódio em Westwood. Nas demais corridas, bateu ou teve problemas no carro amarelo patrocinado pela Schweppes. Em um dos acidentes, em Mosport, quebrou a perna esquerda. Sem dinheiro e sem grandes resultados, ele não pôde permanecer na Ecurie Canada em 1975. Percebendo que Gilles estava deprimido com o provável fim prematuro de sua carreira, Joanne lhe sugeriu que formasse sua própria equipe.

Villeneuve aceitou a ideia e foi à luta. Sem dinheiro, arranjou um March 75B, dois motores Ford BDD e alguns pneus meio que à base do “prometo que te pago um dia”. Formou a Ecurie Villeneuve, superestrutura de fazer inveja a qualquer equipe de ponta da Fórmula 1: Gilles seria o piloto, o chefe de equipe, o mecânico e o motorista da van.

Faltando poucos dias para a primeira etapa, Gilles teve uma ideia esperta para conseguir dinheiro. Nos tempos dos snowmobiles, ele era o principal piloto da Skiroule, uma das principais fabricantes da geringonça do Canadá. A Skiroule o adorava e vivia insistindo para que deixasse para lá esse negócio de automobilismo e voltasse às corridas na neve. Então, Villeneuve propôs que a empresa patrocinasse sua equipe de Fórmula Atlantic. Em troca, ele voltaria às competições de snowmobiles. A proposta foi aceita e a temporada de 1975 ficou garantida. Até deu para contratar um mecânico auxiliar.

A Fórmula Atlantic teve apenas seis corridas em 1975. Gilles ganhou uma, no circuito canadense de Gimli. A vitória foi assombrosa: no treino oficial, ele só conseguiu o 19º tempo. Mas choveu horrores no dia seguinte e Villeneuve mostrou do que ele era capaz. Simplesmente ultrapassou os dezoito pilotos que estavam à sua frente e ganhou a corrida com 15 segundos de vantagem para o segundo colocado, um tal de Bobby Rahal. Só não obteve vantagem maior porque escapou da pista duas vezes.

Por incrível que pareça, haveria uma corrida ainda melhor para Gilles Villeneuve em 1975. A etapa de Trois-Rivières era simplesmente a mais esperada do ano na Fórmula Atlantic, algo como as 500 Milhas de Indianápolis. Pilotos respeitados da Europa viajavam ao Canadá apenas para fazer esta corrida visando embolsar uma grana extra. Gente da laia de Patrick Depailler, Jean-Pierre Jarier e Vittorio Brambilla. Havia algo em torno de quarenta inscritos.

Villeneuve em 1975 com um capacete à la Eddie Irvine

Gilles Villeneuve deu de ombros para as dificuldades e se qualificou em terceiro. Na corrida, ultrapassou Patrick Depailler como se o francês fosse um aleijado. Depois, partiu para o ataque sobre o líder Jean-Pierre Jarier. Tinha grandes chances de vitória, mas sua pilotagem abusada acabou sobrecarregando os freios. Resultado: abandono na volta 60. Contudo, a atuação foi boa o suficiente para deixar os europeus de queixo caído. Quem este québécois de merda pensa que é?

Somente os bons resultados puderam manter em pé a carreira de Gilles Villeneuve. Em relação às finanças, 1975 foi outro ano bem difícil. Para segurar o apoio da Skiroule, Villeneuve teve de participar de 36 corridas de snowmobile com a empresa naquele ano. Venceu somente 32. Impressionada, a Skiroule decidiu manter o patrocínio para 1976 sem exigir que ele disputasse mais corridas na neve.

A vitória em Gimli e a atuação em Trois-Rivières transformou Gilles Villeneuve na grande atração do automobilismo norte-americano de base naqueles dias. Várias equipes de ponta da Fórmula Atlantic entraram em contato com ele oferecendo contratos polpudos para a temporada de 1976. Duas das ofertas chamavam bastante a atenção: a Doug Shierson Racing (que viria a ser a equipe de Raul Boesel na Indy em 1989) possuía a melhor estrutura, mas queria colocar Villeneuve ao lado de Bobby Rahal. O canadense não estava interessado em dividir uma equipe com outro piloto.

Restou a ele, então, aceitar o convite da mesma Ecurie Canada que lhe havia aberto as portas na Fórmula Atlantic e que só inscreveria apenas um carro. Melhor estruturada do que em 1974, a esquadra de Kris Harrison contava agora com o engenheiro Ray Wardell, que já havia trabalhado com a March na Fórmula 1. Sem sofrer com as mesmas enormes dificuldades financeiras de outrora, Gilles Villeneuve finalmente teria uma oportunidade boa na Fórmula Atlantic. Começaria aí a melhor temporada de sua vida.

Em 1976, haveria dois campeonatos de Fórmula Atlantic na América do Norte. Um deles ocorreria nos Estados Unidos e seria comandado pela IMSA. O outro era basicamente aquele que Villeneuve vinha disputando, com todas as corridas realizadas no Canadá. Gilles decidiu disputar ambos. Mas como não tinha dinheiro sobrando, priorizaria a temporada canadense, que era a mais importante. Ganhar a taça americana era apenas um bônus.

Villeneuve estava muito feliz. Sua família o apoiava por completo. Joanne e os filhos Jacques e Melanie não reclamavam em ter de morar em um motorhome e viajar o tempo todo desde que o papai ganhasse corridas. Quando não estava correndo ou se divertindo com a família, Gilles ficava esmiuçando seu belo carro ou discutindo acertos com os engenheiros. Também tentava conhecer os circuitos antes dos concorrentes. Pegava um carro de rua, colocava Ray Wardell ao seu lado e dirigia exatamente do seu jeito desvairado.

Com o March 76B pintado de verde, Villeneuve partiu para a primeira corrida do ano. Era a primeira etapa da Fórmula Atlantic americana, realizada em Road America no dia 11 de abril. Havia exatos quarenta inscritos, número considerado absurdo para os boiolas de hoje em dia. Para resolver o problema, a organização realizava dois treinos classificatórios, um para cada grupo de vinte carros. Aí, sim.

Gilles Villeneuve e o patrocínio da Skiroule, que era sua equipe nas corridas de snowmobile

Villeneuve não tomou conhecimento da concorrência e marcou a pole-position. Na corrida, disparou logo na primeira curva, abriu 13 segundos em quarenta voltas e venceu. Como prêmio, levou 2.500 dólares para casa. Para quem chegou a ficar sem ter onde morar, nada mal, nada mal mesmo.

As duas próximas corridas também eram etapas da Fórmula Atlantic americana. Em 2 de maio, 44 pilotos apareceram para a corrida de Laguna Seca. Villeneuve foi o segundo mais rápido de seu grupo na qualificação, mas acabou saindo apenas na terceira posição. O que não lhe significava nada: na corrida, partiu como um míssil, deixou os dois primeiros para trás e ganhou de novo.

Na corrida seguinte, realizada em Ontario, que não tem nada a ver com o estado canadense, Villeneuve fez barba, cabelo e bigode. Com maestria. Na qualificação, meteu oito décimos no segundo colocado no grid de largada, nosso conhecido Bobby Rahal. Largou e desapareceu na liderança. Marcou sua primeira volta mais rápida no ano. Cruzou a linha de chegada com 15 segundos de vantagem para o segundo colocado. Para comemorar a conquista, deu-se o luxo de ir com a família à Disneylândia.

Três vitórias em três corridas realizadas na Fórmula Atlantic americana. Mesmo estando ainda no mês de maio, Gilles já estava com o título praticamente garantido. A próxima corrida da categoria só seria realizada no fim de agosto. Neste meio tempo, seriam realizadas todas as seis corridas da Fórmula Atlantic canadense.

“Três coisas me fizeram melhor neste ano. O carro está melhor ajustado, eu tenho a chance de fazer mais corridas do que no ano passado e também estou menos cansado, já que não estou mais trabalhando como mecânico. Eu e o meu engenheiro, o Ray Wardell, estamos melhorando nosso relacionamento a cada corrida”.

Uma semana após a corrida americana de Ontario, Gilles Villeneuve voltou ao Canadá para disputar a primeira etapa da Fórmula Atlantic canadense, a ser realizada no autódromo de Edmonton, que não tem nada a ver com a pista de rua da Indy. Adivinhem o resto. Ele marcou a pole-position e abriu um calendário de diferença para o segundo colocado na corrida. O que poderia parar Gilles Villeneuve?

Somente um problema. A segunda etapa da Fórmula Atlantic canadense foi realizada em Westwood no dia 30 de maio. Gilles Villeneuve largou na pole-position e vinha liderando a corrida sob chuva forte com dezoito segundos de vantagem, mas teve problemas com o motor e abandonou na volta 24. Venceu Marty Loft. Será que o franco-canadense teria mais dificuldades no certame canadense do que no americano?

Amanhã, a segunda parte.

Carl Jung, o pai da psicologia analítica

Primeiramente, sou completamente leigo em Psicologia. Confesso que gostaria de me aprofundar mais no assunto, mas o que me sobra de preguiça me falta de tempo. Mas é sempre bom saber o que se passa na cabeça das pessoas, até mesmo para você conviver melhor com elas ou para utilizá-las a seu favor no caso de você ser um maquiavélico filho da puta e desalmado. Portanto, se seu interesse no assunto é nulo, até amanhã. Vou falar um pouco sobre isso, misturar o assunto com automobilismo e ver no que dá.

O fato de nunca ter estudado Psicologia não me impede de falar um pouco sobre tipos psicológicos junguianos. Vamos à Wikipedia para falar sobre Carl Jung, o criador da bagaça. Pai da psicologia analítica, o suíço Jung gostava de analisar sonhos e de identificar comportamentos e características pessoais, bem como algumas de suas peculiaridades, como os complexos e a oposição entre introversão e extroversão. Resumindo: Jung é o típico sujeito que tomaria um chope com você e, em três horas, faria uma radiografia da sua personalidade, colocando-te em determinada categoria. Ele é dos meus.

A coisa mais legal que Jung criou foi a Teoria dos Tipos Psicológicos. Em 1921, após duas décadas de intensa pesquisa, ele desenvolveu a obra “Tipos Psicológicos”, espécie de bíblia do assunto. Serei breve e simplificarei o que for necessário, ou seja, quase tudo. Segundo esta obra, os seres humanos são divididos entre os extrovertidos e os introvertidos. Os primeiros são ligados à externalidade das coisas: dão importância à estética, são comunicativos e abertos, gostam de interação. Os introvertidos, por outro lado, são ligados ao aspecto mais interno das coisas: tendem a prestar mais atenção nos detalhes e nas minúcias, preocupam-se mais consigo do que com outras pessoas ou coisas, são mais fechados e menos comunicativos.

Mas há diferenças fundamentais dentro de um mesmo grupo, seja ele o dos extrovertidos ou o dos introvertidos. Estas diferenças são definidas pelas chamadas funções psíquicas, conjuntos de habilidades e atributos que determinam o relacionamento do indivíduo com o mundo.  Estas funções psíquicas podem ser categorizadas em três categorias de oposição: sensação/intuição, pensamento/sentimento e julgamento/percepção.

Em suma, o indivíduo pode ser extrovertido (E) ou introvertido (I), sensorial (S) ou intuitivo (N), pensador (T, de thinking) ou sentimental (F, de feeling) e julgador (J) ou perceptivo (P). Conforme você define, para cada categoria, qual dos comportamentos é o seu, você vai unindo as letras e acaba formando um tipo psicológico completo composto pelas quatro letras que te caracterizam: ESTJ, INFP ou ISTP, por exemplo. São 16 possibilidades.

Explico cada letra:

EXTROVERTIDO (E): Pessoa que gosta do contato com o mundo externo. Tende a ser sociável, “simpática” e empática aos problemas dos outros. Simplificando, é aquela que gosta de música alta, festa no apê e telefone. Exemplo: Ivete Sangalo.

INTROVERTIDO (I): Pessoa que prefere a reclusão e o autoconhecimento, deixando de lado o contato excessivo com outras pessoas e coisas. Tende a ser mais tímida, solitária e tranquila. É aquela que gosta de ouvir música no fone de ouvido, ler e andar sozinha. Exemplo: Thom Yorke.

SENSAÇÃO (S): Pessoa que se dá melhor no contato com coisas concretas, que utiliza os cinco sentidos para receber informações do meio e agir. Tende a ter boa coordenação motora e a ser boa com trabalhos manuais e corporais. Exemplos: engenheiros, marceneiros e agricultores.

INTUIÇÃO (N): Pessoa que tende a pegar as coisas por meio do pensamento, da abstração e da imaginação, buscando observar algo além do que os cinco sentidos permite. Tende a ter coordenação motora terrível, mas é boa para chegar a conclusões estrambólicas sobre os mais variados assuntos. Exemplos: intelectuais em geral, críticos de arte, compositores.

PENSADOR (T): Pessoa que acredita na razão. Todas as suas ideias e atitudes são baseadas em conceitos racionais, sem a intervenção da emoção. Exemplo: físicos e matemáticos.

SENTIMENTAL (F): Pessoa que acredita na emoção. Para ela, não há como não agir sem a emoção, pois a razão é muito fria para ser levada a cabo pelos seres humanos. Exemplo: aquela menina chata de 15 anos que gosta de filmes de vampiros.

JULGADORES (J): Pessoa metódica que acredita na ordem. Um julgador acredita que as coisas devem ser feitas de maneira organizada e estritamente ortodoxa, sem abrir espaços para contratempos e arestas. Exemplos: militares, religiosos e positivistas.

PERCEPTIVOS (P): Pessoa que acredita na liberdade, no improviso e na relatividade. Para ela, não há uma única maneira de fazer as coisas, um sistema que deva ser consensual, um cronograma. O perceptivo, teoricamente, tem um leque maior de opções. Exemplos: hippies, liberais clássicos e anarquistas.

Quer fazer o teste para saber qual você é? Tenta este, em inglês.

Kimi Räikkönen, representante dos ISTP

Tá, mas e daí?

E daí que, sem muitos assuntos, decidi aplicar estes tipos junguianos a alguns personagens do automobilismo. Não sou psicólogo e nem conheço ninguém pessoalmente, ou seja, posso estar falando um monte de besteira e sendo injusto com os caras. Em alguns casos, a conclusão pode até soar forçada, mas tive de fazer isso para citar o maior número possível de exemplos. Enfim, não ligo para nada disso, escrevo e sigo em frente.

KIMI RÄIKKÖNEN – Um típico ISTP. Sujeito recluso e estranho que tende à misantropia. Não faz o tipo intelectualizado, mas é bom pra caramba na arte de pilotar. É tão emotivo quanto um boneco de neve. E definitivamente não é organizado e nem seguidor de consensos.

AYRTON SENNA: O tricampeão brasileiro é um bom ISFJ. Sempre muito tímido, Senna era um mestre em perceber problemas em seu carro e sentir as condições da pista, além de extremamente hábil ao pilotar. Emotivo, costumava chorar em suas maiores vitórias. E era um sujeito absolutamente organizado e compenetrado. Creio que Felipe Massa seja outro ISFJ.

NELSON PIQUET: O outro tricampeão brasileiro era INTP. Apesar de não ser propriamente tímido, certamente era alguém que não gostava muito de ser incomodado em alguns momentos. Mesmo sendo um ótimo acertador de carros, Piquet era um cara com boa capacidade de abstração e imaginação, algo que podíamos ver pelas suas declarações. Ele também não era um padrão Räikkönen de falta de emoção, mas parecia ser bem mais racional que a média. E improviso e contrassenso são com ele.

RON DENNIS: Um ISTJ dos bravos. Ron Dennis, definitivamente, não era o cara mais simpático e sociável de todos. Como a maioria das pessoas ligadas ao automobilismo, era um bom tipo sensorial. É também totalmente racional e completamente metódico. Fernando Alonso e Michael Schumacher poderiam ser outros ISTJ.

JAMES HUNT: Fiquei um pouco em dúvida, mas o classifiquei como ESFP. Um cara que comeu o tanto de mulheres que comeu e que fez um monte de amigos não pode ser introvertido. Bon vivant, exercia os cinco sentidos da melhor maneira possível. Não fazia o tipo racional, já que se acabava em drogas e bebida. E organização e obrigações não eram com ele. Juan Pablo Montoya, mesmo com outro perfil, é outro ESFP.

RUBENS BARRICHELLO: ESFJ. Esse daqui é absolutamente extrovertido, completamente sensorial (o que dizer de alguém precisa ler autoajuda?), totalmente emotivo e, convenhamos, não é um irresponsável heterodoxo. O oposto de Piquet. Explica muita coisa.

NICK HEIDFELD: INTJ.  Como a maioria dos alemães, não é exatamente extrovertido. Por gostar de arte, gastronomia e umas coisas bizarras, o considerei como intuitivo. É racional e não é do tipo que costuma fazer coisas bizarras demais ou sair da linha.

JACQUES VILLENEUVE: ENTP. Bocudo, não é tão introvertido quanto poderia se imaginar. Parece gostar mais de música e livros do que de carros, é um sujeito racional e costuma ser meio transgressor.

GERHARD BERGER: Seria ele um ESTP? Vejamos: era bastante extrovertido, um exímio sensorial no trato com os carros, racional especialmente em termos políticos e, pelas brincadeiras com Senna e por algumas manobras no início da carreira, um doido avesso a padrões.

KAMUI KOBAYASHI: Talvez um INFP. Claramente introvertido, sujeito relativamente avoado em seus pensamentos (quem mais diria que gostaria de ter sido comediante ou que, se não corresse, acabaria fazendo sushis?), bastante emotivo para um japonês e mais inventivo do que metódico.

LUCAS DI GRASSI: Fico em dúvidas, mas vou de ENTJ. Não é introvertido, é alguém que, ex-estudante de Economia e participante do Mensa, tem um lado intuitivo forte, é racional e é metódico e organizado, meio avesso a loucuras.

GILLES VILLENEUVE: Penso que era um ISTP. Bastante introvertido, especialista em controle do carro, não muito emotivo (só assim para conseguir sobreviver às disputas nas quais ele se metia) e totalmente doido.

JENSON BUTTON: Um ESTJ? Vejamos: extrovertido, bastante sensorial, relativamente racional e, como visto várias vezes em sua carreira, bastante cauteloso e conservador na pilotagem.

Confesso que não consegui exemplos para os outros três tipos (ENFP,ENFJ,  INFJ). Se quiserem mandar sugestões, aceito.

Aliás, eu sou INTP. Assim como Einstein, Darwin e o próprio Jung. Sabia que era um gênio.

A temporada 2010 vem assistindo a um interessante caso de litígio dentro da equipe mais descolada da Fórmula 1. Descolada. Odeio esse termo, desculpem. Mas tenho de usar, já que é esta a imagem que a Red Bull Racing quer passar a todos. Afinal de contas, nós, taurinos, somos relaxados e sabemos nos divertir. Não somos como os sisudos da McLaren ou os corporativistas histriônicos da Ferrari. Somos legais. Até o ano passado, todo mundo acreditava nisso. Nesse ano, a agora equipe de ponta vem passando por momentos de sisudez e corporativismo histriônico com as bicadas que os pilotos, Sebastian Vettel e Mark Webber, vêm trocando entre si.

O estranhamento entre companheiros de equipe é absolutamente normal e faz parte do esporte. Como disse Juan Pablo Montoya em certa ocasião, os colegas de time não são obrigados a se portarem como namorados. De fato, ele tem razão. Na verdade, não são muitas as duplas de pilotos que apresentaram um bom relacionamento. No entanto, alguns pilotos, como é o caso do próprio colombiano, levam a rivalidade a níveis que afetam até mesmo a estabilidade da equipe. O Top Cinq de hoje relembrará cinco duplas que se tornaram célebres pelas brigas típicas de marido e mulher em fim de casamento. Neste exato momento, ainda não dá pra dizer que Webber e Vettel chegaram a este ponto. É bom eles tomarem conhecimento do que uma inimizade pode fazer.

5- GILLES VILLENEUVE E DIDIER PIRONI


Dois pilotos educados, refinados e bastante ambiciosos que destruíram uma amizade pelo temor que um causava ao outro. Temor puro e mútuo. Mas não vou ser injusto. Didier Pironi foi o verdadeiro causador da inimizade por enxergar Gilles Villeneuve como uma ameaça à sua carreira vitoriosa.

Os dois competiram juntos na Ferrari por uma temporada completa em 1981 e mais algumas corridas de 1982. No primeiro ano, como o carro era muito ruim, não houve rivalidade entre ambos. No entanto, Villeneuve fez um ano impecável, venceu duas corridas e marcou 25 pontos contra apenas 7 de Pironi. Nos bastidores, Enzo Ferrari já havia prometido: se o carro de 82 for bom, a equipe faria de tudo para fazer o canadense campeão. É óbvio que o maquiavélico francês, que não chegava perto do companheiro nem nos contratos de patrocínio, não estava feliz com a situação.

O primeiro sinal do distanciamento foi o fato de Didier não ter convidado Gilles para seu casamento, no início de 1982. A temporada começou com Villeneuve andando bem mais rápido, errando bem mais e marcando menos pontos do que Pironi. O racha ocorreu em Imola, quando a Ferrari vinha fazendo uma dobradinha Villeneuve-Pironi. Como a corrida já estava sob controle total, a equipe pediu para que os pilotos poupassem os pneus diminuindo o ritmo. Villeneuve obedeceu, mas Pironi não fez o mesmo e o ultrapassou na Tosa, assumindo a ponta. O canadense não achou ruim, atacou o companheiro e o ultrapassou, retomando a liderança. Mas Pironi estava diabólico e ultrapassou Villeneuve novamente na penúltima volta. E venceu a corrida.

No pódio, o clima estava péssimo. Pironi nem olhava para a cara do enfurecido Villeneuve, que declarou à mídia que nunca mais falaria com ele. O fim das relações entre os dois foi o assunto mais comentado da Fórmula 1 pelos quinze dias seguintes. Em Zolder, Pironi estava à frente de Villeneuve nos treinos, e o canadense estava bastante desesperado com a situação. Faltando poucos minutos para o fim dos treinos, ele foi à pista, tentou ignorar o retardatário Jochen Mass, sofreu um acidente e morreu. Meses depois, Pironi também sofreu um gravíssimo acidente em Hockenheim, mas este ao menos sobreviveu.

Em 1987, pouco antes de morrer, Didier Pironi viria a dar o nome de Gilles a um de seus filhos. Posso ser bem honesto? Um misto de demagogia e consciência pesada.

4- NIGEL MANSELL E NELSON PIQUET


“Mansell é o maior idiota que eu já vi”. Essa frase foi dita por um ex-companheiro de equipe do inglês, o sempre afiado Nelson Piquet.

Nigel Mansell e Nelson Piquet eram duas das figuras mais emblemáticas da Fórmula 1 dos anos 80. Cada um deles tinha sua personalidade, que era diametralmente oposta à do outro. Piquet era um iconoclasta, um transgressor do status quo mofino da categoria. Era criativo, vibrante, aventureiro, gostava de levar uma boa vida com suas mulheres e seus iates. Destacava-se pelo sarcasmo frequentemente confundido com arrogância ou grosseria. Já Mansell, formado em engenharia, fazia o perfil low profile. Tinha sua mulher, considerada muito feia por Piquet, seus filhos e sua vida pacata típica de um inglês do interior, o que talvez explique sua falta de malícia perante o mundo da Fórmula 1. Descrições psicológicas feitas, falemos da Williams.

Mansell e Piquet foram companheiros na equipe de Sir Frank Williams por apenas dois anos, 1986 e 1987. Tempo suficiente para que a equipe se dividisse entre os defensores da molecagem de Piquet e os da ingenuidade de Mansell. Frank Williams gostava muito de Nigel, mas ficava deslumbrado com a perspicácia do brasileiro. Já Patrick Head era 100% Mansell, e como sua influência era tão forte quanto a de Frank, a equipe acabava privilegiando o piloto inglês. Dois episódios ilustram bem esse protecionismo: no GP da Alemanha de 1986, Nigel Mansell tinha problemas com os pneus e deveria parar nos pits para trocá-los. No entanto, Nelson Piquet prega uma surpresa em todos e entra nos pits, antecipando sua troca de pneus e obrigando Mansell a ficar com aqueles pneus por mais uma longa volta. Com isso, Nelson ganhou o tempo necessário para vencer a corrida de forma antológica. Após a corrida, Piquet ainda deu um tapinha nas costas do enfurecido Patrick Head.

No ano seguinte, a Williams havia desenvolvido um sistema de suspensão ativa que vinha dando alegrias a Piquet e muitas dores de cabeça a Mansell. O brasileiro venceu três corridas no meio do ano, enquanto que Mansell sofria para acertar seu carro. A briga entre os dois chegou a um ponto em que Nelson escondia os acertos de seu carro, o que dificultava ainda mais a vida do oponente. Como forma de ajudar Mansell, Patrick Head decidiu que os Williams não teriam mais suspensão ativa para as três últimas etapas de 1987. Mesmo assim, Piquet sagrou-se campeão em 1987. Contra a vontade de boa parte da equipe.

3- JUAN PABLO MONTOYA E RALF SCHUMACHER

É uma dupla que tem muito em comum com Mansell e Piquet. Ambos competiram pela Williams. Ambos dividiram as opiniões da equipe. Ambos apresentavam personalidades bastante distintas. Montoya era o latino enfurecido, capaz de escandalizar uma Fórmula 1 inteira pelo lado bom e pelo lado ruim. Ralf era o germânico que fazia cara amarrada e que parecia demonstrar uma constante ponta de inveja pelo sucesso do irmão Michael. Admirador dos tipos efusivos, Frank Williams apostava no colombiano, cria sua desde 1997. Patrick Head ficava em cima do muro. Quem dava apoio a Ralf era a BMW, fornecedora de motores da equipe.

A rivalidade entre os dois começou já na pré-temporada de 2001, com alfinetadas trocadas por meio de declarações na mídia e atitudes pueris como o isolamento dos mecânicos. Durante o ano de 2001, enquanto Montoya ainda aprendia a terminar duas corridas consecutivas, Ralf fazia seu melhor ano na Fórmula 1. Conforme o colombiano aprendia a terminar duas corridas consecutivas, ele começava a andar à frente do alemão com mais frequência. E Ralf se desestabilizava.

Em 2002, ambos estavam em condições parecidas – levando surra da Ferrari. Ralf e Montoya ficavam naquela de andar em terceiro e quarto o tempo todo, demonstrando até mesmo uma certa apatia. No entanto, em Indianápolis, os dois protagonizaram um belíssimo espetáculo ao baterem um no outro na primeira curva da segunda volta da corrida. Enquanto Montoya saía pela grama, Ralf ficava sem o aerofólio traseiro. Nos boxes, Patrick Head se descabelava com os dois estrupícios.

Depois disso, Ralf decaiu e Montoya deu uma sossegada. Nunca foram amigos, embora Juan Pablo tenha até admitido certa vez que “Ralf é um cara legal”, o que é uma visível atitude política. No fim das contas, ambos deixaram a equipe no fim de 2004. Só que, ao contrário de Mansell e Piquet, nenhum deles saiu de lá campeão.

2- AYRTON SENNA E ALAIN PROST

Já falei dessa rivalidade trocentas e três vezes, e a repetição acontece porque essa foi a rivalidade mais conhecida da história da Fórmula 1. Ela envolveu dois monstros sagrados da Fórmula 1 em um período no qual os pilotos começavam a ter mais fama do que a própria categoria. E acabou culminando em um acidente que decidiu um título.

Ayrton Senna e Alain Prost tinham muito em comum e muitas diferenças. Ambos eram bastante compenetrados e perfeccionistas. Ambos eram políticos com quem lhes interessava. Ambos eram maquiavelicamente pragmáticos. Ayrton Senna gostava de chuva e de correr em pistas de rua. Alain Prost odiava chuva e pistas de rua, mas acertava os carros de um jeito que o brasileiro não conseguia. Quando Senna chegou na McLaren, Prost já tinha feito quatro temporadas com a equipe de Woking. Os dois correram juntos por apenas dois anos, 1988 e 1989. No começo, o relacionamento era notavelmente bom.

Em Estoril/1988, no entanto, a torta começou a desandar. Na segunda volta da segunda largada, Prost tentou ultrapassar Senna na reta dos boxes. O brasileiro deu uma fechada violenta no francês, que quase bateu na mureta do lado direito. Mesmo assim, Prost insistiu e conseguiu a ultrapassagem. Findada a corrida, Prost criticou Senna pela atitude e chamou o brasileiro para um café avec macarons no motorhome da McLaren para discutir o que aconteceu. Eles conversaram e tudo foi resolvido.

Imola/1989. Havia um acordo prévio entre os pilotos da McLaren que, após a primeira curva, um não deveria ultrapassar o outro na primeira volta. Como a corrida teve duas largadas, Senna considerou que o acordo já não valia mais desde a primeira largada. E na primeira volta da segunda largada, o brasileiro ultrapassou Prost na Tosa, disparou e venceu a corrida. O relacionamento entre os dois acabou aí.

Prost e Senna deixaram de se falar e a maioria da McLaren se colocou ao lado do brasileiro. Sem clima para permanecer na equipe, o francês anunciou no fim de semana da corrida da sua casa que estava de malas prontas para ir embora. O ambiente permaneceu negativo até o GP do Japão. Como já contei essa história, dispenso detalhes. Os dois se chocaram na chicane e Prost ganhou o título.

Depois desse acidente, eles ainda se atacaram em outras ocasiões, seja por acidentes na pista ou por declarações ferinas. A reconciliação veio apenas no fim de 1993. Pelo que um fez ao outro, especialmente nas corridas japonesas de 1989 e 1990, até que ela veio rápida e facilmente.

1- CARLOS REUTEMANN E ALAN JONES

Ah, equipe Williams. Conseguir colocar três duplas nesse ranking é a prova absoluta de sua incapacidade em gerenciar conflitos, atributo básico para o bom funcionamento de uma empresa. O conflito aqui é o menos conhecido, mas talvez o mais agressivo da história da equipe.

Assim como as duplas anteriores, os dois pilotos são completamente diferentes entre si. Jones encarnava o arquétipo do australiano parrudo e agressivo, enquanto que o judeu Reutemann desfilava com sua elegância e prepotência pelo paddock. Os dois foram companheiros de equipe em 1980 e 1981. No primeiro ano, tudo correu de modo tranquilo, Jones foi campeão e Reutemann ficou em terceiro. Como o australiano também tinha mais tempo de casa, nada mais natural do que ele ser considerado o primeiro piloto da equipe em 1981.

No entanto, a hierarquia veio abaixo logo na segunda etapa do campeonato, o Grande Prêmio do Brasil. Carlos Reutemann liderou a corrida desde a primeira volta, com Alan Jones sempre atrás. A Williams mandou Reutemann ceder passagem a Jones, mas diante de uma considerável torcida argentina no circuito de Jacarepaguá, ele recusou, manteve-se à frente e venceu a corrida. Enquanto Reutemann era celebrado sob gritos de “Lole! Lole!”, Jones se recusava a subir ao pódio para receber o troféu de segundo lugar.

A partir daí, Jones passou a nutrir um enorme sentimento de ódio por Reutemann, que respondia com desprezo. A Williams tomou partido do australiano, e a confusão estava instalada. O clima na equipe estava muito ruim e nem os bons resultados obtidos pelo argentino recuperaram os ânimos. No fim das contas, Reutemann chegou à última corrida, em Caesar’s Palace, com 49 pontos e a liderança do campeonato. Nelson Piquet, o vice-líder, estava apenas um ponto atrás. Alan Jones, com 37, estava completamente fora da disputa. Antes da corrida, disse a todos que não ajudaria seu companheiro por acreditar que não havia o que fazer, uma vez que segurar os outros pilotos seria antidesportivo. Balela, é claro.

O caso é que a Williams não moveu uma única palha para ajudar o argentino, que apesar de ter obtido a pole-position, teve um carro completamente problemático durante a corrida, perdeu várias posições e terminou apenas em oitavo. E quem venceu? Alan Jones, que dispôs de um carro impecável. Com os resultados, Nelson Piquet venceu o título com apenas um ponto de vantagem sobre Reutemann.

Mesmo depois da saída de ambos da Williams, o ódio continuou. Após Jones ter anunciado sua aposentadoria, Reutemann se aproximou dele pedindo para “enterrar o passado”, ao que o australiano educadamente responde algo como “só se for no seu rabo!”. No fim de 1981, alguém perguntou a Alan Jones se ele correria em 1982. Cáustico, responde que só faria o GP da Argentina para ver a reação da torcida local…

Comentei há algumas horas sobre a notícia publicada pelo Auto Motor und Sport a respeito da inscrição de uma equipe de Fórmula 1 liderada por Jacques Villeneuve. Como dito, o nome da equipe seria tão poderoso quanto pouco criativo, Villeneuve Racing. E tão pouco criativo quanto o nome é o próprio projeto, já que não é a primeira vez que a família franco-canadense dá asas a um sonho do tipo. Em 1982, meses antes de sua morte, Gilles Villeneuve também fazia planos para abrir sua própria equipe!

Não tenho muitas informações sobre isso, até porque é muito difícil encontrar documentação sobre esse tipo de assunto. Na verdade, só fiquei sabendo disso uns dias atrás. A história é contada com detalhes pelo jornalista Gerald Donaldson no livro “Gilles Villeneuve – The Life of the Legendary Racing Driver”, a melhor biografia já escrita a respeito do piloto canadense, falecido em um acidente nos treinos do Grande Prêmio da Bélgica de 1982.

Segundo o livro, o plano inicial surgiu ainda em 1981, quando alguns empresários vindos de Milão se aproximaram de Villeneuve, ídolo da Ferrari, para abrir uma equipe com o nome de Team Villeneuve. A idéia era ter uma equipe forte que carregasse um nome famoso como o do piloto canadense para efeito de marketing. O dinheiro que financiaria a brincadeira viria de uma multinacional do tabaco não relacionada à marca Marlboro, possivelmente a Rothmans, e seria negociado por intermédio dos tais empresários. Gilles ficou bastante entusiasmado com a idéia e decidiu levá-la adiante.

A idéia era bastante ambiciosa. A equipe Villeneuve teria, a princípio, apenas um carro para Gilles. Com o passar do tempo, a estrutura seria ampliada de modo a comportar um segundo carro. O próprio Gilles Villeneuve comentava que seu maior sonho seria ter seu filho Jacques pilotando um desses carros no futuro. Os empresários milaneses garantiram que financiariam o que fosse necessário para que a equipe fosse competitiva. Eles aceitaram bancar uma pista de testes que seria construída a alguns quilômetros de Fiorano, uma fábrica inteira e um time de funcionários de peso. Villeneuve queria reunir amigos seus que tivessem muita experiência no negócio: Ray Wardell (seu engenheiro dos tempos da Fórmula Atlantic) seria o diretor técnico, Gaston Parent (seu empresário) e Boris Stein cuidariam dos aspectos jurídicos e o ex-piloto Jody Scheckter seria o diretor geral e comercial da equipe. Dizia a lenda que Gerard Larrousse e Walter Wolf também poderiam estar envolvidos, mas não confirmo.

Gilles Villeneuve se mostrava bastante animado com os planos. Bacharel em Arquitetura, o próprio piloto desenhou a planta daquilo que seria a fábrica. Jody Scheckter, por sua vez, conseguiu encontrar um terreno localizado no sul da França, próximo à cidade de Marselha e ao circuito Paul Ricard. Se tudo desse certo, a equipe já estaria pronta para 1983. Os planos aparentemente corriam bem, mas tudo o que é cheio de boas intenções sempre tem alguma podridão por trás.

Na verdade, não havia literalmente nada por trás. Na semana seguinte ao Grande Prêmio de San Marino, Jody Scheckter fez uma pesquisa para saber a respeito do histórico dos empresários milaneses e da dimensão do patrocínio do tabaco que eles trariam. A realidade era que não havia nada de empresa de tabaco querendo patrocinar equipe de Fórmula 1 e os empresários eram, na verdade, um punhado de mentirosos mal-intencionados. Aparentemente, eles queriam utilizar o sobrenome Villeneuve para fazer alguma tramóia. O sonho de uma equipe própria acabou aí. E Villeneuve viria a falecer dias depois.