Olha que baratinha graciosa! Esse carrinho de brinquedo foi nada menos que o primeiro carro da AGS, o JH1

Olha que baratinha graciosa! Esse carrinho de brinquedo foi nada menos que o primeiro carro construído por Henri Julien, dono da AGS

Dias infelicíssimos para o automobilismo, estes últimos. Os que acompanham o esporte há algum tempo certamente ficaram tristes com o passamento de duas personalidades, uma do jornalismo brasileiro e outra dos anais da Fórmula 1. Primeiramente, Marcus Zamponi, certamente dono de um dos melhores textos desse país. Não o conheci pessoalmente, mas fui leitor fiel de sua impagável coluna na Racing durante vários anos. Zampa foi, certamente, uma das inspirações que me levaram a abrir este troço aqui. Qualquer dia desses, postarei uma pequena homenagem, uma historinha sobre sua participação nas 24 Horas de Le Mans de 1978 como membro da equipe de Paulão Gomes, Alfredo Guaraná Menezes e Marinho Amaral.

A outra morte ocorrida nestes últimos dias, pouco lembrada nos paddocks europeus, foi a de Henri Julien, criador da antiga equipe AGS de Fórmula 1. Aos 85 anos, Julien faleceu no último sábado no Hospital de Hyères, nos arredores da cidade francesa de Toulon. Deixou para trás uma sólida empresa de locação de carros de corrida e uma história digna de alguém que gostava de automobilismo mais do que qualquer um aqui.

Como homenagem, nesses próximos dias, publicarei uma série de artigos contando a história da Automobiles Gonfaronnaises Sportives, talvez a última equipe literalmente garageira que existiu na Fórmula 1.

Primeira parte.

Alô, você que tem menos de vinte anos de idade e acompanha a Fórmula 1 com a fidelidade de um Sancho Pança. Saiba que, um dia, o automobilismo já foi comandado por gente que realmente gostava do esporte. Você sabe do que estou falando, o mecânico que sonhava em repetir a trajetória de Enzo Ferrari, o playboy que só queria espairecer em alta velocidade, o sonhador que almejava ganhar a vida pilotando um bom possante. Esse negócio de pilotos tão profissionalizados e corporativistas como participantes de O Aprendiz e de donos de equipe bilionários e enrolados com problemas obscuros é coisa dos tempos recentes. Um dia, Fórmula 1 já foi sinônimo de malucos tentando chegar completar um número de voltas no menor tempo possível.

Não sei se você conhece a história de Enzo Ferrari, criador daquela que é a mais politiqueira e corporativista das equipes de Fórmula 1 atualmente. O comendador não era uma pessoa muito diferente de mim e de você, tendo iniciado no automobilismo na época em que trabalhava num pequeno estúdio de conversão de caminhões para carros. Enzo é, possivelmente, o maior dos garagistas. E a trajetória do francês Henri Julien é bastante semelhante.

Gonfaron, França. A poucas dezenas de quilômetros do Mar Mediterrâneo, uma pequena comuna encravada num terreno íngreme do departamento de Var congrega algumas centenas de humildes sobradinhos grudados uns aos outros, uma igreja e uns poucos milhares de habitantes tranquilos e bem alimentados. Certamente, um lugar para morar quando você já estiver velho, rico, cansado e doido para entornar umas garrafas de bom vinho tinto.

Henri Julien e o JH02

Henri Julien e o JH2

Um dos ilustres habitantes dessa cidade é Henri Julien, um sujeito de aparência tipicamente gaulesa cuja grande paixão era o automóvel. Nascido em 18 de setembro de 1927, Julien iniciou sua vida com as maquinetas de quatro rodas ao decidir abrir uma pequena oficina em sua cidade-natal no fim dos anos 40. A Garage de l’Avenir não era lá muito diferente daquelas oficinas de fundo de quintal a que você é obrigado a recorrer quando está com o motor fundido numa viagem de férias no meio do Tocantins. Julien se divertia consertando os Peugeots, Citroëns e Renaults que circulavam em Gonfaron na época.

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, os europeus lentamente foram recuperando seus antigos hábitos, como o de fazer sexo sem se preocupar com uma bomba amiga arrebentando o telhado de sua casa na calada da madrugada ou o de se juntar com alguns amigos de disputar uma corrida clandestina numa estradinha de interior. Provavelmente enfastiado com a pacata vida de mecânico de um vilarejo francês, Julien adicionou um pouco de emoção à sua vida se envolvendo com o esporte a motor, naquela altura em fase de renascimento.

Julien fez sua primeira corrida na vida ainda em 1947, mas foi em 1950 que ele decidiu fazer as de piloto e construtor. De forma prosaica e humilde, o cara utilizou seu tempo livre para desenvolver um pequeno bólido equipado com motor Simca de 500cc e o levou para pilotá-lo em corridas amadoras realizadas em território francês. A alcunha do carrinho era “JH1”, possivelmente uma alusão ao sobrenome Julien e ao nome Henri. A sigla “JH” seria utilizada nos demais monopostos construídos por ele, inclusive os de Fórmula 1.

Embora Henri Julien não fosse exatamente um novo Tazio Nuvolari, sua carreira como piloto resistiu por um período razoavelmente longo. O que ficava claro, porém, é que seu negócio era construir bólidos de corrida. Sua próxima criação foi o JH2, um monoposto de aparência medonha que era equipado com motor BMW 500cc. Em 1957, surgiu o JH3, um carrinho de Fórmula Junior empurrado por um propulsor Panhard de 850cc. Estranhou as cilindradas desses motores? Eram tempos minimalistas, aqueles.

Apesar de Julien não ser um gênio ao volante, ele insistiu em continuar nessa de pilotar e construir carros simultaneamente. Durante um tempo, ele até deixou seu lado engenheiro de lado. Em 1960, o teimoso francês comprou um carro de Fórmula 3 da Alpine e decidiu competir de forma mais séria no automobilismo de seu país. Levou um pau da concorrência, ficou deprimido e resolveu abandonar o esporte em 1965. Então a história da AGS acaba aí?

Não.

Em 1968, surgiu uma nova categoria no cenário automobilístico francês, a Fórmula France. Animado com a novidade, Henri Julien se interessou em disputar o certame apenas como chefe de equipe e decidiu voltar a construir carros de corrida em 1969. Dessa vez, ele viria para a contenda com um esquema um pouquinho mais profissional. Arranjou um sócio, seu antigo mecânico Christian Vanderpleyn, e fundou junto com ele a Automobiles Gonfaronnaises Sportives, ou simplesmente AGS.

Christian Vanderpleyn era um cara mais ou menos como Henri Julien, um mecânico que aprendeu a fazer engenharia por conta própria e que sonhava em se tornar bem sucedido no automobilismo. Para a temporada de 1969 da Fórmula France, os dois parceiros desenvolveram de forma conjunta o AGS JH4, o quarto carro criado por Julien e o primeiro sob a insígnia da escuderia.

O AGS de Fórmula Renault utilizado em 1971

O AGS de Fórmula Renault utilizado em 1971

O primeiro ano da AGS na Fórmula France não foi fácil. O único piloto da equipe, François Rabbione, não conseguiu marcar nenhum pontinho sequer. Para o ano de 1970, Julien e Vanderpleyn prepararam um chassi novo, o JH5. Dessa vez, foi decidido colocar dois exemplares do JH5 nas pistas e Rabbione ganhou a companhia de Gerard Cerruti. Os resultados melhoraram, Rabbione marcou quatro pontos e Cerruti até conseguiu um pódio em Paul Ricard, veja só. Mas as vitórias ainda eram apenas uma utopia para a turminha do barulho da AGS.

Em 1971, a simpática Fórmula France mudou de nome, ganhando uma denominação que se tornaria difundida nas décadas seguintes: Fórmula Renault. A esquadra de Henri Julien e Christian Vanderpleyn permaneceu na categoria, mas lançou um novo carro, o JH7, e trocou de pilotos, dispensando os dois anteriores e contratando apenas François Guerre-Berthelot, um cara que também trabalhava como dublê em filmes. Guerre-Berthelot não venceu nenhuma corrida, mas notabilizou-se por ter marcado um monte de voltas mais rápidas nas corridas que disputou. Seu desempenho agradou a AGS e os dois lados iniciaram uma amizade que durou até o final dos anos 80.

Mas François Guerre-Berthelot não foi o único piloto a competir com um chassi AGS. Ainda naquele ano, a equipe vendeu dois de seus chassis JH6 à Team Total, cujos pilotos eram Couderc e Gougeon. Os três carros podiam ser simpáticos e tal, mas não amealharam muitos resultados de relevo. O fato é que, naquele instante, podíamos chamar a AGS de esforçada, mas não de brilhante.

Ainda assim, a equipe quis dar um salto já em 1972, primeiro e único ano em que construiu um chassi de Fórmula 3, o JH9. Seu único piloto seria o mesmo François Guerre-Berthelot da Fórmula Renault. Apesar das expectativas, o JH9 só disputou duas corridas e não conseguiu nenhum resultado decente. Desiludidos, Henri Julien e Christian Vanderpleyn optaram por esquecer esse negócio de Fórmula 3 e concentrar esforços apenas na Fórmula Renault europeia, que substituía a Fórmula Renault francesa naquele ano.

A AGS só apareceu na categoria em 1972 como fornecedora de chassis da Team Total, cujos pilotos eram Christian Gonnetant e Gérard Bareyre. Por ter destinado atenções apenas ao fracassado projeto da Fórmula 3, a manufatureira também não conseguiu nada na Fórmula Renault e finalizou mais um ano sem resultados e cheia de contas para pagar. Quem acha que a AGS só se lascou na Fórmula 1 está redondamente equivocado.

Em 1973, sem grandes ambições, a escuderia de Gonfaron construiu um único bólido de Fórmula Renault, o JH10, para o piloto Alain Jallot. A modéstia fez bem à AGS, que conseguiu quinze pontinhos e a 17ª posição no campeonato de pilotos com Jallot. Para uma turma que raramente conseguia se aproximar da zona de pontuação nos anos anteriores, um baita de um resultado.

José Dolhem, o irmão do Pironi, e o primeiro carro de Fórmula 2 da AGS. Pau, 1979

José Dolhem, o irmão do Pironi, e o primeiro carro de Fórmula 2 da AGS. Pau, 1979

Animada com a discreta melhora no ano anterior, a AGS volta a expandir suas operações em 1974. Pela primeira vez em sua curta existência, ela construiu um chassi do tipo monocoque, seguindo a tendência que tomava conta do automobilismo nos anos 70. O JH11 foi utilizado por quatro pilotos: Jallot, Maillard, Pecqueur e Lacoste, sendo os dois últimos ligados a outras equipes. Resultados? Os de sempre.

Em 1975, a equipe voltou a reduzir suas operações, fornecendo seu novo chassi JH13 a apenas dois pilotos da Fórmula Renault europeia, Xavier Mathiot (que seria substituído posteriormente por Christian Ethuin) e um tal de “Steve”. Nenhum grande avanço foi registrado, o mesmo ocorrendo também em 1976. Quando diabos a AGS começará a engrenar?

Resposta: em 1977. Naquele ano, a equipe nem se deu ao trabalho de construir um chassi novo para a Fórmula Renault, reaproveitando o JH14 do ano anterior. Por incrível que pareça, justamente nessa fase meio sombria, os primeiros grandes resultados da equipe começaram a aparecer com o francês Richard Dallest, um dos pilotos mais injustiçados do automobilismo nos últimos quarenta anos. Desconhecido no Brasil, Dallest era um daqueles que não tinha dinheiro algum, mas que topava qualquer oportunidade para correr e geralmente mandava muito bem. Um Roberto Moreno que falava francês.

Na categoria Fórmula Super Renault, Richard finalizou na segunda posição em quatro ocasiões e acabou terminando a temporada em quarto. A temporada foi tão animadora que Henri Julien decidiu construir um monoposto com a intenção de disputar a competitiva Fórmula 2 em 1978. Seria esse mais um passo em falso da AGS?

Dessa vez, parecia que não. Lembram-se de François Guerre-Berthelot? Ele deu a maior força para essa nova fase da AGS arranjando para ela os patrocínios dos lubrificantes Motul e dos fones de ouvido GPA. Com a grana, foi possível construir dois chassis JH15, que seriam pilotados por Dallest e pelo irmão de Didier Pironi, José Dolhem. Apesar do apetite, a AGS deu o azar de ter estreado numa temporada inspiradíssima dos chassis March e de Bruno Giacomelli, que venceu oito das doze etapas da temporada. Dallest e Dolhem passaram o ano em branco, não marcando um pontinho sequer.

Já está de saco cheio de ler parágrafos sobre os sucessivos fracassos da AGS? Calma que falta pouco para acabar. Infelizmente, 1979 ainda foi um ano bastante difícil para Henri Julien e amigos. José Dolhem disputou apenas a primeira corrida do ano e depois se escafedeu. Alain Couderc, que já havia competido com a equipe na Fórmula Renault, deu as caras em quatro corridas e não passou nem perto da zona de pontuação. E aí?

E aí que eu só vou postar a segunda parte amanhã. Eu sei que você já deve estar aborrecido pra cacete, é realmente um chute nas bolas gastar tanto tempo lendo a história de uma equipe que nasceu mal e morreu pior. Não se preocupe, pois os anos seguintes foram muito bons para a AGS, a começar por 1980. Não me abandonem!

Sergey Sirotkin, o pivô no resgate da Sauber promovido por três empresas estatais russas

Sergey Sirotkin, o pivô no resgate da Sauber promovido por três empresas estatais russas

Como andei comentando há algum tempo, este espaço de excelência jornalística e corneteira funcionou com a ajuda de aparelhos por quase um ano por causa da minha monografia, que me consumiu tempo, energia e até um pouco de grana – imprimir 194 páginas não é algo propriamente barato. Curiosamente, o tema dessa trabalheira toda tem alguma, ou muita, relação com o assunto de hoje. Sim, estou forçando a barra.

Deixei, durante esses últimos doze meses, de falar sobre rodas, arruelas e diferenciais neste blog para tratar de um assunto muito importante para a geopolítica mundial, a Ásia Central, aquela região dos Turcomenistões da vida. Não faça essa cara. A Ásia Central é muito mais relevante do que aquele filme “Borat” sugeriu. É de lá que sai, por exemplo, o gás natural que aquece casas e apartamentos na Europa, inclusive os hotéis monegascos que hospedam os almofadinhas da Fórmula 1 na ocasião do GP em Montecarlo. Ou o petróleo que russos utilizam para mover seus Nivas avermelhados e os monopostos da Russian Time na GP2.

Rússia. O foco da minha monografia era analisar se a Ásia Central, uma histórica zona de influência dos skavurskas, está começando a ser dominada pelos chineses, que já mandam na economia dos países da região. Os russos são cheios de querer ser o Império Romano eslavo, gostam dessa ideia de mandar em todo mundo que está à sua volta, mas não têm condições de competir com os chineses e seus badulaques de plástico e silício.

Isso não significa, porém, que a Rússia desistiu de seu projeto imperialista. O presidente Vladimir Putin e seus amigos investem um bocado na expansão de suas grandes empresas estatais, como a Lukoil, que já patrocinou a Arden na Fórmula 3000, e a Gazprom, cujo logotipo chegou a aparecer nos carros da Minardi em 2002. O objetivo é claro: manter corporações grandes o suficiente para penetrar mercados mundiais, competindo de igual para igual com as maiores empresas do mundo.

Russos não costumam ter medo de cara feia e de ameaças vindas de outras potências. No século XIX, os russos tomaram toda a Ásia Central (composta por Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Turcomenistão e Uzbequistão) de assalto, povoando suas cidades históricas e alterando toda a demografia local. Em determinado momento, essa turma ocupou a região do Pamir, uma parte montanhosa do Tadjiquistão que faz fronteira com o Afeganistão. O problema é que o Afeganistão em si era uma espécie de barreira que os britânicos mantinham para evitar que qualquer outro povo adentrasse a Índia, naquela altura sob seu domínio. Assim, ao invadirem o Tadjiquistão com grande facilidade, os russos poderiam querer entrar no Afeganistão e, enfim, na Índia. E aí toda a merda estaria feita.

Essa é uma pequena e simplificada descrição do Grande Jogo, uma espécie de Guerra Fria entre Rússia e Reino Unido em meados do século XIX. Os dois lados quase caíram no pau durante alguns momentos, mas a assinatura de alguns acordos na segunda metade do século definiram as fronteiras que não poderiam ser desrespeitadas por uns e outros e a paz, se é que dá para chamar dessa forma, voltou a reinar. Esta foi, de qualquer forma, a primeira grande demonstração de força da Rússia sobre o Ocidente nos séculos mais recentes.

Alguns anos se passaram e chegamos a 2013. Hoje em dia, os russos são vistos pela maioria das pessoas apenas como esquisitões de semblante psicótico que gostam de vodca, não gostam de democracia e fazem algum dinheiro se jogando na frente de carros e processando seus motoristas. Alguns preconceituosos mais radicais ainda afirmam que eles são chegados em envenenamento de inimigos políticos e atividades mafiosas. É óbvio que generalizações são uma forma de empobrecer a realidade, mas a imagem dos caras é exatamente esta.

Carro da equipe Russian Time na GP2: mais um sinal do aumento da presença da Rússia no automobilismo nesse ano

Carro da equipe Russian Time na GP2: mais um sinal do aumento da presença da Rússia no automobilismo nesse ano

Voltemos ao automobilismo. Quando vemos uma empresa russa patrocinando alguma coisa no esporte, algumas pressuposições surgem à mente. Em primeiro lugar, essa empresa obviamente é estatal. Em segundo lugar, essa empresa evidentemente é grande pra cacete. Em terceiro lugar, ela certamente pertence a alguém que fez carreira como membro do Partido Comunista da URSS e que se tornou bilionário do dia para a noite nesses esquemas de privatizações envolvendo só os amigos do presidente. Em quarto lugar, sei lá, nunca se sabe quais são as reais intenções de um patrocínio cirílico num carro de corrida…

Nesse ano, o automobilismo europeu recebeu uma boa injeção de rublos que ajudou a resgatar, ao menos, duas escuderias de tradição. No início do ano, a iSport International, uma das mais fortes participantes da GP2, foi salva do fechamento definitivo no último minuto da prorrogação quando o ucraniano Igor Mazepa comprou seus ativos e a recriou como Russian Time. A equipe fez apenas três dias de testes na pré-temporada e não tem nenhum patrocinador relevante, mas já conseguiu três vitórias na temporada. A decisão de contratar dois pilotos bons e experientes, Sam Bird e Tom Dillmann, se mostrou totalmente acertada.

É bom ressaltar que a Russian Time só conseguiu formar essa dupla do barulho aí porque não tem de se preocupar com dinheiro. Ao contrário de equipes como a DAMS e a Trident, que dependem da grana dos seus pilotos para sobreviver, a escuderia russa não precisa apelar para nenhum Ricardo Teixeira da vida porque seu chefão, Mazepa, é podre de rico. Antes de se tornar dirigente na GP2, ele havia feito fortuna como CEO da Concorde Capital Ltd., uma das maiores empresas de investimento, corretagem e capitalização do Leste Europeu.

Apesar de ter nascido na Ucrânia e de operar em Kiev, Mazepa é russo de coração. Além do mais, a bandeirola da Rússia e o logotipo às Olimpíadas de Sochi no ano que vem estão estampados nos bólidos da Russian Time. Outra coisa interessante: ele aparentemente não tem nenhuma relação com o comunismo russo. Ainda muito novo (37 anos de idade), o empresário se formou em Economia (uhu!) na Ucrânia e iniciou sua carreira no mercado bancário. Logo, não pode, de forma alguma, ser comparado a um Roman Abramovich da vida.

Mas o anúncio mais interessante veio hoje, com a confirmação de que a quase falida Sauber finalmente conseguiu encontrar alguém que lhe ajudasse a sair da lama. Depois de longas semanas de dores de cabeça com fornecedores e rumores pra lá de negativos, que apontavam até mesmo o fechamento das portas após o GP da Hungria, a escuderia de Peter Sauber e Monisha Kaltenborn será definitivamente salva pelo capital russo. Por meio do respeitável Fundo Internacional de Investimento Corporativo, do magnânimo Fundo Estadual de Desenvolvimento do Noroeste da Federação Russa e do indispensável Instituto Nacional de Tecnologia da Aviação, o governo da Rússia empregará uma boa grana nos cofres da Sauber, garantindo sua sobrevivência a médio prazo.

Todo esse apoio pomposo tem um preço, é claro. Pelo suporte, que incluirá o acesso a técnicos e recursos do Instituto Nacional de Tecnologia da Aviação, a Sauber será obrigada a ter em sua folha de pagamentos um piloto russo a partir de 2014. Mas não será um piloto qualquer.

Sergey Sirotkin, 17 anos, terá a oportunidade de andar com o carro da equipe a partir de 2014. O texto publicado no site da equipe afirma que Sirotkin participará de um programa de desenvolvimento que o deixará apto para ser um piloto de corridas em 2014. Não deu para entender exatamente se Sergey efetivamente será um dos pilotos oficiais na equipe já no ano que vem ou se ele apenas iniciará esse estágio de preparação em 2014 visando as temporadas posteriores, mas o fato é que o garoto se deu bem.

E a Sauber vai falar russo a partir de 2014

E a Sauber vai falar russo a partir de 2014

Você, torcendo o nariz, se pergunta “puxa vida, não havia nenhum piloto russo minimamente mais capacitado ou experiente?”. É uma pergunta pertinente. Vitaly Petrov, vice-campeão da GP2 e ex-piloto da Renault e da Caterham, está aí de bobeira, esperando uma nova chance para voltar a competir. Outro soviético que está desesperado por uma oportunidade na carreira é Mikhail Aleshin, que parece estar condenado a passar o resto da vida na World Series by Renault após até ter sido campeão da categoria em 2010. E há também Daniil Kvyat, um dos moleques de ouro da Red Bull, atualmente fazendo seu ano de estreia na GP3. Além de ter um currículo mais interessante, Kvyat é um ano mais velho que Sirotkin.

Mas nenhum deles possui o que Sergey tem de melhor, um pai importante. Oleg Sirotkin é exatamente o diretor do Instituto Nacional de Tecnologia da Aviação, uma dos três órgãos públicos russos que apoiarão a Sauber a partir de agora. Decerto que a vontade de Oleg de ver seu filho subindo para a Fórmula 1 falou bem alto no momento em que ele assinou o acordo que salvou as finanças da escuderia suíça. Na prática, não há muitas diferenças entre ele e Grahame Chilton, o cara que arranjou um carro de Fórmula 1 para seu filhinho Max por meio da aquisição de parte da equipe Marussia.

Os puristas torcem o nariz para esse tipo de coisa. Para nós, o piloto tem de comer muito arroz com feijão e farofa antes de sequer ousar sentar em um carro de Formula 1. Entrar na categoria por meio do apoio do papai é um atalho indigno do ponto de vista esportivo. Mal comparando, é como o garoto que apanha na escola, corre para casa e pede para o pai se vingar dos bullies. Se você não consegue resolver sua carreira sem o apoio paterno, então seu negócio não é a Fórmula 1. Recomendo que estude Administração de Empresas, vista um terno, trabalhe de verdade e pare de gastar o suado dinheiro do “papis”.

O pior é que Sergey Sirotkin nem é um piloto tão ruim assim. Na verdade, ele realmente aparenta estar acima da média de boa parte de seus colegas. Uma característica peculiar da carreira é a celeridade: seu primeiro contato com um kart ocorreu no início de 2008, aos doze anos de idade. Isso significa que apenas cinco anos e meio se passaram entre sua primeira corrida na vida e o anúncio mais importante de sua carreira. Isso não aconteceu nem mesmo com Kimi Räikkönen, que pulou da Fórmula Renault britânica diretamente para a Fórmula 1, ou com Jaime Alguersuari, que estreou na categoria maior aos 19 anos de idade.

Depois de dois anos no kartismo, onde obteve resultados bons sem furor, Sergey estreou no automobilismo em 2010 aos quinze anos de idade disputando meia dúzia de corridas na Fórmula Abarth, aquela simpática categoria de base italiana financiada pela Fiat. Não fez nada de mais e decidiu cumprir uma temporada inteira em 2011. Mesmo iniciando o ano pela equipe Jenzer e terminando pela Euronova, Sirotkin venceu cinco das catorze provas, ganhou o título europeu da categoria e foi vice-campeão do italiano. Para quem não entendeu nada, a Fórmula Abarth realiza dois campeonatos simultâneos e, em cada corrida, seus pilotos marcam pontos em ambos.

Bem que, após o título, ele poderia ter avançado com um pouco mais de calma. Mas após ser campeão da Abarth, a primeira coisa que Sergey Sirotkin fez foi arranjar um contrato para disputar em 2012 a AutoGP, aquela categoria bizarra que só serve para dar emprego a gente que não consegue mais nada em outras categorias. Uma decisão estranha: um garoto com potencial e apenas 16 anos de idade não precisava arriscar sua reputação com um carro escroto e uma concorrência que incluía nulidades como Pal Varhaug, Daniel de Jöng e Giancarlo Serenelli. Caso fosse mal, as críticas seriam imperdoáveis: “perdeu pro De Jong, deve ser um lixo”.

Sirotkin na etapa de Hungaroring da AutoGP, no ano passado

Sirotkin na etapa de Hungaroring da AutoGP, no ano passado

Mas Sirotkin se saiu bem. Muito bem. Nos treinos, ele foi o único piloto a conseguir andar no mesmo ritmo do campeão Adrian Quaife-Hobbs, um cara muito mais experiente. Alguns resultados foram perdidos por causa de acidentes bobos e um lapso de desatenção na pista de rua de Marrakech: após ter marcado a pole-position, Sergey bobeou e não viu as luzes verdes se acendendo na largada, saindo muito depois dos outros e perdendo centenas de posições. Apesar da burrada, seu ano foi excelente. Duas vitórias e a terceira posição no campeonato de pilotos fizeram de Siroktin a mais interessante das revelações da AutoGP em 2012.

Para não perder tempo, Sergey também decidiu disputar de forma simultânea a Fórmula 3 italiana. Em 24 extenuantes corridas, o russo venceu duas delas e fechou a temporada na quinta posição, com 166 pontos. Não chegou nem perto do campeão Riccardo Agostini, mas ao menos aprendeu um bocado. Apesar do carro mais fraco, a Fórmula 3 é um campeonato bem mais atraente e forte do que a obscura AutoGP. Tendo disputado 38 corridas nesses dois certames, Siroktin ganhou um caminhão de experiência e conhecimento técnico. Incansável, ainda participou da rodada dupla de Moscou na World Series by Renault apenas para ter o primeiro contato com um carrinho ainda mais potente.

Nesse ano, ao invés de passar quase todos os fins de semana disputando corrida de qualquer coisa, o jovem Sergey decidiu sossegar na World Series by Renault, onde disputaria corridas contra pilotos até dez anos mais velhos. Mesmo só na mamadeira, o russo ainda pegou um segundo lugar em Alcañiz e, nesse exato instante, ocupa a oitava posição do campeonato, com 34 pontos. Atrás dele, nomes bem mais badalados, como Marco Sorensen, o compatriota Mikhail Aleshin e Carlos Huertas. Não tá mal, não.

Mas está na cara, por outro lado, que Fórmula 1 ainda seria uma grande precipitação para o mela-cueca aí. Não dá para formar um piloto completo em apenas cinco anos e meio. Não é nem questão de pilotagem, mas de cabeça e maturidade. O garoto chega no paddock todo deslumbrado e encontra um ambiente hostil, hipócrita, peçonhento, quase doentio. De duas, uma: ou ele se frustra e acaba perdendo o gosto pelo automobilismo, permanecendo no negócio apenas pela grana, ou ele se adapta ao sistema e se torna mais um dos podres.

Se eu tenho de apostar, diria que isso é coisa de papai. O cara é engolido pela ansiedade de ver o filhote brilhando no automobilismo e praticamente compra o direito de pular etapas erroneamente consideradas inúteis. Para que perder dois anos na GP3 e outros dois na GP2?, raciocina. O negócio é fazer tudo o mais depressa possível. E que se dane o desenvolvimento pessoal do filho. Se depois ele se tornar um perdidão no melhor estilo Lewis Hamilton, não tem problema. Sempre vai ter uma Rihanna para consolá-lo.

E a Rússia, assim, caminha para ter equipe e piloto no seu GP inaugural, a ser realizado em Sochi no ano que vem. Estou, é óbvio, ignorando a precária Marussia. O país é talvez a grande vedete financeira do automobilismo, com seus magnatas loucos para enfiar sua grana no esporte, alguns deles por propósitos pouco recomendáveis. Numa época em que os xeiques do Oriente Médio parecem ter desanimado um pouco e os venezuelanos estão ainda lamuriando pela morte do Comandante, os russos parecem ser os emprestadores de última instância de equipes e pilotos nesse momento. Graças à Mãe-Rússia, a Sauber e a iSport estão salvas.

Num passado distante, a Rússia queria expandir seu império e foi sumariamente barrada pelos europeus. Hoje em dia, os europeus fazem malabarismo no semáforo por uns míseros trocados soviéticos. É a virada do Grande Jogo.

Oportunista, aproveito o fato de o blog estar voltando com tudo para fazer troça com o tempo em que este espaço, fundamental na blogosfera brasileira para aqueles que se interessam por algum causo curioso sobre o piloto búlgaro e manco que venceu uma corrida na neve na Fórmula 3 islandesa em 1993, ficou parado.

Nem me lembro qual foi o último Top Cinq que eu escrevi. Certamente, antes do início das minhas aulas na faculdade, em março. Nesse ínterim, tive umas três ou quatro inspirações divinas sobre pautas boas para essa seção. Enquanto dirigia, tomava banho ou coçava o saco, sempre vinham à mente cinco histórias sobre qualquer assunto que poderiam aparecer por aqui. Infelizmente, faltava o tempo. A sexta-feira deixou de ser dia de cerveja e de Top Cinq para se tornar apenas mais um insuportável agrupamento de 24 horas destinadas a resolver meus próprios problemas.

Mas toda tempestade tem seu fim. Resolvidos os pepinos, pude voltar a fazer algo que gosto, escrever sobre inutilidades na esperança de que a CNN me contrate para ser um de seus âncoras. Volta o Top Cinq, portanto. E hoje falo sobre aqueles que, assim como eu, também fizeram retornos triunfais após um longo período.

Pilotos que competem numa categoria durante um tempo, saem e voltam após alguns anos não são exatamente uma raridade no esporte a motor. Só na Fórmula 1, podemos apontar os exemplos recentes de Michael Schumacher, Pedro de la Rosa e Narain Karthikeyan. Mais interessantes são os que ficam de fora durante muitos anos e, de repente, reaparecem como se nada tivesse acontecido. Uns retornam por pura vontade de brincar um pouco, outros simplesmente são enxotados e acabam demorando muito para conseguir voltar e há ainda os que dão as caras simplesmente para tentar bons resultados e, assim, finalizar a carreira com dignidade.

Abaixo, você lerá histórias de cinco pilotos que saíram e voltaram após muito tempo em cinco categorias diferentes:

5- MARCO APICELLA

marcoapicella

Foda é quando o bom piloto se vê obrigado a voltar a uma categoria de base após muitos anos por pura falta de melhores opções na carreira. O caso de Marco Apicella é certamente um dos mais desagradáveis, eu diria. Bota dos mais competentes, o italiano Apicella estreou na Fórmula 3000 Internacional em 1987 aos 21 anos de idade. Vice-campeão da Fórmula 3 italiana no ano anterior, o jovem piloto acreditava que tinha uma longa e profícua carreira pela frente no automobilismo e a Fórmula 3000 seria apenas o último e necessário passo rumo ao estrelato.

De fato, sua carreira foi bastante longa. Profícua? Discutível. Apicella estreou na “três mil” a bordo de um horrível Dallara 3087 preparado pela equipe Euroventurini. Ainda aprendendo as pistas e se adaptando ao carro de 450cv, Marco conseguiu apenas um quinto lugar em Spa-Francorchamps. Sem pressa, ele sabia que a categoria era difícil e que as coisas melhorariam bastante no ano seguinte.

O problema é que este pensamento se repetiu nos quatro anos seguintes. Em 1988, Apicella foi contratado pela First Racing e iniciou o ano como um dos favoritos ao título. Marcou apenas nove pontos e terminou em 11º. Em 1989, também pela First, ele conseguiu resultados bem melhores e finalizou o ano em quarto. Em 1990, ainda na First, vinte pontos e o quinto lugar no campeonato de pilotos. Em 1991, já de saco cheio da Fórmula 3000, Marco bandeou para a equipe Paul Stewart Racing para tentar o título pela última vez. Deu azar, pois o chassi Lola estava uma desgraça naquele ano e o italiano apenas repetiu o quinto lugar do ano anterior, com 18 pontos.

Na Fórmula 3000, Marco Apicella disputou 52 corridas, fez duas poles-positions e obteve nada menos que sete segundos lugares. Em cinco anos, não ganhou uma corridinha sequer. Esteve bem perto disso em algumas ocasiões, como no GP de Pau de 1990, quando estourou a suspensão de seu carro em um meio-fio enquanto liderava confortavelmente. Graças a esse estigma de piloto não-vencedor, Apicella não conseguiu na Fórmula 1 nada além de testes com carros da Minardi e da Lamborghini e uma única corrida com a Jordan em Monza no ano de 1993. Curiosamente, a longuíssima carreira na Fórmula 3000 contrastou com sua estupidamente curta carreira na Fórmula 1: em sua solitária participação, ele foi envolvido em um acidente ainda antes da primeira curva e abandonou no ato.

Depois de boas passagens pelo automobilismo japonês, Marco Apicella decidiu voltar à Europa em 1999. Aos 33 anos, o já veterano piloto italiano assinou com a Monaco Motorsport, equipe que Lamberto Leoni fundou algum tempo após ter vendido a First, para disputar a Fórmula 3000 italiana, uma priminha mais pobre do certame internacional. Foi um passo para trás, mas pelo menos deu para vencer a etapa de Misano.

A Monaco Motorsport disputava tanto a Fórmula 3000 italiana como a internacional. Na etapa de Spa-Francorchamps desta última, a equipe ficou sem o francês Cyrille Sauvage e precisava de um substituto. Sem muitas opções, restou a ela recorrer ao velho Apicella, que faria, assim, sua reestreia na categoria após quase oito anos. O problema é que o italiano teve de lidar com um carro o qual nunca tinha pilotado na vida, pista molhada e nada menos que 39 rivais na disputa por 26 vagas no grid de largada. De forma previsível, Marco não passou nem perto de se qualificar, ficando a 3s do pole Jason Watt. Foi assim, melancolicamente, que sua longa carreira na Fórmula 3000 internacional acabou.

4- JAN LAMMERS

janlammers

Quando Johannes “Jan” Lammers estreou na Fórmula 1, Ayrton Senna ainda era kartista, Nelson Piquet ganhava uma merreca na Brabham, Gilles Villeneuve era o cara, a Ligier era uma equipe de ponta, Jacky Ickx fazia suas últimas corridas na categoria e a Williams estava apenas curtindo seus primeiros bons momentos. Quando o mesmo Jan Lammers reestreou na Fórmula 1, Ayrton Senna já era tricampeão mundial, Nelson Piquet era um milionário que calçava 41 em um pé e 39 no outro, Gilles Villeneuve não estava mais entre nós, a Ligier lutava pela sobrevivência, Jacky Ickx já estava aposentado fazia um bom tempo e a Williams era o bicho-papão da categoria. Como as coisas mudam, né?

Campeão da Fórmula 3 europeia em 1978, Lammers ignorou a Fórmula 2 e aceitou o convite para correr na Shadow na Fórmula 1 no ano seguinte. Mas a equipe não era mais a mesma do passado e o cara ainda tinha o papel de escudeiro de Elio de Angelis, que também fazia sua estreia na categoria. O Shadow DN9 era um carro bonito e razoavelmente confiável, mas não andava porcaria alguma e Lammers não conseguiu marcar nenhum ponto. O próprio De Angelis, que se tornaria um vencedor de corridas, só obteve um quarto lugar na última corrida do ano. Sinal de que o fator humano não era o problema da escuderia de Don Nichols.

Enquanto De Angelis encontrava uma boa vaga na Lotus, Lammers teve de se virar na ATS em 1980. O holandês usou o péssimo D3 nas três primeiras corridas do ano e não conseguiu nada. Na etapa de Long Beach, a ATS estreou o D4 e Jan surpreendeu a todos obtendo o quarto lugar no grid. Infelizmente, o carro quebrou ainda na primeira volta e ele perdeu talvez a melhor oportunidade de sua carreira na Fórmula 1. Depois de mais duas etapas frustrantes, a equipe de Günter Schmidt decidiu mandar o holandês para o olho da rua. Lammers ainda deu sorte de encontrar uma vaga na Ensign como substituto de Clay Regazzoni. Mas o carro de Mo Nunn era ainda pior que os da Shadow e da ATS e Jan só acumulou mais aborrecimentos.

Lammers retornou à ATS em 1981, mas só deu as caras nas quatro primeiras rodadas. Com o D4 do ano anterior, ele não se classificou para duas corridas, abandonou uma e terminou apenas o GP da Argentina. Após ficar de fora do restante da temporada, ele conseguiu voltar à Fórmula 1 apenas na metade de 1982 substituindo Derek Daly na tétrica Theodore. Em seis etapas, cinco fracassos em treinos oficiais. Cansado de sofrer, Jan Lammers decidiu desistir desse troço de Fórmula 1 e foi atrás da felicidade em outros jardins.

E feliz ele foi. Ganhou várias corridas no Mundial de Protótipos e também se saiu bem em outras categorias, como a Copa Renault Turbo e a Fórmula 3000 japonesa. Quando parecia que a Fórmula 1 já havia virado história, eis que a falida March convida o holandês, naquela altura com 36 anos de idade, para disputar as duas últimas corridas da temporada de 1992. Fazia quase dez anos que Jan Lammers havia pilotado um carro de Fórmula 1 pela última vez. Mesmo assim, ele aceitou o desafio.

O retorno não foi de todo ruim. Em Suzuka, apesar de ter batido em Jean Alesi em um dos treinos, Lammers fez muito mais do que o esperado: foi sexto (!) colocado no segundo treino livre e conseguiu um razoável 23º lugar no grid, três posições à frente do companheiro Emanuele Naspetti. A corrida acabou na volta 27 devido a um problema na embreagem. As coisas melhoraram em Adelaide. Embora Lammers tenha ficado na última fila do grid de largada, o March CG911 não o deixou na mão e o veterano conseguiu finalizar a prova em 12º. Dá para dizer tranquilamente que o melhor de Jan Lammers na Fórmula 1 apareceu nessas duas provas derradeiras, quando a categoria já não tinha quase nada a ver com aquela que ele conheceu em 1979.

3- JOHN ANDRETTI

johnandretti

Na famosíssima família Andretti, os dois grandes astros são o mítico Mario e o visceral Michael. Há também nomes menos interessantes, como o do pirralho Marco e do obscuro Jeff. Todos esses citados pertencem à mesma linha familiar, com Mario sendo o pai de Michael e Jeff e o avô de Marco. Mas há outro Andretti que embora não seja convidado para todos os almoços de fim de semana na casa do nonno, nunca deixa de ser chamado para as ceias de Natal. Este é John Andretti, sobrinho de Mario Andretti e primo de Michael e Jeff Andretti.

Filho de Aldo Andretti, John começou a carreira silenciosamente nos midgets e nos monopostos de Fórmula Vee. Em 1984, ele fez sua estreia no IMSA Camel GT, campeonato conhecido atualmente como American Le Mans Series. Foi razoavelmente bem e até conseguiu uma vitória em 1986, mas nunca alcançou o mesmo nível do primo-celebridade Michael Andretti, que já era naquela altura um dos pilotos de ponta da Indy.

Em 1987, John Andretti fez sua estreia na mesma Indy disputando as cinco últimas etapas da temporada com um March da equipe Curb Racing. De forma surpreendente, conseguiu marcar pontos em todas e ainda terminou o ano em 17º, à frente de nomes como Johnny Rutherford e A. J. Foyt, que por acaso era seu padrinho. O bom desempenho, infelizmente, não foi repetido nos dois anos seguintes. Em 1988, apenas um pontinho foi marcado. Em 1989, cinco. Nesse ano, por sinal, ele deu um pulo no paddock do GP do Canadá de Fórmula 1 e conversou com várias equipes tentando conseguir ao menos um teste lá na Europa. Ninguém lhe deu bola, apesar do sobrenome bonito.

As coisas melhoraram a partir de 1990, quando John se transferiu para a equipe oficial da Porsche. Marcando bons pontos em cinco corridas, Andretti conseguiu terminar o ano em décimo. No ano seguinte, surpreendendo a todos, ele obteve sua primeira e única vitória na Indy. Em Surfers Paradise, John largou apenas na nona posição e fez uma corrida pra lá de conservadora, poupando combustível e freios ao máximo. Nas últimas voltas, Rick Mears foi abalroado por um retardatário, Bobby Rahal teve problemas com freios e a vitória caiu no colo de Andretti, que ficou mais envergonhado do que feliz por ter ganhado de forma tão oportunista. Mas vitória é vitória.

John Andretti fez mais uma temporada completa em 1992 e depois se bandeou para a NASCAR, só voltando em 1993 e 1994 para disputar as 500 Milhas de Indianápolis com a equipe do padrinho Foyt. Sem ter tido uma carreira brilhante nos monopostos e ganhando uma grana boa nos stock cars, nada indicava que ele poderia voltar a disputar alguma coisa na Indy, ainda mais após a cisão de 1996.

Mas veja só como são as coisas. Em 2007, nada menos que treze anos após sua última corrida de monopostos, John Andretti anunciou que disputaria as 500 Milhas de Indianápolis pela Panther. Após ter abandonado a Braun Racing na NASCAR, o veterano de 44 anos havia ficado sem carro e decidiu disputar a Indy 500 enquanto não encontrava nada melhor para fazer. Ainda se readaptando aos monopostos, Andretti obteve apenas o 24º lugar no grid e bateu sozinho na volta 95.

Nos quatro anos seguintes, John Andretti retornou à Indy para disputar a Indy 500 e, de vez em quando, corridinhas aqui e acolá. Com o fraquíssimo carro da Roth, competiu em cinco etapas em 2008 e não obteve nenhum resultado que prestasse. Entre 2009 e 2011, ele correu apenas em Indianápolis com um carro patrocinado por ninguém menos que o mito da NASCAR Richard Petty. Depois, sossegou. Estava mais do que na hora. Longevidade é uma tradição dos Andretti, mas só Mario e Michael justificam tantos anos de carreira.

2- MIGUEL DUHAMEL

miguelduhamel

Se houver uma meia dúzia de pessoas que conheça esse cara aqui no Brasil, é muito. Eu mesmo só tomei contato com seu nome há pouco tempo, enquanto xeretava registros de corridas antigas do Mundial de Motovelocidade. Ao observar a lista de motociclistas da temporada 2007 da MotoGP, dei de cara com o misterioso Miguel Duhamel, um dos participantes do GP dos EUA daquele ano.

Até aí, tudo bem. Moto é um negócio complicado, você sempre deve estar pronto para o pior. Quedas – e fraturas, hematomas, concussões, arranhões, rompimentos e torções – fazem parte de sua vida e não há nada que você possa fazer a não ser tomar o máximo de cuidado possível. Mas é claro que isso nem sempre dá certo. Vira e mexe, algum motociclista se quebra todo e acaba tendo de ficar de fora de várias corridas. Mas há uma vantagem nisso. O alto número de feridos acaba abrindo vaga para bastante gente de fora.

No GP da Holanda de 2007, o espanhol Toni Elías sofreu uma queda das grandes e quebrou o fêmur esquerdo. Sua equipe, a Gresini Honda, teve de caçar um substituto para as duas etapas seguintes, em Sachsenring e em Laguna Seca. Na Alemanha, quem assumiu a Honda RC212V foi o italiano Michel Fabrizio. Nos Estados Unidos, o chefe Fausto Gresini quis inovar. Visando colocar em sua moto um piloto experiente que conhecesse bem o circuito de Laguna Seca, ele convidou ninguém menos que o canadense Duhamel, 39 anos.

A contratação de Duhamel surpreendeu o paddock da MotoGP, mas foi aplaudida por muita gente do cenário motociclístico norte-americano. Filho do também motociclista Yvon Duhamel, Miguel iniciou sua carreira nos anos 80 e notabilizou-se por ser o único canadense a se sagrar campeão do AMA Superbike, o principal campeonato de superbikes nos Estados Unidos, além de ter vencido quatro edições da Daytona 200, uma das provas mais importantes do motociclismo americano.

Diante disso, sua passagem pelo Mundial de Motovelocidade acabou nem sendo tão importante assim. Em 1992, Duhamel disputou uma temporada completa nas 500cc pela Team Yamaha France. Em treze corridas, terminou nove delas entre os dez primeiros – longe de ser espetacular, um saldo final positivo para alguém que não conhecia a maioria das pistas. Mas seu negócio era arrepiar nas pistas da América do Norte.

Quase quinze anos separaram sua última corrida de 1992 e o GP dos EUA de 2007. À beira dos quarenta anos de idade, Duhamel não tinha chance alguma contra a molecada atrevida da MotoGP. Mesmo assim, ele estava muito animado. E não fez tão feio, conseguindo um tempo apenas 1,6s superior ao do pole Casey Stoner no treino oficial. Seu único incidente foi uma pequena queda no warm-up. Apesar de ter escapado ileso do acidente, Duhamel percebeu que realmente não tinha condições físicas e mentais para competir num nível tão alto. Na corrida, largou e permaneceu na pista por apenas dez voltas, encostando voluntariamente a moto nos boxes para evitar, como ele mesmo disse, “causar problemas para minha moto, para os outros competidores e para a corrida”. A MotoGP pode até ser a mais sofisticada, mas seu coração estava com as rústicas motos das competições norte-americanas.

1- NELSON PIQUET

nelsonpiquet

Tem menores de idade lendo, né?

Que ninguém se assuste com Nelson Piquet nessa lista. Houve uma categoria em que o tricampeão mundial de Fórmula 1 voltou a disputar uma corrida dezenove anos após sua última participação. OK, em termos literais, não é exatamente a mesma categoria, mas o nome é quase o mesmo, o tipo de carro é quase o mesmo e os desafios idem. Estou falando da boa e velha Fórmula 3.

Antes de ser o que foi na Fórmula 1, Piquet ralou muito na Fórmula 3. Após ganhar a Fórmula Super-Vee no Brasil em 1976, o carioca migrou para a Europa para disputar o campeonato continental de Fórmula 3 em 1977. Patrocinado pela Arno e pela Brastemp, Piquet iniciou o ano com um precário March, mas só conseguiu seus primeiros bons resultados quando passou a usa um Ralt. Teve dificuldades típicas de um estreante, chegou a sofrer uma perigosa capotagem em Zandvoort, mas conseguiu vencer as etapas de Kassel-Calden e Jarama. Terminou o ano em terceiro, atrás do campeão Piercarlo Ghinzani (!) e do sueco Anders Olofsson. Já naquele ano, ganhou fama de exímio acertador, efetuando importantes alterações na suspensão e nas rodas de seu March ainda antes da temporada. Por causa disso, a própria manufatureira o convidou para ser um dos pilotos de testes do March 773 quando as coisas não iam bem.

Em 1978, Piquet e sua equipe pularam para a Fórmula 3 britânica. Mais experiente e mais esperto, o carioca disputou dois dos campeonatos da categoria, o BARC BP e o BRDC Vanderwell. No primeiro, venceu as corridas de Donington, Mallory Park, Thruxton, Brands Hatch, Cadwell Park, Paul Ricard, Silverstone e Snetterton e ganhou o título com quase trinta pontos de vantagem sobre Derek Warwick. No BRDC Vanderwell, Piquet ganhou quatro corridas em Silverstone e uma em Outlon Park, mas ainda perdeu o título para Warwick. De qualquer jeito, um estrondo. Pena que a mídia paulista preferiu dar suas atenções ao inferior (e mais abastado) Chico Serra…

A Fórmula 3 foi uma baita vitrine para o futuro tricampeão. Nas baratinhas, Piquet conseguiu mostrar arrojo, inteligência, oportunismo, frieza e uma enorme capacidade de improviso. Não por acaso, ainda antes de se sagrar campeão do certame britânico, várias equipes de Fórmula 1 já disputavam a tapa seu passe. Em 1978, Nelson disputou corridas por duas escuderias diferentes, a BS Fabrications e a Ensign. Daí em diante, é a história que todo mundo conhece.

Pulemos duas décadas. Em 1997, já quarentão, milionário, sossegado e com o pé fodido, Nelson Piquet só disputava corridas apenas para relaxar. Depois do acidente sofrido em Indianápolis cinco anos antes, o carioca afirmou que “não entraria em carro de corrida nem para fotografia”. Mas piloto não tem dessas coisas. Tão logo suas fraturas foram curadas, Nelsão voltou com tudo para o atuomobilismo. Disputou corridas de protótipos, ganhou algumas e parecia bastante satisfeito. Mas ele quis um outro desafio. Que tal fazer uma prova de Fórmula 3?

E lá foi ele. Dezenove anos depois, Nelson Piquet entrou em um carro da categoria novamente para disputar a etapa de Brasília do campeonato sul-americano. Aos 44 anos, ele disputaria freadas com gente quase trinta anos mais jovem, como Leonardo Nienkötter e Juliano Moro. Toda a mídia esportiva se voltou à Fórmula 3 sul-americana para ver como é que o tricampeão se portaria diante da molecada.

E ele não fez feio. Em um grid razoavelmente numeroso, Piquet obteve a quinta posição no grid de largada. Pouco antes do início da prova, Nelsão foi presenteado com uma sessão de striptease dessa moça aí em cima. Antes que você vá com sede ao pote, até onde consegui apurar, é bem possível que a Eva aí em cima seja um Adão. Mas se você não se importa, vá em frente.

Na corrida, provavelmente ainda distraído pela externalidade erótica, Piquet largou mal e caiu para nono. Combativo, fez uma boa prova de recuperação e terminou em quarto. O vencedor Marcello Ventre nem de longe recebeu as mesmas atenções do tricampeão do mundo. Que mostrou que Fórmula 3, independente da época, é especialidade sua.

Giovanni Bonanno e sua equipe familiar, a BG F3000

Giovanni Bonanno e sua equipe familiar, a BG F3000

Segunda parte da pequena biografia do piloto italiano Giovanni Bonanno. Onde eu parei? Ah, sim, na disputa judicial contra seu ex-patrão, o também piloto Jean-Denis Délétraz.

Em fevereiro de 1992, o juiz Piero Calabrò, do Tribunal Civil de Monza, deu seu veredito final acerca do caso: a protestante First Racing efetivamente prejudicou a carreira de Giovanni Bonanno, que não pôde disputar a temporada de 1991 da maneira que desejava e perdeu a oportunidade de mostrar seu talento de forma adequada às equipes de Fórmula 1. Calabrò ainda aproveitou o ensejo para confirmar aquilo que todos nós sabemos, a importância sociológica, econômica e cultural da Fórmula 3000:

Como é notório, o campeonato automobilístico internacional de Fórmula 3000 é considerado uma passagem quase obrigatória a qualquer piloto que almeja correr na Fórmula máxima. Dessa forma, além de se tratar de um grande evento de importância mundial, o campeonato em questão é fundamental para o desenvolvimento profissional e esportivo daqueles que tomam parte dele”.

Condenada, a First Racing foi obrigada a devolver o 1,2 milhão de liras que Giovanni Bonanno havia depositado em sua conta no início de 1991 e também teve de pagar a ele 400 milhões de liras como forma de reparação dos possíveis danos que o piloto teve em sua trajetória profissional, 17 milhões de liras como compensação referente à caução contratual depositada no início de 1991 e mais alguns milhares de libras para cobrir os honorários advocatícios de Bonanno. Em poucas palavras, o patrão Jean-Dénis Délétraz se ferrou gostoso. Ainda bem que ele é suíço e suíços são ricos de dar inveja.

A grana ajudou Giovanni Bonanno a voltar à Fórmula 3000 numa boa. Em 1992, o piloto e seu ex-chefe de equipe Mario D’Ayala se juntaram novamente e trouxeram a equipe SC Lazio Oil à categoria. A estreia da escuderia ocorreu somente na quarta etapa da temporada, em Enna-Pergusa. E este foi, talvez, o melhor momento de Giovanni Bonanno em sua carreira na Fórmula 3000.

Giovanni Bonanno em 1992

Giovanni Bonanno em 1992

Mesmo sem ter feito muitos testes, Bonanno surpreendeu a todos obtendo a quarta posição no grid de largada, batendo pilotos como Rubens Barrichello, David Coulthard e Olivier Panis. É verdade que seu carro, um Reynard-Ford, não era propriamente ruim. É verdade que o italiano era um dos pilotos mais experientes do grid. É verdade que Enna-Pergusa era uma pista que ele conhecia como a palma suada de sua mão. Mas o resultado foi legal de qualquer jeito.

É uma pena que a ótima qualificação não significou uma ótima corrida. Giovanni fez apenas cinco voltas antes de abandonar com problemas elétricos. Nas etapas seguintes, Bonanno notabilizou-se por fazer um trabalho razoável em treinos oficiais e provas muito ruins. Ele só conseguiu enxergar a bandeira quadriculada em duas ocasiões, Hockenheim (15º) e Spa-Francorchamps (8º). Em Nürburgring, a suspensão quebrou. Em Nogaro, o carro estava absolutamente inguiável. Em Magny-Cours, Alessandro Zampedri lhe fez o favor de tirá-lo da corrida na primeira volta. Em Albacete, não deu nem para largar.

Os números finais de Giovanni Bonanno na Fórmula 3000 não foram tão animadores. Em 21 corridas disputadas durante três anos, Giovanni conseguiu apenas um quarto lugar como melhor posição de largada e dois oitavos lugares como melhores resultados de chegada. Numa época em que nem mesmo vencedores como Andrea Montermini, Jean-Marc Gounon e Jordi Gené conseguiam subir para a Fórmula 1, não seria um cara que não marcou um pontinho sequer em três temporadas que encontraria portas abertas e tapetes vermelhos.

Mas o dinheiro e os bons contatos, estes sim, resolvem qualquer parada. Em dezembro de 1992, ninguém menos que Flavio Briatore, chefão da Benetton e um dos caras mais temidos de todo o automobilismo mundial, decidiu proporcionar a Giovanni Bonanno a possibilidade de experimentar um carro de Fórmula 1. Qual foi o elo de ligação entre Briatore e Bonanno? Grana é sempre uma boa resposta, mas a Benetton não era exatamente a equipe mais pobre do grid. Contatos? Hum…

O teste foi realizado em Silverstone. Chovia um bocadinho, aquela típica garoa britânica. O Benetton B192 era um carro bastante refinado, dotado de nariz-tubarão e motor de 615cv – uma verdadeira nave espacial perto de qualquer bólido de Fórmula 3000 que Giovanni Bonanno tenha pilotado. Com um brinquedinho tão rápido e uma pista tão traiçoeira, o piloto italiano teria o dever de não querer inventar demais para não fazer bobagens.

O famoso teste frustrado de Bonanno com a Benetton

O famoso teste frustrado de Bonanno com a Benetton

Só que não dá para esperar muito de um sujeito que nunca mostrou nada de espetacular em monopostos. Na sexta volta, Bonanno escorregou em uma curva, perdeu o controle de seu B192 e se espatifou com tudo nos pneus, destruindo por completo o carro. O italiano saiu ileso, mas a Benetton teve de reconstruir a máquina e se viu obrigada a adiar em vários dias o teste de outro jovem piloto que também experimentaria um carro de Fórmula 1 pela primeira vez, um tal de David Coulthard…

Após tantas desilusões e tantos acidentes, Giovanni Bonanno decidiu largar a mão de ficar torrando dinheiro para correr na Fórmula 1. Já em 1993, o cara não quis saber de correr de monopostos e preferiu se aventurar nas competições de carros de turismo na Itália.

Até aqui, não há nada de novo. Pilotos italianos existem aos montes. Pilotos que não repetiram nos monopostos o sucesso alcançado no kart também são numerosos. Pilotos que arranjam problemas com seus chefes de equipe também abundam por aí. Mas quantos pilotos comprovadamente ligados à máfia você conhece?

É bem possível que existam vários, talvez alguns até tenham conseguido chegar à Fórmula 1, nunca saberemos. O que é público e real é a tenebrosa conexão entre a família Bonanno e a máfia de Catania, uma das mais poderosas da região da Sicília Oriental.

O pai de Giovanni, Angelo, é um conhecido joalheiro romano que tinha alguns amigos de índole, no mínimo, altamente duvidosa. Um deles era Felice Cultrera, um catanense que enriqueceu gerenciando cassinos ao redor do mundo e traficando pedras preciosas extraídas de minas sul-africanas. Outro amigo importante era Jimmy Miano, chefão da máfia Cursoti, aliada da máfia de Catania. Contudo, o contato mais importante de Angelo Bonanno era Benedetto Santapaola, ninguém menos que o chefão da máfia de Catania até o final dos anos 90, considerado um dos homens mais perigosos da Itália em seu auge. Diga-me com quem andas e te direi quem és.

Benedetto Santapaola, chefão da máfia de Catania e um dos homens mais perigosos da Itália. E amigo do pai de Giovanni Bonanno.

Benedetto Santapaola, chefão da máfia de Catania e um dos homens mais perigosos da Itália. E amigo do pai de Giovanni Bonanno.

Angelo Bonanno, Felice Cultrera e Jimmy Miano fizeram um bem bolado que permitiu o financiamento de parte da carreira de Giovanni Bonanno na Fórmula 3000. Tudo começou no verão de 1992, quando Angelo convidou Francesco Finocchiaro, um grande empreiteiro de Catania, para almoçar na cidade espanhola de Marbella. O assunto do almoço? Negócios, obviamente.

Marbella é uma belíssima cidade praiana localizada no sul da Espanha. Seu prefeito entre os anos de 1991 e 2002 foi o folclórico Jesus Gil y Gil, uma espécie de Silvio Berlusconi ibérico. Populista, polêmico, politicamente incorreto, fanfarrão, egocêntrico, molecão, dono do Atlético de Madrid e de um monte de empresas, Gil y Gil não era exatamente uma unanimidade em seu país. Ainda assim, sua boca e sua personalidade não causavam tantos arrepios quanto seu círculo social. Diziam as más línguas que o sujeito costumava manter razoáveis contatos com mafiosos e até mesmo com velhotes nazistas…

Além de prefeito, Jesus Gil y Gil era um magnata dos mais abastados na Espanha. Em seu nome, havia uns bons milhares de metros quadrados em terrenos virgens em Marbella. Ao convidar o empresário Finocchiaro para um almoço de negócios lá no sul espanhol, Angelo Bonanno almejava propor a ele uma parceria que resultaria na construção de edifícios em parte desses valiosos terrenos pertencentes a Gil y Gil. O almoço foi realizado numa propriedade de Felice Cultrera.

O acordo era simples. Pelo direito de construir nos terrenos espanhóis, Francesco Finocchiaro deveria pagar 1,2 bilhão de liras a Angelo Bonanno e a Jimmy Miano. Esse tipo de pagamento é conhecido no linguajar das máfias italianas como pizzo: o empresário paga aos mafiosos uma grande quantidade de dinheiro e, em troca, os mafiosos oferecem “proteção”, um pleonasmo que apenas indicava que a máfia não atrapalharia os negócios e nem assassinaria o empresário ou qualquer um dos seus próximos. Em resumo, artigo 158 do Código Penal Brasileiro: extorsão.

Os mafiosos não são burros. Não dá para simplesmente movimentar 1,2 bilhão de liras de uma conta à outra, pois isso chamaria demais a atenção das autoridades. Angelo Bonanno e Jimmy Miano haviam pensado em tudo. Uma forma bastante sutil e interessante de maquiar este dinheiro é o patrocínio esportivo. E o beneficiado deste patrocínio seria exatamente Giovanni Bonanno. Dessa maneira, essa quantia de 1,2 bilhão de liras pingaria diretamente na conta do piloto italiano e ninguém jamais desconfiaria de nada. No caso de alguém perguntar, bastaria apenas responder que o generoso Francesco Finocchiaro quis ajudar um jovem talento do automobilismo italiano.

Marbella, a cidade espanhola onde o esquema da família Bonanno foi montado

Marbella, a cidade espanhola onde o esquema da família Bonanno foi montado

Não pensem que Giovanni Bonanno era apenas o garoto inocente e sonhador que recebia o dinheiro sujo sem se envolver diretamente no esquema. Para abrigar esse dinheiro, o próprio piloto criou duas empresas offshore, a Transmed Financial and Investment Holdings LTD, sediada na Irlanda, e a Urban Promotion, sediada em Mônaco. Ambas as empresas foram o destino da transferência que Francesco Finocchiaro efetuou a partir de uma conta do banco Credito Italiano.

O esquema parecia muito sofisticado e inteligente, mas logo foi detectado pela polícia italiana. Em janeiro de 1995, Francesco Finocchiaro foi convocado pela justiça para prestar depoimento sobre qual era a dele e de seus amigos. Para tirar o seu da reta, o empresário afirmou que havia sido obrigado a entrar no esquema, desculpa clássica. E também tentou não detalhar muito sobre o que estava se passando. A tática não funcionou. As autoridades começaram a emitir ordens de prisão para toda a galerinha do mal que estava chafurdada na tramoia.

Giovanni Bonanno não escapou do rigor da lei. Residente em Mônaco, o ex-piloto foi acusado de receptação e lavagem de dinheiro e acabou trancafiado numa cadeia na Itália. Angelo Bonanno, Jimmy Miano e Francesco Finocchiaro também foram presos por acusação de lavagem de dinheiro e, nos casos de Angelo e Miano, extorsão.

Mas não termina por aí. Angelo Bonanno, Jimmy Miano e Francesco Finocchiaro também respondiam por outra acusação. Muito mais grave, eu diria. Segundo o que consta, Angelo e Miano cobraram de Finocchiaro nada menos que 1 bilhão de liras para que a máfia não efetuasse ataques contra um centro de convenções construído pelo empreiteiro na Avenida África. Imagine o pai de um piloto de corridas por trás da possível destruição de uma das maiores construções de Catania. E você aí reclamando do Anthony Hamilton…

Pelo que consta, Giovanni Bonanno e amigos não ficaram muito tempo na cadeia. Atualmente, ele disputa corridas de rali e promove eventos relacionados ao motociclismo em seu país. Uma vida bem low profile. Não sei se ele ainda se envolve com coisas obscuras. A própria máfia italiana anda bem enfraquecida. Lavar dinheiro já não é tão fácil como outrora. Isso pode, talvez, explicar o porquê do automobilismo estar afundado na pindaíba.

P.S.: Antes de fechar o texto, encontrei por acaso um texto em italiano descrevendo o ótimo relacionamento entre Angelo Bonanno e um importantíssimo personagem da Fórmula 1. Isso daqui valeria outro post, mas não quero ficar mexendo em vespeiro… Então, adivinhem quem é o personagem (não é difícil) e procurem o texto!

O Bandeira Verde não poderia voltar com um post mais oportuno, um texto mais condizente com a realidade atual, um escrito que melhor explica o porquê das coisas serem do jeito que elas são. Não poderia retornar, afinal de contas, falando sobre uma irrelevância qualquer. Para cortar a faixa de reinauguração de um dos espaços mais sóbrios e antenados com o zeitgeist, tive de caprichar e trazer à discussão um assunto que certamente estará na boca de toda a comunidade automobilística nos próximos dias.

Lógico que estou falando de um obscuro piloto italiano que disputou a Fórmula 3000 Internacional no início dos anos 90.

"Ó eu aqui!" - Giovanni Bonanno.

“Ó eu aqui!” – Giovanni Bonanno.

A Fórmula 3000, como já cansei de falar para vocês, foi indiscutivelmente a melhor categoria que já existiu no automobilismo internacional. Além das ótimas corridas, ela proporcionava aquele toque de humanidade que já não se via mais na Fórmula 1 desde os anos 80. Enquanto a categoria maior havia se tornado um antro de insuportáveis pilotos robotizados, multimilionários e egocêntricos, nossa querida “três mil” ainda congregava vários tipos distintos da raça humana, desde a mesma molecada de nariz empinado que fatalmente subiria para as categorias maiores até gente cujos propósitos nem sempre eram totalmente esportivos.

Como ninguém aqui nasceu ontem, imagino que as surpresas não são muitas quando eu digo que o esporte a motor é um bom esconderijo para o crime. Imagine-se na pele de um lavador de dinheiro dos mais cascas-grossas. Você ganha um bocado de dinheiro com narcotráfico, prostituição, fraudes financeiras e precisa, de alguma forma, torná-lo invisível para investigadores e policiais. Não parece sedutor despejar uma parte desse dinheiro em patrocínio esportivo? Então você inventa uma marca bonita (Leyton House, por exemplo) e associa sua marca bonita a pilotos e equipes de grandes categorias do automobilismo mundial. E voilà!: ao mesmo tempo em que seus trambiques estão devidamente resguardados, você ainda estará ajudando pilotos talentosos e poderá até ir para o Céu por causa disso.

A Fórmula 3000 tinha algumas histórias interessantes de patrocínios tão polpudos quanto obscuros. Mas a história que conto aqui não é tão obscura assim. Na verdade, ela bombou na mídia italiana em meados dos anos 90. Uma trama que envolve mafiosos, extorsões milionárias, políticos e negócios escusos internacionais. No centro disso tudo, um piloto de nome Giovanni Bonanno.

Nascido em Roma no dia 09 de setembro de 1968, quase trinta anos antes deste proseador da correia dentada que escreve, Giovanni Bonanno era mais um daqueles trilhões de jovens pilotos nascidos na Bota nos anos 50 e 60 que sonhavam em correr na Ferrari um dia para ganhar aquele título de Fórmula 1 que somente Giuseppe Farina e Alberto Ascari, entre os carcamanos, haviam copado.

No meio deste monte de garotos animados e falantes, Bonanno se destacava por ter algo que nem sempre abundou em terras italianas: dinheiro. Vindo de onde? Falo disso depois.

Giovanni estreou no esporte a motor em 1980, quando ainda era apenas um garoto extremamente branquelo e extremamente ruivo. Com bons resultados, ele consegue provar a todos que, mesmo que não fosse o novo Tazio Nuvolari, podia ser perfeitamente capaz de alcançar patamares mais altos.

Não se assuste com o Copyright. Não há muitas fotos de Bonanno por aí. A dona do Flickr é essa daqui: https://plus.google.com/108200492144965852312/posts

Não se assuste com o Copyright. Não há muitas fotos de Bonanno por aí. A dona do Flickr é essa daqui: https://plus.google.com/108200492144965852312/posts

No início de 1987, após quase uma década inteira andando naqueles simpáticos carrinhos de carroceria aberta, Giovanni Bonanno assinou contrato com a equipe SC Lazio Oil para disputar a Fórmula 3 italiana no ano seguinte. Não confunda a escuderia com a SS Lazio, o time de futebol. Sediada em Roma, a SC Lazio era uma distribuidora oficial de óleo Syneco Spa comandada por Luigi Romano. Fundada em 1981, a empresa cresceu bastante no decorrer da década e em 1987 decidiu iniciar um programa de apoio a jovens talentos do automobilismo. O primeiro contemplado foi justamente Bonanno.

A estreia nos monopostos não foi fácil. Pilotando um Reynard 873 equipado com motor Alfa Romeo, Bonanno teve dificuldades em um grid tão competitivo. Imagine você que a Fórmula 3 italiana de 1987 foi disputada por nomes como Gianni Morbidelli, Enrico Bertaggia, Andrea Chiesa, Rinaldo Capello, Emanuele Naspetti, Mauro Martini e Fabrizio Giovanardi. Para se ter uma ideia, a grande maioria do grid daquele ano encontrou vagas em categorias top sem grandes dificuldades. Sem experiência no meio de um monte de tubarões e utilizando um chassi claramente inferior ao Dallara F387, Giovanni apareceu em apenas seis corridas, obteve somente um pódio, marcou quatro pontos e terminou o ano em 15º.

Em 1988, Bonanno permaneceu na Fórmula 3 italiana. Ainda com o apoio da SC Lazio Oil, ele disputou quatro corridas com um Ralt-Alfa e não conseguiu um pontinho sequer. 1989 foi um ano melhor. Participando de onze corridas, o cidadão marcou dezoito pontos, subiu ao pódio duas vezes e finalizou a temporada na sexta posição. De quebra, obteve resultados razoáveis nas corridas internacionais de Fórmula 3 em Mônaco e em Misano.

Após três anos na Fórmula 3 italiana, Bonanno percebeu que não tinha outra escolha a não ser subir um degrau em 1990. O destino óbvio era a Fórmula 3000 internacional.

Sem problemas financeiros, Giovanni conseguiu encontrar facilmente um lugar na Pacific Racing, aquela mesma. O interessante da história é que o italiano não representaria a Pacific em si, mas uma subsidiária comandada por Andy Roche, a Becsport. Dessa forma, enquanto a “matriz” disputaria a Fórmula 3000 com Stéphane Proulx (que também já teve sua história contada aqui) e Marco Greco (que também poderá aparecer nestas bandas qualquer dia desses), a priminha menor Becsport teria seu único bólido conduzido por Bonanno.

Se a Fórmula 3 italiana já não era um campeonato fácil, a Fórmula 3000 era uma verdadeira pedreira. Entre os 32 inscritos para a primeira etapa de 1990, havia nomes como Damon Hill, Eddie Irvine, Heinz-Harald Frentzen, Erik Comas, Allan McNish, Gianni Morbidelli, Karl Wendlinger, Eric van de Poele e Fabrizio Barbazza. Para um cara como Giovanni Bonanno, que não foi exatamente espetacular na Fórmula 3, marcar meia dúzia de pontos em seu ano de estreia já seria o máximo.

giovannibonanno1990donington

Bonanno em sua corrida de estreia na Fórmula 3000, em Donington.

Para sua sorte, seu Lola-Mugen branco, amarelo e verde não era exatamente um carro fraco –com esse pacote, Erik Comas foi o campeão da temporada com um pé nas costas. Em Donington, Bonanno estreou obtendo o 22º lugar no grid de largada, deixando para trás gente como Hill (!) e Wendlinger. Na corrida, disputada em pista úmida, Giovanni não se meteu em enrascadas e terminou numa boa décima posição.

Sua atuação em Silverstone, palco da segunda etapa, foi melhor ainda. Bonanno obteve uma excelente 15ª posição o grid e não marcou pontos por muito pouco, finalizando na oitava posição. Infelizmente para ele, disputar o tradicional Grand Prix du Pau não foi possível: sem experiência em pistas de rua, o italiano fez apenas o 27º tempo na qualificação e não passou nem perto de conseguiu um dos 22 lugares no grid. Mas tudo bem, acontece nas melhores famílias.

O que não deveria acontecer era um acidente. E ele, desafortunadamente, aconteceu. Em Jerez, Bonanno surpreendeu a todos ao marcar um excepcional sétimo tempo no treino oficial, a apenas 1s4 do pole-position Erik Comas. Mas o dia da corrida não foi fácil para ele. Logo nos primeiros metros, um irresponsável Andrea Chiesa quase o colocou para fora da pista numa fechada digna de velha dirigindo um SUV. Graças à barbeiragem do rival helvético, Bonanno despencou várias posições ainda antes da primeira curva.

Tentando se recuperar, Bonanno acabou sofrendo ainda na nona volta um violentíssimo acidente que resultou em dois tornozelos destroçados. O negócio ficou tão feio que não lhe restou outra solução a não ser ficar de fora de algumas etapas da temporada de 1990.

Após dois meses de fisioterapia, remédios e encheção de saco, os tornozelos voltaram a ficar razoavelmente bons e Giovanni Bonanno decidiu disputar as etapas de Brands Hatch e Birmingham. Mas as coisas já não eram mais as mesmas. O preparo físico e a segurança mental haviam esvaído. E isso se refletiu no desempenho nas pistas. Em Brands Hatch, ele ainda conseguiu largar em 21º e terminar em nono. Nas ruas de Birmingham, nem a classificação para a prova ele obteve. O ideal era desistir do restante da temporada e descansar um pouco.

Bonanno em Brands Hatch, 1990

Bonanno em Brands Hatch, 1990

Após alguns meses em casa jogando Mega Drive, Giovanni Bonanno se viu livre de suas dores, seus hematomas e seus ossos trincados e considerou que estava pronto para voltar à ação. Em 1991, ele assinou um contrato com a equipe First Racing para tentar disputar, enfim, sua primeira temporada completa de Fórmula 3000. Abro um parêntese.

Muitos de vocês já ouviram falar da First Racing, aquela que arregou da disputa da Fórmula 1 em 1989 a apenas poucas semanas do início da temporada. As razões para a deserção são incertas e provavelmente nunc a saberemos a verdade: falam em simples insolvência financeira, em incapacidade de construir um carro seguro o suficiente e até em uma obscura picuinha entre o chefe Lamberto Leoni e o onipotente Bernie Ecclestone. No início dos anos 90, já conformada em ser apenas uma das melhores equipes da Fórmula 3000, a First foi vendida ao piloto suíço Jean-Dénis Délétraz, aquele mesmo. Inepto tanto na pilotagem como na administração, Délétraz conseguiu transformar a outrora duvidosa, porém sólida, escuderia em uma verdadeira piada de péssimo gosto.

O relacionamento entre Bonanno e a First não durou muito. Em Vallelunga, sede da primeira etapa, Giovanni obteve apenas a 22ª posição no grid de largada, um bocado atrás de seus companheiros de equipe Délétraz e Eric Hélary. E quase que ele nem conseguiu participar da corrida.

No warm-up (sim, até a Fórmula 3000 tinha isso lá no passado), o Reynard-Ford de Bonanno se descontrolou de forma brusca em uma das curvas mais rápidas de Vallelunga e atingiu a barreira de pneus em altíssima velocidade. O bólido ficou totalmente destruído, mas o piloto não quebrou nenhuma unha. Como Giovanni era o cara que pagava as contas da First, o patrão Délétraz decidiu emprestar seu próprio carro ao italiano e acabou não largando na corrida. Ainda baqueado por causa da pancada, Bonanno passou 25 voltas se arrastando no fim do pelotão até abandonar voluntariamente por não estar se sentindo bem.

Irritado, o piloto veio à imprensa da Itália e falou poucas e boas sobre a First Racing, reclamando da segurança do carro, da incompetência dos mecânicos, do motorhome e da comida. Jean-Dénis Délétraz não deixou barato e demitiu de forma imediata o piloto italiano, alegando que as críticas públicas mancharam a imagem de sua bela equipe e representaram, dessa forma, uma quebra de contrato. Começou aí a extenuante guerra entre Giovanni Bonanno e First Racing.

Em maio, ainda inconformado com as críticas, Délétraz entrou na justiça italiana exigindo algum ressarcimento por parte de Giovanni Bonanno. O piloto italiano, por outro lado, não só não estava disposto a ressarcir porcaria alguma como também exigia ele próprio uma compensação por ter sido demitido injustamente, o que poderia atrasar sua carreira no automobilismo. Um litígio daqueles, em resumo. E o quebra-pau obviamente acabou prejudicando os dois lados nas pistas.

O carro que Giovanni Bonanno destruiu em Vallelunga, primeira etapa da temporada de 1991 da Fórmula 3000

O carro que Giovanni Bonanno destruiu em Vallelunga, primeira etapa da temporada de 1991 da Fórmula 3000

No mês de junho, para evitar que os problemas legais afetassem a vida profissional de Giovanni, o papai Angelo Bonanno decidiu tirar o escorpião do bolso e torrou alguns bons milhões de liras para fundar sua própria equipe de Fórmula 3000, a BG F3000. Criada às pressas, a BG F3000 tinha uma estrutura pra lá de modesta: um único Reynard-Mugen, três mecânicos, o chefe de equipe Mario D’Ayala (ligado à turma da SC Lazio Oil) e o engenheiro Claude Rouelle (que chegaria a trabalhar na Fórmula 1 e na CART). Tudo ali obviamente giraria em torno de Giovanni Bonanno.

Enquanto isso, a First Racing sobrevivia aos trancos e barrancos. Em Mugello, a equipe quase não correu devido a uma ordem judicial que interditou todos os seus bens, incluindo o caminhão e os carros de corrida. Após alguns acordos meio desesperados, a First ainda conseguiu no último instante a liberação de dois bólidos para os pilotos Michael Bartels (que substituiu Bonanno a partir da segunda corrida) e Eric Hélary. O piloto-patrão Jean-Dénis Délétraz, no entanto, acabou não participando da corrida, pois teve de se encontrar com seus procuradores na Suíça.

A justiça italiana foi bacana com a First em Mugello, mas a caridade terminou ali. Em Enna-Pergusa, não houve telefonema que convencesse o juiz a liberar os equipamentos da escuderia. Dessa forma, Délétraz e amigos ficariam de fora das competições enquanto o problema com Giovanni Bonanno não estivesse encerrado, algo que ainda demoraria mais alguns bons meses.

Falando em Bonanno, e como estava a BG F3000? Não dava para dizer que ela se encontrava em situação tão melhor que a First Racing. Jerez foi a primeira corrida da pequena escuderia familiar. O filho de Angelo Bonanno largou em 23º e concluiu a corrida em 13º, uma volta atrás. A sequência de resultados, a partir daí, não foi muito encorajadora: abandono por problemas de dirigibilidade em Mugello, não-qualificação em Enna-Pergusa e abandono em Hockenheim por problemas de freios.

Bonanno só voltou a terminar uma corrida em Brands Hatch, onde foi 17º colocado após ter largado na última posição. Spa-Francorchamps foi o ponto alto da curta história da BG F3000, com Giovanni conseguindo largar numa ótima 14ª posição. A participação na corrida acabou na sétima volta devido a um problema no assoalho.

Depois de nova não-qualificação em Le Mans, a BG F3000 preferiu não competir em Nogaro, palco da etapa derradeira da Fórmula 3000 em 1991. Mas a guerra contra a First Racing ainda não tinha acabado. Já fora das pistas, tanto a First como a BG F3000 preferiram continuar competindo nos tribunais italianos. E lá, como cá, os trâmites não são tão rápidos assim.

Amanhã, a segunda parte da história.

phoenix

Está vendo esta imagem aí? Phoenix, 1989.

Muitos de vocês, leitores inteligentes e sábios que são, sabem o que significa a ave Fênix. Eu até sei, mas preguiçoso que sou, jamais corri atrás para compreender seu significado.

Fênix é aquele simpático pardalzinho da mitologia grega que simboliza a ressureição. Contavam os antigos gregos que a ave Fênix morria, virava cinzas e dessas cinzas uma nova ave renascia com todo o seu antigo brilho e esplendor. Um tempinho depois, ela também morria, suas cinzas resultaram em uma nova ave e assim por diante. Os mais versados nessas historinhas certamente torcerão o nariz para uma simplificação tão grosseira de uma das mais famosas estórias surgidas na Grécia Antiga. Paciência, é o que peço. Da mesma forma que pedi paciência a vocês durante esses últimos meses.

Já devo ter escrito pelo menos uns cinco posts alertando todos vocês sobre a minha absoluta falta de tempo e a possibilidade desse blog ficar largado à poeira e às traças. Vocês certamente já estão carecas de tantas justificativas, de tantas promessas. Como um David Coulthard que anualmente prometia o título aos conterrâneos ou um Rubens Barrichello que sempre afirmava que o próximo ano era o da afirmação, este escriba não tinha o menor pudor para jogar a culpa na pobre da minha monografia e nos meus trilhões de afazeres pelo Bandeira Verde ficar parado. Sei que perdi leitores e que deixei bastante gente chateada, mas infelizmente é a vida.

Foi um período bem chato, este último. Deixei de fazer várias coisas legais, me afastei de alguns amigos, perdi uns bons fios de cabelo, até engordei. A cada vez que pensava neste blog, me sentia mal, pois sabia que havia uma boa e fidelíssima turma de frequentadores esperando por qualquer sinal de vida. Pensei seriamente em fechar esta bagaça, mas sabia que um importante acervo havia sido formado nos últimos três anos e concluí que sumir com todos os posts, as histórias e tudo o mais seria uma puta falta de sacanagem, como diz a filósofa.

Mas o período negro, quase sabático, acabou. Voltei a ter algum tempo. Acredito que o Bandeira Verde, dessa vez, está pronto para um retorno verdadeiro. Hora de limpar a sujeira, retirar as teias de aranha, tentar recuperar os leitores perdidos e voltar a escrever.

Porém, algumas coisas mudarão.

Em primeiro lugar, descobri que não tenho mais nenhum saco para escrever notas e comentários sobre as corridas. Assisti-las, a partir do momento em que passei a ter de avaliá-las de forma jornalística, se tornou um fardo. A diversão de acordar cedo num domingo, ligar a televisão e gastar duas horas babando com um monte de carrinho andando sem rumo algum havia esmorecido. Além do mais, são esses posts os que mais me tomam tempo e os que menos me rendem pageviews.

Eu sei que certamente há pessoas que esperam pelas notas e pelos comentários semanais. E a estas eu peço, caham, paciência. Pode ser que eu volte a escrevê-las. Não prometo nada, no entanto.

Outra coisa: descobri que a própria Fórmula 1 já não me seduz como antigamente. O baixo número de carros no grid, o eterno sofrimento de carros e pilotos com o desgaste dos pneus Pirelli, o excesso de punições, os intermináveis problemas financeiros das equipes médias e pequenas, a perda cada vez maior de audiência e a artificialidade das provas são boas razões que me fizeram deixar, por exemplo, de acordar às nove da manhã de sábado para assistir aos treinos oficiais.

O que isso significa? Que este blog passará a falar sobre música sertaneja ou Teoria das Cordas? Ainda não. Ao invés de alimentar uma obrigação pessoal de concentrar atenções sobre “a maior categoria do mundo”, simplesmente escreverei sobre o que der na telha. A tendência é que aumentem os posts sobre história do automobilismo e sobre outras categorias, como a GP2. Além de serem mais prazerosos de se escrever, memorandos extensos sobre a história do GP da Lituânia de 1935 ou sobre o dia em que Nick Heidfeld foi campeão do mundo são os que atraem mais audiência.

E é bem possível que haja outras novidades. Uma delas, absolutamente necessária nos dias atuais, eu só não levei adiante ainda por pura preguiça. Mas a preguiça acabará e essa novidade quase que certamente será apresentada na semana que vem.

Portanto, pela milésima vez, peço desculpas aos senhores. Voltei. E dessa vez, sem monografia, sem toneladas de afazeres e sem aquela necessidade de dedicar tanto tempo à Fórmula 1 atual, creio que seja para valer.

GP DA ESPANHA: Nesse primeiro semestre infernal, ainda dou um jeito para escrever ocasionalmente. Ossos do ofício. Continuo gostando de escrever coisas sobre carros e arruelas, ainda que o tempo me obrigue a cair de boca em juros, taxas e chatices típicas de economistas coxinhas. Paciência. Nesse fim de semana, teremos GP da Espanha, a primeira das corridas chiques e perfumadas da temporada europeia da Fórmula 1. A Espanha, como todos nós sabemos, é como se fosse aquele vizinho idiota que era pobre até uns vinte anos atrás, ganhou na loteria, comprou uma casa melhor, carro zero, emprestou a grana para os vizinhos, endividou-se, voltou a ser um fodido e não desceu do salto. Os espanhóis são aqueles que, até alguns dias atrás, não pensavam duas vezes antes de mandar brasileiros e terceiro-mundistas afins para casa, expulsando-os de sua casa bonita. Hoje em dia, são eles, os espanhóis, que desembarcam aos montes aqui na selva, atrás de emprego e vida mansa. Ironia. No mais, o país se destaca por estar na crista da onda da gastronomia internacional (pardon, cuisine française) e do esporte mundial. Não é qualquer país que junta, em um território não muito grande, gentes como Nadal, Xavi, Iniesta, Lorenzo, Márquez e Alonso. Falando em Alonso, os poucos espanhóis que ainda têm algum puto no bolso vão ao Autódromo de Montmeló só para ver o diabo na pista, até porque não há outras grandes motivações para pagar um mínimo de 120 euros pela entrada mais barata. O circuito é chatinho e encardido para ultrapassagens, ainda que isso tenha melhorado com a introdução do DRS. O que poderia ajudar um pouco é o clima, mas esqueçam: fez um tempo horrível nessa sexta-feira e só. O domingo será quente e seco como um bom pastel de carne. Aliás, sabiam que bolo, em espanhol, é pastel? Não se assuste se um amigo valenciano te oferecer um pastel de chocolate, é bom.

ALONSO: O Rei da Espanha desse fim de semana quase que se meteu numa bela enrascada nessa quinta-feira. O trololó veio à tona no Twitter, onde o fotógrafo catalão Jordi Martin fez uma série de acusações contra Fernando Alonso. Segundo Martin, tudo o que ele queria era uma foto de Alonso e sua namorada ninfetinha Dasha Kapustina, que saiam do hotel de mãos dadas para comprar cigarros e camisinhas. Vocês sabem como é a vida de um fotógrafo de paparazzi: dormia nas aulas de matemática quando criança, completou o Ensino Médio no sufoco, descobriu que não tinha talento para absolutamente nada e se viu obrigado a se ocupar com a profissão mais desqualificada e indigna do mundo, a de perseguir celebridades bem-sucedidas com suas lentes enormes. Coitado. O fato é que no momento em que Martin surgiu do nada para fazer seu trabalho inútil e escroto, Alonso não gostou e partiu para cima do fotógrafo. Lógico que o chaser se aproveitou do destempero do piloto da Ferrari para criar um temporal em copo d’água: foi à polícia de Mossos e registrou queixa contra o Contraventor das Astúrias. Em pouco tempo, surgiram as manchetes: Alonso agrediu fotógrafo! Piloto da Ferrari perde a cabeça! Fernando rouba vitória de Felipe! Até mesmo os detratores do asturiano, que são muitos, saíram em defesa dele, dizendo que fotógrafo de paparazzi é uma sub-raça de merda. No fim das contas, o próprio Jordi Martin afirmou que estava tudo resolvido e que torceria pelo seu conterrâneo no GP da Espanha. Após conseguir seus quinze minutos de fama, era para ficar tudo bem, mesmo.

ALLISON: Uma das figuras mais importantes da Lotus abandonou a equipe nessa semana. O diretor técnico James Allison decidiu não fazer mais parte da escuderia preta e vermelha e foi procurar felicidade em outro canil, sendo imediatamente substituído pelo vice-diretor técnico Nick Chester. Nesse momento, Allison não está trabalhando, mas a mídia europeia diz que ele já tem contrato assinado com uma equipe grandona, Ferrari ou McLaren. Você pode estar aí, olhando para essa notícia sem se sentir chocado. Quem é, afinal de contas, James Allison? Ainda que seu nome não seja o mais óbvio de todo o paddock, o cidadão esteve diretamente envolvido nas conquistas dos títulos de 1995, 2000, 2001, 2002, 2003, 2004, 2005 e 2006. Atualmente, ele é um dos profissionais técnicos mais respeitados da Fórmula 1. Pode não ter o mesmo apelo de um Adrian Newey, mas Kimi Räikkönen deve muito a ele por ter terminado a temporada do ano passado em terceiro – ainda que o finlandês tenha dito que a saída dele não fará a menor diferença à humanidade. Não seja como Kimi, um autista ingrato e cachaceiro. Dê valor a quem merece. James Allison é uma joia rara, uma das poucas cabeças realmente brilhantes no automobilismo contemporâneo. A Lotus deveria ter se esforçado um pouco mais para mantê-lo. O E22 agradeceria.

BORAT: Astana. Se você reparar nos cantos do bico do carro da Williams, encontrará essa palavra. O que diabos significa? Se você matava as aulas de geografia ou simplesmente nunca teve curiosidade para olhar um mapa, provavelmente não faz a menor ideia. Caso contrário, se você realmente gosta de memorizar coisas inúteis, saberá que Astana é a capital cazaque desde o início do milênui. Mas qual seria o seu envolvimento com a equipe de Frank Williams? Nessa semana, a TAK Group, empresa de investimentos do Cazaquistão, assinou um contrato de patrocínio com a Williams visando promover as belezas e encantos de uma das cidades mais impressionantes da Ásia atualmente. É inacreditável a capacidade da equipe de enxergar possibilidades em mercados que ninguém mais se interessa. No final dos anos 70, quando todos disputavam as atenções de empresas americanas e europeias, Frank Williams decidiu aproveitar a onda do Segundo Choque do Petróleo para arranjar grana dos bilionários árabes. Em uma das reuniões com empresários, preparou um carro verde e branco e o largou na frente do hotel onde realizavam a reunião. Ao saírem do hotel, os muçulmanos ficaram impressionados com a beleza do bólido com as cores sauditas e decidiram patrocinar a Williams Grand Prix Engineering. Mais de três décadas depois, a equipe volta suas atenções para um país rico em petróle o e pobre em autoestima, o Cazaquistão. Pertencente à União Soviética até 1991, a república cazaque é uma grande estepe onde vivem iaques e loiros de olhos puxados. Sempre ignorada pelo restante da humanidade, os cazaques passaram a ser vistos de uns tempos para cá como uma boa oportunidade para os ocidentais fazerem dinheiro fácil. No automobilismo, a tendência é que o azul claro de sua bandeira apareça cada vez mais. Primeiro, no carro de Fórmula 3 de Daniel Juncadella. Daqui a um tempo, quem sabe, no reluzemnte bólido da Williams…

NASR: A grande esperança do automobilismo brasileiro. A única esperança do automobilismo brasileiro? O último dos moicanos? A imprensa realmente gosta desse tipo de denominação. Uma notícia que conta a história do único talento que surge no meio das trevas atrai muita gente. Mas o que fazer? Felipe Nasr é o único brasileiro que tem dinheiro, interesse e talento para correr na Fórmula 1 num futuro próximo. Nessa temporada da GP2, o brasiliense vem sendo o melhor dos pilotos mais recentes – considerando que seus principais rivais, Stefano Coletti, Fabio Leimer e Marcus Ericsson, são do século passado. Em Barcelona, ele meteu sete décimos na concorrência no treino livre e assegurou a terceira posição no grid de largada, atrás somente dos carros da DAMS de Ericsson e Stéphane Richelmi. Na primeira corrida, largou mal e perdeu três posições no pit-stop, mas recuperou-se de maneira fantástica nas últimas voltas e ainda terminou em segundo. Nesse momento, ele é o vice-líder do campeonato, atrás apenas de Coletti. Não vem sendo uma temporada perfeita – ainda lhe falta aprender a largar e a vencer uma corrida -, mas não dá para criticá-lo. Até mesmo os ingleses, que adoram chupar a pica de James Calado, estão se rendendo à capacidade do moleque tupiniquim. Quando o blog voltar à normalidade, escreverei sobre ele. Como escreverei sobre muitas outras coisas.

AUTO-PRIX-F1-BRN-GRAFFITI

RED BULL9 – Tinha um carro bacana, um piloto bacana e outro nem tão bacana assim. Sebastian Vettel compensou a discrição dos treinos com uma atuação segura, austera e humilhante na corrida. Enquanto todos sambavam sobre pneus de borracha escolar, o tricampeão desfilava como se os problemas com os compostos da Pirelli não existissem. Mas ao passo que ele celebrava uma vitória fácil com suquinho no pódio, o companheiro Mark Webber se ferrava com as mesmas dores de cabeça dos mortais. Apesar da boa estratégia de sua equipe e de ter sido agraciado com o pit-stop mais rápido da prova (total de 21s0), o australiano não se deu bem com os pneus e finalizou apenas em sétimo. E ele ainda reclama…

LOTUS9 – A prova maior de que um carro que consome pouco pneu chega a ser mais importante do que um bólido veloz na Fórmula 1 de hoje em dia. Apesar de ter liderado um treino livre, o E21 estava muito longe de qualquer tipo de brilhantismo, tanto que Kimi Räikkönen e Romain Grosjean se deram mal na sessão classificatória. Os dois compensaram com uma corrida excelente, mesmo que as estratégias de ambos tenham sido totalmente opostas. Kimi, com dois pit-stops, terminou em segundo. Romain, tendo parado três vezes, chegou logo atrás. Seus dois carros andaram com muito menos dificuldades que os demais.

FORCE INDIA8,5 – Houve um momento, mais precisamente após o treino classificatório, que muita gente passou a acreditar que a equipe indiana era uma das candidatas a vitória, tão bons haviam sido os resultados na sexta-feira e no sábado. Sempre entre os dez primeiros, Paul di Resta e Adrian Sutil conseguiram a quinta e a sexta posições no grid. Nada mal. No domingo, porém, apenas um ficou mais ou menos feliz. O escocês esteve sempre nas primeiras posições, liderou algumas voltas e só não terminou no pódio por pouco. Sutil, que vira e mexe está metido em alguma enrascada, bateu com Felipe Massa na primeira volta e arruinou suas chances aí. Nesse momento, a Force India parece ter um carro pior apenas que os de Red Bull, Ferrari, Lotus e Mercedes.

MERCEDES7 – Nos treinos, é a equipe que manda no negócio.  Pelo segundo GP consecutivo, um de seus pilotos largou na pole-position. Dessa vez, o privilegiado foi Nico Rosberg, que foi melhor que Lewis Hamilton em quase todas as sessões. Curiosamente, a sorte se inverteu no domingo. Hamilton, que teve de largar em nono por causa de uma troca de câmbio, superou seus problemas com os pneus médios e ainda terminou em sexto meio que por acaso. Nico andou devagar e perdeu posições como uma mocinha indefesa – a cara dele, em seu início de carreira. Mais uma vez, o ritmo de corrida foi o ponto fraco da Mercedes. Quando as coisas irão mudar?

MCLAREN3,5 – A McLaren de 2013 é isso aí. O MP4-28 é realmente uma desgraça e somente um milagre poderá salvar a situação da equipe nesse ano. No Bahrein, mais uma vez, os carros cromados não ofereceram ameaça a ninguém. Sergio Pérez e Jenson Button, no entanto, chamaram a atenção do mundo com um duelo foda pra cacete durante várias voltas, com direito a toque de rodas e bico esbarrado. Pérez se deu melhor e ainda terminou em sexto. Button, com os pneus em estado de petição, ficou apenas em décimo. E reclamou. Pelo visto, é mais uma equipe que vai ter de lidar com piti de piloto, como se os outros problemas já não bastassem.

FERRARI4 – Tinha um carro quase tão bom quanto o da Red Bull. O que lhe faltou foi um domingo sem problemas. Fernando Alonso e Felipe Massa lideraram um treino livre cada e monopolizaram a segunda fila do grid, nada mal. Os dois, com histórico altamente positivo no Bahrein, esperam muito do GP. Mas quase nada deu certo para eles na corrida. Alonso teve um prosaico problema no DRS, foi obrigado a ir aos boxes duas vezes e arruinou suas chances de vitória. Pelo menos, marcou uns pontinhos. Felipe Massa passou por um perrengue ainda pior: teve dois pneus traseiros direitos estourados e não conseguiu sequer pontuar.

WILLIAMS3,5 – A impressão que dá é que Pastor Maldonado e Valtteri Bottas tiraram o máximo do carro. O venezuelano finalizou a corrida a apenas uma posição da zona de pontos, o que parecia uma impossibilidade até uns dias atrás. Bottas teve seu melhor momento no treino classificatório, onde conseguiu se qualificar à frente do próprio Maldonado e de Jean-Éric Vergne. Aparentemente, o FW35 teve menos problemas de pneus que os concorrentes. Se ele fosse veloz, a equipe certamente poderia ter sonhado com coisa melhor.

SAUBER2 – Teve um fim de semana até mais negativo do que o da Williams. O carro pode até ser razoavelmente bonito, mas é um amontoado de estrume quando tem de entregar resultados. Nico Hülkenberg até se esforçou para conseguir extrair alguma coisa dele, mas o máximo que conseguiu foi um 12º lugar. O estreante Esteban Gutiérrez anda numa fase infernal: obteve resultados inacreditavelmente ruins nos treinos e passou quase que a corrida toda atrás da Caterham de Charles Pic. A Sauber está preocupada com o garoto. E com a equipe inteira.

TORO ROSSO2 – Esteve tão competitiva quanto Sauber e Williams. Embora não tenha passado vexame nos treinos – Daniel Ricciardo, em fase razoavelmente inspirada, marcou o 13º tempo na classificação -, apanhou dos pneus na corrida. Ricciardo se arrastou como uma tartaruga velha e terminou apenas dez segundos à frente da Caterham de Charles Pic. Jean-Éric Vergne se envolveu num acidente na primeira volta e ficou com o carro tão danificado que preferiu encostar nos boxes pouco depois. Se tivesse ficado na pista, também não conseguiria muita coisa.

CATERHAM5 – A presença de Heikki Kovalainen no primeiro treino de sexta-feira parece ter ajudado bastante a equipe verde, que teve um montão de dificuldades nos três primeiros GPs. O carro melhorou e Charles Pic conseguiu vencer o compatriota Jules Bianchi pela primeira vez no ano. Pic largou em um razoável 18º lugar e andou muito bem na prova, ficando quase sempre à frente de Esteban Gutiérrez e terminando perto da Toro Rosso de Daniel Ricciardo. Giedo van der Garde não é um cara de quem podemos esperar muito, mas seu desempenho em Sakhir foi bastante prejudicado pelo acidente na largada.

MARUSSIA2,5 – Tomou um caminho diferente do da Caterham e se deu mal com isso. Ao invés de buscar desenvolver o carro no primeiro treino livre de sexta, a Marussia decidiu deixar o confiável Jules Bianchi de lado para colocar o caricato Rodolfo Gonzalez em seu lugar. Resultado: a equipe acabou não desenvolvendo porcaria nenhuma e ficou para trás no restante do fim de semana. Até mesmo Bianchi teve dificuldades, ficando atrás de Charles Pic e pouco à frente de Max Chilton e Giedo van der Garde. Na corrida, tanto ele quanto Chilton tiveram lá suas dificuldades, mas ao menos chegaram ao fim, ainda que isso não signifique muito num GP com apenas um abandono.

Riot police officers stand near an anti-Formula One graffiti during an anti-government protest in the village of Diraz

TRANSMISSÃOPGA – Numa fase mais comedida, o locutor oficial das corridas de Fórmula 1 no Brasil ainda comete seus pequenos deslizes. Graças à idade avançada e ao calor mortificante do Bahrein, não dá para exigir que o cérebro funcione perfeitamente durante todo o tempo. No treino classificatório, o cara voltou a 1991 e enxergou Mika Häkkinen no carro da Lotus. É bom que alguém informe a ele que Häkkinen não corre mais na Fórmula 1, a Lotus dele era branca e não preta, o finlandês que corre atualmente é o Kimi Räikkönen e o piloto que ele viu sequer era o Räikkönen, mas o Romain Grosjean. Enfim, não se salva nada aí. Mas a grande novidade é a venda da Force India ao golfista Vijay Amritraj, anunciada pelo digno locutor a poucos instantes da largada. Curiosamente, o antigo dono também se chamava Vijay. É a Fórmula 1 atraindo gente de outros esportes, como o próprio Amritraj, Sébastien Grosjean e até mesmo o ex-flamenguista Petkovic (http://www.youtube.com/watch?v=48P32JZMThQ).

CORRIDAFÓRMULA PNEUS – E o litígio entre Fórmula 1 e Pirelli continua. Em Sakhir, somente Kimi Räikkönen e Paul di Resta conseguiram fazer dois pit-stops. A maioria dos pilotos parou três vezes e alguns pilotos tiveram de realizar uma quarta troca, tamanha era a dificuldade para fazer os compostos durarem mais do que um punhado de voltas. Muita gente está achando um saco, pois isso impede os pilotos de acelerarem mais, transformando todos em bundões que só se preocupam em conservar ao máximo seus redondinhos. Eu, sinceramente, gosto. Para mim, automobilismo é ação, imprevisibilidade, movimentação, dinâmica. Acho uma merda quando as posições se definem logo após a primeira curva. O GP do Bahrein só foi razoavelmente divertido por causa dessa dificuldade. Fosse como nos tempos dos pneus duríssimos da Bridgestone, não seria somente Sebastian Vettel que teria uma corrida monótona. Na verdade, a monotonia se impregnaria em todos nós.

Bahrain F1 protest

SEBASTIAN VETTEL9,5 – Parecia que estava que em outra categoria, tamanha era a vantagem em relação aos concorrentes. Não foi tão bem nos treinos e ficou atrás de Nico Rosberg no grid de largada, mas mostrou o porquê de ser o maior astro do grid atual ao fazer uma corrida absolutamente avassaladora. Recuperou facilmente a posição perdida para Fernando Alonso na primeira volta e também não teve nenhum trabalho para roubar a liderança de Rosberg na terceira volta. Depois disso, auf wiedersehen pra galera.

KIMI RÄIKKÖNEN9 – Mineiro como sempre, comendo quieto pelas beiradas. Em Sakhir, assim como nas demais etapas, não tinha de forma alguma o melhor carro, mas soube pegar os limões e fazer uma boa caipirinha. Nos treinos, liderou um dos treinos livres e só. Largando apenas em oitavo, apostou numa estratégia agressiva que, combinada com o baixo consumo de pneus proporcionado pelo E21, funcionou muitíssimo bem. Sobreviveu 15 voltas com pneus macios e fez dois longos stints com os duros, realizando um pit-stop a menos que o resto do pessoal. O destino o premiou com um ótimo segundo lugar. Mas dessa vez, não teve álcool no pódio. Sigh.

ROMAIN GROSJEAN8,5 – Como é bom ver Romain Grosjean, sempre meio doido, fazendo uma corrida competitiva e sem erros. O franco-suíço, muito apático nas três primeiras etapas, superou o desempenho apenas morno nos treinos para realizar uma de suas melhores atuações na carreira. Embora tenha utilizado uma estratégia totalmente diferente da de Kimi Räikkönen, com três pit-stops e pneus duros nos dois primeiros stints, Romain conseguiu andar bem durante todo o tempo graças à capacidade de conservação de pneus de seu carro e foi ganhando posições numa boa. No final da corrida, com pneus macios, passou como um foguete por Paul di Resta e assegurou seu primeiro pódio no ano.

PAUL DI RESTA9,5 – Uma das sensações do fim de semana, andou bem durante todo o tempo e só não conseguiu seu primeiro pódio na Fórmula 1 por mero detalhe. Ficou entre os dez primeiros em todos os treinos, inclusive o classificatório, obtendo um quinto lugar no grid graças ao seu pé pesado, ao carro e às punições que ferraram com as vidas de Lewis Hamilton e Mark Webber. No domingo, chegou a andar algumas voltas na liderança e esteve durante quase todo o tempo entre os quatro primeiros. Vinha confortavelmente em terceiro, mas acabou sendo engolido pelo surpreendente Romain Grosjean na volta 52. Em suma, fez uma puta jogada, driblou todo mundo e chutou a bola na trave.

LEWIS HAMILTON6,5 – Em se tratando se estado de espírito, da mesma forma que Paul di Resta chutou na trave, Lewis Hamilton fez um joguinho burocrático e ainda conseguiu ganhar de 1×0. Passou por dificuldades nos treinos e até teve de trocar a caixa de câmbio, o que o obrigou a largar em nono. Apostando numa estratégia conservadora de três pit-stops, também não deu para brilhar muito no domingo. Pelo menos, travou um duelo bacana com Mark Webber no final e venceu. E sei lá como, terminou à frente de gente que foi melhor.

SERGIO PÉREZ8 – Foi o showman da corrida, um alívio para quem precisava tanto de uma atuação mais chamativa. Não esteve entre os dez primeiros em nenhum dos treinos, um pecado dos maiores para um piloto da McLaren, mas compensou com uma atuação de arrepiar os cabelos na corrida. Logo na largada, abocanhou várias posições. Depois, passou um tempão atormentando o companheiro Jenson Button. Ultrapassou, foi ultrapassado e até meteu um toque de leve no carro do colega. O campeão de 2009 ficou bastante #chatiado com a postura do chicano, mas só ele. Todo mundo gostou. Ótimo sexto lugar.

MARK WEBBER4,5 – Depois do vexame no GP da China, fez uma típica corrida de funcionário público no Bahrein. Embora não tenha ido propriamente mal nos treinos, teve sua posição no grid prejudicada devido à punição pelo acidente tosco com Jean-Éric Vergne na corrida anterior. Sua atuação no domingo não foi lá aquela maravilha pintada de ouro. Ganhou algumas boas posições na primeira rodada de pit-stops e teve problemas com os pneus duros no segundo stint. No fim da corrida, vinha numa razoável quinta posição, mas perdeu duas posições na última volta. Que ducentésimo GP aborrecido, não?

FERNANDO ALONSO5 – Era, possivelmente, o único cara com alguma chance de superar Sebastian Vettel na corrida, já que possuía, segundo ele próprio, “o melhor Ferrari dos últimos quatro anos”. Nos treinos, andou muitíssimo bem, liderou um treino livre e pegou um bom terceiro lugar no grid. Tudo, contudo, foi para o ralo quando a maldita asa traseira, aquele trocinho do demônio que não deve custar mais do que uns dez paus no mercado paralelo, falhou e o Jangadeiro das Astúrias teve de ir aos boxes duas vezes para que os mecânicos desse um jeito no bagulho na base da porrada. Sem poder usar o DRS, as chances do cara se resumiram a brigar por uns pontinhos. E ele conseguiu quatro. Melhor do que nada, né?

NICO ROSBERG3 – Dá para dizer algo de bom sobre um piloto que larga na pole-position e, sem problemas aparentes, termina em nono, atrás de um monte de gente fodida? Não, é claro. A loirinha germânica andou muito bem nos treinos e marcou a segunda pole-position seguida para a Mercedes. Tinha a obrigação de, pelo menos, ter subido ao pódio. Ao invés disso, perdeu terreno logo no começo da corrida e foi ultrapassado de maneira até covarde pelos demais pilotos. Estava tão embananado com os pneus que foi obrigado a fazer um quarto pit-stop, o que arruinou definitivamente qualquer chance de um bom resultado. Só não pegou nota menor pelo que fez na sexta e no sábado.

JENSON BUTTON4,5 – Não teve exatamente uma atuação estritamente ruim, mas também não chamou a atenção de ninguém e terminou o domingo com apenas um pontinho. Sempre sofrendo com o baixo desempenho do carro da McLaren, Jenson conseguiu apenas um décimo lugar no grid e por mais que tenha tentado coisa melhor, repetiu o mesmo resultado na corrida. Embora tenha largado bem, feito algumas ultrapassagens e tal, teve problemas com o espevitado Sergio Pérez e com uma estratégia meio porca.

PASTOR MALDONADO4 – Quando você fica razoavelmente satisfeito com um 11º lugar, é porque sua vida anda uma merda. Apanhando do carro, o venezuelano foi tão mal nos treinos que não conseguiu sequer passar para o Q2 da classificação, largando na nona fila. No domingo, até que não fez um trabalho ruim: mesmo parando três vezes como a maioria dos rivais, ganhou algumas posições e terminou à frente de gente com um carro melhor que o seu. Mas ponto que é bom, nada.

NICO HÜLKENBERG3 – Outro que apanhou feio do carro. Nas sessões livres e na classificação, pouco fez. Largou apenas em 14º e terminou apenas duas posições à frente. Com a mesma estratégia de três pit-stops da concorrência, não dava para sonhar com um pulo do gato. E os pneus também não colaboraram. O fato é que, nesse início de temporada, a vida não poderia estar sendo mais difícil para o jovem alemão.

ADRIAN SUTIL4 – Pelo desempenho nos treinos, tinha chances de ter ido tão bem quanto o companheiro Paul di Resta. Mas a sorte não está do lado do alemão, que comprometeu sua corrida na primeira volta pela segunda vez consecutiva. Sexto colocado no grid, Sutil foi tocado por Felipe Massa e teve de ir para os boxes na segunda volta por causa de um pneu furado. Pelo menos, a partir daí, ele se divertiu bastante. Mesmo tendo de fazer um stint longuíssimo com o segundo jogo de pneus duros, o cidadão ganhou várias posições e terminou numa posição até que razoável para quem estava totalmente sem chances.

VALTTERI BOTTAS5 – Teve alguns brilharecos bem sutis, como o 12º lugar no primeiro treino livre, o fato de ter largado duas posições à frente de Pastor Maldonado e o quarto posto na volta 11 da corrida. Só assim mesmo para encontrar razões para elogiar o finlandês com cara de biscoito, vítima da ruindade do carro da Williams. Mas a verdade é que Valtteri fez seu trabalho novamente. Largou e chegou ao fim sem danificar o carro, coisa que o colega nem sempre consegue fazer.

FELIPE MASSA3,5 – Muito azarado, o aniversariante de hoje. Muito mesmo. O brasileiro, que já venceu esse GP em 2007, tinha um carro legal para essa corrida e chegou a liderar o primeiro treino livre. Na classificação, ficou num razoável quarto lugar, logo ao lado de Fernando Alonso. A felicidade acabou aí. Logo na largada, Felipe partiu mal e perdeu posições para os dois carros da Force India. Na ânsia de recuperar posições, tocou em Adrian Sutil e danificou uma asa. Sua estratégia de fazer um primeiro stint mais longo com compostos duros também foi para o ralo quando ele fez seu pit-stop na volta dez. Depois, ainda teve dois pneus furados, ambos na mesma parte do carro! Depois de tanta merda, não dava mesmo para ter terminado em posição melhor.

DANIEL RICCIARDO3 – Apareceu razoavelmente bem nos treinos, com destaque para o 13º lugar no grid. Na corrida, a Toro Rosso preferiu substituir o STR8 por um Chevette e o resultado foi um desempenho ridículo do australiano. Mesmo tendo feito a corrida inteira, a volta mais rápida de Ricciardo foi simplesmente a 21ª pior do grid, melhor apenas do que a de seu companheiro Jean-Éric Vergne, que abandonou logo no começo. O cara teve inúmeros problemas com os pneus e com os freios e até deu sorte de não ter sido superado pelos cacarecos da Caterham e da Marussia.

CHARLES PIC6,5 – Depois de três fins de semana dominados por Jules Bianchi, o francês da equipe verde finalmente mostrou a que veio. Num GP em que os carros da Caterham renderam mais do que os da Marussia, Pic não deu chances ao rival Bianchi e aos seus demais concorrentes diretos. Beneficiado também pela punição de Esteban Gutiérrez, Charles largou numa ótima 18ª posição. Na corrida, ele conseguiu manter o mexicano atrás durante quase todo o tempo e ainda terminou a apenas dez segundos de Daniel Ricciardo. Excelente.

ESTEBAN GUTIÉRREZ0 – Quatro corridas, duas notas zero consecutivas. Vai bem, o novato mexicano.  Que seu fim de semana já estava arruinado por causa da punição relativa ao estúpido acidente de Shanghai, todo mundo já sabia. O que ninguém imaginava é que seu desempenho seria tão horrível durante treinos e corrida. Nas sessões livres, Gutiérrez foi tão mal que chegou a terminar uma delas com o pior tempo. No treino classificatório, só superou os carros das equipes nanicas e ainda teve de largar em último devido à punição. Na corrida, não conseguiu sequer superar o Caterham de Charles Pic. Vai muito bem, o Esteban.

JULES BIANCHI3 – Dessa vez, não deu para manter o pique dos três GPs anteriores. É bom que se diga que as condições não lhe foram favoráveis. No primeiro treino livre, Bianchi teve de conceder seu lugar ao venezuelano Rodolfo Gonzalez. Com menos tempo de pista, não deu para compensar muito e o francês teve uma classificação razoavelmente fraca, ficando pouco à frente dos roda-presa Giedo van der Garde e Max Chilton. Na corrida, Jules parou quatro vezes nos boxes e não fez muito mais além de levar o carro até a bandeirada.

MAX CHILTON2 – Aproximou-se um pouco de Jules Bianchi nesse último fim de semana, mais por queda de desempenho do francês do que por uma melhora milagrosa do filhinho de papai britânico. Sem grandes novidades nos treinos, Chilton só escapou da última posição no grid por causa da punição de Esteban Gutiérrez. Pelo menos, ficou à frente do rival direto Giedo van der Garde por causa dos problemas do holandês. E chegou ao fim novamente.

GIEDO VAN DER GARDE2,5 – Se tivesse tido mais sorte, poderia ter finalizado à frente de Max Chilton. Ficou sem participar do primeiro treino livre para dar lugar a Heikki Kovalainen, que voltou para dar uma força à Caterham. Deu-se relativamente bem no treino oficial ao escapar da última fila, mas perdeu tudo com o acidente com Jean-Éric Vergne na largada. Com o bico estourado, não teve como fazer muita coisa a não ser se arrastar até a linha de chegada.

JEAN-ÉRIC VERGNE2,5 – Foi o único piloto a abandonar, vítima de problemas resultantes do acidente com Giedo van der Garde na primeira volta. O francês, que havia feito um trabalho razoável com o lamentável carro da Toro Rosso nos treinos livres, largou em 16º e foi colocado para fora ainda na primeira volta por Valtteri Bottas. O pobre Van der Garde não conseguiu desviar e chapuletou o bólido de Jean-Éric, que ficou com um pneu furado e um assoalho quebrado. Ele tentou reparar o carro nos boxes e chegou a dar algumas voltas lentas, mas preferiu abandonar e ir pra casa mais cedo.

 

GP DO BAHREIN: Salam! Nesse ano que está voando como Mark Webber em Valência, a quarta etapa já está aí. O explosivo GP do Bahrein é um daqueles eventos que eu duvido que exista alguém que realmente goste. Vejamos. Os fãs acham a pista de Sakhir, de traçado e cenário monótonos, um saco. Os pilotos não devem gostar muito de ficar duas horas dentro de um carro a uma temperatura que ultrapassa a casa dos 60°C num país quente e seco pra burro. Kimi Räikkönen, quando vai ao pódio, não bebe champanhe francês, mas um suco melado, esquisito, nem um pouco alcóolico e provavelmente quente. Os barenitas estão cagando e andando para o GP. Os europeus jamais deixariam seus confortáveis países para assistir a uma corrida idiota em um país alienígena. Os xeiques que aparecem para tirar fotos ao lado de um carro da Ferrari e de Bernie Ecclestone estão mais preocupados em massagear seus imensos egos do que em acompanhar um monte de carros esquisitos correndo rumo a lugar nenhum. Desconfio que nem o próprio Ecclestone, britânico fleumático como é, goste de ir a um lugar exótico cheio de magnatas ridículos. Mas nada disso importa diante dos petrodólares que correm rumo ao bolso de Uncle Bernie. Vai ter corrida no Bahrein e acabou. Sinceramente, não acho a pista de Sakhir em si tão desastrosa. Ela me lembra, meio que de longe, um kartódromo: retas, curvas apertadinhas e uma ou outra curva mais veloz. O problema é aquela imensidão de areia ao redor do autódromo. Sou do tipo que acredita que não existe circuito bom sem pano de fundo bonito. Spa-Francorchamps, com suas árvores, é um lugar bonito. Sakhir, com aquela opulência besta encravada no meio de dunas que se perdem de vista, não é.

BOMBAS: Salam! Tão tradicional quanto Jim Nabors cantando Back Home Again in Indiana na Indy 500 ou a presença do Príncipe Albert no pódio do GP de Mônaco é a ocorrência de bombardeios e ataques nos arredores do circuito de Sakhir dias antes do GP do Bahrein. Bem possível que Bernie Ecclestone descobrirá alguma forma de capitalizar sobre isso, vendendo granadas e fuzis com a logomarca da Fórmula 1 em barraquinhas autorizadas. Pelo terceiro ano seguido, a realização da corrida é ameaçada por movimentos revoltosos que acusam Bernie Ecclestone e a FIA de legitimarem o governo do rei Hamad bin Isa Al Khalifa, detestado pela majoritária população xiita que se considera marginalizada e injustiçada frente à minoria sunita. Os capos do automobilismo respondem com indiferença. Jean Todt já disse que não há problemas em realizar uma corrida no Bahrein e a Fórmula 1 não deve se envolver com política. O sempre engraçadinho Ecclestone ironizou a postura dos jornalistas, dizendo que “não recebeu nenhuma reclamação de gente preocupada com o credenciamento da etapa desse ano”. Portanto, apesar da súplica dos parlamentares britânicos, da pressão de grupos de direitos humanos e da ameaça do gordinho metido a poderoso Anonymous, vai haver GP e que se foda quem achar ruim. Nos dois anos anteriores, eu vociferei contra a realização da corrida. Nesse ano, adoto uma postura mais passiva. E crítica contra os revolucionários de cadeira de internet. Todos nós silenciamos sobre a situação do Bahrein logo após o término da corrida. Portanto, seria hipocrisia manifestar qualquer tipo de insatisfação agora. Outra coisa: acho, sinceramente, que os rebeldes barenitas deveriam apertar um pouco o cerco contra a Fórmula 1. Não quero que ninguém saia machucado, obviamente, mas um pequeno susto, uma bombinha perdida no portão, um maluco que invada a pista com faixas, alguma coisa mais incisiva. Se eles querem se livrar do rei e dos europeus mofinos, que apertem a ofensiva.

KOVALAINEN: Falando em bomba, o finlandês Heikki Kovalainen foi escalado como piloto-reserva do Caterham CT03 a partir dessa próxima etapa. Kovalainen, lembra-se dele? Estreou na Fórmula 1 pela Renault em 2007, correu na McLaren nos dois anos seguintes e na própria Lotus/Caterham nas três temporadas passadas. Nesse ano, estava desempregado, assistindo às corridas pela televisão enquanto comia pipoca, tomava cerveja e constituía barriga. Ao contrário de outros colegas enxotados nos últimos dois anos, Heikki decidiu que não correria de nada se não encontrasse lugar na Fórmula 1. Após a repentina saída de Luiz Razia da Marussia, o finlandês iniciou contatos com a diretoria e chegou até a moldar um banco na sede da equipe, mas acabou perdendo a vaga para Jules Bianchi na prorrogação. Agora, ele é resgatado pela Caterham para tentar dar uma força à escuderia verde, que vem passando por uma fase negra nos últimos tempos. Seus dois pilotos, os inexperientes Charles Pic e Giedo van der Garde, estão sofrendo para fazer o CT03 andar e, se nada acontecer, é bem possível que a Marussia assuma a desejada décima posição no campeonato de construtores. O retorno de Heikki Kovalainen significou a saída do chinês Qing Hua Ma, aquele que participou de um dos treinos livres do GP da China. Sem talento algum, Ma só justificava sua presença pelos muitos iuans injetados na poupança caterhamniana. Mas só dinheiro não resolve. Bem vindo de volta, Heikki!

FORCE INDIA: Pegou mal. Muito mal. A ponto de Bob Fernley, o diretor da equipe, ter convocado os dois pilotos para um amigável arranca-rabo que colocasse os pingos nos is. Na primeira volta do GP da China, os dois companheiros de Force India, Adrian Sutil e Paul di Resta, se engalfinharam e quase causaram um problemão que resultaria no abandono imediato de ambos. Ambos conseguiram seguir em frente e tiveram destinos diferentes: Sutil foi assassinado por Esteban Gutierrez ainda na quinta volta e Di Resta finalizou em oitavo. O clima entre os dois, de qualquer jeito, não ficou bom. Isso é, ficou ainda pior, já que os dois não estavam se bicando desde Melbourne, onde houve a ordem de equipe que impediu o escocês de ultrapassar o alemão. Os chefões da Force India obviamente não engoliram o ocorrido em Shanghai e convidaram Adrian e Paul para uma conversa a portas fechadas: ambos reveriam o vídeo do incidente, trocariam argumentações, xingamentos e ofensas e enfim um aperto de mão falso e a promessa de que nada disso se repetiria nos próximos séculos. No fim das contas, quem ficou com a culpa maior foi Sutil, que não teria dado espaço suficiente a Di Resta. Coitado do alemão, sempre se metendo em encrencas na China. Não sei como serão as coisas a partir daqui. Adrian é uma figura meio temperamental e Paul é dos caras mais chatos que o paddock já viu. Pelo visto, será mais uma dessas guerras campais entre companheiros de equipe.

SALO: O outro Mika foi convidado para ser o piloto-comissário desse próximo GP do Bahrein. Você pergunta: e daí? Esse negócio de ex-pilotos velhos e barrigudos que palpitam sobre quem vai pra forca ou pra cadeira elétrica já não chama a atenção de mais ninguém. Eu até concordaria com os senhores: e daí? Mas não farei isso. Mika Salo foi talvez o mais controverso de todos os pilotos que passaram pelo cargo desde sua instituição, em 2010. No ano passado, o finlandês foi convidado para ser o comissário do GP da Europa. Notabilizou-se por atribuir uma polêmica punição a Bruno Senna, que se envolveu num acidente bobo com Kamui Kobayashi durante a corrida. Muitos consideraram que o real culpado foi o japonês – eu particularmente discordo, mas tudo bem – e que Senna só foi responsabilizado porque Salo queria chamuscar sua imagem dentro da Williams. O objetivo final do ex-piloto seria abrir uma vaga para seu protegido, o então piloto de testes Valtteri Bottas. Muita gente aqui no Brasil considerou a atitude de Mika uma verdadeira cachorrada nacionalista e imoral. Eu nem dei bola: torcia por Salo durante sua passagem pela Fórmula 1, nunca torci por Bruno Senna e queria ver Valtteri Bottas em seu lugar. Dessa vez, Bottas é o titular da Williams e Senna está fazendo sua vida no WEC. Que os outros pilotos evitem arranjar confusões com Valtteri – é bem possível que atraia a ira de gente razoavelmente poderosa.