FERRARI9 – Com Fernando Alonso, deu tudo certo e o espanhol conseguiu fazer um fim de semana impecável. Com Felipe Massa, o câmbio não funcionou no treino oficial e o brasileiro não conseguiu sair do pelotão da mediocridade. De qualquer jeito, a equipe volta a brigar pelo título de pilotos e apenas onze pontos separam Alonso de Webber. Começo a achar que aqueles sete pontos a mais da polêmica ordem de equipe de Hockenheim poderão fazer a diferença.

RED BULL8,5 – Em um desses dias muito raros, a equipe conseguiu ter uma corrida sem dores de cabeça e, veja só, até conseguiu colocar dois carros no pódio. Faltou vencer, mas daí já é pedir muito. E olha que ela até tinha o melhor carro, mas Vettel colocou tudo a perder com o erro no treino oficial. Webber, no entanto, fez a lição de casa e ainda é líder. Esqueça o alemão, Christian Horner.

MCLAREN6,5 – A equipe parou de crescer nas últimas etapas e a Ferrari parece ter o segundo melhor carro neste momento. Lewis Hamilton também não ajuda ao abandonar, pela segunda vez, devido a um acidente causado por ele mesmo. Ao menos, sempre há um Jenson Button para levar uns pontos para casa. Mas os ingleses precisam melhorar.

MERCEDES7 – Mais um fim de semana com Nico Rosberg andando muito bem sem chamar muito a atenção. Mais um fim de semana com Michael Schumacher andando mal e se envolvendo em tudo quanto é tipo de confusão. A equipe não tem nada mais a almejar neste ano a não ser fazer exatamente isso. Injustiça minha com Rosberg, que está perto de tomar a 6ª posição de Massa no campeonato.

WILLIAMS7,5 – Marcou pontos com os dois pilotos novamente, e dessa vez Rubens Barrichello terminou em um ótimo sexto lugar. Nico Hülkenberg também não andou mal, mas poderia ter conseguido mais pontos se não tivesse aprontado várias. Mas sir Frank Williams não tem muito do que reclamar.

RENAULT5,5 – Já que Vitaly Petrov não ajuda, o negócio é esperar por uma boa aparição de Robert Kubica. Mas a sorte também não ajuda e o polonês teve de fazer uma parada a mais devido a problemas de freios. Ainda assim, terminou em sétimo. Assim como a Mercedes, é outra equipe que tem dificuldades para peitar os grandes e também não é peitada pelas equipes menores.

FORCE INDIA4 – Vitantonio Liuzzi estragou seu carro no muro cingapurenho na segunda volta e só aumentou a irritação da equipe para com ele. Ao menos, havia ainda Adrian Sutil, mas este também teve várias dificuldades na corrida e ficou preso por um bom tempo atrás do Virgin de Glock. O carro não estava tão bem, como visto no treino oficial. No fim, marcar pontos foi bom.

TORO ROSSO3 – Tanto Jaime Alguersuari quanto Sebastien Buemi poderiam ter marcado pontos, mas ambos tiveram vários problemas. O espanhol largou dos boxes devido a um problema de refrigeração e o suíço teve de tudo em seu carro. É uma equipe sem muito futuro e eu realmente espero que seja vendida à turma do Jacques Villeneuve e da Durango.

VIRGIN6 – Apresentando um novo pacote aerodinâmico, o carro deu um notável salto de qualidade e os dois pilotos conseguiram largar à frente de, ao menos, um dos pilotos da Lotus. Timo Glock chegou a andar em 10º e manteve um bom ritmo durante boa parte da corrida. Porém, Lucas di Grassi foi o único a levar o carro até o fim. Gostei de ver.

LOTUS2,5 – Tony Fernandes pode aparecer lá no escritório da Cosworth e justificar muito bem o motivo da rescisão de contrato para 2011. O carro de Heikki Kovalainen foi vítima de um perigoso incêndio no final da corrida, e o finlandês teve de exibir seus dotes como bombeiro para conter as chamas. Jarno Trulli também teve vários problemas, a Virgin se aproximou perigosamente e até mesmo a Proton está exigindo que a equipe não se chame mais Lotus no ano que vem. Dias difíceis para a equipe verde.

SAUBER2 – Voltou a ter aquelas apresentações medíocres e desastradas do início do ano. Nick Heidfeld, reestreando pela equipe, bateu em Liuzzi na largada e foi tirado da pista por Schumacher mais à frente. Kamui Kobayashi foi tocado por Buemi na largada, tirou Schumacher da pista e acabou batendo sozinho na volta 32. E muitos cifrões voaram da carteira de Peter Sauber.

HISPANIA0,5 –Uma puta de uma balburdia, esta equipe. Inventaram uma gastroenterite para sacar Sakon Yamamoto e colocar Christian Klien e alguns patrocinadores austríacos no lugar. E ele não foi mal, batendo Bruno Senna com tranqüilidade no treino oficial e na corrida. Mas não adiantou nada, já que os dois não terminaram a corrida.

TRANSMISSÃOBONS ALUNOS – Não sei se era meu sono ou se o fato de ter perdido o treino oficial me fez ignorar algum ocorrido, mas o caso é que o trio global não falou nada digno de “500 de Esparta” ou “em décimo, o Petkovic”. Galvão Bueno se empolgou um pouco além da conta com o circuito e seus pretensos pontos de ultrapassagem, mas dou um desconto. Afinal, pensando bem, a pista não é tão ruim assim e a corrida foi boa. Destaco apenas a insistência do limitado Lito Cavalcanti em dizer, na transmissão da SporTV, que Felipe Massa estava ameaçado na Ferrari e Adrian Sutil poderia ser seu substituto. Bullshit, como diria o britânico.

CORRIDADIVERSÃO NOTURNA – Eu, como 9 em cada 10, esperava ver uma corrida de merda. Sabe como é, as corridas de Spa-Francorchamps e Monza não foram tão legais quanto prometiam e uma pista de rua não ajuda. Mas me surpreendi. A prova foi boa, bem melhor do que as dos circuitos mais badalados. Mesmo que Fernando Alonso tenha vencido de ponta a ponta, fiquei satisfeito em ver sua performance dominadora e fiquei feliz também ao ver como Sebastian Vettel tentou ao máximo tomar a liderança que provavelmente seria sua se não tivesse ocorrido o erro no Q3 da classificação. Mais atrás, as brigas e ultrapassagens aconteciam a rodo  e pilotos como Timo Glock e Robert Kubica chamavam bastante a atenção. Acidentes também aconteceram, como o tumulto causado por Kamui Kobayashi e que envolveu Bruno Senna. No fim, tudo aquilo que uma corrida boa costuma ter teve em Cingapura.

FERNANDO ALONSO10 – Fim de semana impecável, com direito a pole-position, vitória de ponta a ponta e volta mais rápida. E tudo isso sem ter, teoricamente, o melhor carro do grid. Segurou um impetuoso Sebastian Vettel na largada e nas últimas voltas e conseguiu pular para a vice-liderança do campeonato. Não me arrependo em dizer que é o melhor cabra do grid nos dias atuais.

SEBASTIAN VETTEL 8 – Entregou a pole-position de bandeja a Alonso após cometer um erro crasso no Q3 do treino oficial. Porém, conseguiu andar direitinho na corrida. Tentou, sem sucesso, tomar a ponta de Alonso na largada e nas últimas voltas e terminou em segundo. Apesar de ter feito outro fim de semana abaixo do esperado, não tem lá muitos motivos para reclamar.

MARK WEBBER8,5 – Um sujeito inteligente, sortudo e agressivo que conseguiu fazer outra corrida de campeão, superando adversidades para fazer resultados que o mantivessem líder da competição. Não foi bem no treino oficial e, sem chances de vencer na pista, preferiu arriscar uma parada logo no começo da corrida. A estratégia deu certo e ele conseguiu pular para a terceira posição. Ainda sobreviveu a um toque de Hamilton após o segundo safety-car.

JENSON BUTTON 7,5 – Nunca se envolve em confusões ou polêmicas e a história se repetiu em Cingapura. Largou em quarto e em quarto se manteve durante quase todas as voltas. É em ocasiões como essa que ele se dá melhor que seu companheiro de equipe.

NICO ROSBERG7,5 – Outro que não se envolve em nada de muito absurdo. Saindo da sétima posição no grid, ganhou a posição de Barrichello na largada e subiu para quinto após o abandono de Hamilton. Mais um bom resultado de alguém que está próximo de subir para a sexta posição no campeonato.

RUBENS BARRICHELLO7 – No treino oficial, um excelente sexto lugar e muitas expectativas para a corrida, que acabou não sendo tão boa assim. Uma largada ruim e duas posições perdidas acabaram prejudicando sua participação. O abandono de Hamilton e o furo no pneu de Kubica o ajudaram voltar à sexta posição. Ainda assim, bom resultado.

ROBERT KUBICA7,5 – Um fim de semana que vinha sendo normal terminou de maneira interessante. Após ocupar a sexta posição por um bom tempo, a sorte voltou a lhe trair e um furo de pneu lhe jogou para a 13ª posição. Com pneus novos, o polonês fez uma série de ultrapassagens na parte final da prova e terminou em sétimo. Ainda assim, seria melhor ter feito uma corrida chata com um bom resultado final.

FELIPE MASSA2 – Já era. Depois desse fim de semana, a chance de título foi para as cucuias de vez. O chato é que a culpa nem foi sua. No treino oficial, um problema no câmbio encerrou sua participação no Q1 e ele teve de largar em último. Na corrida, fez sua troca de pneus na primeira volta e esperou que, com isso, pudesse se dar bem e ganhar algumas posições. Por isso, ficar preso atrás de Glock, Sutil e Hülkenberg acabou com qualquer boa chance. Só ficou em oitavo devido às punições dos dois últimos alemães.

ADRIAN SUTIL5,5 – Mal no treino oficial, acabou ganhando algumas posições durante a corrida que o levaram a terminar em oitavo. Ainda assim, tomou uma punição por ter cortado a primeira curva e perdeu uma posição. Poderia ter ido melhor também se não tivesse ficado tanto tempo atrás de Glock. Fim de semana complicado.

NICO HÜLKENBERG5 – Marcar pontos foi bastante razoável, mesmo que nem sua sorte e nem ele mesmo o ajudaram. Após ter perdido cinco posições no grid por troca de câmbio, se envolveu em boas brigas e conseguiu terminar em nono, que virou décimo após os comissários não aceitarem seu enorme talento como cortador de chicanes. O toque em Petrov também denotou uma indesejável ansiedade.

VITALY PETROV3 – Uma de suas piores atuações no ano. Bateu no treino classificatório pela milésima vez, largou lá atrás e não fez nada a não ser tomar ultrapassagem com direito a toque de Hülkenberg e tomar também a ultrapassagem mais fácil de todas que Kubica fez no final da prova. Bateu na trave e, de fato, não mereceu pontuar.

JAIME ALGUERSUARI – 4 – Disse ter feito a corrida mais chata de sua vida. Não diria mais chata, mas certamente uma das mais frustrantes. Destaque no treino oficial, acabou tendo tudo perdido quando seu carro apresentou um problema de refrigeração a poucos minutos da largada. Saindo do fundão do grid, só restava fazer algumas ultrapassagens e ver no que dava. Fez três e não terminou tão mal.

MICHAEL SCHUMACHER2 – E ninguém mais respeita o velho. Poderia até ter marcado alguns pontinhos, mas seus dois acidentes com os dois carros da Sauber colocaram tudo a perder. No primeiro, foi jogado aos pneus por Kobayashi, mas conseguiu voltar. No segundo, deve ter pensando em dar o troco, mas acabou o fazendo contra o outro Sauber, de Heidfeld. Mais um fim de semana jogado no lixo.

SEBASTIEN BUEMI3 – Poderia até ter marcado um pontinho, mas não o fez porque é muito azarado. Mais lento do que Alguersuari no treino oficial, o helvético tentou se recuperar na corrida, mas bateu em Kobayashi na largada e teve problemas durante o percurso, sendo obrigado a fazer três paradas. No fim das contas, saiu zerado como de costume.

LUCAS DI GRASSI5,5 – Se dá por feliz por ter sido o único piloto das equipes novatas a cruzar a linha de chegada. Com um Virgin apresentando várias atualizações, esteve um pouco mais próximo do ritmo dos outros pilotos. Sua performance vem melhorando notavelmente.

HEIKKI KOVALAINEN4 – Ganhou umas boas posições na largada e chegou a andar à frente de Schumacher durante um tempo. Porém, o motor Cosworth o traiu no final da corrida e o finlandês chamou a atenção por estacionar seu carro incendiário na reta dos boxes, pegar um extintor de incêndio e mandar espuma na traseira do Lotus. Se a carreira de piloto não engrenar, dá pra ganhar a vida como bombeiro.

TIMO GLOCK6,5 – Fez sua atuação mais expressiva neste ano. Largou em um bom 18º lugar e, ao escolher não parar durante o safety-car, subiu para a décima posição e por lá ficou durante várias voltas, segurando vários carros mais rápidos e imprimindo um ritmo impressionante para seu combalido Virgin. Depois desta boa aparição, o carro piorou e o alemão se arrastou até abandonar com problemas hidráulicos.

NICK HEIDFELD3,5 – Retorno difícil à Fórmula 1. Apesar de não ter andado tão mal nos treinos, ficou quatro posições atrás de Kobayashi no grid. Na largada, virou um verdadeiro recheio de sanduíche indiano ao ser tocado por Sutil e tocar em Liuzzi. Depois, só se arrastou no final do grid até se tirado da prova por Schumacher.

LEWIS HAMILTON2 – Duas corridas seguidas, dois acidentes causados por ele e zero pontos. Com patacoadas como estas, o sujeito se afasta cada vez mais do segundo título. Largou em terceiro e por lá ficou até o segundo safety-car, quando acabou ficando atrás de Webber. Na relargada, tentou ultrapassar o australiano por fora, tocou na roda dianteira direita do Red Bull com sua roda traseira, destruiu a suspensão de sua McLaren e foi obrigado a abandonar. Triste.

CHRISTIAN KLIEN5 – Nada mal para alguém que não fazia uma corrida de Fórmula 1 desde 2006 e que só havia feito alguns quilômetros com a precária diligência espanhola. Colocou 1s2 sobre Senna na classificação, largou bem e andou o tempo todo à frente de seu companheiro brasileiro. Infelizmente, um problema hidráulico acabou com sua corrida. De qualquer jeito, um bom retorno.

KAMUI KOBAYASHI – 4 – Como já havia acontecido em algumas ocasiões dessa temporada, foi bem nos treinos e acabou no muro durante a corrida. Largou em um bom 10º lugar e manteve-se sempre próximo nos pontos. No entanto, aprontou das suas ao jogar Schumacher nos pneus e, não muito tempo depois, bateu em uma das curvas do difícil circuito citadino, causando um pequeno salseiro e mais prejuízos para a Sauber.

BRUNO SENNA1 – Eu até nem queira utilizar esse tipo de terminologia, mas admito que o brasileiro levou uma surra homérica de seu companheiro. Largou atrás dele e atrás dele ficou até bater no carro destroçado de Kobayashi na volta 32.

JARNO TRULLI 1,5 – Talvez seu pior fim de semana no ano até aqui. Foi mais rápido apenas que os carros da Hispania no treino oficial, teve um pneu furado no começo da corrida e, não muito tempo depois, abandonou com os rotineiros problemas hidráulicos.

VITANTONIO LIUZZI1,5 – Segue barranco abaixo, e o precipício parece não ter fim. Largou apenas em 16º, foi tocado por Heidfeld na primeira volta e bateu sozinho na segunda. Tem conserto?

Nessa semana, a Codemasters fez a festa de muitos fãs de Fórmula 1 ao lançar o F1 2010, talvez o jogo relacionado à categoria mais aguardado de todos os tempos. Depois de muitos anos sem jogos oficiais de Fórmula 1 e muito trabalho de desenvolvimento da empresa inglesa, todos poderão se passar por Lewis Hamilton ou Karun Chandhok em seu Playstation 3, XBox 360 ou computador. E o jogo é sensacional. Mesclando simulador com arcade, ele simula com perfeição detalhes como a dirigibilidade de uma carroça como a Hispania, as mudanças climáticas e até mesmo o relacionamento do piloto com sua equipe e com a imprensa.

Tudo isso é muito bom, muito bonito, muito legal, mas será que paramos para pensar como foi que conseguimos chegar ao nível de perfeição do F1 2010? Até chegar a ele, os fanáticos por Fórmula 1 puderam pilotar seus carrinhos virtuais em muitos outros jogos desde o jurássico Atari. Alguns marcaram época e representam influência até os dias atuais. Não vou comentar sobre medalhões que eu infelizmente nunca joguei, como Virtua Racing ou Super Monaco GP, e nem sobre jogos mais recentes, como o rFactor. Falo apenas do que conheço. Alguns são quase desconhecidos, mas valem a pena ser relembrados.

5- HUMAN GRAND PRIX IV

Até o advento dos jogos em 3D, o Super Nintendo era o videogame ideal para quem gostava de reproduzir as emoções da Fórmula 1. Mesmo que não suportasse o jogo mais célebre de seu período, o Super Monaco GP, o console da Nintendo oferecia uma razoável gama de títulos. Eram jogos muito bons, e alguns deles tinham pequenos detalhes que não existem nem nos jogos mais modernos. Um deles era o Human Grand Prix IV, o último jogo da série Human Grand Prix, lançado em 1995.

Apesar da Human Entertainment estar longe de ser a empresa de games mais badalada de seu período, a série Human Grand Prix era muito bacana porque detinha os direitos oficiais da FOCA. Logo, pistas, equipes e pilotos eram os mesmos da realidade. Esta quarta versão é pioneira em reproduzir quatro temporadas completas, entre 1992 e 1995. Além disso, tudo é customizável. Se você quiser ver Hideki Noda na Ferrari, Michael Schumacher na Pacific e Thierry Boutsen na Forti-Corse, vá em frente.

No mais, os gráficos e a jogabilidade são adequados para sua época: você controla o carro com a câmera posicionada imediatamente atrás dele, como acontecia em todos os jogos de corrida de seu tempo. Havia, porém, alguns detalhes engraçadinhos, como a aparição de patrocinadores em carros, algo muito difícil de se reproduzir em um jogo 16 bits, e de algumas das famosas características de certas pistas que só aumentavam o charme do jogo, como as pontes que atravessam a pista de Montreal. Não é um jogo sensacional, mas vale a pena perder um tempinho com ele.

4- F1 CIRCUS

Este foi o primeiro jogo de Fórmula 1 com o qual eu tive qualquer contato. Foi lançado também para o Super Nintendo no já distante ano de 1992, apesar de ser baseado na temporada anterior. À primeira vista, você olha e acha o troço um tanto quanto ordinário, até porque ninguém se deu ao trabalho de sequer traduzir o jogo para o inglês. Portanto, enfrente o kanji e tente se localizar em um jogo voltado para a patota japonesa.

E não se assuste, pois o jogo é divertido. Para começar, você vai ter de ralar com o setup do seu bólido. O jogo permite a você fazer acertos na asa, na suspensão, nos pneus e onde mais você quiser. É óbvio que o sistema de acertos não passa nem perto da sofisticação de um jogo atual, mas não dá para exigir muito. Você também poderá escolher um dos 34 pilotos daquela temporada. Porém, como a Nichibutsu, fabricante do jogo, não tinha os direitos oficiais da FOCA, restou aos programadores utilizar nomes parecidos com o real. Não se incomode em correr na “Blabham”, por exemplo. Para nosso alívio, as cores são as mesmas. E, no fundo, esse negócio de nomes nem faz diferença, já que quase tudo está em japonês.

Jogar F1 Circus é algo um tanto quanto complicado, já que a câmera é aérea e o carro, na verdade, não sai do lugar: é a pista que se move e você basicamente controla o posicionamento do bólido nela. Não é algo fácil, mas dá pra se acostumar com um pouco de treino. Você deve tomar cuidado também para não bater ou para não desgastar os freios, a suspensão ou a transmissão. Há uma tabelinha com o status dos componentes do carro, algo utilizado por muito tempo em jogos mais sofisticados. O vídeo acima é do Super F1 Circus, uma pequena atualização do F1 Circus.

3-GRAND PRIX 2

Foi o primeiro jogo de Fórmula 1 em que eu mergulhei de cabeça, lá pelos idos de 1999. Eu tinha um humilde 486 que o fazia rodar a cerca de 10 frames por segundo, uma lentidão hispaniesca comparada aos 60 frames por segundo feitos pelo F1 2010. Ainda assim, me divertia por horas na frente da tela. O GP2, como também era chamado, foi por muito tempo o jogo de Fórmula 1 de maior sucesso em todo o mundo. Até mesmo pilotos como Jacques Villeneuve e Ricardo Zonta o utilizavam como simulador para as corridas. Também, pudera.

Totalmente em 3D, o jogo representou um enorme avanço em busca da perfeição. Lançado em 1996, ele era a continuação do igualmente célebre F1 Grand Prix e reproduzia a temporada de 1994. Moderno, ele permitia a você fazer dezenas de modificações no seu carro (dava para modificar a altura de uma asa minunciosamente, por exemplo), reproduzia acidentes de maneira notável para a época e permitia escolher um nível de dificuldade que podia ocupar um bom tempo seu.

Eram 17 pistas, 14 equipes e 28 pilotos. No entanto, o mais legal do GP2 é que ele foi o pioneiro em permitir ao jogador instalar pistas e trocar temporadas inteiras, os chamados carsets. Logo, se você quisesse, poderia competir na temporada 2002 da Fórmula 1 ou na temporada 1996 da Indy em pistas como Talladega, Oschersleben ou Sugo. Uma comunidade imensa na internet produzia vários pacotes de modificação, o que só ampliou o sucesso do jogo.

2- F1 WORLD GRAND PRIX

No meu tempo, quando se falava em jogos de corrida, ninguém dava bola para o pobre do Nintendo 64. Todos só tinham olhos para o Playstation, aquele original. Muitos críticos diziam que o formato de cartucho do 64 era muito caro e criava limitações na hora de desenvolver um jogo mais pesado. Não por acaso, o console da Nintendo não teve muitos jogos, e os de corrida foram ainda mais esparsos. No entanto, ele teve um jogo de Fórmula 1 que, ao meu ver, batia facilmente qualquer jogo do concorrente da Sony, o F1 World Grand Prix.

Lançado no segundo semestre de 1998, o título surpreendeu a todos e é considerado, por vários, um dos melhores jogos já lançados para o console. Ele reproduz a temporada 1997, aquela do Schumacher batendo no Villeneuve, com uma riqueza de detalhes que me faz perguntar como os programadores conseguiram colocar um jogo tão bom dentro de um cartucho limitado. Os gráficos eram muito bons para o período, a jogabilidade era excelente e todos os pilotos e equipes da temporada estavam lá, com exceção da estelinha canadense, que se recusou a ceder suas imagens para o jogo. Em seu lugar, Driver Williams. Bah.

O jogo tinha alguns extras bem interessantes. Um deles era uma pista havaiana que tinha de ser desbloqueada. O outro, talvez o maior chamariz do jogo, era o modo Challenge: você passa por situações que, de fato, aconteceram na temporada 1997 e deve se safar delas. Assim, em uma tarefa, você é Giancarlo Fisichella em Hockenheim, tem um pneu estourado, deve levar o carro para os pits, voltar e recuperar posições. Em outra, você é Ukyo Katayama e deve levar seu carro sem freios até o final em Spa-Francorchamps. E assim por diante. Um clássico.

1- GRAND PRIX LEGENDS

Call of Duty é o caramba. ISSO é jogo de homem. E me arrisco a dizer que é o jogo de corrida com melhor custo/benefício de todos os tempos. Ninguém conseguiu fazer, até hoje, um simulador tão leve e ao mesmo tempo tão detalhado e perfeito.

Grand Prix Legends foi lançado para PC meio que à surdina em 1998 com a interessante proposta de reproduzir as emoções da Fórmula 1 de exatos 31 anos antes, a célebre temporada de 1967. Você poderia dirigir aqueles belíssimos charutinhos da Lotus ou da Ferrari por circuitos como o antigo Spa-Francorchamps, Nürburgring Nordschleife e Mosport. Sem dúvida, uma experiência legal. Mas muito, muito difícil.

Como dito, o jogo foi feito para homens. Se você quiser tentar jogar com o teclado, vá em frente. Em um primeiro instante, não conseguirá sequer fazer a primeira curva. Com o tempo, conseguirá completar uma volta em Monza. Mais tempo e você até conseguirá terminar uma corrida em Rouen. Apenas pessoas muito perseverantes conseguem jogar dispensando um bom volante. Para os domingueiros, ele é absolutamente indispensável.

Mas não fiquemos só falando da extrema dificuldade. Os gráficos, de uma leveza incrível e de uma beleza marcante, permanecem atuais até hoje. O nível de detalhamento dos carros é notável: você sente a diferença entre dirigir um Brabham e um Eagle e até mesmo os sons dos motores são diferentes. A gama de acertos é milimétrica e qualquer detalhe representa a diferença entre a vitória e a derrota. E os acidentes são ótimos. Tirando o fato do carro só perder as rodas, o realismo é extremo. Ninguém conseguiu fazer um sistema de capotagens como os programadores de GPL. Para um jogo cult, ignorado pela grande turma de consumidores, nada mais justo do que o primeiro lugar.

Belíssima skyline diurna do Cingapura

MARINA BAY: Voto na Marina, a melhor dos três candidatos majoritários à presidência. Quanto ao circuito, é a realização do sonho daqueles jogadores infantilizados de Need for Speed Underground que queriam ver um carro de Fórmula 1 passando pelas ruas de uma grande metrópole à noite. A skyline, de fato, é sensacional, uma das melhores do mundo. O circuito é meia-boca, me lembra um pouco o odiado Detroit. Enfim, é a expressão da Fórmula 1 contemporânea: uma embalagem bonitinha e um presente apenas razoável, tendendo ao ordinário. Sou um entre os oito que preferem Valência.

HEIDFELD: E os deuses cingapurianos, muito mais justos e eficientes que os demais, atenderam ao meu pedido e trouxeram o alemão baixinho e barbudo de volta à Fórmula 1. Perdoe-me, De La Rosa, mas o retorno de Heidfeld só tem a acrescer no grid desta temporada. O maior problema é seu instrumento de trabalho. O carro da Sauber não é genial e o espanhol ainda acabou gastando todos os oito motores previstos no regulamento. Nick vai ter de optar entre largar lá no fim do grid com um motor novinho em folha ou andar com um motor de dentista em um carro que… provavelmente irá largar no fim do grid também.

D’AMBROSIO: Nada a ver com Alessandra Ambrósio ou com aquele doce feito com leite, ovos e açúcar que tem um nome muito parecido. Jerôme D’Ambrosio, belga que ficou conhecido na GP2 por ser muito rápido e muito azarado, andará pela primeira vez como um piloto oficial de uma equipe, nesse caso a Virgin. Ele irá dirigir o carro de Lucas di Grassi nos treinos livres de sexta-feira. Não é a oportunidade que todos costumam pedir a Deus, mas para alguém que não tem dinheiro e nem sorte, nada melhor do que isso.

BRIATORE: Um nome que dá arrepios é o de Flavio Briatore. Arrepios negativos, é evidente. Algum irresponsável midiático lançou um boato de que o ex-chefe de Schumacher e Alonso na Benetton e na Renault poderia estar voltando à Fórmula 1 como substituto do irregular Stefano Domenicali na Ferrari. Como eu não gosto de equipes que usam cavalos voadores como logomarca, tinha ficado feliz pela possibilidade de ver a Ferrari sendo novamente dominada por mafiosos italianos safados e irracionais. Mas Briatore rechaçou a idéia e disse que prefere curtir a grana e o filhinho que vem aí. Está certo, mas não acredito nele.

CHUVA: E se chover à noite, como a meteorologia está dizendo, o que a gente faz? É a dúvida que tira o sono dos convivas da Fórmula 1. Há motivos para tanto. Correr em uma noite chuvosa é uma merda, ainda mais em um circuito de rua traiçoeiro como esse. A falta de visibilidade seria um perigo e uma corrida como essa mandaria metade do grid direto ao ferro-velho e, possivelmente, ao hospital. Mas nós, fãs carniceiros que somos, esperamos que os pilotos calem a boca e corram. Afinal, como um bom Coliseu, gostamos de ver um punhado de imbecis se estropiando por pura diversão.

Ontem, a organização da minha querida GP2 Series anunciou a lista das 13 equipes que participarão das próximas três temporadas dos campeonatos europeu e asiático da categoria. Permanecem a ART, a Rapax, a Addax, a iSport, a Racing Engineering, a Supernova, a Arden, a DAMS, a Coloni, a Ocean e a Trident e sai a DPR, pobrezinha. Além delas, entrarão também a tradicional Carlin e a novata Air Asia, equipe malaia pertencente a Tony Fernandes, o mesmo da Lotus na Fórmula 1. Em primeiro lugar, bateu certo incômodo. 26 carros é pouco para uma categoria de base tão importante. Não vejo um porquê da categoria não expandir seu grid para 28 ou 30 carros, nada muito absurdo. Mas tudo bem, eu sempre reclamo do tamanho dos grids e sigo assim até o dia em que alguém crie uma categoria com uns 100 carros. Ainda assim, vou perguntar algo como “por que não 110?”.

A segunda nota que me chamou a atenção foi a criação da equipe Team Air Asia. Como dito acima, o criador da idéia é Tony Fernandes, empresário malaio dos mais endinheirados. No final do ano passado, Fernandes liderou um consórcio que envolvia inúmeras empresas públicas e privadas de seu país na criação da Lotus Racing, equipe de Fórmula 1 que visava trazer de volta o lendário nome da equipe de Colin Chapman ao mesmo tempo em que sonha ser a primeira equipe totalmente asiática da história da categoria. Em um primeiro momento, houve um misto de riso, descrença e escárnio. Muitos até se sentiram ofendidos pelo fato do nome Lotus ser utilizado em uma empreitada que soava absolutamente arrivista e até caricatural. Lá vem mais um asiático maluco e perdulário!

Passado um ano, uma agradável surpresa. O tal do Fernandes é um sujeito ambicioso, compromissado e sério. A equipe ainda não tem um carro competitivo, mas busca juntar todos os ingredientes para isso. Tem o experiente Mike Gascoyne como chefe de equipe e os calejados Jarno Trulli e Heikki Kovalainen como pilotos. A belíssima pintura, verde com alguns detalhes em amarelo, remete à Lotus dos anos 60. Para 2011, a equipe trará da Renault um pacote que inclui motor e câmbio. Além disso, o nome oficial da equipe será modificado: sai o Lotus Racing e entra o Team Lotus F1, que é exatamente o nome da equipe original. Além disso, a equipe tem seu braço na World Series by Renault, a Junior Lotus, e terá um na GP2 com a Team Air Asia. Em suma, os caras querem dominar o planeta. Ou, ao menos, o automobilismo.

Heikki Kovalainen, representante da Lotus Racing

O projeto de Tony Fernandes é bom e o pessoal da Lotus Cars, a empresa de carros comandada pela família Chapman, o louva e o considera como extensão oficial da antiga equipe de Fórmula 1. Mas as coisas estão um pouco confusas para o amante de automobilismo. Ontem mesmo, a ART Grand Prix, uma das potências da GP2, anunciou que teria o apoio oficial da Lotus Cars em 2011 para as equipes da GP2 e da GP3. E todos ficaram com um enorme ponto de interrogação na cabeça. Duas equipes Lotus?

Expliquemos as coisas desde o começo. A Lotus Cars é uma pequena empresa de carros artesanais criada por Colin Chapman. Com a morte de Chapman, a companhia passou pelas mãos da GM e de uma holding luxemburguesa até ser adquirida definitivamente pela Proton, uma montadora estatal malaia, em 1996. Desde então, quem manda no negócio é a turma malaia, ainda que a sede da empresa esteja localizada na pequena vila de Hethel. Tony Fernandes tem tanto a ver com a Lotus Cars e a Proton quanto eu, você ou a Mulher Pêra: absolutamente nada.

Tony Fernandes é um Eike Batista malaio, sem a aparência de playboy e a Luma de Oliveira no currículo. Com apenas 46 anos, conseguiu juntar uma fortuna de 230 milhões de dólares ao criar o Tune Group, conglomerado de empresas aéreas, de finanças, de turismo e do entretenimento. Uma destas empresas é a Air Asia, companhia aérea de baixo custo. A idéia da equipe surgiu quando um representante da Litespeed, equipe inglesa da Fórmula 3 que havia tentado, sem sucesso, se inscrever para a temporada 2010 da Fórmula 1, foi à Malásia para conversar com Tony Fernandes sobre a criação de uma parceria para uma equipe de Fórmula 1 no caso de uma das 13 já confirmadas não puder competir. Fernandes, empresário de trânsito entre os grandões de seu país, gostou da idéia e recorreu a outros empresários e ao governo. Todos acharam tudo muito lindo e fofo e, muito rapidamente, sentaram e definiram as coisas. Só repetindo: Tony Fernandes e a Lotus Cars não tem nada a ver.

No início do segundo semestre de 2009, a BMW Sauber anunciou que cairia fora. A FIA não tardou muito em anunciar a tal equipe malaia como sua substituta. Formada pela união entre um conluio de empresários e burocratas do governo da Malásia, seu nome seria Lotus Racing devido à participação bastante oportuna da Proton, que é justamente a empresa dona da Lotus Cars. Tony Fernandes seria o chefe da equipe.  Nasce, assim, a união entre Tony Fernandes e a Lotus.

A César o que é de César. A Lotus Racing, equipe de Tony Fernandes, é uma coisa completamente distinta da Lotus Cars. Esta faz parte do grupo que criou a escuderia e emprestou seu valoroso nome ao projeto, e só. A equipe de Fórmula 1 não responde à montadora e ambos os lados podem agir do jeito que quiserem com relação ao automobilismo. Dito isso, vamos identificar quem é quem.

Takuma Sato, representante da Lotus Cars

A Lotus Racing de Tony Fernandes aparece na Fórmula 1 e na World Series by Renault. Na World Series, ela comprou o espólio da também malaia Mofaz Racing e criou a Junior Lotus Racing, equipe que utiliza a mesma pintura da Fórmula 1 e emprega Nelson Panciatici e Daniil Move. O objetivo de Fernandes é óbvio: revelar novos talentos para sua equipe de Fórmula 1. Se bem que com Panciatici e Move, sei não…

Com esse mesmo objetivo, Fernandes criou a Team Air Asia, que é exatamente uma das duas equipes novatas da GP2 em 2011. E o apoio da Lotus à ART Grand Prix? Aí entra a turma da Lotus Cars, que apenas empresta seu nome e algum apoio técnico e financeiro às suas parceiras no automobilismo. Isso ocorre na KV, equipe da Indy que utiliza as cores da empresa no carro de Takuma Sato, e acontecerá agora na ART, que também pintará o carro de verde e amarelo. Nem a ART e nem a KV tem qualquer vínculo com a Lotus Racing, a Junior Lotus Racing ou a Team Air Asia. Alguns boatos na Europa ventilavam a possibilidade da Air Asia ser apenas uma filial camuflada da ART Grand Prix, o que é uma besteira total.

No fim, nada disso importa. O importante é que o nome Lotus está de volta, com suas cores e sua disposição para o automobilismo. Os falsos puristas podem até chiar que esta não é a verdadeira Lotus, e ela não é mesmo. Mas e daí? Viva a Lotus Car! Viva a Lotus Racing! Viva a Lotus! E viva a confusão!

Jerôme D'Ambrosio, um dos nomes da vez na Fórmula 1

Texto não muito longo. Aliás, alerto: esta semana não vai ser a mais movimentada. Coisas pra fazer a granel. Em um período no qual as notícias são poucas e não muito animadoras, falo de alguns personagens que andaram chamando a atenção de toda a patota da Fórmula 1 em tempos recentes.

Começo pelo fim, ou melhor, pelo menos badalado de todos. E o seu nome é Jerôme D’Ambrosio. Guardem esse nome, pois ele tem boas chances de correr na Fórmula 1 em 2011. Jerôme é belga e tem 25 anos. No seu currículo, constam um título obtido de maneira indiscutível na Fórmula Master em 2007 e três temporadas apenas razoáveis na GP2 entre 2008 e 2010. Não o culpemos, no entanto. D’Ambrosio é um piloto rápido, muito sensato e pouco propenso a erros. Nestes últimos três anos, sofreu com o pouco confiável carro da DAMS. Ainda assim, superou seus companheiros de equipes em todos estes anos. Nos dois primeiros anos, bateu Kamui Kobayashi com folga, e o japonês está aí, fazendo um bocado de gente babar na Fórmula 1.

D’Ambrosio (aprendam, infantes: JERROM DAMBRROSIÔ) aparecerá em quatro dos últimos cinco fins de semana da atual temporada de Fórmula 1 como piloto de testes da Virgin. Andará na sexta-feira nos circuitos de Marina Bay, Suzuka, South Jeolla e Abu Dhabi. A chance de brilhar é remotíssima, mas não deixa de ser boa para alguém que não tem patrocinadores grandes e que é obrigado a abraçar qualquer oportunidade dada pelos homens da Fórmula 1. Se o belga convencer nestas quatro oportunidades e se carregar consigo uma renca de patrocinadores, há uma boa chance da Virgin efetivá-lo para correr ao lado de Timo Glock em 2011. Lucas di Grassi, portanto, termina chupando o dedo.

Kimi Raikkonen: será que volta?

Lucas é um dos quatro brasileiros e um dos cinco estreantes desta temporada. Na comparação direta com seu companheiro Timo Glock, não está tão mal. Apesar de ter largado apenas duas vezes à frente do alemão, Di Grassi terminou apenas uma corrida a menos que Glock (sete a oito) e conseguiu o melhor resultado da Virgin até aqui, um 14º lugar em Sepang. Longe de ser um retrospecto genial, o caso é que o brasileiro merece, no mínimo, uma segunda oportunidade. Uma oportunidade realmente decente. Mas tudo parece nebuloso para ele. Sem dinheiro, restará a ele esperar que algo aconteça. Mas as coisas na Fórmula 1 não acontecem do nada.

Não muito distante da realidade de Di Grassi, Bruno Senna é outro brasileiro que padece no paraíso. Primeiro piloto da simpática porém lamentável Hispania, ele vem sofrendo com um carro que simplesmente é o mesmo da etapa barenita e com uma equipe completamente bagunçada e que remete aos bons tempos das nanicas da pré-classificação oitentista. Até aqui, ele terminou apenas cinco corridas. Já teve tudo quanto é tipo de problema, passou até pelo sufoco de não conseguir ligar o carro para a sessão de sexta-feira da etapa de Monza e chegou a dar seu lugar a Sakon Yamamoto na etapa de Silverstone. E ao contrário do que se imagina, Bruno não é o típico piloto-pagante. Apoiado apenas pelo Embratel e pelo Banco Cruzeiro do Sul (propriedade da família do candidato a vice-presidente Índio da Costa), não há dinheiro o suficiente em sua conta-corrente. Dinheiro esse que, por sinal, a Hispania precisa muito. Bruno Senna sabe que, dificilmente, seu futuro seguirá o mesmo rumo do de sua equipe. Assim como Di Grassi, restará a ele buscar um jardim mais fértil.

Mas não é só a dupla de brasileiros que padece. Pedro de la Rosa, o vovô espanhol, é outro que perde seus cabelos grisalhos buscando uma vaga para 2011. Dispensado pela Sauber, de la Rosa sabe que não tem muito mais a fazer. Está com quase 40 anos de idade e nunca demonstrou qualquer lapso de genialidade. Na atual temporada, fez menos de 1/3 dos pontos de seu companheiro Kamui Kobayashi. Como Pedro também não tem dinheiro, não há como comprar uma vaguinha por aí. Restará a ele esperar que alguém apareça desejando sua experiência. A Hispania já acenou com uma possibilidade. Mas será que é um bom negócio para alguém em sua situação?

Romain Grosjean, a ave fênix

Por outro lado, a vida é bem rósea para alguns. E o possível retorno de Kimi Raikkonen à Fórmula 1 é o principal assunto do momento. Piloto do WRC nesta temporada, Kimi recebe o segundo maior salário da Fórmula 1 devido à enorme rescisão paga pela Ferrari por sua dispensa no ano passado. Na atual temporada do WRC, o desempenho do ex-campeão vem sendo bastante razoável, mas o que mais chama a atenção é o número de acidentes sofridos na temporada de estréia. A mídia, sempre oportunista, não perde tempo para criticá-lo, ignorando que faz parte da adaptação. E a mesma mídia ventila a possibilidade de Kimi estar querendo voltar à Fórmula 1 devido ao fim da mamata ferrarista. Sem dinheiro, ele teria de abandonar a diversão e voltar ao batente. Raikkonen já teria consultado a Renault visando a vaga de companheiro de Robert Kubica em 2011. Quanto a Vitaly Petrov, este migraria por livre e espontânea vontade alheia à Lotus, que irá receber motores Renault. A conferir, a conferir, a conferir.

Outro que está nos ares é Pastor Maldonado, o venezuelano que ganhou o título da GP2 neste ano. Novo herói nacional, o jovem piloto chegou a ser convidado a fazer um discurso para um número enorme de pessoas em um estádio de seu país. No meio da multidão, o caudilho Hugo Chavez, que financia a carreira do pupilo por meio de suas empresas estatais, como é o caso da petrolífera PDVSA. Maldonado, que chegou até a aparecer nas Trending Topics mundiais do Twitter quando obteve uma de suas seis vitórias neste ano, está negociando com algumas equipes médias. Além de experiente e muito rápido, ele carrega muito dinheiro. É, sem dúvida, um dos pilotos mais valiosos que estão de fora nos dias atuais.

Por fim, uma humilde menção da Romain Grosjean, o suíço-francês primo do Sideshow Bob. Após fazer algumas corridas deploráveis pela Renault no final do ano passado, muitos davam sua carreira como acabada. Restaria a ele voltar a trabalhar no banco, pois. E não é que Grosjean deu a volta por cima e tentou correr no máximo de categorias possível visando um retorno à Fórmula 1? O mais legal é que ele andou bem em todas as categorias pelas quais passou nesse ano. Romain começou no FIA GT, venceu duas corridas e chegou a liderar a competição. Depois, pulou para a AutoGP, fez apenas três corridas e inacreditavelmente assumiu a liderança do campeonato tendo feito quatro corridas a menos que a concorrência. Por fim, foi chamado para correr na GP2 pela DAMS. Em um carro fraco, mostrou agressividade e conseguiu um pódio. Renascido das cinzas, foi chamado pela Pirelli para substituir Nick Heidfeld nos testes em Mugello. E seu nome volta a ser cogitado pelos chefes da categoria. E Romain pode, assim, dar risada de quem colocou sua capacidade em cheque no ano passado.

E estes são os personagens mais proeminentes da silly season 2010 – 2011. Silly season é um negócio sempre chato, cheio de sangue, suor e lágrimas. Todos dão seu sangue e suor para continuar competindo, mas alguns sempre terminam em lágrimas.

Já ouviu o aforismo acima? Ele é o tema do Top Cinq de hoje. Na terça-feira, a equipe suíça Sauber anunciou a substituição do interminável Pedro de La Rosa pelo barbudo Nick Heidfeld. Insatisfeita com o desempenho do piloto catalão, que havia marcado apenas seis pontos até aqui, Peter Sauber o mandou para casa mais cedo e trouxe Heidfeld, que estava fazendo um bico testando pneus Pirelli, para fazer as últimas corridas da temporada no carro nº 22.

Esta não será a primeira passagem de Nick pela equipe. Na verdade verdadeira, será a terceira. A primeira aconteceu entre 2001 e 2003, quando a equipe era toda azulada e Heidfeld não passava de um moleque discreto porém promissor. Depois de passagens pela Jordan e pela Williams, ele retornou à sua casa em 2006, quando ela foi comprada pela BMW e seus carros foram pintados de branco. Foram quatro anos, alguns pódios, ótimas atuações e nenhuma vitória. No final do ano passado, a BMW anunciou sua saída da Fórmula 1 e Nick Heidfeld teria de encontrar outra turma. Paquerou a Mercedes e a Renault, mas não teve sucesso e passou o ano como vaso de flores da equipe de três pontas, urubuzando a vaga de Michael Schumacher. E, agora, ele está de volta.

É evidente que não é a primeira vez que um piloto retorna a uma equipe com o rabo entre as pernas. Falo de cinco histórias. Há muitos exemplos e tive de fazer uma bela triagem para decidir quem entraria aqui. Estes passaram pelo árduo crivo verdeano:

5- MARIO ANDRETTI E FERRARI (1971 – 1972, 1982)

Andretti em 1971

Se há um piloto que eu não vi correr mas que admiro absurdamente, este é Mario Andretti. O ítalo-croata-americano pode ter vencido a Indy 500 apenas uma vez, a Fórmula 1 apenas uma vez, a Indy apenas uma vez, a Daytona 500 apenas uma vez e pode ter chegado apenas em segundo nas 24 Horas de Le Mans. Mas vem cá… não está bom demais? Por isso que o considero um dos pilotos mais versáteis de todos os tempos.

E a versatilidade de Andretti é uma boa explicação pelo fato dele não ter feito uma carreira tão sólida ou vitoriosa na Fórmula 1. O cara levava uma vida absolutamente estafante, fazendo corridas concomitantes na Fórmula 1, na Indy e no Mundial de Marcas. O mais legal é que, embora os títulos não viessem a rodo, seu desempenho era muito bom em todas estas categorias. O fascínio de Andretti pelo esporte a motor europeu era grande e seu sangue italiano corria forte pelas veias. Em 1970, ele realizou o sonho de muitos de seu país natal: assinou um contrato para correr com a Ferrari no Mundial de Marcas. No ano seguinte, o contrato se estendeu à equipe de Fórmula 1.

E não é que Andretti conseguiu fazer a Ferrari vencer logo em sua primeira corrida pela equipe na Fórmula 1? No GP da África do Sul de 1971, o italiano largou em quarto, foi combativo durante toda a prova e herdou a vitória de Denny Hulme faltando poucas voltas para o fim. Uma festa! Infelizmente, nas demais corridas, ele não conseguiu sequer um pódio. Cansado das más performances, ele preferiu concentrar-se apenas no Mundial de Protótipos e no USAC, abandonando a Fórmula 1 após o GP dos EUA de 1972.

Mas o carinho da Ferrari por ele não havia acabado e, dez anos depois, a equipe o convidou para fazer as duas últimas corridas da temporada. Vale lembrar que 1982 foi um ano cruel para a Ferrari, que viu Gilles Villeneuve morrer e Didier Pironi se arrebentar todo. Mario, quarentão, já aposentado da Fórmula 1 e estabelecido como piloto da Indy, aceitou e foi correr em Monza, diante dos loucos torcedores italianos. E, para delírio geral, fez a pole-position. Infelizmente, a vitória não veio. Não tem problema: onze anos depois, Mario Andretti mostrava que estrear na Ferrari era com ele mesmo.

4- ALAIN PROST E MCLAREN (1980, 1984 – 1989, 1996)

Prost em 1989

Em 1980, um francês baixinho e narigudo estreava na Fórmula 1 pela McLaren. O tal francês havia sido a sensação da Fórmula 3 européia no ano anterior e muitas equipes estavam interessadas nele, mas o sujeito preferiu assinar com a equipe de Teddy Mayer. Na época, a McLaren não era a melhor equipe do grid e estrear por lá significava poder desenvolver-se sem tanta pressão e assédio da mídia. E o tal francês não decepcionou: marcou cinco pontos em quatro etapas e conseguiu um bom contrato com a Renault para o ano seguinte.

Em 1984, cansado de bater na trave com a equipe francesa, o tal piloto narigudo retorna à McLaren. A equipe inglesa havia sofrido mudanças profundas (novos sócios, nova equipe técnica e um motor Porsche) e prometia muito. De fato, a parceria deu tão certo que o francês se consagrou como um dos maiores pilotos da história. Entre 1984 e 1989, ele obteve três títulos mundiais e venceu 30 corridas, um recorde até então para um duo piloto-equipe. Sua saída só foi motivada devido à chegada de Ayrton Senna, que fez as atenções da equipe se dividirem. O então tricampeão se considerava insultado e desrespeitado e cascou fora.

Após passar pela Ferrari e pela Williams, ganhar mais um título e se aposentar no fim de 1993, a mesma McLaren se reaproxima dele. Os tempos já não são tão frutíferos e a equipe precisa urgentemente de um piloto de ponta para se reerguer. Em 1994, o já aposentado piloto trabalha como consultor. No ano seguinte, faz alguns testes em Silverstone. No início de 1996, com Mika Hakkinen se recuperando de seu acidente em Adelaide, a McLaren escala seu ilustre funcionário para ser o possível substituto. Mas Hakkinen se recupera e a substituição se mostra desnecessária. Ao mesmo tempo, a Tom Walkinshaw surge e oferece o comando da Ligier ao ex-piloto francês. E, desta maneira, Alain Prost abandona a McLaren pela última vez.

3- GERHARD BERGER, FERRARI (1987 – 1989, 1993 – 1995) E BENETTON (1986, 1996 – 1997)

Berger na Ferrari em 1994

Um dos pilotos mais simpáticos do grid nos anos 80 e 90, Gerhard Berger é o único da lista que já teve duas passagens por mais de uma equipe. Piloto velocíssimo e um tanto quanto irregular, o austríaco era uma das atrações da Fórmula 1 em seu tempo. Se faltaram resultados, sobraram cordialidades e amizades. Sua personalidade lhe ajudou a manter uma boa relação com todas as equipes pelas quais passou e duas delas até aceitaram readmiti-lo.

Poucos se lembram disso, mas Berger já teve duas passagens pela Benetton. Em 1986, ele ainda era apenas um piloto jovem e promissor e a equipe estava apenas começando. O pacote não era tão eficiente em pistas lentas, mas voava em pistas velozes. Berger passou muito perto da vitória em Österreichring, o circuito de seu país, mas ela veio mesmo em Hermanos Rodriguez, penúltima etapa do campeonato. Após esta ótima temporada, a Ferrari se mostrou interessada em seus serviços e o contratou em novembro. Falo da Ferrari depois.

Sua segunda passagem pela Benetton aconteceu em 1996, quando ele tinha acabado de sair… da Ferrari. Berger, já velho e muito experiente, pegaria o carro que tinha acabado de ser campeão com Michael Schumacher. Infelizmente, a equipe não conseguiu manter a mesma forma. Hockenheim foi uma pista onde ele teve os melhores momentos: liderou boa parte da corrida de 1996 até o motor quebrar; no ano seguinte, fez uma pole-position histórica e venceu a corrida de ponta a ponta. Não foi uma grande passagem, mas todos ficaram com saudades.

Na Ferrari, Berger teve altos e baixos. Em 1987, sofreu com um carro insuficiente no início do ano. Mas a equipe deu a volta por cima e o austríaco conseguiu vencer as duas últimas etapas. Em 1988, assistiu impotente ao domínio da McLaren. Restou a ele vencer a única corrida que não foi engolida pela equipe de Ron Dennis, realizada justamente em Monza, casa da Ferrari.  Em 1989, sofreu o pior acidente da sua vida em Imola e abandonou outras doze corridas. Só terminou três, venceu uma delas e chegou em segundo nas outras duas. Não foi ruim, mas poderia ter sido melhor.

Seu retorno à Ferrari ocorreu em 1993 e foi até mais irregular que o primeiro. 1993 foi desastroso e apenas um pódio foi obtido. 1994 foi bem melhor, Berger venceu uma em Hockenheim e fez a pole-position em Estoril. 1995 foi mais ou menos e o máximo que foi obtido foi uma pole-position na pista molhada de Spa-Francorchamps, além de seis terceiros lugares. Apesar de todas estas tormentas, as passagens de Gerhard Berger pela Benetton e pela Ferrari foram memoráveis. Tanto para ele como para as equipes.

2- PIERLUIGI MARTINI E MINARDI (1985, 1988 – 1991, 1993 – 1995)

Martini em 1985

Uma história de fidelidade entre uma equipe pequena e um piloto não deixa de ser muito legal. A Minardi, uma das equipes mais simpáticas e obstinadas que já existiu, foi conhecida por muito tempo por abrigar o baixinho Pierluigi Martini, um desses pilotos que nós temos certeza de que conseguiria fazer muito mais se tivesse corrido em uma equipe de ponta.

A história de Pierluigi Martini na Minardi começa lá nos anos 70, quando seu tio Giancarlo competiu pela equipe Everest, um projeto do seu xará Giancarlo Minardi, na Fórmula 2 e em campeonatos menos relevantes. Em 1985, as boas recomendações do tio ajudaram a colocar Pierluigi, o campeão da Fórmula 3 européia em 1983, na Minardi, que estava estreando na Fórmula 1. A primeira temporada foi muito ruim, o carro era péssimo e o piloto cometeu vários erros. Era melhor para a Minardi investir em alguém mais experiente, e era melhor para Martini ficar lá na Fórmula 3000 um pouco para esfriar a cabeça.

Após seu ótimo desempenho na Fórmula 3000, a Minardi quis trazer Martini de volta à Fórmula 1 para correr no lugar do medíocre Adrian Campos. E logo em sua primeira corrida pela equipe, Martini conseguiu fazer o primeiro ponto de sua história. Não tinha como deixar ir um cara desses ir embora. E Pierluigi permaneceu na equipe até o fim de 1991. Nesse período, marcou 12 pontos, liderou a única volta da história da equipe (40ª volta do GP de Portugal de 1989) e conseguiu uma sensacional primeira fila no GP dos EUA de 1990. Martini sabia que era um puta piloto. Para 1992, achou melhor ir para a Dallara, que parecia ter mais potencial.

Mas a idéia deu errado e, em 1993, Martini se viu sem carro para iniciar o campeonato. Para sua sorte, Fabrizio Barbazza não tinha dinheiro para fazer um ano completo e acabou deixando a Fórmula 1 antes do GP da Inglaterra. Em seu lugar, veio Pierluigi Martini. E não é que tudo isso aconteceu na Minardi? Martini ficou por lá até o fim do ano e correu também em 1994 e em 1995. Os tempos eram outros e, mais pobre, a Minardi não conseguia fazer carros sequer razoáveis. Pierluigi ainda fez muito ao marcar quatro pontos em 1994, mas não começou bem o ano de 1995 e acabou saindo após o GP da Alemanha. Se sua vida na Minardi terminava ali, não havia motivo para prosseguir na Fórmula 1.

1- PIERCARLO GHINZANI E OSELLA (1981, 1983 – 1985, 1986, 1989)

Ghinzani em 1984

Moda nesta seção é colocar em primeiro lugar um cara que nunca foi primeiro lugar nem em fila de posto de saúde. Mas este merece o primeiro lugar de hoje e muito. Não me lembro de um piloto que teve quatro passagens em uma equipe. Isso mesmo, quatro! E este é Piercarlo Ghinzani, piloto italiano que passou o sufoco de ter de correr pela miserável Osella em quatro ocasiões. Se Minardi é Martini, Osella é Ghinzani.

A estréia de Ghinzani na Osella aconteceu no GP da Bélgica de 1981. Naquela ocasião, Enzo Osella precisava substituir Miguel Angel Guerra, lesionado. Inicialmente, tentou Giorgio Francia, mas este teve problemas com sua superlicença e não pôde correr. Restou a Enzo optar por Ghinzani, um piloto experiente da Fórmula 2 e do Mundial de Protótipos. O carro não prestava e Piercarlo só conseguiu largar em uma das duas corridas que fez pela equipe.

Em 1983, ele foi chamado para fazer uma temporada completa pela equipe italiana. A Osella começaria o ano com motores Ford, mas mudaria no meio da temporada para os Alfa Romeo. O que não mudou foi a falta absoluta de resultados: oito não-qualificações, seis abandonos e apenas uma corrida, a da Áustria, terminada. A situação melhorou um pouco em 1984, e Ghinzani até marcou dois pontos em Dallas, um milagre. Em 1985, Enzo Osella até admitiu que Piercarlo Ghinzani só estava na equipe porque não havia ninguém disposto a pagar para correr lá. Tudo indicava que a carreira dele estacionaria lá, mas eis que a Toleman o convida para fazer as últimas corridas da temporada pela equipe. A diferença entre os carros é gritante, mas mesmo assim Ghinzani não consegue fazer nada e é obrigado a retornar à Osella em 1986.

Por incrível que pareça, o carro ainda é o mesmo de 1984. Os resultados, porém, remetem a 1983 e Ghinzani só termina uma corrida, novamente a da Áustria. Em 1987 e 1988, o italiano deu um salto de qualidade ao competir na decadente Ligier e na Zakspeed. Sem resultados, velho e sem um grande patrocinador, restava a Piercarlo Ghinzani retornar à Osella pela terceira vez, em 1989. Por incrível que pareça, o Osella FA1M89 daquele ano não era um carro tão ruim. O triste da situação é que havia outros 38 adversários e ele foi obrigado a passar pela temida pré-classificação. Ainda assim, ele conseguiu largar em três corridas e não terminou nenhuma delas. Seu último fim de semana na Fórmula 1, em Adelaide, até foi comovente. Após conseguir se classificar para a corrida, Ghinzani fez uma enorme festa nos boxes da Osella. Infelizmente, sua corrida acabou após um perigoso acidente com Nelson Piquet na pista encharcada. Só podia ter terminado assim a passagem dele pela combalida equipe carcamana.

E a passagem do Calendário do Verde pelo país do Double Whopper, do Ford Taurus e do Weezer não acabou em Daytona. Fretamos todos um avião da United Airlines, que agora se fundiu com a Continental, e voamos por mais de quatro mil quilômetros até desembarcarmos na Califórnia. Ah, a Califórnia, o Rio de Janeiro yankee. Sol, praia, gente bonita e endinheirada, coqueiros e muitos latinos. Para o automobilismo americano, a Califórnia só perde em importância para os estados de Indiana (sede da Indy 500 e da Indy) e da Carolina do Norte (sede da NASCAR). Explica-se: boa parte das pistas mais famosas do país está localizada por lá. Temos Long Beach, Riverside, Willow Springs, Fontana, Infineon e Laguna Seca, o tema do post de hoje.

Laguna Seca é um dos circuitos mistos mais conhecidos e celebrados dos Estados Unidos. Nos dias atuais, sedia corridas da MotoGP, do ALMS e do Rolex Sports Car Series. Já sediou corridas da CART/ChampCar por mais de vinte anos, além da Superbike e da A1 GP. Até mesmo a Fórmula 1 já se interessou em tê-la em seu calendário, em 1989. O projeto não foi adiante pelo fato da FISA considerar que a pista, com pouco mais de 3,5 quilômetros de extensão, não era extensa o suficiente para a categoria. No entanto, a Toyota levou para lá seu TF106 em agosto de 2006 para que Ricardo Zonta desse algumas voltas por lá. Zonta não precisou de muito tempo para fazer 1m06s039 e, assim, estabelecer o recorde da pista. No ano seguinte, Sebastien Bourdais e seu Panoz-Cosworth da ChampCar derrubou este tempo em dois décimos. Infelizmente, nenhuma categoria de monopostos de relevância realiza corridas por lá. Mas a magia de Laguna Seca permanece.

A história do circuito de Laguna Seca se inicia em 1950 com a realização da primeira corrida de rua de Pebble Beach, distrito da cidade californiana de Monterey. A corrida de Pebble Beach era realizada com carros-esporte em um traçado de cerca de três quilômetros. Sucesso de público, a prova era marcada pelo fato da pista contemplar diferentes tipos de pavimentação (asfalto, terra e cascalhos) e por ser inacreditavelmente tranquila e sem acidentes. Em 1956, no entanto, Ernie McAfee escapou da pista com sua Ferrari e se esborrachou em uma árvore, morrendo na hora. Os organizadores da corrida concluíram que era necessário ter um local adequado para realizá-la. Um circuito consolidado, para ser mais preciso.

Alguns empresários se uniram ao projeto e entraram com um milhão e meio de dólares. Com a grana, que soa como esmola nos tempos atuais de Abu Dhabi e South Jeolla, a turma comprou um espaço no rancho Laguna Seca, fazenda com mais de 100 anos de história utilizada para pecuária, e começaram a construir o circuito que receberia o nome do tal rancho. E Laguna Seca foi inaugurado em 9 de novembro de 1957. A primeira corrida, realizada com os mesmos carros-esporte das provas de Pebble Beach, foi vencida por Pete Lovely, que chegou a fazer 11 corridas na Fórmula 1 entre 1959 e 1971.

Rapidamente, o circuito caiu no gosto do povo e fins de semana sem corrida por lá eram bem raros. Porém, os organizadores queriam vôos mais altos. A primeira mudança de expressão aconteceu em 1988, quando o pessoal da FISA e da FIM (Federação Internacional do Motociclismo) fizeram uma listinha cheia de exigências para o caso da pista querer receber corridas de porte internacional. Deste modo, novas áreas de escape, arquibancadas e passagens para os espectadores foram criados. E o traçado, que era curto, muito veloz e pouco seletivo, ganhou um trecho misto relevante.

O traçado atual surgiu em 1996, quando ampliaram a reta dos boxes e esticaram a reta que liga as curvas 10 e 11. Essa mudança serviu para aumentar um pouco o traçado, que, mesmo assim, continuou pequeno. Mas Laguna Seca não deixa de ser uma das melhores pistas americanas por causa disso.

TRAÇADO E ETC.


Eu gosto muito de traçados extremamente velozes, extremamente lentos, extremamente grandes ou extremamente qualquer coisa. No entanto, Laguna Seca não é extremamente nada. A velocidade média batia na casa dos 190 km/h nos tempos mais áureos da CART, nada muito impressionante. O traçado, com 3,563 quilômetros de extensão e 11 curvas, não chama a atenção por ter curvões velocíssimos, retões intermináveis ou desafios quaisquer. O circuito é um verdadeiro arroz com feijão. Mas é o arroz com feijão mais bem executado que você já comeu na sua vida.

É difícil caracterizar Laguna Seca. Eu diria que é estritamente uma pista de média velocidade com trechos de alta velocidade e algumas curvas mais lentas. O circuito chama a atenção pelas áreas de escape amarronzadas, pelos muros baixos sempre próximos ao asfalto e pela mudança de relevo sempre presente. É um local que exige do carro muito torque, alta capacidade de frenagem e uma persistente paciência para as trocas de marcha, que acontecem quase que o tempo inteiro. As ultrapassagens não são tão fáceis, já que as retas são meios estreitas. O curioso, todavia, é que as curvas não são tão estreitas assim. Dá para ter dois carros lado a lado sem grandes dificuldades.

Todos falam que Barcelona é a melhor pista para testes, pois testa o carro em todos os sentidos. Eu discordo. Se há um circuito que consegue ser intermediário em tudo sem ser ordinário e sem perder a emoção, este é Laguna Seca. Pré-temporada na Califórnia já!

Conheça agora seus trechos:

1: Na teoria, é a primeira curva do circuito. Na prática, é uma continuação da reta dos boxes. O trecho, um dos mais velozes do circuito, é um ponto no qual o piloto tenta grudar na traseira do adversário para ultrapassar na curva 2. Como este trecho não é muito largo e os muros estão próximos da pista, não dá pra variar muito a linha de percurso. Logo após a curva, inicia-se uma enorme área de escape no lado direito.

2: Sequência de duas curvas feitas à esquerda, formando um grampo de 180°. A primeira delas, em declive, obriga o carro a frear um pouco e a passar por cima da zebra, que não é muito alta, para não perder muito tempo. Tendo completada esta curva, o piloto mantém o volante esterçado para a esquerda e reacelera, passando por cima da zebra e completando a segunda curva.

5: Curva de 90° feita à esquerda. É difícil classificá-la como veloz ou lenta. O piloto sai de uma reta de tamanho considerável e reduz cerca de três marchas ao se aproximar da curva. No entanto, ele não precisa frear muito, bastando tirar o pé, dar um pequeno toque no pedal do freio e deixar o freio-motor cuidar do resto. A redução de velocidade é suave e o piloto não tarda a acelerar ainda no meio da curva. A zebra baixa ajuda.

6: É uma versão mais veloz da curva 5. O piloto reduz apenas uma ou duas marchas, faz um movimento rápido com o volante à esquerda, passa por cima da chicane e reacelera rapidamente.

CORKSCREW: Sem dúvida nenhuma, a alma deste circuito. O “Saca Rolha” é um dos trechos mais temidos e complicados do automobilismo mundial. Gonzalo Rodriguez, o maior ídolo uruguaio do automobilismo, faleceu neste trecho em um acidente testando um Penske em 1999. O trecho é tão espetacular que inicio a explicação falando sobre alguns metros antes. Após a curva 6, o piloto entra em um trecho de subida íngreme de visão cega. Alguns metros à frente e o carro passa por uma pequena depressão que o faz “aterrissar”. Em seguida, mais um pouco de subida cega à frente. A partir deste momento, o piloto começa a frear. Ele sabe o que terá à frente.

Após a subida, a pista se aplaina e a lendária curva aparece. Neste momento, o piloto já deverá estar em primeira marcha e a uma velocidade bastante baixa. Não adianta ele querer atrasar a freada: a velocidade terá de ser reduzida vários metros antes e, como a visão é cega, é impossível apontar o momento exato para começar a freada. A Corskcrew nada mais é do que uma sequência esquerda-direita feita em descida. O segundo trecho, à direita, é cego. Porém, como o piloto consegue enxergar a reta que se inicia logo à frente, ele sabe que poderá reacelerar. E manda o pé no acelerador.

9: Olhando no traçado, parece uma curva rápida, mas não é. Feita à esquerda em um ângulo bastante suave, demanda uma tirada de pé logo em seu início. Somente a partir da metade da curva é que o piloto poderá reacelerar novamente.

11: Corkscrew à parte, é a curva mais lenta do circuito. É um grampo feito à direita em um ângulo de 90º.

Nestes 60 anos de Fórmula 1, o Brasil teve 30 pilotos inscritos para ao menos uma corrida. Comparados aos 155 pilotos do Reino Unido ou os 97 da Itália, o número não soa expressivo. No entanto, estes 30 indivíduos foram o suficiente para trazer à pátria do canarinho oito títulos de construtores, 101 vitórias e 125 poles-positions. Em termos relativos, é o país de maior sucesso na Fórmula 1. Mas é evidente que este sucesso veio devido a nomes como Emerson Fittipaldi, José Carlos Pace, Nelson Piquet, Ayrton Senna, Rubens Barrichello e Felipe Massa. Há pilotos que não contribuíram com nem um pontinho no nosso montante. O que não quer dizer picas.

Um destes pilotos é um sujeito chamado Ricardo Rosset. O nome é familiar para quem acompanhava a Fórmula 1 na segunda metade dos anos 90. Rosset foi piloto da categoria entre 1996 e 1998. Passou pela Arrows, pela Mastercard Lola e pela Tyrrell. Saiu da mesma maneira que entrou: sem vitórias, sem pontos e sem boas lembranças do seu período na categoria. Numericamente falando, sua passagem foi igual a de dezenas de outros pilotos que só fizeram figuração. No entanto, muitos se lembram dele como alguém desastrado, lento e simplesmente incapaz de dirigir um carro de Fórmula 1 competitivamente. Mas será que ele era assim mesmo?

Não, não era. Ontem, assisti àquele programa da SporTV que mistura pilotos de corrida e esportistas de outras modalidades, o Linha de Chegada. Os convidados eram Rosset e a velocista Maurren Maggi. Por uma hora, Ricardo se lembrou de algumas de suas agruras na tal da Fórmula 1 e comentou sobre sua aposentadoria precoce do automobilismo, no fim de 1998. Hoje, aos 42 anos, ele pilota um Porsche no campeonato GT3 Cup Brasil e é o líder da competição com três vitórias e 168 pontos. Nada mal para alguém desastrado, lento e incapaz. Além disso, ele comanda a Track & Field, uma grife esportiva com lojas espalhadas ao redor do país.

Ricardo, filho do empresário Ivo Rosset, estreou no kart aos 21 anos, idade avançadíssima para os padrões de um aspirante a piloto de F1. Teve um começo irregular, mas bastante promissor. Venceu três corridas em sua primeira temporada nos monopostos, na Fórmula Ford brasileira em 1991. Na Fórmula 3 inglesa, teve momentos difíceis em 1993 ao pilotar um Ralt que era até um segundo mais lento que os Reynard. Em conjunto com sua equipe, tomou a arriscadíssima decisão de trocar o chassi no meio da temporada por um Dallara, que era inédito naquele campeonato. O risco valeu a pena e Rosset se recuperou de tal modo que conseguiu ainda um 6º lugar naquele ano.

Rosset na Fórmula 3000: nas categorias menores, ele estava no topo

Em 1994, ele se manteve na categoria e venceu de maneira assustadora a primeira corrida, realizada em Snetterton. No entanto, o ano era de Jan Magnussen e Rosset não venceu mais, terminando em 5º. Em 1995, ele conseguiu uma vaga na Supernova para correr na Fórmula 3000. Logo de cara, venceu duas corridas (Barcelona e Enna-Pergusa) e se sagrou vice-campeão. Apesar de ter perdido o título para seu companheiro Vincenzo Sospiri, o Motoring News elegeu Rosset como o melhor piloto da categoria em 1995. Bateu gente como Sospiri, Allan McNish, Tarso Marques, Marc Goossens, Emmanuel Clerico e Kenny Brack. Um péssimo piloto, evidentemente.

Mesmo com o vice-campeonato na F3000, as coisas não estavam fáceis na Fórmula 1. Em 1996, haveria apenas 22 carros no grid e a maioria das vagas já haviam sido preenchidas no decorrer do ano anterior. Nem mesmo Vincenzo Sospiri, o campeão da categoria, conseguiu uma vaga como titular. Para Rosset, os 4 milhões de dólares vindos da Track & Field, Lycra, Parmalat e Lectra Systèmes o ajudaram a vislumbrar uma vaga nas fracas Arrows e Minardi. Não havia opção melhor no mercado, então restou ao judeu da Barra Funda escolher a Arrows. Por mais desfavorável que uma escolha deste tipo fosse (a mídia inglesa chegou a dizer que o contrato valia apenas por 10 corridas), qualquer coisa era melhor do que andar na Minardi.

Não vou me estender muito sobre sua carreira na Fórmula 1, até porque os resultados foram absolutamente minguados. Falo, sim, sobre as equipes pelas quais ele correu. A Arrows era uma bomba em 1996. Paupérrima, dependia dos dólares de Rosset e do holandês Jos Verstappen para sobreviver. O FA17, carro utilizado naquele ano, não passava de uma atualização do carro do ano anterior com mudanças maiores na parte dianteira. Até mesmo o motor era exatamente o mesmo utilizado em 1995, o Hart V8 modelo 830, mais fraco até que o Cosworth da Minardi e da Forti-Corse. Apenas duas sessões de testes foram realizadas, em Silverstone e no Estoril. Na pista inglesa, Ricardo conseguiu em cinco voltas um tempo que Verstappen havia demorado bem mais tempo para conseguir. Mesmo assim, todos sabiam que o holandês seria o primeiro piloto devido a sua experiência e restava a Rosset aprender.

Mas é difícil aprender em um ambiente bagunçado como o da Arrows. Em Março, o fanfarrão Tom Walkinshaw adquiriu os 40% que pertenciam a Alan Rees e colocou um amigo seu, Peter Darnbrough, para controlar como laranja os 11% restantes que também pertenciam a Rees. Na prática, Walkinshaw passou a ser o manda-chuva da equipe. A partir daí, o clima degringolou de vez. O outro sócio, Jackie Oliver, não concordava com boa parte das decisões tomadas pelo novo dono, que tinha planos ambiciosos para 1997 enquanto cagava e andava para 1996. Deste modo, muito pouco foi desenvolvido pela equipe durante aquele ano. Rosset somou apenas três dias de testes naquela temporada e faltavam até mesmo peças sobressalentes. Em Mônaco, ele só dispunha de um bico reserva. Se batesse em algum treino, o fim de semana acabava. Diante disso, até que sua temporada não foi tão ruim. Conseguiu terminar oito corridas, uma delas em 8º, e apesar de ter terminado atrás de Verstappen nas tabelas, terminou o ano com dignidade. Mal sabia ele que 1996 seria seu melhor ano.

Rosset na Arrows: equipe desorganizada, carro velho e todos pensando apenas em 1997

Em 1997, veio o sonho da Lola. A equipe inglesa, comandada por Eric Broadley, vinha com planos absolutamente ambiciosos a médio prazo. Associou-se com o gigante dos cartões de crédito Mastercard, que patrocinava a equipe por meio de um interessante sistema de absorção de lucros por adesões de novos clientes. Com isso, a Lola previa dispor de um orçamento de cerca de 30 milhões de dólares, algo próximo da também novata Stewart. Uma nova fábrica em Huntingdon, cinco chassis e 15 motores Cosworth V8 estavam prontos até o começo de 1997 e havia muita esperança. Nos planos da equipe, havia até mesmo o desenvolvimento de um motor V10 próprio para o ano seguinte. Só havia um pequeno problema: a falta absoluta de tempo. A Mastercard exigiu que a Lola, que queria estrear em 1998, adiantasse em um ano sua entrada na Fórmula 1. Como a exigência veio no final de 1996, a Lola teve de correr no desenvolvimento de seu carro. Para isso, até mesmo conceitos dos carros da CART tiveram de ser copiados. E quem tem pressa come cru, já dizia o sábio.

A Lola fez apenas um shakedown em Silverstone e tanto Rosset quanto Vincenzo Sospiri concluíram que o T97/30 era um pesadelo. O câmbio do carro simplesmente não funcionava e simplesmente não havia pressão aerodinâmica nenhuma. Mesmo assim, tiveram de embarcar para Melbourne para a primeira corrida da temporada de 1997. Não havia a esperança de qualificação, mas ninguém imaginava que o negócio fosse tão ruim assim.

Rosset deu apenas 28 voltas no circuito australiano e marcou na sexta-feira 1m41s166 como o melhor tempo, dois décimos mais lento que o 1m40s972 feito por Sospiri no sábado e mastodônticos 11s8 atrás do Williams de Jacques Villeneuve. Além disso, o brasileiro sofreu uma rodada em uma das sessões e chegou a tocar de leve o muro. Ficou a 40 dias e 40 noites dos 107%. Sem maiores expectativas, voou para o Brasil para a segunda corrida. No entanto, dias antes, a Mastercard cancelou o patrocínio. O vexame, indiretamente causado pela própria empresa, havia sido gigantesco e não compensava financiá-la. Acabava aí a história da Lola.

Vamos para a Tyrrell, a última equipe de Rosset. O brasileiro entrou na equipe graças aos cinco milhões de dólares de sua enorme carteira e às boas recomendações da Reynard, uma das partes que formavam a sociedade que assumiu o controle da equipe de Ken Tyrrell no início de 1998. Vale lembrar que Ken não queria o brasileiro. Para ele, era melhor ter Jos Verstappen, Norberto Fontana, Jean-Christophe Boullion, Tom Kristensen, Faustão ou Stephen Hawking. Como a exigência da Reynard falou mais alto, Rosset entrou na equipe pela mesma porta pela qual Ken Tyrrell saiu. Até aí, tudo bem. Mas havia um outro problema: Toranosuke Takagi.

Rosset na Lola: carro péssimo e patrocinador filho da puta

O japonês, na época com 24 anos, um título na Fórmula Nippon e uma expectativa enorme empurrada pela mídia internacional, era o queridinho da equipe. Test-driver desde o ano anterior, conhecia os pormenores mais risíveis do carro e exibia no currículo uma boa quilometragem feita com a equipe. Rosset, por outro lado, só foi anunciado pela equipe em meados de fevereiro e perdeu a maioria dos testes da pré-temporada. Além do mais, como o lobby em prol de Takagi era muito grande, restaria ao brasileiro correr com os restos do já precário Tyrrell 026.

O 026 zero quilômetro já era um lixo de carro, e o carro de Rosset ainda reutilizava as peças do carro do japonês. Além do mais, este é um fato que muitos ignoram: Takagi era um piloto de muitas qualidades. Veloz, ele conseguiu largar em 13º logo em seu primeiro fim de semana na Fórmula 1. Rosset largou seis posições atrás e muitos começaram a ridicularizá-lo a partir daí. Conforme o ano passava, o brasileiro se sentia cada vez mais pressionado e tentava compensar a falta de velocidade do carro e a ausência de resultados com uma pilotagem cada vez mais agressiva. Esta mudança de comportamento resultou em uma série de erros e acidentes. Mônaco foi o ponto mais baixo: Ricardo rodopiou na curva da Piscina durante o treino oficial e, ao tentar voltar, acelerou demais e bateu no guard-rail. Além disso, ele se envolveu em um acidente com Jacques Villeneuve no dia anterior, e o canadense falou cobras e lagartos a seu respeito.

A situação só piorava na medida em que Takagi conseguia andar bem enquanto Rosset sequer conseguia largar em algumas corridas. A equipe visivelmente trabalhava contra ele: mecânicos e engenheiros faziam ajustes errados em seu carro e até mesmo os pneus recebiam calibragem errada. Diz a lenda que até mesmo uma brincadeira no mínimo imbecil foi feita contra ele: um mecânico da equipe inverteu a primeira e a última letra da palavra ROSSET naquela placa de avisos e formou TOSSER, que nada mais é do que “punheteiro” em nossa língua. Engraçadão, o cara. Para piorar, acidentes nas corridas de Hockenheim, Hungaroring e Spa-Francorchamps só minaram com sua já baixa auto-estima. Em Spa, muitos o criticam por ter feito um strike contra uns quatro ou cinco carros naquele engavetamento. Mas como Ricardo poderia fazer alguma coisa se a visibilidade era nula e os freios jamais funcionariam frios e em uma pista molhada?

A carreira de Rosset terminou no fim daquele ano. Muitos enchem a boca para apontá-lo como o pior piloto brasileiro de todos os tempos. Eu, no mínimo, lhe dou o benefício da dúvida. Na verdade, acho o cara um piloto bastante competente. Quanto ao pior piloto brasileiro, tenho outro nome em mente. Falo dele outro dia.

Rosset na Tyrrell: carro em pandarecos e descrédito da própria equipe

A única coisa que me irrita de verdade ao ver uma corrida é um grid pequeno. Já falei isso uma, duas, três, quatro vezes e não me furto em dizer novamente. Não me aborreço tanto com Flavio Briatore, Abu Dhabi ou Bernie Ecclestone como quando tenho a impressão de vazio ao ver um grid de largada. Há quem não ligue para isso, e estes são a maioria. Há até quem goste, preferindo ter um grid de 10 carros de ponta a um de 30 carros e 20 carroças, o que soa estranho em termos matemáticos, já que os 10 carros top continuam lá. É evidente que, na minha avaliação pouco democrática e respeitosa, são pessoas de notório mau gosto e índole duvidosa. Corrida de carro tem de ter bastante gente correndo e ponto final.

Como é de costume, a FIA pensa diferente de mim. Desde há cerca de dez anos, a entidade mantém a prática de limitar o número de inscrições. Na Fórmula 1, isso aconteceu devido a um pretenso desrespeito cometido pelas equipes Mastercard Lola, que abandonou a categoria após apenas uma corrida em 1997, e Honda, que havia se inscrito para correr em 2000 para desistir de tudo no instante seguinte.  Por um bom tempo, a categoria limitou seu grid a 24 carros. No ano passado, Max Mosley resolveu que 24 era um número insuficiente e pouco másculo e decidiu aumentar o grid em drásticos, espetaculares e anarquistas dois carros. Convidou a todos para se inscreverem em uma seletiva e os três melhores projetos se uniriam às dez equipes correntes, totalizando 26 carros. O otário aqui ficou feliz. “Oba, finalmente um número decente de inscritos!”.

Uma notícia tão boa assim não tinha cara de que daria certo, e de fato não deu. Nenhuma das três equipes escolhidas acabou alinhando no GP do Bahrein de 2010 da maneira que vieram ao mundo. Duas mudaram de dono, uma desistiu pateticamente e a melhor novata é uma que só foi chamada em setembro. As três equipes estreantes estão muito atrasadas em relação ao resto do grid, o que gerou desconfiança e desdém de jornalistas, torcedores e convivas. Na semana passada, a FIA anunciou que tudo continuaria do jeito que está e não haveria 13ª equipe em 2011. E seguimos com 24 carros.

Você já sabe de tudo isso. Você já está careca de ler sobre isso, principalmente aqui. Começo aqui o tema do post de hoje. Tenho uma suspeita sobre o fato da FIA não ter preenchido a 13ª vaga. Essa suspeita também responderia o motivo pelo qual a Fórmula 1 nunca tenha preenchido a 12ª vaga no período em que o limite era de 24 carros. É o que eu chamaria de “vaga estratégica”.

Grid com 26 carros como esse? Sonha…

Em poucas palavras, a teoria diz que a FIA mente quando diz que eliminou as três candidatas, Epsilon Euskadi, Stefan e Villeneuve, por critérios técnicos. Isso soa estúpido de tão óbvio. Ela também não considera o aspecto financeiro. A questão é unicamente política e geopolítica. Unicamente. Diria eu que se Epsilon Euskadi, Stefan, Villeneuve e Mao Tse-Tung Racing tivessem concorrido à vaga, teríamos 13ª equipe em 2011.

A FIA e Bernie Ecclestone não fazem absolutamente nada de graça. E nem para agradar torcedores e fãs do automobilismo. A participação de cada equipe no mundial é condicionada a uma série de fatores que escapam de questões financeiras ou técnicas. Dou um exemplo: em 1989, a First Racing foi impedida de entrar na Fórmula 1. O motivo seria uma briga entre Bernie Ecclestone e Lamberto Leoni, dono da equipe. Bernie deu um jeito de barrar a equipe alegando o fato do carro não ter sido aprovado em crash-test. O mais engraçado é que, no ano seguinte, o mesmo carro da First foi reutilizado pela novata Life e não teve maiores problemas para participar da categoria em 1990. Bernie não quis saber de Leoni na Fórmula 1 nem pintado de ouro. Acredito eu que David Richards, o incansável dono da Prodrive, também não consegue entrar na Fórmula 1 por motivo semelhante.

A 13ª vaga não será ocupada por ninguém até que apareça alguém adequado politicamente e geopoliticamente. Queira ou não, nenhuma das três candidatas deste ano soava interessante nesse sentido. A Epsilon Euskadi, por sinal, representava um problemão geopolítico por exaltar o orgulho basco, algo que se choca de frente com a Espanha do vice-presidente da FIA Carlos Gracia. A Stefan é sérvia, absolutamente irrelevante. E a Villeneuve/Durango é só mais uma. Imagino eu que deve ter sido a favorita pelo fato de carregar o nome do ex-campeão canadense, mas não tinha nada além disso. O que a Fórmula 1 quer é ter uma equipe de alguma região interessante (China, Índia, Rússia, Brasil, Oriente Médio) ou uma grande montadora ocupando essa vaga.

Analisemos, por exemplo, as equipes escolhidas no ano passado. A USF1 era americana, e a categoria sempre sonhou em ter um bom relacionamento com os yankees. A Campos, espanhola, agradaria e muito o país que mais cresce no esporte mundial e uma das vedetes da economia européia naquele momento. A Lotus chamava a atenção por carregar um nome histórico e por ser malaia. A Manor não tinha atrativo nenhum, mas a amizade de Max Mosley com Nick Wirth se sobressaiu. Max Mosley, por sinal, foi um fator muito importante.

First: em uma F1 onde todo mundo estava entrando, ela não conseguiu porque seu chefe brigou com Bernie Ecclestone

Mosley é um notório filho da mãe, responsável pela decadência geral das categorias sancionadas pela FIA nos anos 90. Sujeito vingativo e personalista, tomava decisões arbitrariamente e era facilmente manipulado por amigos ou pelo contexto momentâneo. Em 1994, ele permitiu que a Simtek, equipe do mesmo Nick Wirth, participasse da Fórmula 1 sem grandes dificuldades. O resultado foi aquele: uma morte na terceira corrida (Roland Ratzenberger) e uma quase morte duas corridas depois (Andrea Montermini). Nunca foi a favor das equipes pequenas ou do espírito esportivo, mas decidiu mudar de lado no ano passado, quando percebeu que sua amizade com Bernie Ecclestone ia de mal a pior e as equipes, por intermédio da FOTA, se opunham cada vez mais às suas decisões.  A solução foi trazer novas equipes que pudessem apoiá-lo politicamente. Quase deu certo.

Se você ainda não está convencido, pensemos em outros casos. A Super Aguri é uma história interessante. A equipe do tio Aguri nunca foi bem-vinda à categoria e sequer constava na primeira lista de equipes inscritas para 2006. Aguri Suzuki pegou a 11ª vaga à fórceps, mas pare pra pensar: naquele instante, apenas 10 equipes competiam. Era um momento no qual a possibilidade maior era de ter uma queda ainda maior no número de equipes e havia poucos interessados. Como havia duas vagas disponíveis para equipes, não custava nada deixar o cara entrar. Afastava momentaneamente o temor de uma queda no número de inscritos e ainda deixava a tal “vaga estratégica” disponível. Além do mais, era uma equipe apoiada pela Honda. A Super Aguri entrou em um momento propício. Tivesse ela desejado entrar no ano passado, tomaria um vigoroso não do sadomasô filho de nazista.

Lembro de outro caso, o de 2002. Este seria o único ano em que todas as 12 vagas disponíveis seriam ocupadas. A equipe agraciada com a vaga estratégica seria a Toyota, uma montadora gigante e ambiciosa vinda de um país rico e populoso. Não poderia haver concorrente melhor. Por outro lado, se um zé-mané quisesse ter sua equipe, sempre havia uma Prost, uma Minardi ou uma Arrows para serem adquiridas. No fim das contas, a Prost faliu e ficamos apenas com 11. Mas deu pra ver que os tapetes só são estendidos a quem interessa.

Resumindo e finalizando: nunca teremos 13ª equipe se as candidatas forem apenas equipes de corrida normais. A “vaga estratégica” é estratégica porque está destinada a uma possível Volkswagen, GM ou a algum milionário chinês. Se alguém mais quiser entrar, que se engrace com Toro Rosso, Virgin ou Hispania. Espero estar completamente errado e intelectualmente debilitado. Mas em uma Fórmula 1 onde é normal pagar 80 milhões de dólares a uma certa equipe carcamana e atropelar leis para não punir certa equipe carcamana, toda paranóia é pouca.

Essa, sim, desembarcou e todo mundo gostou