Seis vitórias em dez etapas realizadas. Três vitórias consecutivas. Liderança com o mesmo número de pontos do companheiro Alain Prost, mas com a vantagem do maior número de vitórias. Aqueles dias de agosto de 1988 eram dignos do melhor dos seus sonhos para Ayrton Senna, o brasileiro que chutava todas as bundas necessárias para conquistar o tão sonhado primeiro título mundial. Senna desembarcava em Spa-Francorchamps confiante e tranqüilo, consciente de suas excelentes possibilidades na veloz pista belga. Foi lá que, três anos antes, o brasileiro havia obtido sua segunda vitória na categoria.

Só que o duelo interno entre Senna e Prost não era o assunto que corria à boca alheia na Bélgica. Exatas duas semanas antes, o mundo da velocidade se estarrecia com a morte de Enzo Ferrari, criador da famosa marca e o nome mais expressivo da história do automobilismo. O paddock ficou em luto. Os italianos se viram órfãos. Mas havia ainda uma corrida, afinal.

Na quinta-feira, todos foram surpreendidos com a ausência de Nigel Mansell. O inglês ainda se recuperava do sarampo que o obrigou a abandonar o Grande Prêmio da Hungria, realizado três semanas antes. Em seu lugar na Williams, entraria o piloto de testes Martin Brundle. Alheio aos problemas infectocontagiosos dos colegas, Ayrton Senna iniciou o fim de semana atrás de Prost. No primeiro treino livre de sexta-feira, ele ficou a apenas 156 milésimos do francês. Aquele foi, de longe, o seu pior momento na Bélgica.

À tarde, a McLaren conseguiu melhorar o acerto do carro e Senna veio muito melhor para o primeiro treino oficial. Com o tempo de 1m53s718, ele obteve a primeira posição com uma folga de mais de quatro décimos para Prost. Mesmo com o resultado, Ayrton não estava muito feliz. Em uma de suas voltas rápidas, teve de reduzir a velocidade porque o Coloni de Gabriele Tarquini havia parado em um lugar perigoso. Em outra volta, o AGS de Philippe Streiff não facilitou sua vida. Enquanto isso, sentindo a pressão de ter de obter um resultado bom para manter vivas suas chances de título, Prost cometia alguns pequenos erros. E se desesperava.

No dia seguinte, o sol deu espaço à chuva. Índice pluviométrico digno da linha do Equador. Nenhum entre os trinta participantes conseguiu melhorar seus tempos. No treino oficial, o estepe Martin Brundle fez o melhor tempo com uma volta 21 segundos mais lenta que a melhor volta de Senna. Enquanto isso, o brasileiro só utilizava o dia para encontrar um acerto versátil o suficiente para fazer o carro se comportar bem tanto no seco como no molhado. No treino livre de manhã, testou o carro reserva. No segundo treino oficial, voltou a usar o titular. Tudo correu dentro do esperado. Enquanto isso, Alain Prost só assistia ao trabalho dos colegas e reclamava do ceticismo alheio. “A Fórmula 1 se transformou em uma campanha psicológica! Eu vejo todo olhando para mim e pensando ‘puxa vida, está chovendo e ele não vai para a pista’”, bradou. Era nítida a diferença de estado de espírito entre um e outro.

No warm up, Senna finalizou os últimos preparativos para infernizar a vida de Prost na corrida. Enquanto o francês decidia utilizar menos aerofólio em seu MP4/4 para enfrentar menos arrasto e economizar um pouco de gasolina, o agressivo brasileiro preferia colocar mais asa para ter mais aderência e acelerar um pouco mais nas curvas. Os resultados desta última sessão deixaram claro quem é que estava certo: Ayrton fez 1m59s988 e Alain só conseguiu 2m00s459. Que doido colocaria suas fichas no narigudo com ares de derrotado?

O doido que fez isso não se deu bem por pouco, pelo menos na largada. Ayrton Senna patinou logo após a luz verde e acabou desenvolvendo menos velocidade que Alain Prost, que o ultrapassou por fora. Na La Source, o francês já estava totalmente à frente. Será que o carro 11 finalmente voltaria aos bons dias?

Não por muito tempo. Na Eau Rouge, sempre mais animado e menos prudente que o colega, Senna não tirou tanto o pé do acelerador, o que lhe permitiu se aproximar drasticamente de Prost na Radillon. O brasileiro pegou o vácuo e, em cálculo milimetricamente preciso, tomou a linha de dentro na entrada do retão Kemmel. Os dois bólidos com o indistinguível layout da Marlboro dividiram aquela enorme linha asfaltada lado a lado, mas Senna estava em uma posição muito mais privilegiada. Na Les Combes, ele só precisou frear uns três fios de cabelo depois para voltar à sua posição cativa: a liderança.

Naquelas primeiras voltas, Ayrton reencarnou Jim Clark, aquele que assustava os adversários com um ritmo frenético nas primeiras voltas e que venceu quatro corridas consecutivas em Spa-Francorchamps mesmo odiando correr por lá. No fim da primeira volta, ele já tinha 1s4 de diferença para Prost. Na segunda, a diferença era de 2s2. Na quinta volta, 3s3. Entre as voltas 4 e 7, o futuro tricampeão conseguiu fazer quatro voltas mais rápidas. Na volta 10, os dois McLaren já estavam separados em 4,1s. Enquanto Senna ia embora, Prost chegou a ser atacado por Gerhard Berger durante alguns momentos, mas o austríaco teve de ir aos pits precocemente para resolver alguns problemas elétricos.

Não era lá uma grande diferença em termos absolutos, mas não deixava de ser expressiva pelo fato dos dois carros serem praticamente iguais e por Prost já ter vencido duas vezes na longa pista belga. A partir da volta 10, o brasileiro reduziu um pouco o ritmo, mas não deixou de seguir abrindo vantagem para o companheiro.

Quem não gostava de Ayrton Senna, grupo não muito numeroso naqueles dias, bocejava e tentava reverter o tédio com café ou Coca-Cola. A transmissão televisiva, temendo perder os espectadores que não observavam muita ação, optava por mostrar as brigas lá no meio do pelotão dos que não dispunham de um MP4/4. E as brigas eram realmente boas: Alessandro Nannini deixou Nelson Piquet para trás após uma bela ultrapassagem na La Source, Ivan Capelli ultrapassou vários concorrentes com seu belo March e até mesmo o folclórico Satoru Nakajima andou durante um bom tempo à frente do badalado companheiro Piquet. Mas e daí? Como bem disse Thierry Boutsen, “somos apenas moldura para as artes da McLaren”.

As condições de pista se deterioravam devido às poças de óleo, mas Prost parecia se complicar ainda mais com as adversidades. A partir da volta 25, Senna começou a abrir mais de um segundo por volta para seu adversário. Sem sustos, o brasileiro só fazia seu trabalho, como um correto operário. Só esperava pelo fim de seu expediente – a bandeira quadriculada.

E ela veio após 43 longas e tediosas voltas. Ayrton Senna venceu Alain Prost por uma distância monstruosa de 30s470. Com aquela dobradinha, a oitava da dupla em onze provas, a McLaren conseguiu se sagrar campeã dos construtores com cinco provas de antecedência. Merecido. Enquanto isso, Senna assumia a liderança isolada no campeonato pela primeira vez no ano. Com três pontos e três vitórias de vantagem, o brasileiro parecia imbatível naquela fase final do campeonato.

“Parabéns, campeão!”. Foi o que um resignado Alain Prost disse ao companheiro no pódio. Mais tarde, na entrevista coletiva, o francês simplesmente jogou a toalha: “A verdade é que Ayrton está melhor do que eu nesse momento. A partir de agora, vou tentar ganhar todas as corridas restantes. Só que ele vai ser o campeão do mundo”. Senna tentava minimizar o domínio: “esta corrida foi menos difícil que a da Hungria, mas não foi moleza. Na verdade, qualquer corrida é difícil quando você tem de duelar contra Prost”. Balela. Ele sabia que estava fácil demais. E que o título era questão de tempo.

Na teoria.

Esta corrida aconteceu no dia 28 de agosto de 1988 e foi a última desta grande fase de Ayrton Senna naquele ano. Duas semanas depois, Senna perdeu a vitória no finalzinho do Grande Prêmio da Itália porque bateu em Jean-Louis Schlesser. Depois, esteve irreconhecível e perdeu resultados importantes no Estoril e em Jerez. Só confirmou seu primeiro título mundial em Suzuka, no mês de novembro.

Mas por que falei desta corrida? Simples. Eu quase estraguei a temporada de Ayrton Senna. Fui o divisor de águas entre a boa e a péssima fase. Nasci na segunda-feira imediatamente anterior ao fatídico Grande Prêmio da Itália. Há exatos 23 anos, direto do Túnel do Tempo.

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