GP DA EUROPA: Deixa eu dizer uma coisa que não consigo entender nas mentes obscuras das pessoas por aí. Todo mundo elogia Long Beach, o circuito praieiro, guerreiro e californiano que realiza corridas de Fórmula Indy desde os anos 80. Aí vem o Hermann Tilke e cria um circuito parecido, com algumas curvas de alta velocidade, um miolo absurdamente travado e muros altos. E o povo, o mesmo povo que se delicia com Long Beach, reclama e diz que a pista valenciana é a maior bosta que o arquiteto alemão criou na vida e na morte. Para mim, é o mesmo raciocínio de quem diz não gostar do sertanejo universitário atual porque acha que Leandro e Leonardo e suas músicas choradas são melhores. Valência, o Michel Teló dos circuitos atuais, é injustiçado porque surgiu na época errada. O engraçado é que em 2008, primeiro ano de existência da pista espanhola, muita gente elogiou o traçado, incluindo aí Felipe Massa. Mas nada como um amontoado de corridas ruins para mudar a cabeça de todos, ainda que Spa-Francorchamps e Suzuka estejam entregando provas tão enfadonhas quanto. A situação financeira da Espanha também não ajuda. Neste ano, os organizadores disponibilizaram apenas 45 mil ingressos para a corrida, 20 mil a menos que no ano passado e 55 mil a menos que em 2008. Mesmo assim, apenas 38 mil foram adquiridos, a maior parte deles por estrangeiros em melhor saúde monetária. Sem contar com a simpatia dos fãs e a grana ilimitada do governo, Valência só voltará a aparecer no calendário revezando o GP da Espanha com o circuito de Barcelona. Isso se as coisas não piorarem ainda mais.

ALONSO: Uma das coisas que mais me impressionam em Fernando Alonso é a capacidade de comentar assuntos espinhosos com a maior naturalidade do planeta, extrapolando qualquer limite imaginável de cara-de-pau. Eu, que torço por ele desde 2001, não ligo para isso. Vejo nele uma mistura de Michael Schumacher com Alain Prost que consegue ser ainda mais descarada. Durante a coletiva de pilotos nesta sexta, o asturiano fez alguns comentários sobre como a Ferrari funciona. “Qualquer que seja o meu companheiro, não haverá problemas e nós trabalharemos com ele da mesma forma que fazemos hoje com Felipe”, afirmou acreditando piamente que um GP da Alemanha de 2010 acontece todo dia com todo piloto. Sobre Massa, ele fez outro comentário que transita entre o amigável e o desdenhoso: “ele não é um mau piloto, embora, olhando por fora, até possa parecer”. Puxa, como ele é legal. Um elogio destes me faria sair de casa com uma sacola na cabeça. Por fim, de maneira sutil, Alonso explicou qual é a sua real influência na hora da Ferrari escolher um segundo piloto: “no passado, isso não acontecia. Aqui na Ferrari, acontece. Eu apareço na Itália toda semana e me encontro com Stefano Domenicali de vez em quando. Nós falamos sobre o futuro da Fórmula 1, o desenvolvimento dos carros e o futuro dos meus companheiros de equipe”. É isso aí. Alonso manda e tem juízo quem obedece.

OITO: Jenson Button, Fernando Alonso, Nico Rosberg, Sebastian Vettel, Pastor Maldonado, Mark Webber e Lewis Hamilton. Falta mais alguém? Difícil dizer. Nunca antes na história desta Fórmula 1 houve uma temporada que teve sete vencedores diferentes nas sete primeiras corridas. Valência, neste próximo domingo, será a oitava corrida. É improvável que o recorde seja ampliado, pois não há mais ninguém que tem condições claras de vitória. Michael Schumacher já ganhou umas noventa vezes, mas anda tão azarado que é melhor apostar que uma horda de alienígenas bárbaros e assassinos invadirá a pista no caso dele estar liderando a última volta. Romain Grosjean poderia ser uma boa aposta, mas ninguém garante que ele esteja apto a sobreviver à quarta volta da corrida. Kimi Räikkönen é diletante e sossegado demais para isso. Sergio Pérez passou perto da vitória na Malásia, mas precisaria de um novo fim de semana genial e a permissão da Sauber para ganhar sua primeira corrida. Kamui Kobayashi vencendo seria o sonho de todos, mas isso infelizmente não acontecerá tão cedo. E Felipe Massa, infelizmente, não tem mais condições para ganhar alguma coisa. Aposto na vitória de Alonso, que se dá bem porque é mais esperto e cuzão que os demais.

TORO ROSSO: Ela não me surpreende mais. Na verdade, fiquei apenas assustado pelo clima ter azedado mais cedo do que eu imaginava. Nesses últimos dias, o caolho Helmut Marko não moderou a língua e destilou a primeira flecha contra o novato Jean-Eric Vergne: “ele é muito selvagem. Não há nada de errado em ser agressivo, mas a agressividade dele precisa ser controlada”. Marko é isso aí, um sujeito de visão pouco apurada que acha que pilotos bons são apenas aqueles que ganham com um Toro Rosso. Como Vergne não passou nem perto disso, a crítica mordaz dá as caras. É verdade que o francês anda precisando apertar um pouco mais o pedal do acelerador nos treinos oficiais, mas é igualmente verdadeira a incômoda lerdeza do STR7. E os dois pontos a mais que Jean-Eric possui a mais que Daniel Ricciardo também não são fictícios. Mas o ambiente definitivamente pesou. O próprio Ricciardo já andou alfinetando o companheiro, dizendo que ele “anda bem em corridas porque tem pneus novos para gastar, já que ele não os usa nos treinos”, ironia referente ao fato de Vergne sempre sobrar no Q1. A guerra entre os dois moleques está a um pavio de ser iniciada, para deleite sádico do pouco visionário Helmut Marko.

COSWORTH: Fico triste a cada ocasião em que um resquício do passado fica definitivamente para trás. Algumas coisas deveriam ser proibidas de decaírem. A Williams era uma delas. A Cosworth, inglória fornecedora de motores da Marussia e da HRT, é outra. Nesta semana, representantes de duas prováveis fornecedoras de motores a partir de 2014 demonstraram ceticismo acerca da permanência da fábrica fundada por Mike Costin e Keith Duckworth na Fórmula 1 a médio prazo. Um diretor da Renault, que poderá fornecer motores para até seis equipes em 2013, afirmou que “a Cosworth está acabada, pois não consegue fazer mais nada hoje em dia”. Como discordar? Outra voz pessimista foi a de Craig Pollock, o sujeito sempre honesto e idôneo que lidera o projeto PURE, provável quarta fornecedora de motores a partir de 2014: “a Cosworth não possui capital tecnológico para permanecer na Fórmula 1. Ela é um dinossauro que poderá ser extinto em breve”. Difícil apontar qualquer tipo de maldade pura nas declarações acima. Infelizmente, a Fórmula 1 não é uma coisa sustentável para ateliês mantidos unicamente pela paixão e pela tradição. Os dias de Jackie Stewart ganhando títulos a rodo com um DFV barato, confiável e veloz viraram lenda. O negócio é tomar um antiácido e tentar sorrir com a chegada da empresa de Blergh Pollock.

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