Nessa época de total escassez de assuntos para quem escreve sobre automobilismo, o negócio para nós, que gastamos dedos e teclado para contar historinhas, é botar a cabeça para funcionar e inventar pautas. O Top Cinq, que andava meio caído, coitado, estará de volta com tudo em 2013. E o de hoje falará sobre a única atividade importante nesses primeiros dias de janeiro no esporte a motor, o grandiloquente Rali Dacar (não, não me esqueci do Rali de Montecarlo, mas ele só irá ocorrer mais adiante).

Criado pelo falecido francês Thierry Sabine e realizado desde 1979, o Rali Dacar é uma das maiores insanidades jamais idealizadas pelo ser humano. Durante duas semanas, centenas de aventureiros malucos, dementes, suicidas, irresponsáveis e intrépidos conduzem motos, carros e caminhões por milhares de quilômetros de terras inóspitas rodeadas por belíssimas paisagens. Até 2007, a competição era feita no Deserto do Saara, mas problemas de segurança na Mauritânia em 2008 fizeram com que os organizadores fossem atrás de um lugar menos hardcore. Foi assim que, curiosamente, o Rali Dacar passou a ser realizado na América do Sul a partir de 2009.

Em mais de trinta anos de história, o rali consagrou alguns bons nomes, como o do francês Stéphane Peterhansel (hexacampeão nas motos e tetracampeão nos carros), do compatriota Cyril Despres (tetracampeão nas motos) e do russo Vladimir Chagin (heptacampeão nos caminhões). Mais do que fama ou dinheiro, esses daí estão atrás da satisfação pessoal de ser mais maluco, demente, suicida, irresponsável e intrépido que os demais, uma aspiração totalmente legítima para o gênero masculino.

De vez em quando, pilotos de outras categorias ou até mesmo pessoas de áreas que não têm nada a ver se interessam pelos encantos homicidas do Rali Dacar. Nas últimas edições, uma das presenças mais ilustres foi a do americano Robby Gordon, nome de tradição na antiga Indy e na NASCAR Sprint Cup. Outros que já se aventuraram na brincadeira foram o velejador brasileiro Amyr Klink, o filho da dama Mark Thatcher e o ex-vice-presidente de time da segunda divisão Paulo Nobre. Mas houve também bastante gente da Fórmula 1 que arriscou a vida no Rali Dacar. Alguns deles até se deram bem. O Top Cinq de hoje contará a história de cinco ex-pilotos da categoria maior do automobilismo que participaram de edições antigas do Rali Dacar.

5- HENRI PESCAROLO

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Na Fórmula 1, o francês Henri Pescarolo era apenas mais um. Mesmo tendo disputado 57 corridas em oito temporadas, o barbudo não conseguiu nada além de um pódio no GP de Mônaco de 1970 e uma volta mais rápida no GP da Itália de 1971. É bom que se diga, no entanto, que Pescarolo passou a maior parte do tempo pilotando carros indecentes como o BRM, o Williams e o Surtees. Sua carreira foi muito mais relevante, entretanto, em outros tipos de veículo.

Na Europa, Pescarolo é mais lembrado por ter sido um dos personagens mais marcantes da história das 24 Horas de Le Mans. Henri detém o recorde de participações na corrida: 33, entre 1966 e 1999. Quatro dessas participações (1972, 1973, 1974 e 1984) foram convertidas em vitórias, o que o coloca como um dos maiores vencedores da prova. Mas sua vida em quatro rodas não se resumiu a corridas de monopostos e protótipos.

O aventureiro Pescarolo, que gostava de disputar até mesmo corridas de avião, foi um dos primeiros pilotos profissionais de automobilismo a se meter no tal do Rali Dacar. Em 1980, ele foi convidado por Jean-François Piot para pilotar um Land Rover ao lado do engenheiro italiano Mauro Bellatriacia numa equipe patrocinada pelas motos Vespa, aquelas. No difícil traçado que ligava Paris a Dacar, capital do Senegal, Pescarolo conduziu seu jipe à 12ª posição entre os carros e à 44ª posição na geral.

A experiência foi bacana, mas Henri só retornou ao Rali Dacar em 1985. Acompanhado do compatriota Patrick Fourticq, ele não conseguiu levar seu Land Rover ao fim da prova. Dali em diante, Pescarolo faria mais seis edições no Rali Dacar. Sucesso? Infelizmente, não muito. Sua melhor posição foi um nono lugar no ano 2000 pilotando um Nissan. Em 2006, ano de sua última participação, o veterano francês largou com um SMG e abandonou na fase final da competição. O multicampeão de Le Mans infelizmente não tem muito para contar sobre sua empreitada nos desertos.

4- UKYO KATAYAMA

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Outro que gosta bastante de uma aventura é o japonês Ukyo Katayama, um dos pilotos mais folclóricos dos anos 90. Maldosamente conhecido como “Catagrama” pelos brasileiros, o baixinho de Tóquio disputou seis temporadas completas na Fórmula 1 tendo conseguido não mais do que cinco pontinhos em 1994. Nesse ano, diga-se, Katayama iniciou um longo tratamento contra um câncer localizado em suas costas que lhe causava muita dor e desconforto. Não dá para pilotar direito com um troço desses, é claro.

Eu diria que há boas semelhanças entre as carreiras de Katayama e Henri Pescarolo. Os dois tiveram uma carreira interessante nas categorias de base (Ukyo foi campeão da Fórmula 3000 japonesa em 1991), não puderam fazer muito na Fórmula 1, tiveram bem mais sucesso nas 24 Horas de Le Mans (o japonês foi segundo colocado com um Toyota em 1999) e eram conhecidos pela extrema coragem e disposição em se meter em esportes radicais. A maior paixão de Katayama é o alpinismo. Ele já escalou algumas das mais altas montanhas do mundo e até se viu em apuros numa escalada no Monte Fuji em 2009, quando dificuldades meteorológicas causaram a morte de seus dois colegas e por pouco não levaram nosso herói desta para melhor.

Além das histórias nas corridas em asfalto e nas montanhas, Ukyo Katayama também tem coisas para contar quando se fala em rali. Em 2002, o cara, que sobreviveu a uma quebra de pescoço num acidente na Fórmula 3, decidiu embarcar nesse negócio de Rali Dacar. Ligado à Toyota, Katayama descolou um Land Cruiser e se inscreveu para a edição daquele ano. E o japa não mandou mal, não. Chegou a andar em 39º, mas teve inúmeros problemas e acabou terminando 55 horas (!) atrás do vencedor Hiroshi Masuoka. “É mais difícil que as 24 Horas de Le Mans e a Fórmula 1”, afirmou.

No entanto, ele agradou e a Toyota o contratou como piloto oficial para a disputa da edição de 2003. Dali para frente e até 2009, Katayama disputou algumas edições sempre com carros da marca de seu país e sempre com performances razoáveis. A participação que mais chamou atenção foi a de 2007, quando Ukyo decidiu colocar na areia um inovador Land Cruiser movido a biodiesel produzido a partir do óleo de… tempurá! Isso mesmo: a tiazinha fazia um tempurá de legumes e dava o óleo a Katayama, que o colocava em seu carro. E a ideia funcionou bem. Ukyo completou a corrida em 68º.

3- CLAY REGAZZONI

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Esse, ao contrário de Ukyo Katayama e Henri Pescarolo, teve uma carreira bem mais profícua na Fórmula 1. Ídolo da Ferrari nos anos 70, o suíço Clay Regazzoni venceu cinco dos 139 GPs que disputou e perdeu o título de 1974 para Emerson Fittipaldi por apenas três pontos. Fora isso, Rega era conhecido pelo enorme bigode, pelo sucesso com as mulheres e principalmente pelo perigo que ele impunha aos demais competidores, que tinham o mais puro e sincero medo de dividir uma curva com ele.

Infelizmente, a carreira de Regazzoni terminou de forma abrupta e dura. No GP dos EUA-Oeste de 1980, seu Ensign ficou sem freios na Queen’s Hairpin e Clay bateu de frente num muro sem pneus a mais de 250km/h. Após vinte minutos preso nas ferragens, Regazzoni foi levado ao Hospital St. Mary com fraturas na coluna vertebral, numa perna e queimaduras no rosto. O suíço recuperou-se rapidamente em várias partes, mas suas pernas não apresentavam reação alguma. Passados alguns dias, o diagnóstico: Clay Regazzoni estava paralítico.

Muitos, após receber tal notícia, simplesmente desistiriam de tudo. O piloto de Lugano, no entanto, decidiu seguir adiante com o automobilismo. No início de 1981, Rega fez uma operação num hospital em Washington que recuperou parte do movimento de suas pernas e o permitiu andar, ainda que com muito sofrimento, com muletas. Mas a combatividade que sempre lhe caracterizou continuou viva. Ele brigou para conseguir uma indenização de 20 milhões de dólares dos organizadores do GP de Long Beach (perdeu) e para reconquistar a licença de piloto profissional (ganhou).

Tendo recuperado a licença, Clay decidiu voltar às competições oficiais. Em 1986, ele foi anunciado como um dos seis pilotos de uma equipe que utilizaria caminhões Iveco no Rali Dacar daquele ano. Caminhões? “Pensei que fosse mais confortável”, argumentaria Regazzoni em 1990. Seu Iveco era devidamente adaptado para um deficiente, com acionamento manual de acelerador e freio.

Clay gostou da aventura e decidiu disputar as duas edições seguintes com um caminhão Tatra. No final de 1988, Regazzoni decidiu abandonar esse negócio de correr de caminhão e aceitou um convite da Mercedes-Benz para disputar o Rali Dacar que começaria no Natal daquele ano. O suíço recebeu um possante jipe Mercedes 280 com motor V8 de 6 mil cilindradas e câmbio automático. A competição não foi lá grandes coisas: Clay capotou na etapa entre Labe e Tambacunda e abandonou. Antes disso, notabilizou-se por emprestar Durepox ao brasileiro Kleber Kolberg, que precisava tapar um buraco no tanque de sua moto.

Clay disputou o Rali Dacar até 1991. Depois, ocupou-se com eventos promocionais, programas de apoio a deficientes e programas de auxílio a novos pilotos franceses. Morreu em 2006. Dirigindo. É só assim que um cara como ele poderia falecer.

2- JACKY ICKX

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Jacky Ickx foi o maior piloto belga de todos os tempos. OK, essa designação não é lá muito precisa, já que os demais pilotos da Bélgica incluem gente como o discreto Thierry Boutsen e os discretíssimos Jérôme D’Ambrosio e Philippe Adams. É melhor dizer que Ickx foi um dos maiores pilotos de todos os tempos, e isso não é exagerado. Ele só não conseguiu um título de Fórmula 1, que quase virou realidade anos de 1969 e 1970.

Entretanto, o que lhe faltou na categoria maior sobrou nas demais. Ele foi o primeiro campeão da história da Fórmula 2, papou um título na Can-Am e simplesmente barbarizou nos protótipos, assinalando nada menos que seis vitórias nas 24 Horas de Le Mans. Apenas Tom Kristensen e seus oito triunfos fizeram melhor. Jacky Ickx poderia ter se aposentado satisfeito com suas conquistas no asfalto seco e molhado, mas ele queria mais.

Em 1981, Ickx se inscreveu para o Rali Dacar, na época um evento ainda pouco divulgado. Pilotando um Citroën CX 2.4 GTI, ele não conseguiu chegar ao fim, mas achou tudo muito legal. No ano seguinte, com um Mercedes 280, o resultado foi bem melhor: quinto lugar entre 233 competidores. E no ano seguinte?

Em 1983, Ickx voltou à competição com o mesmo carro, o Mercedes 280, e o mesmo copiloto dos outros anos, o ator francês Claude Brasseur. O belga superou sem grandes encrencas as dificuldades daquela edição, que incluíram uma violenta tempestade de areia que fez 40 competidores se perderem, e fez história ao ser o primeiro piloto já consagrado no automobilismo a vencer o Rali Dacar.

Nos três anos seguintes, Ickx dividiu um Porsche 953 com Brasseur e até passou perto da vitória, mas não conseguiu nada. Em 1984, Ickx começou a competição liderando alguns estágios, mas teve problemas elétricos e acabou terminando em sexto. Em 1985, Ickx não conseguiu completar o rali após seu Porsche ter problemas mais sérios. Em 1986, o belga terminou em segundo, sendo derrotado pelo outro Porsche de René Metge.

Em 1987 e 1988, Ickx correu pela mítica Lada e levou surras homéricas da concorrência. Insatisfeito, Jacky aceitou um convite para pilotar o Peugeot 405 na edição de 1989. O carro era muito bom e ele liderou o Rali Dacar do primeiro ao décimo primeiro estágio. Seu companheiro Ari Vatanen vinha logo atrás, a poucos minutos de distância. O ritmo dos dois era alucinante, insano.

Em determinado instante, Vatanen sofreu um violento acidente e deu sorte de sair ileso e de poder prosseguir na disputa. Para poupar a integridade de seus pilotos e carros, o chefe da Peugeot, um tal de Jean Todt, decidiu tomar uma atitude pra lá de bizarra. No intervalo após o décimo estágio, os dois pilotos, Ickx e Vatanen, foram chamados para decidir na moeda quem venceria o Rali Dacar de 1989. A moeda escolheu o piloto finlandês. E Ickx, que liderou quase toda a competição, teve de entregar a vitória de mão beijada ao colega no 12º estágio. Meritocracia pra quê?

Vatanen assumiu a liderança e… errou de novo! No penúltimo dia, o finlandês se embananou ao passar por uma vila e perdeu um temporal, o que acabou devolvendo a liderança a Jacky Ickx faltando um dia para o fim do Rali Dacar! Mas o belga teve de cumprir a ordem de equipe e, no melhor estilo Barrichello, parou seu Peugeot a estúpidos 50 metros da linha de chegada. Foi dessa forma aí que Ari Vatanen venceu pela segunda vez um Rali Dacar. Mais uma vez, Ickx brilhou e não levou um título.

1- JEAN-LOUIS SCHLESSER

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No Brasil, o francês Jean-Louis Schlesser é lembrado por uma única, e maldosa, razão: graças à sua presença na pista, Ayrton Senna não venceu o GP da Itália de 1988 e a McLaren não conseguiu ser a única equipe da história a ganhar todas as corridas de uma temporada de Fórmula 1. Schlesser se arrastava na pista com um Williams-Judd e acabou sendo surrado na primeira chicane pelo potente McLaren-Honda de Senna. Estava substituindo Nigel Mansell e completaria 40 anos de idade no dia seguinte. Coitado.

Coitado? Os registros de Schlesser na Fórmula 1 podem não ter sido dos mais felizes, mas o cara teve um currículo de grande respeito no automobilismo. Ele foi campeão francês de Fórmula 3 em 1978, segundo colocado nas 24 Horas de Le Mans de 1981 e bicampeão do Mundial de Protótipos de 1989 e 1990 com um Sauber-Mercedes. Foi Jean-Louis, aliás, um dos professores de Michael Schumacher no início dos anos 90.

Versátil, Schlesser também investiu boa parte de sua energia nos ralis. Ele se inscreveu para o Rali Dacar de 1985 com um Lada Niva azulado e o copiloto Jean-Pierre Fleur. Não deu para chegar ao fim, mas o cara gostou do negócio. Em 1986, Schlesser reapareceu no rali e também não fez muito mais do que ganhar experiência. A coisa começou a ficar mais séria em 1989, quando Jean-Louis decidiu participar do Rali Dacar de maneira mais profissionalizada.

Entre 1989 e 1991, Schlesser competiu com um Mitsubishi e não logrou muita coisa. Então, em 1992, ele decidiu dar uma de Jack Brabham e construiu seu próprio carro de competição, um buggy com chassi feito nos EUA e motor Seat. O monstrinho, de óbvio nome Schlesser, foi colocado para correr ainda em 1992 no mundial de Cross Country da FIA. Ganhou corridas e se mostrou um grande candidato à glória no Rali Dacar.

Em 1993, Schlesser e seu Schlesser conseguiram uma vitória em um dos estágios do Rali Dacar, mas um resultado realmente bom na competição só viria em 1998, quando o conjunto finalizou na quinta posição entre os carros. Naquela época, Jean-Louis já desfrutava do bom apoio da Renault. E a parceria rendeu bons frutos.

As edições de 1999 e 2000 foram simplesmente devoradas por Jean-Louis Schlesser, que venceu sem adversários e se consagrou como o ex-piloto de Fórmula 1 de maior sucesso na história do rali. Depois disso, o francês não conseguiu mais repetir as vitórias, mas ainda obteve outros bons resultados. Foi terceiro em 2001, em 2004 e em 2007 e sexto em 2006. Um verdadeiro gênio do rali, o cara que foi atropelado por Senna lá em Monza.

Há dias em que o onipotente Bernie Ecclestone acorda com uma ideia pretensamente genial, pega um bloco de papel, rabisca mais ou menos o que veio à sua mente e comunica aos jornalistas de plantão que “seria bom se a Fórmula 1 fosse assim ou assado”. Em 2010, ele quase implantou à força o controverso sistema de medalhas, que premiaria apenas os três primeiros colocados. Um ano antes, Bernie ventilou a possibilidade do retorno da pré-classificação, única ideia que eu achei realmente interessante. Em 1989, o velho asquenaze foi além e sugeriu pit-stops compulsórios para os vencedores. O ganhador de uma corrida tinha de fazer uma parada obrigatória na etapa seguinte. Se repetisse a vitória, teria de parar duas vezes na próxima corrida, e assim por diante.

Ele teve tantas outras ideias que daria para fazer mais de um Top Cinq com elas. Bernie é um cara que sabe que é inteligente e que tem poder para irritar muita gente. O problema é que ele chegou a um nível de egocentrismo e autossuficiência tão alto que qualquer ideia sua parece a melhor de todas, mesmo que ela signifique obrigar Karun Chandhok a andar nu pelo paddock ou trocar champanhe por chá de boldo no pódio. Esse é o problema de uma pessoa teimosa, personalista, elitista e que não se preocupa com o que pensam os demais.

Hoje, ele apareceu com mais uma ideia genial que certamente salvará o automobilismo e as sequoias.  Em entrevista concedida à Gazzetta dello Sport, Ecclestone sugeriu que as equipes menores utilizassem um único carro fabricado por uma equipe grande em temporadas anteriores. O raciocínio não é tão ruim assim. Para a HRT ou a Marussia, seria mais barato e eficiente comprar uma Ferrari ou uma Red Bull de 2010 do que torrar dinheiro em carroças que não terão futuro algum.

Pode até ser que seja apenas uma ideia que tenha surgido do nada e que também desaparecerá logo, mas Bernie não é o único a ter falado sobre esta possibilidade. A terceirização poderia ser uma saída razoável para participantes sem dinheiro e esperança. No passado, ela foi uma boa saída que permitiu ampliar os grids da Fórmula 1. Alguns chefes de equipe até fizeram certa história comandando carros que eram fabricados em outros quintais. Conheça hoje cinco destes chefes:

5- JOHN MACDONALD

Sem qualquer relação com a rede de fast-food, John Macdonald era apenas um típico apaixonado das antigas pelo automobilismo. Dono de uma loja de carros em Londres e piloto nas horas vagas, Macdonald desistiu de uma carreira profissional nas corridas quando percebeu que não seria o próximo Jim Clark. Então, decidiu ser dono de equipe, a saída mais óbvia para um piloto frustrado. Ao lado do colega de concessionárias Mick Ralph, ele arranjou um March e o entregou para um certo Alan Jones pilotar na Fórmula 5000 em 1975: estava formada a equipe RAM Racing. O australiano esbanjou talento fazendo um carro V6 disputar curvas contra carros V8, embora os resultados não tenham sido tão espetaculares.

Só que a Fórmula 5000 acabou em 1976 e John Macdonald se viu sem uma categoria para participar. Então, num lance que nunca seria visto nos dias de hoje, ele decidiu simplesmente arranjar dois jurássicos Brabham BT44B e levar sua RAM para participar da Fórmula 1, aquela mesma onde participavam Ferrari, Lotus, Tyrrell e McLaren. É como se a liga amadora de Ji-Paraná acabasse e o time da Vila Sococó decidisse participar do Campeonato Brasileiro.

A estrutura da RAM era precária de dar dó. Macdonald empregou o suíço Loris Kessel em um carro e leiloou o outro. No fim das contas, quem teve mais poder de caixa foi o espanhol Emilio de Villota, que levava um monte de patrocinadores de seu país. Os dois apareceram pela primeira vez no GP da Espanha de 1976 e, coitados, nem se qualificaram. Macdonald não ficou feliz e substituiu De Villota pelo belga Patrick Nève. A troca fazia sentido em termos geográficos: o GP seguinte seria realizado na Bélgica e ter um piloto da casa poderia atrair um pouco da atenção dos locais. Mas é óbvio que um pensamento pequeno e imediatista desses não leva ninguém a lugar algum.

A RAM participou de sete das 16 etapas da temporada de 1976, usou sete pilotos diferentes e não conseguiu sequer terminar uma corrida entre os dez primeiros. Só chamou a atenção nos dias do GP da Alemanha graças a uma história pra lá de bizarra: a equipe tentou substituir Loris Kessel pelo piloto germânico Rolf Stommelen, mas Kessel não deixou barato e entrou na justiça alemã exigindo continuar pilotando. Ganhou a causa. Com isso, os carros da RAM foram apreendidos pela polícia durante um dos treinos livres da etapa de Nürburgring!

Ciente de que não chegaria a lugar algum usando um carro do arco-da-velha e dando rasteiras em pilotos pagantes, Macdonald decidiu tomar vergonha na cara. Para 1977, optou por usar o March 761 do ano anterior e parou de trocar de piloto como quem troca de cueca – Boy Hayje até conseguiu a proeza de participar de seis treinos classificatórios com a equipe. Mas os resultados continuaram não aparecendo. Diz a lenda que a RAM simplesmente ignorava as sugestões de acertos que a March fornecia. O sócio Mick Ralph achava que entendia mais do negócio do que qualquer intrometido da March. Não acertava uma.

Nos dois anos seguintes, Macdonald decidiu competir na British Aurora Fórmula 1 e se deu melhor, obtendo alguns resultados muito bons com velhos March e Fittipaldi. Com os ânimos renovados, ele decidiu trazer sua RAM de volta à Fórmula 1 verdadeira em 1980 utilizando um Williams FW07. Participou das últimas sete corridas da temporada e não conseguiu nada além de um nono lugar em Watkins Glen com Rupert Keegan.

Chega, pensou John Macdonald. Vou parar com esta idiotice de comprar carros velhos! Você acha que ele desistiu de vez na Fórmula 1? Nada disso. Ele assumidamente se inspirava em Frank Williams e achava que não tinha de desistir. A partir de 1981, a RAM passou a construir seus próprios carros. Nada que tenha feito lá grande diferença para a humanidade.

4- BOB SPARSHOTT

 

Bob Sparshott é uma corruptela de Ron Dennis. Se o ex-chefão de Ayrton Senna começou a carreira como mecânico da Brabham, Bob era um dos mecânicos da Lotus. Se Dennis foi o ditador da McLaren por quase trinta anos, Sparshott também pode contar aos bisnetos que já pôs um carro da McLaren na pista. E os dois já tiveram sob suas ordens um brasileiro tricampeão.

Sparshott queria ter sua própria equipe de Fórmula 1, assim como metade do planeta nos anos 70, mas não tinha como construir um carro. A melhor solução para uma pessoa como ele era adquirir um monoposto inteiro de uma equipe já estabelecida e tentar arranjar dinheiro via assaltos ou poços de petróleo no fundo de casa. Felizmente, o britânico não precisou desses tipos de solução. Associou-se à Norev, uma fábrica francesa de carrinhos em miniatura, e arranjou os recursos necessários para comprar um Surtees TS19 e disputar a temporada de 1976 com Henri Pescarolo.

A Team Norev não se inscreveu para as primeiras etapas do ano e só deu as caras pela primeira vez em Mônaco, onde não se qualificou. Pescarolo só conseguiu terminar sua primeira corrida na Áustria, na qual ficou num bom nono lugar. Nas corridas seguintes, largou em todas e só abandonou em Watkins Glen. Uma temporada razoável, convenhamos.

Em 1977, Sparshott ficou sem os francos da Norev e teve de recorrer aos dólares do americano Brett Lunger, um veterano de guerra que era patrocinado pelos cigarros Chesterfield. Lunger disputou as três primeiras etapas com um March 761, mas Sparshott conseguiu jogá-lo no lixo e descolou um McLaren M23, velho pra danar mas bem mais rápido. Além disso, ele mudou o nome da equipe nesta mesma época. Team Chesterfield era meio feio, né? A partir do GP da Suécia, o time passou a se chamar BS Fabrications. Não parecia exatamente um nome de uma escuderia que se preze, mas não é a nomenclatura que ajudará um carro a andar um segundo mais rápido.

A BS Fabrications ganhou fama ao dar uma chance ao brasileiro Nelson Piquet, então apenas um piloto da Fórmula 3 britânica que vinha assombrando os taciturnos ingleses em 1978. Bob Sparshott ainda tinha contrato com Brett Lunger, mas decidiu arranjar um segundo McLaren M23 para Piquet fazer os GPs da Áustria, da Holanda e da Itália. Nelsão sofreu um bocado com um carro concebido em 1974, mas pelo menos despertou alguns sentimentos amorosos de Bernie Ecclestone, que o convidou para correr num terceiro Brabham no GP do Canadá de 1978. Definitivamente, Piquet foi a maior contribuição de Bob Sparshott ao automobilismo mundial.

3- FRANK WILLIAMS

 

A vida de Frank Williams antes do dia em que se enturmou com alguns árabes dotados das verdinhas é um dos assuntos mais legais que a Fórmula 1 já produziu. O franzino ex-piloto britânico, que participava de maratonas apenas para levantar fundos para fazer a Frank Williams Racing Cars funcionar, passou por muita coisa antes de construir um império que ganhou sete títulos de pilotos e nove de construtores. Uma dessas coisas foi utilizar carros alheios.

Sir Frank não começou sua vida na Fórmula 1 botando a mão na massa. Ele arranjou um Brabham BT26A novinho em folha que Jack Brabham achava que seria utilizado na Tasman Series. Com um carro competente e Piers Courage como único piloto, a Frank Williams Racing Cars teve um bom ano em 1969. Courage obteve dois segundos lugares e terminou a temporada na oitava posição. Poderia ter ido melhor, mas teve muitos problemas durante o ano. De qualquer jeito, um bom ano pra um piloto que nunca tinha feito muita coisa na Fórmula 1 até então.

Em 1970, Williams não produziu seu próprio carro, mas também não comprou um chassi de outra equipe. Ao invés disso, ele fez uma parceria com a fabriqueta ítalo-argentina De Tomaso, que construiu lá nos confins da América do Sul um carro horroroso e perigoso. Courage tragicamente faleceu em um acidente pilotando a coisa no GP da Holanda. Sir Frank ficou devastado. Seu melhor amigo tinha morrido por causa da porra de um carro argentino.

Nos dois anos seguintes, Frank Williams arranjou uns chassis meio fuleiras da March. Eles nem eram tão antigos, mas a marca não era lá aquelas coisas na Fórmula 1. Em 1971, Henri Pescarolo foi o único piloto em quase todos os fins de semana (na França, inventaram de colocar na pista um segundo March para o misterioso Max Jean) e até somou quatro preciosos pontinhos. Em 1972, Pescarolo dividiu a equipe com o brasileiro José Carlos Pace, que foi o único piloto a pontuar naquela temporada. Depois de dois anos lá na rabeira, a Williams decidiu aventurar-se na construção de seus próprios carros.

Após um ou outro alto e uma saraivada de baixos, a Frank Williams Racing Cars foi passada para as mãos do canadense Walter Wolf. Frank Williams decidiu recomeçar tudo do zero. Em sociedade com o engenheiro Patrick Head, o incansável britânico arranjou uma oficina empoeirada em Didcot, convenceu boa parte dos funcionários da antiga FWRC a acompanhá-lo e arranjou um piloto rico o suficiente para injetar dinheiro naquela loucura. O belga Patrick Nève, o mesmo que já tinha enfiado o nariz na RAM, voltou a se meter numa canoa perdida.

A Williams Grand Prix Engineering queria construir seus próprios carros, mas não dava para sonhar muito no primeiro ano. Para a temporada de 1977, ela se viu obrigada a usar um March 761 que não tinha feito muita coisa nem mesmo nas mãos sagradas de Ronnie Peterson. Enquanto a estrutura da equipe era trabalhada a longo prazo, Nève tentava fazer o 761 chegar ao fim das corridas. Em Monza, chegou em sétimo e quase pegou um pontinho. Infelizmente para ele, isso não importava muito. Frank Williams já trabalhava nos bastidores para construir uma superequipe. E Patrick Nève e seu March não estavam nos planos.

2- JOHN LOVE

 

A história deste cara é enorme e eu realmente gostaria de me debruçar sobre ela. John Love foi talvez o maior piloto da história do Zimbábue. Zimbábue? Hoje em dia, este é um dos países mais problemáticos do planeta, de inflação galáctica, economia inexistente e intermináveis problemas sociais. Os mais jovens não imaginam que, nos anos 60, quando seu nome ainda era Rodésia, as coisas eram bem diferentes. O país crescia a altas taxas e muitos imaginavam que seria ele, e não a África do Sul, a economia dominante do continente.

A carreira de Love surgiu em um contexto bem interessante. Ele foi convocado pelo exército da Rodésia para lutar na Itália e no Oriente Médio durante a Segunda Guerra Mundial. Na Itália, enquanto não pilotava tanques de guerra, deslumbrava-se com as velozes motocicletas produzidas na Terra da Bota. De volta à África, Love começou a disputar corridas de moto e ganhou várias delas. Cansado da brincadeira, ele decidiu disputar provas em quatro rodas para ver se encontrava desafio um pouco maior. Pelo menos no seu continente, não encontrou: ele continuou ganhando tudo.

Um amigo seu lhe arranjou o contato de Eric Broadley, o dono da Lola, que lhe arranjou um lugar na Fórmula Junior inglesa no início dos anos 60. A partir daí, John Love tentou fazer uma carreira internacional, mas um acidente em Albi em 1962 destruiu seu braço esquerdo. Ele nunca mais conseguiria voltar a ter o movimento normal neste braço novamente. Continuou pilotando, entretanto. Movia o volante com o braço direito e apoiava o esquerdo no canto do carro.

Ainda em 1962, com o braço estropiado, Love levou para a África do Sul um Cooper-Climax T55, montou sua própria equipe e se inscreveu para o GP sul-africano de Fórmula 1, realizado nos últimos dias de dezembro. Largou em 12º e terminou em oitavo, resultado bastante razoável para alguém que nunca tinha disputado uma corrida de Fórmula 1.

Depois disso, Love e sua equipe se tornaram uma presença constante nos GPs sul-africanos dali em diante. Ele nunca construía seus carros: dava um jeito de importar bólidos velhuscos da Cooper, da Lotus, da Brabham, da March e da Surtees. E foi com um Cooper T79 que John teve a maior felicidade de sua vida.

No GP da África do Sul de 1967, Love começou surpreendendo a todos fazendo o quinto tempo no grid de largada. Empolgado, ele nem se importou em emprestar uma bomba de gasolina a Jo Siffert, que tinha tido problemas na classificação. No seu carro, Love instalou uma bomba reserva que ele carregava consigo. Sujeito precavido é outra coisa.

John largou mal e caiu para a décima posição. Para sua alegria, vários pilotos à sua frente começaram a ter problemas e abandonaram a prova. O herói da Rodésia também estava possuído e deixou outros tantos para trás, nomes fracos como John Surtees e Jim Clark. Na volta 41, ele já era o segundo colocado. Vinte voltas depois, o líder Denny Hulme entrou nos pits. E John, para delírio da torcida africana, assumiu a liderança.

John Love liderou durante maravilhosas treze voltas. Quando faltavam apenas sete para o fim, ele sentiu o carro engasopando e decidiu ir aos boxes para colocar mais gasolina e garantir ao menos o pódio. Ele voltou atrás de Pedro Rodriguez e teve de se conformar com o segundo lugar. Mas o que mais o chateou foi descobrir, após a corrida, que havia combustível o suficiente para não precisar fazer aquele pit-stop. Na verdade, houve um problema na bomba de combustível de seu Cooper. A maldita bomba de combustível reserva. Se John Love não tivesse emprestado a original para Jo Siffert, provavelmente a Rodésia teria celebrado ao menos uma vitória na história da Fórmula 1.

1- ROB WALKER

 

Rob Walker foi um dos chefes de equipe de maior sucesso de automobilismo nos anos 60. Só há um pequeno detalhe: ele nunca construiu um carro sequer. Ele apenas fazia o trabalho mais fácil: ia atrás do melhor carro disponível, não esquentava a cabeça para comprá-lo, contratava um piloto de ponta e partia para o abraço. Uma receita simples demais para um dos herdeiros da Johnnie Walker, que se apaixonou pelo automobilismo após assistir a uma corrida na França aos sete anos.

Walker era mais um desses bon-vivants típicos da Europa da Belle Époque. Sem ter de se preocupar com dinheiro e outras questões comezinhas, seu negócio era pilotar carros, motos e até mesmo aviões. A festança acabou com a Segunda Guerra Mundial, quando Walker foi enviado ao Norte da África para lutar contra sei lá quem. Com o fim da guerra, Rob não demorou muito para abrir sua própria equipe de automobilismo. A Rob Walker Racing começou com dois Aston Martin de Fórmula 2 pilotados pelos ingleses Tony Rolt e Eric Thompson, que obtiveram bons resultados rapidamente.

Em 1958, cansado de ficar brincando de corridas nos rincões britânicos, Rob Walker quis internacionalizar sua equipe e começou a se inscrever para o máximo de corridas de Fórmula 1 possível. Arranjou dois Cooper T43 (os mais atualizados eram os T45) e os entregou a Stirling Moss e Maurice Trintignant. Os dois ganharam as três primeiras corridas da temporada e Moss ainda conseguiu vencer mais duas no final do ano, terminando como vice-campeão. Está bom para você?

Nos anos seguintes, Rob Walker seguiu como o dono de equipe independente de maior sucesso da categoria. A parceria com Stirling Moss, em sua melhor fase no automobilismo, rendeu um bocado de vitórias e dores de cabeça à concorrência e até mesmo aos fornecedores. Em 1961, a Lotus ficou bastante relutante em vender seu modelo 21 a Rob Walker, que teve de se contentar com um híbrido entre o antigo 18 e o 21. Com esta gororoba, Moss ganhou duas corridas e terminou a temporada em terceiro.

Dá para dizer que o acidente de Moss em Goodwood no início de 1962 prejudicou bastante a Rob Walker Racing, que se viu obrigada a manter um único Lotus para o veteraníssimo Trintignant, que já não rendia o mesmo que em outros tempos. As temporadas seguintes não foram tão boas como as primeiras, ainda que Rob Walker sempre tivesse à disposição carros da Lotus, da Brabham e da Cooper e pilotos como Jo Bonnier, Jo Siffert e Graham Hill. Apenas uma vitória foi obtida, a de Siffert no GP da Inglaterra de 1968.

Rob Walker se aposentou da gerência da equipe em 1970 e preferiu se manter apenas como empresário de Mike Hailwood. Sua equipe durou cerca de quinze anos e ganhou nove provas na Fórmula 1. Repito: ele nunca sequer desenvolveu um parafuso de um carro de automobilismo. O melhor usurpador de todos, sem dúvida.