maio 2011
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5 de maio de 2011

Mônaco: ausente no calendário do ano passado, presente agora
Achei que seria difícil, trabalhoso, algo que corroesse minha carne, minha saúde mental e meu tempo. Por isso, posterguei ao máximo o anúncio do Calendário do Verde nesse ano. Como os leitores sugeriram nada menos que 93 circuitos diferentes, sem contar as variações, fiquei com enorme preguiça e medo de que alguma coisa muito estranha fosse votada em massa. Onde que eu poderia buscar informações confiáveis e vídeos sobre o circuito guatemalteco de Los Volcanos, por exemplo? Felizmente, venceu o bom senso.
Serão 22 os circuitos, assim como no ano passado. Como os votos foram bem distribuídos entre as sugestões, todos os que constarão aqui terão recebido, no mínimo, quatro votos. Com oito votos cada, os preferidos são Jacarepaguá, para minha total infelicidade, e Zandvoort, para minha felicidade. Fiquei surpreso com o número de votos recebidos por Avus, Riverside e Anderstorp. E assustado por Mônaco, Silverstone e Monza não terem sido lembrados em massa. Por isso que gosto dos meus leitores.
Por outro lado, fiquei um pouco decepcionado por Snetterton e Mugello terem ficado de fora por apenas um voto. Mas é a vida. Vocês pedem, vocês terão. Segue o calendário abaixo. Só uma coisa: não esperem regularidade da minha pessoa. Entre maio e dezembro, vou postando circuito por circuito em dias aleatórios. Talvez nem acabe neste ano.
Só um último comentário: quando eu anunciei que vocês poderiam escolher as pistas, utilizei o circuito croata de Rijeka como um exemplo pejorativo de escolha que não deveria ser feita por vocês, por ser muito exótico e difícil de encontrar informações. Pois eu baixei a pista e testei no Grand Prix 2 (não tenho computador potente o suficiente para instalar um rFactor ou algo que o valha). E não é que me apaixonei pela pista, bem sinuosa e complicada? Se tiver como fazer uma “etapa extracampeonato” após o fim do calendário, será em Rijeka.
Segue o calendário abaixo, distribuído de maneira geográfica, com o início na Oceania e o fim na América do Sul. Em parênteses, a versão da pista escolhida. Em mais parênteses, o número de votos escolhidos.
– Philip Island (atual) (4)
– Surfers Paradise (1992) (4)
– Fuji (1965) (7)
– AVUS (1951) (5)
– Hockenheim (1994) (5)
– Monza (1976) (5) – partes 1 e 2
– Imola (1981) (4)
– Pescara (1934) (4)
– Mônaco (1986) (4)
– Paul Ricard (1970, versão longa) (4)
– Rouen-les-Essarts (1955) (5)
– Montjuich (1966) (4)
– Algarve (atual) (5)
– Zandvoort (1973) (8)
– Anderstorp (1968) (4)
– Silverstone (1975) (5)
– Elkhart Lake (atual) (6)
– Talladega (4)
– Long Beach (1978) (5)
– Infineon (atual) (4)
– Riverside (1957) (5)
– Jacarepaguá (1978) (8)
Para quem quiser ver o calendário do ano passado, clicar aqui.
5 de maio de 2011

GP DA TURQUIA: É um mistério da humanidade. O circuito de Istambul é um dos melhores da temporada e talvez até mesmo um dos melhores do mundo: veloz, composto por várias curvas desafiadoras, largo e bom para ultrapassagens. A curva oito, um compêndio de quatro sucessivas curvas velozes à esquerda, é a mais complicada da Fórmula 1 atualmente. No entanto, nunca houve uma corrida de Fórmula 1 inesquecível por lá. No ano passado, até que houve um pouco mais de diversão, com os dois Red Bull batendo um no outro e os dois McLaren brigando pela vitória até o fim. Ainda assim, é um pista que nunca teve uma prova à sua altura. E a possibilidade de não haver corrida por lá no ano que vem é bem alta. Os turcos já se cansaram de gastar tanto por uma corrida de carros.
KERS: Tremei, Fórmula 1. Ontem, a Red Bull anunciou que resolveu seus problemas com o tal dispositivo de recuperação de energia. O consultor zarolho Helmut Marko anunciou que a equipe rubrotaurina passou a Páscoa testando alterações no sistema e, para desespero dos rivais, tudo deu certo. O veloz circuito de Istambul é um bom lugar para uma avant-première destas alterações. O que resta para a concorrência? Chorar. E esperar que os pneus Pirelli baguncem um pouco as coisas.
PURE: Propulsion Universelle et Recpueration d’Energie, ou simplesmente PURE. Isso, que parece ser simplesmente o nome de mais um KERS da vida, é a nova empresa do inglês Craig Pollock, amante de Jacques Villeneuve, criador da BAR na Fórmula 1 e da PK Racing na ChampCar. Em parceria com a Mecachrome, a PURE desenvolverá um motor para a nova Fórmula 1 de 2013, quando os V8 darão lugares a compactos, ecológicos e politicamente corretos 1.6 de quatro cilindros turbinados. Dizem que a primeira unidade já estará pronta para testes no final do ano. Pollock é um safado, um dos maiores filhos da puta da Fórmula 1 e eu recomendo total distância dele. A conferir.
RUPERT MURDOCH: Alô, você, leitor de esquerda: tenha medo. A Fórmula 1, que já se encontra nas mãos do supercapitalista Bernie Ecclestone, pode passar para as mãos de alguém ainda mais radical: o übercapitalista Rupert Murdoch, dono da News Corporation. Para os que não conhecem muito esse negócio de mídia e política, Murdoch é o mandachuva da Fox, aquele canal que representa todos os corações pulsantes do Partido Republicano, do Tea Party e de todos os carolas Zé Buscapé do interiorzão yankee. Pra dizer a verdade, eu nem ligo muito, direitista reacionário que sou, até porque pouco mudará na prática. Murdoch só fará a categoria ter ainda mais cara de espetáculo bilionário do que já tem normalmente. O chato é que ele quer fazer sociedade com a investidora italiana Exor, ligada à Fiat, que é a dona da Ferrari. A categoria se tornaria mais “ferrarizada” do que ela já é. Aí, não.
GP2: Nesse fim de semana, começa a temporada 2011 da “rê-pê-dôs” europeia. Vinte e seis moleques disputarão as duas primeiras corridas do ano como preliminares do GP da Turquia de Fórmula 1. O grid está ótimo lá na frente e bastante meia-boca lá atrás, mas o nível das equipes é bem alto. O carro novo, inspirado no Hispania de Fórmula 1, pode até ser uma merda na hora de permitir ultrapassagens, mas os pneus Pirelli, que são os mesmos da Fórmula 1, podem ajudar. Tenho de apostar em algo? A briga pelo título fica entre o Jules Bianchi, o Romain Grosjean, o Giedo van der Garde, o Davide Valsecchi e o Sam Bird. Bianchi leva por ser o primeiro piloto da melhor equipe. O único brasileiro do grid é o baiano Luiz Razia, da equipe que quer mudar seu nome de Team Air Asia para Caterham. Não fique muito empolgado, no entanto. Apesar de Razia ser muito bom piloto, o companheiro Valsecchi andou bem melhor que ele até aqui.
4 de maio de 2011

Adrian Sutil e Timo Glock: não são mais novatos, não andam sendo muito lembrados e correm o risco de cair no ostracismo
Michael Schumacher, Rubens Barrichello e Jarno Trulli. Todos, cada um à sua maneira, tiveram seus momentos de ascensão, auge e decadência. O alemão teve seus primeiros grandes momentos na Benetton, se consagrou como lenda do esporte na Ferrari e atualmente sofre com os efeitos da idade na Mercedes. O brasileiro impressionou em suas passagens pela Jordan e pela Stewart, obteve dois vice-campeonatos na Ferrari e atualmente padece com o péssimo FW33 da Williams. O italiano iniciou a carreira chamando a atenção com atuações impressionantes nos carros da Prost e da Jordan, obteve alguns ótimos resultados na Renault e na Toyota e agora sofre com a lesma esverdeada da Lotus. Os três ainda estão no grid, mas sabem que os melhores dias ficaram no passado. E que o INSS é uma realidade muito próxima.
Não dá para ter qualquer compaixão ou pena deles. Afinal, já tiveram seus grandes dias e os aproveitaram razoavelmente bem. E exatamente por isso, não será o trio de matusaléns o tema do texto de hoje. Existem outros dois pilotos no grid que também estão longe de seus melhores dias. Só que, ao contrário dos três citados no parágrafo anterior, estes dois nunca chegaram exatamente a um auge. Começaram como promessas, mas estão vendo o tempo passar e parecem estar começando a ser deixados de lado por jornalistas, torcedores e chefes de equipe. Com vocês, os alemães Adrian Sutil e Timo Glock.
Após três corridas, nem Sutil e nem Glock estão lá com grandes motivos para sorrir. Adrian, da Force India, ficou atrás de seu novo companheiro de equipe, o estreante Paul di Resta, nos treinos oficiais de todas as etapas até aqui. Nas corridas propriamente ditas, Sutil terminou apenas uma à frente. O escocês Di Resta, primo de Dario Franchitti, vem se destacando como o melhor novato da temporada até aqui. A mídia andou especulando seu nome como um possível substituto para Michael Schumacher na Mercedes. E o Sutil?
O alemão, descendente de uruguaios, está em seu quinto ano como titular na Fórmula 1. Em 2007, ele estreou como companheiro do holandês Christijan Albers na extinta Spyker. No primeiro treino oficial, Sutil enfiou 2,6 segundos no lombo do bom Albers. Nos treinos seguintes, o novato conseguiu bater o experiente companheiro em seis ocasiões, contra apenas dois revezes. O negócio ficou bem feio para Christijan, genro de um dos donos da equipe, ainda mais após aquele patético episódio de Magny-Cours, no qual ele saiu com tudo dos boxes e levou a mangueira de combustível grudada no bocal do carro. Após Silverstone, ele foi mandado embora. Enquanto isso, Sutil era considerado o queridinho da equipe e um dos novos astros do grid. Exatamente o que ocorre com Di Resta atualmente.
Naquele ano, 2007, Sutil herdou um pontinho após a desclassificação de Vitantonio Liuzzi em Fuji. Para quem pilotava o pior carro do grid, um excelente resultado. No ano seguinte, a Spyker foi vendida para um empresário indiano com cara de salafrário, Vijay Mallya. Renomeada Force India, a equipe manteve Sutil e trouxe Giancarlo Fisichella da Renault para ser seu companheiro. Dessa vez, o desafio seria mais duro.
Na verdade, enfrentar Fisichella não foi mais complicado do que dirigir um péssimo VJM01, carro defasado que não rendia em pista alguma. Ainda assim, Sutil proporcionou à equipe sua única e efêmera felicidade naquele ano ao andar em quarto no Grande Prêmio de Mônaco até o fim da corrida, quando foi atingido por trás pela Ferrari de Kimi Räikkönen. Após a etapa, ignorando o fato do jovem alemão ter ultrapassado vários pilotos em bandeira amarela na Loews, muita gente ficou encantada com a apresentação. Sutil na McLaren já!

Adrian Sutil: levar do Paul di Resta, nessa altura, não parece ser a melhor coisa para sua carreira
O engraçado é que essa não seria a única vez em que Adrian Sutil faria o milagre de levar sua jabiraca a uma posição excelente até ter algum tipo de contratempo. Em 2009, Sutil e Fisichella permaneceram na equipe, que havia construído um carro bem melhor, o VJM02. Adrian largou em sexto em Nürburgring, mas acabou causando um acidente ridículo com o mesmo Räikkönen na primeira curva do circuito. Em Interlagos, ele fez um excelente terceiro tempo no treino oficial, mas se envolveu em outro acidente besta com Jarno Trulli ainda na primeira volta.
É meio desagradável falar isso, mas eu vejo o piloto alemão como alguém altamente capaz de fazer a coisa mais sensacional do mundo em uma volta e jogar tudo fora na volta seguinte em um acidente prosaico, algo como uma corruptela de Nigel Mansell. O Grande Prêmio da Itália de 2009 foi, talvez, sua grande corrida na Fórmula 1 até aqui. Com um carro velocíssimo em retas, Sutil largou em segundo, fez a melhor volta da corrida e terminou em quarto. Só há um detalhe, no entanto: na corrida anterior, Giancarlo Fisichella havia largado da pole-position e só perdeu a vitória porque Kimi Räikkönen dispunha do KERS em seu Ferrari e ultrapassou o italiano na reta Kemmel.
Será que Sutil, no fundo, não passava de um porra-louca limitado? Em 2010, a Force India acertou a mão e teve no VJM03 um confiável carro do meio do pelotão. Mais maduro, o alemão andou direitinho em várias corridas e marcou 47 pontos em nove corridas. Por outro lado, suas corridas ruins foram muito ruins, como foi o caso do Grande Prêmio da Coréia: nunca vi um piloto tão perdido em pista molhada como ele naquela prova. Ainda assim, a surra sobre o italiano Vitantonio Liuzzi, seu companheiro na temporada, foi avassaladora.
E quando todo mundo esperava um início de temporada folgado para o alemão, eis que Paul di Resta aparece e se sai melhor nessas primeiras etapas. Não poderia haver momento pior para isso acontecer com Adrian Sutil. Em sua quinta temporada pela mesma equipe (considerando que Spyker e Force India são a velha Jordan), ele não tem mais o que fazer lá. O carro da atual temporada não é brilhante e a equipe não aparenta ter potencial para se transformar em algo realmente competitivo a curto prazo. Logo, resta a ele tentar demonstrar o máximo de evolução e coletar o maior número de pontos possível. Perder para um Paul di Resta pode afugentar as poucas portas que poderiam abrir para ele nas equipes melhores.
Sutil corre o risco de se transformar em um Pierluigi Martini moderno, aquele cara fidelizado a uma equipe média que vive de brilharecos. O problema é que o alemão não consegue sequer passar a mesma boa imagem do velho italiano. Muitos ainda veem Sutil como um sujeito veloz, mas afobado, propenso a acidentes e incapaz de aliar constância a velocidade. Pode até ser uma conclusão injusta, mas após cinco anos sem subir de patamar, não é surpreendente que ele carregue consigo esta imagem.
O caso de Timo Glock é ainda mais estranho. O piloto da Virgin sempre teve uma carreira irregular e inúmeras mudanças de rota. Em 2002, Glock foi terceiro colocado na Fórmula 3 alemã. Em 2003, quinto colocado na Fórmula 3 europeia. Em 2004, sabe-se lá como, acertou um contrato de piloto de testes com a deprimente Jordan. Bateu feio em seu primeiro teste, acompanhou a equipe em todos os fins de semana da temporada, substituiu o caloteiro Giorgio Pantano em quatro corridas e conseguiu o milagre de marcar dois pontos em seu primeiro fim de semana, o Grande Prêmio do Canadá. Mas aí veio a primeira mudança de rota.

Paul di Resta: ele faz o que Sutil fez com Albers em 2007
Quando tudo indicava que ele seguiria como titular na Jordan em 2005, a equipe irlandesa anunciou os novatos Tiago Monteiro e Narain Karthikeyan. Restou a Timo ir para os Estados Unidos correr na ChampCar, que passava por maus bocados. Pilotando pela mediana Rocketsports, Glock andou bem e quase venceu a etapa de Montreal. No fim do ano, foi considerado o melhor estreante da temporada. Após isso, outra mudança de rota.
Quando tudo indicava que ele seguiria na ChampCar em 2006, Timo Glock surpreende a todos participando da pré-temporada da GP2 no início daquele ano. Ele assinou com a fraca BCN e disputou apenas alguns fins de semana antes de ficar de saco cheio com a incompetência dos espanhóis e migrar para a poderosa iSport. Por lá, venceu duas corridas e renovou contrato para disputar o título da categoria em 2007.
E foi o que ele fez. Após vencer cinco corridas e marcar quatro poles, Timo Glock sagrou-se o terceiro campeão da história da GP2. O chefão Bernie Ecclestone, com medo de deixar o campeão da sua categoria de base sem vaga na Fórmula 1, praticamente obrigou a Toyota a contratá-lo para ser companheiro de Jarno Trulli em 2008. Como Glock havia cometido vários erros em sua temporada consagradora na GP2, muita gente temia que mais um vaca-brava estivesse chegando aí.
No começo, ele realmente penou bastante e se envolveu em acidentes bem perigosos, como em Melbourne e em Hockenheim. Mas o tempo passou e Timo só melhorou, aprendendo a evitar besteiras e a dirigir com a cabeça. No final, ele havia marcado pontos em cinco das últimas oito corridas do ano, com direito a um espetacular segundo lugar na Hungria. Terminou o ano em décimo, apenas seis pontos atrás do experiente companheiro Jarno Trulli.
No ano seguinte, a situação não mudou praticamente nada. A Toyota havia prometido um carrão no início do ano, mas as expectativas não foram correspondidas. Os dois pilotos até conseguiram largar na primeira fila da corrida barenita, mas a vitória nunca veio. Sem aparecer demais, Glock utilizou a estratégia para realizar duas belíssimas corridas em Sepang e em Marina Bay, terminando no pódio em ambas. No fim, terminou novamente em décimo, tendo marcado apenas um ponto a menos do que no ano anterior.
Sem ser brilhante e contrariando sua imagem dos tempos da GP2, Timo Glock notabilizou-se por ser um piloto veloz, correto e confiável. Uma das novatas escolhidas na seletiva de 2009, a Virgin Racing, se interessou nessas qualidades e o empregou como primeiro piloto. O problema é que o primeiro carro da equipe, o VR01, era uma desgraça e Glock não conseguiu marcar um único ponto na última temporada. Seu melhor momento foi ter andado em décimo primeiro durante boa parte do GP de Cingapura.

Timo Glock: deprimido com um carro que não vai
Nesse ano, Timo Glock estava esperando por um bom avanço de sua equipe, mas isso não aconteceu e o MVR02 se mostrou tão ruim quanto o antecessor, talvez até um pouco pior. Após o GP da Austrália, Glock não escondeu sua insatisfação e disse que houve um retrocesso no desenvolvimento da equipe. E no GP da China, o novato Jerôme D’Ambrosio foi seis décimos mais rápido no treino oficial e terminou a prova na frente. Quer dizer, a vida de Glock também não está sendo facilitada pelo companheiro calouro.
Só que, ao contrário de Sutil, o problema de Glock é exatamente a falta de brilho. Ele sofre do mesmo mal de Nick Heidfeld e Heikki Kovalainen, mas estes dois já tiveram as boas oportunidades que Timo nunca teve. Seu talento e sua constância existem, mas nem são tão visíveis a olho nu. E pilotar um péssimo Virgin não ajuda. Por isso, muitos dizem que o desânimo será tamanho que não seria surpreendente ver D’Ambrosio indo melhor em outras ocasiões.
Tanto Sutil como Glock não são mais novatos e estão bem próximos da casa dos trinta anos de idade. No paddock, ninguém os enxerga mais como “os garotos do futuro” e a tendência é que, caso não haja uma reviravolta na carreira de nenhum dos dois, o esquecimento seja cada vez maior. Ainda mais se seus companheiros mostram disposição e capacidade para batê-los. Pode até ser que, depois desse texto e sabendo como sou pé-frio, Glock e Sutil destruam seus companheiros de equipe até o fim do ano. Pois não farão nada mais que a obrigação, se querem um dia ir lá para o pelotão da frente.
Vida de piloto de ponta é um inferno: pressões para todos os lados, torcedores pegando no pé, exposição extremada na mídia e todos sempre esperando por um erro para poder declarar que o sujeito não é tão bom assim. Vida de piloto pagante do fim do grid também é: carro ruim, medo do desemprego, imagem ruim perante a mídia e os torcedores e baixa autoestima. Vida de pilotos como Glock e Sutil não é um inferno, mas algo próximo de um purgatório depressivo: carreira mais ou menos, autoconsciência do próprio talento, idade mais avançada que o ideal, falta de perspectivas animadoras e profundo esquecimento por parte do povo.
Para esses, não existe um auge. Os bons prognósticos do começo se transformam em uma entediante curva decrescente. Pobres são os Pierluigis Martinis do século XXI.
3 de maio de 2011

Depois de quase dez anos e, parafraseando o bufão Michael Moore, duas guerras, 919.967 mortes e 1,188 trilhão de dólares gastos, os EUA conseguiram finalmente capturar o homem mais procurado pelo FBI em todo o planeta. Capturar, na verdade, é modo de falar. Osama bin Laden, economista e engenheiro civil de 54 anos, foi alvejado por alguns soldados americanos em sua fortaleza estrategicamente localizada no vilarejo paquistanês de Abbottabad. Findava-se aí a vida do sujeito que aterrorizou os Estados Unidos e iniciou uma nova era geopolítica, a do terrorismo islâmico internacional.
Bin Laden era um fanático, um doidão cuja ética era regida unicamente pela Sharia, o código de leis do islamismo. Apesar de bem-nascido e milionário, Osama levava uma vida absolutamente austera e se escondeu na tal fortaleza por cinco ou seis anos, sempre avesso a qualquer influência ocidental. Seu antiamericanismo extremado se tornou uma referência mundial, seja para o bem ou para o mal. Muita gente admirava a postura de Bin Laden, o primeiro a peitar o “imperialismo estadunidense”. Os americanos e simpatizantes, por outro lado, sentiam arrepios só de pensar em sua enorme barba preta.
E o que o automobilismo tem a ver com isso? Hoje em dia, não há muitas coisas que liguem Osama bin Laden às corridas de carro. No passado, no entanto, o sobrenome Bin Laden não era tão estranho para quem acompanhava o automobilismo europeu. A milionária família Bin Laden, dona de um conglomerado de empresas de construção civil e de gestão de ativos financeiros, patrocinou algumas equipes há mais de duas décadas.
Após a Guerra do Yom Kippur de 1973 e a esmagadora vitória de Israel sobre uma coalizão de países árabes, os países do Oriente Médio que eram filiados à OPEC, cartel dos grandes produtores de petróleo, decidiram declarar embargo aos Estados Unidos, que foram acusados de fornecer armas e dinheiro ao lado judeu. O embargo acabou reduzindo drasticamente a circulação do insumo pelo planeta e os preços dispararam, o que levou ao chamado Choque do Petróleo de 1973.
O Choque do Petróleo representou uma festa para os países que produziam petróleo. A alta dos preços enriqueceu muito xeique por aí. Uma das famílias reais que mais se deram bem foi a da Arábia Saudita, que encabeçava um país cuja renda advinda do petróleo chegava à absurda casa do trilhão de dólares. No entanto, essa gente não é burra e sabe que depender apenas dos humores de uma única commodity para ganhar dinheiro não funciona a longo prazo. É comum ver os magnatas do petróleo envolvidos em outros setores, como o da construção civil, o bancário, o especulativo e o tecnológico.
A família Bin Laden era a família não-nobre mais rica da Arábia Saudita. O patriarca era o empresário Mohammed bin Awad bin Laden, um iemenita que nunca havia estudado, mas que ganhou muito dinheiro construindo e reformando mesquitas no Oriente Médio. Sua empresa de construção civil, a Binladin, chegou a um patamar de importância tão grande que Mohammed acabou se tornando um dos homens mais importantes de seu país, além de amigo da família real. Com o passar do tempo, a empresa da família passou a operar no Ocidente e em outros setores, como o do petróleo. O Choque do Petróleo, portanto, ajudou os Bin Laden de duas maneiras: expandindo os negócios no setor petrolífero e permitindo que mais mesquitas fossem construídas com o dinheiro do líquido negro.
Portanto, os árabes eram os donos das verdinhas no fim dos anos 70. O sempre inteligente Frank Williams foi o primeiro a descobrir que era um ótimo negócio fazer parcerias com os barbudos explosivos. Esforçado, Frank aprendeu um pouco da língua árabe e foi atrás dos magnatas do Oriente Médio, chegando ao ponto de exibir para o dono dos sucos Albilad um carro com as cores de sua empresa na frente de um hotel em Londres. Sem pestanejar muito, as empresas árabes criaram uma espécie de joint venture e apoiaram a equipe de Frank e Patrick Head em massa. Uma das empresas era exatamente a Binladin.
A parceria da Williams com os árabes foi um sucesso e muitas das empresas até então conhecidas apenas no Oriente Médio ganharam notoriedade mundial, como a Saudia Airlines. Enquanto a economia mundial não se recuperasse como um todo, uma aliança com a turma do petróleo poderia ser uma ótima ideia.
Muita gente conhece a história do patrocínio da Binladin na Williams, mas poucos sabem que o agora assombroso nome apareceu em outras categorias. Em um caso, o da foto acima, a empresa da família de Osama bin Laden simplesmente apareceu como o patrocinador principal!
Mario Hytten era um piloto suíço de algum potencial que nunca havia conseguido uma grande oportunidade na carreira. Na Fórmula 3 britânica, teve de enfrentar adversários do calibre de Ayrton Senna, Martin Brundle, Davy Jones, Johnny Dumfries e Allen Berg. Era comum vê-lo pilotando carros com muitos patrocínios, mas nenhum que fosse expressivo o suficiente para permitir que ele pudesse arranjar uma vaga boa em uma categoria relevante.
Em 1985, ele decidiu subir para a Fórmula 3000. Seu ano foi uma loucura: na primeira corrida, correu pela Lola Motorsport. Nas três corridas seguintes, migrou para a Corbari Italia. Após esta corrida, o suíço foi para a Onyx e ficou por lá até o fim do ano. Nesta última, o desempenho foi bastante razoável: em Donington, Hytten liderou boa parte da corrida e terminou em segundo. Somando estes seis pontos com os dois marcados em Enna-Pergusa, Hytten terminou o ano em décimo, com oito pontos marcados.
Em 1986, Hytten assinou um contrato para ser o único piloto da italiana Arno International. A Arno, que não tem nada a ver com as batedeiras, era uma equipe da Fórmula 3 europeia controlada pelos italianos Piero Mancini e Carlo Giorgio que pretendia estrear na Fórmula 1 ainda no GP da Itália daquele mesmo ano com o prório Hytten. Antes do passo maior, no entanto, era necessário fazer um estágio na Fórmula 3000. O pacote escolhido foi o chassi Ralt, que havia sido muito rápido em 1985, e o motor Cosworth DFV preparado pela Nicholson. Não era um pacote ruim, mas a equipe era uma porcaria, toda desorganizada. Hytten era como se fosse um pai lá dentro, pilotando o carro e ajudando a administrar a equipe.
Lá na Suíça, Mario Hytten tinha um amigo muito importante. Esse amigo era Yeslam Bin Laden, empresário e meio-irmão de Osama Bin Laden. Ao contrário de Osama, Yeslam é um sujeito absolutamente normal e adaptado ao mundo que vive. Formado em Economia, ele se naturalizou suíço em 2001, fala quatro idiomas fluentemente, é dono de várias empresas bem-sucedidas e está completamente integrado ao mundo ocidental. Chega a ser injusto e leviano colocá-lo no mesmo balaio de gato que seu irmão.
Yeslam se interessou em ajudar Hytten no início de 1986. Como ele era bastante influente na elite árabe, o irmão de Osama conseguiu arregimentar uma série de patrocinadores do Oriente Médio para apoiar Mario na Fórmula 3000. O principal patrocinador era exatamente a empresa da família, a Binladin. O carro reflete a importância do apoio: o adesivo da Binladin se encontra exatamente na asa traseira, uma das áreas mais valiosas do carro.
O apoio foi fundamental, mas a equipe Arno era ruim demais e Hytten não conseguiu superar todas as deficiências com seu talento na pista. Ele se inscreveu para apenas sete etapas, não se qualificou em três, bateu em duas, teve problemas elétricos em Vallelunga e terminou em um remoto 15º lugar em Silverstone, a primeira etapa do campeonato.
Como a Arno era uma merda, o plano de ascensão para a Fórmula 1 acabou não dando certo. E Mario Hytten continuou peregrinando na Fórmula 3000 nos dois anos seguintes sem o apoio da Binladin. Depois, o helvético correu por um bom tempo nos protótipos e abandonou a carreira no fim de 1992. Hoje em dia, ele vive na Suécia e trabalha como empresário e tradutor.
Tentei tirar algumas informações do próprio Mario Hytten, mas ele não me pareceu muito confortável para falar no assunto. Em um e-mail sucinto, Mario disse que nunca tinha conhecido Osama Bin Laden e que sequer sabia de sua existência nos seus tempos de Fórmula 3000. E confirmou o apoio “de um de seus irmãos“, salientando que a Binladen é uma empresa de alto porte na Arábia Saudita. Enfim, é visível que o sujeito não deve se sentir orgulhoso por carregar em seu carro um sobrenome que viria a trazer tantos problemas para a humanidade alguns anos depois.
Post scriptum: Sugestiva é a caveira no bico do carro. Mas segundo o leitor Guto, não é uma caveira, e sim o símbolo das forças armadas sauditas.
2 de maio de 2011

Mas que beleza, hein?
É claro que o chato sou eu. É claro que estava tudo bem. É claro que a corrida patrocinada pela cerveja de universitário paulista e pelos chocolates que minha namorada não gosta foi um tremendo sucesso. É claro que a chuva, sempre ela, estragou tudo. Todos, com exceção de São Pedro, mereceram nota dez pelo trabalho realizado. E o tonto do Verde continua bradando com seu costumeiro mau-humor.
A São Paulo Indy 300, de nome pomposo, acabou há algumas horas. Venceu o australiano Will Power, especialista maior em circuitos com curvas para esquerda e para direita. Ele levou o caneco após a KV Racing mandar o pobre do Takuma Sato, que vinha liderando desde o começo, seguir na pista durante a bandeira amarela causada pela rodada do Alex Tagliani. Enquanto todo mundo seguia para os pits, o japonês ficava na pista e perdia um bom tempo. Se Sato tivesse seguido o resto do pessoal, teria boas chances de voltar na liderança. E o Japão teria obtido sua primeira vitória em uma categoria top. Mas não aconteceu. Pena.
Até porque a corrida foi razoavelmente boa. Ontem, apenas nove voltas foram contabilizadas. Sob chuva intensa, muita gente rodou e quebrou o carro no muro, o que fez a organização interromper a corrida e transferi-la para hoje de manhã. E a ação foi retomada normalmente, com a corrida sendo reiniciada em bandeira verde na volta 15. As brigas aconteceram aos montes e, além de Sato, outro carro do meio do pelotão chamou a atenção de todos: o HVM branco e verde de Simona de Silvestro, que estava muito rápido na parte final da corrida. Se as voltas de ontem não tivessem sido contabilizadas e a suíça não tivesse largado com tanta desvantagem, a chance dela ter vencido seria grande. Seria a primeira vitória de uma mulher em uma categoria top. Mas nem Sato e nem De Silvestro foram os pioneiros em seus grupos. Ganhou o velho Power.
(nota: primeira vitória de uma mulher é o cacete. Danica Patrick já venceu em Motegi em 2008. Mas a memória da anta aqui é falha)
Até aí, tudo bem. Foi uma corrida como outras típicas da Indy, que sempre proporciona espetáculo aliado a um pouquinho de loteria. O que me incomoda ligeiramente é essa sensação de que tudo funcionou perfeitamente. E que a chuva é a grande vilã. Mas a questão da chuva e do adiamento não é lá um grande problema comparado a algo um pouco mais preocupante. Falo mais abaixo.
Se você acompanhou a transmissão da Bandeirantes, deve ter acreditado que a São Paulo 300 é a melhor corrida que um ser humano já realizou. Afinal, a Indy, os promotores brasileiros, a prefeitura paulistana, a Bandeirantes e os patrocinadores fizeram um trabalho impecável, à prova de erros e deslizes. A transmissão, temperada com altas doses de conchavo e demagogia, elogiou tudo, da qualidade do asfalto ao nome ridículo daquela chicane posterior à reta do sambódromo. Porque edulcorar a realidade é o mais fácil.

Will Power, um dos poucos que saíram felizes com a corrida
Só que a Indy 300 não foi perfeita. É evidente que há aspectos em que houve grande melhora. O asfalto, por exemplo, melhorou drasticamente em relação ao do ano anterior, o que não deve soar como um “grande feito da prefeitura em conjunto com os organizadores”. É obrigação, considerando especialmente aquela coisa hedionda que foi a reta do sambódromo no ano passado. Se querem fazer o circuito passar por dentro de um local desses, que corrijam os problemas de asfalto. Todos tiveram um bom tempo para fazer isso no ano passado, mas só fizeram nesse. Pelo menos, fizeram.
Só que nada disso vale um vintém quando há uma situação adversa. Neste fim de semana, houve. Uma frente fria chegou com tudo ao estado paulista e trouxe água à beça para todos. Muita água. Em Campinas, ventou, caiu granizo e uns bons trechos ficaram alagados. Imagino que a bagunça tenha sido mais ou menos a mesma em Sampa, a terra da garoa.
Quando a chuva caiu com força, todo mundo ficou desesperado, como se tudo fosse feito de açúcar e só chovesse uma vez a cada dois séculos. O que os espertinhos que comandavam a brincadeira deveriam se lembrar é que São Paulo é, como apresentado acima, a terra da garoa! Chove sempre, e forte em boa parte das vezes. Entre março e maio, é comum registrar algo entre 150 e 400 milímetros, sendo que cada milímetro significa um litro de água por metro quadrado. Quer dizer, será que nenhum dos ilustres sequer considerou a possibilidade de um toró durante a corrida?
Culpar a natureza, para mim, é sentar em cima do problema e dizer que a bunda dói. A chuva não é um fenômeno controlável, mas suas consequências são. No Japão, por exemplo, a maioria dos grandes prédios possui sistemas de absorção das vibrações de um terremoto. São sistemas que demandam engenharia avançada e muitos recursos. Qual seria a dificuldade, no Brasil, de criar um sistema que pudesse escoar a água com um pouco mais de facilidade? E olha que só me refiro ao circuito, espaço de duração e tamanho limitados que não concentra tanta água como um bairro inteiro. Um pouco mais de atenção nessa questão evitaria uma boa dor de cabeça.
Ah, mas choveu forte demais, dirão alguns. Ah, mas o problema maior era a visibilidade, dirão outros. Seguindo a mesma linha de raciocínio, a visibilidade é um problema absolutamente comum até mesmo em pistas permanentes, quanto mais em circuitos temporários de rua. Portanto, era algo a ser considerado quando inventaram de promover uma corrida em uma cidade na qual chove muito nesta época do ano. Repito: é absurdo que os sagazes organizadores se assustem com chuva forte em pleno fim de abril e início de maio na cidade de São Paulo.

Simona de Silvestro, a menina mais rápida de São Paulo
E qual é o resultado? Horas de bandeira vermelha, adiamentos e torcedores cansados e frustrados que, provavelmente, não retornarão na próxima edição. Ao realizar uma corrida sabendo (ou não) que ela pode ser arruinada por uma tempestade, a organização não pode pensar que o espectador que paga uma fortuna (eu desisti de ver a corrida após ver a tabela de preços) pelo ingresso deve arcar com o ônus de algum problema.
Não tenho nada contra realizar corridas de rua no Brasil. Sou, aliás, a favor de mais corridas. O que não tolero é coisa malfeita. E sacanagem com o cara que paga caro pra se divertir. 41 mil ingressos haviam sido vendidos até a sexta-feira, muitos deles destinados a pessoas de outros estados e países. Gente que gastou muito para se hospedar e se alimentar. Acredito que uma bela maioria não teria condições para arcar com mais um dia em Sampa. O adiamento de uma corrida para um outro dia deve sempre ser a última solução de um caso desses. A principal solução é estudar direito todas as necessidades e todos os possíveis problemas esportivos e urbanísticos antes de sair por aí espalhando uns guard-rails a esmo. Repito novamente: permitir que uma corrida de rua seja realizada em São Paulo no mês de maio, submetendo o espectador à possibilidade de cancelamento por uma razão totalmente contornável, é ridículo demais.
O pior desta Indy 300, no entanto, não foi nem o que aconteceu dentro do autódromo. Quem mais levou no rabo foi o motorista paulistano.
Automobilismo, pra mim, é diversão. Gera dinheiro para alguns e infartos em outros, mas é basicamente diversão para a maioria dos seus entusiastas. E como tal, ele não pode interferir em coisas sérias. Devemos nos lembrar que nós, que assistimos à corrida do Anhembi, somos uma minoria de desajustados. A maioria das pessoas não gosta de corridas, no que nem deve estar tão errada. Imagine, agora, o que se passa na cabeça de um motorista que precisou trafegar pela Marginal Tietê hoje de manhã.
Sem a menor sombra de dúvida, o pior legado da São Paulo Indy 300 foi uma segunda-feira de caos no trânsito paulistano. O congestionamento na Marginal Tietê, no sentido Castello Branco, chegou a 21,4 quilômetros de manhã. A Avenida Olavo Fontoura, uma das principais avenidas da Zona Norte, só foi aberta há poucas horas. A Companhia de Engenharia de Tráfego estima que o pico do caos se deu às nove da manhã, exatamente o horário da largada, quando 115 dos 868 quilômetros de vias monitoradas estavam abarrotados de veículos. Em resumo: o paulistano médio se deu mal porque havia uma maldita corrida sendo realizada em um dos pontos mais críticos da cidade.
Só mesmo alguém que fuma maconha estragada pela orelha tem a coragem de sugerir que uma corrida de rua em São Paulo seja realizada na manhã de uma segunda-feira. É um claro sinal de que os organizadores não tinham a menor noção de como agir no caso de haver um contratempo qualquer. Ninguém saiu satisfeito com a decisão: os espectadores não puderam comparecer, os patrocinadores não puderam aparecer para as multidões, a Bandeirantes deve ter registrado audiência ínfima e mecânicos e pilotos tiveram de trabalhar por um dia a mais. Mas quem mais sofreu foi o cidadão, aquele que paga impostos e que gruda adesivos de políticos nos seus carros em épocas de pleito.

Chuva. E os organizadores completamente perdidos.
O motorista levou nas ancas hoje cedo. Muitos perderam ainda mais tempo do que já costumam perder no caos citadino. Quantos compromissos não devem ter sido atrasados ou simplesmente cancelados? Quantos contratempos diretos e indiretos este evento não deve ter causado no dia de hoje? Quantas pessoas que não têm absolutamente nada a ver com a corrida não foram prejudicadas pelo capricho de alguns? Eu gosto muito de corridas, mas se alguma delas prejudica diretamente um sem-número de cidadãos comuns, nem penso duas vezes: defendo seu fim. Em hipótese nenhuma, o automobilismo pode afetar negativamente a vida de uma população.
Até aqui, só reclamei. Como toda reclamação vazia não vale nada, tento sugerir algumas coisas. Será que é mesmo viável realizar uma corrida na Marginal Tietê? Não há um local minimamente mais adequado para isso na cidade? A corrida deve acontecer justamente em uma marginal feia e complicada? Vou além: uma cidade de 11 milhões de habitantes, certamente uma das mais problemáticas do planeta, comporta um evento desse tipo? O ex-piloto James Hunt já declarou que achava absurdo realizar a corrida brasileira em um autódromo socado no meio dessa cidade – imagine se ele estivesse vivo e visse o que aconteceu em São Paulo hoje. Até quando esse capricho da prefeitura, da Bandeirantes e de mais alguns poucos vale a pena? Será mesmo que não há nenhuma outra cidade que possa receber essa corrida?
O circuito do Anhembi é muito legal, está acima da média dos demais circuitos de rua ao redor do mundo e a Indy é uma categoria excelente. Aplaudo o esforço honesto de muitos, e aí devo incluir também a prefeitura paulistana e a Bandeirantes, que batalharam para realizar uma corrida desse porte em um país que cospe em seu automobilismo. Reconheço que tenho muita vontade de ver essa corrida. E critico exatamente por isso: a ideia é boa demais para uma execução tão pífia.
O que quero ver na São Paulo Indy 300 do ano que vem? Simplesmente uma corrida boa, sem sobressaltos e que não penalize os pagantes e os demais cidadãos. O ideal seria não acontecer na Marginal Tietê, quiçá em São Paulo. Mas já que tem de acontecer lá, que todos se esforcem para que esta bagaceira dos dois últimos anos se transforme em um evento memorável e que encha a terra do pátio do colégio de orgulho.
Enquanto isso não acontecer, sigo chato e mal-humorado.
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