Para meu enorme sentimento de vergonha, antes deste último fim de semana, nunca tinha ido a um grande evento de automobilismo na minha vida. Já vi uma ou outra corrida de kart aqui em Campinas e até dei uma de piloto em duas ocasiões, mas nunca tive oportunidade, dinheiro ou simplesmente saco para ir a outra cidade ver alguma coisa relevante. Mas quem mantém um blog sobre corridas deve frequentá-las, simples assim. Por isso que decidi comprar duas entradas para a São Paulo Indy 300 deste último fim de semana. Uma para mim e outra para minha namorada. Dois amigos acompanharam. Setor J.

Não, não vou contar todos os detalhes, assim como fiz sobre minha viagem a Monte Verde. Também não vou analisar a corrida, pois acho chato demais escrever análises e resumos sobre algo que é muito mais legal assistir com os olhos que a terra hão de apodrecer. Simplesmente farei alguns comentários sobre o que foi este evento realizado no Sambódromo do Anhembi na visão turva de um marinheiro de primeira viagem.

SETOR J: Enquanto pesquisava sobre todos os setores existentes no autódromo, pensava apenas em cifrões e dólares. Como nasci quebrado e não evoluí muito com o passar do tempo, não estava disposto a torrar muitos reais apenas para ver uns vultos coloridos passarem diante dos olhos. Achava que o que mais valeria a pena seria o ambiente festivo e principalmente o contato com os carros, os engenheiros, os pilotos e todos aqueles diretamente envolvidos com a Indy. Pensava que o pavilhão de exposições do Anhembi seria um lugar meio anárquico, onde todos andavam livremente entre rebimbocas e parafusetas. Por isso, a corrida se tornaria um propósito menor. Alerto para quem quiser ir à Indy pensando assim: você está sendo ingênuo pra caramba.

As impressões no pavilhão ficam pra depois. Falo apenas do Setor J. Se você possui escorpiões no bolso e pretende economizar, mate os escorpiões e prefira gastar um pouco mais. Nossa arquibancada era uma das mais baratas, mas você precisava se desdobrar para conseguir ter uma boa visão. Dependendo do lugar, a chance de você só conseguir enxergar manchas velozes durante milissegundos na reta do Sambódromo é altíssima. Mesmo assim, se quiser ignorar meus conselhos e comprar um tíquete para a J, o negócio é ficar nos degraus mais altos ou nas partes mais próximas do S do Samba (pior nome de curva que eu já vi), onde era possível acompanhar a freada dos carros. Caso contrário, você não conseguirá acompanhar muita coisa.

Eu tentei ficar o mais próximo possível do S do Samba, praticamente colado à cerca da arquibancada. Era um lugar bastante concorrido, ainda mais para as largadas e relargadas. Deu para ver, por exemplo, a rodada de Dario Franchitti e o engavetamento das últimas voltas. Além disso, foi possível acompanhar como cada piloto freava, reduzia as marchas e atacava a zebra. Sabe de uma coisa? Will Power e Dario Franchitti não são os dois melhores pilotos atuais da Indy por acaso.

RONCO DO MOTOR: Minha audição não é das melhores. Nunca foi. Há histórico de surdez na minha família. Portanto, qualquer opinião minha sobre as diferenças entre Chevrolet, Honda e Lotus não vale muita coisa. Para dizer a verdade, tentei identificar cada uma das marcas apenas pelo som e não consegui. O motor Lotus fazia um ruído um pouco mais grave e sofrido, mas nada que destoasse demais. Na prática, é tudo muito barulhento.

TOP SERIES: Logo após a qualificação da São Paulo Indy 300, houve a primeira etapa deste campeonato de endurance que surgiu a partir do racha da antiga GT3. Durante duas horas, Ferraris, Porsches, Ginettas, Lotus, Mercedes e protótipos abertos desfilaram no Sambódromo do Anhembi com alguns pilotos consagrados e muitos velhos ricos ao volante. Como era de se esperar, ninguém – e isso me inclui – teve saco para ficar vendo um punhado de grã-finos se divertindo. Mas uma coisa deve ser notada: o barulho dos carros era até maior que os da Indy. Tudo bem, algumas diligências pareciam estar equipados com motores de Brasília e um alto-falante no escapamento, mas eu gostei bastante.

TROCA DE MARCHA: GRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRAHAM RAHAL. Quem estava na reta do Sambódromo sabe do que estou falando.

ESTILOS DE PILOTAGEM: As diferenças entre um e outro piloto não são tão gritantes assim. Para quem já disputou centenas de corridas, não é tão difícil assim reduzir marchas, frear, esterçar, aumentar as marchas e acelerar. Mas se você tiver um olho clínico (coisa que eu, ex-míope, não tenho), poderá perceber algumas particularidades. Se tivesse de destacar um nome que me chamou mais a atenção, este seria o de Mike Conway, da AJ Foyt Racing. O inglês era um que freava bem mais tarde que os demais, fritando pneus em algumas ocasiões e pulando sobre a zebra do S do Samba sem dó. Era um estilo pilotagem bacana de se ver, ainda que não muito eficiente.

Não sei qual macumba Will Power e Dario Franchitti fizeram para serem mais rápidos no S do Samba, mas ela deu certo. Os dois freavam tarde, entravam na curva com o carro sob controle, não perdiam tempo e seguiam em frente numa boa. Não erravam e nem passavam com tudo sobre a zebra. Um estilo de pilotagem elegante sem ser demasiado conservador. O mesmo, infelizmente, não pode ser dito sobre Scott Dixon, um dos pilotos para quem mas torço na Indy. Dixon costumava frear com uma incômoda antecedência, sempre entrando na curva com alguém colado em sua traseira. Pode estar aí a explicação para tamanha diferença de resultados dentro da Chip Ganassi Racing.

Quem mais deu dó foi a coitadinha da Katherine Legge, que estava pilotando no Anhembi pela primeira vez na vida. Pilotando um carro ruim, ela raramente fazia o S do Samba da mesma maneira em duas voltas seguidas. Às vezes, fritava pneus e saía da pista. Outros que judiaram dos pneus e passearam fora com alguma frequência no fim de semana foram os dois britânicos da Dale Coyne Racing, Justin Wilson e James Jakes. Seria bom se a equipe aprendesse a regular os freios de seus monopostos.

DRENAGEM: Cá entre nós, os cinco milhões de reais que o Gilberto Kassab diz ter gastado para aperfeiçoar o sistema de drenagem do circuito foram na verdade utilizados para contratar um pai-de-santo que afastasse a chuva. Se foi isso mesmo, a decisão se provou correta: apenas algumas gotículas caíram durante as duas horas de corrida. Mas a chuva que caiu durante a madrugada de sábado para domingo simplesmente encharcou as arquibancadas. A passagem do setor J ficou um pouco alagada e alguns espectadores até se dispuseram a tirar um pouco da água com seus copos vazios de cerveja. Que tal o Kassabão reservar mais uns dois, dez ou duzentos milhões de reais para evitar que a egrégia família que paga caro pelo ingresso não tenha de atravessar um verdadeiro lago para encontrar um espaço na arquibancada?

PREÇOS: Sim, tudo era caro pra cacete no autódromo. Uma garrafa de água de 300ml custava quatro reais. Um copo de cerveja Itaipava comia horrendos seis reais de sua carteira. Um cachorro-quente custava dez. Um espetinho de carne era ligeiramente mais barato, tabelado em quatro reais – mas não espere ter encontrado mais do que uns cinco nacos de matéria bovina no palito. Se você quisesse comprar uma lembrança, as cifras alcançavam proporções geométricas. Uma jaqueta da Williams (Williams?) alcançava facilmente os 700 reais. A recomendação: tente não comprar absolutamente nada por lá.

ESTACIONAMENTO: Você poderia até aceitar pagar cem reais para deixar seu belo carro num dos estacionamentos próximos ao Anhembi, mas saiba que esta não é a decisão mais inteligente. Havia alguns oportunistas que cobravam um preço mais baixo apenas para você largar o carro em uma calçada – solução que acabei tendo de aceitar. O ideal era pegar um daqueles trocentos ônibus que a Prefeitura deixou de utilizar nos bairros pobres para alocá-los especialmente para a corrida. Por dez reais (não morra de susto), você poderia sair de qualquer ponto central de São Paulo e seguir até o autódromo tranquilamente. Com direito a ar-condicionado e ônibus vazio (obviamente, isso não valeu logo após o fim da corrida). Quem vinha de fora poderia até acreditar que o sistema de transporte coletivo paulistano era realmente um primor. Por fim, você poderia pegar um metrô até a estação da Barra Funda, mas aí seria necessário completar o caminho com uma longa caminhada.

OTÁVIO MESQUITA: Durante a corrida, ele apareceu lá embaixo, ao lado da arquibancada A. Todo mundo – eu estava no meio, é claro – começou a cantar “Otávio viado!”. O cara é sensacional. Olhou para todos, deu risada, levantou os braços e fez sinal de que estava de mal. O coro foi substituído por aplausos. Gente que leva as brincadeiras na esportiva é outra coisa.

HINOS: Luiza Possi cantou o americano. Oh, say, can you see by the dawn’s early light? Tudo bem, é tradição da Indy, faz todo o sentido nos Estados Unidos da América, mas a maioria das pessoas permaneceu com cara de paisagem enquanto a filha de Zizi Possi entoava a canção com notável competência. Quando acabou, alguns aplausos isolados e só. O hino brasileiro foi regido pelo maestro João Carlos Martins. Achava eu que, neste caso, as pessoas prestariam atenção, cantariam junto, ergueriam a bandeira brasileira, sei lá. Nada disso aconteceu. Ninguém deu bola, como costuma acontecer nos outros eventos por aqui. Por que o brasileiro que não canta o hino nacional é o mesmo que enche o saco quando uma pessoa diz não torcer pelo Brasil?

AVIÕES: “E agora uma surpresa para todos os que estão acompanhando a corrida. Olhem para a reta do Sambódromo!”, anunciou o locutor. Todos olharam. Dois caças da FAB deram rasante sobre o autódromo, deixando todo mundo doidão. Pouco depois, eles retornaram e passaram com tudo novamente. O sentimento geral era um misto de admiração e galhofa, típico do brasileiro. Em seguida, um pombo sobrevoou as arquibancadas A e J. O povo, que não perde a piada, também gritou e reverenciou a cada vez que a pobre ave voava sobre nossas cabeças. Foram poucas as vezes que eu ri tanto.

FAUNA: Num evento como a São Paulo Indy 300, você encontra tudo quanto é tipo de gente. Se você é elitista e não gosta de se misturar com a ralé, pode ficar aliviado: o nível dos espectadores é bem maior do que o de um Corinthians x Ponte Preta. Tiozões brancos de classe média compõem a esmagadora maioria, mas mulheres e crianças não são incomuns. Praticamente não vi estrangeiros: apenas um ou outro peruano e um branquelo que estava na arquibancada enrolado com a bandeira da Alemanha. Só não vá pensando que você irá encontrar um monte de aficionados por Fórmula Indy ou algo do tipo. A maior parte dos espectadores vê corridas apenas de vez em quando, ou nem isso: frequenta este tipo de evento deste tipo somente por ser internacional e propagandeado por alguma emissora de TV. Quase todo mundo conhecia Rubens Barrichello, Tony Kanaan ou Bia Figueiredo, a maior parte sabia quem eram Will Power e Dario Franchitti e praticamente ninguém conhecia o resto. Mas e daí? Você vai lá para ver a corrida e não para procurar fãs solitários de James Hinchcliffe.

LEITORES: Puxa vida, não é que encontrei por lá gente do bem que me lê ou ao menos diz que me lê ocasionalmente? Desnecessário falar da Bets, que é uma das poucas pessoas da Unicamp que não merecem a guilhotina. Junto dela, estava o Marco Antônio, o filho da mãe que conseguiu entrar no pavilhão sem credencial e que tem como seu messias Sir Frank Williams. E como não poderia deixar de mencionar o Álvaro e a Débora, que até apareceram numa reportagem do Sportv? Pura simpatia, os dois. Esbarramos no saguão do hotel Formule 1 e ficamos conversando alguns bons minutos, deixando minha namorada e meus amigos morrendo de raiva pela demora.

ARROZ DE FESTA: Eu esperava encontrar uma enxurrada de famosos, mas não foi bem assim. Otávio Mesquita à parte, vi poucas pessoas e nenhuma delas foi tão relevante assim para minha vida. Felipe Andreoli, repórter do CQC, passou perto de mim acompanhado por uma verdadeira comitiva de funcionários da Bandeirantes. Luciano Burti também apareceu, tirou foto comigo e deu autógrafo. Raul Boesel, idem. No meio de uma multidão, fui o único que reconheceu o Celso Miranda, narrador da TV Bandeirantes – ele retribuiu com um sinal de positivo.

PILOTOS: Ah, a parte mais interessante. Comento sobre os pilotos com quem tive algum contato:

ARIE LUYENDYK: Não sou modesto. Era o único cara naquele pavilhão que conseguia reconhecer pilotos antigos e obscuros, puta orgulho de bosta. O Holandês Voador passou na minha frente, com as mãos no bolso e semblante humilde. Gritei “Arie!” e pedi uma foto. Ele ficou surpreso: caramba, um moleque brasileiro sabe quem eu sou! Um detalhe me deixou surpreso: sua pele é bem mais morena que a minha. Devem ser os bons anos de praia e curtição na Flórida.

Tá vendo minha cara estranha aí? Um certo desconforto, medo de estar tomando o valioso tempo do supremo tetracampeão das galáxias

SÉBASTIEN BOURDAIS: Sabe aquela cara de nerd azedo que ele tem nas fotos? Pois ele é exatamente daquele jeito, um nerd azedo. A única coisa que chama a atenção é o gogó, quase um tumor que ocupa metade da garganta. Um senhor que estava do meu lado perguntou quantos anos o francês tinha. Quando respondi que Sébastien tinha por volta de trinta anos de idade, o senhor se assustou e disse que ele parecia ter uns quinze, de tão magrela e frágil que era sua aparência. A simpatia é aquela típica dos franceses, inexistente. Bourdais tirou fotos com todos, mas mal se aproximou dos fãs, manteve-se quieto e nunca tirou da cara aquele assustador e dúbio sorriso de Monalisa. Exigir simpatia em excesso é coisa de bobo, mas o cara é chato pra cacete.

DAVEY HAMILTON: Era um anônimo no Anhembi. Mesmo andando de macacão, ninguém se interessava pelo tiozão com cara de piloto da NASCAR. Mas eu o reconheci. Gritei “Davey!” e solicitei uma foto. Gente boa, deve ter ficado feliz por ter sido lembrado em plena selva amazônica e tirou a foto. Um playboy otário se aproximou e também tirou uma foto com ele. Depois, perguntou a mim quem era o ilustre com quem havia acabado de tirar uma foto. Quando respondi, o playboy desdenhou e comentou que “nunca tinha ouvido falar, mano”.  Pô, se nunca tinha ouvido falar, para que tirar a porra da foto e ainda fazer cara de desprezo? Um idiota, mesmo.

RUBENS BARRICHELLO: Impossível pensar em tirar foto com ele. Havia umas 100 milhões de pessoas aglomeradas se estapeando por uma mísera assinatura do ex-piloto de Fórmula 1. Nem me arrisquei, pois não queria ser pisoteado e morto.

KATHERINE LEGGE: A lanterninha do grid é a mais simpática das moças. Reconheci meio de longe e pedi uma foto. Uma legião de caras veio atrás, ao saber que ela era uma das três pilotas do grid. Legge não reagiu mal, tirou fotos com todos e manteve o sorriso no rosto. Um dos cidadãos ao meu lado comentou algo como “a minha mulher nunca vai acreditar que essa daí é pilota de corridas”. Depois das fotos, gritei um good luck, Kath. Ela sorriu e fez um sinal de positivo. Mas a minha zica já estava lançada. A inglesa bateu e abandonou cedo.

SIMONA DE SILVESTRO: Esta daqui foi um tremendo golpe de sorte para mim. E um azar danado dela. Estava saindo do pavilhão, resignado por não ter visto muitos pilotos, quando dei de cara com ela, totalmente desarmada. Estava dando autógrafo para uma família, mas com um semblante de pressa. Corri e pedi uma foto. Ela fez uma cara de “merda, quando esta gente vai parar de me encher o saco”, mas aceitou. Tirou a foto e até esboçou um sorriso amarelo. Depois, ainda mandei um “boa sorte” e ela não respondeu, apressada que estava. Deveria ter respondido. Caso contrário, não teria abandonado cedo a São Paulo Indy 300.

JOSEF NEWGARDEN: Esta é, sem dúvida, a melhor história que eu tenho para contar desta São Paulo Indy 300. Estávamos todos na cerca que separava os mortais do pessoal que tinha acesso ao pavilhão. Um bocado de gente esperando pelos pilotos brasileiros ou pelos Franchittis da vida. De repente, surge um moleque que, segundo a minha namorada, tem a cara do Ken, melhor confidente da Barbie. Será que é o Josef Newgarden?

Meio sem muita certeza, gritei “Hey, Josef, come here!”. Ele sorriu e veio correndo. Perguntei a ele se eu tinha sido o único que o reconheceu aqui?”. O cara deu risada e respondeu algo como “foi, sim. Eu estava andando ao lado do Dario Franchitti agora pouco e o pessoal só gritava FRANCHITTI, FRANCHITTI. Você foi o primeiro que me reconheceu aqui no Brasil”. Tirou uma foto e foi gente boa pra caramba. Outras pessoas se aproximaram e perceberam que o Ken ali era um dos astros da Indy. Newgarden aproveitou e tirou fotos com todas elas, feliz pelo fato de ter sido notado como piloto.

Em Long Beach, o pessoal da Indy o havia colocado para fingir que era um repórter qualquer. Josef perambulava pelas arquibancadas perguntando às pessoas “o que você acha daquele tal de Newgarden que fez o segundo tempo no treino classificatório?”. Sem reconhecê-lo, os espectadores diziam que acharam o resultado ótimo e o garoto muito bom, mas que nunca o tinham visto antes. Aí Josef se apresentava: “prazer, eu sou Josef Newgarden”. Bem-humorado, o campeão da Indy Lights no ano passado sabia que era provavelmente o menos conhecido entre todos os inscritos. Por isso, a real felicidade quando eu gritei seu nome.

PARÊNTESES: Somos todos idiotas. Os pilotos são figuras ariscas. Fogem dos fãs, não gostam de tirar fotos e não se preocupam em parecer simpáticos. É um pouco chato, pois são os otários que correm atrás de seus autógrafos que, na teoria, pagam seus salários e justificam suas longas e bem-sucedidas carreiras no automobilismo. Além do mais, realmente não consigo ver sentido em ser deliberadamente antipático. Um sorriso, um cumprimento ou um tapinha nas costas podem representar a diferença entre um novo torcedor e um eterno detrator. Felipe Massa e Ayrton Senna que o digam.

Por outro lado, os fãs e os espectadores são inconvenientes pra caramba. Sou obrigado a me incluir aí no meio. Quando Dario Franchitti passou por perto, gritei algo como “ei, Dario, deixa o Will Power ganhar um título”. Uma gracinha minha que, sinceramente, não tinha nada a ver. Todos exigimos do piloto que ele seja bom e ainda cumprimente, ature nossas bobagens e sorria como se fosse um candidato a presidente. Se ele não satisfaz nossas expectativas, torna-se um idiota, um filho da puta arrogante. Vi uma menina gritando “Bia, sua nojenta” só porque a pilota brasileira não sorriu e não tirou 314 fotos com toda a pátria. Patético. Por mais que não aceitemos, celebridades também têm o direito de não querer dar um autógrafo ou exibir um sorriso amarelo para agradar a meia dúzia de manés. Somos todos idiotas.

Mas que o Bourdais é um nerd azedo, isso ele é.

Não foram dois nem três os que elogiaram a pintura que o Dallara-Honda nº 10 que o escocês Dario Franchitti utilizará na São Paulo Indy 300 deste próximo fim de semana. O tetracampeão, algoz dos sofridos torcedores de Will Power, Hélio Castroneves e Scott Dixon, entrará na pista vestindo um pretinho básico adornado com um pouco de dourado, combinação bastante elegante e chique. Cortesia da Lexar, uma empresa californiana que diz produzir cartões de memória, quando todos nós sabemos que algum chinês estropiado é o responsável por tais maravilhas da tecnologia em troca de alguns dólares mensais.

Todos nós que acompanhamos minimamente a IndyCar Series sabemos que o carro de Franchitti é vermelho, vermelhaço, vermelhusco, vermelhante, vermelhão. Tal rubor é associado à rede varejista Target, que patrocina a Chip Ganassi Racing desde 1990 a.C., sendo esta uma das parcerias mais longevas da história do esporte a motor. Com isso, nosso Dario, piloto da Ganassi desde o fim de 2008, não pode sequer sonhar em comprar uma caixa de fósforos na Best Buy ou na Kmart.

O relacionamento da Target com a Chip Ganassi é uma das provas de como este negócio de patrocínio no automobilismo pode funcionar bem ao menos nos Estados Unidos. Hoje em dia, são poucos os que dissociam a equipe de Franchitti e Scott Dixon da rede de lojas. Além do mais, os não-americanos puderam tomar um contato inicial com a marca, cujo logotipo é bem simpático. Manipulável como sou, se estivesse na Gringolândia, só compraria minhas besteiras na Target. Buy at Target.

Inteligentemente, a rede utiliza a Chip Ganassi Racing como uma forma de promover alguns dos produtos oferecidos nas suas lojas. Em algumas corridas das últimas temporadas, a empresa se dispôs a conceder seu enorme espaço no carro de Dario Franchitti (o de Scott Dixon quase nunca muda, é sempre vermelho e branco) a algumas marcas mais privilegiadas. Com isso, ocasionalmente, Franchitti acaba utilizando pinturas diferentes e promovendo outros produtos. Coisas que só a Indy faz por você.

E vou te falar uma coisa, esta tática funciona. A Target sai ganhando porque as marcas exibidas provavelmente devem ter contratos especiais com a rede: se você quer comprar o Desodorante do Alceu anunciado na Chip Ganassi, provavelmente encontrará ofertas melhores na Target do que nas suas concorrentes. As empresas que aparecem nos carros obviamente se dão bem por simplesmente aparecerem ao mundo a um custo baixíssimo. A Chip Ganassi Racing embolsa muito no meio disso tudo. E os fãs acham o máximo e ficam sempre esperando ansiosamente pela próxima pintura exclusiva que Dario Franchitti levará à vitória.

No geral, os layouts não decepcionam. Um ou outro acaba tendo uma disposição meio bizarra de cores, mas geralmente é mais por causa da carroceria, que não é a coisa mais harmônica do mundo. A maioria das pinturas, no entanto, é legal pacas. Elas podem até nem ser tão bonitas, mas certamente se destacam. O Top Cinq apresenta alguma delas. Só uma coisa: não estou repetindo cores.

5- IOWA/2009

Muita gente deve ter torcido o nariz para esta escolha aqui. De fato, este verde-limão com aparência de vômito de quem não comeu nada não é das coisas mais agradáveis do mundo para quem tem visão sensível ou fotofobia, o que não é meu caso. Eu gostei. Acho este tipo de cor, que também chegou a ser utilizada pelo francês Nelson Philippe em algumas corridas da temporada de 2009, interessante para um carro de corrida. Em termos de chamar a atenção, é imbatível.

O patrocínio que aparece aí é o da Tomtom, que fabrica sistemas GPS. A Tomtom aparece no carro da Chip Ganassi desde aquele ano de 2009, sendo uma das marcas que se destacam mais até mesmo no layout convencional. Vale notar que a equipe utilizou esta pintura também na corrida de Milwaukee, realizada um mês antes. Em 2011, Dario Franchitti voltou a pilotar um carro verde-limão, mas desta vez ele era patrocinado por uma outra empresa e ainda tinha as asas pintadas em azul claro. São outros bugalhos, portanto.

Nesta corrida de Iowa, Franchitti obteve sua segunda vitória na temporada. Tinha carro para marcar a pole-position, mas acabou ficando apenas na quarta posição no grid de largada de apenas vinte carros. Mesmo assim, não desanimou e partiu para cima dos adversários, sabendo que seu Dallara-Honda estava melhor acertado que o resto. Na última rodada de pit-stops, ultrapassou nosso querido Bryan Riscoe e tomou a ponta definitivamente. Ganhou e fez o pódio ficar com o visual um pouco mais gritante do que o normal naquele domingo.

4- CHICAGO/2010

Se alguém conseguir identificar esta cor normalmente, agradeceria. Tudo indica que se trata de um azul escuro, muito escuro, tão escuro quanto o Mussum vestido de terno à noite. Mas pode ser que seja um roxo escuro. Ou simplesmente preto, o que é menos provável. Como cores coadjuvantes, temos também alguns detalhes em laranja e cinza. Muito de longe, lembra a pintura da equipe KV Racing utilizada em 2009 e em 2010.

Azul, preto ou roxo, o que importa é que o carro de Dario Franchitti ficou diferente. Não diria que ficou tão legal assim, mesmo porque há pinturas que eu até gostei mais que acabaram ficando de fora. Só que eu simplesmente não quis repetir as cores e tive de buscar um layout diferente para completar a lista, paciência. Quem pagou pela mudança foi a Breathe Right, que é um negócio que você coloca no nariz para desentupi-lo. Assim, dá para respirar corretamente, como o próprio nome indica. Eu prefiro apertar um dos lados do nariz e forçar o outro lado para tirar todas as porcarias que atrapalham a respiração, mas não recomendo a ninguém pelo grau de primitivismo e deselegância da operação e pela possibilidade de voar ranho nos outros.

Sem problemas respiratórios, Franchitti utilizou esta pintura apenas na corrida de Chicago em 2010. E adivinhem o que aconteceu? Ele largou da segunda posição e ficou preso no meio do bolo durante a maior parte do tempo. Em alguns momentos, perdeu um bocado de tempo. Faltando trinta voltas para o final, todo mundo foi para os pits fazer a última troca de pneus. Dario, nono colocado naquele momento, decidiu permanecer na pista sem fazer o pit-stop. Funcionou: ele assumiu a liderança, conseguiu segurar Dan Wheldon, venceu a prova e praticamente sacramentou seu terceiro título na Indy. Desceu do carro e respirou aliviado.

3- CHICAGO/2009

Um ano antes do layout respiratório, Dario Franchitti foi obrigado a conduzir um berrante carro amarelo em Chicagoland, oval mais veloz de Illinois. Foi, até onde eu sei, o único carro desta cor que o escocês pilotou na vida, informação que não vale nem para rodinha de boteco. Mas não importa. Não costumo gostar de carros amarelos, mas a Chip Ganassi conseguiu fazer um trabalho visual muito competente. Carroceria amarela como japonês com cirrose, aerofólio traseiro preto e um adesivo da Lifelock. Muito simples. Não há como dar errado.

Lifelock? Pelo que eu entendi, trata-se de uma espécie de sistema que protege o cidadão de ter seus dados roubados e utilizados em compras de cartão de crédito, empréstimos, hipotecas e coisas afins. Você paga uma taxa mensal e, voilà, está protegido. OK, nem tanto. O próprio CEO da empresa teria tido suas informações roubadas e utilizadas nada menos que treze vezes! Ainda assim, não vou advogar contra a empresa. Eles patrocinaram o italiano Massimiliano Papis na Indy 500 de 2008 e garantiram a ele um carro muito bonito, todo vermelho, cinza e preto. No ano seguinte, decidiram apoiar alguém com um pouco mais de sucesso, Franchitti.

Não sei qual é a relação entre a Lifelock e a Target, já que não dá para sair por aí vendendo serviços de proteção de identidade em supermercados. É provável que a Lifelock seja apenas uma apoiadora à parte, mas tudo bem. O caso é que Dario Franchitti pilotou o carro amarelo nas etapas de Chicago e Motegi.

Em Chicagoland, mesmo dirigindo um míssil amarelado, Franchitti não apareceu muito. Largou em terceiro e terminou em quarto. Lá na frente, Ryan Briscoe, Hélio Castroneves e até mesmo Scott Dixon disputaram a vitória. Ganhou o australiano, que teve de fazer uma bela corrida de recuperação após perder tempo no tráfego e em um dos pit-stops. Em Motegi, foi um pouco melhor e terminou em segundo, mas ainda atrás do companheiro Dixon. Amarelo é a cor da sorte? Até parece…

2- KANSAS/2010

As duas primeiras posições são altamente merecidas e quem discordar é corno. A foto aí em cima retrata uma das pinturas mais bonitas que um Dallara IR já recebeu. Um tom de azul que puxa um pouco para o cinza acompanhado por detalhes em azul claro, branco ou cinza. Descrever é insuficiente. Apenas olhe a foto. Carros azuis dificilmente são feios, mas este daí é um exemplo para quem quer criar uma pintura que se preze.

Nos últimos anos, Dario Franchitti pilotou carros azulados da Chip Ganassi em várias ocasiões. Em algumas delas, usou um layout azul claro representando a Cottonette, que nos evita de limpar a orelha com a tampa da caneta. Em outras, seu Dallara ganhou um banho de azul turquesa e o resultado ficou muito bom. Mas nenhum dos esquemas visuais bate o da corrida Kansas em 2010, que também foi utilizada em Iowa no ano seguinte.

Quem pagou a conta foi a Suave, uma das milhares de marcas pertencentes ao grupo Unilever. O que é essa tal de Suave? É uma marca de motosserras, espingardas e dinamites destinados a ogros e vikings. Ah, desculpe, me enganei. É uma linha de xampus, sabonetes, loções e desodorantes voltada para a ralé americana, composta por gente que vive hipotecando a casa. Por ser uma marca mais popular, ela vende como pão fresquinho em redes varejistas como a Target.

Franchitti não venceu nenhuma das duas corridas suaves. No GP do Kansas de 2010, ele largou em terceiro e terminou em segundo, sempre escoltando o companheiro Scott Dixon. No GP de Iowa do ano seguinte, o escocês começou muito bem, tendo pulado da sexta posição para a primeira logo no começo. Liderou o maior número de voltas, mas teve um problema no último pit-stop e caiu para o meio do pelotão. Terminou numa frustrante quinta posição.

1- TORONTO/2010

Carros esverdeados são um tabu no automobilismo. Talvez aquele verde-limão escalafobético lá de cima seja até mais comum, dependendo da categoria. Por ser uma cor mais sóbria, o verde acaba sendo deixado de lado em um esporte onde chamar a atenção é uma parte importante do negócio. Se pensarmos também que se trata de uma cor pouco mercadológica, que não dá para conciliar com muitas marcas, é possível compreender um pouco mais o fato de haver pouco verde nas corridas e um ou outro na blogosfera. Pena.

Pela Chip Ganassi, Franchitti chegou a utilizar mais de uma pintura esverdeada. Nenhuma melhor do que esta, que só deu as caras em apenas uma ocasião, o GP de Toronto de 2010. Defino, desde já, como o carro mais bonito que Dario já pilotou na Indy. O tom de verde utilizado, discreto sem ser apagado, é sensacional. E as partes em branco e verde-limão não ficaram destoantes. Pareço um estilista de óculos quadrados falando todas estas abobrinhas, então fique aí com a foto e tire suas conclusões. Mas não se meta a falar mal do carro.

Pena que a marca associada aí seja a AirWick. Sabe aquela história de fazer cocô na casa do Pedrinho? Pois é, a AirWick faz aquele troço que dissemina um delicioso cheiro de lavanda em um banheiro que fede a bosta velha, resultando num blend singular. Sim, eu sei que o Pedrinho gosta de outra marca, mas o exemplo está dado. Este é mais um daqueles produtos de dona-de-casa que a Target vende aos montes e que aparecem ocasionalmente nos carros de Scott Dixon e Dario Franchitti. Já comentei aqui que gosto deste tipo de anunciante. É mais simpático do que aqueles patrocinadores da Fórmula 1 que fabricam coisas que nem existem de verdade.

Voltemos a Toronto/2010. O resultado da corrida, infelizmente, não foi muito favorável a Dario Franchitti, que terminou atrás de seu maior adversário no campeonato, o australiano Will Power. Dario largou em quinto e subiu rapidamente para a terceira posição, sendo um dos candidatos a vitória ao lado de Power e do inglês Justin Wilson. O piloto da Chip Ganassi chegou a liderar umas vinte voltas, mas acabou voltando atrás de um monte de gente após seu último pit-stop e não conseguiu nada além do segundo lugar. É a maldição da cor verde, que não ganha nada desde os tempos de Jim Clark.

Previsão para o próximo sábado em São Paulo: água molhada de manhã, água aguada à tarde e água vinda do céu à noite. No domingo, mesmíssima coisa. Na segunda, a cachoeira dá uma diminuída, mas nada que empolgue demais os que clamam por sol. Na terça, e aí sim, tudo fica um pouco menos encharcado. Mas aí já é tarde demais.

Estarei em São Paulo para assistir à São Paulo Indy 300, o evento automobilístico mais maravilhoso do mundo de acordo com alguns prefeitos e donos de emissoras televisivas por aí. Não se trata de uma verdade absoluta, mas ao menos é uma boa oportunidade para nós, roceiros do interior paulista, vermos um carro de corrida potente e moderno ao vivo. Porque é chato morrer e chegar ao além dizendo que a coisa ambulante mais tecnológica que fulano viu em vida foi um trator da Massey Ferguson.

O problema é essa chuva aí. Nesta quinta-feira, uma frente fria ordinária avançou sobre os estados da Região Sudeste e trouxe chuvas, ventos, trovões, caos e destruição. Tudo bem, nem tanto. Mas serviu para deixar o sol em segundo plano, atrás de volumosas e ameaçadoras nuvens cinzentas. Como fazia razoável calor por aqui, o choque das massas quente e fria acabou resultando em temporais. Complicado será se isso acontecer durante a corrida, prevista para o próximo domingo durante a hora do almoço.

Nos últimos dois anos, choveu pra cacete durante a prova paulistana da Indy. A ponto de, no ano passado, obrigar a organização a adiar tudo para a segunda-feira de manhã, uma ideia bizarra e insensata para uma cidade que congestiona tão facilmente até mesmo em horários estranhos. Como Prefeitura e organizadores parecem ser incapazes de minimizar os problemas que os tormentos naturais trazem, o negócio é rezar para todos os deuses e semideuses pedindo um clima mais sequinho para o domingo. Qual é a chance de isso acontecer? Baixa.

Pelo menos, se acontecer, será possível apreciar a condução dos sujeitos mais doutos na arte de pilotar a duzentos e tanto por hora. Os mais incompetentes que se arrebentem no muro e animem um pouco o circo. Legal vai ser ver como um Will Power, um Dario Franchitti, um Scott Dixon se comportam em pista molhada, se beltrano freia mais tarde que sicrano ou fulano tira o pé mais cedo que os demais, esses detalhes míseros que só dá para perceber ao vivo.

É bacana ver que a Indy anda sendo um pouco menos amedrontada que a Fórmula 1 quando se trata de correr em condições precárias, inclusive as climáticas. Não que seus pilotos sejam obrigados a enfrentar poças gigantescas e tempestades de granizo sem direito sequer a uma boia de patinho, mas ela ao menos também não obriga todo mundo a parar tudo, trocar os pneus e permanecer atrás do safety-car só porque dois infelizes cuspiram na reta dos boxes. Na verdade, a Indy nunca se notabilizou por ser tão permissiva com a chuva. A Fórmula 1, sim, é que mudou para pior.

Depois da morte de Ayrton Senna, a segurança do esporte deixou de ser boiolice e se transformou em uma insalubre obsessão. Perdidos entre as fronteiras do automobilismo, do comércio e da psicopatia, organizadores, pilotos e espectadores da Fórmula 1 começaram a confundir a inegável necessidade de melhorar alguns pontos falhos das corridas e dos carros com o exagero de podar tudo aquilo que caracteriza o esporte a motor. Pistas velozes viraram tabu, comportamentos mais agressivos foram coibidos, a velocidade e o desenvolvimento tecnológico foram restringidos ao máximo e a chuva se tornou um negócio indesejado.

Há quem chame isso de evolução. São aqueles bundões que celebram o fato do automobilismo ter deixado de ser um negócio carniceiro e sociopata. Os mesmos que acham que correr na chuva é inútil, que gostar de acidentes é coisa de retardado mental e que zebras não devem acontecer. Eu vou dizer o que é isso. Esse tipo de gente conta piadas, mas nunca envolvendo etnias, religiões ou coisas polêmicas. Bebe, mas só socialmente. Vê futebol, mas nunca no estádio, só no pay-per-view. Viaja, mas só por pacotes e sempre para os mesmos lugares batidos de sempre. Se escandaliza com qualquer bobagem. Enfim, são basicamente pessoas chatas que conseguem deixar tudo chato, chato, chato. Que não têm o menor constrangimento de militar contra tudo aquilo que é considerado imoral e incorreto: álcool, cigarro, comida gordurosa, esportes radicais e, por que não, corridas?

A Fórmula 1 atendeu aos clamores desta gente. Jogou no lixo tudo aquilo que caracterizou o automobilismo durante umas sete ou oito décadas: o perigo, a liberdade, a anarquia, a criatividade, o destemor, a incerteza. Virou algo feito para a família, incluindo aí a vovó, o netinho e o cachorro. Para eles, é óbvio que mostrar carros capotando e explodindo em bolas de fogo não é o recomendado.

Antes que algum analfabeto com sérias dificuldades de leitura me impute algum distúrbio psiquiátrico, respondo: não, não sou um maluco que gosta de ver o colega de espécie sofrer. Sim, gosto de acidentes, desde que o sujeito saia inteiro do meio dos destroços. Acho apenas que antes da FIA falar tanto em segurança para pilotos, que são homens que se dispõem a andar muito mais rápido do que o recomendado sabendo que podem morrer a qualquer hora, seria mais interessante se a federação brigasse por mais segurança para o motorista comum, aquele que nunca se interessou em brincar com a morte e que só quer ir do ponto A ao B da maneira menos aborrecida possível. Vale notar que uma das funções do FIA World Council for Mobility and the Automobile é exatamente essa, deliberar sobre o bom uso do automóvel.

Enquanto ninguém me escuta, e eu sei que isso nunca vai acontecer, o negócio para quem pensa mais ou menos como eu é buscar categorias mais desencanadas. A Indy, com todos os seus defeitos, ainda é um pouco assim. Ela realmente se abalou com a morte de Dan Wheldon no ano passado, mas não precisou atirar o passado na lata de lixo e recomeçar do zero como faria sua prima rica da Europa. O pessoal do automobilismo americano lida com as circunstâncias do esporte, e a morte é apenas mais uma delas, com mais naturalidade. Se alguém morreu na chuva, paciência. Verifica se há algum risco maior que deve ser minorado e segue competindo debaixo d’água. Toca pra São Paulo!

São Paulo, a terra da garoa. Que está cada vez mais rara, diga-se, pois a intensidade das chuvas vem aumentando nos últimos anos. O que não quer dizer que o passado também não nos tenha reservado alguns momentos de verdadeiro dilúvio para as corridas realizadas na capital paulista.

Em 1996, o negócio ficou feio para quem se encontrava em Interlagos naquele último dia de março, o mês das águas que fecham o verão. A tempestadeera tanta que fazia mais sentido promover uma competição de submarinos. Mesmo assim, a Fórmula 1 decidiu largar, e sem safety-car nem demais bobagens. Não havia visibilidade ou estabilidade alguma na pista, mas fazer o quê? Os pilotos saberiam se virar. Não são ricos e idolatrados à toa.

É verdade. Após duas horas, ninguém havia morrido e os prejuízos foram baixos. Quem assistiu até o fim se divertiu. E os quatro da foto aí?

Damon Hill, 35, foi o vencedor da corrida. O filho do Graham sempre gostou de andar na chuva, tendo registrado alguns resultados memoráveis nestas condições, como as indiscutíveis vitórias no GP do Japão de 1994 e no GP da Argentina de 1995. Naquele dia em Interlagos, ele era o dono da bola: tinha o carro mais rápido do grid com sobras e um companheiro que parecia nunca ter visto água caindo do céu na vida. Fez a pole-position, disparou na largada, marcou a volta mais rápida e ganhou o Grande Prêmio do Brasil com 18 segundos de vantagem para o segundo colocado. Fazer mais do que isso, só se botasse ovos de ouro.

Jacques Villeneuve, 25, era o comandante do outro carro azul e branco. Bonzão dos Estados Unidos, tinha acabado de desembarcar no planeta da Fórmula 1 e já colocava suas manguinhas de fora, tendo ido excepcionalmente bem na pré-temporada e marcado a pole-position na Austrália. Seu calcanhar de Aquiles era a chuva: ele só havia feito uma única corrida nestas condições nos tempos da Fórmula 3. Completamente fora do seu habitat natural, Villeneuve não conseguiu partir da primeira fila e embora tenha feito uma boa largada, não ficou na pista durante muito tempo na corrida. Rodou sozinho na volta 26 e deu adeus à sua segunda corrida molhada na carreira.

Rubens Barrichello, 23, foi o homem mais celebrado de seu país no dia anterior, quando obteve um improvável segundo lugar no grid com um limitado Jordan-Peugeot. No domingo, voltou a ser o Barrichello execrado de sempre – e ele deu alguns bons motivos para isso. Almejou passar Damon Hill logo nos primeiros metros e tudo o que conseguiu foi perder posições para Jacques Villeneuve e Jean Alesi na primeira curva. Tentou de todas as formas ultrapassar o francês da Benetton, mas conseguiu receber o troco em todas as vezes. Após o segundo pit-stop, ainda perdeu uma posição para Michael Schumacher. No final da corrida, meio de saco cheio, sonhou em se aproximar do alemão e rodou sozinho na Subida do Lago, deixando a prova. Foi apenas a segunda consecutiva de uma série de frustrações que marcariam o brasileiro em sua corrida doméstica.

Martin Brundle, 71, era o experiente companheiro de Rubens Barrichello na Jordan-Peugeot. Estava na Fórmula 1 desde 1984 e parecia não ter muito mais o que fazer na vida. Na chuva, era apenas mais um. Por isso, seu sexto lugar no grid surpreendeu a muitos. A largada foi ainda melhor e Brundle chegou a ocupar a quarta posição por alguns segundos, mas escapou na curva 3 e voltou à realidade. Andou quase sempre entre a sexta e a décima posição até rodar e abandonar a corrida. Um dia que começou bem e terminou deprimente para Eddie Jordan e seus pupilos.

Nem sei o porquê de ter escrito tanta baboseira. Somente fui jogando ideias e intercalei coisas que não tinham nada a ver. Acho que meu cérebro está apodrecendo. Deve ter a ver com o mofo que invadiu o meu quarto. E a culpa disso só pode ser da chuva, é claro.

O título é estranho, então explico. Há poucas horas, a equipe Andretti Autosport soltou no Twitter aquela que será a pintura utilizada pela pilota brasileira Bia Figueiredo na São Paulo Indy 300, que será realizada na semana que vem. Não há surpresas. Assim como nos dois últimos anos, Bia pilotará um carro azul e amarelo patrocinado pelos postos Ipiranga na corrida paulistana. O layout até mudou um pouco, para dizer a verdade. Há mais amarelo e o azul escuro deu lugar a um tom mais claro. Gostava mais da pintura anterior, mas tudo bem. O que importa é que a Ipiranga permitiu que quatro brasileiros participassem da tão esperada corrida da Indy.

A Ipiranga é espertinha. Sabe que a São Paulo Indy 300 será bombardeada a todos os espectadores da TV Bandeirantes, que poderão ver horas e horas de tudo o que se passa no circuito do Anhembi. É uma pena que a digníssima emissora só se lembre da Indy nestes dois dias, mas isso não vem ao caso aqui. Como Bia Figueiredo é brasileira e é menininha, muita gente estará prestando atenção nela. As empresas que aparecem no seu carro, no boné ou no macacão agradecem.

Em vários casos, a IndyCar Series é vista com mais interesse e simpatia por parte das empresas brasileiras do que a própria Fórmula 1. Como as cifras envolvidas são drasticamente menores, estas empresas concluem que apoiar um piloto numa categoria top sem gastar tanto e sem precisar expor sua marca em tantos mercados sem grande utilidade pode ser bastante compensador. Ainda mais se há corridas da categoria no Brasil, como é o caso. Não por acaso, é muito mais fácil enumerar grandes empresas tupiniquins na Indy do que na Fórmula 1.

O Top Cinq de hoje mostra alguns carros e pilotos que se deram muito bem com este afluxo de patrocinadores. São carros patrocinados por mais de uma companhia sediada aqui ou ao menos a filial brasileira de uma empresa internacional. Para um espectador comum, é fácil reconhecer as marcas que aparecem no bólido, as mesmas que ele consome. Eu pessoalmente acho divertido. É bem mais legal ver um carro que se parece com um folder de supermercado do que uma Force India e seus patrocinadores de mentirinha.

5- GUALTER SALLES, DALE COYNE, 2003

O fluminense Gualter Salles, atualmente um habilidoso jogador de pôquer, foi um daqueles pilotos de ótimo talento que nunca tiveram uma oportunidade de correr uma temporada completa por uma equipe média. Uma das grandes atrações da Indy Lights em 1996, Salles tinha duas propostas em sua mesa para 1997: piloto da equipe Patrick durante seis corridas ou piloto da novata Davis Racing em todas as etapas. Ansioso, ele escolheu a Davis e se deu mal, ficando preso a uma equipe que não conseguia sequer pagar pelos motores utilizados.

Salles sempre demonstrou talento, ainda que não fossem muitos os que prestassem atenção, e fez seu nome entre as equipes pequenas. Além da Davis, representou também a Payton-Coyne (associação entre Dale Coyne e o falecido jogador da NFL Walter Payton), a própria Dale Coyne, a Bettenhausen e a All American Racers. Infelizmente, nunca conseguiu uma vaga numa equipe melhor. Em 2001, tentou permanecer na Dale Coyne, mas a equipe anunciou que deixaria de participar da temporada, deixando-o a pé.

Salles voltou para o Brasil e decidiu fazer sua carreira na Stock Car V8. Sua passagem pelos Estados Unidos, a princípio, havia chegado ao fim. Mas um telefonema do próprio Dale Coyne em 2003 mudou as coisas. “Gualter, estou te chamando para fazer um teste em Nazareth. Se for bem, você corre em Milwaukee. O que acha?”. Como ele poderia recusar? Mesmo disputando a Stock Car, ele tentaria dar um jeito e encaixaria os calendários das duas categorias.

A Dale Coyne precisava de um cara experiente e com alguma habilidade. Naquele ano de 2003, a equipe teve de aturar em seus carros sumidades como Roberto Gonzalez, Joël Camathias, Geoff Boss e até mesmo o improvável Alex Yoong. Salles chegou à equipe e não teve como fazer milagres em um carro ruim, batendo na volta de apresentação da corrida de Vancouver e tendo um sexto lugar em Surfers Paradise como seu melhor resultado.

Na sua nova empreitada pela equipe de Dale Coyne, Gualter Salles teve alguns bons apoios do Brasil. Um deles é a empresa de planos de saúde Golden Cross, que eu nunca mais vi aqui em Campinas. Ela estampava um grande adesivo no carro de Salles na Stock Car, mas curiosamente não aparecia muito no Lola-Ford. Além da Golden Cross, a prestadora de serviços ambientais Alpina e a rede especializada em ar-condicionado automotivo Refricentro também o patrocinavam. A Refricentro o apoiava desde os tempos da Indy Lights, enquanto que a Alpina foi a parceira mais recente de todas e estampou o maior dos adesivos no carro do piloto de Niterói. Empresas não muito grandes que apareceram para o mundo naquele bólido amarelado.

4- LUIZ GARCIA, ARCIERO PROJECT, 2000

Se Gualter Salles era um piloto claramente capacitado que nunca conseguiu uma oportunidade decente, o brasiliense Luiz Garcia Jr. era uma grande incógnita. Ele até fez seus bons resultados na Fórmula 3 britânica, na Fórmula 3000 britânica (não confundir com o certame internacional) e na Indy Lights, mas nunca foi considerado o grande nome do período. Por ter competido em uma época na qual muitos brasileiros conseguiram resultados realmente impressionantes, ser apenas um bom piloto não o deixava em evidência.

Garcia Jr. aparece duas vezes no Top Cinq de hoje. Em 2000, após um primeiro ano complicado pacas, ele finalmente conseguiu uma equipe definitiva. Bem, não era lá uma grande equipe. Na verdade, era uma das piores do grid. Os donos das equipes Arciero e Project Indy, velhas participantes do fim do pelotão, decidiram unir forças e montaram uma estrutura que ainda era uma das menores do grid. Nomeada Arciero Project Racing Group, a nova equipe tinha chassi Reynard e motor Mercedes, por incrível que pareça considerado o mais fraco do grid.

Luiz Garcia Jr. só queria terminar a temporada e fazer alguns pontinhos. Conseguiu. Terminou em 12º em quatro ocasiões e até se atreveu a obter um 11º em Michigan, sua melhor posição na carreira. Considerando que teve problemas mecânicos na grande maioria das provas, pontuar em cinco delas pode ser considerado uma façanha. Perto de gente como Takuya Kurosawa, Norberto Fontana e Shinji Nakano, até que Luiz fez seu trabalho com bastante dignidade.

Mas é errado dizer que o brasileiro não chamava a atenção. Naqueles bons dias da CART, havia um concurso que premiava a melhor pintura da temporada com verdinhas americanas. Quem ganhava, na maioria das vezes, era Mauricio Gugelmin e sua pintura tricolor da Hollywood. Em 2000, Garcia também passou a ser patrocinado pela Hollywood e acabou roubando de Gugelmin o prêmio de melhor pintura do ano. Não havia muita diferença entre as pinturas de um e outro, é verdade. Além dos cigarros fabricados pela Souza Cruz, Luiz também era apoiado pela Embratel, pela Varig, pelo Banco Sofisa e, ufa, pelos sucos Tang. Alguém imagina um piloto do fim do pelotão hoje em dia com tanto patrocínio?

3- LUIZ GARCIA, PAYTON-COYNE, 1999

Olha ele aqui outra vez! Antes de fazer um ano correto pela Arciero Project, o brasiliense Luiz Garcia Jr. pagou os seus pecados e os de toda a família em um ano em que poucas coisas deram certo. No fim de 1998, após duas temporadas na Indy Lights e uma vitória em Vancouver, ele foi atrás de um lugar na CART, que era naquele momento um sonho quase tão disputado quanto o da Fórmula 1 aqui na Brasilândia. Os patrocinadores não eram um grande problema, mas a relativa discrição de seu currículo e a falta de boas vagas jogavam no time contrário.

Mesmo assim, Garcia Jr. conseguiu arranjar seu espaço na CART. No início de 1999, graças aos muitos patrocínios que sempre o acompanharam, ele foi contratado pela Payton-Coyne para fazer o máximo de corridas que dava em um terceiro carro da equipe. Foi um acordo de última hora e não foi possível fazer qualquer teste na pré-temporada. Com isso, o início foi difícil: na primeira corrida, no oval de Homestead, Luiz se envolveu em um acidente múltiplo logo na primeira volta e abandonou. Para se preparar melhor para a Rio 200, teve de se ausentar da etapa de Nazareth. Seu carro e motor eram de 1998, uma tremenda desvantagem em relação ao resto.

Após a etapa do Rio de Janeiro, Garcia ficou de fora das duas corridas seguintes pelos mesmos problemas financeiros de sempre da Payton-Coyne, que passava por enormes apuros graças ao câncer que deteriorava a saúde do sócio Walter Payton. Esse negócio de tentar manter três carros era uma loucura e apenas os patrocinadores mexicanos de Michel Jourdain Jr., que pilotava o carro 19, conseguiam financiar uma temporada completa. Após a etapa de Elkhart Lake, Garcia acabou deixando a equipe e foi atrás de outro lugar para terminar a temporada.

O que chamava a atenção era a pintura de seu carro. Graças ao patrocínio da Tang, que faz aquele suco em pó que as crianças adoram e os nutricionistas odeiam, o Reynard-Ford nº 77 era predominantemente verde com partes em vermelho e branco. Lembrava muito de longe a pintura mexicana utilizada por Adrian Fernandez, embora eu gostasse mais da do brasileiro por ser menos poluída. Além da Tang, o carro também estampava o logotipo da Petrobras (não aparece na foto, mas tudo bem) e da Vasp, a velha de guerra. Muita gente hoje em dia daria tudo para ter o número de apoiadores que Luiz Garcia Jr. teve nos seus dias na CART.

2- RAUL BOESEL, DICK SIMON, 1992

Após 75 corridas e algo em torno de 740 mil dólares obtidos em prêmios, o paranaense Raul Boesel havia chegado a uma fase complicada na sua carreira na IndyCar Series. Embora não tenha dado certo na Fórmula 1, Boesel era um piloto bastante competente e o título com a Jaguar no Mundial de Protótipos de 1987 não me deixa mentir. Na Indy, onde havia estreado em 1985, ele tinha tido alguns grandes momentos, como o terceiro lugar nas 500 Milhas de Indianápolis de 1989. Mas em uma categoria de Emerson Fittipaldi, Mario Andretti, Al Unser Jr., Bobby Rahal e outros ganhadores costumeiros, era difícil ser alguém que nunca havia vencido uma corridinha sequer.

Boesel não havia disputado a temporada de 1991, já que havia decidido fazer a temporada completa da IMSA. Fez um ano bom, mas distante do título. A vontade dele era voltar à Indy em 1992. Pois o destino conspirou a favor. O japonês Hiro Matsushita, aquele que irritou Emerson Fittipaldi, sofreu um acidente pavoroso nos treinamentos das 500 Milhas de Indianápolis e arrebentou a perna direita. A Dick Simon Racing, equipe de Matsushita, teve de correr atrás de um substituto às pressas. Encontrou Raul Boesel, que não havia disputado as primeiras corridas da temporada. Um papo aqui e acolá e tudo se resolveu: o paranaense confirmou o retorno à Indy.

E ele começou muito bem. Em Indianápolis, sobreviveu aos inúmeros acidentes e terminou em sétimo. Poderia ter terminado em terceiro, mas teve problemas em um dos pit-stops. Mas a sorte reapareceu na corrida seguinte, em Detroit, e Boesel obteve um belíssimo segundo lugar, o melhor resultado da carreira até então. E tudo isso com um Lola do ano anterior! Pontuou em mais oito etapas e conseguiu terminar a temporada na nona posição. Sem exagero, dá para dizer que Raul foi um dos melhores pilotos da Indy em 1992.

Raul Boesel precisou levar um milhão de dólares para correr na Dick Simon. Inicialmente, ele conseguiu apenas três patrocinadores no Brasil: a filial da Mobil, o Grupo Vicunha e a Cofap. Conforme os resultados surgiam, outras empresas se associavam, como a Caixa Econômica Federal, as filiais brasileiras do Carrefour e dos jeans Lee e até mesmo a própria TV Bandeirantes, que queria pegar carona no sucesso instantâneo do brasileiro. No fim de 1992, nem havia mais espaço para adesivos em seu carro azul e amarelo.

1- CHRISTIAN FITTIPALDI, WALKER, 1995

A migração de Christian Fittipaldi da Fórmula 1 para a Indy no início de 1995 foi um dos assuntos mais comentados no automobilismo internacional naqueles dias. Christian estava naquela desagradável situação de piloto promissor que não conseguia se desvencilhar das equipes pequenas. Depois de três anos aborrecidos na Minardi e na Arrows, era hora de encontrar uma vaga melhor. Mas onde?

Ele conversou com várias equipes e passou perto de algumas. Na Sauber, recebeu garantias de que pilotaria se Karl Wendlinger não se recuperasse definitivamente de seu acidente em Mônaco no ano anterior. A McLaren lhe ofereceu um contrato que não garantia sequer vale-refeição e décimo terceiro, quanto mais uma vaga de titular. As outras equipes não passavam de possibilidades, que também existiam para muitos outros pilotos. A Fórmula 1 não lhe parecia muito promissora. E a Indy?

O sobrinho do Emerson já havia conversado com algumas equipes americanas ainda em 1994 e quase assinou um contrato com a poderosa Newman-Haas para 1995 antes de mudar de ideia momentaneamente e preferir tentar a Fórmula 1. A cagada foi consertada em fevereiro, quando Christian anunciou que correria na Indy pela Walker. A escuderia de Derrick Walker não era nenhuma Newman-Haas, mas estava longe de ser incompetente. O companheiro de equipe era o americano Robby Gordon, um sujeito realmente gordo que acelerava pacas e tinha alguns parafusos a menos. Um bom professor? Não exatamente. Mas um bom parâmetro de comparação, certamente.

Mesmo em um planeta completamente diferente daquilo que ele estava acostumado, Christian Fittipaldi fez um ótimo ano de estreia. Em sua primeira corrida, no literalmente encardido circuito de rua de Miami, o sobrinho terminou em um ótimo quinto lugar após atropelar um pneu em um de seus pit-stops. Na pista de Long Beach, Fittipaldi perdeu o segundo lugar por problemas na penúltima volta. Em Nazareth, liderou suas primeiras dez voltas na categoria. Mas foi o segundo lugar na Indy 500, muito próximo do vencedor Jacques Villeneuve, que realmente marcou. Comentando a corrida na cabine do SBT, o tio Emerson Fittipaldi, que não havia conseguido se classificar para a prova, não conteve as lágrimas com o histórico resultado.

Foi um dia bonito, aquele último domingo de maio. Para a torcida brasileira, não tinha como ser melhor. Christian pilotava um Reynard-Ford pintado com as cores da bandeira do país. Visto de cima, o layout era igualzinho ao do símbolo nacional, com o verde predominante, o losango amarelo e o círculo azul. No meio do patriotismo, uma enxurrada de empresas e logotipos familiares no Brasil. O suco em pó Tang estava lá. Os frios da Chapecó também. E também o banco BCN. E a Tele-Sena. Os hambúrgueres do Bob’s. Os sorvetes da Kibon. As Antenas Santa Rita. As filiais brasilianas da Marlboro e da Bardahl. Praticamente meio PIB nacional estava naquele carro da Walker

No total, quatro milhões de dólares pagaram a temporada de Christian Fittipaldi na Walker. Uma bela de uma vaquinha que nunca mais veremos no automobilismo internacional, infelizmente.

Mas que beleza, hein?

É claro que o chato sou eu. É claro que estava tudo bem. É claro que a corrida patrocinada pela cerveja de universitário paulista e pelos chocolates que minha namorada não gosta foi um tremendo sucesso. É claro que a chuva, sempre ela, estragou tudo. Todos, com exceção de São Pedro, mereceram nota dez pelo trabalho realizado. E o tonto do Verde continua bradando com seu costumeiro mau-humor.

A São Paulo Indy 300, de nome pomposo, acabou há algumas horas. Venceu o australiano Will Power, especialista maior em circuitos com curvas para esquerda e para direita. Ele levou o caneco após a KV Racing mandar o pobre do Takuma Sato, que vinha liderando desde o começo, seguir na pista durante a bandeira amarela causada pela rodada do Alex Tagliani. Enquanto todo mundo seguia para os pits, o japonês ficava na pista e perdia um bom tempo. Se Sato tivesse seguido o resto do pessoal, teria boas chances de voltar na liderança. E o Japão teria obtido sua primeira vitória em uma categoria top. Mas não aconteceu. Pena.

Até porque a corrida foi razoavelmente boa. Ontem, apenas nove voltas foram contabilizadas. Sob chuva intensa, muita gente rodou e quebrou o carro no muro, o que fez a organização interromper a corrida e transferi-la para hoje de manhã. E a ação foi retomada normalmente, com a corrida sendo reiniciada em bandeira verde na volta 15. As brigas aconteceram aos montes e, além de Sato, outro carro do meio do pelotão chamou a atenção de todos: o HVM branco e verde de Simona de Silvestro, que estava muito rápido na parte final da corrida. Se as voltas de ontem não tivessem sido contabilizadas e a suíça não tivesse largado com tanta desvantagem, a chance dela ter vencido seria grande. Seria a primeira vitória de uma mulher em uma categoria top. Mas nem Sato e nem De Silvestro foram os pioneiros em seus grupos. Ganhou o velho Power.

(nota: primeira vitória de uma mulher é o cacete. Danica Patrick já venceu em Motegi em 2008. Mas a memória da anta aqui é falha)

Até aí, tudo bem. Foi uma corrida como outras típicas da Indy, que sempre proporciona espetáculo aliado a um pouquinho de loteria. O que me incomoda ligeiramente é essa sensação de que tudo funcionou perfeitamente. E que a chuva é a grande vilã. Mas a questão da chuva e do adiamento não é lá um grande problema comparado a algo um pouco mais preocupante. Falo mais abaixo.

Se você acompanhou a transmissão da Bandeirantes, deve ter acreditado que a São Paulo 300 é a melhor corrida que um ser humano já realizou. Afinal, a Indy, os promotores brasileiros, a prefeitura paulistana, a Bandeirantes e os patrocinadores fizeram um trabalho impecável, à prova de erros e deslizes. A transmissão, temperada com altas doses de conchavo e demagogia, elogiou tudo, da qualidade do asfalto ao nome ridículo daquela chicane posterior à reta do sambódromo. Porque edulcorar a realidade é o mais fácil.

Will Power, um dos poucos que saíram felizes com a corrida

Só que a Indy 300 não foi perfeita. É evidente que há aspectos em que houve grande melhora. O asfalto, por exemplo, melhorou drasticamente em relação ao do ano anterior, o que não deve soar como um “grande feito da prefeitura em conjunto com os organizadores”. É obrigação, considerando especialmente aquela coisa hedionda que foi a reta do sambódromo no ano passado. Se querem fazer o circuito passar por dentro de um local desses, que corrijam os problemas de asfalto. Todos tiveram um bom tempo para fazer isso no ano passado, mas só fizeram nesse. Pelo menos, fizeram.

Só que nada disso vale um vintém quando há uma situação adversa. Neste fim de semana, houve. Uma frente fria chegou com tudo ao estado paulista e trouxe água à beça para todos. Muita água. Em Campinas, ventou, caiu granizo e uns bons trechos ficaram alagados. Imagino que a bagunça tenha sido mais ou menos a mesma em Sampa, a terra da garoa.

Quando a chuva caiu com força, todo mundo ficou desesperado, como se tudo fosse feito de açúcar e só chovesse uma vez a cada dois séculos. O que os espertinhos que comandavam a brincadeira deveriam se lembrar é que São Paulo é, como apresentado acima, a terra da garoa! Chove sempre, e forte em boa parte das vezes. Entre março e maio, é comum registrar algo entre 150 e 400 milímetros, sendo que cada milímetro significa um litro de água por metro quadrado. Quer dizer, será que nenhum dos ilustres sequer considerou a possibilidade de um toró durante a corrida?

Culpar a natureza, para mim, é sentar em cima do problema e dizer que a bunda dói. A chuva não é um fenômeno controlável, mas suas consequências são. No Japão, por exemplo, a maioria dos grandes prédios possui sistemas de absorção das vibrações de um terremoto. São sistemas que demandam engenharia avançada e muitos recursos. Qual seria a dificuldade, no Brasil, de criar um sistema que pudesse escoar a água com um pouco mais de facilidade? E olha que só me refiro ao circuito, espaço de duração e tamanho limitados que não concentra tanta água como um bairro inteiro. Um pouco mais de atenção nessa questão evitaria uma boa dor de cabeça.

Ah, mas choveu forte demais, dirão alguns. Ah, mas o problema maior era a visibilidade, dirão outros. Seguindo a mesma linha de raciocínio, a visibilidade é um problema absolutamente comum até mesmo em pistas permanentes, quanto mais em circuitos temporários de rua. Portanto, era algo a ser considerado quando inventaram de promover uma corrida em uma cidade na qual chove muito nesta época do ano. Repito: é absurdo que os sagazes organizadores se assustem com chuva forte em pleno fim de abril e início de maio na cidade de São Paulo.

Simona de Silvestro, a menina mais rápida de São Paulo

E qual é o resultado? Horas de bandeira vermelha, adiamentos e torcedores cansados e frustrados que, provavelmente, não retornarão na próxima edição. Ao realizar uma corrida sabendo (ou não) que ela pode ser arruinada por uma tempestade, a organização não pode pensar que o espectador que paga uma fortuna (eu desisti de ver a corrida após ver a tabela de preços) pelo ingresso deve arcar com o ônus de algum problema.

Não tenho nada contra realizar corridas de rua no Brasil. Sou, aliás, a favor de mais corridas. O que não tolero é coisa malfeita. E sacanagem com o cara que paga caro pra se divertir. 41 mil ingressos haviam sido vendidos até a sexta-feira, muitos deles destinados a pessoas de outros estados e países. Gente que gastou muito para se hospedar e se alimentar. Acredito que uma bela maioria não teria condições para arcar com mais um dia em Sampa. O adiamento de uma corrida para um outro dia deve sempre ser a última solução de um caso desses. A principal solução é estudar direito todas as necessidades e todos os possíveis problemas esportivos e urbanísticos antes de sair por aí espalhando uns guard-rails a esmo. Repito novamente: permitir que uma corrida de rua seja realizada em São Paulo no mês de maio, submetendo o espectador à possibilidade de cancelamento por uma razão totalmente contornável, é ridículo demais.

O pior desta Indy 300, no entanto, não foi nem o que aconteceu dentro do autódromo. Quem mais levou no rabo foi o motorista paulistano.

Automobilismo, pra mim, é diversão. Gera dinheiro para alguns e infartos em outros, mas é basicamente diversão para a maioria dos seus entusiastas. E como tal, ele não pode interferir em coisas sérias. Devemos nos lembrar que nós, que assistimos à corrida do Anhembi, somos uma minoria de desajustados. A maioria das pessoas não gosta de corridas, no que nem deve estar tão errada. Imagine, agora, o que se passa na cabeça de um motorista que precisou trafegar pela Marginal Tietê hoje de manhã.

Sem a menor sombra de dúvida, o pior legado da São Paulo Indy 300 foi uma segunda-feira de caos no trânsito paulistano. O congestionamento na Marginal Tietê, no sentido Castello Branco, chegou a 21,4 quilômetros de manhã. A Avenida Olavo Fontoura, uma das principais avenidas da Zona Norte, só foi aberta há poucas horas. A Companhia de Engenharia de Tráfego estima que o pico do caos se deu às nove da manhã, exatamente o horário da largada, quando 115 dos 868 quilômetros de vias monitoradas estavam abarrotados de veículos. Em resumo: o paulistano médio se deu mal porque havia uma maldita corrida sendo realizada em um dos pontos mais críticos da cidade.

Só mesmo alguém que fuma maconha estragada pela orelha tem a coragem de sugerir que uma corrida de rua em São Paulo seja realizada na manhã de uma segunda-feira. É um claro sinal de que os organizadores não tinham a menor noção de como agir no caso de haver um contratempo qualquer. Ninguém saiu satisfeito com a decisão: os espectadores não puderam comparecer, os patrocinadores não puderam aparecer para as multidões, a Bandeirantes deve ter registrado audiência ínfima e mecânicos e pilotos tiveram de trabalhar por um dia a mais. Mas quem mais sofreu foi o cidadão, aquele que paga impostos e que gruda adesivos de políticos nos seus carros em épocas de pleito.

Chuva. E os organizadores completamente perdidos.

O motorista levou nas ancas hoje cedo. Muitos perderam ainda mais tempo do que já costumam perder no caos citadino. Quantos compromissos não devem ter sido atrasados ou simplesmente cancelados? Quantos contratempos diretos e indiretos este evento não deve ter causado no dia de hoje? Quantas pessoas que não têm absolutamente nada a ver com a corrida não foram prejudicadas pelo capricho de alguns? Eu gosto muito de corridas, mas se alguma delas prejudica diretamente um sem-número de cidadãos comuns, nem penso duas vezes: defendo seu fim. Em hipótese nenhuma, o automobilismo pode afetar negativamente a vida de uma população.

Até aqui, só reclamei. Como toda reclamação vazia não vale nada, tento sugerir algumas coisas. Será que é mesmo viável realizar uma corrida na Marginal Tietê? Não há um local minimamente mais adequado para isso na cidade? A corrida deve acontecer justamente em uma marginal feia e complicada? Vou além: uma cidade de 11 milhões de habitantes, certamente uma das mais problemáticas do planeta, comporta um evento desse tipo? O ex-piloto James Hunt já declarou que achava absurdo realizar a corrida brasileira em um autódromo socado no meio dessa cidade – imagine se ele estivesse vivo e visse o que aconteceu em São Paulo hoje. Até quando esse capricho da prefeitura, da Bandeirantes e de mais alguns poucos vale a pena? Será mesmo que não há nenhuma outra cidade que possa receber essa corrida?

O circuito do Anhembi é muito legal, está acima da média dos demais circuitos de rua ao redor do mundo e a Indy é uma categoria excelente. Aplaudo o esforço honesto de muitos, e aí devo incluir também a prefeitura paulistana e a Bandeirantes, que batalharam para realizar uma corrida desse porte em um país que cospe em seu automobilismo. Reconheço que tenho muita vontade de ver essa corrida. E critico exatamente por isso: a ideia é boa demais para uma execução tão pífia.

O que quero ver na São Paulo Indy 300 do ano que vem? Simplesmente uma corrida boa, sem sobressaltos e que não penalize os pagantes e os demais cidadãos. O ideal seria não acontecer na Marginal Tietê, quiçá em São Paulo. Mas já que tem de acontecer lá, que todos se esforcem para que esta bagaceira dos dois últimos anos se transforme em um evento memorável e que encha a terra do pátio do colégio de orgulho.

Enquanto isso não acontecer, sigo chato e mal-humorado.

É isso aí, macacada. Nesse fim de semana, o trânsito de São Paulo, que já é uma bagunça inesquecível, vai ficar ainda pior. Vinte e seis desajeitados bólidos Dallara-Honda se engalfinharão em algumas avenidas da Zona Norte paulistana, incluindo aí a lamentável Marginal Tietê. A CET, que já costuma ter um trabalho danado com o caótico trânsito paulistano, vai ter de sambar pra resolver os gargalos nestes dias que antecedem a Itaipava São Paulo Indy 300 Nestlé. Dá vontade de apertar o mamilo do sujeito que teve a ideia de criar um circuito de rua em uma das cidades mais problemáticas no planeta. Mas fazer o quê? E a pista ficou legal.

Nessa mesma semana, foi anunciada também a realização de uma segunda corrida da Indy no Brasil a partir de 2012. O circuito a ser utilizado é outro do tipo citadino, localizado na orla de Porto Alegre. Não conheço a capital gaúcha, então não posso apitar muita coisa. Mas o fato é que a Indy, que utiliza etanol brasileiro em seus carros e que ainda tem um bom plantel de brasileiros em seu grid, está interessadíssima na pátria do Christ the Redeemer. É o país da moda.

Enquanto isso, sem dispor de circuitos permanentes em condições civilizadas, a turma do automobilismo passa a observar as cidades brasileiras com mais carinho. Mesmo que as ruas sejam esburacadas, as paisagens urbanas não sejam tão bonitas e as corridas tragam enormes prejuízos sociais e urbanísticos, vale a pena colocar uns carros para correr em grandes cidades do país. E esse negócio de circuito de rua não é novo. Relembro, aqui, de outros cinco circuitos de rua que já existiram, ou que ainda existem, por aqui.

5- SALVADOR


Como sou pobre, nunca consegui ir para Salvador. Amigos meus falam que a cidade é muito divertida e tem vida cultural excelente, mas é muito suja e extremamente pobre. Nada que difira demais das outras grandes cidades do Nordeste, portanto. Uma corrida realizada no Centro Administrativo da Bahia não soa a coisa mais ortodoxa do mundo. Mas estamos falando da Stock Car Brasil, acostumada a decisões heterodoxas.

A etapa de Salvador, primeira da história da categoria a ser realizada em um circuito de rua, foi anunciada em 2009. O governador baiano Jacques Wagner e a Vicar assinaram um contrato de 3,5 milhões de reais para a realização de uma corrida em um traçado desenhado pelo piloto local Diego Freitas. Com 2,8 quilômetros de extensão, a pista passaria pelo Centro Administrativo e seria composto por alguns retões e várias curvas de graus diferentes. A princípio, tudo bacana.

O problema foi quando os carros entraram na pista pela primeira vez, em 2009. Estreitíssima, ela era absolutamente proibitiva para ultrapassagens. A entrada dos boxes era perigosíssima. E o absurdo maior: o único ponto possível de ultrapassagem, a reta dos boxes, estava sob bandeira amarela permanente. Sim, é isso mesmo: o piloto não poderia ultrapassar por lá, já que o local era bastante perigoso. Cientes da merda que aprontaram, os organizadores mudaram o traçado para o ano seguinte, alargando alguns trechos que permitiriam mais brigas. Além disso, contentes com o bom público de 47 mil pessoas em 2009, eles também ampliaram para 60 mil o número de cadeiras disponíveis para a corrida seguinte.

O resultado foi bom e a corrida de 2010, que teve como ponto alto a briga entre Alan Hellmeister e Thiago Camilo pela terceira posição, foi bem melhor. Mesmo assim, o circuito não está imune a críticas. Para muitos, a Stock Car deveria ter utilizado o mesmo traçado utilizado pela Fórmula Renault há alguns anos. Para os que não se lembram, – e isso me incluía até alguns minutos atrás – Salvador teve um belo circuito de rua localizado em frente ao Elevador Lacerda. Este circuito existiu em 2005 e recebeu nada menos que 200 mil pessoas durante as corridas do Renault Speed Show. Infelizmente, ele era perigoso demais e as categorias da Renault decidiram não voltar para lá em 2006.

4- RIBEIRÃO PRETO


Mesmo com um razoável número de circuitos permanentes disponíveis por aí e mesmo com os enormes problemas da etapa de Salvador, os cegos, mudos e surdos da Stock Car Brasil decidiram realizar uma segunda etapa de rua. Afinal, corridas desse tipo atraem muito mais público do que em pistas permanentes. Além do mais, sempre dá pra tirar uma graninha extra das prefeituras e dos governos por aí, né?

Antes da Stock Car se assanhar para cima da cidade conhecida pelo seu calor mortificante, pelo chopp do Pinguim e pela produção de laranjas, alguns notáveis da Indy fizeram algumas reuniões com Luciano do Valle e com a turma de Ribeirão Preto para discutir a respeito de uma possível corrida de rua por lá. Como as conversas não avançaram, a cidade acabou optando pelas bolhas brasileiras em 2010.

Em um primeiro instante, o traçado causou estranheza. Como ele utilizava a rotatória da praça Nadyr Freitas M. Da Silva e os dois sentidos das avenidas Braz Olaia Acosta e Lygia Latuf Salomão, o negócio ficou parecendo um cavalo marinho, um satélite, uma coisa bem estranha. Ao menos, a localização não é ruim: Zona Sul, próximo ao Ribeirão Shopping, parte nobilíssima da cidade. Não por acaso, os organizadores aproveitaram a pujança local para meter a faca nos ingressos: o mais barato custava 80 reais.

Até agora, duas etapas foram realizadas. Na primeira, o paulistano Átila Abreu, namorado da apresentadora Renata Fan, marcou a pole-position e venceu sem maiores dificuldades. Como a pista também não permite ultrapassagens, largar na frente representava passo e meio rumo à vitória. Além disso, os inúmeros acidentes fizeram com que poucas voltas fossem completadas em bandeira verde. Nada como realizar uma corrida de rua de qualquer jeito.

3- VITÓRIA


A partir daqui, o nível melhora bastante. Sem a duvidosa sombra da Stock Car, alguns circuitos de rua fizeram história no automobilismo brasileiro. O da capital capixaba, conhecido como “Mônaco brasileira”, foi talvez um dos circuitos de rua mais divertidos que já existiram no mundo. Uma das corridas que mais gostei de ver na minha vida foi a etapa de Fórmula Renault nesse circuito construído na Enseada do Suá no ano de 2002. Bons os tempos em que a Bandeirantes dava suporte maciço ao automobilismo.

Assim como boa parte dos outros circuitos de rua, o de Vitória era travado e perigosíssimo. Os acidentes eram inúmeros, ainda mais nas corridas de Fórmula Renault, onde sempre havia moleques inconsequentes e sedentos pelo trunfo. A velocidade média, no entanto, não era tão baixa. A volta recorde da Fórmula Renault foi feita por Alexandre Foizer em 2004 com velocidade de 146,179 km/h. Como comparação, o mesmo Foizer andou a 162,941km/h de média em seu recorde de Interlagos, pista que está longe de ser lenta.

Mas se tudo era tão bom, bonito e barato, por que a pista desapareceu? Em linhas gerais, os motivos passam pelo desinteresse político (uma corrida pode ser bastante conveniente para determinado governante, mas um estorvo para seu sucessor) e pelo fim do Renault Speed Show, que dava suporte direto à iniciativa. Hoje em dia, o pessoal do automobilismo só consegue aproveitar as praias de Vitória nas férias.

2- FLORIANÓPOLIS


Outra terrinha simpática pacas é Florianópolis, localizada na Ilha de Santa Catarina e capital do estado homônimo. Floripa é ensolarada, cheia de gente bonita, praias e tenistas com cara de moleque. Nada mais legal, portanto, do que uma corrida de rua que explore as belezas de uma das cidades mais belas do Brasil.

Florianópolis começou a sediar corridas a partir de meados dos anos 80. Entre 1986 e 1997, existiu um circuito de 2,910 quilômetros de extensão que passava pelo centro e pela Baía Sul. Ao redor dele, prédios, casas, pontes e a rodoviária municipal. Além de bonito, o circuito permitia boas brigas e atraía muitos fãs de automobilismo e transeuntes que param sempre quando há alguma novidade. Nesse traçado, correram os carros da Fórmula 2 sul-americana, da Fórmula 3 sul-americana e da Fórmula Ford. Foi lá que Rubens Barrichello obteve sua primeira vitória em monopostos, no início de 1989.

A decadência geral do automobilismo de monopostos no país acabou com as corridas em Florianópolis. No início de 2002, quando a Fórmula Renault estava começando com toda a moral, a cidade voltou ao mundo das corridas com um autódromo localizado na região da Via Expressa Sul. Ele não era tão bom como o anterior, mas ainda proporcionou várias corridas divertidas na Fórmula Renault e na Copa Clio. Assim como a etapa de vitória, também vi corridas da Fórmula Renault em Florianópolis e gostei muito. Mas nem esse existe mais.

1- GÁVEA


Quando se fala em corridas de rua no Brasil, os (muito) mais velhos nunca deixam de citar o circuito da Gávea. Gávea? Quando os portugueses chegaram ao Rio de Janeiro, ficaram maravilhados com uma pedra de gnaisse que alcançava 842 metros de altura e que se parecia com a gávea de um navio. Pronto: Pedra da Gávea!

No início dos anos 20, alguns doidos acreditavam que seria o máximo fazer uma corrida em uma pista que contornava o Morro Dois Irmãos utilizando algumas das principais avenidas da Zona Sul carioca. De fato, seria mesmo. O Barão Manuel de Teffé, piloto brasileiro que corria na Europa, veio ao Rio de Janeiro, capital federal naquela época, e propôs ao presidente Getúlio Vargas a criação de uma corrida que integrasse o Brasil ao automobilismo internacional. O sempre ambicioso Vargas adorou a ideia e, em 1933, foi realizado o “1º Prêmio Cidade do Rio de Janeiro”.

E o Grande Prêmio passou a integrar as competições oficiais da Federação Internacional de Automobilismo. Entre 1933 e 1954, muitos pilotos de fora vieram para o Rio tentar faturar uma das corridas mais difíceis do planeta. Um deles, o italiano Carlo Pintacuda, se consagrou ao vencer as corridas de 1937 e 1938 de maneira impressionante. Outros pilotos, como o ítalo-argentino Ricardo Carú, o argentino José Froilán Gonzalez e o suíço Emmanuel de Graffenried também fizeram a festa por aqui. Entre os brasileiros, quem se destacou foi o inesquecível Chico Landi, com três vitórias em 1941, 1947 e 1948.

Mas como era esse tal circuito? Com onze quilômetros de extensão, ele tinha mais de cem curvas e passava por nada menos que quatro tipos de piso (asfalto, paralelepípedos, cimento e areia). Seu início se dava na Rua Marquês de São Vicente, logo em frente ao Automóvel Club do Brasil. Em seguida, a Avenida Visconde de Albuquerque (que passava pelo Leblon), a Avenida Niemeyer (que margeava a Praia da Gávea) e a subida da Estrada da Gávea, que passava pelo local onde se localiza atualmente a Favela da Rocinha. Depois da subida, uma descida em direção à Marquês de São Vicente e a volta recomeçava. Taí algo que eu gostaria de ter visto.

Nem falei muito da Indy em São Paulo. É muita coisa pra falar. Vou tentar ser breve. Mas como eu me conheço bem, sei que não vou conseguir. E como me conheço bem, vou reclamar pra caralho.

– O circuito é de uma primariedade que dá até dó. Tudo bem, alega o defensor, a pista foi construída em apenas quatro meses, a região é crítica, pistas de rua sempre trazem problema, blablabla. Oras! Como disse Tony Kanaan, só mesmo aqui para alguém ter a brilhante idéia de fazer um circuito em um tempo tão curto. Se não desse pra fazer, não deu, fica pra próxima.

A região é uma merda, de fato. Marginal Tietê sentido Zona Leste, região do Santana, é uma das partes mais feias da cidade. É tudo muito mal-cheiroso e cinzento. Aquele Holiday Inn parece mais um cortiço gigante. Não poderia haver lugar pior para a São Paulo Conventions & Visitors Bureau fazer publicidade de sua querida cidade.

– Falemos agora do traçado. Ele tinha uma reta quilométrica e algumas curvas de baixa velocidade. Me lembrou Long Beach, Phoenix e Pau. Até aí, tudo bem, a Indy não tem lá muita frescura com essa coisa de traçado. Mas devo destacar a reta do sambódromo.

– Que coisa linda, aquela reta branca. Os pilotos mal podiam usar 30% do acelerador. A Bia Figueiredo perdeu o controle do carro em 4ª marcha! Nunca vi nada igual no automobilismo. Pelo menos, arrumaram a tempo. Mas é uma situação muito feia. Que pode sempre ser piorada, quando temos um Luciano do Valle enaltecendo essa monstruosidade.

– Evento 100% financiado com dinheiro público. Ridículo isso. O orçamento destinado para a corrida era de 12 milhões de reais. Gastou mais, é claro. Vamos ver se os 100 milhões de reais de retorno virão, de fato. Desculpem, acho essa corrida um tremendo golpe eleitoreiro. A Dilma vai com o PAC, o Serra vem com a Indy.

– Mas chega de reclamar. A corrida foi boa, afinal. Muito melhor que a da Fórmula 1. Isso porque eu só vi os treinos e a parte final da prova. Acidentes, ultrapassagens, vários líderes, tudo o que esperávamos ver na Fórmula 1 pôde ser visto na Indy.

– Will Power venceu usando o terceiro carro da Penske. É um excelente piloto. Aliás, os três primeiros são. Ryan Hunter-Reay (singelamente chamado de “Hunter” por LDV) e Vitor Meira mereciam equipes melhores, principalmente o Meira. 

– Ryan Briscoe tinha a vitória nas mãos, mas perdeu em um acidente besta. O cara já vinha arriscando havia algumas voltas. É um vaca brava. Se não tomar juízo, a Penske adota o Power como segundo piloto.

– Pancada feia do Andretti com o Moraes na largada. Sorte do Marco. Esse tipo de acidente deveria receber mais atenção por parte das organizações.

– Sobre os outros brasileiros, Bia Figueiredo fez uma ótima corrida e conseguiu terminar. Raphael Matos terminou em um ótimo quarto lugar, mesmo andando em um carro não tão bom. Mario Romancini bateu muito, mas não comprometeu. Tony Kanaan atingido pateticamente por Dan Wheldon. Nem prestei muita atenção ao Hélio, sorry.

– Torci muito pelo Tagliani, segundo no grid com a FAZZT. Mas bateram nele também. Bah.

– As pinturas da Indy são sensacionais. E os patrocinadores também.

– Enfim, deu tudo certo. A Indy passou de ano, não com louvor, mas passou. Que seja melhor nas próximas edições.