Depois do que vi, decidi não falar de automobilismo hoje. O assunto é mais sério.

Olhem esse vídeo a partir dos 50 segundos. Recomendo uma única olhada. E não recomendo que vejam todos os mais de nove segundos. Retirei esse vídeo do blog do Flávio Gomes, sine qua non. Para quem não tiver muita vontade de fazê-lo, o que é bem sensato, faço um resumo: um grupo de ativistas que defendem o uso da bicicleta como meio de transporte, o Massa Crítica, estava promovendo um passeio ciclístico pelas ruas de Porto Alegre como forma de promover a ideia. Dezenas de ciclistas estavam reunidos em um movimento pacífico e, até onde sei, absolutamente legítimo.

Até aí, tudo bem. Mais atrás, um motorista discutia calorosamente com um dos ciclistas por estar indignado com um punhado de bicicletas atrapalhando o caminho. A indignação pelo fato da rua que você tanto precisa utilizar estar bloqueada por qualquer motivo é igualmente legítima. Uma pessoa normal reclamaria na Prefeitura, faria uma petição a ser votada na Câmara de Vereadores, reclamaria com o Papa, faria qualquer coisa. Mas não o motorista que protagoniza o tal vídeo.

Revoltado, ele entrou em seu Golf preto e esperou o comboio se afastar um pouco. Após algumas centenas de metros de distância, o sujeito acelerou seu veículo e avançou sobre as dezenas de ciclistas, atropelando mais de vinte. Sem desacelerar em momento algum. E foi-se, deixando para trás um punhado de corpos estirados no chão e uma multidão de ciclistas e transeuntes desesperados e consternados com o que acabaram de presenciar. Para a felicidade geral e a sorte do motorista, nenhum dos vinte ciclistas atropelados sofreu ferimentos graves.

Foi o vídeo mais enojante que eu já vi na vida, e olhe que tenho larga experiência em ver atrocidades e absurdos registrados em audiovisual. Ao que parece, o motorista já foi identificado e se entregou à polícia. Trata-se de Ricardo Neis, um funcionário do Banco Central de 47 anos. Ele estava acompanhado por seu filho de 15 anos. Após atropelar os ciclistas, Neis abandonou seu carro alguns quilômetros adiante e fugiu.

Não posto os adjetivos que pensei para designar um sujeito como Neis por puro temor de arranjar problema judicial nas costas, já que a difamação é um crime de violação de honra previsto pelo artigo 139 da Constituição. Assistam o vídeo e façam seu próprio julgamento. Provavelmente, terão a mesma reação que eu tive. Quero aproveitar o atropelamento e o propósito do Massa Crítica para refletir um pouco sobre o automóvel e as nuances do mundo moderno.

Vocês podem achar estranho, mas eu não gosto de carros.

Antes que vocês achem muito curioso o fato do dono deste site de automobilismo não gostar do objeto que é utilizado para sua prática, deixe-me separar as coisas. Enxergo o automobilismo como esporte, como diversão. Dentro dessa modalidade, dou mais importância para os pilotos, os circuitos e para a beleza que a combinação entre velocidade, cenário, competição e coragem propicia. Não ligo se tal carro tem difusor duplo ou se o outro está utilizando câmbio CVT. Cago e ando para a tecnologia, se querem saber. Uso computador unicamente porque máquina de escrever não pode ser ligada ao mundo por um modem.

O carro é como um filho com asma. Você fica feliz por ter um, mas tem um monte de dores de cabeça para cuidar dele. Gasta uma fortuna, tem dores de cabeça no trânsito, se torna refém do medo de bater e destruir seu patrimônio ou de um assalto, embranquece fios de cabelo tentando consertar aquele barulho ou vazamento. Concordo que há algum prazer ao dirigir um Maserati ou uma BMW pelas autobahnen alemãs, mas não venha me dizer que dá pra sentir o mesmo ao andar em um “Celtinha prata” nas ruas congestionadas de São Paulo.

O “Celtinha” (argh!), assim como a esmagadora maioria dos carros que rodam por aí, é apenas um meio de transporte que te leva do ponto A ao ponto B da maneira mais rápida e cômoda possível. O preço a se pagar é o tempo e o dinheiro perdido em consertos, reabastecimentos, revisões, trocas de óleo, IPVA, DPVAT, licenciamentos, multas, transferências, parcelas de financiamento e juros, para apontar apenas o obrigatório. Pergunto duas coisas. Pra que se sujeitar a tudo isso? E por que gostar e se orgulhar disso?

Eu tenho um Corsa Sedan 1.0 datado de novembro de 1998. Ele é um verdadeiro tormento, rodeado de problemas e de contas a se pagar. Não tenho o menor prazer em tê-lo e se pudesse, me desfaria dele na primeira oportunidade. Só que eu não posso, já que o poder público não investe em transporte coletivo de qualidade e as distâncias são enormes em uma cidade grande como a minha. Não há trens ou metrô em Campinas e a passagem de ônibus custa quase três reais, mais que o litro da gasolina. Não tenho opções. O carro é a única solução razoável, ainda.

Por isso que fico inconformado com pessoas que amam seu carro, que o defendem com unhas e dentes. Gol, Fiesta, Fox, Palio, Corsa, Celta, Meriva, Clio, todos são umas merdas que custam muito e entregam pouco. Não são ágeis, não são resistentes, não são confortáveis, são apenas aberrações que só poderiam vender bastante em um país ignorante, consumista e subdesenvolvido como o Brasil. Se o brasileiro ainda tivesse um mínimo de consciência da mediocridade de seu mercado automobilístico e seus produtos, eu nem me alongaria neste assunto. Mas ele é apaixonado por carro, como diz aquela propaganda de postos de gasolina. Entende-se por carro exatamente a categoria de jabiracas que rodam por aqui.

O carro, assim como o iPod e a asa do pavão, é um apetrecho utilizado pelos machos para impressionar as fêmeas no caso de uma possível deficiência de ordem sexual. Em uma época na qual um aparelho versão 4.8 é jurássico perante um 5.1, ter um carro mais caro significa ser mais macho que seu vizinho ou colega de trabalho. Significa poder ultrapassar pela faixa da direita, andar no acostamento ou mandar o cara que anda mais devagar à frente tomar no cu. Significa poder impressionar um guarda de trânsito de modo a escapar de uma multa. Significa até mesmo poder atropelar alguém.

Eu nem me refiro a casos óbvios como os de alguns pilotos de corrida que aceleram suas motos em rodovias ou os de mauricinhos que voam com seus Porsche 911 nas ruas paulistanas. Falo do filho da classe média alta que anda em alta velocidade no Punto financiado em 72 vezes a juros de 1,5% ao mês. Do sujeito de meia-idade que decidiu compensar suas frustrações ao financiar seu Civic. Da mulher estressada e metida a dondoca do Sex and the City que se arrasta com um Ecosport no apertado estacionamento de um shopping. São todos indivíduos medíocres que só compram carros que espelham sua realidade. Pessoas que gostariam de levar uma vida diferente, com menos cobranças e menos aparências. Como não conseguem, acabam descontando em comportamentos agressivos ou exibicionistas, principalmente em um ambiente tão naturalmente tenso como o trânsito de uma cidade brasileira.

E isso nem se restringe ao carro. O que dizer do miserável que não tem dinheiro nem para andar para frente, mas que carrega no um belo smartphone com câmera de cinco megapixels? Do sujeito que não sabe utilizar uma vírgula corretamente ou resolver uma simples equação de primeiro grau, mas que faz questão de cursar uma faculdade apenas pelo fetiche de ter um diploma? Da menina de escola pública que obriga os país a comprarem um vestido de 200 reais porque tal celebridade o promove? São todos, pobres e ricos, fúteis, infantilizados, superficiais e macaqueados. Não valem o gadget que compram e dispensam após seis meses.

O tal de Ricardo Neis não é o primeiro e nem será o último a sair por aí atropelando pessoas a contento. No contexto em que vivemos, as pessoas são cada vez mais problemáticas e inseguras. Eu mesmo me confesso ansioso inveterado e portador de TOC. Muitos não admitem, mas são depressivos, bipolares e esquizofrênicos. Não suportam a pressão financeira, profissional e social dos novos tempos. Uma mísera faísca transforma um “cidadão de bem”, cumpridor de leis, pagador de impostos, bom marido e bom pai, em um lunático sociopata. E a culpa é de quem? Dos outros? Do “terrível” capitalismo? Da sociedade de consumo? Claro que não. Principalmente, do próprio “cidadão de bem”, que aceita levar a vida que leva e que dá tremenda importância às opiniões dos outros. Se você tem problemas e acha que a culpa não é sua pela vida que leva, pense duas, três ou quinze vezes. Você mesmo escolheu abraçar a mediocridade geral, ter um emprego ridículo, uma rotina frustrante, colegas idiotas e um monte de objetos que pudessem compensar sua tristeza. Um Astra prateado ou um Golf preto, por exemplo.

Portanto, aprenda que existe uma vida além da sua pressa, de um carro bonito, das reclamações de seu chefe ou de um Blackberry que não tem rede. Visite um amigo, leia um livro, vá dar uma volta a pé no centro de sua cidade, tome um porre, plante uma árvore, crie uma calopsita, ajude uma instituição ou simplesmente deite em uma rede e fique lá, olhando para o nada. Durante esse tempo, desligue o celular e o MP3. Não digo para parar de trabalhar e consumir, largar tudo e virar um hippie vagabundo de merda. Apenas saiba equilibrar as coisas. E perceba que o mundo contemporâneo pode ser muito legal, desde que você não se transforme em um refém do tempo e da tecnologia.

O horrendo episódio do vídeo é apenas a expressão de um sujeito que, acima de tudo, merece a nossa pena. Funcionários públicos, no geral, são extremamente infelizes e costumam apelar para o exibicionismo consumista. Não o conheço pessoalmente e nada do que aponto aqui representa alguma realidade cristalina. Eu apostaria que ele deve ser apenas uma vítima de suas próprias escolhas e de seus próprios valores. Você, que viu o vídeo, deve ter ficado com tanta raiva que chegou a defender seu linchamento ou coisa do tipo. Não se preocupe. Pessoas desse tipo costumam ser punidas desde o dia em que tomaram as decisões que tomaram.

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