Julian Leal. Ele foi um dos piores pilotos que eu já vi na GP2, mas não teve dificuldade alguma para arranjar uma vaga nesta temporada

É Pai Verde de Ogum fazendo mais uma previsão. Certeira? Infelizmente, as chances são grandes. A temporada 2012 da GP2 Series, oitava de sua história, está prestes a começar. No verdadeiro microondas de Gaia que é o Sudeste Asiático, vinte e seis jovens e ansiosos pilotos darão as caras para os desafios da primeira rodada dupla da temporada, a ser realizada nos dias 24 e 25 de março. O palco será o circuito malaio de Sepang, que fará parte do calendário convencional da GP2 pela primeira vez.

Não que eu esteja lá babando por esta temporada. Normalmente, fico mais animado para ver a GP2 do que a própria Fórmula 1, que não anda tendo lá grandes atrativos para um início de temporada. Neste ano, porém, pelo que foi visto até aqui, a categoria júnior de Bernie Ecclestone e Bruno Michel terá de se esforçar se não quiser ter sua pior temporada até aqui. Custos nas alturas, pilotos medíocres, calendário excessivamente abrangente, conflitos de horários com a Fórmula 1 e poucas possibilidades de aprendizado para o piloto são os principais problemas que ameaçam a ainda grande credibilidade da GP2.

Até aqui, vinte e dois pilotos estão confirmados. O último a ter seu nome sacramentado foi o francês Nathanael Berthon, que nunca foi nada além de um participante do meio do pelotão na World Series by Renault nos últimos dois anos. Berthon fará companhia ao suíço Fabio Leimer, piloto que ganhou certa notoriedade quando foi revelado que sua carreira custou, até aqui, nada menos que 16 milhões de dólares. Tudo isso por um sujeito que está entrando em sua terceira temporada na GP2 tendo vencido apenas duas corridas na categoria até aqui.

É este tipo de comportamento exagerado e desesperado que está levando a categoria a um discreto porém implacável buraco. E não podemos criticar apenas Fabio Leimer quando temos pilotos como Giedo van der Garde e Dani Clos torrando o dinheiro de seus patrocinadores há séculos. Van Der Garde é genro de Michel Boeknoorn, magnata holandês dono de uma fortuna de 1,3 bilhão de euros. Ele é dono de grandes empresas como a Spyker Cars e a McGregor, além de apitar nos rumos da gigante francesa de alimentos Danone.

Van Der Garde vem disputando categorias de base relevantes desde 2004, quando fez sua estréia na Fórmula 3 Euroseries. De lá para cá, tudo o que ele conseguiu foi um título na World Series by Renault em 2008. Neste ano, ele fará 27 anos e participará de sua quarta temporada na GP2 Series pela Caterham. Para ele, é tudo ou nada: se não for campeão, nunca mais conseguirá nada na Europa e terá de refazer sua carreira em outro planeta.

Por outro lado, as equipes não reclamam. Afinal, Giedo é um dos poucos pilotos que podem pagar os mais de dois milhões de euros exigidos anualmente por uma equipe de ponta da GP2. De quebra, aceitemos ou não, ele ainda é bastante experiente e tem um título em uma categoria importante. Seu carro em 2012 estará coberto de decalques da McGregor e ainda terá um ou outro adesivo da Voicecash, que também pertence ao sogrão.

Giedo van der Garde: o sogro é um dos homens mais ricos da Europa. Não por acaso, o carro está todo coberto com adesivos de suas empresas

Dani Clos também tem um sogro conveniente. Hristo Stoichkov, já ouviu falar? Consagrado atacante da seleção búlgara nos anos 90, parceiro de Romário no Barcelona e um dos escolhidos por Pelé na lista dos 125 melhores jogadores de futebol ainda vivos. Hoje em dia, ele gerencia um time da primeira divisão do campeonato búlgaro. Sua filha, Mihaela Stoickhova, trabalha atualmente em um programa de TV na Bulgária após ter morado na Espanha durante quase toda a vida. Desnecessário dizer que a família Stoickhov nada em dinheiro, portanto. No ano passado, o ex-jogador tentou articular uma vaquinha de 5 milhões de euros para financiar a carreira de Clos na Fórmula 1. Mesmo que não tenha logrado, você vê que o piloto espanhol está muito bem acompanhado nesta sua jornada.

Leimer, Van Der Garde e Clos são três figuras irreais em um mundo que perdeu cerca de 50 trilhões de dólares apenas na crise de 2008 e que definitivamente optou pelo conservadorismo na hora de manejar a riqueza. As quotas de patrocínio estiveram na linha de frente das áreas mais afetadas por se tratarem de uma questão supérflua e não-produtiva. Ninguém quer gastar dinheiro para brincar de mecenas ou para auferir os tais “ganhos institucionais” que não servem para muita coisa na hora em que a fome aperta. Entramos em uma era de prudência, de cintos apertados. Agora me responda: onde há prudência em um esporte no qual se admite o gasto de 16 milhões de dólares apenas para o sujeito ficar se divertindo nas categorias de base?

Ao que parece, a GP2 ainda não digeriu bem esta nova e dura realidade. Em entrevista ao site Autosport, o diretor Bruno Michel afirmou que a categoria “não tinha qualquer intenção de reduzir os custos de participação para atrair pilotos que não podem sustentá-los”. Para demonstrar convicção, Michel simplesmente desdenhou o caso de Jules Bianchi, francês que disputou as duas últimas temporadas da GP2 e que preferiu, neste ano, concentrar suas forças na World Series by Renault. “Bianchi se tornou o terceiro piloto de uma equipe de Fórmula 1 (Force India) e obviamente não tinha dinheiro para fazer, ao mesmo tempo, uma temporada na GP2. Dito isso, se seus empresários acreditavam que havia uma grande necessidade de correr e que seria conveniente fazê-lo em outra categoria, assim é a vida”, disse ele.

Ou seja, a GP2 pode ficar esvaziada e risível, mas não deixará de manter a pompa e o nariz empinado. Michel e Ecclestone crêem que há glamour com Stéphane Richelmi, Julian Leal, Rodolfo Gonzalez, Max Chilton e Simon Trummer. A World Series by Renault, para essa gente, inexiste. Ela pode atrair todos os bons pilotos das categorias de base, mas ainda não é a GP2. Por isso, não se basta. Este é o raciocínio.

É triste saber que o certame que revelou nomes como Lewis Hamilton, Nico Rosberg, Kamui Kobayashi, Nico Hülkenberg e Sergio Pérez seja comandado por pessoas tão mesquinhas e fechadas. O que não se percebe é que o modelo esportivo e comercial da GP2 começa a dar sinais de esgotamento. Ainda são iniciais e pequenos, mas se não forem resolvidos, a categoria não terá vida muito longa.

Vale dizer que as duas categorias que antecederam a GP2, a Fórmula 2 e a Fórmula 3000, faliram por algumas razões que encontram eco nos dias atuais. A primeira, que durou até 1984 e revelou nomes como Ronnie Peterson, Jacky Ickx, Jacques Laffite e Clay Regazzoni, deixou de existir porque os custos estavam absurdos, ninguém mais demonstrava qualquer interesse e a qualidade dos pilotos havia decaído absurdamente. Já a Fórmula 3000, que durou vinte anos e revelou gente como Jean Alesi, Juan Pablo Montoya e Nick Heidfeld, também desapareceu por causa dos custos absurdos, do desinteresse e da falta de qualidade dos pilotos.

Fabio Leimer, o piloto de 16 milhões de dólares. E olha que ele nem chegou à Fórmula 1 ainda

Vale dizer que a GP2 já está enfrentando o problema dos custos e da falta de qualidade dos pilotos. O novo chassi Dallara, implantado na última temporada, elevou as cifras a um patamar inaceitável. Equipes como a ART Grand Prix passaram a cobrar até 2,5 milhões de euros para uma temporada completa. Dois paus e meio para custear uma categoria que quase ninguém assiste – o que essa gente tem na cabeça? E mesmo as equipes pequenas não cobravam menos de 1,5 milhão de euros. Gastar esta fortuna para passar um ano sofrendo na Trident é algo que não faz sentido para mim, desculpe.

Antigamente, conseguia-se dinheiro via indústria tabagista ou atividades ilegais. O patrocínio dos cigarros acabou oficialmente em agosto de 2005 por meio de proibição em toda a União Européia e creio inocentemente que lavar dinheiro via patrocínios esportivos esteja ligeiramente mais difícil hoje do que em outros verões. Atualmente, só há duas grandes maneiras de obter financiamento para correr: entrar em um daqueles grandes e concorridíssimos programas de desenvolvimento de pilotos ou torrar o dinheiro da empresa do papai ou de algum conhecido. Que é a solução tomada por grande parte do grid da GP2.

Max Chilton é filho de um dos diretores da AON, uma das maiores seguradoras do planeta. Jolyon Palmer é filho do ex-piloto Jonathan Palmer, um dos grandes promotores de corridas na Inglaterra. Johnny Cecotto Jr. é filho daquele antigo motociclista que foi companheiro de Ayrton Senna na Toleman. Davide Valsecchi, Josef Kral, Stefano Coletti e Rodolfo Gonzalez também são conhecidos pelos rotundos apoios que os cercam.

Para ser honesto, são poucos os pilotos que estão na GP2 mais pelo talento do que pelo dinheiro. Não, não sou inocente de acreditar que haja algum aí que não leve grana nenhuma – todos levam, e muita. Porém, nomes como James Calado e Esteban Gutierrez, que são apoiados por programas de desenvolvimento de pilotos e que não disporiam de meios de estar na categoria por si só, são cada vez mais raros. O resultado: em 2012, teremos o pior grid da história da categoria, lotado de pilotos de currículo prévio fraquíssimo e disposição para gastar o que for.

São poucos os que realmente têm cara de Fórmula 1. Felipe Nasr, felizmente para os torcedores brasileiros, aparenta ser um deles. Gutierrez, Calado e Marcus Ericsson também. Abaixo deles, Rio Haryanto, Stefano Coletti e Nigel Melker precisarão trabalhar muito para conseguir um lugar na categoria maior sem maiores problemas. O resto é composto por veteranos eternamente esperançosos (Van Der Garde, Valsecchi, Razia, Leimer, Kral, Cecotto Jr., Crestani) e gente genuinamente ruim (Gonzalez, Chilton, Trummer, Leal, Richelmi). É possível apontar um futuro campeão do mundo entre todos os nomes citados neste parágrafo? Sou honesto, mas acho extremamente difícil.

Infelizmente, os problemas da GP2 não se restringem apenas aos custos e à qualidade dos pilotos. Na verdade, eles até são a causa ou a conseqüência de outros problemas.

Dani Clos. Este também tem um sogro importante, o ex-jogador Hristo Stoichkov

A GP2 cobra até 2,5 milhões de euros por uma temporada, mas o que ela oferece ao otário que aceita pagar tudo isso? Algo entre nove e doze rodadas duplas compostas por um treino livre de meia hora, um treino oficial de meia hora, uma corrida de 170km e outra de 120km e uns dez dias de testes coletivos na pré-temporada. Só. Não há mais sessões de treinos nos fins de semana. Testes privados são apenas um sonho de uma noite de verão. O caso é que o piloto da GP2 não só paga muito como também anda muito pouco e acaba não se preparando direito.

Mas e se ele quiser fazer uns testes na Fórmula 1 para ganhar quilometragem, conseguirá? Não. Em primeiro lugar, porque a própria Fórmula 1 limitou drasticamente seus testes. Na prática, um jovem mancebo só poderá ter o gostinho de andar em um carro desses naqueles três dias destinados à garotada em Abu Dhabi. Portanto, aquelas funções de “piloto de testes” e “piloto-reserva” se tornaram inúteis e desapareceram.

Mas há também os treinos livres de sexta-feira, alguém poderia argumentar. Sim, é verdade, mas não para os pilotos da GP2, que não podem pilotar carros da Fórmula 1 sabe-se lá o porquê. Logo, se o cara quiser participar destes treinos livres, ele terá de estar totalmente disponível naquele fim de semana. Isso só é possível para o pessoal da World Series by Renault, cujos fins de semana não coincidem com os da Fórmula 1. Logo, dá para conciliar as duas vidas, coisa que a quadrada GP2 não permite.

A World Series by Renault, por sinal, está se dando bem nestes vacilos que a rival mais rica anda cometendo. Com um carro atualizado, o advento do DRS, orçamentos que não ultrapassam a casa do milhão de dólares, um sistema de provas que inclui dois treinos livres de 75 minutos e dois treinos oficiais, um calendário restrito à Europa e uma maior possibilidade de testes durante o ano, a categoria ganha em atratividade e desvia boa parte das atenções antes reservadas apenas à GP2. As recentes migrações de Jules Bianchi e Sam Bird provam que a World Series tem totais condições para satisfazer quem deseja subir à Fórmula 1.

Uma pena. Afinal de contas, a GP2 é, ainda, uma categoria excelente. Embora ainda longe do ideal, sua estrutura de marketing, divulgação e transmissão televisiva é muito melhor do que a das antigas Fórmula 3000 e Fórmula 2. Além disso, o carro é um foguete: motor de 600cv, câmbio semi-automático, pneus Pirelli iguais aos da Fórmula 1 e desenho aerodinâmico que também segue as tendências da categoria maior. É desnecessário dizer, também, que dividir o mesmo paddock com a Fórmula 1 é algo que não tem preço. Por fim, as corridas são muito boas mesmo sem DRS. Esta, aliás, é talvez a grande vantagem sobre a World Series by Renault, que precisará do artefato da asa móvel para dar um pouco de ânimo às suas entediantes provas.

Mas nada disso ajuda quando Julian Leal e Rodolfo Gonzalez tomam as vagas de jovens talentos com qualidade e sem infinitos apoios financeiros. Dependendo apenas do interminável dinheiro de alguns playboys incompetentes, a GP2 desvia do nobre objetivo de mandar carne fresca e de boa qualidade à Fórmula 1. Se continuar assim, disse lá em cima, vai morrer.

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