Bons alunos ganham o respeito do professor e o desrespeito dos demais colegas. Maus alunos pegam as menininhas e ainda passam alguns dias em casa. Romain Grosjean é um desses. Em Spa-Francorchamps, há quase três semanas, o franco-suíço causou um dos acidentes mais legais dos últimos anos. Tudo aconteceu logo na largada. Grosjean embicou seu Lotus-Renault no lado direito da pista e, mau aluno como é, ignorou uma importante lei da física, aquela que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo.

Havia um Lewis Hamilton no meio do caminho. Os dois se chocaram e o carro de Grosjean saiu por aí como um buscapé descontrolado, atropelando tudo o que havia pela frente. Resultado: um monte de carros destruídos, dois candidatos ao título fora da prova logo na primeira curva e uma série de torcedores e espectadores irritados, pedindo a cabeça de Romain Grosjean e todos os seus descendentes. A FIA ouviu os clamores do povo e aplicou ao desastrado piloto da Lotus uma suspensão de um GP. Ele acabou não participando da etapa de Monza, portanto.

Em Cingapura, Romain Grosjean retornará ao carro que lhe pertence. Nos últimos dias, ele se cansou de dizer que aprendeu bastante com os acidentes, que andou observando bastante o comportamento do enigmático Kimi Räikkönen, que não fará mais nada de errado e até prometeu a construção de um posto de saúde no Jardim Piraporinha. É bem possível que, ao menos até o fim do ano, Grosjean se comporte de maneira mais contida. Eu gosto de vê-lo dirigir feito um suicida, mas não são todos que compartilham desta opinião. São os novos tempos politicamente corretos.

Fazia tempo que um piloto não ficava de fora de uma corrida por causa de uma suspensão. Dezoito anos, mais precisamente. No passado, era mais comum aplicar sanções deste tipo a pilotos menos responsáveis. A segurança da Fórmula 1 não era cirurgicamente perfeita como nos dias atuais e uma boa correção a algum desajustado poderia evitar problemas maiores. O Top Cinq de hoje relembra algumas suspensões aplicadas a nomes de relevância no passado não tão remoto.

5- DAMON HILL

Coisa muito comum na Fórmula 1 em meados dos anos 90 era o sursis. Esta palavra de origem francesa pode ser livremente traduzida como “suspensão condicional de uma pena”. Se o infrator é um sujeito bondoso que trata bem seus pais e seus filhos, paga os impostos em dia e nunca sequer matou uma mosca, os homens da lei poderão aplicar apenas uma punição nominal que só passará a valer no caso do cara voltar a cometer alguma barbaridade. Na Fórmula 1, o piloto que corria sob sursis era cuidadosamente observado pelos comissários de prova. Se ele causasse algum outro problema, a pena suspensa seria efetivamente aplicada.

Não pense que isso era algo tão incomum de acontecer. O próprio Rubens Barrichello já chegou a correr sob sursis após se envolver em um acidente besta com Mika Häkkinen no GP da Inglaterra de 1994. Outro bom nome que também chegou a colher uma punição deste tipo foi Damon Hill, filho de Graham Hill e campeão de 1996.

Hill vinha em um ano particularmente infeliz em 1995. Mesmo pilotando o carro mais veloz da temporada, o inglês frequentemente levava surras do rival Michael Schumacher. De vez em quando, sobrava para o carro da Williams, coitado. Damon bateu e quebrou muito naquela época. Em alguns casos, os problemas causados por ele foram pra lá de escandalosos. Em Silverstone, Hill atropelou Schumacher numa desastrada tentativa de ultrapassagem. Na corrida seguinte, em Hockenheim, Damon bateu forte enquanto abria a segunda volta.

No GP da Itália, Damon Hill chegou ao seu ponto mais baixo em 1995. Ele perseguia Michael Schumacher na disputa pela liderança da corrida. Ao se aproximarem da Variante dela Roggia, os dois deram de cara com o mítico Taki Inoue, dono do Twitter mais legal que eu conheço. Hill se perdeu enquanto tentava passar o japonês, freou mais tarde do que deveria e beijou a traseira do Benetton de Schumacher. Os dois rodaram, saíram da pista e ficaram parados por lá.

Schumacher ficou puto da vida, com toda a razão. A FIA também não gostou do que viu e anunciou que Damon Hill seria suspenso por uma corrida com direito ao tal sursis. Ele poderia continuar correndo, mas seu comportamento na pista estaria sendo vigiado durante todo o tempo. Depois do que aconteceu, Hill sossegou. Ele parou de cometer atrocidades na pista e se colocou no seu devido lugar, o de saco de pancadas de Michael Schumacher.

4- MIKA HÄKKINEN

Assim como Damon Hill em 1995, Mika Häkkinen vinha tendo uma temporada completamente errática em 1994. Quando o motor Peugeot não quebrava, Häkkinen dava um jeito e se envolvia em alguma merda. Em Aida, ele tirou Ayrton Senna da corrida logo na primeira curva. Duas corridas depois, em Mônaco, ele arruinou a vida do pobre Hill também na primeira curva.

Em Silverstone, Häkkinen e Rubens Barrichello disputavam a quarta posição com alguma ferocidade. Ambos eram jovens e rápidos e existia até alguma possibilidade da McLaren formar uma dupla com eles em 1995. Na última curva da última volta, os dois se envolveram em um acidente tosco, mas puderam seguir em frente e até marcaram pontos. Só que a FIA não achou o entrevero uma coisa bonita e puniu tanto Häkkinen como Barrichello com uma suspensão de uma corrida. Como havia o direito ao sursis, Mika e Rubens poderiam seguir correndo normalmente desde que não se envolvessem em novos problemas.

Só que o endiabrado Häkkinen não quis saber e mandou o tal do sursis catar coquinho. A corrida seguinte foi realizada em Hockenheim. E o finlandês aprontou logo no começo. Ele tentou fechar a porta de David Coulthard antes da primeira curva, mas os dois se tocaram e o McLaren de Mika se descontrolou totalmente, saindo da pista e indo parar na barreira de pneus com alguma violência. Häkkinen saiu ileso do carro, mas a FIA não havia esquecido de seu histórico. Como o cidadão havia reincidido, o sursis havia sido anulado e não restava nenhuma outra solução a não ser impedi-lo de participar da próxima corrida, o GP da Hungria.

E assim seguiu a vida. Häkkinen ficou de fora da etapa húngara e seu lugar foi ocupado por Philippe Alliot, que quase havia assinado com a McLaren no início do ano para ser companheiro do finlandês. Alliot não fez nada na corrida e passou muito longe dos pontos. Enquanto isso, Mika aprendeu a lição e retornou às pistas emplacando nada menos que quatro pódios consecutivos. O futuro bicampeão havia sido o último piloto da história da Fórmula 1, antes de Romain Grosjean, a ser efetivamente suspenso por causa de um acidente.

3- MICHAEL SCHUMACHER

Numa lista destas, é óbvio que Michael Schumacher não poderia ficar de fora. O campeão mundial mais polêmico (e bem-sucedido) de todos os tempos já se envolveu em tanto pepino durante estas duas décadas que daria para fazer um Top 100 de eventos que fizeram do alemão um piloto tão contestado. Eu não costumo fazer coro com os anti-Schumacher, mas devo admitir uma coisa: as relativas poucas punições que ele recebeu até hoje não fazem jus a tudo o que ele aprontou.

1994 foi um ano realmente horroroso para a Fórmula 1. As mortes obviamente foram a razão principal, mas mesmo a questão esportiva da categoria andava patinando em um momento no qual Bernie Ecclestone e companhia buscavam não deixar o interesse pelo esporte minguar. Nesta circunstância, a superioridade gritante de Michael Schumacher sobre os demais pilotos era algo contraditório. Por um lado, era bom ter um cara que pudesse substituir Ayrton Senna à altura nas corridas. Por outro, o domínio humilhante sobre os outros pilotos poderia minar ainda mais a já combalida vontade dos espectadores de acompanharem a temporada.

E o próprio piloto alemão também não colaborava. No GP da Inglaterra daquele ano, Michael cometeu um erro primário que acabou resultando no início da guerra campal entre FIA e Benetton. Na volta de apresentação da corrida, Schumacher ultrapassou o pole-position Damon Hill durante alguns instantes. Ele não tardou muito para devolver a posição de honra de volta a Hill, mas os comissários de pista não quiseram perdoá-lo pelo deslize. Ultrapassar em volta de apresentação é proibido.

Na volta 14, a organização anunciou que Michael Schumacher deveria entrar nos boxes para fazer um stop-and-go de cinco segundos como punição pela ultrapassagem na volta de apresentação. Ele não respeitou a ordem e seguiu em frente. Na maior cara de pau, até fez um pit-stop. Inconformados, os comissários de pista decidiram desclassificá-lo. Na volta 22, os fiscais de pista lhe exibiram a bandeira preta indicando o fim da linha.

Schumacher se fez de cego e seguiu em frente até o fim da corrida, finalizando na segunda posição. Durante esse tempo, o patrão Flavio Briatore correu aqui e acolá tentando aplacar a ira dos organizadores. Não deu certo. A Benetton foi multada em 25 mil dólares e Michael Schumacher seria levado a julgamento após o GP da Bélgica. O alemão manteve o discurso inocente. “Eu não sei. A primeira mensagem que eu recebi era que ao meu tempo seriam somados cinco segundos e não que eu teria de fazer um stop-and-go. Fiz meu pit e logo depois fiquei sabendo da punição. Estou aborrecido com isso tudo”, afirmou.

Na terça-feira após o GP da Bélgica, um monte de assuntos foi levado à discussão na sede da FIA em Paris. Um deles era exatamente o que fazer com Schumacher pelo incidente de Silverstone. O pessoal conversou bastante e decidiu aplicar uma pena razoavelmente pesada: suspensão válida para os GPs da Itália e de Portugal. Sem estas duas corridas, a briga pelo título ficaria acirradíssima e Michael teria de se virar para ser campeão. Quem diria que uma ultrapassagem besta faria tanto estrago.

2- NIGEL MANSELL

Nigel Mansell era especialista em tornar tudo mais dramático ou divertido. Acidente? Ele saía mancando e fazendo cara de dor. Disputa com outro piloto? Sempre dava errado. Mudança de equipe? Tome choradeira. Entrevista? Hora de ouvir coisas engraçadas em sotaque típico do interior da Inglaterra. Quando ele fazia alguma cagada das grandes – e isso acontecia frequentemente -, alguém tinha de ficar com a culpa. E se não havia como responsabilizar outrem, Mansell simplesmente dizia que estava de saco cheio e que não brincaria mais.

GP de Portugal de 1989, 13ª etapa de uma das melhores temporadas de todos os tempos. A Ferrari de Mansell e Gerhard Berger claramente tinha o melhor carro da corrida. Enquanto Berger realizava uma corrida de vencedor, o Leão se encrencava em disputas renhidas com Ayrton Senna, com quem tinha uma relação de amor e ódio. Seu destino no Estoril começou a ser definido na volta 40.

Então líder da corrida, Mansell entrou nos pits para fazer sua troca de pneus. Ao se aproximar de sua posição nos boxes, a besta britânica errou o ponto da freada, quase atropelou alguns de seus mecânicos e passou reto. Enquanto os mecânicos corriam para puxar o carro para a posição correta, Nigel jogou o livrinho de regras pela janela e engatou a marcha a ré para se posicionar corretamente. A regra é clara: é proibido engatar a ré dentro dos boxes. A qualquer momento, Nigel Mansell seria punido.

Após alguns minutos, o veredito foi tomado: o piloto da Ferrari nº 27 estava desclassificado do GP de Portugal e seria informado disso por meio de bandeira preta. No momento em que a decisão foi tomada, Mansell estava se aproximando perigosamente de Ayrton Senna na disputa pela segunda posição. Enquanto o diretor de prova agitava freneticamente a bandeira preta na reta dos boxes, Nigel seguia em frente como se não fosse com ele. Até que…

Na volta 49, Senna fechou a porta de Mansell e os dois se chocaram em alta velocidade. Ambos os carros foram parar após o Deus me livre e o Leão teve de voltar aos boxes com o rabinho entre as pernas. A FISA detestou o comportamento rebelde de Nigel Mansell e lhe aplicou uma multa de 50 mil dólares, além de uma suspensão de um GP com direito ao sursis.

Mansell e a Ferrari recorreram. O britânico, coitadista como sempre, alegou um monte de coisas: não viu a bandeira preta, a McLaren havia propositadamente derramado uma poça de água na entrada dos boxes para ele não conseguir frear (é sério!) e o julgamento que culminou na punição estava cheio de irregularidades. Diante desta chuva de besteiras, a FISA preferiu retificar a pena. Não haveria sursis porra alguma: Nigel Mansell estava definitivamente suspenso do GP da Espanha, etapa seguinte à de Portugal.

Nigel não deixou por barato. Mesmo sem poder correr, ele apareceu em Jerez, convocou uma série de jornalistas e fez mais um monte de afirmações descabidas. Depois de culpar o Céu e o Inferno pelo ocorrido no Estoril, Mansell anunciou que “se eles realmente acreditam que eu vi a bandeira preta e a ignorei, terei de considerar minha aposentadoria da Fórmula 1 o mais rápido possível”. Todo mundo ficou assustado com a possibilidade, mas nada aconteceu. Era só mais um teatrinho de Nigel Mansell.

1- EDDIE IRVINE

No final de 1993, mesmo sendo um estreante na Fórmula 1, Eddie Irvine era um cara que rendia tanta mídia quanto Ayrton Senna ou Alain Prost. Logo na sua primeira corrida, o GP do Japão de 1993, ele deu o que falar. Derrotou Rubens Barrichello nos treinos, ultrapassou três por fora na primeira curva, arranjou encrenca com Ayrton Senna, tirou Derek Warwick da pista e até levou um soco do tricampeão brasileiro. Meses depois, já na pré-temporada de 1994, ele destruiu um Jordan 194 em Magny-Cours e atrasou todo o cronograma da equipe irlandesa. Acabou aí? Não me faça rir.

Na primeira corrida de 1994, o GP do Brasil, Irvine causou um dos maiores acidentes da história do circuito de Interlagos. Ele largou da 16ª posição e se recuperou bastante com o passar do tempo, assumindo a oitava posição na volta 31. Alguns giros depois, ele vinha sofrendo o assédio da Benetton de Jos Verstappen, que vinha em nono.

À frente dos dois, havia dois retardatários lentos, Martin Brundle e Eric Bernard. Verstappen vinha voando e tentaria a ultrapassagem sobre Irvine na Reta Oposta. Ao se aproximar de vez dos retardatários, Eddie colocou o carro do lado esquerdo sem olhar no retrovisor. Péssima ideia. Ele acabou empurrando Verstappen para a grama. O holandês se descontrolou, rodou, voltou à frente do bolo de três carros e iniciou um engavetamento quase artístico. Cada carro foi para um canto e milhões de pedaços ficaram espalhados na Descida do Lago.

Todos saíram ilesos, embora Brundle tenha levado uma bela pancada na cabeça. A FIA reviu as imagens do acidente e não se furtou em concluir que o único culpado foi exatamente Eddie Irvine, que sacaneou para cima do pobre Jos Verstappen. Como punição, a Jordan teria de pagar 10 mil dólares e Irvine seria suspenso por um GP, com direito a sursis.

A pena irritou demais os irlandeses, que recorreram no Conselho Mundial da FIA, em Paris. Os burocratas da federação não gostaram da réplica e decidiram aumentar a pena de Irvine, cuja suspensão foi ampliada para três corridas e o sursis foi cancelado. Portanto, o piloto ficaria sem disputar os GPs do Pacífico, de San Marino e de Mônaco. Esta foi a maior punição aplicada a um piloto nestes tempos recentes. A maior punição para o maior dos patetas.

GP DE CINGAPURA: Foi o Maluf que fez! Mentira, foi o Bernie Ecclestone, o velho judeu. Não importa. A cagada está feita desde 2008. Neste próximo fim de semana, a Fórmula 1 desembarca em um dos circuitos mais cretinos do mundo. Com cinco quilômetros de extensão, Marina Bay é apenas um compêndio de retas largas e curvas apertadas de 90° que atravessam a baía da dona Marina, localizada no centro de Cingapura. Pelo aperto e pelo cenário pós-moderno, lembra o antigo circuito de Detroit. Pelo excesso de esquinas, assemelha-se um pouco a Phoenix. Neste automobilismo besta onde o cenário acaba sendo mais importante do que as corridas, não há como criticar a skyline de Cingapura, brilhosa e futurista. Para quem gosta de urbanismo, um prato cheio. Destaco o hotel Fullerton, um casarão neoclássico de 400 quartos que foi construído no início do século passado. Quando os carros de Fórmula 1 passam a mil pela Anderson Bridge, os telespectadores conseguem dar uma espiada rápida no casarão. No mais, não há muito mais o que vislumbrar. A pista é aquilo que as corridas contemporâneas exigem atualmente: larga, lenta, moderna, segura, pasteurizada, sonolenta. Mesmo gostando de urbes, ainda acho mais interessante um circuito como Österreichring, construído no meio do pasto e testemunhado por vaquinhas assustadas.

GROSJEAN: Protejam as crianças, ele voltou! O caso Romain Grosjean é uma das minhas provas cabais da total perda de critérios dos seres humanos. No início do ano, o suíço era visto com um misto de desconfiança e esperança. Ele bate, mas é rápido, pensavam todos. Aí ele parou de bater, surgiu como um candidato às primeiras posições nos treinos oficiais e até fez Kimi Räikkönen parecer mais bêbado, autista e descompromissado do que já é. Em Montreal, terminou em segundo e foi elogiado pela caterva. Na Hungria, há mais de um mês, Romain chegou no pódio e também cativou boas palavras. Tudo mudou em Spa-Francorchamps. O acidente o fez parecer o mesmo pateta das primeiras corridas aos olhos daqueles que o elogiavam até cinco minutos antes. Um erro grosseiro e espalhafatoso, mas que definitivamente não o torna um estrupício. A verdade é que Grosjean foi pego para Cristo nesta história. A FIA só o baniu por uma corrida porque ele tirou Fernando Alonso e Lewis Hamilton da corrida logo no começo. Se tivesse batido no meu Corsa e nos dois HRT, provavelmente teria ganhado beijinhos da boca kosher de Ecclestone. Na Fórmula 1 careta, paranoica com segurança, protecionista das equipes de ponta e castradora, Romain personifica aquilo que todos estão fazendo de tudo para evitar: o sujeito agressivo e desmiolado que faz de tudo para ganhar um milímetro a mais de vantagem. Podemos até não gostar de pilotos assim, mas, pombas, o automobilismo só não virou um esporte popular por causa de sujeitos arrojados? Ou será que gostamos do esporte por causa de Nico Rosberg e Paul di Resta?

CHILTON: O automobilismo de monopostos vive sua pior crise desde que Jack Brabham inventou que carros de fórmula deveriam ter asas. As categorias estão esvaziadas, os pilotos não conseguem captar patrocinadores, as equipes estão falidas, os carros não estão mais sendo desenvolvidos, os comissários de prova não sabem mais o que permitir e o que punir e os espectadores estão cada vez menos interessados. Na Fórmula 1, que sempre dá um jeito de amplificar tanto suas glórias como suas angústias, a coisa é sempre mais dramática. Nesta semana, a Marussia anunciou a contratação do britânico Max Chilton, 21, para ser o piloto reserva da equipe. Chilton corre na GP2 desde 2010 e ocupa a quinta posição da tabela desta temporada. Por que a Marussia se interessou nele? Grana. Max é um piloto ruinzinho e com cara de gringo cuzão, mas tem um pai rico e poderoso como poucos. Sir Grahame Chilton é o vice-presidente do Grupo AON, maior empresa seguradora do planeta. Diz a lenda que Max Chilton tem cerca de 50 milhões de dólares para gastar com Fórmula 1. Chato, né? Não duvide. A família Chilton comprou a Carlin Motorsport, uma das equipes mais tradicionais da Inglaterra, apenas para que o pequeno Max aprendesse a dirigir. O que um pai não faz para seu rebento.

PÉREZ: E quando você é um piloto muito talentoso e mais rico ainda? O resultado desta improvável combinação é que seu passe se torna simplesmente o mais disputado na Fórmula 1. O mexicano Sergio Pérez é o grande sonho de consumo da categoria nestes dias. No último GP da Itália, ele conseguiu levar seu Sauber novamente ao pódio. Se a corrida tivesse mais algumas voltas, poderia até mesmo ter ultrapassado o líder e eventual vencedor Lewis Hamilton. Mesmo não tendo ganhado, Pérez levou para casa seu terceiro troféu de pódio nesta temporada e passou a ser ainda mais assediado pelas equipes grandes do que nunca. A Ferrari sempre o convida para uma taça de vinho e algumas horas no simulador de Maranello, mas o próprio Luca di Montezemolo já se antecipou para dizer que ainda lhe falta um pouco de experiência para ocupar um dos carros vermelhos. O jornal britânico Daily Mail também reportou que ninguém menos que a McLaren estaria muito interessada nele, não só por ser um cara talentoso o suficiente para substituir Lewis Hamilton como também por representar uma grande fonte de recursos via Carlos Slim, fato importantíssimo para uma equipe que perderá o apoio da Vodafone. Em um esporte no qual talento e dinheiro não costumam falar a mesma língua, um cara como Sergio Pérez é praticamente um milagre da natureza.

MCNISH: Aquele negócio de convidar um ex-campeão do mundo para trabalhar como comissário durante um fim de semana da Fórmula 1 pode até ter falhado em seu objetivo inicial, mas ao menos serviu para desenterrar muita gente de nossas memórias mais perdidas. O comissário deste fim de semana nem é tão velho assim. Compete em alto nível no Mundial de Protótipos, esteve aqui no Brasil para disputar as 6 Horas de São Paulo e ainda é mais novo que Michael Schumacher. Allan McNish, escocês de 42 anos, será o responsável por analisar as bobagens dos pilotos no bobagento circuito de Marina Bay. Não se enganem, McNish é um ótimo piloto. Assim como Emanuele Pirro, comissário em Monza, o ex-piloto da Toyota se deu muito melhor nos protótipos do que nos monopostos. Já ganhou 24 Horas de Le Mans, 12 Horas de Sebring e ALMS, currículo que muito nego da Fórmula 1 sonharia em ter. Na categoria principal de monopostos, Allan correu na Toyota por uma única temporada, a de 2002. Com um carro ruim e sem muita sorte, ele não marcou ponto algum. Antes disso, McNish foi piloto de testes de todas as equipes do planeta. Chegou a ser colega de trabalho de Ayrton Senna e Gerhard Berger na McLaren, veja só. Hoje, ele está aí, de boa na lagoa. Que continue correndo por mais um bom tempo. Nas 6 Horas de São Paulo do ano que vem, farei questão de trocar um lero com ele.

MCLAREN9 – Pelo que mostrou na pista, tinha de ganhar um dez. Mas para isso, deveria ter feito toda a tarefa de casa, e isso certamente incluía conseguir chegar ao final da corrida com dois carros. Infelizmente, isso só foi possível para um dos pilotos. Lewis Hamilton largou na pole-position, liderou quase que de ponta a ponta e ganhou pela terceira vez seguida neste ano. Jenson Button, que largou na segunda posição, tinha tudo para ter completado a dobradinha. Infelizmente para ele, seu carro prateado começou a pedir arrego e o motor desligou. E sem motor, não dá. Abandono para um cara que vem em fase de recuperação, assim como a própria McLaren.

SAUBER7,5 – Sua sorte é a de contar com um piloto do calibre de Sergio Pérez, que finalizou em segundo e obteve seu terceiro pódio nesta temporada. Pérez e seus asseclas optaram por uma estratégia bastante espertinha, a de adiar ao máximo seu único pit-stop e utilizar compostos médios no segundo stint. Para quem largou lá no meio do pelotão, um domingo daqueles. Kamui Kobayashi teve sorte distinta: foi bem no treino oficial, mas não tirou nenhum coelho da cartola no domingo e teve de se contentar com alguns pontinhos. Engraçado é que a Sauber andou bem pacas em Spa-Francorchamps, mas não mostrou a mesma velocidade pura em Monza. Coisas de equipe média.

FERRARI8,5 – Tinha um carro talvez tão bom quanto o da McLaren, mas faltou uma pitada de sorte a Fernando Alonso, que teve problemas na suspensão justamente no momento mais crítico dos treinamentos, o Q3 da classificação. Não fosse isso e ele teria brigado pela pole-position, como o próprio afirmou. As coisas pareciam tão bem para a Ferrari na pista de casa que até Felipe Massa, veja só, conseguiu andar bem. Na corrida, os dois apareceram muito bem e o brasileiro chegou a andar na segunda posição durante bastante tempo. Uma ordem de equipe acolá inverteu as posições e Fernando pôde pegar um lugar no pódio. Para ser honesto, não esperava que os italianos viessem tão bem em Monza. Como sou calhorda e torço por Alonso, fico feliz com a evolução.

LOTUS3,5 – Decepção da corrida. Já estamos acostumados com as promessas furadas da equipe preta e dourada, que sempre promete a vitória e termina celebrando os pontos de Kimi Räikkönen e os pontos no prontuário de Romain Grosjean. Só que desta vez, não teve Grosjean na história: punido pela barbeiragem de Spa, ele foi substituído pelo reserva Jérôme D’Ambrosio, que se preocupou apenas em chegar ao fim da corrida, não fez muita coisa e ainda foi prejudicado por um KERS falho. Kimi Räikkönen até teve um duelo animado com Michael Schumacher, mas também não apareceu muito. Só que ele é campeão do mundo e sabe fazer pontos até mesmo quando não tem o melhor dos bólidos.

MERCEDES5 – Equipe meia-boca, que só se salva porque seus pilotos fazem o que podem e mais um pouco. O antigo Michael Schumacher voltou a ser o piloto de melhor resultado na esquadra. Sentou a bota na classificação, qualificou-se em quarto e alimentou a esperança dos fãs. Infelizmente, os pneus voltaram a complicar sua vida e ele terminou apenas em sexto. Nico Rosberg também andou bem tanto nos treinos como na corrida, mas isso não significou muito mais do que um sétimo lugar. O problema da equipe definitivamente não está nos treinos, mas sim na total incapacidade do carro conservar pneus durante a corrida. Assim, fica difícil, né?

FORCE INDIA3,5 – Se não tivesse tido tantos problemas, poderia ter obtido um resultado belíssimo com seus dois pilotos, já que o carro estava bom. No caso de Paul di Resta, o câmbio quebrou e isso lhe custou uma excelente quarta posição no grid. Na corrida, fechada criminosa em Bruno Senna à parte, o escocês fez uma corrida sensata e marcou alguns pontos. Nico Hülkenberg, por outro lado, teve um fim de semana triste como poucos. Teve problemas de motor na qualificação e de freios na corrida, não conseguindo sequer chegar ao fim. Graças a isso, o alemão voltou a ser superado por Di Resta na tabela de pontos. E a Force India desperdiçou uma grande chance numa pista onde costuma andar muito bem.

WILLIAMS3 – Com essa dupla aí, está difícil sorrir. Como o carro também não esteve bem em Monza, as coisas ficaram pretas para a equipe criada por Frank Williams. Como sempre, o único ponto da equipe foi marcado por Bruno Senna, que teve um fim de semana típico: devagar, sempre e aos trancos e barrancos. Sobreviveu à fechada de Paul di Resta e assumiu o décimo lugar de Daniel Ricciardo na última curva. E quanto a Pastor Maldonado? Monza é realmente um lugar de milagres. O venezuelano teve um fim de semana limpo, sem cometer nenhuma atrocidade. Sua tabela de pontos também anda meio limpa já faz tempo.

TORO ROSSO1,5 – Há quatro anos, a equipe venceu pela única vez exatamente em Monza com Sebastian Vettel. Dessa vez, nem mesmo o pontinho de consolação do décimo lugar ficou com a trupe de Faenza. Daniel Ricciardo, bom piloto com algumas boas doses de azar nesta temporada, perdeu a chance de pontuar novamente na última curva, quando o motor Ferrari de seu carro parou de funcionar. Pelo menos, deu para atravessar a linha de chegada. O companheiro Jean-Éric Vergne abandonou ainda antes. A suspensão de seu carro estourou em plena reta dos boxes e o francês deu sorte de não ter saído voando até Marte. O carro continuou lento como sempre.

CATERHAM3,5 – Tinha um carro bem mais competitivo do que em Spa-Francorchamps, mas isso não significava exatamente muita coisa. Heikki Kovalainen e Vitaly Petrov largaram em posições mais à frente que o normal por causa dos infortúnios de Pastor Maldonado e Nico Hülkenberg, mas também sabiam que não marcariam pontos nunca. Durante a corrida, a equipe verde optou por dois pit-stops para os dos pilotos, mas a ordem dos fatores não mudou muito. Pelo menos, ambos chegaram ao fim da corrida e o finlandês até teve alguns atritos com Jérôme D’Ambrosio, que pilotou um carro bem melhor. Sonha, Heikki, sonha.

MARUSSIA3 – Também não apresentou nada de novo, excluindo o fato de Charles Pic ter superado o experiente Timo Glock novamente. O francês foi mais rápido nos treinos livres e também se sobressaiu na corrida. É bom que se diga, no entanto, que Glock teve muitos problemas no fim de semana e ainda perdeu um bico nas primeiras voltas da corrida. Não fosse isso e ele teria feito uma corrida bem melhor. Talvez até teria terminado a menos de uma Transamazônica de diferença das Caterham.

HRT3 – Tédio. Sem apresentar qualquer coisa nova, a equipe espanhola seguiu sua rotina de peregrinar nas duas últimas posições. Narain Karthikeyan ao menos conseguiu a proeza de superar Pedro de la Rosa, que fazia seu 100º GP em Monza, no treino oficial. No domingo, o indiano ainda andou um tempo na frente mesmo tendo de trocar o bico após um toque na largada. Os dois chegaram ao fim, coisa que pilotos de equipes bem mais polpudas não conseguiram.

RED BULL0 – Que fim de semana tétrico. Não há absolutamente nada de bom para falar. Como uma equipe que gasta quase meio bilhão de dólares anuais não chega ao fim da corrida por problemas mecânicos? Esta foi apenas a cereja do bolo do pior fim de semana do ano para os rubrotaurinos até aqui. Lento, o carro não colaborou em momento algum e apenas a maestria de Sebastian Vettel o permitiu largar da quinta posição. Na corrida, Vettel tomou uma punição pelo crime de ter fechado Fernando Alonso diante da torcida italiana e acabou comprometendo sua corrida. No final, o alternador foi para o raio que o parta e nem a bandeirada final Seu Tião conseguiu ver. Mark Webber teve um fim de semana tão ruim quanto. Largou no meio do pelotão, não se recuperou muito e ainda deu uma rodada perigosa no final da corrida. Também optou pelo abandono voluntário para poupar corpo, alma e carro.

TRANSMISSÃOTUDO NOS CONFORMES – É sempre bom ter alguma normalidade quando assistimos a uma transmissão de Fórmula 1. Irrita demais quando alguma declaração idiota ou bizarra demais é proferida pela boca de alguém que é muito melhor pago do que qualquer um de nós pelo glorioso ofício de comentar as corridas. Por isso, não tenho do que reclamar com relação à transmissão brasileira em Monza. Eles realmente melhoraram bastante: ao invés serem a terceira melhor transmissão da esquina, sou generoso e digo que eles foram a quarta melhor, seguindo a matemática do comentarista que analisou corretamente que “a Ferrari subiu da terceira para a quarta posição no campeonato”. Tudo dentro dos conformes, até mesmo a ordem de equipe que garantiu a ultrapassagem de Fernando Alonso sobre Felipe Massa, interpretada como “parte do esporte”. Deu para sentir daqui o trio engolindo a seco a realidade. Por fim, nada mais corriqueiro do que ver Bruno Senna terminando em décimo após alguma coisa acontecer na última volta. O narrador já está acostumado. Bruuuuuno Senna em décimo! Como sempre.

CORRIDAFELICE – Para mim, ver Sebastian Vettel, Mark Webber e Jenson Button fora da corrida não deixou de ser um enorme prazer. Mas mesmo os torcedores destes três aí não têm muito do que reclamar. A corrida foi boa, sim. Não foi espetacular, mas entregou aquilo que nós gostamos de ver: disputas, um carro voando, toques de rodas, fechadas, ultrapassagens e um piloto da Sauber, a Ponte Preta da Fórmula 1, quase vencendo uma corrida. Lewis Hamilton largou na pole e ganhou sem problemas. Como é bom ver este cara, um babaca e um grande piloto, ganhando mais uma corrida. Se fosse um pouco mais esperto, estaria liderando o campeonato sem dificuldades. Sergio Pérez fez mais uma daquelas corridas espetaculares dignas de alguém que só consegue se apoiar na estratégia e terminou novamente na segunda posição. Fernando Alonso também mandou bem, mas a ultrapassagem artificial sobre Felipe Massa e a punição que Sebastian Vettel não merecia mancharam o pódio do espanhol com um pouco de tinta preta. Porém, os italianos não reclamaram, muito pelo contrário. Estando os anfitriões felizes, Bernie Ecclestone e a FIA dormem em paz.

GP2TRA LE DITA – Esta frase aí significa “entre os dedos”. Será que o baiano Luiz Razia deixou o título escapar por entre eles? Infelizmente, a resposta está muito próxima de um rotundo “sim”. Razia não marcou ponto algum nas duas corridas da GP2 em Monza e ainda viu o rival Davide Valsecchi abrir 25 pontos de vantagem com um sexto lugar na primeira corrida e uma vitória na segunda. Verdade seja dita, o brasileiro não pode reclamar da falta de sorte. Na etapa do sábado, ele tentou fazer uma estúpida ultrapassagem por fora sobre Fabio Leimer na Variante dela Roggia e acabou saindo da pista, abandonando a prova. O vencedor da corrida foi o mítico Luca Filippi, que voltou à GP2 após não encontrar nenhum emprego numa categoria de ponta. É muito bacana vê-lo vencer, mas ao mesmo tempo se trata de uma situação triste para um piloto talentosíssimo. Que Filippi consiga arranjar um carro à altura de sua capacidade. Felipe Nasr fez exatamente a mesma cagada de Razia na primeira corrida, bateu em Leimer e também acabou abandonando. Enquanto isso, alheio às infelicidades alheias, Valsecchi parte para a última rodada dupla com uma mão e meia na taça de campeão.

GP3CHIPRE – Foi um fim de semana dos mais legais que a categoria já teve. Em Monza, a GP3 realizou sua última rodada dupla no ano esperando conhecer seu mais novo campeão. Quatro pilotos tinham chance de título: Mitch Evans, António Félix da Costa, Aaro Vainio e Daniel Abt. Evans foi o pole-position, mas se afobou, fez besteiras nas duas corridas e não marcou nenhum ponto. Para sua sorte, os três rivais também se deram mal. Félix da Costa parecia estar em posição ideal para ser campeão, mas acabou tendo problemas na primeira corrida do fim de semana e saiu da briga. Pelo menos, a melhor cena do fim de semana foi protagonizada por ele: na reta dos boxes, o lusitano grudou na traseira de Aaro Vainio e o pressionou como se estivesse pilotando na NASCAR. Muito divertido. Quem parecia que iria surpreender a todos com o título era o alemão Abt, que iniciou o fim de semana como o azarão e quase terminou como campeão. Mas para sua enorme infelicidade, uma ultrapassagem na penúltima volta da última corrida o fez perder a vitória que lhe daria o título. Quem ganhou foi o cipriota Tio Ellinas, talvez o nome mais legal da GP3 neste ano. Foi, sem dúvida, o melhor dia da história de Chipre no automobilismo mundial. E o talentoso Evans acabou se sagrando o terceiro campeão da história da GP3. Que tanto Ellinas quanto Evans subam para a Fórmula 1 um dia.

LEWIS HAMILTON10 – É um babaca que age como um rapper mimado e problemático, mas também é um dos melhores pilotos do grid. No domingo passado, ele venceu pela primeira vez um GP em Monza e assumiu a vice-liderança do campeonato. Se parar de se comportar como um idiota, terá tudo para ser a maior ameaça a Fernando Alonso na disputa pelo título. Na Itália, Lewis liderou dois treinos livres, assinalou a pole-position sem problemas e liderou a corrida quase que de ponta a ponta. Nas últimas voltas, até imaginou que poderia ser ameaçado por Sergio Pérez, mas não titubeou e seguiu na frente até o fim. Ganhou, mas nem celebrou tanto. Está tiririca da vida com a McLaren.

SERGIO PÉREZ10 – Atuação imperial, digna de um cara que quer pilotar para a Ferrari em 2013. Seu único momento infeliz em todo o fim de semana, o mau resultado no Q2 da qualificação, foi o ponto de partida para um domingo perfeito. Explica-se: como o mexicano não passou para o Q3, ele pôde escolher a estratégia de pneus que lhe conviesse. Então, o cara decidiu largar com pneus duros e fazer apenas um pit-stop. A sacada deu muito certo. Na volta 24, Pérez assumiu a liderança. Seu pit-stop aconteceu apenas na volta 29. Ao voltar para a pista, seus pneus médios lhe permitiriam andar mais rápido do que qualquer um. E foi graças a isso que ele ultrapassou quase todos que estavam à sua frente. Nas últimas voltas, o mexicano até tentou se aproximar do líder Lewis Hamilton, mas não deu para disputar a liderança. De qualquer jeito, o segundo lugar foi não menos que espetacular.

FERNANDO ALONSO9,5 – Pode não ter sido brilhante como Sergio Pérez ou dominador como Lewis Hamilton, mas tem até mais motivos para sorrir do que eles. O próprio asturiano sabia que tinha carro para vencer e provou a afirmação liderando o Q1 e o Q2 da qualificação. No Q3, deu seu único azar no fim de semana: teve problemas na suspensão e não passou do décimo lugar no grid. Na corrida, só felicidade. Largou bem pra caramba, sobreviveu a uma tremenda escapada de pista enquanto brigava com Sebastian Vettel, passou o alemão e ainda viu três de seus maiores rivais (Button, Vettel e Webber) abandonando a corrida. Ser ultrapassado por Sergio Pérez, no fim das contas, nem foi tão triste assim. O terceiro lugar teve um verdadeiro sabor de vitória.

FELIPE MASSA7,5 – Não foi exatamente genial durante todo o tempo e nunca teria terminado em quarto se não fossem os abandonos de Sebastian Vettel e Jenson Button. Mas também não dá para ignorar que o brasileiro demonstrou combatividade e ânimo, qualidades tão raras a ele até aqui. Apareceu muitíssimo bem em todos os treinos e surpreendeu a todos marcando o terceiro lugar no grid, sua melhor posição desde há muito tempo. Na largada, continuou surpreendendo ao ultrapassar Jenson Button e ameaçar roubar a liderança de Lewis Hamilton na primeira chicane. Com o decorrer do tempo, seus pneus médios se desgastaram e ele teve de parar na volta 19. No segundo stint, Massa chegou a sonhar com o pódio, mas teve de dar uma posição a Fernando Alonso e perdeu mais uma após ser ultrapassado por Sergio Pérez. Ainda assim, o quarto lugar não deixou de ser um resultado importante.

KIMI RÄIKKÖNEN6,5 – Infeliz com o carro, fez uma corrida de chegada. Seu Lotus não era muito bom nas retas e isso obviamente é um desastre quando se trata de Monza. Ainda assim, pegou um digno sétimo lugar no grid de largada. Antes do primeiro pit-stop, teve um duelo interessante com Michael Schumacher e o ultrapassou após a visita aos pits. No segundo trecho, só apareceu mesmo quando duelou contra Sergio Pérez e perdeu. Mesmo assim, aproveitando-se dos abandonos de alguns pilotos de ponta e tocando o carro na maior tranquilidade, terminou em quinto e assumiu a terceira posição no campeonato. Totalmente pelas beiradas, Kimi está tentando chegar.

MICHAEL SCHUMACHER7 – Foi o primeiro colocado entre aqueles que fizeram dois pit-stops. O mais engraçado é constatar que ele sempre destroça o companheiro Nico Rosberg quando o carro é apenas razoável. No primeiro treino livre, lembrando os bons tempos ferraristas, foi o líder. No treino oficial, andou muito bem e galgou um quarto lugar no grid. Não teve como segurar os velocíssimos Fernando Alonso e Sebastian Vettel nas primeiras voltas, mas esteve sempre ali, na humildade e dignidade. Apostou numa estranha estratégia de duas paradas devido ao sempre altíssimo consumo de pneus de seu carro. Ainda assim, terminou em sexto com um carro que não lhe permitiria muito mais.

NICO ROSBERG6 – O sétimo lugar foi um alívio para um cara que não consegue um resultado tão bom quanto desde Valência. Mandou muito bem nos treinamentos, nunca esteve de fora dos dez primeiros e ainda largou da sexta posição. Foi ultrapassado por vários na primeira volta, mas se recuperou bastante no longuíssimo segundo stint de 24 voltas. Após o segundo pit-stop, tinha um carro veloz o suficiente para ganhar mais posições nas últimas voltas. Contando também com alguns abandonos, o filho do Keke conseguiu somar seis pontinhos.

PAUL DI RESTA6,5 – Tinha chances de ter feito sua grande corrida no ano até aqui, mas foi bastante atrapalhado por um problema de câmbio que surgiu no último treino livre. Para trocá-lo, o escocês teve de se desfazer de cinco posições do grid, uma tragédia grega para alguém que viria a ser o quarto colocado no Q3 da classificação. Na corrida, não fez muito mais do que dar aquela trancada de porta em Bruno Senna na Variante dela Roggia, mandando o brasileiro lá para as cucuias. Com um desempenho conservador, eficiente e a ajuda de alguns abandonos, deu para terminar em oitavo e quebrar a sequência de resultados favoráveis ao companheiro Nico Hülkenberg.

KAMUI KOBAYASHI5 – Não foi tão brilhante quanto seu companheiro Sergio Pérez e também não costuma ser ajudado pela sorte. O japa voltou a superar seu companheiro cucaracho no treino oficial e ainda foi o único da Sauber a ir para o Q3, mas isso ironicamente se mostrou um revés para ele. Utilizando a mesma estratégia de um pit-stop da maioria dos rivais, Kamui não tinha como se destacar muito com um carro que naturalmente é pior do que os outros. No segundo stint, até ganhou muitas posições, mas não dá para fazer milagre quando você retorna à pista em 16º após o pit-stop. Nono lugar apenas correto.

BRUNO SENNA5,5 – Na última volta, pegou o ponto derradeiro. Graças à mediocridade da Williams em Monza, não esteve bem nos treinos e ficou apenas em 13º no grid de largada. Apareceu bem na ótima largada e nas boas disputas que teve com o pessoal do meio do pelotão, com direito a um duelo encarniçado com Paul di Resta, que o empurrou de maneira sacana para fora da pista. Faltando apenas poucos metros para o fim da corrida, ultrapassou Daniel Riccardo e marcou mais um pontinho. De grão em grão, deixará Pastor Maldonado para trás na tabela de pilotos.

PASTOR MALDONADO4 – Pela primeira vez desde que nasceu, teve um fim de semana tranquilo e comedido. Após tomar duas punições de perda de posições de grid em Spa-Francorchamps, nem adiantava caprichar no treino oficial. Com um carro ruim, o venezuelano não passou para o Q3 e só arranjou um lugar na penúltima fila. No domingo, apostou em dois pit-stops e usou pneus médios nos dois últimos stints. Nas últimas voltas, tinha um carro rápido e ganhou algumas posições. Terminou batendo na trave. Não marca pontos desde Barcelona.

DANIEL RICCIARDO4,5 – Coitado. O piloto mais italiano de um grid sem italianos se esforçou, flertou com um pontinho e terminou o domingo na seca. O carro da Toro Rosso aparenta ser razoável para pistas mais velozes e Ricciardo parecia estar em melhores condições do que em outras ocasiões nesse ano. Largou e andou no meio do pelotão durante todo o tempo, mas a estratégia de um pit-stop o colocou na décima posição nas últimas voltas. Mas a miséria se manifestou na última curva, quando o carro desligou e o australiano se viu obrigado a se arrastar até a linha de chegada, sem lenço nem documento.

JÉRÔME D’AMBROSIO4 – Difícil avaliar um cara que só tinha tido contato com o carro da Lotus em uma sessão molhada em Mugello. Chamado às pressas para substituir Romain Grosjean, o belga não quis saber de inventar demais. Fez seu trabalho honesto e discreto de sempre, não se destacou nos treinos livres e teve dificuldades na qualificação. Durante a corrida, pouco apareceu. Deu uma bela escapada na Seconda di Lesmo e ainda tomou algumas ultrapassagens, mas ao menos sobreviveu e terminou. Não prometeu nada e não decepcionou.

HEIKKI KOVALAINEN4 – Teve um fim de semana bem mais satisfatório do que em Spa-Francorchamps, ainda que isso não tenha sido traduzido em pontos. Nos treinos livres, ficou sempre em 18º ou 19º. Largou em 17º por causa das punições de Pastor Maldonado e do infortúnio de Nico Hülkenberg. Na corrida, teve alguns duelos com gente como o próprio Maldonado e Jérôme D’Ambrosio, mas acabou terminando na mesma posição de sempre, à frente apenas de seus colegas de fim de pelotão.

VITALY PETROV3,5 – No fim de semana de seu aniversário, ficou contente com seu Caterham, embora não tenha conseguido nada de novo como presente. Nos três treinos livres, ficou em 20º. Na corrida, teve alguns duelos com o companheiro Heikki Kovalainen e acabou terminando atrás, como sempre. Ainda assim, a posição final não foi tão ruim assim. Pena que isso signifique que o russo tenha ficado a cinco posições do último ponto.

CHARLES PIC4,5 – Definitivamente, é o melhor companheiro que Timo Glock teve nos últimos três anos. O francês voltou a superar seu experiente companheiro em dois treinos livres e na corrida. Na qualificação, ficou atrás por apenas três centésimos. Você pode ressaltar que Pic só ficou à frente porque Glock teve de fazer um pit-stop prematuro, mas não dá para negar seu bom trabalho nas últimas corridas. Merece seguir na Fórmula 1 em 2013.

TIMO GLOCK3 – Voltou a ser derrotado pelo companheiro inexperiente, talvez um mau sinal de desânimo. Ficou atrás Charles Pic em dois treinos livres e também levou sufoco na qualificação, embora tenha ficado à frente. Nas primeiras voltas, levou um esbarrão de Vitaly Petrov e teve de ir aos pits mais cedo para colocar um bico novo. Retornou à pista muito atrás e só conseguiu superar os dois adversários da HRT. Vida infeliz.

PEDRO DE LA ROSA3 – Fez em Monza seu GP de número 100 na Fórmula 1, algo curioso em se tratando de um piloto de 41 anos de idade que estreou em 1999. No mais, não há muito que comentar. Ficou sempre nas duas últimas posições nos treinos, teve problemas com os pneus médios durante a corrida e só conseguiu terminar em 18º graças à sequência de abandonos das últimas voltas. Corrida discreta, assim como sua carreira.

NARAIN KARTHIKEYAN3,5 – Não teve um fim de semana tão ruim. No treino oficial, até conseguiu derrotar o companheiro Pedro de la Rosa por dois décimos. Na largada, chegou a ultrapassar os dois pilotos da Marussia, mas acabou batendo em um deles e danificou o bico. Esteve à frente de De La Rosa até seu único pit-stop. Depois, se resignou com a última posição.

MARK WEBBER1,5 – Fim de semana horrível, indigno para alguém que estava lutando pelo título até algumas corridas atrás. Por incrível que pareça, seu melhor momento foi o nono lugar no primeiro treino livre. Depois disso, só sofrimento. Ficou de fora do Q3 da classificação novamente e teve de largar em 11º. Perdeu várias posições na largada e só conseguiu adentrar o Top 10 por causa de sua estratégia de um único pit-stop. Mas nem isso deu certo: no fim da corrida, seu Red Bull ficou sem pneus e o australiano sofreu uma rodada assustadora na saída da Variante Ascari. Amedrontado, ele achou melhor trazer seu carro lentamente de volta para os pits.

NICO HÜLKENBERG1 – Outro para quem nada deu certo na Itália. Já nos treinos livres, ficava claro que Paul di Resta seria o melhor piloto da Force India em Monza. Para complicar ainda mais a vida do piloto alemão, um problema de motor no Q1 da classificação o obrigou a largar da última posição. Na corrida, apostou em apenas um pit-stop, mas não conseguiu escalar muito. Nas últimas voltas, o freio começou a ficar muito ruim e Nico preferiu recolher seu carro para os boxes.

SEBASTIAN VETTEL2 – Fim de semana difícil, no qual nem o carro e nem a organização colaboraram. Sem ter um bólido legal, não ficou entre os dez primeiros em nenhum dos treinos livres. No último dele, aliás, teve o primeiro de seus dois problemas de alternador no fim de semana. Na qualificação, fez um pequeno milagre e arrancou um quinto lugar no grid. A corrida teve apenas um único momento bom: a ultrapassagem sobre o velho Michael Schumacher logo nas primeiras voltas. O duelo com Fernando Alonso resultou em uma fechada de porta que só a FIA viu. Resultado: uma injusta punição para o alemão, que acabou perdendo várias posições. No fim da corrida, novo problema de alternador e Vettel foi obrigado a parar o carro para não estourar o motor de vez.

JENSON BUTTON9 – Vida injusta. Quando parecia que Jenson Button estava voltando a enfileirar uma série de bons resultados, o maldito do McLaren MP4-27 quebra e o deixa na mão. O inglês tinha tudo para completar uma bela dobradinha de sua equipe. Esteve rápido em todas as sessões e não teve problemas para largar na primeira fila ao lado do companheiro Lewis Hamilton. Chegou a perder a segunda posição para Felipe Massa na primeira curva, mas conseguiu recuperá-la antes mesmo de seu único pit-stop. Vinha andando tranquilamente nesta posição até seu bólido apresentar problemas de alimentação. O motor apagou e o belo fim de semana de Button acabou ali.

JEAN-ÉRIC VERGNE2 – Vinha tendo mais um fim de semana aborrecido até sofrer talvez o maior susto do fim de semana. Na oitava volta, seu carro rodou sozinho na freada para a primeira chicane, passou por cima de uma zebra, decolou e aterrissou violentamente na área de escape. O francês deixou o carro com dores nas costas e na cabeça, mas nada de mais grave lhe aconteceu. Um fim desagradável para alguém que não fez nada de mais nos treinos e só escapou do Q3 graças aos problemas de Nico Hülkenberg.

GP DA ITÁLIA: Para mim, a corrida mais importante da Fórmula 1. Você pode dizer que Spa-Francorchamps é mais legal, Silverstone possui uma história mais bonita e Mônaco sempre tem algum marido trambiqueiro rico para tirar sua prima da seca, mas não há, ao menos para mim, lugar que exalte mais o puro automobilismo das antigas do que Monza. O autódromo é simples e muito veloz, assim como todos deveriam ser. Retas, curvas de alta e chicanes, está bom demais, porque quem gosta de cotovelo é ortopedista.  As áreas de escape são relativamente curtas e feitas majoritariamente de brita, assim como no passado. As arquibancadas estão sempre lotadas de gente avermelhada e apaixonada. O pódio é o mais bonito de toda a Fórmula 1. As curvas têm nomes ao invés de números ou merchandising. As bandeiras da Ferrari cobrem as tribunas. E a Itália, ah, o país mais belo (e de língua mais bela) da Europa, apaixonado por arte, comida, vinho tinto e automobilismo. Os italianos podem ser barulhentos, mafiosos, esquentados e decadentes, mas compensam tudo com uma passionalidade calorosa e cativante que não encontra similaridade no Hemisfério Norte. Itália é paixão. E as corridas de carro devem ser movidas à paixão. Por isso que ninguém nunca vai gostar do corporativo e esnobe GP de Abu Dhabi. Por isso que tutti amano Monza.

D’AMBROSIO: O belga mais italiano da Fórmula 1 arranjou um trampo valiosíssimo. Como Romain Grosjean tomou uma merecida suspensão de uma corrida pelo acidente na largada do GP da Bélgica, a Lotus não teve nenhuma outra escolha a não ser promover temporariamente o piloto de 26 anos que fez sua estreia na categoria pela Virgin no ano passado e que trabalha um pouquinho como piloto de testes neste ano. Como Grosjean retornará já em Marina Bay, será provavelmente a única oportunidade de Jérôme D’Ambrosio mostrar alguma coisa. Ao contrário do horroroso carro da Virgin, o Lotus E20 é bonito, veloz e ainda estreará o tão falado duto ligado ao DRS, que dará de presente alguns pentelhésimos de segundo. Como Monza não é o mais complexo dos circuitos, ainda mais para alguém que corre lá desde os tempos de Fórmula Renault, não é absurdo imaginar que D’Ambrosio poderá marcar alguns pontos e, quem sabe, subir ao pódio. Vale lembrar que o cara chegou a ser cogitado para ocupar a vaga de companheiro de Robert Kubica na mesma equipe, quando ela se chamava Renault, em 2010. Vitaly Petrov, mais rico, acabou assumindo o carro. Neste próximo fim de semana, a justiça será feita. Go, Dambrrosiô!

HAMILTON: Foi Eddie Jordan quem acendeu um dos grandes pavios da silly season. Como quem não quer nada, o ex-dono de equipe e atual comentarista da BBC afirmou que Lewis Hamilton, patrimônio da McLaren desde 2005, está de malas prontas rumo à outra equipe prateada do grid, a Mercedes. Ele entraria no lugar de Michael Schumacher, que pode se aposentar ou até mesmo retornar à Ferrari (quem lançou essa foi o Humberto Corradi). Hamilton está cansado da escuderia que o trouxe à Fórmula 1. No fim de semana da corrida de Spa-Francorchamps, ele causou uma polêmica infantil e desnecessária. Após ter apanhado de Jenson Button no treino classificatório, o campeão de 2008 escancarou para os seus numerosos seguidores no Twitter uma foto com dados sigilosos de telemetria recolhidos de seu carro. Este tipo de coisa é guardado a sete chaves e os mortais nunca poderiam ter acesso a esse tipo de coisa. Imagine, então, quando se trata dos dados referentes a um piloto de ponta de uma equipe de ponta. Até mesmo a Red Bull já admitiu que utilizará a foto publicada por Hamilton para estudar e ver se aprende alguma coisa. Atitude ridícula e totalmente antiprofissional de um cara cuja cabecinha é inversamente proporcional ao talento. Se continuar assim, nunca mais será campeão de nada no automobilismo.

MALDONADO: Outro microcéfalo do grid é este venezuelano aqui. Em Spa-Francorchamps ele superou todos os recordes: conseguiu três punições em apenas dois dias. Duas destas, referentes a uma queima de largada escandalosa e a um acidente com Timo Glock, serão pagas em Monza na forma de dez posições a menos no grid. O site Grande Prêmio fez um estudo que apontou nada menos que dezessete punições nos 31 GPs que Pastor Maldonado disputou em sua carreira na Fórmula 1. 17 em 31 significam mais de uma punição a cada dois fins de semana. O que dizer? Mais: apesar da vitória em Barcelona, quase que Maldonado foi ultrapassado pelo discreto companheiro de equipe em número de pontos no domingo passado. Se Bruno Senna tivesse terminado em sétimo, como chegou a ameaçar, ele sairia de Spa-Francorchamps com um ponto a mais que o festejado bolivariano. Caso Pastor Maldonado consiga a proeza de terminar o ano atrás de um companheiro bem mais lento, seria caso da Williams repensar a duração deste contrato. Do que adianta tanto dinheiro e tanta velocidade se o piloto é incapaz de terminar duas corridas seguidas nos pontos? Como torcedor de Maldonado, digo que fico até preocupado com o andamento de sua carreira. Ele é talentoso e tem grandes possibilidades de se tornar um piloto de ponta no futuro, mas precisa ajustar a cabeça e apertar alguns parafusos. Bani-lo por uma ou duas corridas lhe faria bem, a bem da verdade. E faria melhor ainda a Valtteri Bottas.

FERRARI: Falando em Schumacher na Ferrari, a tal vaga de companheiro de Fernando Alonso continua sendo um dos assuntos que mais voam de boca em boca no paddock da vida. Felipe Massa continua esperando, mais na torcida do que na convicção, que o míope Stefano Domenicali anuncie sua permanência na Ferrari para 2013. Difícil. Embora a corrida de Spa-Francorchamps tenha sido boa, as duas anteriores foram terríveis. Nesse momento, a Ferrari está atrás até mesmo da Lotus de Romain Grosjean no campeonato de construtores, situação inaceitável para a equipe que lidera o campeonato de pilotos. Por causa disso, outras possibilidades surgem. O tabloide alemão Bild divulgou a informação de que Nico Hülkenberg, da Force India, já teria assinado um pré-contrato com os italianos. O piloto alemão desconversou e não negou as negociações. Outros nomes que aparecem na disputa também são alemães, o supracitado Michael Schumacher e o desempregado Adrian Sutil. Embora ache que o alemão que deveria ser chamado atende pelo nome de Nick Heidfeld, não reclamo de nenhuma das possibilidades. Hülkenberg é ótimo piloto e está derrotando Paul di Resta com facilidade nas últimas etapas. Sutil é uma boa e nem tão arriscada opção, embora tenha as desvantagens de não ter ficha limpa e de estar fora do automobilismo. Schumacher é Schumacher, mas a idade pesa. Enquanto isso, Felipe Massa segue com seu santinho e sua língua presa esperando pela renovação. Sabe de uma coisa? Os teutônicos que me perdoem, mas a renovação virá.

MCLAREN8,5 – De Hockenheim para cá, parece ter o melhor carro do grid. E agora que os mecânicos aprenderam a trabalhar, vencer não se tornou algo tão difícil assim. O cavalheiro Jenson Button, que vinha numa fase de vacas magérrimas, teve um fim de semana perfeito como poucos e ganhou a corrida quase que de ponta a ponta, afastando a má fortuna que sempre o rondou na Bélgica. Quem não anda sendo favorecido pela sorte é Lewis Hamilton, discreto em todos os treinamentos e destruído na largada da corrida. Após o sustão, o Sr. Scherzinger desceu do carro e foi tirar satisfações com Romain Grosjean. Um puta aborrecimento para alguém que sabe que pode brigar pelo título, tem carro para isso e não consegue os resultados por causa de externalidades.

RED BULL7 – Aparenta não ter avançado tanto quando deveria nestas últimas etapas. Mesmo assim, assegurou um pódio tão competente quanto improvável com ele, o queridinho da família, Sebastian Vettel. O alemão não foi bem nos treinos e só largou da décima posição, mas aproveitou-se da excelente estratégia da sua equipe, de parar apenas uma vez e adiantar ao máximo o pit-stop, para subir para a segunda posição. A nota só ficou prejudicada por conta de Mark Webber, que foi obrigado a trocar de câmbio e perdeu cinco posições no grid. Além disso, sua estratégia foi bastante distinta da de Vettel. E se a do colega deu muito certo, é óbvio que a sua deu errado. Acabou terminando apenas em sexto.

LOTUS7 – O marketing sobre seu difusor ligado ao DRS foi tamanho que podemos até dizer que o resultado final foi deveras decepcionante. Tudo bem, um pódio nunca é ruim, mas depois de tudo o que foi falado, nós estávamos todos imaginando que Kimi Räikkönen e Romain Grosjean meteriam umas quinze voltas de vantagem sobre o resto. Nada disso. O difusor não foi utilizado na corrida e Kimi não conseguiu mais do que um terceiro lugar. A ultrapassagem sobre Michael Schumacher na Eau Rouge foi uma verdadeira pintura. Quanto a Romain Grosjean, tudo o que precisava ser dito sobre ele já foi dito. Que o tal difusor vire realidade em Monza.

FORCE INDIA7,5 – Poucos imaginavam que isso aconteceria, mas Nico Hülkenberg definitivamente superou Paul di Resta no seio da equipe indiana. O escocês até largou mais à frente, mas acabou sucumbindo a mais uma daquelas esquisitices que sempre acometem algum piloto da Force India durante as corridas. E pensar que, antes do primeiro pit-stop, ele tinha grandes chances de terminar entre os cinco primeiros. Paciência. Já o alemão esteve combativo durante todo o tempo, peitou caras mais experientes e finalizou a prova na quarta posição. É bom que se ressalte, no entanto, que Hülkenberg dificilmente conseguiria uma posição tão boa se Romain Grosjean não existisse.

FERRARI5 – Sem Fernando Alonso, a equipe não se sobressai muito mais do que uma Sauber. Sei que estou sendo cuzão com Felipe Massa, que terminou numa honestíssima quinta posição, mas nós sabemos que o carro da Ferrari só está conseguindo posições melhores com o espanhol. O fato é que a corrida ferrarista praticamente acabou na primeira curva, quando Alonso foi atropelado por Romain Grosjean. Sortudo, ele só saiu meio mareado do carro. Único representante da esquadra tinta, Massa fez e tomou ultrapassagens, não cometeu erros e obteve dez pontos importantes para justificar uma provável permanência em 2013. O carro parece não ter avançado muito de uns tempos para cá.

MERCEDES3 – Há três anos, dizia-se que a Mercedes era uma das candidatas ao posto de escuderia mais forte do grid. Com o passar do tempo, a esquadra prateada aceitou a pecha de “sólida quarta equipe da Fórmula 1”. Hoje, ela mal consegue aguentar uma disputa contra um carro da Force India ou da Sauber com alguma dignidade. Nico Rosberg teve um fim de semana dolorosamente ruim, com direito à última fila e ultrapassagens de carros da Toro Rosso. O tricentenário Michael Schumacher teve um pouco mais de motivos para sorrir, pois se envolveu em algumas disputas muito boas contra pilotos com quase a metade de sua idade e levou alguns pontos para casa. Se o carro não melhorar, não dá para ver futuro algum na equipe.

TORO ROSSO7,5 – Teve seu melhor fim de semana no ano até aqui, mas não devemos creditar um pingo do sucesso ao carro, que continua uma meleca. Daniel Ricciardo e Jean-Éric Vergne só escaparam do Q1 porque Nico Rosberg realmente estava perdido em Spa-Francorchamps. Os dois ganharam um mundo de posições com o acidente da primeira curva. Ambos me surpreenderam por terem conseguido permanecer entre os dez primeiros sem grandes problemas, até conseguindo disputar posições com pilotos de equipes melhores. No final, Vergne ficou em oitavo e Ricciardo terminou logo atrás. Bom fim de semana que provavelmente não se repetirá mais neste ano.

WILLIAMS – 4,5 – Chega a ser um crime o carro da Williams, tão bom e bonito, estar nas mãos de um alucinado que consegue a proeza de tomar três punições num mesmo fim de semana e de um sujeito apenas politicamente correto e burocrático. O pior é quando este tal politicamente correto é o piloto mais eficiente da equipe. Bruno Senna largou lá atrás de novo, mas não fez besteiras e só não marcou pontos porque a estratégia escolhida para ele foi muito ruim. Pastor Maldonado fez o terceiro tempo na qualificação, perdeu três posições no grid após fechar Nico Hülkenberg, queimou a largada, envolveu-se no acidente da primeira curva e ainda bateu em Timo Glock na relargada. Este, sim, merecia tomar suspensão. Para aprender que talento não combina com burrice.

SAUBER9 – Se tem uma equipe que tem todos os motivos para querer a cabeça de Romain Grosjean, esta é a Sauber velha de guerra. A equipe esteve brilhante durante todo o fim de semana, com Kamui Kobayashi fazendo o melhor tempo da encharcada sexta-feira e conseguindo o segundo lugar no grid. Sergio Pérez também mandou bem e partiu da quarta posição. Os freios fumegantes e a largada horrorosa de Kobayashi não precisavam ter acontecido, mas quem imaginaria que os dois companheiros se ferrariam de verde e amarelo naquela apertada primeira curva? Pérez abandonou no ato e Kobayashi seguiu em frente, aos trancos e barrancos, até o fim. Saldo final: zero ponto. Injustiça total com uma equipe que poderia perfeitamente ter ocupado dois lugares no pódio.

CATERHAM2 – Se Tony Fernandes e Heikki Kovalainen demonstraram publicamente sua insatisfação com os rumos da equipe, quem sou eu para dizer o contrário? Ninguém esperava por isso, mas a Marussia avançou de tal forma que os esverdeados terão de trabalhar para não serem superados. Kovalainen e Vitaly Petrov ainda não foram batidos pelos pilotos das duas equipes piores, mas a distância para a Toro Rosso parece ter aumentado um pouco. E na corrida, o finlandês ainda causou involuntariamente um acidente nos boxes, quando o responsável pelo pirulito o liberou mais cedo do que deveria e Narain Karthikeyan acabou acertando seu carro. Erro grotesco e perigoso. Seria uma pena se a Caterham, que avança a passos de formiga, estacionasse em sua evolução.

MARUSSIA6 – Sempre inexpressiva e esquecida, a equipe anglo-russa chamou a atenção em alguns momentos pontuais em Spa-Francorchamps. No segundo treino da sexta-feira, aquele em que havia mais água do que asfalto no circuito, Charles Pic conseguiu uma improvável liderança. Nunca mais a Marussia conseguira repetir tal resultado, anotem. No treino oficial, embora Pic tenha ficado atrás de Pedro de la Rosa, é visível que o carro vermelho e preto melhorou um pouco. E na corrida, Pic e Timo Glock fizeram talvez uma das batalhas mais memoráveis no ano. Pena que poucos prestaram atenção.

HRT3 – Pouco a dizer. Na verdade, devo criticar apenas a suspensão de gelatina que instalaram no carro de Narain Karthikeyan. Ela se rompeu em plena Stavelot e causou o acidente do piloto indiano, que saiu tranquilamente do carro. A batida só não foi forte porque o carro da HRT é diabolicamente lento. Pedro de la Rosa não fez muita coisa de novo. Superou Charles Pic na qualificação, passou por cima de alguns destroços na largada, trocou o bico, voltou lá no fim do grid, fez o que tinha de fazer e terminou a corrida. Se a Marussia realmente melhorou, é bom os espanhóis também trabalharem um pouco mais.

TRANSMISSÃOREPLAY! – Só eu reparo nestas coisas? Durante a corrida, por duas vezes, o tiozinho barrigudo responsável pelos GCs da transmissão esqueceu o marcador “Replay” ligado. Não sei se estava bêbado ou puto da vida por causa do abandono do Kamui Kobayashi. Durante alguns segundos, assistimos a replays em tempo real, uma coisa de outro mundo, que só a vanguardista Fórmula 1 pode oferecer a você. A transmissão brasileira também cometeu seus pequenos deslizes de sempre, nada de muito absurdo. Pneu Mercedes e Mika Räikkönen ultrapassando Schumacher na Kemmel fizeram parte do cardápio. Legal foi a lembrança da história do Eliseo Salazar com o Nelson Piquet. É uma pena que o narrador se preocupe tanto em contar o passado e se esquece do presente, perdendo a belíssima briga entre os dois carros da Marussia. Mas de equipe pobre, ele só presta atenção em replay. Replay! Replay!

CORRIDAMERCI, ROMAIN – Se Romain Grosjean foi apedrejado por tirar da prova o líder do campeonato e o namorido da Pussycat Doll, além de acabar com os sonhos do piloto mais legal do grid, é bom que se diga que a corrida ficou muito legal a partir do acidente causado por ele. O grid ficou totalmente bagunçado e pilotos como Sebastian Vettel, Michael Schumacher, Kimi Räikkönen e Nico Hülkenberg puderam dar seus pequenos espetáculos pessoais, para deleite de todos. A vitória de Jenson Button nunca esteve ameaçada, mas as disputas da segunda posição para baixo ficaram muito divertidas. Fazia tempo que uma corrida em Spa-Francorchamps não ficava tão movimentada. E para quem gosta de acidentes, o que Romain Grosjean fez foi uma verdadeira pintura abstrata. Para mim, a única coisa chata foi ver a grande maioria dos pilotos para quem torço se envolvendo na carambola da largada. Alonso, Hamilton, Maldonado e Kobayashi acabaram com seus fins de semana ali.

GP2OCEANO DE BARBARIDADES – O líder Luiz Razia chegou a Spa-Francorchamps sete pontos à frente do italiano Davide Valsecchi. Ambos saíram de lá empatados, com 204 pontos. O título só será definido na última rodada, em Marina Bay. Mas o que aconteceu em Spa-Francorchamps? Para variar, uma série de acidentes absurdos e barbeiragens bizarras que apenas comprovam o baixíssimo nível da GP2 neste ano. A primeira corrida foi vencida pelo sueco Marcus Ericsson, que vinha devendo esta vitória há dois anos. Ele assumiu a ponta após ultrapassar o pole Rio Haryanto sob bandeira amarela – mas ninguém viu. O que mais chamou a atenção foi o acidente violentíssimo do holandês Nigel Melker, da Ocean. Ele bateu de frente nos pneus da curva Raidillon e não sofreu ferimentos sérios por sorte. Na segunda corrida, marcada por uma fechada criminosa que James Calado deu no baiano Razia na primeira volta, o vencedor foi Josef Kral. Felipe Nasr terminou no segundo lugar após ultrapassar o mesmo Calado na última curva da corrida. Eu costumo ser contra punições, mas o que fazer com estes doidos?

GP3OCEANO DE BARBARIDADES – A GP3 só não tem ainda mais barbaridades que a GP2 porque suas corridas não duram nada. A primeira, marcada por um sério acidente do irlandês Robert Cregan, teve somente quatro voltas em bandeira verde e consagrou como vencedor o alemão Daniel Abt. O acidentado Cregan é irlandês e corre pela Ocean, assim como Nigel Melker. Coitado do patrão Tiago Monteiro, que terá de gastar uma fortuna para consertar seus carros de GP2 e GP3. O piloto, em compensação, não sofreu nada de muito grave. Na corrida de domingo, quem venceu foi o finlandês Matias Laine, que saiu da quinta posição para liderança em poucos instantes. O segundo colocado, o luso António Félix da Costa, também foi bem pra caramba: largou em sétimo e terminou em segundo. O líder do campeonato é o neozelandês Mitch Evans, um dos poucos caras que realmente andam valendo a pena prestar atenção no automobilismo de base. Ele tem 17 pontos de vantagem para o finlandês Aaro Vainio e resta apenas uma rodada dupla para o fim do campeonato. Só perde se for amaldiçoado por alguma magia maori.

JENSON BUTTON10 – Finalmente teve um fim de semana digno de seus melhores dias. O britânico praticamente não andou na sexta-feira chuvosa, mas nem precisou. Logo no treino classificatório, esteve veloz em todas as sessões e cavou uma pole-position facílima. Na corrida, partiu bem e escapou do apocalipse que limou alguns pilotos que vinham atrás. Disparou na liderança e não teve nenhum problema para aguentar 20 voltas com os pneus mais macios. Venceu a corrida com 13 segundos de vantagem. Não brigará pelo título, mas conseguiu edulcorar um pouco seu histórico sempre turbulento em Spa-Francorchamps.

SEBASTIAN VETTEL9 – Não tinha um carro bom nos treinos e a corrida serviu somente para mostrar por que ele conseguiu dois títulos mundiais. No sábado, surpreendeu negativamente a todos sobrando no Q2 por muito pouco. Largar mais atrás pode ter sido um dos ingredientes do sucesso, já que ele conseguiu escapar incólume do acidente da primeira curva, embora tenha ficado para trás tentando desviar do caos. Sob bandeira verde, fez uma excelente corrida de recuperação, ultrapassou muita gente por fora na Bus Stop e ainda sobreviveu a uma fechada violenta de Michael Schumacher na mesma Bus Stop. A estratégia de apenas um pit-stop o ajudou a subir para um excelente segundo lugar. Corrida de gênio.

KIMI RÄIKKÖNEN9 – Decepcionou as multidões que esperavam que ele brigasse pela vitória e pelo título mundial no Superbowl. O tal duto ligado ao DRS não chegou a ser utilizado na corrida e o finlandês teve um domingo menos interessante do que o esperado. Ainda assim, subiu ao pódio, bebeu champanhe e nem se deu ao trabalho de espirrar o líquido nos colegas. Arranjou um bom terceiro lugar no grid, escapou das pancadas e até se esforçou bastante, mas não deu. Provavelmente nem mesmo ele contava com o mau desempenho do carro preto em alguns momentos da corrida, em especial na hora da ultrapassagem de Nico Hülkenberg. Em compensação, quando o bólido estava rápido, Kimi até conseguiu passar Michael Schumacher em plena Eau Rouge. É, o nego é fodão.

NICO HÜLKENBERG8,5 – Os treinamentos discretos foram amplamente compensados pela melhor corrida de sua carreira até aqui. Não passou para o Q3, ao contrário de seu colega de equipe, mas foi talvez o maior beneficiário da lambança perpetrada por Romain Grosjean: ganhou nove posições de uma vez só. Na relargada, ainda peitou Kimi Räikkönen e conseguiu a ultrapassagem, subindo para a segunda posição. Ele só caiu para quarto porque Kimi retomou sua posição após o primeiro pit-stop e também porque Sebastian Vettel fez apenas uma parada. Mesmo assim, deu para marcar doze pontos e superar Paul di Resta no campeonato.

FELIPE MASSA7,5 – Sejamos honestos, o resultado final da corrida foi mais expressivo do que o desempenho do piloto brasileiro no fim de semana. Como o que conta é o número de pontos que o cara leva para casa, o saldo de Spa foi altamente positivo. Felipe não começou bem o fim de semana e foi massacrado novamente no treino oficial, saindo apenas da 14ª posição. O engavetamento da La Source o ajudou muito, permitindo que pilotos mais velozes fossem extirpados. Mas também não posso ser injusto e deixar de lado algumas boas ultrapassagens que ele fez sobre Nico Rosberg e Mark Webber. Sem cometer erros, o paulista completou a prova na quinta posição e sonha conseguir manter o mesmo nível de competitividade até o fim.

MARK WEBBER5,5 – Outro cujo resultado final não reflete exatamente o nível de desempenho apresentado. Para ser sincero, o australiano talvez nem teria marcado pontos se não tivesse acontecido o acidente. Seu fim de semana já estava mais ou menos comprometido com a punição por troca da caixa de câmbio. Sem ter andado bem em nenhum dos treinos livres e largando apenas em 12º, Mark sobreviveu ao caos da primeira curva e fechou a primeira volta em oitavo. Foi sempre um dos primeiros pilotos a abrir as rodadas de pit-stops. Faltou-lhe velocidade em alguns momentos fundamentais. No fim da corrida, não tinha pneus em bom estado e acabou ultrapassado por Felipe Massa. Mais um fim de semana discreto.

MICHAEL SCHUMACHER8 – No seu GP de número 300, ladrou muito mais do que mordeu. Longe de querer insinuar que seu desempenho tenha sido ruim, terminar em sétimo esteve muito longe daquilo que ele esperava – e merecia. Estava perdido da silva nos treinos e sofreu para ficar em 13º no grid. Como estava mais atrás no grid, não foi atingido por Grosjean nenhum e pulou para quinto logo na primeira volta. Com o carro bom, ultrapassou Paul di Resta e Kimi Räikkönen. A bonança acabou logo após o primeiro pit-stop, quando o Mercedes parou de funcionar tão bem. Por causa disso, Schumacher levou de Räikkönen uma das ultrapassagens mais bonitas do ano, em plena Eau Rouge. A quebra da sexta marcha também não o ajudou muito. Se isso o consola, ele foi o único piloto da equipe prateada que marcou pontos.

JEAN-ÉRIC VERGNE8 – Melhor fim de semana do ano com sobras. O quarto lugar no chuvoso primeiro treino livre parecia apenas fogo de palha, mas Vergne teve outros bons momentos em Spa. Na qualificação, se livrou facilmente do Q3 e obteve um razoável 15º lugar no grid. O acidente da largada o catapultou para a sétima posição. Poderíamos imaginar que o miserável carro da Toro Rosso o faria cair para o fim do pelotão, mas não foi isso o que aconteceu. O francês esteve competitivo durante todo o tempo e até ultrapassou caras como Nico Rosberg e Bruno Senna. Sempre à frente de Daniel Ricciardo, deu para Jean-Éric marcar quatro bons pontos.

DANIEL RICCIARDO8 – É foda. Ele quase sempre termina à frente do companheiro. Quando é para marcar pontos, no entanto, Ricciardo acaba ficando atrás de Vergne. Ainda assim, o sempre sorridente australiano estava ainda mais sorridente com aquele que foi seu melhor resultado na Fórmula 1 até aqui. No primeiro treino de sexta, ele conseguiu um notável terceiro lugar. Na qualificação, saiu da 16ª posição, sem impressionar. O engavetamento da primeira volta o colocou na sexta posição. Ele ficou à frente de Vergne até a volta 33, quando os dois pilotos inverteram as posições. Nono lugar bom, mas um pouco amargo.

PAUL DI RESTA4 – A corrida parecia feita para ele. Piloto sensato, largando da nona posição do grid, um acidente de grandes proporções tira da prova um monte de pilotos à sua frente. No complemento da primeira volta, já era o quarto colocado. Infelizmente, o escocês não conseguiu capitalizar o razoável desempenho dos treinos no domingo. Perdeu um monte de posições após a primeira parada e não conseguiu mais voltar lá para as cabeças. Ainda deu sorte de conseguir um pontinho nas últimas voltas.

NICO ROSBERG0 – Não gosto dele, mas até fiquei com pena. Na sexta-feira, choveu e ele andou muito pouco. No treino livre do sábado de manhã, o câmbio quebrou. Na qualificação, ele assustou a todos não conseguindo passar pelo Q1 da qualificação, juntando seus trapos aos dos Karthikeyans da vida. Punido pela troca do câmbio, teve de largar em 23º. Na corrida, mesmo com o grande número de abandonos nas primeiras voltas, não conseguiu ganhar tantas posições. Só foi visto quando tomava ultrapassagens, e ele tomou muitas delas, até mesmo dos carros da Toro Rosso. Era só o que faltava ter marcado pontos, mas o alemão quase conseguiu.

BRUNO SENNA6 – Não gosto muito dele, mas admito que merecia um resultado bem melhor. Não fez muita quilometragem na sexta-feira, mas pôde ao menos contar com sua experiência de dois anos de Fórmula 1 nesta pista. Foi mal na classificação, mas sobreviveu aos incidentes da primeira volta e subiu para a nona posição. Tentou aplicar uma estratégia de apenas uma parada, mas o carro ficou lento em alguns momentos e o sobrinho acabou perdendo posições importantes no final. Obrigado a fazer um último pit-stop, suas chances de pontos acabaram ali. Pelo menos, o consolo da primeira volta mais rápida da vida. Faltam apenas 18 para igualar o tio.

KAMUI KOBAYASHI8 – A maior tristeza que eu tive como espectador de Fórmula 1 nesta temporada foi ver aquele carro branco e preto levando pancada de tudo que é lado. O japonês vinha fazendo talvez o melhor fim de semana de um piloto de seu país na história da categoria, com direito à liderança no primeiro treino e ao inacreditável segundo lugar no grid. Mas é óbvio que um piloto oficialmente apoiado por minha pessoa tenderia ao fracasso, senão à tragédia. Antes da largada, o freio esquentou demais e começou a verter espessa fumaça. Sabe-se lá o que aconteceu, sua largada foi horrorosa e Kamui perdeu umas trinta posições. Em seguida, o acidente. Por incrível que pareça, o carro seguiu mais ou menos inteiro, mas o sonho do primeiro pódio virou pó.

VITALY PETROV5 – Fez o treininho e a corridinha de sempre. Dessa vez, foi o melhor dos alunos do fundão. O acidente da largada o fez ficar atrás até mesmo de um carro da HRT, mas o russo não teve problemas para se livrar dele na relargada. Dali para frente, apenas pilotou para chegar ao final.

TIMO GLOCK4,5 – Um fim de semana cheio de coisas para contar, raridade em se tratando de seu caso, mas que terminou mais ou menos bem. Na sexta-feira chuvosa, o alemão conseguiu um irreal sexto lugar naquela sessão onde choveu ácido e poucos pilotos marcaram volta rápida. Na qualificação, se aproximou bastante da Caterham graças às atualizações trazidas pela Marussia. Na corrida, teve alguns momentos nervosos como o acidente com Pastor Maldonado na relargada e o espetacular duelo com o companheiro Charles Pic, ignorado solenemente pela transmissão brasileira. Achei que os dois iriam se chocar e Glock desceria do carro para quebrar a cara do francês, mas tudo felizmente terminou bem.

CHARLES PIC5,5 – Ganha nota maior pelo insólito de ter liderado o segundo treino livre, aquela loteria empapada com a mais pura água da chuva belga. Só voltará a repetir o êxito se subir parar uma equipe maior, algo que soa bastante improvável por ora. No mais, não tem muito mais o que contar. Envolvido naquele belo duelo com Timo Glock, trocou algumas ultrapassagens com o companheiro e deixou muita gente de cabelo em pé. É um piloto que eu definitivamente gostaria de ver tendo uma oportunidade melhor.

HEIKKI KOVALAINEN3,5 – Outro iludido. Este daqui ganhou um monte de posições no acidente da primeira curva, deixou Felipe Massa e Sebastian Vettel para trás e assumiu a décima posição. Ficou por lá enquanto o safety-car esteve na pista. A bandeira verde trouxe o carro verde de volta à sua triste realidade. Chamou a atenção quando se chocou com Narain Karthikeyan dentro dos pits. Culpa do mecânico da Caterham, que liberou o piloto finlandês numa hora que não podia. Terminar à frente apenas de Pedro de la Rosa, e por poucos segundos, não estava nos planos.

PEDRO DE LA ROSA4 – Fez o que estava ao seu alcance – nada. OK, análise simplista. De La Rosa voltou a superar um carro da Marussia, o de Charles Pic, na qualificação. Na corrida, poderia ter ganho algumas posições no acidente da largada, mas atropelou algumas peças voadoras e teve de ir aos boxes para colocar um bico novo. Durante a corrida, se envolveu com alguns pegas com Pic, o companheiro Narain Karthikeyan e até mesmo Heikki Kovalainen. Mais um pouco e ele conseguiria terminar a corrida à frente do finlandês.

NARAIN KARTHIKEYAN2,5 – Não ficou de fora da corrida por pouco: seu melhor tempo no Q1 não superou a barreira dos 107% por pouco. A largada conturbada foi ótima para ele, que pulou da última para a 14º posição sem esforço. Obviamente, a felicidade durou pouco e o indiano não demorou muito para voltar aos últimos lugares. Nem deu para chegar ao fim da corrida. A suspensão dianteira esquerda de seu HRT quebrou na Stavelot e Karthikeyan escapou até bater na barreira de pneus sem maiores consequências.

PASTOR MALDONADO0 – E ele se supera novamente. Cavar duas punições num único fim de semana, como ele fez em Mônaco, não é o suficiente. Em Spa-Francorchamps, o venezuelano conseguiu a proeza de tomar três punições, todas causadas por imprudências totalmente suas. No Q1 do treino oficial, ele foi penalizado com a perda de três posições no grid por ter dado uma fechada daquelas em Nico Hülkenberg. Na corrida, ele largou um mês antes dos outros pilotos e quase assumiu a liderança da corrida. Só não ficou lá na frente porque acabou tocado por Sergio Pérez e acabou caindo para o fim do grid. Para coroar um fim de semana terrível, ainda acabou batendo em Timo Glock na relargada e abandonou a corrida. Total: três punições e dez posições a menos no grid da próxima corrida. Sabe o que é mais chato? Ter desperdiçado um belíssimo terceiro lugar obtido no treino oficial do sábado.

SERGIO PÉREZ7,5 – Assim como seu companheiro Kamui Kobayashi, era outro piloto para chegar ao pódio. Não liderou treino algum e também não encontrou lugar na primeira fila, mas andou direitinho durante todo o tempo e conseguiu um quarto lugar muito legal no grid. O sonho acabou no sábado. No domingo, Pérez foi esmurrado pelos carros de Lewis Hamilton e Romain Grosjean. Após a batida, ainda acabou acertando o Williams de Pastor Maldonado. Depois de tanta pancada, só restou a ele abandonar. Pena.

FERNANDO ALONSO5,5 – Spa-Francorchamps, definitivamente, não é sua pista. Mesmo após onze anos de Fórmula 1 e dois títulos mundiais, o asturiano ainda está devendo uma vitória na Bélgica. Não foi desta vez, e a culpa nem foi dele. Longe de ter o melhor carro, Alonso ainda deu um jeito de liderar o terceiro treino livre. Na qualificação, obteve um honrado quinto lugar no grid. O fim de semana acabou daquele jeito atabalhoado ali, com Romain Grosjean passando a cinco centímetros de suas sobrancelhas. Assustado, o espanhol demorou um pouco para sair do carro. Sobreviveu intacto.

LEWIS HAMILTON3 – Quando não ganha, dá tudo errado. Em Spa-Francorchamps, sofreu o terceiro acidente nas últimas quatro edições, um assombro. Em momento algum, parecia estar na disputa pela vitória, ao contrário do companheiro Jenson Button. Treinou pouco, conseguiu um lamentável oitavo lugar no grid e abandonou logo na primeira curva, quando Romain Grosjean fechou sua porta e causou aquilo lá que todo mundo viu. A temporada deste aí tem sido uma grande montanha-russa.

ROMAIN GROSJEAN0 – Alguém imaginava que a nota seria diferente? Toda a sua atuação no fim de semana, que nem foi aquelas coisas nos dois primeiros dias, pode ser resumida em uma única palavra: desastre. O acidente que ele iniciou quando fechou a porta no nariz de Lewis Hamilton foi assustador e poderia, sim, ter machucado alguém seriamente. Como esse seu comportamento agressivo em largadas é reincidente, a suspensão de uma corrida foi bem aplicada. Que fique em casa e esfrie um pouco a cabeça.

Um três e dois zeros, são estes os algarismos necessários para contabilizar o número de aparições do queixudo heptacampeão Michael Schumacher na Fórmula 1. Neste próximo Grande Prêmio da Bélgica, o alemão de avançados 43 anos fará seu GP de número 300 na categoria. Você pode ser chato e dizer que ele não largou em duas corridas, a da França em 1996 e a da Inglaterra em 1999. Mas eu prefiro utilizar a contagem do número de eventos nos quais ele esteve inscrito e entrou na pista. Deu 300.

Schumacher é certamente o piloto mais importante da Fórmula 1 desde 1994, ano em que Ayrton Senna morreu. De lá para cá, o piloto ganhou quase uma centena de corridas, marcou mais de sessenta poles e levou para casa sete troféus de campeão do mundo. Fez poucos amigos, vários inimigos e atraiu o desprezo de muitos espectadores da categoria, principalmente alguns fãs mais inconvenientes do próprio Senna. Algumas atitudes pouco louváveis que Michael tomou na carreira certamente fomentaram o ódio.

Eu, pouco patriota, sempre preferi Schumacher a Senna. Gostava da dominância que ele impunha ao resto dos pilotos, das estratégias impecáveis, do arrojo empregado apenas quando necessário, dos shows em pista molhada, do hino italiano que ele fazia questão de reger no pódio, do quanto ele irritava os demais. E não consigo achar que um cara que ganha sete títulos mundiais e noventa e tantas corridas não seja bom pacas. Ah, ele é, sim. Os sennistas podem mandar as pedradas.

O Top Cinq de hoje apresentará cinco corridas feitas por Schumacher em sua carreira. Mas não são cinco corridas quaisquer. Como sua carreira teve, até aqui, 300 GPs, achei razoável dividir este número por cinco e pegar uma prova de cada época. O primeiro GP, aquele com a Jordan, obviamente está aqui. Depois, fui somando 60 e chegando às corridas abaixo. Confira aí:

5- GP Nº 1 (GP DA BÉLGICA DE 1991)

A estreia de Michael Schumacher já é bem conhecida por todos. Não vou ficar entrando em detalhes já conhecidos daquele GP, como a beleza do Jordan 191 ou a surpresa que seu sétimo lugar no grid causou. Uso este espaço para contar detalhes que não são tão conhecidos acerca da estreia do cara.

Todos vocês sabem que Schumacher assumiu o lugar de Bertrand Gachot, preso por ter espirrado gás de pimenta na cara de um taxista folgado lá em Londres. O alemão foi chamado para fazer um teste no traçado South do autódromo de Silverstone e andou tão rápido em tão pouco tempo que Ian Philips e Trevor Foster, duas cabeças pensantes da Jordan, pediram para que ele aliviasse um pouco, pois o motor daquele carro seria utilizado em Spa-Francorchamps. Michael só foi confirmado como substituto de Gachot na quarta-feira anterior à corrida.

Schumacher foi uma escolha improvável, a bem da verdade. A Jordan tinha um terceiro piloto rápido e experiente, Stefan Johansson. A ala mais conservadora da equipe irlandesa queria ver o sueco pilotando o carro verde nº 32, mas os 237 mil dólares que a Mercedes depositou nos cofres falaram mais alto. Outros pilotos foram considerados para vaga, como Bernd Schneider (o lobby de Bernie Ecclestone para ele era muito grande, pois o velho asquenaze achava que este seria o piloto alemão do futuro) e até mesmo Keke Rosberg, que vinha paquerando a Fórmula 1 desde 1989.

Mas o alemão acabou sendo escolhido e um magnífico capítulo da história do automobilismo teve início naquele fim de semana nublado de Spa. O alemão não conhecia nada daquela pista belga. Umas voltas num carro de rua com o companheiro Andrea de Cesaris e outras de bicicleta o ajudaram a guardar na cabeça os lendários trechos daquele traçado traiçoeiro e velocíssimo.

Como Schumacher foi meio que chamado às pressas, a Jordan não havia sequer reservado um hotel para ele passar a noite com as prostitutas belgas. Então, ele e seu empresário Willy Weber tiveram de alugar um quartinho na periferia da cidade de Spa. Quartinho, na verdade, é um pleonasmo: tratava-se de um muquifo, um lugar que certamente guardava algum parentesco arquitetônico com Bangu I. A quem quiser saber, o custo da diária naquele inferninho era de exatos US$ 7,90.

A sexta-feira serviu apenas para Schumacher aprender um pouco o que é Fórmula 1. Nas primeiras passagens pela Eau Rouge, ele literalmente repousava o pé sobre o freio e também não se atrevia a usar a sexta marcha. Conforme ganhava experiência e confiança, passou a usar a sexta marcha e recorria cada vez mais ao acelerador. Na primeira qualificação, Michael tentou usar dois jogos de pneus especiais. O primeiro ficou inutilizado após a bandeira vermelha ter sido acionada devido ao acidente de Eric van de Poele. O segundo foi desperdiçado por uma barbeiragem de, acredite, Alain Prost, que freou forte demais à frente do alemão e atrapalhou sua volta rápida.

Mesmo assim, Schumacher fechou a sexta-feira na oitava posição. No sábado, com a pista limpa, ele baixou sua melhor volta em dois segundos e emplacou um excepcional sétimo lugar no grid, quatro posições à frente do companheiro De Cesaris. O italiano ficou simplesmente deprimido com a diferença entre os dois. “Eu sei que não pilotei bem, mas um segundo e meio de diferença? Isso é impossível!”, bradou um choroso Andrea.

A corrida acabou logo após a primeira passagem pela Raidillon. A embreagem foi para o saco. E aí dá para contar outra história. Schumacher havia largado com a peça estragada. No warm-up, o carro já vinha apresentando problemas. O alemão contou a Eddie Jordan que estava tendo dificuldades para mudar de marcha e que seria bom trocar a maldita embreagem. Eddie recusou, alegando que não tinha dinheiro para tamanho luxo. Graças ao pão-durismo do irlandês, a estreia de Schumacher durou menos do que ejaculação precoce.

4- GP Nº 61 (GP DA ALEMANHA DE 1995)

Verdade seja dita, Hockenheim nunca foi lá um circuito de grandes resultados para Michael Schumacher. OK, é estranho fazer tal observação sabendo que o queixudo ganhou cinco vezes por lá nas categorias menores e quatro vezes na Fórmula 1. Ainda assim, perto de lugares como Magny-Cours, Montreal e Spa-Francorchamps, fica claro que a vida do alemão no circuito da floresta nunca foi aquela que ele esperava.

Na versão antiga, então, os registros são ainda mais infelizes. Em seus dias de Fórmula 1, Schumacher só venceu naquele lendário traçado que emulava um oval uma única vez, na brilhante temporada de 1995. Michael pilotava um B195, talvez o melhor carro produzido pela Benetton. O problema é que ele ainda não era mais veloz do que o FW17 da Williams. Ambos usavam motor Renault, mas o chassi projetado por um tal de Adrian Newey fazia toda a diferença.

Schumacher começou mal o fim de semana de Hockenheim. Teve problemas com câmbio na sexta-feira e ficou atrás dos dois carros da Williams na primeira qualificação. No sábado, as circunstâncias lhe foram mais favoráveis e Schumacher baixou seu tempo em 1s1, assumindo a pole provisória. Ele só não contava com a espetacular volta de Damon Hill no final do treino, que baixou sua marca em apenas oito centésimos. Hill vinha sendo a grande atração dos sábados. E uma figura digna de dó nos domingos.

O filho de Graham Hill largou bem e manteve a liderança, mas só por uma única volta. No início da segunda volta, logo na primeira curva, seu Williams escorregou de traseira devido a um problema não identificado e encheu a barreira de pneus em alta velocidade. Fim de prova para um constrangido Hill, que desceu do carro e ainda teve de aturar a zoeira de uma miríade de alemães bêbados nas arquibancadas.

Schumacher herdou a liderança e só deixou de ocupá-la quando fez seu primeiro pit-stop. Ele ainda faria mais um, mas não chegou a perder a primeira posição. Ao fim de 45 voltas, ele recebeu a bandeirada de chegada quase seis segundos à frente de David Coulthard. A festa foi tão grande que os alemães invadiram a pista e um deles lhe entregou uma bandeira da Alemanha. Uma boa surpresa para você que achava que só os brasileiros faziam isso.

3- GP Nº 121 (GP DE SAN MARINO DE 1999)

A temporada de 1999 foi uma das mais difíceis da vida de Michael Schumacher. Não digo isso apenas por causa de seu acidente em Silverstone, até porque ele havia chegado ao circuito inglês tomando enorme sufoco do limitado companheiro Eddie Irvine. O alemão teve um ano razoavelmente azarado, um tanto quanto desastrado e os domingos felizes foram minoritários. O do GP de San Marino foi um deles.

A Ferrari não alimentava grandes expectativas para a prova de Imola, pois ela não vencia por lá desde 1983. Além disso, o F399 era um carro bem menos veloz do que o impecável McLaren MP4/14, projetado por (adivinhe) Adrian Newey. Se quisesse reverter aquele que poderia ser mais um domingo chocho para a nação ferrarista, Schumacher só poderia contar com os infortúnios dos pilotos da concorrência. Mika Häkkinen teve um ano tão errático quando infeliz e David Coulthard estava em uma de suas fases mais apagadas na carreira.

Nos treinos, o alemão fez aquilo que se esperava dele: sacramentou o terceiro lugar no grid, atrás dos dois pilotos da McLaren. Se nada acontecesse de errado lá no território prata, Häkkinen e Coulthard desfilariam rumo a uma dobradinha humilhante no país da Ferrari. Mas os deuses italianos sabem como estragar o dia da McLaren. Häkkinen disparou na ponta e liderou facilmente até a volta 17, quando errou de maneira amadora na entrada da reta dos boxes e arrebentou o seu belo carro no muro.

Coulthard assumiu a liderança e Schumacher veio logo atrás. Ambos tinham previsto uma estratégia de apenas um pit-stop. Mas por que não tentar algo diferente? Este foi o pensamento de Ross Brawn, um dos medalhões da Ferrari naqueles dias. Brawn decidiu fazer Schumacher parar uma vez mais. Seria colocado menos combustível em seu carro na primeira parada, Michael assumiria a liderança, aceleraria o máximo possível no segundo stint, faria o segundo pit-stop e retornaria na ponta.

Bom aluno, Schumacher cumpriu o que se esperava dele. Pisou o máximo que dava no acelerador e conseguiu tomar a liderança das mãos de Coulthard no segundo pit-stop. Venceu a corrida com apenas 4,2 segundos de vantagem. 90 mil enlouquecidos fãs avermelhados choraram o fim do jejum da Ferrari em Imola. Cinco anos após a morte de Ayrton Senna, as lágrimas que escorreram dos rostos nas arquibancadas tinham um fundo incomparavelmente mais alegre.

2- GP Nº 181 (GP DA MALÁSIA DE 2003)

Mas nem toda corrida deste Top Cinq teve um final feliz. Esta corrida aqui, na verdade, foi decepcionante pacas. Muitos ficaram felizes, pois parecia ser o início de uma nova era, em que Michael Schumacher não seria mais o piloto dominante. Após um GP da Austrália complicado, o alemão buscava se redimir em Sepang. Ele utilizava um F2002 do ano anterior, que parecia ser o suficiente numa Fórmula 1 onde apenas a Ferrari parecia ter alguma competência.

Mas a categoria havia mudado em 2003. McLaren, Williams e até mesmo a Renault azul-calcinha e amarelo chegaram chegando. Schumacher teria de ralar muito e ainda contar com a sorte para vencer aquela corrida malaia. No treino oficial, ele fez tudo certo e deixou todo mundo para trás. Todo mundo menos a Renault, devo ressaltar. O então surpreendente Fernando Alonso marcou sua primeira pole-position na Fórmula 1 e o companheiro Jarno Trulli veio de brinde na segunda posição.

Schumacher ficou nervoso por ter perdido a primeira fila. E Schumacher nervoso não é exatamente aquele que ganhou uma baciada de títulos. Ele decidiu desligar o cérebro e partir para o tudo ou nada. Resultou em nada, é claro. Logo naquela primeira curva torta, Michael atropelou o Renault do sempre aziago Jarno Trulli e mandou o italiano para escanteio. O bico de sua Ferrari foi para o espaço e Michael teve de entrar nos boxes para trocá-lo.

Como se não bastasse, a organização corretamente anunciou uma punição de passagem pelos pits, que Schumacher cumpriu na nona volta. E aí? O que fazer estando 1m20s atrás do líder e mais de 30s atrás do piloto imediatamente à frente? Talvez tentar se divertir um pouco.

Acostumado a largar na frente e ganhar, Schumacher teve um domingo diferente no parque. Ultrapassou vários adversários, parou, perdeu posições, voltou a ultrapassar os caras, parou de novo, voltou em sétimo, deixou Jenson Button comendo poeira na última volta e finalizou em sexto. Para quem bebia champanhe o tempo todo, um desagradável dia de abstinência. Outros viriam naquele ano.

1- GP Nº 241 (GP DO CANADÁ DE 2006)

Curiosamente, o primeiro colocado deste Top Cinq é talvez o mais GP sem-graça de toda esta lista. Michael Schumacher foi o vencedor? Não. Sua atuação na corrida foi memorável? Também não. A corrida, ao menos, foi divertida? Não sei, não consigo me lembrar. Se bem que o próprio fato dela ter sido esquecida facilmente já é um bom indicativo da diversão que ela deve ter proporcionado.

Aquela temporada foi a última de Schumacher na Ferrari. Ele já tinha tido um 2005 pra lá de irritante com o precário F2005 e não faria bem para ele passar mais um ano longe das vitórias. Para sua enorme alegria, a Ferrari não esculachou na construção do 248 F1. Quem achava que Fernando Alonso ganharia seu segundo título tranquilamente se enganou. Ele até levou o caneco, mas teve de roer muita unha para isso.

A grande fase de Alonso no campeonato ocorreu entre os GPs da Espanha e do Canadá, quando o espanhol emplacou quatro vitórias seguidas. A última foi a de Montreal, corrida em que Schumacher terminou em segundo. Como foi aquele 25 de junho de 2006 parar o alemão?

Schumacher passou a sexta-feira e o sábado reclamando da crônica falta de aderência de seu veículo vermelho no apertado circuito de Montreal. No treino classificatório, Michael não passou do quinto lugar, ficando atrás até mesmo dos italianos Giancarlo Fisichella e Jarno Trulli.

O domingo não foi muito melhor. Nem largar bem o alemão conseguiu: Schumacher fechou a primeira volta em sétimo, atrás até mesmo do decadente Juan Pablo Montoya e do então desastrado Nico Rosberg. O acidente entre estes dois na segunda volta fez Michael subir para quinto, mas não deu para ganhar muito mais posições num primeiro instante. Quem estava logo à sua frente era justamente Jarno Trulli, talvez o cara mais encardido para se ultrapassar que havia na Fórmula 1 dos últimos anos.

Schumacher passou uns anos atrás do italiano da Toyota. A pista só ficou livre para ele de novo quanto Trulli entrou nos boxes. Nessa altura, Michael assumiu a terceira posição. Ele permaneceu por lá após sua primeira parada, realizada muito depois da concorrência. Muita gente achava que Schumacher só faria um pit-stop, assumiria a ponta e deixaria todo mundo coçando a testa. Mas isso não aconteceu. Não havia combustível e pneus para isso. O piloto da Ferrari entrou nos boxes para seu segundo pit-stop na volta 57.

Tudo indicava que Schumacher terminaria na terceira posição, mas um erro de Kimi Räikkönen nas últimas voltas permitiu que o alemão assumisse a segunda posição. Para alguém que fechou o primeiro giro em sétimo, um resultado brilhante. Que não valia muita coisa quando o vencedor da corrida era Alonso, que parecia rumar para um bicampeonato facílimo.

Ainda bem que esta corrida de Montreal foi a última realmente fácil do espanhol. A partir da etapa seguinte, Schumacher voltaria à sua velha forma de sujeito que aterrorizava os outros pilotos.

GP DA BÉLGICA: Infelizmente, os domingos de bom sono até onze da madrugada acabaram. A Fórmula 1 está de volta. Após cinco semanas de puro silêncio e trevas, os motores voltam a roncar, as grid girls reaparecem atrás de um marido gringo, os pilotos retornam ao labor enquanto são perseguidos incessantemente por jornalistas irritantes e os espectadores deixam sua cervejinha vagabunda na geladeira esperando sentados pelo momento da largada. Fim de férias é sempre um negócio desagradável, mas voltar a Spa-Francorchamps nunca é ruim. A pista de sete quilômetros é indubitavelmente a melhor do calendário atual da Fórmula 1, com suas curvas de altíssima velocidade, seus trechos assassinos e o cenário bucólico que se mescla com o céu negro de tormenta. Os pilotos todos amam o circuito, especialmente Kimi Räikkönen, que embolsa todas as corridas belgas que participa. Para os espectadores, não há como não gostar. Os que assistem corridas de carro apenas para ver acidentes e braços voando (meu caso, obviamente) se deliciam com nomes como Eau Rouge, Radillon e Blanchimont. Os que gostam de ultrapassagens poderão vê-las em várias partes da pista. Os que gostam de admirar carros velozes atravessando paisagens idílicas ficarão de cabelo em pé com a câmera da reta Kemmel. E quem não gosta de Fórmula 1 pode viajar para a Bélgica de qualquer jeito, pois há mulheres bonitas, cerveja excelente, chocolate puríssimo, a melhor água do mundo e um divertido conflito entre dois povos diferentes. A única coisa que não existe na Bélgica é tradição de grandes pilotos. Jacky Ickx era fodão e Thierry Boutsen é um nome razoável, mas o país não tem muito mais do que se orgulhar. Philippe Adams, Jérôme D’Ambrosio e Bernard de Dryver são apenas tripulantes na história do automobilismo mundial.

CHUVA: Amor sem beijinho, Spa sem uma chuvinha… Como péssimo letrista que sou, restrinjo-me a escrever razoavelmente. Há chances de alguns pingos na região das Ardenhas. Não será nenhum furacão Isaac, mas já servirá para regar as grandes árvores que circundam o autódromo. Segundo o que li no Autohebdo, as possibilidades maiores estão reservadas para a sexta-feira, quando não só poderá chover como também fará algum frio: temperaturas entre 10 e 14°C. A partir do sábado, a chance de chuva despenca, mas as nuvens continuarão tapando os raios de sol. Vale lembrar que situação semelhante foi vista nas etapas de Silverstone e Hockenheim: choveu nos treinamentos e a corrida se passou em clima sequinho como biscoito água e sal. Em Spa, fins de semana de Fórmula 1 sem nenhuma gota d’água são raríssimos. Quando acontecem, costumam ser uma merda. Não me esqueço da edição de 1999, aquela vencida por David Coulthard contra a vontade da própria McLaren. Não choveu em momento algum e, acidentes dos carros da BAR à parte, nada de divertido aconteceu. Infelizmente, a Fórmula 1 dos dias atuais torce cada vez mais por esse tipo de coisa. Chuva virou crime, né?

DUTO: A grande atração aerodinâmica deste fim de semana será a última atualização testada pela Lotus nos treinos livres dos GPs da Alemanha e da Hungria: o duto ligado ao DRS. Se ele não apresentar problemas nesta sexta-feira, será utilizado pela primeira vez em corrida no GP  belga. Como funciona, Dr. Stock? Não sei se entendi muito bem, mas o ar passará por duas pequenas entradas localizadas imediatamente acima da cabeça do piloto. Este ar será canalizado via um grande duto até a parte traseira do carro. Em velocidades mais baixas, o fluxo refrigerará o motor e sairá por um escape normal. Em velocidades mais altas, no entanto, nem todo o ar será necessário para refrigerar o motor. Uma parte deste fluxo residual entrará em um pequeno duto que desembocará na parte superior do aerofólio traseiro. Por alguma alquimia que não consegui compreender corretamente, o ar que sai deste pequeno duto reduzirá o downforce sobre a asa mais baixa do aerofólio. Tudo isso ocorreria durante o acionamento do DRS, no qual a velocidade aumenta bastante nas retas. Por isso, a denominação “duto ligado ao DRS”. A ideia, se eu compreendi corretamente, é boa, mas sem estardalhaços. Não será nada que a indústria automobilística adotará em massa, nada que fará Räikkönen e Grosjean chutarem traseiros em Spa, nada que fará Adrian Newey precisar de tranquilizantes. Dará alguns poucos décimos de segundo nos trechos mais rápidos, na melhor das hipóteses. E acabará banido. Afinal de contas, não foi a Ferrari que fez.

SCHUMACHER: O melhor circuito e o melhor piloto. Neste próximo fim de semana, Michael Schumacher da Alemanha celebrará seu GP de número 300 na Fórmula 1. É o segundo piloto com maior número de corridas disputadas na categoria, perdendo ironicamente apenas para Rubens Barrichello. A marca só poderia ter sido alcançada em Spa-Francorchamps. Foi lá que ele fez sua estreia, ainda nos tempos da Jordan verde. Foi lá que ele ganhou sua primeira corrida, a bordo de um Benetton amarelo e verde. Foi lá que ele perdeu uma vitória por causa de um estúpido milímetro a menos no assoalho de madeira. Foi lá que ele venceu após largar da 16ª posição. Foi lá que levou uma bordoada na bunda do David Coulthard. Foi lá que ele deu uma bordoada na cachola do Takuma Sato. Foi lá que ele tomou um passão do Mika Häkkinen na Kemmel. Foi lá que ele se sagrou o único hexacampeão da história. Foi lá que ele obteve seis vitórias. Também deve ter sido lá que ele falou sua primeira palavra, deu seu primeiro beijo e tomou seu primeiro porre. Efeméride menos importante é a dos seus 21 anos de Fórmula 1. E dizem que Michael está prestes a renovar o contrato com a Mercedes para mais uma temporada. O velho é bom e também incansável.

ALONSO: Se Schumacher tem um monte de histórias para contar sobre Spa-Francorchamps, seu rival espanhol fica a ver borboletas. Fernando Alonso das Astúrias já disputou nove corridas no circuito belga, oito na Fórmula 1 e uma na Fórmula 3000. Curiosamente, sua única vitória obtida por lá foi exatamente a da Fórmula 3000. Ele largou na pole, despachou 14 segundos sobre o segundo colocado e obteve uma das vitórias mais magistrais registradas na história da categoria. A sorte na Fórmula 1, contudo, foi outra. Em 2001, destruiu seu Minardi na saída da Stavelot durante o warm-up. Em 2004, rodou sozinho enquanto liderava devido a um motor quebrado. Em 2008, teve de arriscar tudo com um pit-stop na última volta para terminar em quarto. Em 2009, largou em 13º e abandonou. Em 2010, tomou uma pancada de Rubens Barrichello por trás na primeira volta e ainda bateu sozinho algum tempo depois. Em 2011, caiu de segundo para quarto em poucas voltas. Apenas dois pódios foram obtidos em 2005 e 2007. Neste ano da graça, Alonso diz que “uma corrida com chuva em Spa seria melhor para nós”. Ele sabe muito bem que apenas as tormentas belgas seriam capazes de inverter a lógica – mais uma corrida infeliz de Fernando em Spa.

Pastor Maldonado, o mal da temporada até aqui

Pátria, socialismo ou morte. Qual escolher? Nosso querido venezuelano Pastor Maldonado, piloto da Williams, talvez um tanto incerto com a questão política de seu país, optou pela última. Seu negócio é a morte. De preferência, a dos outros. Até aqui, Maldonado foi o grande causador de confusões desta temporada. Uma tonelada de pilotos pode dizer, sem o menor medo de errar, que o sul-americano arruinou suas corridas sem a menor piedade.

Esta pauta aqui estava pronta para ser escrita logo após o GP da Inglaterra, quando Maldonado atropelou o mexicano Sergio Pérez após uma disputa de posição lá no pelotão intermediário. Infelizmente, por motivos de total falta de tempo (sabem como é, vida de universitário na reta final do curso é isso aí), tive de postergar o artigo. Como não queria perder a ideia, fiquei secando o piloto venezuelano nas últimas etapas. Lógica simples: ele bate no domingo e eu escrevo alguma coisa na terça ou quarta-feira.

Em Hockenheim, Maldonado se comportou de maneira estranhamente exemplar e eu tive de deixar de lado a ideia. Droga, ele finalmente aprendeu a lição. Felizmente para mim, não era bem assim. Em Hungaroring, sede da última etapa, Pastor bateu no carro alaranjado de Paul di Resta e os dois não abandonaram a corrida por pouco. Este foi o gatilho que faltava. Tenho um mês para escrever sobre Pastor Maldonado, pensei. Aqui está.

Maldonado é a verdadeira besta dessa temporada. No mau sentido. Uma tremenda besta quadrada. Até aqui, tendo sido realizadas onze etapas, o cara sofreu acidentes em nada menos que seis delas. Logo na primeira corrida, em Melbourne, Pastor estampou o inglório muro australiano enquanto perseguia Fernando Alonso. Na última volta. Como consequência, um sexto lugar jogado na lata de lixo.

Na Malásia, o venezuelano foi um pouco mais sutil e apenas aplicou uma leve surra no carro do companheiro Bruno Senna durante a largada, causando um pouco mais de prejuízo na Williams. Após um período tranquilo e até vencedor, ele decidiu desligar o cérebro de vez a partir de Mônaco. Num inofensivo treino livre, Maldonado jogou seu carro para cima do de Sergio Pérez e causou um acidente perigoso e completamente desnecessário que lhe rendeu a punição de ter de largar lá do fim do grid. Não satisfeito, ele largou como um esquizofrênico e atropelou o modesto HRT de Pedro de la Rosa logo na primeira curva. Fim de prova logo de cara.

Não acabou aí. Em Valência, Pastor vinha disputando com Lewis Hamilton um lugar no pódio, mas jogou fora outro belíssimo resultado com um toque estúpido sobre o piloto inglês. Com o carro soltando pedaços, ainda se arrastou até o décimo lugar. Na corrida de Silverstone, Maldonado arremessou seu Williams FW34 sobre Pérez novamente e os dois rodopiaram de forma sincronizada, um belo momento olímpico da Fórmula 1. Por fim, o toque com Di Resta em Hungaroring. A lista de incidentes só não foi maior porque Pastor Maldonado ainda conseguiu evitar por pouco que seu carro batesse no Muro dos Campeões no Q2 da classificação do GP do Canadá após mais um erro grotesco.

Graças a tanta confusão, tanto pedaço de carro espalhado pelo caminho, tanto piloto indo ao PROCON, ao Juizado de Menores e à puta que o pariu reclamar, Pastor Maldonado obteve, da mesma forma, o título de rei das punições por má conduta nesta temporada. Conte comigo: uma em Mônaco pelo chega-pra-lá em Pérez, uma em Valência pelo acidente com Hamilton e uma em Hungaroring pelo toque com Di Resta. Some-se a isso as três punições (Bahrein, Mônaco e Canadá) ocasionadas por troca de câmbio e temos aí todos os elementos de uma temporada não menos que bizarra.

Com sua total falta de amor à própria vida e de respeito à integridade alheia, Pastor Maldonado se tornou um dos pilotos mais rejeitados desta temporada. O magistral vencedor do GP da Espanha não precisou de mais do que apenas alguns GPs para assumir o posto de vilão da Fórmula 1. O que, de alguma forma, é positivo para o espectador. Neste ano, um dos motivos pelos quais aceitamos acordar às nove da madrugada ou pagar centenas de cruzeiros por um tíquete numa arquibancada descoberta é exatamente esperar pela próxima burrada do piloto de Maracay. Em quem será que ele baterá? Em qual volta? Será que o carro vai capotar ou explodir?

Vocês acham que o comportamento animalesco de Pastor Maldonado é recente, mas isso não é verdade. Nem um pouco. Na verdade, a primeira vez em que eu li uma notícia a seu respeito foi no início de 2005, mais precisamente no dia 19 de maio.

Sua carreira no automobilismo quase acabou após um bizarríssimo incidente ocorrido na etapa de Mônaco da World Series by Renault em 2005

Pastor Maldonado era apenas um piloto de 19 anos que havia ganhado o título italiano da Fórmula Renault em 2004. Em 2005, ele assinou com a tradicional equipe Draco para fazer sua estreia na World Series by Renault. Faria parte de um grid que tinha nomes como Robert Kubica, Will Power, Markus Winkelhock, Simon Pagenaud, Karun Chandhok, Alex Lloyd e Giorgio Mondini. Uma turma forte, desnecessário dizer.

A segunda etapa da World Series by Renault em 2005 seria realizada no Principado de Mônaco. Corrida única. Diante dos barões da Fórmula 1 e da GP2. Um bom lugar para deixar uma ótima impressão. O pior lugar do planeta para sofrer uma suspensão de quatro corridas e ser tachado de lunático e perigoso.

No dia 19 de maio, foi realizado o primeiro treino livre da categoria, uma pequena sessão de quarenta minutos onde os 26 pilotos poderiam tomar contato com as malditas e apertadas ruas monegascas. Nessa sessão, o francês Patrick Pilet rodou sozinho na Beau Rivage e bateu de traseira. Os fiscais de pista acionaram imediatamente a bandeira amarela e alguns deles correram para pista para retirar o carro de Pilet do meio do caminho.

A bandeira amarela, você sabe, é uma importantíssima indicação de perigo adiante, ainda mais nas vielas de Mônaco. Ao avistá-la, um piloto de corrida minimamente responsável enfia o pé no freio, reduz as marchas e passa cuidadosamente pelo local impedido. Todos nós sabemos que Pastor Maldonado não se enquadra na categoria de “pilotos de corrida minimamente responsáveis”. Ele preferiu manter o pé cravado no acelerador, ignorando aqueles pedaços amarelados de pano que tremulavam agitadamente.

A merda aconteceu. Quando Maldonado passou pela Beau Rivage, deu de cara com uma patota de vários fiscais de pista. Assustado, o venezuelano tentou fazer alguma coisa, frear, reduzir a marcha, desligar o carro, ligar para o 911, mas nada disso deu certo. Em alta velocidade, seu Dallara-Renault atropelou um dos pobres fiscais de pista, que voou longe e tombou no chão todo quebrado. A coluna vertebral havia se esfacelado.

Seria injusto da minha parte deixar de lado que outros pilotos também não respeitaram as bandeiras amarelas. O italiano Matteo Meneghello (ex-Fórmula 3000), o americano Colin Fleming (melhor amigo de Scott Speed) e o austríaco Andreas Zuber (outro demente) também passaram como jatos descontrolados pelo local e foram punidos com o banimento sumário daquela corrida. Meneghello também foi impedido de participar das duas etapas duplas seguintes.

Mas nenhum deles atropelou um sacro fiscal de pista. O único que cometeu tamanha barbaridade foi justamente Maldonado, aquele venezuelano de aparelho na boca e voz esquisita. Ele não só foi impedido de largar naquele fim de semana como também foi suspenso pelas próximas quatro rodadas duplas (nada menos que oito corridas seriam perdidas!) e nunca mais poderia voltar a correr em Mônaco. É isso mesmo: Pastor estava proibido de participar de qualquer competição no pequeno país mediterrâneo. Para sempre.

Maldonado precisou recorrer ao seu pai, um homem rico pra caramba na Venezuela, para que ele negociasse diretamente com o Automobile Club de Monaco alguma outra solução que evitasse qualquer tipo de banimento vitalício. Então, a família Maldonado se dispôs a custear todo o tratamento do fiscal de pista ferido no acidente. Com isso, o pequeno desastrado poderia voltar a disputar corridas no principado. A suspensão de oito corridas, no entanto, não foi revogada.

Pastor Maldonado aprendeu a lição? Não sei dizer. É verdade que ele nunca mais atropelou fiscal algum, mas não é exatamente isso que costumamos esperar de um piloto de Fórmula 1. Em compensação, os resultados começaram a aparecer. Ele foi terceiro colocado na World Series by Renault em 2006 e ganhou o título da GP2 em 2010. Ironicamente, Maldonado venceu três corridas em Mônaco entre 2006 e 2009 e se tornou uma espécie de especialista do circuito monegasco.

Esse é o Maldonado que eu espero ver no futuro

Que ninguém me leve a mal. Eu realmente torço por Pastor Maldonado. Mesmo que eu o ache um completo tonto, que seu aspecto físico seja digno de um cadáver de fuinha e que sua posição política seja diametralmente oposta à minha, penso que o automobilismo precisa de pilotos assim, irresponsáveis e muito velozes. Na GP2, ele era um dos mais divertidos dentro da pista. Realizava ultrapassagens improváveis, improvisava traçados malucos e às vezes pagava o preço com acidentes toscos. Mas tudo isso fazia parte do show.

O único ponto contrário é se toda essa pirotecnia fará bem à sua carreira. Após o GP da Inglaterra, a vítima Sergio Pérez afirmou sem papas na língua que “todo mundo tem sérias desconfianças dele”, que “Maldonado é um sujeito que não respeita os outros” e que “ele é somente um piloto estúpido”. Pérez falou mais um monte de coisas, mas eu não vou reproduzir tudo porque mexicanos falam demais. Esta é apenas uma amostra do que os seus colegas pensam dele.

Fórmula 1 não é NASCAR e um piloto não pode devolver a burrada do adversário simplesmente jogando seu carro sobre o dele na próxima corrida. Mas Maldonado poderá arranjar problemas de outra forma. A opinião dos pilotos pode até não ser fundamental, mas a de seus chefes é. Se o venezuelano se envolve em tantos problemas e arranja tantos inimigos, quem é que será pirado o suficiente para contratá-lo? O garoto até pode ser veloz, revolucionário, rico pra cacete, mas se ele coloca tudo a perder na curva seguinte, do que adiantará? Infelizmente, a cada acidente, as portas de Pastor Maldonado poderão se fechar mais e mais.

É verdade que a história mostra que alguns pilotos de perfil muito parecido, tapados e extremamente velozes, se deram muito bem na vida. O sul-africano Jody Scheckter era uma besta quadrada no início dos anos 70, daqueles que conseguiam causar engavetamentos históricos em Silverstone. Mas ele também era bestial e não teve problemas para transitar por equipes como a Tyrrell, a Wolf e a Ferrari.  Terminou campeão do mundo.

Outro bom exemplo, Nigel Mansell. Esse daí, no início da carreira, era um Maldonado britânico: caricatural, feio, desprestigiado e totalmente desastrado. Uns quinze anos depois, devo admitir que as coisas pouco mudaram, mas o caricatural, feio, desprestigiado e desastrado Mansell acabou ganhando um título mundial na Fórmula 1 e outro na CART. Sem precisar aprender nada. Viu? Às vezes, funciona.

Gostaria que a trajetória de Maldonado seguisse os mesmos passos. Sou daqueles que acham que um grande piloto é aquele que pilota sem se lixar para nada nas categorias de base e nos primeiros anos de Fórmula 1, aprende com as cagadas, refina o estilo de pilotagem e amadurece até chegar a um nível ideal de inteligência e velocidade. Um piloto que seguiu exatamente esta receita? Ayrton Senna. Outro exemplo? Michael Schumacher.

Gente como Maldonado, Kamui Kobayashi e Romain Grosjean costuma ter muito mais potencial do que homens burocráticos, friamente eficientes e politicamente corretos como Lucas di Grassi, Jérôme D’Ambrosio e até mesmo Bruno Senna. O sobrinho de Ayrton sofre menos acidentes que o companheiro, mas está sempre largando lá atrás e costuma fazer apenas corridas de sobrevivência. Marca pontos, mas não brilha. Se não chama a atenção pelo pecado, também não se destaca pela exuberância. Qual é o futuro de pilotos assim? Nem todo cara discreto é Graham Hill, devemos nos lembrar.

Só que Pastor Maldonado precisa, primeiramente, controlar a cabeça e parar de achar que resolve tudo em uma curva. Se ele quer crescer no automobilismo, primeiramente precisará obter resultados bons com o material que tem. E resultados bons só aparecem para quem termina as corridas. E termina as corridas quem não bate e não atropela os outros, sejam eles pilotos mexicanos ou fiscais monegascos.