Não falei sobre isso ainda. Neste fim de semana, a Stock Car Brasil promoverá sua tão aguardada e celebrada Corrida do Milhão. Trinta e dois pilotos entrarão na pista de Interlagos no próximo domingo para ver quem é que vai embolsar a bolada, que permite comprar dois Mercedes S600 ou umas vinte garrafas do Château Petrus 1982. Embora boa parte da turma da Stock tenha um patrimônio consideravelmente maior que o prêmio oferecido, é uma quantia que dá para pagar algumas contas e comprar uma casa para a mãe, tadinha.

Há novidades. Não, não me refiro à estúpida chicane da Curva do Café. Falo da participação especial de Jacques Villeneuve, campeão de Fórmula 1, da Indy e vencedor das 500 Milhas de Indianápolis em 1995. Vilanova, quarentão, desembarcou no Brasil para disputar apenas esta etapa e tentar abocanhar a grana (que vale exatos 618.298,84 dólares canadenses) para comprar alguns livros, CDs de rock alternativo e óculos coloridos. Há quem diga que ele veio tratar de negócios, também. Jacques correrá com um carro patrocinado pela Shell e alguns sugeriram que ele estaria tentando arranjar o patrocínio da nova joint venture formada por Shell e Cosan, a Raizen, para sua carreira na NASCAR.

Villeneuve foi enxotado da Fórmula 1 após sofrer um acidente forte no Grande Prêmio da Alemanha de 2006. De lá para cá, ele já disputou um monte de corridas nos mais variados campeonatos. Falta apenas correr de Lada no Quirguistão – talvez, nem isso. O Bandeira Verde exibe abaixo alguns dos carros pilotados pelo filho do porra-louca Gilles Villeneuve desde o fim de sua carreira na Fórmula 1.

5- TOYOTA DA SPRINT CUP

No geral, todo piloto da América do Norte que acaba deixando a Fórmula 1 tem dois caminhos a trilhar. O mais óbvio deles é a Indy, que é a categoria de monopostos que mais se aproxima da Fórmula 1 em termos de velocidade, grana e prestígio. O caso de Villeneuve, no entanto, era um pouco diferente. Jacques tinha bons motivos para não correr na categoria de Dario Franchitti e Will Power. Ele já havia feito duas temporadas na Indycar em meados dos anos 90, nas quais ganhou um título e uma edição da Indy 500 e não tinha mais nada a fazer nesta Indy sem o glamour de outrora. Além disso, não valeria a pena correr em outra equipe além da Ganassi e da Penske, o que provavelmente acabaria sendo o caso do canadense.

Para quem já ganhou de tudo na vida e só quer mesmo é se divertir, comer uns hambúrgueres e embolsar algum, o negócio é ir para a NASCAR. E foi o quer Jacques Villeneuve fez. Em meados de 2007, ele anunciou que participaria de algumas corridas da Truck Series ainda naquele ano e tentaria emplacar uma temporada na Sprint Cup já no ano seguinte. Apressadinho, ele decidiu estrear na categoria maior ainda em 2007, na etapa de Talladega. Tendo disputado apenas uma corrida da Truck Series em Las Vegas, Villeneuve chegou ao Alabama cercado de críticas. Gente do calibre de Jeff Gordon e Kyle Busch disse que era temerário um sujeito sem experiência estrear logo em Dega.

Villeneuve respondeu em alto nível. Pilotando um Toyota Camry preparado pela Bill Davis Racing e patrocinado pela UNICEF, ele fez o sexto tempo na classificação. Na corrida, ele curiosamente preferiu largar da última posição para não atrapalhar os outros e fazer sua corridinha de aprendizado. Andou direito, sobreviveu a um leve esbarrão no muro e terminou em 21º. Muito bom.

Esta foi sua melhor corrida na Sprint Cup. Em novembro, ele se inscreveu para a corrida de Phoenix e não foi tão bem. Largou em 27º e terminou batendo forte no muro após um toque de Kasey Kahne. O vexame maior, no entanto, ocorreu em Daytona no ano seguinte. Tentando se classificar para a corrida mais importante do campeonato, Jacques causou um engavetamento no Gatorade Duel, alijou vários pilotos da disputa e, obviamente, não se classificou. Como também estava sem patrocinador, o chefe Bill Davis não lamuriou muito para mandá-lo para casa.

Jacques acabou deixando a categoria de lado por algum tempo, visando aprender alguma coisa a mais antes de se aventurar no meio dos leões redneck. Três anos depois, menos cabaço, Jacques foi a Indianápolis para disputar sua terceira e, até aqui, última corrida na Sprint Cup. Correndo pela Braun Racing, ele largou lá atrás e terminou em 29º, duas voltas atrás do vencedor Jamie McMurray. Pelo menos, não teve acidente.

4- FORD DA V8 SUPERCARS

Nos últimos anos, virou tradição da V8 Supercars, categoria mais importante da Oceania, atrair pilotos de campeonatos internacionais para disputar a Gold Coast 600, corrida mais importante de seu calendário. Disputada em Surfers Paradise, a Gold Coast 600 é uma prova de longa duração na qual os carros são pilotados por duplas. No geral, um dos pilotos de cada dupla é um astro estrangeiro e o outro é um piloto consolidado da V8 Supercar.

Em 2010, muita gente boa apareceu: Will Power, Scott Dixon, Ryan Briscoe, Hélio Castroneves, Sébastien Bourdais, Scott Pruett, Andy Priaulx, Alain Menu, Mika Salo, Tiago Monteiro, Alex Tagliani e David Brabham. O nome mais importante, no entanto, era o de Jacques Villeneuve.  Ele pilotaria um Ford Falcon em parceria com Paul Dumbrell, piloto de currículo discreto na categoria.

A adaptação ao circuito não foi tão demorada, já que Villeneuve já havia corrido em Surfers Paradise na época da Indy. Pelo visto, o mesmo vale para a adaptação ao carro. Nos dois treinos livres que fez, ele ficou em 6º e 14º. O companheiro Dumbrell conseguiu fazer um bom terceiro tempo na sessão classificatória. Largar da terceira posição em um grid de 29 carros e em uma pista filha da puta como é Surfers Paradise é algo ótimo, convenhamos.

A Gold Coast 600 é disputada em duas baterias. Na primeira bateria, Villeneuve começou tenebrosamente mal, queimando a largada e sendo punido posteriormente. Metros depois, ele foi tocado por trás pelo Holden de Lee Holdsworth/Greg Ritter, rodou e acabou sendo tocado por um mundo de gente. Retornando com enorme atraso, o Ford nº 55 completou a etapa em 11º. Na segunda bateria, a dupla dinâmica largou da oitava posição e terminou em quinto. Este é o novo Villeneuve: muito rápido e muito propenso a batidas.

3- PEUGEOT DAS 24 HORAS DE LE MANS

Villeneuve ganhou as 500 Milhas de Indianápolis de 1995 e passou vergonha em boa parte dos GPs de Mônaco que disputou. O que o filho do Gilles faria em Le Mans, a terceira corrida da Tríplice Coroa?

Em 10 de janeiro de 2007, a Peugeot exibiu seu novíssimo 908 HDi FAP equipado com motor a diesel e apresentou também seu sexteto de pilotos que dividiria os dois carros da equipe nas 24 Horas de Le Mans. Sébastien Bourdais, Marc Gené, Stéphane Sarrazin, Nicolas Minassian, Pedro Lamy e Villeneuve seriam os privilegiados.

Em 2007, a Peugeot vinha com tudo para peitar a Audi, que havia vencido seis das sete edições anteriores.  Pelo visto, o enorme investimento feito em cima do 908 HDi FAP valeu a pena: o trio Sarrazin\Lamy\Bourdais fez a pole-position, com 3m26s344. Villeneuve, que pilotava o carro nº 7 com Minassian e Gené, fez o terceiro tempo, 1s3 mais lento que o da pole. Entre eles, o Audi R10 do trio Kristensen\Capello\McNish. Um bom começo para uma equipe que não participava das 24 Horas havia muitos anos.

A corrida foi mais ou menos para o trio de Villeneuve. O Peugeot da outra dupla liderou as primeiras voltas, mas teve problemas de pneus e perdeu várias posições. Com isso, a Audi conseguiu lotear as três primeiras posições, mas dois de seus carros acabaram abandonando. No fim, o único Audi restante, do trio Werner\Pirro\Biela, ganhou com dez voltas de vantagem para o Peugeot de Sarrazin\Lamy\Bourdais. E o trio Villeneuve\Minassian\Gené terminou apenas uma volta atrás dos colegas na terceira posição. Um razoável resultado para Jacques.

No ano seguinte, Villeneuve seguiu na mesma Peugeot, que desta vez havia expandido seu número de carros para três. Para o canadense, não foi legal estar entre o pior dos trios da montadora francesa no treino classificatório: a pole ficou com Sarrazin\Lamy\Wurz e a segunda posição coube a Montagny\Zonta\Klien. A corrida, no entanto, foi melhor: Villeneuve e seus companheiros Minassian e Gené assumiram a liderança depois que um dos Peugeot à sua frente teve de parar nos pits para reparos.

O trio do canadense tinha tudo para vencer, mas São Pedro decidiu dar uma regada em Le Mans. Com isso, o Peugeot foi covardemente ultrapassado pelo Audi de McNish\Capello\Kristensen, muito melhor ajustado para a chuva. Quando a pista começou a secar, Nicolas Minassian arriscou colocar pneus slick antes de todo mundo e acabou dando uma rodada. Mesmo assim, o carro nº 7 seguiu em frente e chegou na segunda posição. Jacques passou perto: ele quase se tornou o primeiro piloto da história a vencer a Fórmula 1, a Indy, as 500 Milhas de Indianápolis e as 24 Horas de Le Mans. Faltou pouco.

2- MERCEDES DO TOP RACE V6

A incursão mais estranha de Villeneuve, geograficamente, foi esta. O automobilismo argentino é muito forte internamente. O povão comparece aos autódromos, as emissoras de TV exibem as corridas, os patrocinadores dão as caras e o nível dos pilotos é alto. O único problema é que, para os não-hermanos, as corridas na terra da Cristina Kirchner são basicamente irrelevantes. Na Europa, só se lembram que existem corridas na Argentina porque gente duvidosa como Gastón Mazzacane, Norberto Fontana e Esteban Tuero são reis por lá. Portanto, a participação de Jacques Villeneuve em algumas corridas da Top Race V6 até surpreende mais do que sua passagem pelo Brasil.

Villeneuve foi convidado para disputar uma corrida no fim de 2008 pelo promotor da categoria, o distinto Alejandro Urtubey. A corrida em questão não era um GP da China qualquer, mas La Carrera Del Año, a prova mais importante da Argentina, algo análogo à Gold Coast 600 para a Austrália. Ela seria disputada por quase quarenta carros no lamentável circuito Oscar Galvez, erguido na capital Buenos Aires. La Carrera seria tão grandiosa que teria até mesmo a demonstração de um carro da NASCAR Sprint Cup.

Jacques pilotaria um VW Passat V6 ao lado de um astro do automobilismo argentino, Emiliano Spataro. No meio de um monte de carros, até que ele não foi tão mal: largou lá na frente e abandonou a poucas voltas do fim, quando perdeu o controle na pista molhada e escapou para a caixa de brita. Estava brigando pelo quinto lugar.

No ano seguinte, convidado novamente por Urtubey, Villeneuve fez duas corridas na Top Race. Em Interlagos, ele utilizou um Mercedes TRV6, mas não foi bem. Largou lá atrás e, na volta 17, se envolveu em um accrochage com Leonel Pernía e abandonou a prova. Dois meses depois, ele voltou para a Argentina para disputar nova edição da Carrera Del Año. Pilotando o mesmo Mercedes, ele finalmente conseguiu chegar ao fim, em 13º. Ficou impressionado? É, eu também não.

1- SKODA DO TROFÉU ANDROS

Troféu Andros. Nunca pensei que falaria sobre corridas de gelo por aqui. Até onde minha memória alcança, os franceses Alain Prost e Olivier Panis já fizeram algumas corridas neste tipo de pista. Achava eu que era coisa de francês estereotipado, que nem comer queijo podre ou não tomar banho. Se bem que Villeneuve é de Québec, não? Quase a mesma merda.

No início de 2010, após o fracasso da Stefan, que seria sua equipe na Fórmula 1, Villeneuve decidiu fazer algo diferente na vida. Ele mesmo anunciou que estava se unindo à Skoda para disputar o Troféu Andros, talvez o campeonato mais importante de corridas de gelo no planeta. Ele reeditaria uma parceria com Olivier Panis, que havia sido seu companheiro nos tempos de BAR. Os dois são amigos até hoje – sim, Jacques tem amigos!

O canadense pilotaria um Skoda Fabia de 350 cavalos em sete rodadas. O interessante é que estas rodadas (seis duplas e uma solitária) são realizadas no inverno europeu, entre o fim de 2010 e o início de 2011. Corrida de gelo, ué. Surpresa besta, a minha.

E o Vilanova, foi bem? Considerando que 44 pilotos acabaram pontuando, terminar em nono nas tabelas não é algo tão ruim. Os resultados foram estes: 12º e 14º em Val Thorens,, 16º e 12º em Andorra, 23º e 10º em Alpe D’Huez, 8º e 12º em Isola 2000, 9º duas vezes em Saint-Dié-Des-Vosges, 12º na rodada única de Clermont Superbesse e 13º e 2º em Lans em Vercors. Não, não são resultados impressionantes. O que importa é que correr no gelo deve ser divertido pra caramba. E é isso que importa para o Villeneuve, que pinta o cabelo e é feliz.

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