Descobri (descobri é modo de falar: dêem crédito ao Auto Motor und Sport) mais um projeto que se candidata à vaga de 13ª equipe da Fórmula 1 de 2011. E essa equipe carregaria o simples porém forte nome de Villeneuve Racing. Reconheceu? Sim! A equipe seria liderada pelo canadense Jacques Villeneuve, filho do Gilles e campeão da Fórmula 1 em 1997.

Quase nada é conhecido sobre a tal Villeneuve Racing. Especula-se que seria sediada na Inglaterra e poderia ter as polêmicas colaborações de Flavio Briatore e Pat Symonds. Os funcionários seriam remanescentes dos staffs das antigas Super Aguri e Arrows. Enfim, pouco há o que falar sobre isso ainda.

A idéia de uma Villeneuve Racing não é nova, já que seu pai também já teve um sonho do tipo. Falarei sobre isso mais tarde.

Por fim, a mesma fonte diz que apenas três equipes estão concorrendo à 13ª vaga: a Cypher, a Villeneuve Racing e uma terceira que poderia ser Durango ou Epsilon Euskadi. Porém, as notícias envolvendo estas duas últimas não são boas e falarei sobre isso depois.

Escolher entre Cypher, Villeneuve e Durango seria complicado, hein?

Juro que não queria ficar dando audiência para a tal da Cypher, aquele projeto de equipe americana de Fórmula 1 para 2011. Mas não é que os caras surgem do nada e me mandam um e-mail com algumas perguntas e respostas? Não é nada que irá mudar o mundo, os jornalistas da grande mídia já devem ter recebido este comunicado há séculos, mas irei reproduzir o que eu recebi de qualquer jeito. As perguntas não foram feitas por mim: é um questionário pronto.

COMO VOCÊ AVALIA O RETORNO DA FÓRMULA 1 AOS ESTADOS UNIDOS?

Nós acreditamos que o retorno da Fórmula 1 aos EUA é bastante positivo. E não é algo bom apenas para o país e para os fãs americanos da categoria, mas também para o continente como um todo. É uma oportunidade perfeita para as Américas apresentarem seus talentos automobilísticos e culturais por meio das corridas no Brasil, nos Estados Unidos e no Canadá.

O FATO DE TER SIDO ANUNCIADA UMA CORRIDA DE FÓRMULA 1 EM SOLO AMERICANO AUMENTA AS CHANCES DA CYPHER SER A EQUIPE ESCOLHIDA?

É algo que certamente atrairá a atenção e o interesse de todos em nosso favor. Nós acreditamos que a 13ª vaga é a oportunidade perfeita para uma equipe americana e isso também beneficiará todo o continente americano. Será ótimo para os pilotos do continente americano, pois eles não necessariamente terão de viajar para a Europa se quiserem pleitear uma vaga na Fórmula 1.

Se quer um exemplo, temos o Brasil, país que já produziu campeões mundiais como Ayrton Senna e Nelson Piquet. Nós consideramos que um piloto como Nelson Piquet Jr. competindo ao lado de um jovem piloto americano em uma equipe americana seria algo excelente tanto para os EUA como para o Brasil, não acha?

QUANDO VOCÊS ANUNCIARÃO MAIS DETALHES SOBRE O PROJETO?

Como nós dissemos anteriormente, nós só faremos uma inscrição definitiva quando tivermos o orçamento necessário para construir uma equipe minimamente competitiva. Nós queremos entrar na Fórmula 1 com uma estrutura respeitável e sólida. Assim que nós conseguirmos completar este orçamento, nós informaremos a mídia e os torcedores sobre nossa inscrição definitiva. A partir daí, só nos restará esperar pela decisão da FIA.

POR QUE VOCÊS DECIDIRAM SE INSTALAR NO ESTADO DA CAROLINA DO NORTE?

Nós acreditamos que a Carolina do Norte possui inúmeras qualidades que são necessárias para o desenvolvimento de uma equipe de Fórmula 1. A questão da logística é vital para qualquer projeto do gênero, mas não é nossa única preocupação. Nós precisamos de um corpo de funcionários que tenha uma mentalidade dinâmica e pensamos que, para isso, precisaríamos estar no maior celeiro de talentos do automobilismo americano, que é exatamente este estado. A Carolina do Norte concentra a maior parte das estruturas participantes da NASCAR e acreditamos que uma equipe desta categoria e uma equipe de Fórmula 1 podem trabalhar em conjunto, algo que o presidente da FIA, Jean Todt, parece ter percebido ao comparecer a algumas corridas em Daytona.

ESTÁ MUITO DIFÍCIL OBTER PATROCÍNIO?

A Cypher continua trabalhando duro visando cumprir seus objetivos e espera que os EUA e os países vizinhos ajudem a ampliar nosso projeto. Nós podemos dizer que estamos fazendo de tudo: já entramos em contato com várias multinacionais e estamos em negociações avançadas com algumas empresas que fazem parte da lista das 500 maiores empresas do mundo segundo a revista Fortune. Estamos buscando aumentar o número de colaboradores em nosso projeto.

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Enrolaram muito e não disseram muita coisa, como é esperado. Na verdade, se há uma novidade maior, seria uma possível ligação da Cypher com uma equipe da NASCAR, o que não me pareceria uma idéia tão horrível assim. Mas apesar da equipe aparentar estar avançando lentamente, tudo ainda é muito vago.

A propósito, como revelado pela edição 4 revista Grande Prêmio, uma das cabeças da equipe é um tal de Steve Brown. Tentarei apurar depois quem é o cabra.

A propósito 2, nem consegui falar que mais uma equipe pode ter desistido da 13ª vaga na Fórmula 1. Fica pra amanhã.

Li essa há pouco. O site MTV3 está sugerindo que o possível acordo entre Lotus e Renault com relação a motores pode significar uma migração de Heikki Kovalainen da equipe anglo-malaia para a equipe franco-luxemburguesa em 2011. Segundo essa fonte, Eric Boullier, chefão da Renault, gostaria de tê-lo por lá. Em troca, a Lotus poderia adquirir os motores da marca francesa a um precinho camarada.

Heikki já competiu na Renault em 2007 e foi bem, batendo Giancarlo Fisichella. Se isso viesse a acontecer, a Finlândia voltaria a ter um piloto em uma equipe razoável.

Qual é a diferença entre Ayrton Senna e Alex Yoong? Tudo? Nada? Um é brasileiro e o outro é malaio? Em um dia chuvoso e melancólico como hoje, tomo um certo tempo para escrever um texto que conclui que não há grandes diferenças entre ambos, já que nasceram com dois braços, duas pernas, dois olhos, uma boca, cabelos escuros e, em algum instante de suas vidas, se tornaram pilotos de Fórmula 1. Tudo isso pode parecer cretino de tão óbvio, mas é sobre isso que vou falar aqui. E a idéia é menos simplória do que parece. Atenção: texto bem grande. Imprima e vá ler enquanto faz suas necessidades.

Minha pouco pretensiosa intenção é renegar comparações ao dizer que pilotos como Ayrton Senna e Alex Yoong são muito mais parecidos do que nossa imaginação supõe e que circunstâncias externas fizeram um obter resultados muito melhores que o outro. Em poucas palavras, Senna não é tão melhor assim do que Yoong, e isso vale para qualquer outra comparação aparentemente estapafúrdia como Michael Schumacher e Paul Belmondo ou Jim Clark e Yuji Ide. É um tema polêmico? De certa forma, é. Mas é algo a que poucas pessoas se atentam. Todos tendemos a achar que Ayrton Senna se tornou um dos maiores pilotos da história da Fórmula 1 unicamente por ser um ser humano dotado de capacidades excepcionais ao mesmo tempo em que Alex Yoong é considerado um piloto de baixa qualidade que não merece o menor crédito. Desculpe dizer, é uma visão equivocada.

Equivocada porque ambos, Senna e Yoong, enfrentaram diferentes percalços desde a primeira voltinha em um kart até a última volta como piloto de Fórmula 1. Pilotos considerados geniais, como é o caso de Senna, Schumacher e Clark, tiveram todas as condições para serem considerados como tais. É evidente que estes indivíduos dispunham de alguns conjuntos de atitudes, filosofias e talentos extras que ajudaram. No entanto, imagine Ayrton Senna estreando na Hispania, como ocorreu com seu sobrinho. Por mais talentoso que fosse, nunca chamaria a atenção e o máximo que conseguiria seria um perfil no F1 Rejects, como, aliás, aconteceu com nosso amigo Yoong. Idem para Schumacher estreando em uma Forti-Corse ou Clark estreando na jurássica Serenissima. Os multicampeões são, acima de tudo, seres abençoados com todas as condições possíveis para a glória.

Se você discorda, então vamos fazer uma análise progressiva. Vamos reunir todas as 6,5 bilhões de pessoas do mundo atualmente em um balaio de gato para saber quem daí pode ser um campeão mundial de Fórmula 1. Temos quatro campeões na  categoria atualmente, cerca de 0,0000000006% da população mundial. A maior qualidade deles, definitivamente, é a sorte. Descartemos aí quem morreu no parto ou muito cedo. Como um bocado de criancinhas chinesas, sudanesas e norte-coreanas falecem muito cedo, podemos nos considerar sortudos por estarmos aqui.

Se você sobreviveu até os dez anos de idade, meus parabéns! Você está em uma idade apta para estrear no kart. Mas no meu país não tem kart, o que eu faço? Senta e chora, amigão. Bilhões de pessoas dançam aí. Se você nasceu nas Ilhas Salomão, em Moçambique ou no Tadjiquistão, não terá um kartismo relevante à sua disposição. Apenas crianças muito ricas poderiam sonhar em competir no automobilismo, e mesmo assim teriam de migrar para um país mais central. Porém, embora todos os campeões da história da Fórmula 1 tenham nascido em países com um contato mínimo com o automobilismo, não podemos nos esquecer destas criancinhas que resultam em caras como Ho-Pin Tung e o próprio Yoong. Mas lembremos que são exceções e, portanto, voltemos ao grupo majoritário.

Senna: ele não foi tricampeão à toa. Na verdade, muita coisa teve de acontecer pra ele chegar lá

No caso de você ter chegado aos dez anos e ter nascido em um país razoável, você pode começar a correr desde que não seja pobre. Vamos excluir, então, os 30% de pobres que passaram por tudo até aqui. Mas espera um pouco. Você também não conseguirá correr se for de classe média baixa ou mesmo da classe média mais intermediária. Neste momento, o escriba aqui dançou. Não serei o primeiro descendente de orientais a ser campeão de Fórmula 1. Uma pena. Assim como eu, quase todos os que chegaram até aqui dançaram. Só restaram os filhinhos de papai dos melhores países e um ou outro pequeno magnata de algum país distante por aí. Ayrton Senna e Alex Yoong se encaixariam, respectivamente, no primeiro e no segundo grupo.

Vamos eliminar, aqui, a esmagadora maioria de filhinhos de papai que não vai seguir no automobilismo. Eliminemos também os filhos da classe média alta que sofrem para fazer uma ou duas temporadas no kartismo antes de abandonarem o sonho. Digamos que sobram aí umas 50.000 pessoas. Os pilotos de Fórmula 1 estão todos aí, então vamos passar a analisar as coisas dentro da ótica do automobilismo.

O kart é o melhor lugar pra saber quem é bom e quem não é. Se o cara for muito ruim, ele não sobreviverá a essa etapa e, assim, a maioria dos 50.000 sobram aí. Sempre há um ou outro que se quebra todo em um acidente e acaba ficando de fora da festa. No geral, os melhores kartistas são também aqueles que têm mais dinheiro para comprar o melhor equipamento. Para o cara ser bom no kart, ele deve ter coragem, preparação física de jóquei, reflexos apurados e um razoável conhecimento de mecânica. Não se enganem: quase todos os pilotos da história da Fórmula 1, e até mesmo de categorias menores, exibem currículos muito bons no kartismo.

No entanto, o número de pilotos que não conseguem ter dinheiro para subir para o automobilismo de verdade é grande. Na verdade, apenas uns poucos conseguem andar de monopostos. De modo otimista, vamos calcular aí algo em torno de 2.000 pilotos que correm de monoposto atualmente. A maior parte deles corre nas categorias mais primárias, como os campeonatos nacionais de Fórmula BMW e a Fórmula Renault. Se o cara pegar uma equipe ruim nessa etapa, a chance de ir mal é muito grande. Assim, ele terá dificuldades para arranjar patrocinadores até mesmo para mudar para uma equipe melhor. Não adianta o piloto ser muito talentoso: sem dinheiro e timing, não dá. Poucos sobem para categorias como a Fórmula 3 e a GP3.

Os que subiram são extremamente felizardos, mas a chance de fracassar por aí é altíssima. Uma equipe errada, uma sequência de acidentes, um acidente mais forte, um companheiro de equipe melhor (ou mais endinheirado) ou até mesmo uma crise econômica no país de um piloto pode acabar com sua carreira. Se o colega de equipe leva mais dinheiro, a chance desta equipe privilegiá-lo, mesmo que ele seja um bundão, é enorme. Mas vamos supor que o cara seja muito endinheirado e tenha conseguido alguns resultados aceitáveis. Ele sobe para a GP2.

Yoong: ele não conseguiu nada na Fórmula 1. Não conseguiu porque nunca teve condições externas para isso. E olha que ele foi muito mais longe do que a média

Na GP2, ele comerá o pão que o diabo amassou. Sempre há favorecimentos políticos e você só terá alguma chance se tiver um padrinho muito forte ou se for filho de dono de banco. Mas mesmo assim, apenas uns dois ou três pilotos de um grid de 24 acabam subindo para a Fórmula 1 um dia. Se você conseguir, meus parabéns: você faz parte dos pouco mais de 800 pilotos que se inscreveram para ao menos uma etapa de Fórmula 1 nos 60 anos de história da categoria.

Mas isso não significa absolutamente nada. Alguns pilotos sequer conseguiram estrear devido a problemas em suas equipes, como Jordi Gené e José-Maria Lopez. Outros fizeram apenas um fim de semana, como Vincenzo Sospiri. Outros até participaram de várias corridas, mas como não estavam em equipes boas, acabaram sobrando, como ocorreu com David Brabham. No fim, uma minoria acaba sobrevivendo na Fórmula 1 por um bom tempo. São pilotos que tiveram todas as condições de chegar a este ponto. Porém, dificilmente você será campeão. Apenas 31 pilotos conseguiram isso até hoje.

O que os fez campeões? São caras que nasceram em países razoáveis, sobreviveram, optaram pelo automobilismo, tiveram muito dinheiro ou apoio de pessoas importantes (Michael Schumacher e Kimi Raikkonen são casos emblemáticos), correram com os equipamentos certos no kartismo, pegaram adversários com menos condições, acabaram chegando às categorias de base, não tiveram problemas com dinheiro, acidentes e maus resultados, chegaram à Fórmula 1, tiveram a sorte de correr em equipes boas, competiram contra adversários que não juntavam todas as condições necessárias para o título, obtiveram espaço dentro de suas equipes e tiveram também alguns talentos e atitudes com relação a reflexos na pista, mecânica, relacionamento com mecânicos e engenheiros, dedicação, inteligência, marketing pessoal, esperteza e paciência. Um cara que é campeão quase sempre cumpriu, em maior ou menor intensidade, todos esses requisitos.

Ayrton Senna, por exemplo, nunca teve problemas financeiros. Sempre teve equipamentos bons no kartismo e nas categorias de base e sempre conseguiu vencer. Na Fórmula 1, estreou por uma Toleman que era boa o suficiente para permitir que ele mostrasse seu talento e ao mesmo tempo ruim o suficiente para ninguém pressioná-lo. Depois, fez sua fama como um piloto rapidíssimo em uma Lotus que se comportava de maneira excelente nos treinos. Na McLaren, pegou um carro genial e desenvolveu um relacionamento excelente com o staff. Sempre teve patrocinadores e sempre soube fazer seu marketing pessoal. De quebra, juntou inteligência, perícia, muita dedicação e esperteza. Olhando assim, fica até fácil fazer uma receita para ser campeão.

Já Yoong, malaio, nunca pôde se desenvolver em um automobilismo forte. Na Ásia, sempre andou bem, mas o automobilismo local não podia ensiná-lo alguma coisa. Ao chegar na Europa, percebeu que o nível técnico desenvolvido em seu continente natal estava muito abaixo daquilo que era pedido no Velho Continente. Com isso, nunca conseguiu uma equipe boa no automobilismo-base europeu. Como resultado, nunca conseguiu mostrar resultados por onde passou, ao mesmo tempo que nunca conseguiu aprender a ser um piloto competitivo. Acabou entrando na Fórmula 1 por causa do dinheiro na pior equipe do grid, a Minardi. O carro era muito lento e muito difícil de guiar, e Yoong só andava em último. As rodadas eram frequentes. Após um ano e meio, acabou deixando a categoria sob muitas críticas.

Depois desse monte de coisa, só me resta dizer que a maior diferença entre Senna e Yoong (só uma lembrança: são duas alegorias, não me refiro particularmente aos dois) é que tudo deu certo para um e nada deu certo para o outro, por mais que isso signifique que ele superou muita gente e comeu muito arroz e feijão até andar na Minardi. Por mais que ambos tenham se desenvolvido em escolas de automobilismo diferentes, o ato de acelerar, frear e virar o volante não muda muito. São os detalhes que fazem a diferença, e Senna teve muita sorte em conseguir maximizar esses detalhes, seja pela preparação física ou pelos carros pilotados no início da carreira. No fundo, Senna, Yoong, eu e você somos tudo a mesma coisa, mas só um pôde vencendo três títulos a bordo de um excepcional McLaren.

Fiquei com vontade de escrever mais um pouco. Como o tempo não me é escasso como já foi outrora, lá vai:

– Coincidências esportivas são demais. Na atual temporada da GP2, temos apenas um piloto holandês no grid, Giedo van der Garde. Ele corre pela Addax, equipe espanhola comandada pelo empresário Alejandro Agag. E todos nós sabemos quem jogou a final da Copa do Mundo. Em Silverstone, a equipe decidiu homenagear La Fúria com um adesivo “Vamos España” nos dois carros. E o pobre Van Der Garde teve de carregar uma mensagem de incentivo contra a seleção de seu país! Pelo visto, o resultado deu certo…

Única foto que eu encontrei, vinda do Sutton. A mensagem está lá no canto. O carro é o de de Sergio Perez, mas tudo bem

– A Red Bull está, definitivamente, em crise. Andei lendo por aí que está havendo uma divisão entre os mecânicos de Vettel e os de Webber. E o tratamento entre eles, como não poderia deixar de ser, está longe de ser cordial. Em Silverstone, a turma de Vettel chegou a provocar a de Webber brincando com a nova asa dianteira, o motivo do litígio. Ridículos, todos.

– Bernie Ecclestone está pedindo 19 milhões de euros para quem ocupar a 13ª vaga na Fórmula 1 em 2011. Esta taxa seria uma espécie de reedição daquela famosa caução de 48 milhões de dólares exigida no início da década por qualquer estrutura nova que quisesse participar da brincadeira. Ele alega que a equipe deve provar que tem bala no cartucho, algo que acho ridículo. No entanto, desconfio que o motivo seja outro. Os 19 milhões de euros cairiam muito bem em seu interminável bolso. É uma motivação mais nobre do que a alegada, ao meu ver.

– Bruno Senna ficou de fora do Grande Prêmio da Inglaterra por um motivo tão prosaico quanto imbecil. Diz a lenda que ele teria mandado, por engano, um e-mail ao próprio chefe metendo o pau no carro. Colin Kolles, o romeno que comanda a bagaça, não gostou e puniu o sobrinho com uma corrida de suspensão. Todo mundo sabe que o carro da Hispania é uma tremenda bomba. O que não sabemos é o real conteúdo da mensagem. Duvido que Senna tenha sido afastado unicamente por reclamar de sua diligência. E Bruno deveria conferir o destinatário, regra básica pra quem manda e-mails. Falta de noção completa.

RED BULL8 – Do que adianta ter o melhor carro se os dois pilotos se encontram em rota de colisão? Além do mais, como de costume, apenas um carro da equipe chegou ao pódio, o de Webber. Existem sérias dificuldades de expertise em administrar o ego de seus dois pupilos, e isso pôde ser visto na choradeira do australiano ao não receber uma nova asa dianteira como seu companheiro e na briga interna antes da primeira curva. Só dou uma nota alta pela vitória.

MCLAREN 8,5 – Ao contrário da Red Bull, a equipe parece viver em uma longa lua de mel. Tendo aprendido com os erros de 2007, Hamilton e Button mantêm um aparente bom relacionamento e buscam não atrapalhar um ao outro. Com isso, mesmo tendo um carro inferior ao da Red Bull, conseguiu um segundo e um quarto lugares que a mantiveram na frente tanto no campeonato de pilotos como no de construtores.

MERCEDES8 – Fazia um bom tempo que não obtinha um bom resultado. Rosberg fez uma boa corrida e levou a estrela de três pontas ao pódio pela primeira vez desde Shanghai. Já Schumacher teve mais um fim de semana infeliz. As alterações no carro parecem ter surtido efeito.

WILLIAMS 8,5 – Colocou dois carros na zona de pontos pela primeira vez desde há dois séculos. Rubens andou lá na frente o tempo todo e até Hülkenberg mostrou competitividade. Ótima fase.

SAUBER 8,5 – Outra equipe que está em excelente fase. No entanto, apenas Kobayashi conseguiu fazer uma ótima corrida e marcar pontos. De La Rosa vinha razoavelmente bem, mas foi atingido por Sutil e teve de abandonar. De qualquer maneira, os tempos de abandonos sucessivos e turbilhões de má sorte estão, ao menos, dando uma trégua.

FORCE INDIA 6,5 – Fez mais uma corrida típica, com Sutil terminando nas posições pontuáveis mais baixas e Liuzzi sequer aparecendo. O momento da equipe é tão bom que marcar quatro pontos já não é mais considerado algo notável.

TORO ROSSO 4 – Nem Buemi e nem Alguersuari marcaram pontos. O espanhol ainda abandonou no final da corrida. Fim de semana típico, sem graça.

RENAULT 3,5 – Os dois pilotos tinham carro para marcar pontos. Os dois pilotos acabaram tendo problemas. O polonês narigudo, que vinha para brigar pelo pódio, teve um problema em um eixo traseiro. O russo, que vinha para marcar pontos, teve um pneu furado. Um fim de semana bem ruim dos amarelados.

FERRARI 2 – Fim de semana vermelho, mas de vergonha. Alonso e Massa, que tinham ido razoavelmente bem nos treinos, se tocaram na primeira curva, o que comprometeu a corrida do brasileiro. O asturiano ainda tomaria uma punição por fazer uma ultrapassagem irregular sobre Kubica. No fim, terminaram em 14º e 15º, algo terrível para uma equipe com tamanha história e a prepotência.

LOTUS 5 – Distorcendo a matemática, a equipe ficou logo atrás da Ferrari dispondo de um orçamento seis ou sete vezes menor. Trulli e Kovalainen fizeram aquela corrida isolada, sem poder ameaçar as equipes estabelecidas e sem ser ameaçada pelas equipes menores. Dessa vez, a Virgin até que tentou, mas não conseguiu.

VIRGIN 4 – Avançou um bocado em Silverstone, mas ainda precisa comer mais arroz e feijão para chegar de vez na Lotus. De qualquer jeito, Glock largou à frente de Trulli e andou um bom tempo à frente de Kovalainen. Di Grassi abandonou logo.

HISPANIA 2 – Colin Kolles afastou Bruno Senna por este descer o cacete no seu carro por e-mail enviado por engano ao chefe. No lugar, os ienes de Sakon Yamamoto, que não comprometeu. Chandhok também não fez nada de muito feio e os dois carros terminaram a corrida. Mas a equipe se mostra bastante frágil quando se trata de resolver assuntos internos.

TRANSMISSÃOIMPRESSIONANTE! – E o Sr. Impressionante voltou às transmissões globais de Fórmula 1. O mais impressionante é que eu só ouvi o dito cujo falando esta palavra apenas uma vez, lá no final da corrida. Reginaldo Leme, ao ver Sebastian Vettel entrando nos pits com o pneu furado, disse que tinha certeza de que o alemão encostaria o carro e iria para casa. Segundos depois, lá estava Vettel deixando os pits com quatro pneus novinhos em folha. Luciano Burti não falou nada de muito memorável, ou é a minha memória que é falha. De qualquer jeito, provavelmente teremos de nos acostumar com o Sr. Impressionante, já que Galvão Bueno anunciou que a aposentadoria está próxima.

CORRIDA NÃO TÃO IMPRESSIONANTE! – Todos, incluindo eu, diziam que a pista ficaria bem mais veloz e mais propícia para ultrapassagens. Nada disso aconteceu. A pista ficou cerca de 3km/h mais veloz, o que não quer dizer nada na prática. E aquele novo trecho permite qualquer coisa a não ser ultrapassagens. Enfim, não foi a melhor das corridas. Webber e Hamilton sumiram na liderança enquanto Kubica segurava um enorme pelotão atrás. No final da corrida, como vem acontecendo nas últimas etapas, houve algumas ultrapassagens, mas nada que salvasse a corrida. O leitor pode argumentar que a corrida não foi tão ruim assim e que sou eu que pego no pé de Silverstone. Pode até ser, mas o fato é que a corrida esteve longe de ser sensacional.

GP2 DOMÍNIO HISPANOHABLANTE – Pastor Maldonado, do jeito que vai, será o campeão da GP2 neste ano. Em Silverstone, o venezuelano venceu a terceira corrida Feature consecutiva, e disparou na liderança do campeonato. A vitória veio de maneira absolutamente fácil, o que mostra que o cara está em ponto de bala para ganhar o título. A corrida dominical, bem mais interessante, assistiu à vitória do mexicano Sergio Perez, que ultrapassou os dois pilotos da iSport, Oliver Turvey e Davide Valsecchi, para vencer pela segunda vez nessa temporada. O piloto da Addax, com isso, pulou para a quarta posição do campeonato. Entre os quatro primeiros colocados, três pilotos que falam espanhol (Maldonado, Dani Clos e Perez). Pelo visto, falar espanhol anda compensando um bocado no esporte.

MARK WEBBER9,5 – Correu empurrado pela raiva de ter sido preterido por Vettel. Dominou quase todos os treinos livres e só não levou o dez por ter perdido a pole-position. Na corrida, sem medo de cara feia, largou bem mesmo tendo saído do lado mais sujo e tomou a liderança das mãos de Vettel ainda na primeira curva. Depois, só levou o carro até o fim para correr para o abraço. Mas ao invés de um abraço, mandou um “nada mal para um segundo piloto” para sua equipe. Vitória à la Nelson Piquet em 1987.

LEWIS HAMILTON 8 – Em um fim de semana feijão-com-arroz, largou em quarto, assumiu a liderança na segunda volta e por lá ficou até o fim. Sem ter o melhor carro, buscou apenas marcar o máximo de pontos possível para manter a liderança do campeonato. Conseguiu, pois.

NICO ROSBERG8,5 – Dessa vez andou bem, tendo consigo um Mercedes com alterações. Ficou um bom tempo preso atrás de Kubica, mas assumiu a terceira posição após as paradas e manteve-se aí até o fim, sendo obrigado a apertar o ritmo para segurar Jenson Button nas últimas voltas. A estratégia de manter-se com pneus macios por mais tempo ajudou.

JENSON BUTTON 7 – Inacreditavelmente mal na classificação, o inglês fez uma bela corrida de recuperação e ganhou várias posições com as paradas. Terminou em quarto e a apenas alguns metros de Nico Rosberg.

RUBENS BARRICHELLO8,5 – Fez outra grande corrida. Largou em oitavo, ganhou posições na primeira volta e esteve sempre entre os primeiros. Diante das possibilidades de seu Williams, o quinto lugar foi um resultado excepcional.

KAMUI KOBAYASHI8,5 – Assim como Barrichello, fez uma grande corrida pela segunda vez consecutiva. Perdeu para De La Rosa na classificação, mas fez uma largada impecável e ganhou várias posições. Depois, manteve uma tocada agressiva e terminou com um ótimo sexto lugar. Quando seu carro é rápido e confiável, o cara está por lá.

SEBASTIAN VETTEL 6,5 – Um cara tenso. Marcou a pole-position, mas demonstrou que corridas, embora não sejam vencidas na primeira volta, podem ser perdidas por lá. Tentou conter a ultrapassagem de Webber na primeira curva, mas não conseguiu. Além disso, teve de ir aos pits trocar um pneu furado. Após isso, só restou a ele fazer uma corrida de recuperação. Mostrou combatividade no final da corrida, mas terminar em sétimo após sair em primeiro é ruim demais. É PhD em perder corridas.

ADRIAN SUTIL 7,5 – Mais uma boa corrida. Fez uma boa largada e mostrou muita agressividade em momentos como a ultrapassagem sobre Schumacher. Perdeu o sétimo lugar para Vettel a apenas duas voltas do fim, mas não pode reclamar por ter marcado mais quatro pontos.

MICHAEL SCHUMACHER 4,5 – Fez mais uma corrida dispensável. Mal na classificação, ganhou boas posições na largada e até parecia estar se encaminhando para um resultado melhor. No entanto, ficou um bom tempo preso no tráfego, saiu da pista em um determinado momento, tomou algumas ultrapassagens e foi o piloto que mais perdeu posições na rodada de pit-stops. Misturando falta de sorte e pilotagem insuficiente, o heptacampeão volta a ficar claramente atrás de Rosberg.

NICO HÜLKENBERG 7,5 – Não foi bem nos treinos, mas se recuperou drasticamente na corrida. Optou por largar com pneus macios e ficou mais tempo na pista do que a maioria dos adversários, o que significou ganhar algumas posições de presente após a rodada de pit-stops. Ameaçou atacar Schumacher, mas não conseguiu nada. De qualquer jeito, marcar um ponto não é algo ruim para um piloto em sua posição.

VITANTONIO LIUZZI 4 – Só apareceu no fim de semana por ter bloqueado Hülkenberg de maneira quase criminosa na classificação. Punido, largou apenas em vigésimo e até conseguiu subir bastante na corrida, mas não marcou pontos mais uma vez.

SEBASTIEN BUEMI 5 – Fez aquela típica corrida de piloto do meio do pelotão. Largou lá no meio e terminou lá no meio. De qualquer jeito, foi melhor que seu companheiro mais uma vez.

VITALY PETROV 5 – Largou muito bem, como é de costume, e parecia estar rumando para marcar pontos pela segunda vez no ano. No entanto, foi vítima do azar e teve um pneu furado, o que acabou com qualquer chance. Um pouco mais de agressividade também faria muito bem ao russo.

FERNANDO ALONSO 6 – Via de regra neste ano, o espanhol se envolveu em uma corrida cheia de tormentos. Apesar de ter ido bem na classificação, ele se envolveu em um entrevero com seu companheiro Massa logo na primeira volta. Depois, ao disputar posição com Kubica, cortou uma curva, ganhou sua posição e não a devolveu, o que resultou em um drive-through que teve de ser cumprido justamente no momento em que o safety-car foi à pista. Com isso, perdeu um monte de posições e não restou nada além de levar o carro ao fim. Vem misturando azar, agressividade e capacidade de se meter em confusões em doses cavalares.

FELIPE MASSA 3,5 – Batido por Alonso nos treinos, esperava ao menos marcar pontos. Nem isso conseguiu, já que se envolveu em um toque com o mesmo Alonso na primeira volta da corrida, o que resultou em um pneu furado. A partir daí, só restou chegar ao fim e esperar pelo milagre que não veio. Está com uma urucubaca danada.

JARNO TRULLI 4,5 – Não foi tão bem na classificação ao largar atrás de um Virgin. No entanto, liderou de ponta a ponta a corrida das equipes novatas, se é que dá pra dizer assim.

HEIKKI KOVALAINEN 4 – Apesar de ter sido o melhor das equipes pequenas na classificação, não largou tão bem e ficou atrás de Glock durante um bom tempo na segunda metade da corrida. Ainda assim, terminou.

TIMO GLOCK 5 – Com um Virgin melhorado, o alemão também conseguiu fazer uma atuação relativamente convincente. Largou à frente do Lotus de Trulli e chegou a executar uma ultrapassagem sobre Kovalainen na metade da corrida. Apesar de ter terminado atrás dos carros esverdeados, não deixa de ter feito uma boa atuação.

KARUN CHANDHOK 4 – Como era esperado, largou à frente de Yamamoto e andou à sua frente o tempo todo até o final da corrida. Ser superado pelo japonês no comparativo de voltas mais rápidas é um ponto negativo.

SAKON YAMAMOTO 4 – Chamado às pressas para correr no lugar de Bruno Senna, fez seu trabalho com dignidade. Apesar de estar em um nível claramente inferior a qualquer outro no grid, agiu com parcimônia e não cometeu erros, buscando levar o carro até o fim. De quebra, fez uma volta mais rápida melhor que a de Chandhok. Levando dinheiro e terminando a corrida, o limitado japonês parece ser mais adequado à equipe neste momento do que o sobrinho do tricampeão.

JAIME ALGUERSUARI 4 – Apesar de parecer incapaz de superar Buemi em treinos, conseguiu se aproximar bastante na corrida. Chegou a andar em quinto antes de sua parada nos pits e esteve próximo dos pontos. No entanto, abandonou no final da corrida. Ainda assim, segue atrás do companheiro suíço.

PEDRO DE LA ROSA 7 – Com o nono lugar no grid, tinha tudo para fazer sua melhor corrida do ano. No entanto, foi empurrado por Barrichello para fora da pista na primeira volta e acabou se envolvendo em um toque com Sutil na metade da corrida, o que acabou danificando o aerofólio traseiro. Temendo uma quebra bastante desagradável em uma pista veloz como Silverstone, preferiu abandonar a corrida. Muito azarado.

ROBERT KUBICA 7,5 – Andou bem nos treinos, fez uma boa largada e tinha tudo para ter chegado ao pódio. No entanto, seu carro não estava lá aquelas coisas, e o polonês acabou segurando uma fila de pilotos por um bom tempo. Mais para frente, teve um problema com o eixo traseiro e teve de abandonar a corrida.

LUCAS DI GRASSI 3 – Com o desempenho apresentado nos treinos livres, parecia vir para seu fim de semana mais competitivo do ano até aqui. No entanto, errou na classificação e não conseguiu se recuperar muito nas poucas voltas que percorreu na corrida. Dessa vez, um problema hidráulico o retirou da disputa.

SILVERSTONE: A primeira corrida de Fórmula 1, há exatos 60 anos, aconteceu aqui. É um lugar aonde se respira o típico british racing vintage: traçado veloz, enormes áreas de escape preenchidas com grama, autódromo localizado no meio da roça e climão daqueles típicos festivais de automobilismo que só os ingleses sabem fazer. Nunca gostei muito do traçado, mas reconheço que, diante de tantos circuitos insossos e travados, Silverstone é um alento. Só espero que chova. Corridas no seco costumam ser tenebrosamente chatas.

YAMAMOTO: Péssima notícia para Bruno Senna: o brasileiro não participará do Grande Prêmio da Inglaterra. Seu substituto na Hispania é o nipônico Sakon Yamamoto, um dos pilotos mais dispensáveis que já apareceram na categoria nos últimos 15 anos. Com discretíssimas passagens nas extintas Super Aguri e Spyker, ele fará sua primeira corrida de Fórmula 1 desde 2007. Ao contrário da maioria dos japoneses, é um piloto sossegado. O problema é que ele é sossegado demais. Sua presença se justifica pela vinda de ienes, muitos ienes.

GABY: E Bruno Senna não utilizará seu novo motor Cosworth, que ganhou o nome de uma amiga sua. Pergunto duas coisas: quem em sã consciência daria nome a um motor? E quem, em sã consciência, daria o respeitoso nome de Gaby a um motor?!

FRANK WILLIAMS: A outra notícia que chocou a muitos é a renúncia de Frank Williams à presidência de equipe que ele fundou com Patrick Head em 1977. Depois de 33 anos, sete títulos de pilotos e nove de construtores, Sir Frank passa o bastão para Adam Parr, chefe executivo da equipe. Aos 68 anos, ele já sente o peso da idade, e a essa altura da vida já não deve estar tão animado para tocar uma equipe que não sai do meio do pelotão. Ainda assim, sair da presidência não quer dizer abandonar a equipe: Frank Williams seguirá trabalhando na equipe. E espero que siga assim por muitos anos.

FINAL DA COPA DO MUNDO: Bernie Ecclestone sempre chutando o balde. Por capricho do todo-poderoso, a Fórmula 1 terá de fazer uma corrida quase que indesejada no mesmo dia de uma das finais mais esperadas da história das Copas do Mundo. De um lado, Fernando Alonso, Jaime Alguersuari e Pedro de la Rosa torcendo para La Fúria. Do outro, er… a torcida pela Laranja Mecânica será representada por um solitário Giedo van der Garde, piloto da GP2. Do fundo da minha alma, não consigo escolher nem Espanha e nem Holanda, já que ambos são os dois times europeus sem títulos que mais merecem entrar para a turminha dos fodões. De qualquer jeito, vou na lógica e digo que dá Holanda.

Ayrton Senna era o mais veloz. Alain Prost era o mais sensato. Nelson Piquet era o mais esperto. A Fórmula 1 consagrou quatro nomes nos anos 80, gente que dava às corridas um ar novelístico. Os torcedores raramente se portavam indiferentes perante eles, que protagonizavam cenas de romance, terror, comédia e ação dentro e fora das pistas. Quem gostava do Senna odiava o Piquet, e vice-versa. Havia quem achasse os dois uma dupla de patetas latinoamericanos, preferindo o Professor Prost. E havia quem gostasse do quarto elemento, que não foi citado acima. Com vocês, Nigel Ernest James Mansell.

Tadinho do Mansell, muitos pensavam. Nascido em uma minúscula cidade do interior inglês, Nigel parecia ser o mais vulnerável e limitado dos quatro, um tanto quanto perdido em um ambiente insalubre no qual um come o outro sem grande cerimônia. Teatral, fanfarrão, choramingão, desastrado e um puta piloto, ele se comportava como um verdadeiro anti-herói, um gênio às avessas. Não por acaso, havia aqueles que achavam que se tratava de um piloto diferenciado e havia também aqueles que pensavam que o Leão não passava de um retardado sem rédeas. Eu não nego a ninguém: estou no segundo grupo. Perder três títulos mundiais da maneira que perdeu é coisa de retardado sem rédeas. Mas… que retardado foda!

Recentemente, Mansell se envolveu em um violento acidente nas 24 Horas de Le Mans. Em determinado momento, ele perdeu o controle de seu Ginetta-Zytek e estampou o guard-rail, saindo do carro de maca e com uma concussão no seu pequeno cérebro. Neste próximo fim de semana, ele será um dos comissários do Grande Prêmio da Inglaterra. Diante de tantos acontecimentos, eu tenho de homenageá-lo. Mas como estou falando de Nigel Mansell, conto sobre cinco acidentes que poucos se lembram.

5- FÓRMULA 1, DETROIT, 1985

(4:11)

Nos anos 80, os pilotos pagavam todos os seus pecados ao serem obrigados a correr em Detroit, um circuitinho vagabundo localizado no meio da enorme cidade americana. Em 1985, Nigel Mansell, ainda considerado apenas um idiota veloz, fazia seu primeiro ano na equipe Williams e estava muito esperançoso sobre suas possibilidades naquele circuito de rua.

Após obter um excelente segundo lugar nos treinos, Mansell perdeu uma posição na largada para um incrível Keke Rosberg. Sofrendo com os pneus duros, o inglês se arrastava e perdia posições também para Elio de Angelis e Stefan Johansson. Na volta 23, ele rumou aos pits e trocou os pneus. Três voltas mais tarde, o inglês entrou rápido demais na curva 2, pisou em uma zebra, passou reto e acertou o muro com força. Vendo o vídeo, nem pareceu ter sido tão forte, mas acreditem: foi.

O inglês saiu do carro zonzo, com a mão machucada e o nariz sangrando. Esse negócio dele sair do carro todo estropiado, aliás, era uma marca registrada sua.

4- TOCA, DONINGTON PARK, 1993

Em novembro de 1993, após ganhar o título da Indycar, Nigel Mansell foi convidado para disputar uma etapa do TOCA, campeonato inglês de turismo, em um Ford Mondeo pintado de azul e estampado com o Red Five. Diante de 60 mil espectadores e visando o suntuoso prêmio de 120 mil libras esterlinas, Nigel veio para a corrida do seu modo habitual: inconsequente e perigoso.

Em uma pista levemente úmida, Nigel ocupava a terceira posição quando acabou entrando rápido demais no Old Hairpin, perdeu o controle, tentou consertar, piorou a situação e atravessou na frente do Vauxhall Cavalier de Tiff Needell a mais de 200 km/h. Tocado pelo Vauxhall, o Mondeo de Mansell rodopiou e atingiu com violência o muro. Nigel perde a consciência e sua cabeça rodopia enquanto o carro não para.

Segundos depois, o inglês recuperou a consciência e, após ser extraído do carro em uma operação que durou 20 minutos, rumou para um hospital para exames. Tirando algumas dores nas costas, nada de errado havia acontecido com o Leão.

3- THUNDER IN THE PARK DAY, DONINGTON, 2001

Em 2001, Nigel Mansell chegou a ser cogitado para ocupar o segundo carro da Minardi ao lado do jovem Fernando Alonso. O boato, extremamente estapafúrdio, resultou em um convite de Paul Stoddart a Nigel para ele participar do Thunder in the Park Day, um dia de descontração promovido pela Minardi no qual havia uma corrida com carros de dois lugares no circuito de Donington. Nigel pilotaria um dos cinco carros e carregaria a bordo o empresário Jonathan Frost, que havia pago 80 mil dólares pela diversão.

Como de costume, Mansell dirigiu como se não tivesse mulher e filhos. Na corridinha, ele e Fernando Alonso, que trazia consigo a jornalista Louise Goodman, disputavam a liderança agressivamente. Na última curva, Mansell veio mais rápido do que a sensatez permite e acertou com tudo a traseira do Minardi de Alonso. O inglês voou e caiu na contra-mão, enquanto que o espanhol atravessava a linha de chegada sem a asa traseira.

No fim das contas, Mansell terminou em segundo e Alonso em terceiro. O vencedor foi exatamente Paul Stoddart, que era piloto nas horas vagas. O Leão ainda saiu ironizando que “tentou passar por cima de Fernando e Louise porque eles são muito baixinhos”…

2- INDY, PHOENIX, 1993

(1:24)

Mansell doidão. Se na Fórmula 1 ele já aprontava das suas, na Indy ele se transformou na grande atração da temporada de 1993 com suas loucuras nos circuitos ovais. Ele não desacelerava, andava e ultrapassava por fora e não tinha o menor medo de nada. O preço a ser pago foi uma pancada daquelas no curto porém traiçoeiro oval de Phoenix, no estado do Arizona. Segunda etapa do campeonato de 1993, 4 de abril de 1993.

No primeiro dia de treinos, Mansell foi o primeiro piloto da história da pista ao andar na casa dos 20 segundos. Desvairado, ele veio para o segundo dia de treinos visando andar ainda mais rápido. Não deu certo, é claro: tentando andar mais do que o permitido em uma curva, seu Lola-Ford rodopiou a mais de 280 km/h e estampou o muro de traseira. Uma roda marota ainda voou e atingiu o capacete de Mansell, que desmaiou na hora.

O Leão só viria a acordar 20 minutos depois, quando já estava no centro médico. Depois disso, ele rumou de helicóptero ao hospital, fez alguns exames e, apesar de ter diagnosticado um estiramento em um tecido adiposo localizado nas costas, decidiu ignorar as recomendações médicas e voltou ao autódromo para disputar o qualifying. A direção de corrida, sensata, impediu sua participação e Mansell ficou de fora da corrida. Um mês depois, ele ainda teve de passar por uma cirurgia para resolver o estiramento.

1- FÓRMULA 1, INTERLAGOS, 1992

Este acontecimento reune tudo que é típico de Nigel Mansell: uma tentativa imbecil de ultrapassagem, uma peleja com Ayrton Senna, um acidente, um piloto zonzo e um pouco de choradeira. Vamos lá, então.

Nos treinos livres de sábado, Mansell fez um tempo quase dois segundos mais rápido que o de Riccardo Patrese, o segundo mais rápido. Nos segundos finais do treinos, qualquer um que estivesse em sua posição sossegaria e reduziria para voltar para os pits. Mas não o Leão, que estava acelerando com tudo quando encontrou, no Bico de Pato, o McLaren de Ayrton Senna, que estava em volta rápida. Sem a menor noção, Nigel tentou ultrapassar Senna por fora, ficou sem espaço, rodopiou e acertou o muro com relativa força.

Mansell saiu do carro grogue e chorando! Estava em estado de choque e com uma boa dor de cabeça, tanto que teve de se debruçar por alguns segundos no muro aonde deu a pancada. Após dar um pulo no centro médico, tomou uma aspirina e voltou para fazer a pole-position à tarde. Dessa vez, uma novidade: Nigel Mansell assumiu a culpa pela batida. Também, pudera…

Vocês já devem ter percebido que me interesso por biografias insólitas. Não vejo graça em ler sobre a vida de Ayrton Senna, Michael Schumacher ou demais pilotos manjados pela milésima vez. O Bandeira Verde faz de tudo para apresentar caras que, por motivo ou outro, foram esquecidos por torcedores, pelos midiáticos e até mesmo pelos convivas dos paddocks da Fórmula 1. São pilotos bons, muito bons, mas que não puderam alcançar a glória máxima da Fórmula 1. O Clique de hoje homenageia um que cabe perfeitamente nessa descrição, o sueco Thomas Danielsson. Thomas quem? “Tomas Dênielsom”, se você quiser pronunciar corretamente. Ele foi vítima de uma situação única na história do automobilismo.

Nos anos 80, a Suécia passava por um período de entressafra no automobilismo. O país até conseguiu lançar alguns nomes razoáveis, como Steven Andskar e Eje Elgh, mas apenas Stefan Johansson conseguiu representá-lo na Fórmula 1. Havia campeonatos bastante razoáveis no país escandinavo, mas não era o suficiente. Qualquer nome que aparecia no cenário internacional, portanto, recebia atenções especiais. E Thomas Danielsson, oriundo de Kungsbacka, era um desses.

O sueco, um tipo franzino com cara de garoto, emplacou no kartismo do início dos anos 80, chegando a peitar Ayrton Senna em algumas edições do Mundial de Kart. Em meados dos anos 80, dominou o campeonato sueco de Fórmula 3, chamando a atenção dos chefes de equipe europeus. Em 1986, fez sua estréia na Fórmula 3 inglesa pela Madgwick. Nesta primeira temporada, apenas um pódio foi obtido, mas em 1987, Danielsson entrou na briga pelo título do campeonato. Apesar de ter vencido corridas e de ter demonstrado muita agressividade, ele terminou apenas em 4º. De qualquer jeito, foi o suficiente para Eddie Jordan chamá-lo para competir em sua célebre equipe de Fórmula 3000 em 1988 ao lado de Johnny Herbert, que havia sido concorrente seu na Fórmula 3.

Thomas Danielsson guiaria um Reynard todo pintado de amarelo que era considerado um dos carros favoritos para o título. No entanto, o ano começou bastante errático. Em Jerez, ele perdeu o controle do carro e sofreu um acidente a mais de 200km/h. Em Vallelunga, outro acidente e seu carro fica preso nas redes de proteção. Nesta corrida, seu companheiro Herbert também sofreu um forte acidente e teve de ficar de fora da etapa seguinte, em Pau. Deste modo, o inglês pôde ficar com a equipe nos pits. Observando a pilotagem de Danielsson, ele fez uma preocupante constatação: o sueco errava basicamente todas as curvas. Erros escandalosos, que não poderiam ser cometidos por um piloto profissional.

Diante disso, a FISA decidiu fazer uma completa investigação médica em Thomas Danielsson. Durante esse período, ele ainda correu em Silverstone e em Monza, se acidentando também nesta última corrida. Apos a etapa italiana, a federação veio com um veredito surpreendente: o sueco era absolutamente incapaz de enxergar em 3D. Ele nasceu com um distúrbio na visão que o impede de ter noção da profundidade das coisas. Em decisão inédita na história do automobilismo, a FISA baniu o piloto para sempre por ser fisicamente incapaz de competir.

Um veredito imbecil desses só poderia trazer a revolta da mídia e do próprio piloto. Danielsson entrou com um processo contra a FISA na justiça comum alegando ter totais condições de competir. O argumento era que a doença era congênita e nunca representou qualquer dificuldade extra para ele. O trâmite se seguiu por um bom tempo, mas ao contrário do que ocorre na justiça brasileira, foi decidido em alguns meses. E Thomas Danielsson ganhou a causa, recebendo de volta sua superlicença.

De quebra, a Madgwick, sua equipe dos tempos de Fórmula 3, o convidou para ser seu piloto na Fórmula 3000 em 1989. E aí começa a volta por cima do sueco.

Na primeira corrida da temporada, em Silverstone, Thomas saiu da terceira posição e passou os dois primeiros colocados ainda antes da primeira curva. E, após isso, sumiu na liderança. Sua primeira vitória na Fórmula 3000 foi celebrada por todos. Após ela, o sueco perdeu outra vitória certa em Vallelunga por um erro primário no final da corrida e obteve um suado pódio em Pau, ao ter de conter um sedento JJ Lehto. Infelizmente, a concorrência melhorou e Danielsson não manteve a forma do início do ano. Terminou em 6º, com 14 pontos. Mesmo assim, ele teve uma oportunidade de testar um carro de Fórmula 1.

No dia 4 de julho de 1989, Thomas Danielsson foi convidado por Günter Schmid, dono da Rial, para fazer uma visitinha à equipe, que estava testando no circuito de Hockenheim. De súbito, quando chegou lá, Schmid revelou que queria ver Danielsson andando em seu carro. O pedido foi tão surpreendente que o piloto teve de pedir pra mandarem capacete e macacão da Suécia para lá! No mesmo dia, ele entrou na pista com um Rial ARC02 para fazer algumas voltas na longa pista alemã. Infelizmente, a equipe estava testando no mesmo dia que alguns Mercedes-Benz de rua rodavam para testes da montadora. Ainda assim, Thomas fez 20 voltas e ficou a 1s4 do melhor tempo feito pelo experiente Christian Danner.

Bastante satisfeita, a Rial decidiu dar uma nova oportunidade ao jovem piloto. No dia 26 de julho, lá estava Danielsson em Hockenheim novamente, dessa vez em um teste oficial da FOCA com outros 29 pilotos. O ARC02 era muito ruim, e ele terminou em último. No entanto, ele foi apenas dois centésimos mais lento do que Volker Weidler, piloto oficial. Ficou claro que ele tinha potencial para competir na Fórmula 1.

Infelizmente, a Rial faliu no final do ano e Thomas Danielsson não teve mais nenhuma outra oportunidade na categoria. Diante disso, ele se mandou para o Japão e competiu por cinco anos na Fórmula 3000 japonesa antes de se aposentar do esporte a motor profissional. Hoje, não sei o que faz da vida. Se eu conseguir encontrar seu e-mail, tentarei uma entrevista. Seria sensacional ouvir do próprio como foi ser o piloto que a FISA recusou por não enxergar em 3D.